17 de maio de 2017

25

Em meados de junho, recebo uma ligação de Alice. Não falava com ela desde a última vez que fiquei em sua casa em Tacoma, mas, quando atendo o telefone, ela começa a tagarelar como se conversássemos todos os dias.
— Eu estava olhando no mapa, você está no leste de Washington, não é? — pergunta ela depois de me atualizar a respeito de coisas que não me interessam. — Entre Spokane e Yakima?
Spokane e Yakima são separadas por centenas de quilômetros. Engraçado como as pessoas acham que ficam a um cuspe de distância. Mas não a corrijo.
— É, mais ou menos.
— Legal! Estou trabalhando como monitora em Mountain Bound. Ficarei nos arredores de Missoula e parece que a I-90 passa pela sua área.
— Não é longe daqui.
— Perfeito! São, tipo, sete horas de Eugene até Spokane, ou seja qual for a sua cidade. Um dia de viagem. E então posso estar em Missoula no dia seguinte.
Preciso de alguns instantes para entender do que ela está falando.
— Você quer ficar na minha casa?
— Se não tiver problema.
Quase nunca recebemos visitas. Mesmo Meg só dormiu aqui algumas poucas vezes. Já estou tentando descobrir como explicar Alice para Tricia. Onde instalá-la. Tricia e Raymond ainda parecem estar juntos, a julgar pela quantidade de noites que ela não tem passado em casa. Talvez ela durma na casa dele na noite em que Alice estiver aqui, mas, se eu pedir, aí sim que isso não vai acontecer.
— Quando você vem?
— Depois de amanhã. Me dê seu endereço.
Então não tenho escolha. À noite, digo à Tricia que chamei alguém para dormir aqui em casa.
— Seu namorado? — pergunta ela, em tom de acusação.
— Não existe namorado nenhum.
No mesmo momento, penso em Ben e fico com raiva por ter pensado nele, mas alego a mim mesma que ele tinha sido o motivo da última pergunta de Tricia sobre o assunto.
— Então com quem você tem conversado no computador?
— Não tenho conversado com ninguém. Não posso fazer isso, porque não temos internet.
— Rá! Mas você quer ter. E agora está ficando vermelha. Está escondendo alguma coisa.
Desta vez, ela tem razão. Mas não sobre eu ter namorado. All_BS e eu deixamos de conversar através das mensagens no fórum e passamos a usar um programa de bate-papo anônimo com frequência. Nossas conversas, no entanto, são irritantemente limitadas pelos horários da biblioteca.
Para minha decepção, elas não são sobre suicídio. Pelo menos não especificamente. Falamos sobre generalidades e às vezes me esqueço com quem estou conversando. Semana passada, comentei que estava ficando gripada e ele me enviou uma receita de chá de gengibre com suco de maçã. Quando deu certo, brinquei sobre a ironia de ele ter curado meu resfriado.
“Bom saber que alguém se importa”, escrevi. Quando ele me perguntou o que eu queria dizer com isso, comecei a digitar uma mensagem sobre Tricia, então me dei conta do que estava fazendo e a apaguei.
Precisava tomar mais cuidado e não responder às mensagens dele espontaneamente ou iria estragar tudo. Agora, quando estou na biblioteca, salvo as mensagens dele em meu arquivo da Meg e, quando estou em casa, redijo as respostas, enviando-as da próxima vez que estiver online.
É um sistema frustrante e trabalhoso, mas a demora me obriga a ser cautelosa.
— Quem vai ficar aqui é a Alice — conto a Tricia. — A gente se conheceu em Tacoma. Ela está indo para Montana e precisa de um lugar para dormir.
Pronto: a verdade, ou parte dela. Uma das coisas que aprendi ao lidar com All_BS é que, quanto mais perto você chega da verdade, mais fácil é mentir.
— Ela nunca ouviu falar de motéis? — pergunta Tricia.
— Eu vou dormir no sofá; ela pode ficar no meu quarto.
Tricia suspira.
— Não. Pode dormir na minha cama. Vou passar a noite com Raymond.
Eu concordo como se isso nunca tivesse me passado pela cabeça.

° ° °

Na noite seguinte, às seis em ponto, Alice chega, buzinando enquanto desce a rua, como se liderasse uma parada do Dia da Independência. Alguns vizinhos saem de casa para ver que comoção é aquela, e Alice acena para eles, sorrindo.
— Então é aqui que você mora?
Eu aquiesço.
— Não é o que esperava. É tão… pequena. — Ela se interrompe. — Não a sua casa. A sua casa é grande. Quero dizer, a cidade.
Minha casa é uma estrutura de blocos de cimento com dois quartos minúsculos. Se fosse pequena, já seria um avanço.
Agora ela está constrangida.
— Não falei por mal. É só que você parece cosmopolita. Pensei que tivesse crescido em um lugar diferente.
— Não. Foi aqui mesmo.
Nós entramos. Levo Alice até o meu quarto. Eu troquei os lençóis para ela. Alice se deixa cair de costas na cama, observando os panfletos de bandas na minha parede, todas as fotos minhas e de Meg.
— Então foi aqui que Meg cresceu também?
Torno a concordar com a cabeça.
— Há quanto tempo vocês se conheciam?
— Bastante tempo.
Tem uma foto nossa em um rodeio, de quando talvez estivéssemos no quinto ano. A fase dentuça.
— Esta é você? — pergunta Alice, se aproximando para enxergar melhor.
Eu deveria ter tirado tudo aquilo.
— É.
— Vocês devem ter muita história juntas.
Penso no Dairy Queen. Na nave espacial. Na casa dos Garcias.
— Não exatamente.
Ficamos caladas por algum tempo. Então Alice anuncia que vai me levar para jantar fora.
— Não aceito “não” como resposta!
— Tudo bem. Aonde você quer ir?
— Quais são nossas opções?
— Os mesmos restaurantes fast-food de sempre. Um bar e grill em que minha mãe trabalha, mas, acredite, você não vai querer ir lá. Uma lanchonete. Uns dois restaurantes mexicanos.
— Os mexicanos são bons?
Joe sempre dizia que a comida de Sue era melhor que a da sua mãe, e muito melhor que a de qualquer um dos restaurantes da cidade. Era muito raro irmos a algum deles.
— Não são nada de mais.
— Passei por um Dairy Queen quando estava chegando. Poderíamos ir lá.
Visualizo o DQ, Tammy Henthoff, os frequentadores de sempre.
— Vamos de comida mexicana.
Seguimos para o Casa Mexicana, com seus reservados vermelhos e pinturas em veludo de toureiros. Nosso garçom é um cara chamado Bill, com quem Tricia costumava sair, o tipo de coisa que acontece o tempo todo em nosso Cu de Judas. Pedimos a comida, e então Alice pede uma margarita de morango com um shot de tequila. Bill pede a identidade e ela a entrega.
— Um sem álcool para você, Cody? — diz ele com um sorriso malicioso.
Eu odeio esta cidade. Não posso nem fazer um pedido em um restaurante sem que haja toda uma história por trás.
— Só um Dr. Pepper.
— Você tem 21? — pergunto a Alice depois que Bill vai embora.
— Não, mas Priscilla Watkins, sim. — Ela me mostra sua identidade falsa. Fico impressionada: não achava que Alice fosse capaz disso.
Enquanto esperamos nossas bebidas, a família Thomas entra no restaurante. A Sra. Thomas dá uma espécie de aceno; Mindy, que parece estar discutindo com a irmã sobre alisamento de cabelo, me ignora. Balanço a cabeça.
— O que foi? — pergunta Alice.
Como você explica um Cu do Judas como o nosso para alguém que descreve sua cidade natal como o Paraíso?
Bill volta com as bebidas. Assim que ele dá as costas, pego o shot de Alice e o bebo.
— Peça outro.
Continuamos bebendo. Alice vai ficando sentimental. Ela começa a falar sobre Meg. Alto. Sobre como ela queria tê-la conhecido melhor. Sobre como está feliz por ter me conhecido.
Em certo nível, percebo que ela está dizendo gentilezas, mas Mindy Thomas está a dois reservados de distância e eu quero que Alice cale a boca.
Quando a comida chega, Alice começa a devorar o prato.
— Humm. Que delícia! Não temos nenhum restaurante mexicano que preste em Eugene.
— Ah, é? — digo, tirando com o garfo uma crosta de queijo da minha enchilada. Ela descasca como pele queimada de sol. Empurro-a de lado e experimento o arroz.
— Então, você tem falado com Ben McCallister? — pergunta Alice do nada.
O interior do restaurante é escuro, portanto ela não consegue ver meu rosto ficar vermelho.
— Não.
— Nem uma vez?
— Por que deveria?
— Não sei. Parecia haver uma… fagulha entre vocês dois.
Uma chama voraz originou-se de uma ínfima fagulha. Quando começamos a conversar, All_BS citou esse verso para mim. Segundo ele, era de Dante. Imagino que estivesse tentando explicar como reflexões simples poderiam levar a ideias revolucionárias. Era a sua maneira de me encorajar e eu precisei me lembrar de não me sentir encorajada por isso, pois a ideia capaz de revolucionar minha vida que ele estava vendendo era a ideia de acabar com ela.
— Não houve fagulha nenhuma — retruco, afastando o prato.
— Talvez seja melhor assim.
— Por quê? — Ouço a hostilidade em minha própria voz.
— Para começar, Meg era doidinha por ele.
— Achei que você tinha dito que não sabia nada a respeito dela.
— E não sabia. Mas ela falava sobre Ben. E nos convidava para ir aos shows da banda dele. Então, só podia ser.
— O fato de Meg ter convidado vocês para um show não significa que estava a fim de Ben, mas apenas que estava sendo ela própria.
Alice fica calada por alguns instantes, sugando o que restava do seu drinque do fundo do copo.
— Ah, isso me faz lembrar: você chegou a descobrir com quem Meg falou sobre antidepressivos?
— Não.
— Acho que sei com quem foi.
— Você acha? — Isso já não me importa, pois o motivo de encontrar essa pessoa era chegar a All_BS, e eu já cheguei a ele.
— Não tenho certeza, mas acho que foi Tree.
— Tree? Até parece!
— Acho que foi, sim — diz Alice, soando magoada.
— Está na cara que você não sabe merda nenhuma sobre Meg.
— Sim, parece que já deixamos isso bem claro — fala Alice, na defensiva. — Mas ainda acho que foi com ela.
Não. Meg teria odiado Tree, e Tree não parecia morrer de amores por Meg.
— Não ela — balbucio.
De repente, me sinto cansada e meus membros já não parecem estar totalmente sob controle. Eu me lembro, tarde demais, por que não gosto de ficar bêbada.
— Tudo bem, tudo bem — diz Alice, balançando as mãos no ar. — Mas ela falou algo que me fez pensar nisso. Não me lembro o quê agora. Mas você devia ligar para ela.

° ° °

Na manhã seguinte, Alice se prepara para partir rumo ao seu verão de incríveis aventuras enquanto eu me preparo para limpar latrinas. Estou de ressaca menos por conta da tequila e mais pelo lado de mim que ela trouxe à tona. Por que eu não fui mais simpática com Alice, se ela foi um doce comigo o tempo todo? Quando, na verdade, gosto dela? Sei que devo lhe dizer algo, mas, antes de conseguir encontrar as palavras, ela buzina e desaparece rua afora.
Continuo acenando até ela dobrar a esquina. E, enquanto observo outra pessoa ir embora daqui para outro lugar melhor, entendo perfeitamente por que não fui mais simpática.

° ° °

Os Purdues estão de férias, então, no dia seguinte à partida de Alice, tenho um dia de folga.
Vou direto para a biblioteca, mais cedo que o normal. O silêncio reconfortante dali foi engolido por risadas e gritinhos de crianças pequenas: é hora da roda de leitura.
Enquanto me encaminho para as mesas dos fundos, vejo Alexis Bray no círculo, de mãos dadas com sua filhinha. Não consigo me lembrar do nome da garota, embora ela tenha ido com Alexis a quase todas as missas de Meg, sentando-se comportada no colo da mãe. Em uma das recepções, Alexis me perguntou se eu queria tomar um café algum dia. Eu disse que lhe telefonaria, mas nunca fiz isso. Não sabia bem por que ela queria me encontrar. Ela era quatro anos mais velha do que eu e Meg, e eu não sabia muita coisa a seu respeito, exceto que costumava sair com Jeremy Driggs, ainda que ele não fosse o pai da garotinha. Pelo que diziam, o pai era um cara que estava no Exército.
Alexis acena para mim agora, assim como a Sra. Banks, que gesticula para eu me sentar em um dos terminais de consulta mais afastados, onde está mais silencioso. Embora não muito.
A bibliotecária assistente está lendo uma história sobre um coelho que vive dizendo à mãe as várias maneiras como pretende fugir de casa, mas, obviamente, se o coelho fosse mesmo fazer isso, não contaria nada. Quando você leva a sério uma coisa dessas, não revela a ninguém.
Uma das crianças se afasta do círculo e vai até onde estou sentada. As fraldas dela vão até os joelhos e noto uma mancha grande do que parecem ser ervilhas, mas pode ser algo muito mais nojento, na frente da sua camisa do desenho animado Carros. Sinto nojo. Crianças são como parasitas. Imagino que Tricia tenha pensado o mesmo de mim. Pergunto-me se Meg também.
A bibliotecária passa para outro livro, algo sobre balões que estão desaparecendo, o que soa ainda mais idiota. Talvez seja por isso que meu amiguinho de fraldas todo sujo não parece interessado em voltar à roda de leitura; ele apenas me encara com seus olhos pidões.
Tento desviar o olhar, mas não é nada fácil quando alguém olha fixamente para você. O esforço de não encarar o garotinho faz meu estômago se revirar como o tambor de uma máquina de lavar roupas. Gira. Gira. Gira. Vejo Alice nas montanhas em Montana, cercada por um bando de outras pessoas tão alegres quanto ela. Gira. Gira. Gira. Vejo Hendrix engolindo o rato. Gira. Gira. Gira. Vejo Meg diante do computador, digitando o bilhete de suicídio que seria enviado com atraso. Gira. Gira. Gira. Vejo a mim mesma, sentada nesta mesma biblioteca, abrindo seu bilhete de suicídio: Sinto informar que…
O garotinho continua do meu lado, suas mãozinhas imundas e grudentas a poucos centímetros do teclado.
— Nem pense em chegar mais perto — digo, fitando-o com o olhar mais zangado possível, para o caso de minha voz não ter soado ameaçadora o suficiente.
Ele faz um beicinho antes de começar a chorar. A mãe vem correndo, pedindo desculpas, o que significa que ela provavelmente não sabe o que eu disse, mas Alexis me olha com uma expressão estranha, o que significa que ela provavelmente sabe.
Então é isto que eu me tornei: uma pessoa que entra em conflito com crianças de colo.
Volto minha atenção para o computador, descendo a barra de rolagem pelas palavras de All_BS: Uma chama voraz originou-se de uma ínfima fagulhaEncaixe a coragem em seu devido lugar. O garotinho agora choraminga na segurança do colo da mãe. Sinto vergonha, mas isso me traz certa clareza: posso criar pequenos conflitos ou enfrentar o maior de todos.
É hora de encaixar minha coragem em seu devido lugar. Ou morrer tentando.
Envio duas mensagens, uma atrás da outra. A primeira é para Harry Kang, perguntando de que tipo de informação preciso para rastrear alguém, porque toda essa história de me tornar amiga de All_BS é inútil se eu não conseguir descobrir quem ele é.
A segunda é para o próprio:

Estou pronta. Quero dar os próximos passos. Você pode me ajudar?

Assim que envio a segunda mensagem, minha raiva, minha angústia e minha autocomiseração desaparecem, deixando apenas serenidade e uma determinação inabalável.
Pergunto-me se foi assim que Meg se sentiu.
O garotinho parou de chorar e agora está olhando para mim com uma expressão ressentida, o rosto manchado de lágrimas. Abro um sorriso para ele.

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