17 de maio de 2017

21

Tricia está de bom humor. No fim de semana em que perdi feio em Seattle, ela ganhou uma bolada no cassino. Então, mesmo depois de pagar comida, hotel e gasolina, ela volta para casa 200 dólares mais rica. À noite, durante o jantar, ela abre as notas de 20 em forma de leque e diz que deveríamos fazer alguma extravagância. Para Tricia, isso geralmente significa comprar algo caro e inútil que ela vê na televisão, como uma máquina de fazer sorvete que vai usar duas vezes e depois vai virar um depósito para mais tralha.
— O que você acha que devíamos comprar? — pergunta ela.
— Um pacote de um ano de internet.
— Por que você não para de falar nisso?
Fico calada.
— Ah, então tem um cara na jogada. — Ela abre um sorriso malicioso. — Eu sempre soube. Não vá ficar grávida!
Se tem uma coisa que Tricia fez questão de enfiar na minha cabeça ao longo dos anos é que eu não devia cometer o mesmo erro que ela.
— Você já foi a Tacoma, o quê, três vezes? E agora quer ter internet para entrar em salas de bate-papo e fazer sei lá o quê. Não me diga que não tem um cara.
Depois do beijo, Ben tentou me acalmar, mas eu peguei minhas coisas, comecei a andar em direção à rodoviária e ele se viu forçado a me dar uma carona. No carro, ele disse:
— Está tudo bem, Cody.
— Como você pode dizer isso? Não sei se ela pode nos ver. Se ela está no céu ou no inferno nos observando. Mas, se estiver, está enojada. Você sabe disso, não sabe?
Ele deu de ombros.
— Talvez. Quem sabe?
— Eu sei. E, de qualquer forma, não faz diferença, porque eu estou enojada.
Ben não fala mais nada depois disso. Na rodoviária, peço para ele me encaminhar todos aqueles longos e-mails que Meg lhe enviou e, então, nunca mais entrar em contato comigo.
— Não tem cara nenhum — digo a Tricia.
— Se você diz...
No fim das contas, ela compra um braseiro ornamental.

° ° °

Eu li todos os posts escritos por All_BS que consegui encontrar. Ele não publica muita coisa.
Mas é o suficiente para deixar claro que está ali, prestando atenção. E quanto ao nickname? O que ele quer dizer? Será que é uma abreviação para “All Bullshit”? Como se quisesse dizer que aquele fórum era uma enganação? Ou que a vida é que era?

° ° °

Um dia, voltando para casa da biblioteca, vejo Sue saindo com o carro do estacionamento do restaurante fast-food que serve frango frito. Meu impulso é me agachar para que ela não me veja.
— Precisa de carona? — pergunta ela, parando o carro do meu lado.
Olho para dentro do veículo. Não vejo Joe nem Scottie, apenas uma sacola grande, já empapada de gordura. Sue passa o frango para o banco de trás e abre a porta para mim.
— Para onde você está indo? — indaga ela, como se tivéssemos muitas opções.
— Para casa — respondo, o que é verdade. — Tricia está me esperando — acrescento, o que é mentira, mas tenho medo de Sue me convidar para a casa dela. Não conseguiria aguentar isso, especialmente agora, com a pasta cheia de mensagens impressas do Solução Final.
— Você anda sumida ultimamente. Deixei algumas mensagens de voz.
— Desculpe. Tenho estado ocupada.
— Não se preocupe. Queremos que você siga com a sua vida.
— É o que estou fazendo — afirmo. A mentira sai da minha boca com tanta facilidade que é quase como se fosse verdade.
— Que bom. Fico feliz.
Sue olha para a pasta e eu começo a suar frio. Temo que vá perguntar sobre ela, mas, por fim, não fala nada. O silêncio se adensa, abrindo um abismo entre nós duas, ondulando como o calor que sobe do asfalto vazio.
A cidade é pequena, logo em cinco minutos estamos em casa. Fico aliviada ao ver o carro de Tricia na entrada, pois ele serve de álibi para a minha história.
— Venha jantar conosco algum dia na semana que vem, se quiser — diz Sue. Ela olha para a sacola no banco de trás; o cheiro de frango frito já tomou conta do carro. — Se você vier, posso fazer aquele chili de que gosta. Estou voltando a cozinhar aos poucos.
— Seria ótimo.
Abro a porta e, ao fechá-la, vejo de relance o rosto de Sue no retrovisor e percebo que somos duas mentirosas agora.

° ° °

No dia seguinte, limpo a casa da Sra. Driggs. É uma das minhas faxinas mais fáceis, pois tudo ali está sempre impecável. Desfaço a cama dela, e os lençóis cheiram a uma senhora de idade, embora a Sra. Driggs não seja nem dez anos mais velha do que Tricia. Esfrego a banheira, aciono a autolimpeza do forno, passo o limpa-vidros nas janelas. Deixo o quarto de Jeremy por último. A atmosfera é meio fantasmagórica e me dá calafrios passar o aspirador naquele carpete ainda com as marcas da faxina da semana passada.
Passo o aspirador no canto em que ficava o viveiro de Hendrix. Algo faz barulho no motor. Desligo o aparelho, agacho-me para ver o que entrou ali e encontro um grampo de cabelo, do tipo que a Sra. Driggs usa para prender o coque. Então ela assombra este quarto vazio, esta casa vazia. Devia arranjar um bicho de estimação, talvez alguns gatos. Muito melhor do que uma cobra, embora gatos também comam ratos. Mesmo assim, não seria um jogo tão desleal quanto Jeremy dando de comer a Hendrix — a vítima e o vencedor predeterminados. Pobre ratinho.
Estou sentada ali com o grampo de cabelo na mão quando tenho um estalo. Já sei como encontrar All_BS. Ele é a cobra. Para apanhá-lo, preciso ser o rato.

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Boa leitura :)