17 de maio de 2017

13

Harry passa a noite inteira no computador. E a manhã do dia seguinte. Quando acordo, cedo, a luz do quarto dele está acesa e não me parece que ele tenha ido dormir.
— Estou quase lá — avisa ele, os olhos brilhando de entusiasmo. — Esta encriptação é muito incomum. Foi a própria Meg quem fez a programação?
Dou de ombros.
— Se foi, então lamento ainda mais a morte dela. — Ele balança a cabeça. — Poderíamos ter nos divertido muito juntos com essas coisas de geek.
Sorrio educadamente.
— Você nunca conhece as pessoas de verdade, não é? — comenta ele.
Não. Não conhece.

° ° °

Alice acorda algumas horas depois e vem correndo me abraçar como se fôssemos melhores amigas.
— Onde você se meteu ontem? — pergunta ela.
— Não tinha ninguém aqui. Fui a Seattle com o pessoal.
— Fiquei esperando, mas, como você não voltou, acabei indo para o cinema. Mas não importa. Você está aqui agora. Vou fazer umas torradas pra gente! Com pão caseiro.
Acompanho-a até a cozinha. Ela tenta cortar o pão, mas em vão. Sugiro tomarmos café da manhã na rua.
Voltamos à lanchonete onde passei a noite algumas semanas atrás. Alice fica contrariada, porque os ovos não são de galinhas caipiras, mas eu me dou por satisfeita, pois o menu especial de café da manhã é barato. Alice fala sem parar sobre o período acadêmico, a iminência das provas finais, as férias de verão em Eugene — ela diz que, se o tempo estiver bom, é como viver nos jardins do Éden; há até pessoas nuas em alguns círculos. Sou convidada a visitá-la antes de ela ir a Montana para um emprego de verão. Abro um sorriso forçado. Não sei o que mais posso fazer, pois ela está agindo como se fôssemos amigas. Apenas temos uma conhecida em comum, que, aliás, não está mais entre nós.
— Por que você foi a Seattle ontem? — pergunta ela depois de um tempo.
— Para ver os gatinhos.
— E Ben McCallister?
— É, ele estava lá também.
Os olhos dela faíscam.
— Ele é gato, não é?
— Acho que sim.
— Você acha? Ele e Meg tinham um caso, né?
Penso na descrição grosseira de Ben sobre o que aconteceu. Eu trepei com ela, disse ele, tão cheio de desprezo, por Meg, por si mesmo e pelo que eles fizeram, que eu me pergunto por que ele se deu o trabalho.
— Eu não chegaria a chamar de “caso”.
— Bem, eu não ligaria nem um pouco se fosse comigo.
Alice era tão doce, tão jovem, tão inocente... O que aconteceria com ela depois que fosse usada e abusada por Ben? Não é bonito de imaginar.
— Ligaria, sim.
Assim que terminamos de tomar o café, recebo uma mensagem de Harry: Consegui. Pago por nós duas e voltamos rapidamente para a casa. Harry está à nossa espera na varanda, com o computador de Meg no colo.
— Olhe só.
Eu olho.
Tem um documento aberto na tela. Um papel timbrado com um cabeçalho que contém alguns números e o nome “Hi-Watt Industrial Cleaning Company” — uma empresa de serviços de limpeza industrial.
— O que é isso?
— É uma licença comercial.
— Por que ela teria isso no computador?
— Você precisa de uma licença para comprar isto aqui.
Ele clica em outra janela. É uma lista de agentes químicos letais, onde obtê-los, como obtê-los, os efeitos fisiológicos esperados e a “taxa de sucesso” de cada um. O veneno que Meg usou está nessa lista. Ele tem uma das taxas de sucesso mais altas.
Começo a sentir um embrulho no estômago.
— Tem mais — continua Harry.
Ele abre outro documento, que parece mais uma lista de tarefas, como a ementa de uma disciplina. Mas, quando olho melhor, vejo que os itens na coluna esquerda são uma espécie de cronograma para a morte. Encomendar veneno. Escolher uma data. Limpar cache do navegador/e-mail. Programar o bilhete para ser enviado com atraso.
— Ai, meu Deus...
— Cody — diz Harry, com um tom de alerta na voz. — Tem mais.
Ele abre um arquivo simples do Word. Em um tom quase alegre, o texto parabeniza o leitor por ter dado o mais corajoso e decisivo passo de autodeterminação de todos. E então prossegue: Não temos controle sobre o nosso nascimento e geralmente temos pouco controle sobre a nossa morte. O suicídio é a única exceção. É preciso ter coragem para escolher esse caminho. O suicídio pode ser um rito de passagem sagrado. Em seguida, o texto passa a listar, de forma doentia, detalhes específicos sobre os melhores lugares e horários, e como ocultar seus planos de parentes e amigos. Chega até a oferecer dicas quanto ao que escrever no bilhete de suicídio. Meg usou trechos inteiros do bilhete de exemplo em sua mensagem.
Debruço-me sobre o peitoril da varanda e vomito em um arbusto de hortênsias silvestres.
Alice está chorando e Harry parece estar ligeiramente em pânico, como se não soubesse o que fazer com nenhuma de nós duas.
— Quem faria uma coisa dessas? — consigo falar, ofegante.
Harry dá de ombros.
— Pesquisei mais um pouco, joguei alguns dos conselhos do texto no Google, e parece que existe um monte de “grupos de apoio para suicidas”.
— Grupos de apoio? — pergunta Alice, confusa.
— Para incentivar as pessoas a se matarem — respondo.
Harry assente.
— Eles costumavam ser mais ativos, mas agora restam apenas alguns on-line. O que talvez explique por que é tudo tão sigiloso. Este material parece vir de um grupo específico, chamado Solução Final. Lindo nome. — Ele balança a cabeça, meio enojado. — Quem criou estes arquivos claramente não queria que eles fossem descobertos. — Harry sorri, então se lembra que não deveria. — A ironia é que, se ela tivesse deixado os arquivos desprotegidos e os tivesse deletado, eles não estariam mais no disco rígido.
— Como pode ter certeza de que é este tal grupo Solução Final? — indaga Alice.
— Meg limpou o histórico do navegador, mas não esvaziou o cache. — Ele olha para mim, e depois para o computador. — O site deles estava lá.

2 comentários:

  1. Mano, não tem base na quantidade de suicídios que vêm ocorrendo na minha região: Vale do Jequitinhonha, Minas gerais

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Boa leitura :)