10 de abril de 2017

Parte dois

Se alguém estivesse olhando para o trem das oito e meia que entrou fumegando na estação e parou exalando vapor, não teria percebido nada fora do comum: nada de estranho nos condutores e carregadores que destravavam os trincos e abriam as portas com dificuldade; nada de diferente na massa de homens e mulheres, alguns em uniformes militares, que saíam em uma torrente e desapareciam na multidão agitada — nem nada extraordinário nas oito crianças exaustas que desembarcaram de um dos vagões da primeira classe e ficaram paradas, piscando sob a luz atordoante da plataforma, de costas umas para as outras em um círculo defensivo, atônitas ante a catedral de ruídos e fumaça na qual se encontravam.
Em um dia comum, qualquer grupo de crianças de aparência tão perdida e desamparada quanto aquele seria abordado por um adulto bondoso querendo saber se estavam com algum problema, se precisavam de ajuda ou onde estavam seus pais. No entanto, naquele dia havia centenas de crianças na plataforma, todas com aparência perdida e desamparada. Por isso, ninguém deu muita atenção à menininha de cabelo castanho comprido e sapatos de botão — nem ao fato de que os sapatos não tocavam o chãoNinguém reparou no garoto de rosto redondo e boina, muito menos na abelha que saiu de sua boca, sentiu o ar cheio de fuligem e fez o caminho de volta.
Nenhum olhar se demorou sobre o garoto com olheiras profundas ou notou o homem de barro que espiava do bolso de sua camisa apenas para ser empurrado de volta para dentro pelo dedo do garoto. E também passou despercebido o menino elegante em um terno enlameado mas muito bem-cortado e uma cartola amassada, com o rosto abatido e cansado pela falta de sono, pois não se permitia dormir havia alguns dias de tanto medo que sentia de seus sonhos.
Ninguém olhou com atenção para a garota enorme de casaco e vestido simples que tinha a constituição de uma pilha de tijolos e trazia, preso às costas, um baú de viagem quase tão grande quanto ela própria. Nenhuma pessoa que a viu poderia imaginar como aquele baú estava absurdamente pesado, muito menos o que ele continha ou por que havia pequenos furos em uma das laterais. Ao lado dela, completamente despercebido, seguia um rapaz tão enrolado em cachecóis e em um casaco com capuz que não dava para ver sequer um centímetro de sua pele, apesar de ser início de setembro e o clima ainda estar quente.
E havia também o garoto americano, de aparência tão comum que mal chamava atenção: parecia tão normal que os olhos da multidão passavam direto por ele, mesmo enquanto ele as analisava, na ponta dos pés, girando a cabeça, o olhar varrendo a plataforma como uma sentinela. A garota a seu lado estava com as mãos unidas, escondendo um fiapo de chama que espiralava teimosamente ao redor da unha do mindinho, o que às vezes acontecia quando ela estava preocupada. Ela tentou sacudir o dedo, como se faz para apagar um fósforo, depois o soprou. Como não funcionou, ela o enfiou na boca e soltou uma espiral de fumaça pelo nariz. Ninguém viu.
Na verdade, ninguém olhou direito para as crianças do vagão da primeira classe do trem das oito e meia, não o suficiente para perceber qualquer coisa peculiar nelas, e isso era ótimo.

9 comentários:

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    Meu Deus, depois de um tempo essa mensagem repetitiva começa a ficar triste.
    Sera q ninguem le os mesmos livros q eu nesse blog?
    Ou simplesmente nao se sao ao trabalho de comentar algo qe bad

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    1. estou com a mesma duvida

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    2. Eu sou uma que mal comento kkk mas amo o blog <3

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  2. O problema é que as pessoas estão tão empolgadas para ler o próximo capítulo que nem se lembra de começar

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  3. não tem o que comentar, só seguir em frente... O desejo de saber o que acontece é mais forte do que a vontade de comentar

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  4. Rose Hathaway 2.017 de junho de 2017 20:23

    mano,esse é um daqueles textos de apresentação q fazem vc querer devorar o livro na mesma hora
    manoooo!!!

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  5. eu sempre leio nesse blog. Fico tão empolgada com os livros que até esqueço de comentar kkk

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Boa leitura :)