5 de abril de 2017

Prólogo

Eu tinha acabado de aceitar que minha vida seria apenas comum quando coisas extraordinárias começaram a acontecer comigo. A primeira delas foi um choque terrível e, assim como qualquer coisa que muda você para sempre, dividiu minha vida em duas partes. Antes e depois. Como muitas das coisas extraordinárias que viriam, ela envolveu meu avô, Abraham Portman.
Na minha infância, vovô Portman era a pessoa mais fascinante que eu conhecia. Ele tinha crescido em um orfanato, lutado em guerras, cruzado oceanos a bordo de navios a vapor e desertos a cavalo. Foi artista de circo, sabia tudo sobre armas, defesa pessoal e sobrevivência na selva, e falava pelo menos três línguas além do inglês. Tudo parecia absurdamente exótico para uma criança que nunca saíra da Flórida, e, sempre que o via, eu implorava que me contasse mais de suas histórias. Ele sempre me atendia e as contava como se fossem segredos que só pudessem ser confiados a mim.
Quando fiz seis anos, decidi que a única maneira de ter pelo menos metade da excitação da vida de meu avô seria me tornar explorador. Ele me encorajava passando tardes ao meu lado debruçado sobre mapas-múndi, planejando expedições imaginárias com trilhas marcadas por alfinetes vermelhos e me contando sobre os lugares fantásticos que um dia eu iria descobrir. Em casa, mostrava minhas ambições desfilando com um tubo de papelão que servia de telescópio e gritando “Terra à vista!” e “Preparar um grupo de desembarque!”, até que meus pais me expulsassem para o quintal. Acho que estavam preocupados que meu avô me contaminasse com algum delírio incurável do qual jamais iria me recuperar — que essas fantasias de alguma forma estivessem me infectando contra ambições mais práticas —, por isso um dia minha mãe sentou comigo e me explicou que eu não podia me tornar um explorador, porque tudo no mundo já havia sido descoberto. Isso me deixou triste, e depois com raiva. Eu tinha nascido no século errado, e me senti traído.
Pior ainda foi quando me dei conta de que as melhores histórias do vovô Portman não tinham a mais remota possibilidade de ser verdadeiras. As histórias mais exageradas sempre eram sobre sua infância, sobre como nascera na Polônia e com cinco anos de idade fora mandado para um orfanato no País de Gales. Perguntei a ele muitas vezes e de diversas maneiras por que ele teve de se separar dos pais, e sua resposta era sempre a mesma: porque os monstros estavam atrás dele. A Polônia simplesmente estava infestada deles.
— Que tipo de monstros? — eu perguntava, com os olhos arregalados. Isso se transformou numa espécie de brincadeira entre nós.
— Daqueles terríveis e corcundas, com pele podre e olhos negros — respondia ele. — E caminhavam assim! — Então ele vinha para cima de mim com passos pesados e meio trôpegos, como um antigo monstro de cinema, até eu começar a correr, rindo.
Toda vez que ele os descrevia, acrescentava algum novo detalhe assustador: fediam como lixo podre; eram invisíveis, exceto por suas sombras; tinham tentáculos retorcidos escondidos na boca que podiam se projetar em um instante e puxar você para dentro de suas mandíbulas poderosas. Não demorou muito para eu começar a ter problemas para dormir: minha imaginação hiperativa transformava o chiado de pneus sobre o asfalto molhado em respiração ofegante do lado de fora de minha janela, ou as sombras sob a porta em tentáculos cinzentos e retorcidos. Eu tinha medo dos monstros, mas ficava empolgado em imaginar meu avô lutando contra eles e sobrevivendo para contar a história.
Ainda mais fantásticas eram suas histórias sobre o orfanato em que viveu no País de Gales. Era um lugar encantado, contava ele, projetado para manter as crianças protegidas dos monstros, em uma ilha onde o sol brilhava todos os dias e ninguém jamais adoecia ou morria. Todos viviam juntos em uma casa grande protegida por uma ave velha e sábia, pelo menos era isso que dizia a história. À medida que crescia, comecei a ter minhas desconfianças.
— Que tipo de ave? — perguntei a ele certa tarde, quando tinha sete anos, encarando-o com ceticismo sobre a mesa de jogos na qual ele estava me deixando ganhar no Monopoly.
— Um falcão grande, que fumava cachimbo — disse ele, folheando seu minguado maço de dinheiro azul e laranja.
— Você deve achar que eu sou muito burro, vovô.
— Eu nunca pensaria isso de você, Yakob. Mas, se não acredita em mim, é problema seu. — Eu sabia que o havia ofendido porque o sotaque polonês do qual ele nunca conseguiu se livrar totalmente tinha saído de seu esconderijo, então não virava non, e problema virava prroblema.
Sentindo-me culpado, perguntei:
— Mas por que os monstros queriam machucar você?
— Porque não éramos como as outras pessoas. Éramos peculiares.
— Peculiares como?
— Ah, de várias maneiras — disse naturalmente, como se estivesse discutindo a previsão do tempo. — Havia uma garota que podia voar, um menino que tinha abelhas vivendo dentro dele, um irmão e uma irmã que podiam erguer facilmente pedras enormes.
Era difícil saber se ele estava falando sério. Por outro lado, meu avô não era um piadista. E franziu o cenho ao ler a desconfiança em meu rosto.
— Tudo bem, você não precisa acreditar só porque estou dizendo. Tenho fotos. — Ele afastou a cadeira dobrável e entrou em casa, deixando-me sozinho na varanda fresca e protegida por tela. Um minuto depois, voltou com uma velha caixa de charutos nas mãos. Inclinei-me para a frente quando ele se sentou e pegou quatro fotos amassadas e amareladas.
A primeira era uma fotografia desfocada do que pareciam roupas sem gente dentro. Ou isso, ou a pessoa não tinha cabeça.
— Claro que ele tem cabeça! — disse meu avô, sorrindo. — Só que você não pode vê-la.
— Por que não? Ele é invisível?
— Nossa, olha só esse cérebro! — Ergueu as sobrancelhas como se eu o tivesse surpreendido com meus poderes de dedução. — O nome dele era Millard. Um garoto engraçado. De vez em quando ele dizia: “Ei, Abe, sei o que você fez hoje”, e ele dizia aonde eu tinha ido, o que tinha comido, se tinha enfiado o dedo no nariz quando achava que ninguém estava vendo... Às vezes ele seguia as pessoas, tão silencioso como um camundongo, sem roupas para não ser visto, e ficava só olhando! — Ele sacudiu a cabeça. — Impressionante, não é?
Ele me passou outra foto.
— Então? O que está vendo? — perguntou após me dar alguns instantes para observá-la.
— Uma garotinha?
— E?
— Ela está usando uma coroa.
Ele tocou a parte de baixo da foto.
— E os pés dela?
Olhei aquela fotografia mais de perto. Os pés da menina não tocavam o chão. Mas ela não estava pulando, parecia estar flutuando. Fiquei de queixo caído.
— Ela está voando!
— Quase — disse ele. — Está levitando. Só que não conseguia se controlar muito bem, então tínhamos de amarrá-la com uma corda para impedir que saísse voando.
Meus olhos estavam grudados naquele rosto moreno de boneca.
— É de verdade?
— Claro que é — retrucou com rispidez e tomou a foto de mim, substituindo-a por outra, esta de um menino erguendo uma rocha. — Victor e sua irmã não eram muito espertos — disse ele. — Mas, rapaz, como eram fortes!
— Ele não parece forte — disse eu, enquanto avaliava os braços magros do garoto.
— Acredite em mim, ele era. Uma vez estávamos pescando e encalhamos perto da praia. Ele levantou o barco inteiro e o tirou de lá. E eu estava dentro!
Mas a foto mais estranha era a última. Vovô Portman entregou-a a mim e demorei para entender o que era: a parte de trás de uma cabeça com um rosto desenhado nela.
Fiquei olhando fixamente para a última foto enquanto o vovô explicava:
— Ele tinha duas bocas, está vendo? Uma na frente e outra atrás. Por isso ficou tão grande e tão gordo.
— Mas é de mentira! — disse eu. — O rosto está só pintado.
— Claro, a pintura é falsa. Era para um número de circo. Mas estou dizendo a você, ele tinha duas bocas. Não acredita em mim?
Refleti sobre aquilo, olhando para as fotos e depois para meu avô, fitando seu rosto tão sincero e franco. Que motivo teria ele para mentir?
— Eu acredito em você.
E acreditava mesmo, pelo menos durante alguns anos, apesar de fazer isso principalmente por conta própria, do mesmo jeito que outros meninos de minha idade queriam acreditar no Papai Noel. Agarramo-nos a nossos contos de fadas até que o preço por acreditar neles se torna alto demais, como aconteceu comigo no segundo ano durante o intervalo, quando Robbie Jensen puxou minhas calças para baixo diante das meninas dizendo que eu acreditava em fadas. Acho que ele fez aquilo só porque eu repetia na escola as histórias de meu avô; mesmo assim, naquele momento humilhante, senti, com um nó no estômago, que o apelido de Fadinha iria me assombrar por anos, e, com ou sem razão, fiquei com raiva dele por isso.
Vovô Portman foi me buscar na escola naquela mesma tarde, como costumava fazer quando meus pais estavam trabalhando. Subi no banco do carona de seu velho Pontiac e declarei que não acreditava mais em seus contos de fadas.
— Que contos de fadas? — disse ele, observando-me por trás dos óculos.
— Você sabe. As histórias. Sobre as crianças e os monstros.
Ele pareceu confuso.
— Quem falou alguma coisa sobre fadas?
Contei a ele que uma história inventada e um conto de fadas eram a mesma coisa, que contos de fadas eram para bebês que molhavam as calças, e que sabia que suas histórias e fotografias eram falsas. Eu esperava que ele ficasse com raiva ou começasse uma discussão, mas em vez disso ele disse apenas “Tudo bem”, engatou a primeira no Pontiac, pisou no acelerador e nós arrancamos com o carro. E isso foi o fim de tudo.
Acho que ele percebeu que esse momento estava chegando. Um dia eu iria crescer e isso acabaria acontecendo, mas ele parou de falar no assunto tão rapidamente que me deu a sensação de que sempre tinha mentido para mim.
Não podia entender por que ele havia inventado tudo aquilo, por que me enganara, querendo me fazer acreditar que coisas extraordinárias eram possíveis quando não eram. Só alguns anos mais tarde finalmente meu pai me explicou. O vovô tinha contado a ele algumas dessas histórias quando ele era criança, e elas não eram exatamente mentiras, mas versões exageradas da realidade, porque, na verdade, a história da infância do vovô Portman não tivera nada de conto de fadas, mas sim de história de terror.
Meu avô foi o único membro de sua família que escapou da Polônia antes do começo da Segunda Guerra. Ele tinha doze anos quando seus pais o entregaram nos braços de estranhos e enviaram o filho caçula em um trem para a Inglaterra sem nada além de uma mala e a roupa do corpo. Era uma passagem só de ida. Ele nunca mais veria a mãe, nem os irmãos mais velhos, nem os primos, nem as tias e os tios. Todos eles estariam mortos antes de seu décimo sexto aniversário, assassinados por monstros dos quais ele escapara por tão pouco. Mas não eram o mesmo tipo de monstro com tentáculos e pele podre, com o qual a mente de um menino de sete anos podia lidar. Eram monstros com rosto humano, em uniformes impecáveis e que marchavam em fileiras cerradas, tão despreocupados que não se percebia o que eram até ser tarde demais.
Da mesma forma que os monstros, a história da ilha encantada também era a verdade disfarçada. Em comparação com os horrores da Europa Continental, o orfanato que recebera meu avô devia parecer um paraíso, e assim ele transformou suas histórias: um paraíso seguro, de verões sem fim e anjos da guarda e crianças mágicas que, é claro, não podiam voar de verdade nem ficar invisíveis ou erguer pedras. A peculiaridade que as fazia ser caçadas era apenas o fato de serem judias. Eram órfãos de guerra, levados até aquela ilhota por uma maré de sangue. O que os tornava fabulosos não era o fato de terem poderes milagrosos. Escapar dos guetos e das câmaras de gás já era algo milagroso por si só.
Depois disso parei de pedir a meu avô que me contasse histórias, e acho que no fundo ele ficou aliviado. Um ar de mistério passou a envolver os detalhes dos primeiros anos de sua vida. Eu não tocava no assunto. Ele havia passado pelo inferno e tinha direito a seus segredos. Senti vergonha de ter inveja de sua vida, levando em conta o preço que ele pagara por isso, e tentei me convencer da sorte que tinha pela vida segura e nem um pouco extraordinária que eu nada fizera para merecer.
Então, alguns anos mais tarde, quando eu tinha quinze anos, ocorreu algo extraordinário e terrível, e a partir daí tudo se dividiu apenas em Antes e Depois.




13 comentários:

  1. Que agonia que me deu essas fotos, uuui 😣

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    1. filha de Poseidon17 de abril de 2017 17:49

      A primeira me deu mais agonia

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    2. De fato a primeira foto é meio que medonha.

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    3. A foto da pintura do palhaço é a pior de todas.

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    4. A pior foto é a da pintura do palhaço

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    5. Aninha das kebradas1 de agosto de 2017 16:14

      Sinto muito opiniões alheias, mas eu a-m-e-i as fotos. Que macabro

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  2. Ameii <3 Mas é bem sinistro!

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  3. Falafel sabor feijoada9 de maio de 2017 19:24

    Eu sempre quis ler esses livros!!
    Adoro essa temática meio freak/sinistra!
    Espero ter uma boa experiência com essa leitura.

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  4. Devoradora de livros1 de julho de 2017 12:44

    adoro quando o livro mostra fotos, igual a pulmão de aço

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  5. Melhor livro ever!
    E gente essa névoa sombria só deixa tudo mais perfeito... E essas imagens? Que incrível... Amei, de verdade ❤

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  6. A foto da pintura do palhaço é a pior.

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  7. muito estranho mesmo!as fotos são fora do normal!
    vamos lá ver o k isto vai revelar...

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Boa leitura :)