10 de abril de 2017

Um bate-papo com Ransom Riggs

Ransom Riggs cresceu na Flórida e estudou no Kenyon College e na Escola de Cinema da Universidade do Sul da Califórnia. Seu primeiro romance, O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, ficou em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times. O escritor deu uma entrevista a Jason Rekulak, editor da Quirk Books, e falou mais sobre o segundo volume da série, Cidade dos etéreos.

Certa vez, quando explicou o processo de escrita de O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares, você disse que “primeiro vieram as fotos” e que a história foi montada para se encaixar nas imagens. No segundo livro foi diferente?
Muito diferente! Eu comecei o primeiro sem ter muita noção do que ia escrever: tinha uma pilha de fotografias estranhas e algumas ideias estranhas, mas nada concreto e definitivo. Dessa forma, as fotografias interessantes iam me guiando, gerando tramas para o enredo e servindo de inspiração para alguns dos personagens principais. Já em Cidade dos etéreos, grande parte da história já estava em andamento, e as fotos acabaram assumindo um papel mais secundário. Em vez de escrever uma cena baseada em uma imagem, eu saía à procura da fotografia perfeita para uma cena que precisava entrar no livro.

Que interessante. Teve alguma situação em que você se deparou com várias fotos “perfeitas” para uma cena, mas teve que escolher uma “mais perfeita”?
Ao escrever uma cena e procurar uma fotografia que se encaixasse nela, um dos problemas mais comuns foi que em geral não havia foto perfeita. Eu imaginava uma, mas ela não existia — e se eu realmente a quisesse eu mesmo teria que criar um cenário de filme, o que seria extraordinariamente caro! Quase sempre eu encontrava uma foto que guardava algumas semelhanças com a foto perfeita — como se fosse uma casa na mesma vizinhança, mas algumas quadras para o lado, com a garagem de outra cor e as plantas do jardim dispostas do jeito errado —, e isso era o mais próximo da perfeição que eu conseguia chegar. Aí, com a foto quase perfeita em mente, eu voltava ao texto e reescrevia a cena até estar de acordo com a foto que eu tinha encontrado, mudando alguns detalhes para corresponder à imagem. Por sorte, a cena final em geral acabava ficando mais interessante do que a primeira ideia, e tudo isso graças ao desafio que era encontrar a imagem certa.
Apesar disso, algumas vezes encontrei várias fotos que combinavam com uma mesma cena — pelo menos antes de eu reescrevê-la para combinar com uma fotografia em particular. Um bom exemplo é a imagem que ilustra o momento em que os zepelins dos acólitos sobrevoam a praia. Fotos de zepelins e balões de ar quente eram muito comuns no começo do século XX. Escolhi a foto que está no livro porque gostei muito dela, achei que a imagem transmitia uma sensação de ameaça, mas em vez disso poderia ter usado algo assim:


Teria sido desafiador justificar os termos em francês na imagem.
Outro bom exemplo é quando Addison descreve as indignidades que os animais peculiares tiveram que aturar ao longo dos anos e mostra uma foto de um cachorro puxando um garoto em um veículo.


Infelizmente, é bem fácil encontrar fotos com animais sendo humilhados por seres humanos. Cheguei a considerar usar esta foto doida de um bebê montado em uma águia, mas desisti. Ainda assim, fico feliz por ter a oportunidade de compartilhá-la aqui, já que é um bebê montado em uma águia.


Qual foi o maior desafio que você enfrentou ao escrever Cidade dos etéreos?
O enredo. O fim de O orfanato da srta. Peregrine acabou ficando em aberto, e quase qualquer coisa poderia acontecer com aquelas crianças nos barquinhos.
Eles estavam viajando para um mundo de fendas temporais e infinitas possibilidades. Como escritor, fico sempre tentado a explorar cada detalhe do mundo que estou criando — o que acaba nunca sendo possível (ou aconselhável). Como eu tinha infindáveis possibilidades, a parte mais difícil era justamente separar o joio do trigo, porque eu tinha a sensação de estar encerrando tramas que poderiam ser incríveis. Mas meu tempo era limitado, assim como o número de páginas e, consequentemente, o tanto de história que eu conseguiria enfiar em um só livro. Uma pena!

Você escreveu O orfanato da srta. Peregrine para crianças peculiares quando ainda era relativamente desconhecido. O livro foi um sucesso tremendo, vendeu dois milhões de exemplares, foi publicado em dezenas de países e ainda por cima vai virar filme. Você acha que isso teve impacto no seu processo de escrita?
Gostaria de pensar que não. Eu devo ser meu maior crítico, então o que os outros falam não me incomoda muito. Imagino que seria diferente se, por exemplo, eu tivesse que ler o livro em voz alta para um público de dois milhões de pessoas. Isso seria muito apavorante. Mas eu continuo escrevendo como sempre, sozinho e em silêncio no meu escritório, onde posso ao menos fingir que, tirando minha esposa e minha mãe, ninguém vai ler o que estou criando.

Uma das melhores coisas em Cidade dos etéreos é que podemos conhecer melhor cada peculiar. Você tem algum preferido? Tem algum personagem que seja especialmente divertido de escrever?
Acho que cada personagem reflete um aspecto da minha personalidade, só que mais exagerado. Então, o quanto eu me divirto escrevendo cada personagem depende bastante do meu estado de espírito. Enoch reflete meu lado mal-humorado e insolente. Às vezes tenho tendência a fazer pequenos discursos sobre assuntos obscuros para pessoas que podem ou não estar interessadas, e canalizo essa mania quando escrevo sobre Millard. Emma é sempre uma maravilha de escrever, porque diz exatamente o que pensa — e volta e meia de um jeito enfático demais, o que pode ser bastante catártico. Eu gostaria de ser tão nobre e leal quando Bronwyn. Então depende. E também adoro quando surgem novos personagens, como aconteceu com Addison. Gosto de ir escrevendo e ver aonde a história os leva.

Fiquei muito surpreso quando Caul apareceu, no final de Cidade dos etéreos. Essa reviravolta foi planejada, ou isso também foi uma surpresa para você?
Queria poder dizer que já sabia que isso aconteceria, mas a ideia de fazer a ave que as crianças achavam que era a srta. Peregrine ser na verdade o irmão maligno dela só apareceu lá pela metade do livro. Quando me ocorreu, bati palmas e dei uma risadinha histérica tão alta que meu gato levou um susto e saiu correndo do quarto.

Qual é a sua fotografia preferida neste livro?
É difícil escolher uma preferida, mas tenho um carinho especial pela imagem da mulher fumando um cachimbo na cadeira de chifres.


Muitas das fotos de Cidade dos etéreos revelam cenários estranhos e fantásticos: uma casa em cima de uma pilha de dormentes de trem, um homem preso em uma rede de pesca... Você não ficou tentado a descobrir a “verdadeira” história delas?
Sim, eu geralmente tento saber mais sobre elas, mas é raro descobrir alguma informação substancial. E, pensando bem, isso é ótimo: eu gosto de ter a liberdade de criar histórias para as imagens e acho que, por mais curioso que eu seja, saber as “verdadeiras” histórias delas reduziria um pouco a diversão e a fantasia.

Claramente foram usados antigos truques de edição de imagem em algumas das fotos, especialmente na da jumirafa, e na do garoto invisível. Você sabe qual foi o processo de edição utilizado?
Não tenho a menor ideia do que foi usado no menino invisível. A única coisa que consigo pensar é em algum tipo de dupla exposição na parte inferior da imagem, onde deveriam estar os pés do garoto — combinaram uma foto em que ele estava sentado na cadeira com uma foto em que ele não estava, mas só na parte de baixo. Ou talvez ele realmente não tivesse pés! É como o princípio da navalha de Occam: às vezes a explicação mais simples é a mais provável. Quanto à jumirafa, imagino que seja resultado de uma criação bizarra da taxidermia, e não de manipulação fotográfica.

E, por último, mas não menos importante: sabemos que você já está dando os retoques finais no próximo volume da série e estamos doidos para descobrir o que vai acontecer. Pode nos dar uma dica do que vem a seguir?
O livro três começa bem onde acaba Cidade dos etéreos. Jacob, Emma e Addison seguem o rastro efêmero de seus amigos raptados até as Terras do Diabo, uma das fendas mais perigosas do mundo peculiar. Nela moram os piores dos piores entre os peculiares: criminosos, exilados e viciados. É também o coração corrompido da fenda, onde fica o covil dos acólitos. Com a ajuda de um misterioso personagem e sua engenhosa máquina capaz de produzir fendas temporais, nossos heróis peculiares finalmente conseguirão enfrentar os acólitos. Se o trio falhar, não é só a vida deles que estará em jogo, mas o futuro de todos os peculiares. Em outras palavras, os fãs podem esperar muita ação, uma atmosfera tensa e muitas outras fotos peculiares.

COMO ESTE MONSTRO AQUÁTICO...

... MULHERES MISTERIOSAS DIANTE DE PORTÕES DE CEMITÉRIOS...

... CAUBÓIS E GENTE ESTRANHA DE MÁSCARA...

... E ESTE MENINO, QUE ESTAVA ESPERANDO POR VOCÊ.
ESPERANDO HÁ MUITO, MUITO TEMPO.

3 comentários:

  1. Eu sei que é clichê e irritante,mas eu tenho que dizer:first.Desculpa pelo incomôdo

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  2. Achei melhor que primeiro,que eu amei,ou seja esse eu adorei

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Boa leitura :)