17 de maio de 2017

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Depois de ler essa resposta ao e-mail de Meg, saí correndo da biblioteca como a covarde que sou, jurando nunca mais visitar aquele fórum. Levei apenas dois dias para quebrar a promessa.
E não o fiz por nenhum tipo de bravura, mas pelo mesmo motivo que me levou a ceder e dormir nos lençóis dela em Tacoma. Para estar mais perto de Meg. Todas as vezes que leio um de seus posts, por mais que sejam sobre a morte, é como se ela estivesse viva.

Firefly1021
Da frigideira para o fogo
Se tem uma coisa que funde a minha cabeça é o seguinte: a vida após a morte. E se houver mesmo uma vida após a morte, e ela for tão ruim quanto a vida de agora? E se eu escapar do sofrimento desta vida só para acabar em um lugar pior? Eu imagino a morte como uma escapatória, uma libertação da dor. Mas minha família é católica, acredita piamente no inferno e, embora eu não acredite na mesma versão que eles, com demônios, danação eterna e tudo o mais, e se for apenas igual a isto aqui?
Flg_3: O inferno é uma invenção cristã para manter você na linha. Não caia nessa. Se você está sofrendo, faça o que precisa fazer para acabar com o sofrimento. Os animais arrancam as próprias patas com os dentes. Humanos são mais desenvolvidos e têm métodos diferentes.
Sassafrants: O inferno são os outros.
Trashtalker: Se a vida após a morte for uma bosta, você se mata de novo.
All_BS: Você se lembra de ter sofrido antes de nascer? Se lembra de algum tormento antes de ter vindo para este mundo? Às vezes uma dor é tolerável até ser tocada, até cutucarmos a ferida. O mesmo se aplica ao sofrimento desta vida; ele é trazido à tona pelo tumulto da existência. “Não é a morte ou a dor que deve ser temida, mas o medo da dor ou da morte”, escreveu Epiteto. Não tenha medo. Não se apavore. A dor irá embora e você estará livre.

All_BS. O usuário que a havia chamado de destemida antes. Que escreve frases elaboradas e cita filósofos do passado. Que, de um jeito um tanto pervertido, diz coisas que fazem sentido.
Releio a última mensagem dele e uma voz grita dentro da minha cabeça: Pare de falar com ela. Deixe a minha amiga em paz.
Como se isto ainda estivesse acontecendo. Como se já não fosse tarde demais.

Firefly1021
Tomar medicamentos ou não tomar medicamentos?
Uma amiga me disse para ir ao centro de saúde do campus, pois eles podiam me arranjar alguns medicamentos, então conversei com uma enfermeira de lá. Não contei a ela tudo o que estava acontecendo, não sobre as coisas de que tenho comentado aqui. Mas, quando a enfermeira começou a falar sobre os efeitos dos primeiros anos de faculdade longe de casa, era como se ela estivesse recitando os mesmos clichês de sempre. Ela me deu alguns panfletos e amostras grátis e marcou uma consulta para eu voltar daqui a duas semanas, mas acho que não vou. Sempre acreditei que é melhor ser odiada do que ignorada. Talvez, da mesma forma, seja melhor sentir isto do que não sentir nada.

Uma coisa são mensagens digitadas no limbo, mas parece que ela estava falando com alguém no mundo real também. Alguém que não era eu. O ciúme que sinto ferver dentro de mim me enche de vergonha. É muito patético. Como se eu estivesse brincando de cabo de guerra, mas ninguém estivesse segurando a outra ponta da corda.
Corro os olhos pelas respostas. Algumas pessoas alertam Meg, dizendo que os antidepressivos fazem parte de um plano para controlar a mente das pessoas desenvolvido pela indústria farmacêutica. Outros falam que tomá-los vai entorpecer a mente dela. Há também quem comente que o ser humano sempre usou substâncias alteradoras de consciência e que os antidepressivos são apenas a versão mais recente delas.
E então chego à seguinte resposta:

All_BS: Uma coisa é usar uma substância natural como o peiote para obter uma experiência de expansão de consciência, outra bem diferente é permitir que um bando de robôs em jalecos de laboratório manipule a química cerebral com tanta precisão a ponto de conseguir controlar pensamentos e sentimentos. Você já leu Admirável mundo novo? Esses novos medicamentos milagrosos são como a droga chamada Soma, um narcótico produzido pelo governo para apagar qualquer tipo de individualidade e divergência. Firefly, sentir seus próprios sentimentos é um ato de bravura.

Ah, Meg teria adorado isso. Sentir seus próprios sentimentos é um ato de bravura, mesmo que seus sentimentos estejam dizendo para você morrer.
E, mais uma vez, não consigo deixar de me perguntar: por que ela não veio a mim? Por que não foi a mim que pediu ajuda?
Será que eu ignorei alguma coisa nos e-mails dela? Abro meu e-mail para conferir as mensagens que ela me enviou em janeiro, no mês em que publicou essa postagem no fórum.
Mas não trocamos nenhuma mensagem durante o mês inteiro.
Não foi exatamente uma briga. Foi silencioso demais para isso. Meg estava passando a maior parte do recesso de inverno em Tacoma por causa do estágio, então só voltaria para casa por dez dias entre o Natal e o Ano-Novo. Eu estava ansiosa por revê-la, mas, no último minuto, ela disse que precisaria ir para o sul do Oregon visitar a família de Joe, então nem voltaria para casa. Normalmente, eu teria sido convidada para passar as festas de fim de ano com eles no Oregon. Mas não fui. Bem, pelo menos não até a véspera de Ano-Novo, quando Meg me telefonou implorando para que eu fosse encontrá-la.
— Você precisa me salvar das festas de fim de ano — disse ela, exasperada. — Meus pais estão me deixando louca.
— Sério? — respondi. — Porque eu passei o dia de Natal comendo um prato de peru de 8 dólares em uma lanchonete com Tricia e foi uma experiência mágica.
Antes, teríamos rido disso — como se minha vida patética com Tricia pertencesse a alguma outra pessoa —, mas não foi o que aconteceu, então não teve graça.
— Ai — lamentou Meg. — Sinto muito.
Eu estava pedindo que ela sentisse pena de mim, mas, ainda assim, fiquei com mais raiva. Disse que precisava trabalhar e nós desligamos. Então, na virada do ano, nem nos telefonamos. Depois disso, passamos um tempo sem nos comunicar. Eu não sabia como quebrar o gelo porque não tínhamos exatamente brigado. Quando o Sr. Purdue apertou minha bunda (algo para contar, enfim), aproveitei a chance e mandei um e-mail para ela como se nada tivesse acontecido.
Vou descendo de volta até setembro, o mês em que Meg foi para a faculdade. Leio os primeiros e-mails que ela me enviou de lá, as longas descrições de seus colegas de república, com os desenhos escaneados, tão típicas de Meg. Me lembro de como li essas mensagens inúmeras vezes, por mais que para mim fossem como um soco no estômago. Eu sentia muita saudade dela, e queria ter podido estar lá, ter concretizado nossos planos. Mas nunca lhe falei isso. Aliás, não lhe falei muitas coisas. E ela me falou menos coisas ainda.

Firefly1021
Culpa
Não consigo parar de pensar na minha família; nem tanto nos meus pais, mas no meu irmão mais novo. Como ele vai lidar com isso?
All_BS: James Baldwin escreveu que “A liberdade não é algo que você possa receber de alguém. A liberdade deve ser conquistada, e as pessoas são tão livres quanto desejam ser”. Você precisa decidir se está disposta a conquistar sua liberdade e se, ao fazer isso, estará involuntariamente libertando outras pessoas também. Quem sabe quais caminhos sua decisão poderá abrir para o seu irmão? Pode ser que, uma vez livre da sua sombra, livre para se tornar ele mesmo, seu irmão possa alcançar um potencial que talvez não alcançaria de outra forma.
Firefly1021: All_BS, você é tão perspicaz que chega a ser bizarro. Sempre achei que meu irmão tem sido limitado, por mim, pela minha mãe. Ele seria uma pessoa diferente se eu estivesse morta. Mas isso não é o tipo de coisa que você possa dizer.
All_BS: Mas agora mesmo estamos dizendo.
Firefly1021: É, estamos. É por isso que adoro este fórum. Nada é proibido. Podemos falar sobre tudo. Até sobre as coisas que são indizíveis.
All_BS: Sim. Há tantos tabus na nossa cultura, a começar pela morte. Não é assim em outras culturas que a veem como parte de um ciclo ininterrupto: nascimento, vida, morte. Da mesma forma, outras culturas encaram o suicídio como uma escolha de vida honrada e corajosa. Nas palavras do samurai Yamamoto Tsunetomo: “O caminho do guerreiro é a morte. Isso significa simplesmente que, sempre que a escolha seja entre a vida e a morte, ele deve escolher a segunda. Nada mais que isso. Não devemos nos iludir, mas ter determinação.” Eu acredito que você tem uma guerreira dentro de você, Firefly.
Firfley1021: Uma guerreira? Duvido que consiga manejar uma espada.
All_BS: A espada não é importante. O espírito, sim. Você precisa entrar em contato com a sua força.
Firefly1021: Como? Como entro em contato com a minha força? Como fazer algo que exige tanta coragem?
All_BS: Você precisa encaixar a coragem em seu devido lugar.
Firefly1021: “Encaixar a coragem em seu devido lugar”... Gostei disso! Você sempre diz as coisas mais inspiradoras. Eu poderia conversar com você o dia inteiro.
All_BS: Não posso levar o crédito por essa frase. É de Shakespeare. Mas podemos ter uma comunicação mais imediata e particular. Crie um novo endereço de e-mail e publique o endereço aqui. Eu vou lhe mandar um e-mail com as instruções e seguimos a partir daí.

Sinto o gosto amargo do ciúme outra vez. Não sei se é porque noto a intimidade entre Meg e All_BS. Ou se é porque, ao listar as pessoas com que se preocupava em deixar para trás, ela mencionou seus pais, seu irmão, mas não eu.

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Boa leitura :)