17 de maio de 2017

14

Enquanto eu estava fora, Tricia alardeou para metade da cidade que eu tinha voltado a Tacoma, logo Joe e Sue ficaram sabendo. Eles me telefonam, me convidam para jantar e, quando chego à casa deles, me pegam de surpresa, perguntando por que fiz aquilo.
— Eu saí correndo da última vez e quis conferir se não tinha deixado nada para trás.
— Ah, Cody, não precisava ter feito isso... — diz Sue. Ela balança a cabeça e me serve uma porção daqueles macarrões que você cozinha no próprio saco; parece algo que Tricia faria. — Você é tão boa conosco...
Meu segredo — o segredo de Meg — parece queimar dentro de mim. Eu não queria que fosse um segredo. Durante toda a viagem de volta para casa, me perguntei se deveria ou não contar a eles. Faria alguma diferença? Apenas lhes causaria mais dor? A única decisão a que consegui chegar foi a de evitar os Garcias depois que voltasse. E então, três dias se passaram e a decisão parece ter sido tomada à minha revelia.
Sue retira os pratos. Olha para o meu, mas não comenta que comi pouco. Percebo que ela também só brincou com a comida.
— Vai dormir aqui hoje? — pergunta Sue. — Joe enfim conseguiu entrar no quarto dela.
O quarto de Meg, no qual, segundo Scottie, ninguém tinha entrado desde que ela morreu.
Scottie apenas espiou lá dentro algumas vezes e tudo continuava exatamente como era antes, como se Meg estivesse prestes a voltar para casa. Eu conseguia visualizá-lo perfeitamente: a mesa bagunçada, cheia de cabos e pistolas de solda. O quadro de cortiça com a colagem de capas de discos antigos, desenhos a carvão e fotos. A parede de pichações, como chamávamos a que ficava de frente para a janela, que costumava ter um papel de parede horroroso, com motivos florais. Até o dia em que Meg se sentiu inspirada a arrancá-lo e pichou o reboco que havia por baixo com suas citações e letras de música favoritas. Sue ficou furiosa, primeiro porque ela estava vandalizando a propriedade, e depois porque os membros da igreja deles, que tinham vindo para um jantar informal, acharam que algumas das coisas que Meg havia escrito eram sacrilégio. “Você sabe como são as pessoas, Joe”, Meg ouviu Sue dizendo. Mas Joe defendeu Meg. Quem se importava com aquelas fofocas? Se a parede era uma boa válvula de escape para Meg, qual era o problema? Eles poderiam pintar a parede depois que ela fosse para a faculdade. Mas nunca fizeram isso. Agora, duvido que façam algum dia.
— Encontramos algumas coisas suas — avisa Joe. — E outras coisas de Meg que talvez você queira.
— Outra hora eu vejo. Tenho que acordar cedo amanhã para trabalhar.
É assim que funciona com as mentiras? A primeira é difícil, a segunda é mais fácil, até que saem da sua boca com mais facilidade do que as verdades — talvez porque sejam mais fáceis do que elas.
Vou embora por conta própria. Mas, antes de a porta se fechar, Scottie aparece com Samson na coleira.
— Vamos passear?
— Estou com pressa — retruco.
— Não tem problema. Samson gosta de correr, não gosta, garoto?
Saio andando a passos rápidos e Scottie não tem dificuldade em acompanhar meu ritmo, pois tem 10 anos e pernas longas. Samson nos acompanha, saltitante, cheirando tudo, em busca de lugares para fazer xixi.
Quando chegamos ao final do quarteirão, ele me pergunta por que voltei para Tacoma.
— Já disse: quis conferir se não havia deixado nada para trás.
Não sei se é mais difícil mentir para crianças ou se os detectores de conversa fiada deles são mais eficientes, mas, seja como for, Scottie me olha com uma cara de ceticismo que me corta o coração.
— Por que você foi de verdade?
— Scottie, podemos não ter essa conversa?
— Só quero saber por que você foi. Você encontrou alguma coisa, né?
Scottie é alto e magro e tem os cabelos louros de Sue, embora eles estejam começando a escurecer. Sei que ele acha que sua inocência foi completamente destruída, mas ele só tem 10 anos. Não foi. E, mesmo que tivesse sido, ele ainda tem tempo para recuperá-la. Mas não se eu lhe contar o que descobri. Que ela fingiu ser compradora de uma empresa de serviços de limpeza industrial para encomendar um detergente que deveria ser usado em artigos de tapeçaria pesados. Que ela teve todo esse trabalho extra porque era assim que Meg fazia as coisas, mas também porque estava tão determinada a morrer que precisava do produto químico com a menor margem de erro possível. Que ela planejou tudo meticulosamente, como se aquilo fosse apenas mais um show para o qual queria ter acesso aos camarins: Primeiro, vamos tentar os promoters, então, se não der certo, a estação de rádio; se nada disso der certo, podemos sempre pedir que alguns de nossos contatos em comum falem com a banda pra gente. Os planos dela davam certo. Sempre.
Meg pode não ter enviado o bilhete de suicídio para Scottie, mas lhe mandou uma mensagem de despedida dizendo que o amava. Acho que era isso que ela queria lhe deixar. Se eu contar a ele o que descobri, vou destruir isso, e talvez destruí-lo também. E já perdi um membro da família Garcia este ano. Balanço a cabeça.
— Não tinha nada para encontrar, Scottie, nada além de sujeira no carpete.
E então eu o deixo ali. Na esquina. No escuro.

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Boa leitura :)