17 de maio de 2017

12

Depois que Scottie vai embora, dou mais uma olhada nos e-mails de Meg. Ainda não consigo entender todas aquelas mensagens apagadas. Por que ela apagaria apenas os e-mails enviados, mas não os da caixa de entrada? Ou ela também deletou e-mails de lá e eu simplesmente não sei o que procurar? Por que aquelas seis semanas? E o que mais ela apagou? Existe alguma maneira de recuperar as mensagens antigas? Ou elas sumiram para sempre? Não faço ideia.
Não conheço ninguém que entenda disso.
Mas então me lembro de Harry Kang, o colega de república de Meg, que estuda computação. Procuro o pedaço de papel em que Alice anotou seu telefone. Ela não atende, logo deixo um recado, dizendo que quero falar com Harry.
Na manhã seguinte, sou acordada às 7h45 pelo toque do meu telefone.
— Alô — atendo com a voz engrolada.
— Aqui é Harry Kang.
Eu me sento na cama.
— Ah, Harry, olá, aqui é a Cody.
— Eu sei. Eu que liguei para você.
— Certo. Obrigada. Olha, não sei se você pode me ajudar, mas tenho um computador aqui e queria recuperar alguns e-mails que foram apagados.
— Você está me ligando porque o seu computador deu pau?
— O computador não é meu. É da Meg. Estou querendo recuperar arquivos que acho que ela tentou deletar.
Ele fica quieto, como se estivesse pensando no assunto.
— Que tipo de arquivos?
Falo com ele sobre os e-mails enviados que sumiram e como estou tentando recuperá-los, assim como qualquer mensagem que possa ter sido deletada.
— Talvez dê para fazer isso usando um programa de recuperação de dados. Mas, se Meg queria que esses arquivos fossem apagados, acho que é melhor respeitar a privacidade dela.
— Eu sei. Mas tem algo no bilhete de suicídio dela que me faz pensar que ela talvez não tenha agido sozinha, e agora esse monte de e-mails faltando. Parece haver algo de errado.
Alguns instantes de silêncio do outro lado da linha.
— Está querendo dizer que ela pode ter sido coagida por alguém?
Como você coage alguém a tomar veneno?
— Não sei o que quero dizer. É por isso que pretendo encontrar aqueles e-mails. Não sei se estão em uma pasta que encontrei na lixeira do computador. Não consigo abri-la.
— O que acontece quando você tenta?
— Espera aí.
Ligo o notebook e arrasto o arquivo da lixeira. Clico nele para abrir e recebo a mensagem de que ele está protegido. Digo isso a Harry.
— Tente o seguinte. — Ele me fala um monte de comandos complicados. Nada funciona. — Humm. — Ele me pede para tentar mais alguns comandos, mas sem sucesso. — Parece uma encriptação bastante sofisticada. Quem quer que tenha programado isso, sabia o que estava fazendo.
— Então a pasta está inacessível para sempre?
Harry dá uma risada.
— Não. Isso não existe. Se eu estivesse com o computador aqui, provavelmente conseguiria desencriptar para você. Pode mandar a máquina para cá, se quiser, mas é melhor se apressar, porque meu período acaba em duas semanas.

° ° °

Levo o computador à farmácia, que tem um guichê do correio nos fundos. Troy Boggins, que era de um ano à minha frente no ensino médio, está trabalhando como atendente.
— Ei, Cody, onde você tem se escondido?
— Não tenho me escondido. Tenho trabalhado.
— Ah, sei — fala ele, arrastando as palavras. — E onde tem trabalhado ultimamente?
Fazer faxinas não é nenhum motivo para se envergonhar. É um trabalho honesto e consigo ganhar um bom dinheiro, provavelmente mais do que Troy. Mas Troy não passou quatro anos falando que, no minuto em que a tinta secasse em seu diploma, daria o fora daqui. Bem, eu também não fiz isso. Meg fez, mas, como a maioria dos planos dela, esse também se tornou o meu plano. Então Meg foi embora e eu fiquei.
Como não respondo, Troy me diz que vai custar 40 dólares para enviar o computador e outros 40 dólares para ele ser mandado de volta.
— Se quiser seguro, fica mais caro.
Oitenta pratas? Esse é o preço da passagem de ônibus. O fim de semana está chegando e tenho dinheiro por causa dos trabalhos extras. Resolvo levar eu mesma o computador para Tacoma. Desse jeito, terei a resposta mais rápido.
Digo a Troy que mudei de ideia.
— Sem problema.
Eu me viro para ir embora e Troy pergunta:
— Quer sair um dia desses? Tomar uma cerveja?
Se fosse quinze ou vinte anos mais velho, Troy Boggins seria o tipo de cara com quem Tricia sairia. Ele nunca prestou a mínima atenção em mim na escola. Eu deveria ficar lisonjeada com esse interesse repentino, mas só acho assustador. Como se, sem Meg do meu lado, ficasse claro o que eu sou. O que eu sempre fui.

° ° °

Quando falo para Tricia que vou passar o fim de semana em Tacoma, ela me olha esquisito.
Não que possa me impedir. Tenho 18 anos e, mesmo que não tivesse, ela nunca foi esse tipo de mãe.
— Conheceu algum cara por lá?
— O quê? Não! É por causa das coisas da Meg. Por que você achou isso?
Ela estreita os olhos e dá uma fungada, como se tentasse sentir o cheiro de alguma coisa em mim. Então, me dá 20 dólares para a viagem.
Mando uma mensagem para Alice informando que vou aparecer, perguntando se posso dormir lá, e ela responde com um monte de pontos de exclamação, como se fôssemos amigas ou coisa parecida. Diz que vai passar o sábado quase inteiro no estágio, mas que podemos sair juntas no domingo. Também aviso a Harry, e ele comenta que está ansioso para dar uma olhada no computador.

° ° °

Chego tarde, mas o sofá está arrumado para mim. Durmo ali mesmo. Pela manhã, Harry e eu vamos para o seu quarto, que tem, tipo, cinco computadores, todos ligados e zumbindo.
Ligamos o de Meg. Ele abre primeiro o programa de e-mails.
— Não sei se vamos conseguir recuperar os e-mails apagados — fala ele depois de fuçar um pouco. — O gerenciador de e-mails dela está configurado para usar IMAP, logo, assim que as mensagens são apagadas aqui, elas também são deletadas do servidor.
Faço um meneio de cabeça, como se tivesse entendido.
Ele clica no arquivo protegido.
— Ela provavelmente queria apagar isto também, mas por algum motivo a encriptação foi corrompida e isso evitou que o computador deletasse o arquivo.
— Como assim?
— Você encontrou isso na lixeira, não foi?
Eu assinto.
— Ela deve ter tentado esvaziá-la, mas olhe...
Ele abre o menu e seleciona “Esvaziar lixeira”.
— Não! — grito.
Ele levanta a mão para eu ficar quieta. Algumas das coisas são apagadas, mas então uma mensagem de erro diz: “A operação não pode ser concluída porque o item ‘Pasta sem nome’ está sendo utilizado.”
— Coloquei algumas pastas de teste no lixo para vermos se conseguiríamos apagá-las, mas não a pasta protegida. Não se preocupe, já a copiei para o meu computador. Eu diria que ela tentou deletar esta pasta, mas não conseguiu.
— Ah.
— Seja o que for, é algo que ela não queria que as pessoas vissem. Tem certeza que quer fazer isto?
Balanço a cabeça: não tenho certeza nenhuma.
— A questão aqui não é o que eu quero.
— Tudo bem. Tenho um compromisso agora à tarde, mas vou mexer nisto antes de sair e quando voltar para casa. Vai dar um pouco de trabalho.
Estou prestes a me desculpar, mas vejo o prazer nos olhos de Harry, como se eu tivesse lhe dado o maior quebra-cabeça do mundo. Então, apenas lhe agradeço.
Ele meneia a cabeça.
— Como estão os gatos?
— Não sei. Aquele tal de Ben ficou com eles.
— Ele mora em Seattle, não mora?
Eu dou de ombros. Acho que foi isso que ele disse.
— Se quiser ver como eles estão, meu grupo da igreja vai lá hoje à tarde para pintar um centro de apoio à juventude. Podemos dar uma carona para você.
— Eles são gatinhos, Harry, não bebês. E nem devem estar lá. Ele disse que os deixaria na casa da mãe. — Se bem que, pela maneira como Ben falou, não parecia que visitava a mãe toda semana. — Enfim, eles já não são problema meu.
Ele levanta as mãos.
— Foi mal. Você parecia bem apegada a eles. Meg era.
— Não sou a Meg.
— Ok. Deixe eu trabalhar nisto aqui.

° ° °

A manhã demora a passar. Alice e Richard Locão não estão em casa e Harry não saiu do quarto, então fico sentada na varanda da frente, observando a chuva cair. Em um canto, vejo um dos ratinhos recheados de catnip que os gatos podiam passar horas atacando. É como se ele estivesse olhando para mim.
— Ah, tá bom.
Pego o telefone e mando uma mensagem para Ben: Como estão os gatos?
Ele responde imediatamente: No quintal. Tentando pegar a chuva.
Ele envia uma foto deles brincando em um quintal.
Bom passatempo pra gatos de Seattle.
Melhor que correr atrás do próprio rabo.
Vc entende bem de correr atrás de rabos, né?
Rá! Onde vc tá?
Tacoma.
A próxima mensagem demora a chegar: Quer ver como eles estão? Eles crescem muito rápido.
Não entendo muito bem por que sinto o estômago se revirar um pouco; só sei que a ideia de ver Ben McCallister provoca em mim tanto repulsa quanto atração. Antes que eu possa pensar muito no assunto, respondo: Ok.
Três segundos depois: Precisa de uma carona?
Já tenho uma.
Ele me envia o endereço e pede para eu mandar uma mensagem quando estiver a caminho.

° ° °

A van com o grupo da igreja de Harry que vai para Seattle está cheia e fico um pouco chocada ao ver que Richard está espremido lá no fundo.
— E aí, Cody?
— E aí, Richard? Não imaginava que você fosse...
— Cristão? — Ele ri. — Estou indo só cheirar a tinta. Meu bagulho acabou todinho.
Uma das garotas no banco do meio joga um rolo de tinta nele.
— Cale a boca, Richard. Você só fala merda.
Cristãos filantropos que xingam e fumam maconha. É cada uma...
Ela se vira para mim.
— O pai dele é pastor em Boise. Você vai à igreja?
— Só porque as cerimônias fúnebres costumam ser nelas.
Ela, Richard e Harry se entreolham. Embora eu duvide que ela já tenha ido a Cascades, é óbvio que sabe do que — e de quem — estou falando.
Alguém coloca Sufjan Stevens para tocar nas alturas, então Richard, Harry e o restante da van vai cantando junto durante todo o caminho até os arredores de Seattle. Envio uma mensagem para avisar que estou perto.
Repete acabou de usar a caixinha de areia, responde ele. Vou deixar pra você.
Eu me permito sorrir.
— Cuidado — alerta Richard.
Já estamos descendo a rampa que sai da autoestrada e ele está vindo da fileira de trás.
— Diz o cara que está andando em um veículo em movimento.
Ele se espreme para sentar ao meu lado.
— Eu sei como esses caras são. Vi como ele era com Meg: charmoso por fora, mas um puta babaca por dentro.
O mais louco e terrível de tudo é que, por um segundo, eu quase defendo Ben. Mas, então, me controlo e fico pasma, porque Richard tem razão. Ben é um escroto. Ele comeu Meg e a jogou fora e, agora que ela morreu, está arrependido e tentando ser bonzinho comigo para compensar.
Não sei o que estou fazendo aqui, em Tacoma, arrancando as casquinhas de uma ferida que precisa sarar. Ou o que estou fazendo em Seattle, descendo em frente a um bangalô decrépito em Lower Queen Anne. Mas é como se eu estivesse sendo levada por um impulso mais forte do que eu, pois, antes de ter a chance de mudar de ideia, de dizer àquele bando de carolas que vou passar a tarde com eles e ajudar a pintar o centro de apoio, Harry me diz que eles estarão de volta lá pelas cinco, Richard me encara com uma expressão que só posso descrever como paternal, embora eu seja a última pessoa no mundo que saberia como seria isso, e a van vai embora.
Fico parada diante da casa de paredes azuis desbotadas, com latas de cerveja e guimbas espalhadas na frente. Tento trazer à tona um pouco daquela raiva, daquele ódio por Ben, para ver se isso me impulsiona a entrar ali.
A porta é entreaberta e um pequeno borrão cinzento sai lá de dentro. Fico observando-o passar. Grapette. Ben tem razão: ele cresceu.
Então a porta se escancara e Ben sai correndo atrás descalço, com os cabelos molhados.
— Merda!
— Que foi?
— Nós não os deixamos vir aqui para a frente. — Ele se enfia debaixo de uma moita e volta trazendo Grapette pelo pescoço. — Muito trânsito.
— Ah.
Ben estende o gato agora obediente para eu o pegar. Quando beijo sua cabecinha peluda, ele me arranha bem debaixo da orelha direita.
— Ai!
— Ele é um pouco violento.
— Estou vendo.
Devolvo o gato para Ben.
— Vamos entrar.
Ele abre a porta de casa. O piso de madeira está gasto, mas há prateleiras de madeira novas e bonitas por toda parte, cheias de livros, discos de vinil e velas tremeluzentes. Ben acende uma luz e se inclina para perto de mim. Por um instante, acho que ele vai me beijar ou coisa parecida, e cerro os punhos. Mas ele afasta meu cabelo e olha para o meu pescoço.
— Ele te arranhou feio.
Encosto o dedo no arranhão, que está começando a inchar.
— Não é nada.
— Você devia passar uma água oxigenada.
— Estou bem.
Ele balança a cabeça.
— Os gatos acabaram de usar a caixinha de areia. Você pode pegar a doença da arranhadura do gato.
— Isso nem existe. Você ouviu demais aquela música “Cat Scratch Fever”.
— Claro que existe. Faz suas glândulas incharem.
— Como sabe tanto sobre gatos?
— Nós tínhamos um monte quando eu era pequeno. Minha mãe não acreditava em castração ou esterilização. Para bichos de estimação ou para humanos.
Eu o sigo até um banheiro rosa no estilo dos anos 1960, que está úmido por causa do banho que ele acabou de tomar. Ben remexe num armário de remédios e tira um frasco de água oxigenada lá de dentro. Umedece um lenço com um pouco e volta a se inclinar para perto de mim. Eu pego o lenço.
— Posso fazer isso sozinha.
O arranhão fica esbranquiçado e espumante e arde por um instante, mas logo está melhor.
Então, ficamos os dois parados no banheiro quente, úmido e pequeno.
Eu saio e Ben me segue, mostrando a casa: a mobília da sala que não combina, a coleção de instrumentos musicais no porão. Também exibe o quarto dele: um futon preto, paredes pretas, um violão encostado no canto e as mesmas prateleiras bonitas da sala. Não chego a atravessar a porta.
Como a chuva parou, Ben me conduz por uma escada comprida que dá no quintal dos fundos. Ele gesticula ao redor.
— É aqui que eles passam a maior parte do tempo.
— Quem? — Então me lembro por que estou aqui. — Ah, os gatos.
— Na verdade, preciso dizer que...
— Você os castrou?
— Meg cuidou disso. — Ele parece constrangido ao dizer o nome dela, mas depois se recompõe. — Mas, na verdade, Repete é menina. Achei que fossem irmãos.
— Eles devem ser da mesma ninhada. De qualquer forma, ainda funciona.
— O que funciona?
— A piada. — Ben me olha com uma expressão confusa, então eu explico: — Grapette e Repete saíram de barco. Grapette caiu na água. Quem se salvou?
— Rep... — Ele se interrompe. — Ah, entendi. — Ben coça a cabeça e pensa por um instante. — Só que ela se enganou quanto aos nomes, porque não foi a garota que se salvou.
E aí está o verdadeiro motivo que me trouxe aqui. Não foi para ver os gatinhos. Ficamos os dois parados em meio à tarde abafada. Depois de um tempo, ele se senta nos degraus e acende um cigarro. Oferece um para mim. Eu recuso, pois não fumo, então lembro de uma música da década de 1980 que eu e Meg descobrimos numa das velhas fitas cassetes de Sue:
Don’t drink. Don’t smoke.
What do you do? — Ele completa a música.
“O que você faz?”... Levo a sério a pergunta e, após me sentar ao lado dele, respondo:
— Boa pergunta. O que você faz?
— Uns bicos de construção, marcenaria. E uns shows.
— É verdade. Os Scarps.
— Isso. Fizemos um show ontem à noite e vai ter outro hoje.
— Rodada dupla.
— Tipo isso. Por que não vai ao de hoje? Vai ser em Belltown.
— Estou ficando em Tacoma.
— Posso lhe dar uma carona de volta, provavelmente não hoje à noite, mas amanhã. Você pode dormir aqui.
Ele está falando sério? Eu o olho com cara de nojo e ele meio que dá de ombros.
— Ou não. — Ben dá uma tragada no cigarro. — O que veio fazer aqui, afinal?
— Visitar os gatos? — digo eu, na defensiva. — Você me convidou, lembra? — Depois que eu mandei uma mensagem para ele. Por que eu fiz isso?
— Não, quero dizer aqui na região. Em Tacoma.
Explico a ele sobre o computador de Meg, os arquivos apagados, a pasta protegida e Harry, o mago dos computadores.
Uma expressão estranha cruza o rosto dele.
— Não acho que seja uma boa ideia ler os e-mails dela.
— Por quê? Você tem algo a esconder?
— Mesmo que tivesse, você já leu os meus e-mails.
— É. Foi assim que entrei nesta história.
Ele gira o cigarro entre os dedos.
— Mas aqueles e-mails eram meus. Foram escritos para mim. O direito de mostrá-los ou não a você era meu. Não acho que você deva ficar se metendo em assuntos pessoais como esse.
— Depois que você morre, deixa de ser uma pessoa, então a questão do que é pessoal ou não se torna discutível.
Ben parece desconfortável.
— O que exatamente você está procurando?
— Não sei direito. Mas algo me cheira mal.
— Como assim? Como se ela tivesse sido, o quê, assassinada?
— Não sei o que estou pensando. Mas tem algo de estranho nisso tudo, de suspeito. Em primeiro lugar, o fato de que Meg não era suicida. Tenho pensado muito nisso. Ainda que eu não soubesse o que estava acontecendo quando ela se mudou para cá, eu a conheci a vida inteira. E, em todos esses anos, ela nunca pensou nem falou no assunto. Então aconteceu alguma outra coisa. Algo que a empurrou da beira do precipício.
— Algo que a empurrou da beira do precipício — repete Ben. Ele balança a cabeça e acende outro cigarro com a guimba do anterior. — O que exatamente?
— Não sei. Mas tinha uma frase no bilhete de suicídio dela, sobre a decisão ter sido apenas dela e de mais ninguém. Ora, de quem mais poderia ser?
Ben parece cansado. Ele fica quieto por um bom tempo.
— Talvez ela tenha escrito aquilo para isentar você.
Eu olho nos olhos dele por mais tempo do que seria confortável.
— Bem, ela não conseguiu.

° ° °

Começa a chover outra vez, então Ben e eu voltamos para dentro. Ele prepara burritos com feijão preto e uma mistura de tempeh que está na geladeira, depois me mostra onde esconde um pote de plástico com queijo e rala um bocado para colocar em cima. Após a refeição, já passamos uma hora inteira juntos, sendo que o pessoal só vai voltar às cinco e o tempo se estende à nossa frente como um longo bocejo. Ben sugere dar uma volta em Seattle, para ver o Obelisco Espacial ou algo assim, mas está frio demais lá fora e não estou com vontade de ir a lugar algum.
— O que você quer fazer? — pergunta ele.
Há uma pequena TV na sala. De repente, a ideia de fazer algo normal é muito convidativa.
Nada de participar de cerimônias fúnebres ou investigar computadores, mas apenas passar a tarde inteira em frente à TV; o tipo de coisa que tem parecido inadequada desde que Meg morreu.
— Podemos ver TV — sugiro.
Ben parece surpreso, mas liga a televisão e me dá o controle remoto. Assistimos a uma reprise do The Daily Show enquanto os gatos se aninham ao nosso lado. O telefone de Ben não para de vibrar e tocar, recebendo mensagens e chamadas. Quando ele vai até outro cômodo para atender algumas delas, ouço-o falar: Acabei me enrolando aqui, se der a gente se vê amanhã à noite. Escuto também uma conversa constrangedoramente longa em que ele explica várias vezes para uma garota que só pode ser burra chamada Bethany por que não pode ir à casa dela. Ben repete o tempo todo que talvez ela possa vir aqui. Fala sério, Bethany, se liga. Até eu consigo perceber a falta de convicção dele.
Quando Ben volta ao sofá, já troquei para a MTV, que está passando uma maratona de Grávida aos 16. Ben nunca viu o programa, então explico a premissa. Ele balança a cabeça.
— Sei muito bem como é isso.
— É, aposto que sim.
O telefone dele volta a tocar. Outra mensagem.
— Se quiser um pouco de privacidade, posso ir embora.
— Sim, na verdade eu queria um pouco de privacidade.
Quando estou prestes a arrumar minhas coisas e esperar as próximas horas em um café, ele desliga o telefone.
Ficamos assistindo ao programa. Depois de alguns episódios, Ben entra no clima, gritando com a TV como Meg e eu costumávamos fazer.
— Belo argumento para o controle de natalidade obrigatório — comenta ele.
— Você já engravidou alguma garota?
Ben arregala os olhos. O azul deles parece faiscante agora, ou talvez seja apenas o reflexo do brilho da TV.
— Essa é uma pergunta pessoal.
— Parece que já passamos dessa fase, não acha?
— Passei um susto uma vez, no ensino médio, mas foi um alarme falso. A partir daí, aprendi a lição. Eu sempre uso camisinha, ao contrário desses imbecis. — Ele aponta para a TV. — Às vezes penso que eu deveria fazer vasectomia, como Grapette e Repete.
— Como Grapette. Repete é menina: no caso dela tiraram os ovários ou coisa parecida.
— Está bem, como Grapette.
— Você não quer ter filhos. Um dia?
— Sei que deveria. Mas, quando penso no futuro, não consigo imaginar isso.
— Viver rápido e morrer jovem.
Todo mundo romantiza essa ideia, mas eu a odeio. Vi uma foto do corpo de Meg no relatório da polícia. Não há absolutamente nada de romântico em morrer jovem.
— Não, não é que eu me veja morto ou coisa parecida. É só que não me vejo... com esse tipo de ligação.
— Não sei, não. Você parece ter várias ligações. — Aponto para o telefone dele.
— Suponho que sim.
— Você supõe? Bem, vamos supor. Veio alguma garota aqui na noite passada?
As orelhas dele ficam vermelhas, e isso responde à pergunta.
— Vai vir outra hoje?
— Depende...
— Do quê?
— Se você vai resolver passar a noite aqui ou não.
— Que merda é essa, Ben? Você é viciado nisso ou coisa parecida? Não consegue se controlar?
Ele levanta as mãos, como se estivesse se rendendo.
— Calma, Cody. Quer dizer, se você dormir no sofá, por exemplo, vai passar a noite aqui.
— Ben, vou deixar isto bem claro, para que não haja mal-entendidos: eu nunca vou dormir com você ou perto de você.
— Vou riscá-la da lista, então.
— Que deve ser longa, imagino.
Ele tem a decência de parecer constrangido.
Vemos mais um pouco de TV.
— Posso perguntar uma coisa?
— Se eu disser que não, isso vai impedir você? — responde ele.
— Por que você faz isso? Quero dizer, eu entendo por que os homens querem fazer sexo. Entendo que eles tenham tesão o tempo todo. Mas por que uma garota diferente toda noite?
— Não é uma garota diferente toda noite.
— Acredito que não esteja muito longe disso.
Ben apanha o maço e fica brincando com um cigarro apagado. Vejo que ele quer acendê-lo, mas deve ser proibido fumar dentro da casa. Passado algum tempo, ele guarda o cigarro de volta no maço.
— É a maneira como fui criado.
— Como assim?
— É que... se tornar um homem não é uma coisa que acontece instintivamente...
— Ah, faça-me o favor. Eu não conheci meu pai, e minha mãe está longe de ser um exemplo, mas eu não os culpo pelos meus problemas. Então, qual é a sua história, Ben, você não teve pai? Ah, que peninha.
Ele olha para mim, o rosto endurecido: o Ben de cima do palco, o Ben daquela primeira vez no quarto de Meg.
— Ah, eu tive um pai. Com quem você acha que eu aprendi?
Às quatro e meia, Harry me envia uma mensagem dizendo que estão acabando e estarão aqui daqui a pouco. Começo a arrumar minhas coisas e vou esperar do lado de fora com Ben.
— Vou voltar a te ver? — pergunta ele. Fico sem fôlego. Não sei direito o motivo. — Porque, se não, preciso lhe dizer uma coisa.
— Ahn, está bem. — Então é por isso que ele quis que eu viesse. Não para ver os gatinhos. Mas para fazer sua confissão. — Pode falar.
Ele dá uma longa tragada e, em seguida, não solta quase nenhuma fumaça. É como se todas aquelas substâncias tóxicas ficassem dentro dele.
— Ela chorou. Depois que nós transamos. Ela chorou. Em um instante ela estava bem, e no outro estava chorando.
— Ela estava bêbada? Tipo, caindo de bêbada?
— Você quer saber se eu me aproveitei dela enquanto ela estava desmaiada? Meu Deus, Cody, não sou tão escroto assim.
— Você ficaria surpreso com a quantidade de homens que fazem isso.
Então eu conto para ele. Sobre a primeira vez de Meg. Aquela festa, quando a gente estava no segundo ano. Ela havia tomado um monte de shots de Jägermeister e estava ficando com Clint Randhurst. As coisas foram longe demais, rápido demais. E, embora ela não tivesse dito exatamente que não, com certeza não disse que sim. Para piorar ainda mais, é bem provável que Clint tenha lhe passado mononucleose. Porque foi logo após essa festa que ela ficou doente.
Depois de Clint, Meg jurou que só voltaria a fazer aquilo com alguém de que gostasse de verdade. E é por isso que sei que ela gostava de Ben, por mais que talvez não devesse ter gostado do que aconteceu.
— Então não foi por sua causa que ela chorou. Ou, se tiver sido, foi um choro de alegria, ou talvez de alívio. É óbvio que ela gostava de você. Talvez tenha sido por isso que chorou.
Eu lhe conto isso para tirar o fardo dos ombros dele ou talvez para me livrar do meu; Meg sempre insistira que eu nunca contasse a ninguém sobre Clint. Mas, na verdade, Ben parece mais magoado. Ele balança a cabeça, olha para baixo e não diz nada.
Quando a Van dos Carolas chega, Richard Locão vê Ben cabisbaixo e olha para mim.
— O que ele fez agora?
— Nada — respondo, entrando na van.
— Se você encontrar mais alguma coisa no computador dela, pode me dizer? — pergunta Ben.
 Ok.
Depois que eu entro, ele fecha a porta e bate duas vezes nela. E então nós pegamos a estrada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)