17 de maio de 2017

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Quando decidi não ir para a Universidade de Washington e continuar na cidade para fazer a faculdade comunitária da região, Tricia exigiu que eu arranjasse um emprego. O Dairy Queen estava contratando, então preenchi uma ficha de candidatura e a entreguei à gerente da lanchonete, que nada mais era que Tammy Henthoff.
— Você é amiga da filha dos Garcias, não é? — perguntou ela, estreitando os olhos para ler a minha ficha.
— Meg? Sim. Ela é minha melhor amiga. Está fazendo faculdade em Tacoma agora, conseguiu uma bolsa integral. — Eu estava muito orgulhosa dela.
— Aham.
Tammy não ficou impressionada. Ou talvez estivesse apenas na defensiva. Desde que havia fugido com Matt Parner, as pessoas da cidade não lhe eram nada simpáticas. Ela perdera o emprego na concessionária de veículos em que o marido costumava trabalhar e eu ouvira dizer que Melissa, a ex-mulher de Matt, tinha criado o hábito de parar o carro em frente ao DQ com todas as suas amigas para gritar insultos contra ela. Não que Tammy não merecesse. Mas Matt manteve o emprego na oficina Jiffy Lube e ninguém parava de carro ali para gritar sua puta.
Enquanto Tammy me entrevistava, um grupo de alunos do ensino médio entrou na lanchonete. Todo mundo se encontrava no DQ, e foi então que percebi que, se ficasse com o emprego, precisaria servir hambúrgueres para gente que eu havia passado os últimos quatro anos não exatamente esnobando, mas quase isso. Meg conhecia todo mundo na cidade e, sem dúvida, tinha admiradores, mas não era próxima de tantas pessoas assim. Tinha a família dela, o pessoal que conhecia pela internet e eu. No ensino médio, os professores começaram a nos chamar de Unha e Carne, e o apelido pegou, logo todos os tipos de pessoas nos chamavam assim. Éramos conhecidas como uma dupla. Até Tammy Henthoff, que se formara havia sete anos, sabia de nós. Trabalhar ali significaria ser bombardeada todos os dias: Você não é amiga de Meg? E depois: Então por que ainda está aqui na cidade?
Por volta da mesma época, a gerente noturna do restaurante onde Tricia trabalhava perguntou se ela conhecia alguém de confiança que pudesse limpar a sua casa. Tricia quis saber se eu estava interessada — quase como um desafio, pelo jeito; ela sabia quanto eu detestava fazer faxina. Mas você pode ser boa em algo que odeia. Logo, aquele trabalho se transformou em dois, quatro e agora seis.
Poucas semanas atrás, recebi um telefonema me oferecendo um emprego como vigilante no Pioneer Park. Sue conhecia a mulher que administrava o departamento municipal de parques e de alguma forma, em meio a tudo o que aconteceu, ainda conseguiu me indicar, e eu fui chamada para uma entrevista.
Era um bom trabalho, não pagava mal e tinha até benefícios. No dia da entrevista com o superintendente, quando cheguei ao parque, vi a nave espacial.
O Pioneer Park era onde Meg e eu tínhamos aprendido a andar de bicicleta. Onde tínhamos corrido em meio aos irrigadores sonhando com a piscina que a prefeitura às vezes falava que iria colocar ali (o que nunca aconteceu; nada acontece por aqui). Era um lugar em que podíamos ficar sozinhas e conversar além da casa dela, da minha casa, da escola ou do DQ.
A cápsula no topo da nave espacial era como o nosso clube secreto mágico. Sempre que subíamos a escada bamba até o nariz em forma de cone, éramos as únicas pessoas ali, embora fosse óbvio, por conta das mudanças constantes nas pichações, que outras pessoas também usavam o lugar.
Ler as pichações em voz alta era um dos nossos passatempos favoritos. Corações de casais já separados havia muito tempo, e letras de canções que ninguém mais lembrava.
Sempre havia coisas novas riscadas em cima das antigas, embora uma frase, a preferida de Meg, continuasse gravada no metal: Eu estive aqui. Ela adorava isso. “O que mais você pode dizer, não é mesmo?”, perguntava. Ela havia escrito a mesma frase em sua parede de pichações e vivia ameaçando tatuá-la um dia, quando superasse seu medo de agulhas.
Aquele lugar, uma verdadeira armadilha mortal, deveria ter sido condenado anos antes, mas nunca foi. Era o ponto mais alto da cidade e, em dias claros, dava para enxergar por quilômetros de distância. Meg costumava dizer que dava para ver o futuro lá longe.
Dei meia-volta e fui embora. Nem me dei o trabalho de telefonar para cancelar a entrevista.
Portanto, continuo limpando casas. Talvez seja melhor assim. Banheiros são anônimos. Não têm histórias para contar, nenhuma recriminação para jogar na sua cara. É só limpar a merda e dar descarga.
Na verdade, desde que voltei desta última ida a Tacoma, tenho estado ansiosa por trabalho. Esfregar, fazer tarefas repetitivas, ver-se diante de uma pia imunda, atacá-la com alvejante, lã de aço e, depois de um tempo, deixá-la brilhando... Os antes e depois da vida real nunca são tão simples assim.
Hoje, limpo duas casas, uma atrás da outra, colocando roupa para lavar, passando fronhas a ferro e lavando o piso quadriculado de uma das cozinhas com água e rodo. O piso é de linóleo, não de cerâmica de verdade. Mas, se é assim que a Sra. Chandler quer que ele seja lavado, quem sou eu para discutir?
Ao longo dos dias, quando não estou trabalhando, transfiro meu fervor pela limpeza para a pequena casa em que eu e Tricia moramos, levando água sanitária e uma escova de dentes velha para o banheiro e dando conta dos rejuntes do boxe, que tinham se tornado pretos com o tempo graças à umidade. Tricia fica tão chocada ao ver os azulejos passarem de acinzentados para branco e azul que nem sequer faz um de seus comentários sarcásticos.
Me mantenho freneticamente ocupada e a casa fica mais limpa do que jamais esteve desde que nos mudamos para cá. Sento na cama e organizo meus ganhos pelo valor das notas: ganhei 240 dólares só nesta semana. Preciso dar 100 a Tricia para cobrir minha parte das contas, mas isso me deixa com um excedente considerável e nada em que gastá-lo. Teoricamente, estou juntando dinheiro para me mudar para Seattle. Aprendi na aula de física que o universo está se expandindo em uma razão de mais ou menos 70 quilômetros por segundo, mas não parece, quando você está parada no mesmo lugar.
Guardo o dinheiro na caixa de metal que mantenho embaixo da cama. Não corro o risco de deixar dinheiro dando sopa para Tricia. A casa está silenciosa e abafada, mais claustrofóbica do que o normal. Calço minhas sandálias de dedo e vou andando para a cidade. Em frente ao Dairy Queen, vejo um monte de gente com quem estudei reunida nos bancos debaixo dos choupos, inclusive Troy Boggins. Eles acenam e eu aceno de volta, mas não me convidam a sentar com eles e eu não finjo estar interessada em fazer isso.
Em vez disso, vou para a biblioteca. Agora que Meg morreu e a casa dela não é mais meu segundo lar, este é o meu santuário. Além disso, tem ar-condicionado.
A Sra. Banks está sentada ao balcão de informações e me chama com um aceno.
— Cody, por onde você andou? Eu estava prestes a devolver estes livros aqui. — Ela apanha uma pilha de livros presos por um elástico. São mais autores da Europa Central: A guerra das salamandras, de Karel Čapek, Uma solidão ruidosa, de Bohumil Hrabal, uma coletânea de contos de Kafka.
— Obrigada.
Realmente estou sem livros para ler, mas, assim que entro no ambiente refrigerado da biblioteca, percebo que não é para isso que estou aqui.
Vou até os computadores de pesquisa. Digito Solução Final suicídio na caixa de busca.
Os resultados são quase todos sobre Hitler ou relacionados a neonazistas. Mas uma das páginas parece promissora. Clico no link, só que ela não carrega. Tento os outros sites da pesquisa, mas eles também não abrem.
— Tem alguma coisa de errado com os computadores? — pergunto à Sra. Banks.
— Acho que não. Por quê?
— As páginas não estão carregando.
— Cody, você está acessando sites de pornografia?
Ela está brincando, mas fico vermelha assim mesmo.
— É para um projeto de pesquisa.
— Sobre o quê?
— Grupos neonazistas.
Outra mentira. Ela sai da minha boca com toda a naturalidade do mundo.
— Ahh, então está explicado. Posso remover os filtros para você, se quiser.
— Não — falo no mesmo instante. Ninguém pode saber disso. Então me lembro que tenho um computador. E a biblioteca tem wi-fi livre. — Quero dizer, preciso ir embora. Mas pode ser amanhã?
— Quando quiser, Cody. Confio em você.

° ° °

No dia seguinte, levo o computador de Meg para a biblioteca. Antes de eu começar, a Sra. Banks me mostra como contornar os filtros de pesquisa. Então, começo a trabalhar. O tal site Solução Final não é bem um site, mas um portal de entrada. Você precisa clicar em um botão afirmando que tem mais de 18 anos. Sou redirecionada para um sumário com vários tópicos.
Clico nos títulos para abrir as mensagens. Muitas são spam. Várias outras são desabafos. Vou passando algumas páginas e parece ser uma perda de tempo. Então, vejo uma linha de assunto: E quanto à minha mulher?
A postagem é de um cara que diz querer se matar, mas se questiona como seria para a mulher, que ele ama: Não iria arruinar a vida dela?
Há uma série de respostas logo abaixo. A opinião predominante é que a mulher dele provavelmente ficará aliviada, que ela também deve estar sofrendo e que, ao se matar, ele vai acabar com a agonia dos dois. Mulheres costumam se recuperar melhor desse tipo de coisa, escreve alguém. Ela provavelmente vai se casar de novo daqui a alguns anos e estará muito melhor sem você.
Quem são essas pessoas? Era com essa gente que Meg estava falando?
Releio as respostas. O tom é tão casual que é como se estivessem dando conselhos sobre como consertar um carburador. Fico tensa e sinto o estômago embrulhar. Não sei se essas pessoas tiveram algo a ver com Meg. Não sei se o autor da postagem pretendia mesmo se matar ou se chegou a tanto. Mas de uma coisa eu sei: não é tão simples “se recuperar” desse tipo de coisa.

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