17 de maio de 2017

31

Ben se oferece para me apanhar em casa, mas não quero que ele venha aqui. Combinamos de nos encontrar no sábado em Yakima, ao meio-dia, em frente à rodoviária. Então, ligo para Richard Locão.
— Cody, quanto tempo! O que você manda?
— Você tem algum compromisso para sábado à noite?
— Está me chamando para sair? — provoca ele.
— Na verdade, ia perguntar se posso dormir com você — provoco de volta, então explico que vou botar o pé na estrada e preciso de um lugar para ficar no sábado em Boise.
— Sempre há lugar para mais um na casa dos Zellers. Mas aviso logo: se vier passar a noite de sábado, é capaz de o reverendo querer que você faça as coisas à moda de Jerry no domingo.
— Está bem — respondo, sem saber direito o que ele quer dizer com “à moda de Jerry”, mas imagino que seja alguma referência a Jerry Garcia, o líder e vocalista do Grateful Dead. — Só tem um problema.
— E não tem sempre?
— Vou estar com Ben McCallister.
Ouço Richard respirar fundo. Ou de desânimo ou porque está dando uma “bongada”.
— Quer dizer que você e ele, vocês estão...
— Não, não! Não é nada disso. Eu não falava com ele havia mais de um mês. Ben está só me ajudando.
— Sei, ajudando. Imagino como.
— Não é o que você está pensando. É sobre Meg.
— Ah. — A voz de Richard fica séria.
— Então, você pode nos receber? Vamos sair por volta do meio-dia, logo devemos chegar lá pelas seis ou sete.
— Ou até antes. O limite de velocidade na I-84 é 120 por hora, mas todo mundo anda a 130. Vocês vão chegar rápido.
— Quer dizer que não tem problema dormirmos aí?
— A manjedoura do reverendo Jerry está sempre de portas abertas — brinca Richard. — Estamos habituados a ter almas perdidas acampadas aqui. Para você, talvez eu possa até garantir um sofá.
— O chão está ótimo.
— Desde que não seja no mesmo chão do McCallister.

° ° °

Espero até sexta-feira para dizer a Tricia que estou indo. Já cancelei minhas faxinas de segunda e terça, calculando que estarei de volta, no mais tardar, terça à noite. Não sei por que estou tão nervosa em abordar o assunto com ela.
Tricia olha firme para mim, ressabiada.
— Para onde você está indo?
Tricia não costuma me regular. Mas, se eu contar a ela, a notícia vai chegar aos Garcias e não quero que eles saibam de nada até eu ter algo de concreto, algo de útil. Além do mais, se eu contar, receio que até ela, que nunca se mete na minha vida, não me deixe ir.
— Tacoma — respondo.
— Outra vez?
— Alice me convidou.
— Achei que ela estivesse em Montana.
Eu deveria ter aprendido a lição depois de tanto lidar com All_BS. A maneira mais segura de mentir é se manter o mais perto possível da verdade.
— E está. Mas vai voltar para casa para o fim de semana — explico, na esperança de que Tricia não lembre que Alice é de Eugene.
Tricia volta a me encarar firme.
— Estarei de volta na segunda, terça no máximo — acrescento.
— Precisa que eu pegue alguma de suas faxinas?
Balanço a cabeça. Algumas sujeiras podem esperar.

° ° °

Não consigo pregar os olhos na noite de sexta. Então, na manhã de sábado, faço uma mala pequena — contendo minha caixinha de dinheiro, que agora tem 560 dólares, meu notebook e meus mapas — e pego o primeiro ônibus para Yakima. Chego às nove e meia e fico plantada em uma cafeteria deprimente perto da rodoviária, os mapas abertos à minha frente. São cerca de 1.600 quilômetros daqui até Laughlin, em um trajeto que descreve um triângulo para atravessar o Oregon e outro para atravessar Idaho, antes de descer pelo leste de Nevada.
A garçonete não para de encher minha caneca com café e eu não paro de bebê-lo, embora ele esteja fazendo miséria no meu estômago e nos meus nervos. Durante as últimas 24 horas, não fiz nada além de questionar minha decisão de telefonar para Ben.
Ouço o sino da porta da cafeteria tocar. Levanto a cabeça, distraída, e fico surpresa ao ver que é ele. São só dez e meia da manhã e tínhamos marcado para daqui a uma hora e meia.
Como é uma viagem de duas a três horas a partir de Seattle, Ben deve ter saído ao raiar do dia ou corrido na estrada como o diabo — ou as duas coisas.
Meu primeiro impulso é me afundar na cadeira, ganhar um pouco mais de tempo. Mas estou prestes a passar dois dias presa em um carro com ele, logo deixo de covardia. Pigarreio e digo:
— E aí, Ben?
O rosto dele fica confuso por um instante, então ele corre os olhos à sua volta até me ver sentada no reservado, os mapas espalhados sobre a mesa. Parece ao mesmo tempo aflito e aliviado, e mais uma vez o semblante dele é como um espelho, refletindo meus sentimentos, pois é exatamente isso que está se passando comigo.
Ele se senta de frente para mim.
— Você chegou cedo — diz Ben.
— Você também. — Deslizo meu café na direção dele. — Quer? Ela acabou de encher de novo. Está fresco; quer dizer, fresco na caneca.
Ben segura a caneca de café, preto e sem açúcar, do jeito que ele gosta, como me lembro agora. Eu me ponho a observá-lo. Seus olhos estão cor de violeta esta manhã, quase como hematomas; combinam com o tom arroxeado da pele debaixo deles.
— Não consegui dormir — fala ele.
— Você não foi o único.
Ele meneia a cabeça.
— Então, qual é o plano?
— Chegar a Boise ainda hoje. Podemos dormir na casa de Richard Locão, quer dizer, Richard Zeller. O colega de república de Meg, lembra dele?
— Lembro.
— Ele disse que podemos ficar lá, na casa dos pais dele. A não ser que prefira dormir em outro lugar. — Ele provavelmente tem muitos lugares onde ficar, um monte de camas cativas espalhadas por aí.
— Vou para onde você for.
Uma frase simples que me aquece como um cobertor.
— Vai me dizer o que estamos fazendo? — pergunta ele.
No telefonema, eu disse que tinha encontrado uma pessoa relacionada à morte de Meg e que precisava de alguém para me acompanhar quando fosse falar com ela. Não contei mais nada além disso. Imaginei que ele não precisasse, ou não quisesse, saber o que acontecera ao longo das últimas semanas em que ficamos ausentes um da vida do outro. Mas, agora que ele está perguntando, não sei se devo contar. Harry me enviou alguns e-mails sobre garotas que foram encontrar caras que conheceram pela internet e as coisas terríveis que aconteceram com elas. Fiquei grata pela preocupação, mas não parecia ser o meu caso. Essas eram histórias de garotas com ideias românticas, que caíam nas garras de pervertidos. Comigo e Bradford era diferente.
Mas e se Ben não vir a coisa da mesma forma? E se ele amarelar depois que eu contar tudo? E se ele se recusar a me levar?
Como não respondo de imediato, Ben questiona:
— Tem algo que eu não deva saber ou coisa parecida?
— Não. É só que... — Balanço a cabeça. — É uma longa viagem.
— Como assim?
— Vamos ter tempo. Eu vou lhe contar. Mais tarde. Prometo. — Faço uma pausa. — Como estão as crianças?
— Trouxe fotos.
Imagino que Ben vá me mostrar imagens no celular, mas ele saca um desses envelopes de fotos reveladas e o desliza para mim por cima dos mapas. Quando o abro, deparo com alguns retratos: Grapette e Repete perseguindo um pedaço de linha, lambendo um a cara do outro, dormindo juntinhos na ponta da cama de Ben.
— Eles estão enormes!
Ben assente.
— Adolescentes. Grapette trouxe um camundongo morto para casa. Tenho certeza de que é só o começo. Daqui a pouco vão trazer vários tipos de bichos.
— Pássaros. Ratazanas.
— E, então, gambás, depois pôneis. Quando se trata desses dois aí, não duvido nada.
Dou uma risada. Parece a primeira vez em séculos. Devolvo as fotos.
Ben balança a cabeça.
— São para você.
— Ah. Obrigada! Quer comer alguma coisa? Antes de irmos?
— Só entrei aqui para fazer hora enquanto esperava você.
— E cá estou eu.
— Exatamente.
O silêncio estranho que vem em seguida é um mau presságio para os dois dias juntos que ainda temos pela frente.
— Vamos andando? — pergunto.
— Tudo bem. Mas fique sabendo que o acendedor de cigarros, que eu uso para ligar o iPod, está dando problema, então as opções de música não são as melhores.
— Vou sobreviver.
— E tem outra coisa, menos importante para mim, mas talvez nem tanto para você: o ar-condicionado está quebrado, portanto nossa viagem pelo deserto de Nevada em julho será bem interessante.
— Podemos parar nos postos de gasolina, nos encharcar de água e deixar as janelas abertas. É o que Meg e eu costumávamos fazer.
Então eu fico calada. Tudo me faz voltar a Meg. Cada pedacinho da minha história, parece.
— Combinado — diz Ben.
Saímos da cafeteria. Ele abre o carro. Está limpíssimo em comparação com a última vez que entrei nele.
— Quer que eu dirija primeiro? — pergunto. — Ou você não deixa garotas dirigirem o seu carro?
— Não tenho o hábito de deixar ninguém dirigir o meu carro. — Ele me olha de soslaio. — Mas, por outro lado, você não é uma garota.
— Ah, entendi. Você já categorizou a minha espécie?
— Ainda não. — Ele joga as chaves para mim. — Mas pode dirigir.

° ° °

Assim que pegamos a interestadual, eu relaxo. Tirei a carteira aos 16, mas é tão raro eu dirigir para onde quer que seja que me esqueci como é libertador ter apenas a estrada à sua frente, os cabelos ao vento. Com as janelas baixadas e o rádio ligado, fica barulhento demais para conversar, o que é bom. Ben não pode me perguntar sobre Bradford e os acontecimentos do mês passado nem mencionar o beijo.
Nos arredores de Baker City, paramos para almoçar em um lugar que Ben conhece. Não levo muita fé na ideia de um restaurante chinês no leste do Oregon, reino dos caipiras, mas Ben diz que os gyoza de lá são os melhores que já comeu. Parece que ele é um frequentador assíduo. É óbvio que a garçonete novinha já o conhece. Ela não para de inventar desculpas para vir à mesa encher nossas xícaras de chá e falar com ele, até a mãe dela sair da cozinha para enxotá-la.
— Uau! Você conhece todo mundo ao longo da I-84?
— Só nos restaurantes chineses. Incluindo os da I-5.
Gesticulo em direção à garçonete, que está sorrindo para ele.
— Ela é uma fã de quando você veio tocar por aqui com uma de suas bandas?
Ben me olha feio.
— Nunca estive aqui com banda nenhuma. Comi uma vez neste restaurante com Bethany, minha irmã mais nova.
O nome não me é estranho. Então lembro que ela é uma das garotas com que Ben falou ao telefone naquela primeira vez que fui vê-lo em Seattle.
— Bethany é sua irmã mais nova?
— É. Ela estava tendo problemas em casa. Na época, eu estava em Portland, então resolvi bancar o herói e voltei com a intenção de buscá-la e pegarmos a estrada juntos. Minha ideia era ir com ela para Utah. Até Zion, que eu sempre quis conhecer. — Ele bebe um gole de chá. — O carro quebrou aqui. Uma lata-velha de um Pontiac.
— O que aconteceu com a viagem de vocês? Foram de carona?
— Não. Bethany tinha só 11 anos. — Ben balança a cabeça. — Tive que telefonar para o padrasto dela vir apanhá-la, e esperamos aqui. Ele ficou tão puto comigo que se recusou a me dar uma carona de volta para Bend. Não tinha nada de importante rolando em Portland, então acabei pegando carona até Seattle. Foi assim que fui parar lá.
— Ah. — Não é bem a típica história de uma estrela do rock perseguindo seu sonho. — Onde ela está agora? Bethany.
O olhar de Ben fica vazio.
— Ainda está lá.
Não sei exatamente onde é “lá”, mas, pela maneira como ele fala, percebo que não é um lugar bom para estar.
— Vamos terminar aqui e voltar para a estrada — sugere ele. — Com comida chinesa, vamos estar com fome de novo daqui a uma hora.
— Rá. Faltam só umas duas horas para chegarmos a Boise. Além do mais, Richard mandou uma mensagem dizendo que eles vão fazer um churrasco hoje à noite.
Ben se anima.
— Churrasco? Com carne de verdade? Nada de tofu?
Pergunto a Richard se vai haver tofu no churrasco e ele responde com um emoticon vomitando.
— Pode ficar tranquilo — digo a Ben.
Enchemos o tanque e Ben assume o volante. Só quando entramos no carro e voltamos para a interestadual é que percebo que Ben não fumou depois do almoço. Na verdade, ele não fumou durante todo esse tempo de viagem.
— Se não estiver fumando por minha causa, não se preocupe — digo a ele, mas noto que o carro não cheira a cinzeiro como antes.
Ben sorri, um pouco constrangido. Ele levanta a manga da camisa para me mostrar um adesivo cor de pele.
— Eu parei.
— Quando?
— Algumas semanas atrás.
— Por quê?
— Um motivo além do fato de cigarros matarem e custarem uma nota?
— Sim.
Ben lança um brevíssimo olhar para mim antes de voltar sua atenção para a estrada novamente.
— Vai ver eu precisava de uma mudança.

° ° °

Às seis da tarde estamos chegando a Boise, os raios de sol inclinados do entardecer tingindo de vermelho as colinas que cercam a cidade. Pego as instruções que Richard me mandou por e-mail e vou conduzindo Ben através do centro da cidade e da área militar até uma rua bonita, ladeada de árvores, com casas amplas em estilo rancho. Paramos em frente a uma delas, que tem uma buganvília laranja de copa frondosa e uma van branca grande na entrada.
— Chegamos — informo a Ben.
Quando batemos à porta, eu me repreendo. Devia ter trazido algo, algum tipo de presente ou coisa parecida. É o mínimo que se espera de uma visita. Agora é tarde demais.
Ninguém atende. Tocamos a campainha. Ainda nenhuma resposta. Tem gente em casa. Ouvimos os sons de uma TV e de vozes vindo lá de dentro. Tornamos a bater. Nada. Estou prestes a mandar uma mensagem para Richard quando Ben abre a porta e coloca a cabeça para dentro.
— Ô de casa!
Uma garotinha vem pulando, com um sorriso aberto, exibindo um lábio leporino ou algo similar, que costuma aparecer em campanhas de doação.
— Talvez seja a casa errada — sussurro.
Mas então a garotinha grita:
— Uichard, feus amigos chegauam!
Cinco segundos depois, Richard aparece, pega a garota no colo e nos convida a entrar.
— Esta aqui é Ceci — diz ele, fazendo cócegas nas axilas da menina, que solta gritinhos de alegria.
Richard aponta para a sala, onde três outras crianças estão sentadas em pufes e almofadas, vendo um filme.
— Aqueles são Jack, Pedro e Tally.
— Olá — cumprimento.
— Ei — diz Ben. — Toy Story?
— O três — responde Pedro.
Ben assente.
— Quem são eles? — sussurro para Richard enquanto ele larga Ceci de volta no chão.
— Família 2.0.
— Ahn?
— Eles são minha leva mais recente de irmãos e irmãs. Meu irmão mais velho, Gary, está lá atrás, e minha irmã Lisa está em Uganda no momento, trabalhando com órfãos ou algo extremamente nobre desse tipo.
Ele abre a porta de vidro de correr que conduz ao pátio. E só então cumprimenta Ben, com cautela.
— Rich — responde Ben. — Obrigado por nos receber.
— Estou recebendo Cody. Você só veio junto.
Lá fora, dois homens discutem diante da grelha, enquanto uma mulher com shorts cortados e uma blusinha regata bonita está de pé dentro da piscina infantil, olhando perplexa para eles.
— Avisem quando quiserem que eu traga o milho para as galinhas aí — reclama ela com os homens, e então nos vê. — Jerry, os amigos de Richard chegaram. — Ela sai da piscina e vem se apresentar para nós. — Eu sou a Sylvia. Você deve ser Cody. E você, Ben.
— Muito obrigada por nos receber — agradeço.
— E por nos convidar para o churrasco — completa Ben, olhando para a grelha com avidez.
— Só teremos churrasco se esses dois cabritos monteses conseguirem parar de discutir qual madeira devem usar — avisa Sylvia.
— Papai! — chama Richard.
O pai de Richard é muito alto, tanto que chega a ser encurvado, como se tivesse passado a vida baixando a cabeça para ouvir as pessoas.
— Olá — diz ele com uma voz suave. — Obrigado por se juntarem a nós esta noite.
— Espero que não estejamos incomodando.
Sylvia ri.
— Como você pode ver, a expressão casa cheia é relativa por aqui.
— Nós achamos que a meta de papai é ter doze filhos no total, assim ele terá seu próprio grupo de discípulos — comenta Gary, o irmão de Richard.
— A palavra discípulo pressupõe algum tipo de disciplina, de disposição para seguir as palavras de um pai, o que está muito longe de acontecer aqui — brinca o pai de Richard. Ele olha para mim e para Ben. — Vamos comer costeletas hoje à noite. Os meninos e eu estamos discordando sobre qual madeira usar para prepará-las: nogueira ou algarobeira. Talvez vocês possam nos ajudar a decidir.
— As duas são boas... — começo a falar.
— Algarobeira — diz Ben, convicto.
Richard e o irmão dele batem os punhos, comemorando.
— Essa é a coisa mais inteligente que já ouvi de você — diz Richard para Ben.
— Richard! — exclama Sylvia, ralhando com o filho.
— Algarobeira, então — conclui Jerry, levantando as mãos em um gesto bem-humorado de rendição. — A comida vai sair daqui a umas duas horas. Richard, por que você não leva seus convidados cansados de viagem lá para dentro e oferece uma bebida?
Richard ergue as sobrancelhas.
— Um refrigerante gelado — acrescenta o pai.
— Tem limonada também — lembra Sylvia.
— Os monstrinhos beberam tudo — avisa Richard.
— Então esprema mais alguns. Temos toneladas de limões.
— Se a vida lhe der limões... — começa a falar Richard, mas lança um breve olhar para mim e se detém. Como se achasse errado fazer essa piada na minha frente.
Não entendo bem por que logo agora ele decidiu ficar tímido comigo. Então, termino para ele:
— Faça uma limonada.

° ° °

O jantar sai tarde e é caótico e delicioso. Dez de nós espremidos em volta de uma mesa de piquenique debaixo do céu limpo de Idaho. Ben come tantas costeletas que até Richard fica impressionado, e quando ele explica que vive com um grupo de veganos, Sylvia ainda prepara alguns cachorros-quentes na grelha para completar. Eu me pergunto como este cara magrelo consegue enfiar tudo aquilo na barriga. Mas ele consegue. Depois, mais dois cachorros-quentes e wafer com sorvete de sobremesa. Já passa das nove quando Sylvia e Jerry dão início à tarefa hercúlea de dar banho e colocar na cama todos os pequenos, que estão elétricos. Gary sai para encontrar uns amigos. Richard joga um pouco de lenha na fossa de fogueira no fundo do quintal e pega algumas cervejas escondido na garagem.
Pela janela, vejo o pai de Richard com um livro de gravuras aberto, lendo para as crianças, que estão deitadas em beliches. Ouço o barulho de Sylvia lavando a louça. Cruzo olhares com Ben do outro lado do fogo tremeluzente e posso jurar que estamos pensando a mesma coisa: como algumas pessoas têm sorte.
Sou tomada por uma onda repentina e dolorosa de nostalgia. Sinto falta disso. Mas como posso sentir falta de algo que nunca tive de verdade? Recebi tudo isso de segunda mão através de Meg. Como basicamente todo o resto na minha vida.
O fogo estala. Richard termina sua cerveja e a esconde nos arbustos.
— Querem mais uma? — pergunta.
Ben balança a cabeça.
— Melhor não. Temos uma longa viagem pela frente amanhã.
Ele olha para mim. Concordo.
— Então, para onde vocês estão indo exatamente? — indaga Richard a Ben.
Ben me encara, fazendo a mesma pergunta em silêncio. Ainda não lhe contei a história toda.
— Laughlin, Nevada.
— Isso você já disse — responde Richard.
Ele vai ao freezer pegar outra cerveja e duas latinhas de Dr. Pepper, uma para mim e outra para Ben. Sinto um aperto no coração, o que é ridículo: fiquei comovida por ele lembrar qual é o meu refrigerante preferido?
— Acho que minha pergunta é: “Por que Laughlin?”
Fico calada. Ben também.
— Que foi? É um segredo ou coisa parecida? — questiona Richard.
Ben olha para mim.
— Pelo jeito, sim.
— Espere aí, você também não sabe? — pergunta Richard.
— Eu só vim junto — retruca Ben.
Eles se fuzilam com os olhos por um instante, e então me encaram. Lá dentro, Jerry e as crianças estão fazendo suas orações, pedindo que uma longa lista de pessoas seja abençoada.
— Isso fica entre a gente — falo, apontando para mim mesma, Richard e Ben.
— Um círculo sagrado — brinca Richard. — Ou um triângulo. Um ménage à silence.
Olho feio para Richard, que fica todo solene e promete não contar a ninguém.
— Vocês lembram quando fui a Tacoma para Harry me ajudar com uma coisa no computador?
Richard aquiesce.
— Nós encontramos um arquivo encriptado no computador de Meg e acabamos descobrindo que eram instruções enviadas por um grupo de apoio para suicidas, do tipo que incentiva sua decisão de tirar a própria vida. Eu investiguei mais a fundo e encontrei as postagens dela nos fóruns de discussão desse grupo. Tinha um cara que era tipo o mentor dela. Ele a encorajou até o fim.
— Que sinistro — comenta Richard.
— Pois é.
— Não consigo acreditar que Meg caiu nessa.
— Eu sei — concordo, mas sem muita convicção. Porque, agora que conheço Bradford, consigo acreditar. — Então, encontrei esse cara, e agora estou indo falar com ele.
— Você está o quê?! — exclama Ben.
— Estou indo falar com ele — repito, mas com bem menos firmeza.
— Achei que você precisasse falar com alguém que soubesse sobre a morte dela, como os amigos dela de Seattle — diz Ben, fechando a cara para mim como se eu tivesse violado algum tipo de pacto.
Respiro fundo para não levantar a voz.
— Estou indo falar com a pessoa que causou a morte dela.
— Só que foi ela quem causou a própria morte — intervém Richard. — Essa é a definição de suicídio.
Richard e eu trocamos olhares fulminantes.
— Bradford fez com que ela se matasse.
— Logo, falar com ele é uma ideia brilhante! — vocifera Ben, furioso.
— Você sabia que eu estava procurando por ele — disparo de volta.
— Eu não sabia de merda nenhuma, Cody. Porque, nas últimas seis semanas, você se recusou a falar comigo.
— Estou falando com você agora. Passei as últimas seis semanas tentando fazer esse cara sair da toca.
— E como você fez isso? — pergunta Richard, alternando o olhar entre mim e Ben.
— Harry me ajudou, mas eu fiz quase tudo sozinha. Fingi que estava pensando em me suicidar. Sabe, como se eu fosse um camundongo apetitoso e ele, a cobra faminta.
— Puta que pariu, Cody! — torna a exclamar Ben. — Você é louca?
— Como Meg, você quer dizer?
Isso o faz ficar quieto.
— Como uma pessoa faz isso? Finge que é suicida? — indaga Richard. — Só sei o contrário: suicidas fingindo que está tudo bem.
Eu poderia desconversar. Dizer que menti, que inventei tudo. Mas resolvo contar a verdade:
— Eu encontrei aquela parte dentro de mim que estava cansada de viver — sussurro. — E a coloquei para fora. — Olho para baixo, incapaz de encarar o espanto, a raiva e a repulsa deles. — Imagino que isso faça de mim uma louca.
Dou uma olhadela para Ben, mas ele está olhando fixamente para o fogo.
— Nada disso — comenta Richard. — Todo mundo já passou por isso. Todo mundo tem seus dias ruins. Todo mundo imagina como seria. Mas sabe por que meu pai diz que suicídio é pecado?
Ele aponta com o polegar em direção à casa, onde Jerry agora está ajudando Sylvia com o restante da louça.
— Porque é o mesmo que assassinato. Porque só Deus pode escolher quando é a nossa hora de partir. Porque roubar uma vida é como roubar de Deus — digo, repetindo todas as coisas terríveis que as pessoas disseram a respeito de Meg.
Richard balança a cabeça.
— Não. Porque é como matar a esperança. Esse é o pecado. Qualquer coisa que mate a esperança é pecaminosa.
Tento digerir isso por alguns instantes.
— Mas então, o que você espera conseguir com isso? Agora que encontrou esse cara? — pergunta Ben em um tom estranhamente formal.
— Ele precisa ser responsabilizado de alguma forma, como cúmplice, sei lá.
— Então fale com a polícia — sugere Ben.
— Não é tão simples.
— Você contou isso para a família de Meg?
— Você não está entendendo.
— Nada disso vai trazê-la de volta — afirma Richard. — Você sabe disso, não sabe?
Sim, eu sei disso. Mas o objetivo ainda é nebuloso. Só que não posso falar com a polícia nem com a família de Meg. Preciso fazer isso — fazer alguma coisa — sozinha. Por Meg. E por mim.

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