17 de maio de 2017

29

À noite, telefono para Harry Kang.
— Harry? Aqui é Cody.
— Cody… Oi…
Ouço uma buzina e uma cacofonia de pessoas falando.
— Onde você está?
— Na Coreia, visitando minha avó. Espere um instante.
Ouço o som do telefone dele mudando de posição e o toque eletrônico de uma campainha. Em seguida, a ligação fica menos barulhenta.
— Pronto. Entrei numa casa de chá. Seul é uma loucura. Pode falar.
— Acho que consegui informação suficiente. Ou pelo menos o máximo que vou poder conseguir.
As palavras de despedida de All_BS ecoam nos meus ouvidos. Desejo boa sorte para você. Como se estivéssemos falando da minha formatura. Ou como se ele soubesse que nunca mais voltaríamos a nos falar depois disso.
— O que você tem?
— O que sei com certeza é o seguinte... quer dizer, não tenho certeza de nada. Mas estou bastante convencida de que ele está em algum lugar da Costa Oeste. Ele sempre parece estar jantando na mesma hora que eu, ou coisas do tipo.
— Isso restringe a busca para algumas centenas de milhares de pessoas.
— Tenho mais. Desconfio que ele trabalhe em um cassino. Ou seja, um cassino na Costa Oeste. Las Vegas?
— Que tem uma população de quantas pessoas, um milhão? Se é que ele está lá. Também poderia estar em qualquer lugar de Nevada. O jogo é legalizado em todo o estado.
— Ou poderia trabalhar em um cassino localizado em qualquer reserva indígena, onde eles são permitidos por lei — acrescento.
— Exatamente. O que mais conseguiu descobrir?
— O sobrenome dele talvez seja Smith. Ouvi alguém chamá-lo assim.
— É sempre útil ter um nome, mesmo sendo o nome mais inútil possível. — Ele faz uma pausa. — Mais alguma coisa?
— Não. Ele desligou depressa.
— Desligou? Ele telefonou para você?
— Telefonou.
— De um fixo ou de um celular?
— Não sei. O número estava bloqueado. Mas ele estava no trabalho, então imagino que tenha sido do celular.
— Para o seu celular ou para o fixo?
— Celular. Eu estava no trabalho e nós mandamos cortar nosso fixo.
— Quando?
— Quando mandamos cortar nosso fixo?
— Não, Cody. Quando ele ligou para você?
— Hoje mais cedo.
— Sério?
— Sério. Por quê, isso é ruim?
— É um descuido.
— Então é ruim para ele, mas bom para nós?
— Talvez. — Por sua voz, dá para imaginar que Harry está sorrindo. — Você precisa me dar acesso irrestrito à sua conta de celular.
— Tudo bem.
— E me mande por e-mail tudo o que tiver sobre esse tal de Smith. Nomes de usuário. Todas as contas que ele usou para se comunicar com você. Qualquer coisa que tiver. Qualquer rastro eletrônico.
Vou fazer isso, mesmo que precise ficar parada em frente à casa da Sra. Chandler para pegar o wi-fi dela. Embora a Sra. Banks tenha dito que a biblioteca irá reabrir nos próximos dias.
— Beleza.
— E entenda que eu precisarei fazer algumas coisas não exatamente legais.
— Por uma boa causa — lembro a ele.
— Com certeza. Estou quase enlouquecendo na casa da minha avó, então vai ser bom ter um projeto. Entro em contato assim que descobrir alguma coisa.

° ° °

À tarde, paro em frente à casa vazia dos Chandlers, roubando o sinal deles, e envio tudo para Harry. No dia seguinte, a biblioteca é reaberta. Vou até lá com o laptop e confiro o serviço de mensagens anônimas que eu e All_BS usávamos, mas não há nada. Dou uma olhada nos fóruns do Solução Final, mas também não encontro nenhum post dele. Estou convencida de que ele não voltará mais a entrar em contato comigo. Mas talvez não faça diferença. Talvez eu tenha deixado de ser o rato para me tornar a cobra.

° ° °

Três dias depois, Harry me liga.
— Não foi fácil — diz ele. Parece estar vibrando de empolgação.
— Você o encontrou?
Harry não responde. Em vez disso, me conta uma história longa e complexa sobre como All_BS usou o Skype para fazer algum tipo de ligação VoIP, não por um telefone, mas por um tablet. Números de telefone são difíceis de rastrear, mas o usuário de um aplicativo, nem tanto.
— É assim que até mesmo os melhores criminosos são apanhados — conclui ele. — Eles são cautelosos... até o momento em que deixam de ser.
— Então você o encontrou? — insisto.
— Como eu disse, não foi fácil. O tablet está registrado no nome de um cara chamado Allen DeForrest.
— E esse cara é ele?
— Acho que não. Quando investiguei mais a fundo, descobri que o tal DeForrest é muito ativo nas redes sociais. Tem perfis no Facebook e no Instagram, com um monte de fotos e atualizações de status. Suponho que o nosso alvo seja mais discreto. Mas eu tinha um pressentimento. Então vasculhei melhor a vida desse DeForrest e descobri onde ele trabalhava. Ele é um pit boss no cassino Continental.
— O que é um pit boss?
— É tipo um gerente encarregado das mesas de apostas. Mas você não está entendendo, Cody: ele trabalha em um cassino. Seu palpite estava certo! E não é em Las Vegas, mas em Laughlin, Nevada, que é como uma Las Vegas dos pobres.
— Mas você não acha que é esse DeForrest.
— Sim. E continuo não achando. Para começo de conversa, pensei que o nosso cara, com todos aqueles métodos sofisticados de encriptação, seria cuidadoso o suficiente para não usar o próprio aparelho. Além do mais, estávamos procurando um Smith, certo? Então invadi os registros de funcionários do Continental e procurei pelo sobrenome Smith. Como você deve imaginar, havia um monte deles. Mas só alguns B. Smith.
— B?
— All_BS.
— Achei que isso significasse all bullshit, como se ele quisesse dizer que era tudo enganação.
— Eu também. E pode até ser. Mas esse tipo de gente que faz coisas ruins em segredo às vezes ainda quer se vangloriar de alguma forma. Então me perguntei se BS não seriam as iniciais dele, especialmente depois que descobrimos que o sobrenome dele é Smith. — Harry faz uma pausa. — Então fui conferir. Apenas três B. Smith trabalham no cassino. Bernadette. Becky. — Ele torna a ficar quieto. — E Bradford.
Os pelos da minha nuca ficam em pé.
— Bradford?
— Bradford Smith. Cinquenta e dois anos. Funcionário do Continental. E tem mais. Vasculhei o histórico dele na internet e descobri que ele paga por um pacote de internet banda larga premium, mas, ao contrário do tal DeForrest, deixa muito pouco rastro on-line. Ele se encaixa no perfil.
— Então é ele?
— É provável.
— Como podemos ter certeza?
— Você reconheceria a voz dele?
Nosso primeiro e único telefonema. Breve, mas gravado em minha memória.
— Acho que sim.
— Ótimo. Consegui o número do celular dele. Podemos telefonar usando uma linha protegida e colocar você para ouvir a conversa. Se cairmos na caixa postal, você poderá ouvir a mensagem que ele tiver gravado. Se ele atender, vou fingir que sou um operador de telemarketing e você fica quieta. De qualquer maneira, vai ser sua chance de confirmar se a voz é a dele.
— Isso é tudo que vamos precisar fazer?
— Sim. Desligue que eu vou ligar de volta e colocar você na chamada.
— Agora? Ele não vai desconfiar?
— Quem desconfiaria de um operador de telemarketing?
— Bem pensado.
— Ok. Precisamos vender algo que ninguém vá querer comprar, mas o quê? — pergunta Harry.
— Por acaso, eu já trabalhei como operadora de telemarketing. Ninguém nunca queria seguros de vida suplementares, e me parece estranhamente apropriado tentar vender um para ele. — Digo a Harry o que ele deve falar.
— Está bem. Já ligo de volta para fazermos isso.
Quando Harry torna a ligar, já ouço os toques.
— Shh. — faz ele para mim.
— Alô. — A pessoa atende de forma rude.
— Aqui é da agência de seguros Good Faith — começa a falar Harry com uma voz suave, como se fizesse isso o dia inteiro. — Estou ligando para lhe informar que baixamos drasticamente os preços dos nossos seguros em Laughlin. Queremos lhe oferecer a oportunidade de reavaliar o seu seguro de vida atual, sem qualquer obrigação. Se ainda não possui um seguro de vida, teremos o maior prazer em discutir as nossas opções para esse investimento fundamental para o seu futuro.
— Já disse a vocês que não estou interessado — retruca Smith, desligando em seguida.
Durante alguns instantes, formamos um triângulo de silêncio: eu, Harry Kang e a voz de All_BS que ainda paira no ar.

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