17 de maio de 2017

37

Na manhã seguinte, ao acordar, o quarto está todo escuro, exceto pelos filetes de sol brilhantes que atravessam, enviesados, as frestas das persianas. São dez e meia. Eu apaguei por volta da meia-noite.
Ben continua dormindo na outra cama, e está uma fofura, todo enroscado em um dos travesseiros. Reservo alguns minutos para me espreguiçar, permitindo que meus músculos liberem a tensão de 24 horas seguidas no carro.
— Ei — me chama Ben, a voz ainda grogue de sono. — Que horas são?
— Dez e meia.
— Está pronta para hoje?
A caixa de pizza continua em cima da penteadeira. Parece uma loucura que ontem à noite — em outro quarto que Bradford poderia ter recomendado, bem no quintal dele — eu tenha conseguido esquecer por que vim até aqui. Mas agora não há como esquecer. Não há como negar. Me sinto constantemente indecisa, o estômago embrulhado. Não estou pronta. Nunca estarei pronta.
— Estou — respondo.
Ele me encara por um bom tempo e me observa enquanto tira seu adesivo de nicotina e coloca outro no lugar.
— Você não precisa fazer isso — diz Ben. — Eu não ficaria chateado se decidíssemos voltar atrás agora.
É muita gentileza dele falar isso. Mas já abortamos uma missão. Aquela não tinha importância. Mas esta, sim. Balanço a cabeça.
— Qual é seu plano de ataque? — pergunta ele depois de vestir a camisa.
— Eu tinha pensado em ficar de tocaia na frente da casa dele o dia inteiro, como fizemos... — Não termino de falar. Ben já entendeu.
— Mas você disse que ele trabalhava em um dos cassinos. Eles não fazem turnos normais. Ele pode trabalhar de madrugada.
Não tinha pensado nisso.
— Pode ser que esperemos muito tempo.
Ben olha para mim por alguns instantes.
— Qual é o nome do lugar onde ele trabalha?
— É no Continental.
Nós passamos por lá ontem à noite. Senti calafrios, em pleno calor da tarde, diante da ideia de estar tão perto. Se Bradford exercia um efeito tão grande sobre mim através do computador, com todos aqueles quilômetros e identidades falsas que nos separavam, o que faria comigo pessoalmente?
Ben abre a lista telefônica e a folheia.
— O que você está fazendo? — pergunto, mas ele me ignora e disca um número.
Quando alguém atende, começa a falar com uma espécie de sotaque caipira:
— Meu amigo Brad Smith trabalha aí. Não quero incomodá-lo, mas acabei me trancando fora de casa e ele tem as minhas chaves sobressalentes. Pode me dizer a que horas ele trabalha hoje para eu poder passar aí e pegá-las?
Silêncio na linha por alguns instantes enquanto Ben é colocado na espera. Ele olha para mim e dá uma piscadela. A voz retorna ao telefone.
— Ah. Tudo bem. Claro. Você sabe a que horas ele sai? Posso passar neste horário e pegar as chaves com ele. — Mais silêncio. — Às cinco? Ótimo. Vou ter que me virar até lá. Obrigado. Pode deixar. Você também.
Ben desliga.
— O turno dele termina às cinco da tarde.
— Cinco da tarde — repito.
— Então, supondo que ele vá direto para casa, cinco e meia ou seis.
— Que ótimo detetive você é — digo, sorrindo.
Ben não sorri. Está muito sério agora.
— Acho melhor irmos mais cedo até a casa dele, daí você faz o que tem que fazer.
— O que eu tenho que fazer?
— Você sabe o que vai fazer, não sabe?
— É claro que sei.
Passei as longas horas de viagem tentando elaborar o que exatamente vou dizer a ele. Como falas em uma peça de teatro. Mais mentiras. Fingir que sou Meg. Fingir que sou suicida. Fingir que sou forte o suficiente para fazer isto.
— Ok, então temos... — ele olha para o relógio — ... seis horas. O que você quer fazer neste meio-tempo?
Vomitar. Fugir correndo. Me esconder.
— Não sei. O que tem para fazer aqui?
— Poderíamos ficar na piscina, mas, na noite passada, botei a mão na água e estava quente feito mijo.
— Pena que deixei meu maiô em casa.
— Poderíamos ir para um daqueles bufês de 1,99 em que você pode comer quanto aguentar.
— Aposto que você aguentaria bastante.
— E seria capaz de matar por um café gelado. Deve estar, tipo, uns 38 graus. Eles devem gelar outras bebidas além de cerveja. Podemos tomar café da manhã no cassino e depois fazer algumas apostas.
— Já estou apostando alto demais nesta viagem; além disso, não tenho dinheiro de sobra. O que eu queria mesmo é me distrair. Ir ao cinema ou coisa parecida.
— Fechado: bufê e depois um filme. Temos um encontro marcado. — Ele se detém, chegando até a ficar um pouco vermelho. — Quer dizer, não exatamente, você sabe.
— Sim, Ben. Eu sei.

° ° °

Não encontramos café gelado, mas um bufê, onde Ben come uma quantidade absurda de ovos, bacon, salsichas e vários outros tipos de carne processada, como se quisesse compensar o estilo de vida vegano que tem em casa. Eu consigo comer meio waffle. Depois, encontramos um cinema e assistimos a um daqueles filmes ridículos em que máquinas se tornam humanas. É a parte três ou quatro de uma franquia que nunca vi antes, mas não me importo. Dividimos um balde de pipoca, bufando de desgosto com a trama horrível, e passo minutos inteiros sem pensar no que estou fazendo hoje. Quando o filme acaba, já são quase três horas.
Volto ao motel para trocar de roupa. Não sei bem por quê, mas trouxe uma das minhas roupas mais bonitas, que por acaso é o conjunto de saia e blusa sem manga que usei em uma das várias cerimônias em homenagem a Meg. Ben e eu pagamos por mais uma noite no Wagon Wheel, decidindo, em vez de partir hoje à noite, levantar ao raiar do dia e encarar toda a viagem de volta para casa de uma vez só, nos revezando no volante, estilo turnê de banda de rock. Na recepção, conseguimos informações sobre como chegar à casa de Bradford. Ele fica a apenas uns 800 metros de distância daqui.
— Vamos andando — sugiro.
Temos tempo de sobra e estou nervosa demais para ficar sentada esperando, então caminhamos pelas ruas poeirentas até encontrarmos um prédio desbotado de sol cercado por grama morta, com uma piscina de cimento rachado.
Mas estamos adiantados. Ainda são cinco da tarde.
— Seria melhor não ficarmos aqui em frente — digo.
Então, voltamos um pouco até uma loja de bebidas a alguns quarteirões de distância.
— A que horas você quer que a gente entre? — pergunta Ben.
— Eu deveria entrar às cinco e meia.
— E a que horas eu devo entrar?
— Acho que isso é algo que preciso fazer sozinha.
Ben estreita os olhos.
— Discordo plenamente.
— Obrigada pela preocupação, mas acho que devo falar a sós com ele.
— Você quer que eu fique escondido nos arbustos? — Ele não parece muito satisfeito com essa opção.
— Bradford é cauteloso. Se suspeitar que eu trouxe outra pessoa, não falará comigo de jeito nenhum. — Não que eu não esteja com medo dele, mas preciso ir sozinha. — Quero que espere por mim aqui.
— Aqui? — questiona Ben, incrédulo.
— Aqui — insisto, em tom de súplica.
— Então minha função foi só trazer você de carro, é isso?
— Você sabe que isso não é verdade.
— Então por que estou aqui?
Porque eu preciso de você. Essa é a verdade. E é quase tão assustadora quanto o que me aguarda mais à frente na rua. Mas não é isso que respondo:
— Porque você também está envolvido nisso até o pescoço.
Ele se retrai.
— Então é por isso? — A voz dele soa dura, fria, cheia de raiva, como no dia em que veio buscar sua camisa. — Nesse caso, não vou deixar você encontrar esse cara nem fodendo. Já tenho a morte de Meg na minha consciência. Não vou acrescentar a sua à pilha.
— Ele não vai me matar.
— Por que não? Ele matou Meg. Não é isso que você vem dizendo desde o início?
— Sim, mas não nesse sentido. Ele não vai sacar uma faca para me atacar ou algo do tipo.
— Como você pode saber? Como pode saber que ele não tem um arsenal de escopetas? Como pode saber que esse negócio dos suicídios não é uma espécie de projeto paralelo? Que ele não tem uma dúzia de corpos enterrados no quintal dos fundos?
Porque Bradford Smith usa um tipo de arma diferente e deixa que você faça o trabalho sujo por conta própria.
— Eu apenas sei — falo baixinho.
— Você sabe o quê, Cody? Não sabe merda nenhuma.
Eu não sei merda nenhuma? Olho para Ben e penso: Quem é você para dizer isso? Eu sei de onde você veio também. Nós somos farinha do mesmo saco, Ben McCallister. Estou com raiva agora. Mas isso é bom. Melhor sentir raiva do que medo.
— Espere por mim aqui.
— Nem pensar. Você quer ser como a sua amiga e andar direto para uma armadilha? Ouça o que eu digo: não faça isso. Esse cara é perigoso, e encontrá-lo é uma péssima ideia. Não alertei Meg, mas estou alertando você. Essa é a diferença entre nós dois: eu aprendo com os meus erros.
— Ben, daria para encher um livro inteiro com as diferenças entre nós dois.
Não sei dizer ao certo como essas palavras podem ser tão prazerosas e falsas ao mesmo tempo.
Ben me encara, balança a cabeça e, por fim, se afasta.

° ° °

Não tenho tempo de pensar no fato de Ben ter me abandonado, algo que vinha esperando desde o início. Agora somos só eu e Bradford, como deveria ser.
Ele mora no Bloco J de um condomínio de aparência totalmente ordinária. Porta branca. Cortinas romanas nas janelas. Não consigo ver lá dentro. No bloco ao lado, um casal está no pátio, tomando cerveja. Eles nem olham para mim, mas é tranquilizador saber que estão ali.
Toco a campainha.
O homem que atende à porta tem barba e cabelos brancos. Ele está usando um short e uma camisa com estampa havaiana larga sobre a barriga saliente. Traz um copo grande e suado na mão, cheio até a borda, o gelo ainda não derretido. Não sei se estou aliviada ou desiludida.
Porque este não pode ser ele. Este cara parece um Papai Noel largadão.
Mas então ele pergunta:
— Em que posso ajudá-la?
É aquela voz: suave, cautelosa, familiar.
Demoro alguns segundos para conseguir responder:
— Gostaria de falar com Bradford Smith.
Consigo ver algo — desconfiança, sagacidade — atravessar seu rosto.
— O que veio fazer aqui?
O que vim fazer aqui? Eu tinha inventado uma história para ele, só para conseguir entrar. Mas ela some da minha cabeça e não consigo pensar em nada além de cuspir a verdade. Ele sempre teve esse efeito sobre mim, essa pessoa para quem venho mentindo há tanto tempo.
— Estou procurando você.
Ele estreita os olhos.
— Desculpe, mas nós nos conhecemos?
Meu coração está tão acelerado, batendo tão forte, que eu poderia jurar que ele consegue vê-lo através da minha blusa.
— Meu nome é Cody. Mas você me conhece melhor como Repete.
Ele fica calado.
— Preciso repetir?
— Não — diz ele com calma. — Já entendi. Você não deveria estar aqui.
Ele começa a fechar a porta. E tudo em que consigo pensar é: Eu o convidei a me ajudar a morrer e você está fechando a porta na minha cara. Isso faz minha raiva se acender. Ótimo. Preciso dela agora.
Coloco o pé entre a porta e o batente.
— Ah, não. Eu estou bem onde deveria estar. Porque eu também conhecia uma garota chamada Meg Garcia. Você talvez a conheça como Firefly. Sabia que o verdadeiro nome dela era Meg? Que a melhor amiga dela se chamava Cody? Que tinha uma mãe? Um pai? Um irmão? — O discurso que ensaiei durante a longa viagem começa a me voltar à mente.
Agora que mostrei as cartas, imagino que ele vá bater a porta de vez, mas, na verdade, ele sai do apartamento. Um dos vizinhos que estava tomando cerveja joga a garrafa vazia em uma lata de lixo; ela faz barulho e se quebra. Bradford lança um olhar para os vizinhos, avaliando-os, os lábios franzidos. Olha para mim e abre a porta.
— Talvez seja melhor você entrar.
Por meio segundo, penso em Ben falando em armas, corpos enterrados. Mas entro assim mesmo.
O apartamento é espartano, mais organizado do que qualquer uma das casas em que faço faxina — e isso depois da faxina. Minhas pernas estão tremendo. Se eu me sentar, ele vai ver meus joelhos batendo; por outro lado, se ficar de pé, eles podem acabar cedendo. Opto por um meio-termo e me recosto contra o sofá de lã escocesa.
— Você a conhecia? — pergunta ele.
O rosto dele assume uma expressão estranha. Não é nem um pouco sinistra. Na verdade, Bradford parece quase entusiasmado. Então, percebo que ele não sabe dos detalhes sórdidos — e quer saber. Não digo nada. Recuso-me a lhe dar essa satisfação.
— Então ela fez mesmo — fala Bradford.
Disso ele sabe agora, é claro. Minha vinda revelou que sim. Eu lhe dei satisfação de qualquer maneira.
— Por sua causa. Você a matou.
— Como posso tê-la matado? Nunca a conheci. Não sabia sequer o nome dela até este exato momento.
— Você não a matou com as próprias mãos, mas fez isso... fez isso do jeito mais covarde. Como foi mesmo que você disse? “O oposto da bravura não é a covardia, mas o conformismo.” — Faço aspas no ar com os dedos. Esta parte eu também já havia planejado. — Eu diria que o oposto da bravura é você!
Pareço muito corajosa ao dizer isso. Nenhum sinal da bunda-mole que sou de verdade, prestes a desabar no chão com minhas pernas de gelatina.
A boca de Bradford se contorce, como se ele tivesse provado algo amargo. Mas então se recompõe, abrindo um sorriso dois pontos abaixo do que seria benevolente. Meu ouvido começa a zumbir e me ponho a suar em partes do corpo em que isso não costuma acontecer.
Ele me encara, correndo o polegar pelos próprios dedos. Suas unhas são bem cuidadas e aparadas, muito melhores do que as minhas, que estão estragadas de tanto esfregar pias e privadas.
— Você perdeu a sua melhor metade — diz ele. — Foi isso que escreveu. Era ela. Meg. A sua “melhor metade”. Agora está tentando se redimir, pois ela deixou você de fora da decisão.
Ele me pegou. Como sempre. Mesmo quando ainda estávamos trocando mensagens no fórum, Bradford conseguia ver além do que eu mostrava. De uma só tacada, revela a ingenuidade do meu plano de “apanhá-lo”. Perco a pouca força que me restava nas pernas e me afundo no sofá.
— Vá se foder! — xingo, pois qualquer roteiro que eu possa ter inventado é inútil a esta altura.
Bradford prossegue em sua voz quase delicada:
— Mas talvez você não queira dizer que ela era sua melhor metade. Talvez ela fosse a sua outra metade. — Ele toma um gole de sua bebida. — Às vezes, conhecemos pessoas com as quais estabelecemos uma relação tão simbiótica que é como se fôssemos uma pessoa só, com uma só mente, um só destino.
Ele está falando comigo da mesma maneira que falava nos fóruns, fazendo rodeios, por isso demoro alguns instantes para entender o que está sugerindo.
— Você está dizendo que eu quero morrer, como Meg?
— Estou apenas repetindo suas palavras.
— Não! Você está colocando palavras na minha boca. Você quer que eu morra. Como quis que Meg morresse.
— Como eu “quis” que Meg morresse? — pergunta ele, agora fazendo aspas no ar também.
— Deixe-me ver: você disse a ela como arranjar o veneno. Como escrever um bilhete de suicídio. Como esconder seus planos da família. Como alertar a polícia. Como apagar e-mails incriminatórios. Disse a ela para não tomar antidepressivos, para não continuar vivendo.
— Nunca falei nada disso para ninguém.
— Você falou tudo isso para ela. Falou para mim!
— Cody... É Cody, não é? O que exatamente eu falei para você?
Minha mente entra em parafuso enquanto tento me lembrar das palavras exatas, mas a única coisa que me vem é um monte de citações idiotas.
— Agora estou lembrando... O planeta sem sol. Também não foi você quem escreveu isto? — pergunta ele.
Sim. Fui eu.
Ele se senta, acomodando-se como se estivesse prestes a assistir a um de seus filmes favoritos.
— Achei interessante a maneira como você colocou a questão. Quem iria querer continuar vivendo se o sol se apagasse? Mas, Cody, você sabe o que aconteceria se o sol de fato morresse?
— Não — respondo com um guincho. Como um camundongo.
— Em uma semana, a temperatura da Terra ficaria abaixo de zero. Em um ano, estaria em 70 graus negativos. Camadas de gelo começariam a cobrir os oceanos. Não preciso nem dizer que as plantações entrariam em colapso. O gado morreria. As pessoas que não morressem de frio logo morreriam de fome. Um planeta sem sol, que é como você chamou a si mesma, não foi? Ele já é um planeta morto. Mesmo que ainda esteja por aí.
Eu sou um planeta sem sol. Já estou fria e morta. É isso que ele está dizendo. Então, eu deveria oficializar logo a coisa.
Mas, se fosse assim, como poderia sentir este calor que se espalha pelo meu corpo como uma corrente elétrica? Calor. O oposto do frio. O oposto da morte.
Ouço um barulho na porta e um garoto entra: espinhas, mochila nas costas e cara emburrada. A primeira coisa que me passa pela cabeça é que Bradford atrai pessoas para cá e que essa é mais uma das vítimas de All_BS. Só que desta vez estou aqui também, e posso salvá-lo. Não é tarde demais.
Mas então Bradford pergunta:
— O que você está fazendo aqui?
— Mamãe disse que você se enganou de novo em relação aos dias — responde o garoto. — Ela ficou puta da vida.
Ele me vê sentada ali e me encara com uma expressão intrigada.
— Vá para o seu quarto, já vou conversar com você — diz Bradford, ríspido.
— Posso usar o seu computador?
Bradford faz um meneio curto de cabeça. O menino desaparece em um corredor. Enquanto o observo ir embora, percebo quanto o apartamento é sem graça. A mesa de madeira com uma pilha de guardanapos no meio. As reproduções de pinturas genéricas penduradas nas paredes. Há também uma estante de livros desgastada; não está cheia de grandes obras filosóficas, mas de romances baratos, do tipo que você encontraria na sala de descanso do trabalho de Tricia.
Vejo também um livro grande, chamado Bartlett’s Familiar Quotations, uma coletânea de citações, que está deitado de lado, então posso ver todos os post-its colados em suas páginas.
É dali que ele tira as citações?
Ouço o som do computador iniciando, e é como se o meu cérebro estivesse sendo ligado também.
Condomínio ordinário, emprego de merda, cidade deprimente. A vida de Bradford é muito parecida com a minha. Com a exceção de que, todas as noites, ele vai para o computador e brinca de Deus.
— É melhor você ir embora — sugere Bradford.
O tom calmo e provocador desapareceu. Sua voz está gélida, como quando estávamos ao telefone e alguém o pegou de surpresa.
Ouço o filho dele (que deve ter 13, 14 anos, pouco mais novo do que eu) chamá-lo do final do corredor, pedindo um sanduíche.
A voz de Bradford soa tensa enquanto ele promete preparar um de peito de peru e queijo suíço. Ele torna a olhar para mim.
— É melhor você ir andando.
— O que você faria se alguém fizesse com ele o que você fez com Meg?
Por um instante, visualizo a cena: seu próprio filho, que gosta de sanduíches de peito de peru com queijo suíço, morto. Bradford sofrendo como os Garcias sofreram.
Ele se levanta e tenho certeza de que visualizou a cena que acabei de imaginar. Anda em minha direção, a veia do pescoço saltada. Eu deveria sentir medo. Mas não sinto.
Porque não quero que o filho dele morra. Isso não resolveria nada. Seria apenas mais um menino morto. E, de alguma forma, esse é o pensamento que me dá forças para levantar, passar por ele e ir embora.

° ° °

Mantenho a compostura enquanto sigo pelo corredor, desço o caminho de cascalho e passo pelos vizinhos que estão bebendo e, agora, ouvindo clássicos do rock nas alturas. Continuo firme até olhar de volta para o apartamento e imaginar o homem que fez Meg morrer — um monstro, um pai — preparando um sanduíche de peito de peru para o filho.
O choro que sinto chegando vem lá do fundo de mim, como se estivesse crescendo há dias, semanas, meses, ou talvez há muito mais tempo. Não consigo contê-lo, e não posso estar perto daquele homem quando ele chegar. Esse é o perigo.
Então saio correndo.
Corro pelas ruas poeirentas, levantando areia que sobe até o meu nariz. Alguém está vindo em minha direção. A princípio, acho que é uma miragem; tenho visto muitas delas ultimamente.
Só que ela não desaparece à medida que me aproximo. Em vez disso, quando me vê chorando, começa a correr também.
— O que houve? — repete ele sem parar, os olhos repletos não só de preocupação, como de medo. — Ele machucou você?
Mesmo se eu conseguisse falar, não saberia o que dizer. Ele era um monstro e uma pessoa. Ele a matou e ela se matou. Eu encontrei Bradford, mas não encontrei nada. Estou engasgando em areia, poeira, ranho e agonia. Ben continua perguntando se ele fez alguma coisa comigo e eu quero tranquilizá-lo dizendo que ele não fez nada, não me machucou, abusou de mim ou nada parecido. O que enfim sai da minha garganta é “Ele tem um filho”.
Tento explicar. Um filho adolescente. Um filho que ele protegia e amava enquanto convencia Meg a morrer e tentava fazer o mesmo comigo. Só que não consigo botar as palavras para fora. Mas Ben estava comigo ontem em Truckee. Talvez seja por isso que faz sentido para ele. Ou talvez seja porque sempre fizemos sentido um para o outro.
— Ai, Cody, que merda.
E então abre os braços automaticamente, como se fosse normal para ele abraçar as pessoas. E eu me aninho nos braços dele automaticamente, como se fosse normal para mim ser abraçada. Enquanto ele me abraça, eu choro. Choro por Meg, que partiu para sempre da minha vida. Choro pelos Garcias, que talvez também tenham partido. Choro pelo pai que nunca tive e pela mãe que tive. Choro por Richard Locão e pela família com que ele cresceu. Choro por Ben e pela família com que ele não cresceu. E choro por mim.

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