17 de maio de 2017

20

Chegamos à casa de Ben e ele desfaz as malas; depois, passamos meia hora iluminando as paredes com uma lanterna e vendo Grapette e Repete perseguirem o foco de luz.
Provavelmente é a coisa mais divertida dos últimos meses.
Ben faz uma lista das casas noturnas às quais Meg costumava ir com mais frequência. Nenhuma delas abre antes das onze, mas ficam em atividade até as quatro da madrugada.
Tomamos algumas doses de espresso no café mais próximo antes de entrarmos no carro dele e irmos para a cidade.
Vamos primeiro ao clube em Fremont onde conheci Ben. Ele me apresenta a um grupo de garotas descoladas com vestidos bonitos e sapatos bacanas: a galera de Meg. São todas cerca de dez anos mais velhas, mas isso não seria empecilho para ela. Quando Ben explica quem eu sou, uma das mulheres me dá um abraço espontâneo. Então, me segura com os braços esticados e diz:
— Vai passar. Sei que parece que não, mas vai, sim.
Percebo que ela também passou pela mesma coisa, que também foi deixada para trás, e isso faz com que eu me sinta menos sozinha.
Nenhuma dessas mulheres sabia que Meg tinha ido ao centro de saúde; a maioria não tinha sequer conhecimento de que ela estava na faculdade. Se Meg não lhes contou nem isso, o mais provável é que não tenha contado sobre o Solução Final. Não toco no assunto.
Vamos a outro lugar. Mal passamos pelo leão de chácara e uma garota de cabelos louros repicados se joga nos braços de Ben.
— Onde você se meteu? — ela exige saber. — Já mandei, tipo, umas cem mensagens para você.
Ben não retribui o abraço, só meio que afaga o ombro dela, sem jeito. Depois de um instante, ela recua alguns passos, fazendo um biquinho fingido. Então me vê.
— Oi, Clem — diz Ben. Ele parece cansado. — Eu estava em turnê.
— Ah, sei. Em turnê. É assim que você chama isso agora? — questiona ela, ainda olhando para mim.
— Oi. Eu sou a Cody.
— Cody é amiga de Meg — explica Ben. — Você conheceu a Meg Garcia?
Clem se vira para Ben.
— Fala sério. Você resolveu, tipo, pegar as meninas em que deu um pé na bunda e organizar uma irmandade para elas? Será que a gente devia, tipo, combinar de se vestir igual?
Ela revira os olhos e faz um biquinho de verdade agora. Então bufa de desprezo antes de se afastar, puta da vida, mostrando o dedo do meio para Ben.
— Desculpe por isso — lamenta-se Ben, olhando para os próprios sapatos.
— Por que está pedindo desculpas?
— Ela e eu… Foi um tempão atrás… — começa a falar, mas eu abano as mãos para ele parar.
— Você não me deve explicação nenhuma.
Ele abre a boca para dizer mais alguma coisa, mas então vê um cara com óculos de armação grossa e o topete mais elaborado que eu já vi. Ele está com uma garota de franja curta e batom vermelho-vivo.
— Aquele é o Hidecki. Ele conhecia bem a Meg.
Ben faz as devidas apresentações e nós conversamos um pouco, mas nem Hidecki nem a garota que está com ele sabem nada da questão do centro de saúde. Depois de um tempo, não tenho mais perguntas, então Hidecki indaga sobre os gatos.
A garota que está com ele me conta que Hidecki doou 100 dólares para o fundo de reabilitação deles.
— É por isso que está tão interessado — explica ela.
— Cem dólares — repito. — Você deve gostar mesmo de gatos.
— Eu gostava da Meg — corrige ele. — Além disso, ela me fez economizar uma grana quando consertou meu amplificador.
— Ela consertou seu amplificador?
Ele assente.
— Trocou o potenciômetro de volume e me mostrou como fazer. A princípio, não levei muita fé, mas ela sabia usar uma pistola de solda.
— É, sabia. E os gatos estão ótimos. Ben os adotou, na verdade.
— Ben? — Ele o olha com uma expressão que eu não chamaria de amigável.
— Sim. Tem até fotos deles no telefone. Por que não mostra para ele, Ben?
— Outra hora — responde Ben, lacônico. — É melhor a gente tentar outros lugares.
Nós vamos até outras casas noturnas. Sou apresentada a um monte de pessoas que conheciam Meg, que sentem falta dela. Mas ninguém sabe do centro de saúde. Consigo alguns nomes e e-mails de outros amigos dela. Às quatro da manhã, não temos nenhuma pista concreta, mas um monte de contatos para continuar tentando. Estou tão cansada que minhas pernas parecem que vão ceder. Os olhos de Ben estão mais vermelhos que os de Richard Locão depois de umas cachimbadas. Sugiro dar a noite por encerrada.
Quando voltamos para a casa dele, Ben me conduz até o seu quarto. Eu paro em frente à porta, como se lá dentro fosse radioativo. Ele olha para mim.
— Pode dormir aqui. Eu durmo no sofá.
— Não precisa. Eu fico no sofá.
— É mais confortável aqui. E silencioso.
Eu faço uma careta.
— Desculpe, Ben, mas os seus lençóis devem ter o DNA de metade da população feminina de Seattle.
— Também não é assim, Cody.
— Sério? — pergunto, sarcástica.
— Clem foi há um… Ah, esqueça. Vou trocar os lençóis para você.
— Eu durmo no sofá sem problema.
— Cody, já falei que vou trocar os malditos lençóis.
Não posso culpá-lo por ficar com raiva. São cinco da madrugada e ele acabou de voltar de oito noites dormindo no chão ou na van da turnê. Mesmo assim, ele faz a cama, afofando os travesseiros e dobrando a parte de cima do edredom para que pareça mais convidativo.
Eu me acomodo nos travesseiros. Os gatos sobem correndo e se aninham na parte de baixo da cama, o cantinho de dormir deles, imagino.
Ouço Ben escovar os dentes e, então, as tábuas do assoalho rangerem. Ele para diante da porta. Por um instante, tenho medo de que vá entrar; por um instante, tenho medo de querer que ele faça isso. Mas ele fica apenas parado ali.
— Boa noite, Cody.
— Boa noite, Ben.

° ° °

Durmo até o meio-dia e acordo descansada, sem as dores no corpo que eu achava que não iriam passar nunca. Quando chego à cozinha, Ben já está acordado, tomando café e conversando com seus colegas de casa, a quem me apresenta. Ele está comendo uma tigela de granola e me oferece um pouco.
— Posso pegar eu mesma — respondo.
Pego uma tigela no secador de pratos e acho a granola no armário; é estranho eu estar agindo como se já fosse de casa.
Ben sorri para mim, como se também percebesse essa novidade, e então continua falando com o resto do pessoal sobre a turnê. Eles são gente boa, não os roqueiros típicos que eu imaginava: alguns são estudantes, outros têm emprego. Um dos caras cresceu em uma cidade que fica a uns 30 quilômetros da minha. Nós reclamamos sobre o estado lastimável do leste de Washington, que parece congelado no tempo, e nos perguntamos por que, depois que você passa de Cascades, na direção leste, as pessoas começam a falar com um sotaque sulista.
O dia está ensolarado e o monte Rainier controla a incidência dos raios de sol sobre a cidade. Em dias como este é fácil esquecer o que acontece aqui no outono e no inverno.
Depois do café da manhã, Ben e eu descemos os degraus que levam ao quintal. Em um dos cantos, percebo uma pilha alta de madeira coberta com uma lona.
— O que é aquilo? — pergunto.
Ele dá de ombros.
— Só uma coisa que eu faço na minha imensa quantidade de tempo livre.
Puxo a lona. Ela esconde algumas prateleiras em estágio inicial, bem cortadas, como as que estão nas paredes da casa.
— Você fez isso? — pergunto.
Ele torna a encolher os ombros.
— São muito boas — elogio.
— Não precisa parecer tão chocada.
— Não diria chocada, mas ligeiramente surpresa.
Sentamos nos degraus de madeira e observamos Grapette e Repete correrem atrás de folhas e se engalfinharem.
— Eles parecem estar se divertindo — comenta Ben.
— Como? Brigando?
— Apenas existindo.
— Talvez, na minha próxima vida, eu devesse voltar como um gato.
Ele me olha de esguelha.
— Ou como um peixinho dourado. Algum bicho idiota.
— Ei — fala ele, fingindo tomar as dores de Grapette e Repete.
— Olhe como é fácil para eles. De que adianta a nossa inteligência se ela só serve para nos deixar malucos? Quero dizer, animais não cometem suicídio.
Ele observa os gatos, que agora estão empenhados em disputar um graveto.
— Não temos como afirmar isso. Animais podem não tomar veneno, mas talvez parem de comer e se separem do bando, sabendo que vão virar o jantar de outro bicho se fizerem isso.
— Pode ser. — Aponto para os gatos. — Mesmo assim, eu gostaria de ser feliz assim outra vez. Estou começando a duvidar se já fui um dia. Você já?
Ben faz que sim com a cabeça.
— Quando eu era pequeno. Depois que meu pai foi embora, antes de a minha mãe arranjar outro cara e engravidar da minha irmãzinha. Eu e meus irmãos costumávamos sair em explorações. Íamos nadar no rio ou construir fortes na floresta atrás de onde morávamos. Era como ser Tom Sawyer.
Encaro Ben, tentando imaginá-lo criança e livre.
— Por que está me olhando assim? Acha que eu nunca li As aventuras de Tom Sawyer?
Dou uma risada. É um som estranho.
— Eu também li As aventuras de Huckleberry Finn. Sou um intelectual.
— Não sei se você é intelectual, mas sei que é inteligente. Meg não teria paciência para você se não fosse. Mesmo sendo tão bonito. — Sinto que estou ficando vermelha e olho para o outro lado.
— Você também é bonita, Cody Reynolds.
Volto a encará-lo e, por um instante, me esqueço de tudo. Então lembro que não posso esquecer.
— Preciso lhe contar outra coisa.
O olhar de Ben muda, como um semáforo passando de verde para amarelo.
— Encontrei outras coisas de Meg. Coisas que ela postou em um grupo de apoio para suicidas.
Ben entorta a cabeça.
— Não é esse tipo de grupo.
O olhar dele muda novamente, de amarelo para vermelho. Pare. Mas não consigo parar.
— Acho que você devia ler. Eu trouxe as mensagens impressas. Estão no seu quarto, com as minhas coisas.
Subo de volta com Ben, em silêncio absoluto, o calor do dia substituído por um frio repentino, embora o sol ainda esteja bem forte. Pego o maço grosso de papéis.
— É melhor você começar do início.
Fico observando enquanto ele lê. É como assistir a uma avalanche. Primeiro, os deslizamentos de neve, depois uma onda maciça, até que o rosto inteiro de Ben desmorona.
Vendo o seu semblante, volto a sentir aquele mal-estar, agora multiplicado por cem. Quando larga a última página, ele olha para mim; a expressão em seu rosto é terrível. Vejo fúria, culpa, coisas com as quais consigo lidar, pois estou acostumada a elas, mas também medo e pavor, e é como se bombas estivessem explodindo no meu estômago.
— Puta que pariu!
— Pois é — digo. — Ele teve uma parcela de culpa. Pela morte dela.
Mas Ben não responde. Em vez disso, pega o próprio laptop e o traz até o futon. Abre sua caixa de entrada e vai para os e-mails de Meg. Desce a barra de rolagem até achar o que estava procurando. A mensagem foi escrita duas semanas antes de ela morrer.
— Leia — diz ele, a voz em frangalhos.
Ele aponta para o meio da tela.

Não tenho ido muito a Seattle ultimamente, como você deve ter notado, e devo admitir que, a princípio, foi porque estava me sentindo meio para baixo e constrangida sobre o que aconteceu entre nós. Ainda não acredito que agi daquele jeito. Mas já não me sinto assim. Você se lembra de quando falou, algum tempo atrás, que eu deveria encontrar outra pessoa para conversar? Eu encontrei. Um monte de gente. Pessoas incrivelmente inteligentes, que têm uma maneira muito subversiva de olhar para as coisas, e você sabe como isso sempre me encantou, ir contra a corrente. Acho que é por isso que sempre me senti tão atraída por música, bandas e coisas do tipo, mas a rebeldia não é exclusividade de vocês. Existem muitos outros caminhos. Tantas maneiras de viver, de definir o que viver significa para você e mais ninguém. Nossa forma de pensar é tão limitada, e uma vez que você entende isso, uma vez que decide não se conformar com essas limitações artificiais, tudo é possível e você se sente muito livre.
Enfim, é isso que venho aprendendo com essa nova comunidade. E eles estão me ajudando de verdade. Não tenho dúvidas de que as pessoas ficarão surpresas com o rumo que vou tomar, mas assim é a vida no mundo do punk rock, não é? Bem, preciso ir andando. Preciso pegar o ônibus.

Termino de ler e levanto a cabeça. Ben está agachado na beirada do futon.
— Ela estava tentando me contar. Sobre essa merda desse grupo suicida. Ela estava tentando me contar.
— Você não tinha como saber.
— Ela estava tentando me contar — repete Ben. — Em todos esses e-mails. Ela estava tentando me contar. E eu falei para ela me deixar em paz.
Ben dá um murro na parede. O reboco racha. Ele dá outro murro e os nós dos dedos começam a sangrar.
— Ben! Pare com isso! — Eu salto até o lado da cama em que ele está e seguro o seu punho antes de ele socar a parede uma terceira vez. — Pare! Não é culpa sua. Não é culpa sua. Não é culpa sua.
Repito as palavras que desejava que alguém tivesse dito para mim, e de repente estamos nos beijando. Sinto o gosto da agonia e da carência dele, das lágrimas dele e das minhas lágrimas.
— Cody — sussurra ele. E é a ternura em sua voz que me faz voltar à realidade com um sobressalto.
Eu pulo da cama. Cubro os lábios com a mão. Enfio a blusa dentro da calça.
— Preciso ir embora.
— Cody.
— Preciso ir para casa agora. Tenho que trabalhar amanhã cedo.
— Cody — implora Ben.
Mas já estou fora do quarto, batendo a porta antes de ele ter a chance de dizer meu nome mais uma vez.

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