15 de abril de 2017

Capítulo um

O monstro estava parado a menos de uma língua de distância, os olhos fixos no nosso pescoço, o cérebro enrugado repleto de fantasias de assassinato. Sua fome por nós carregava o ar. Os etéreos nascem ávidos por almas de peculiares, e lá estávamos nós, parados diante dele como um bufê: Addison, que dava para devorar em uma só mordida, exalava firmeza junto aos meus pés, o rabo em posição de atenção, enquanto Emma estava apoiada em mim, ainda tão atordoada pelo impacto que não conseguiria produzir mais que uma chama de fósforo. Nós dois apoiávamos as costas na cabine telefônica. Olhando em volta do nosso círculo sinistro, a estação de metrô parecia uma boate que sofreu um atentado a bomba. Fantasmagóricas nuvens de vapor saíam apitando de canos estourados. Monitores quebrados pendiam do teto com partes quebradas. Um mar de vidro estilhaçado se estendia até os trilhos, refletindo o estroboscópio histérico das luzes de emergência vermelhas como uma gigantesca bola de espelhos. Estávamos cercados: de um lado, uma parede; do outro, vidro até os tornozelos. E a dois passos de uma criatura cujo único instinto natural era nos desmembrar — mas que não fez nenhum movimento para se aproximar mais.
Parecia presa ao chão, balançando no lugar como um bêbado ou um sonâmbulo, a cabeça assassina meio caída, as línguas formando um ninho de cobras que eu fizera adormecer com um feitiço.
Eu. Eu tinha feito aquilo. Jacob Portman, um garoto insignificante de Lugar Nenhum, Flórida. Ele não ia nos matar naquele momento, aquele horror feito de uma compilação de trevas e pesadelos extraídos de crianças adormecidas, porque eu lhe pedira. Mandei, em termos bem claros, tirar a língua do meu pescoço. Para trás, ordenei. Parado, falei, em uma língua feita de sons que eu não sabia que uma boca humana era capaz de articular, e, milagrosamente, foi o que ele fez, os olhos me desafiando enquanto o corpo obedecia. De algum modo, eu havia domado o pesadelo, lançado um feitiço sobre ele. Mas criaturas adormecidas acordam e feitiços passam, principalmente os que são lançados por acidente. Eu sentia o etéreo fervilhar por baixo de sua superfície plácida.
Addison cutucou minha canela com o focinho.
— Mais acólitos virão. Será que o monstro vai nos deixar passar?
— Fale com ele outra vez — disse Emma, com a voz debilitada e distante. — Mande ele ir se ferrar.
Procurei as palavras, mas tinham se escondido.
— Não consigo.
— Você fez isso um minuto atrás — disse Addison. — Parecia um demônio falando por você.
Um minuto antes, quando eu nem sabia que conseguia fazer aquilo, as palavras estavam bem ali na ponta da minha língua, esperando para serem pronunciadas. Agora que eu as queria de volta, era como tentar pegar um peixe com as mãos: sempre que eu tocava em uma, ela escorregava entre meus dedos.
Vá embora!, gritei.
As palavras saíram no meu idioma mesmo. O etéreo nem se mexeu. Eu me empertiguei, olhei bem no fundo dos olhos negros dele e tentei outra vez.
Saia daqui! Deixe a gente em paz!
Mais uma vez, nada. O etéreo inclinou a cabeça como um cão curioso, mas, fora isso, era uma estátua.
— Ele foi embora? — perguntou Addison.
Os outros não podiam saber, pois só eu conseguia vê-lo.
— Continua aqui — respondi. — Não sei qual é o problema.
Eu me sentia ridículo e desolado. Será que meu dom tinha desaparecido assim tão rápido?
— Não importa — disse Emma. — De qualquer forma, não dá para argumentar com etéreos.
Ela estendeu a mão e tentou acender uma chama, mas o esforço pareceu esgotá-la. Segurei-a pela cintura com ainda mais cuidado, para que ela não caísse.
— Poupe suas forças, menina fósforo — disse Addison. — Tenho certeza de que vamos precisar de você.
— Vou lutar com as mãos frias se for necessário — disse Emma. — Só o que importa é encontrarmos os outros antes que seja tarde demais.
Os outros. Eu ainda podia vê-los desaparecendo junto dos trilhos: as roupas elegantes de Horace todas desarrumadas; a força de Bronwyn não sendo páreo para as armas dos acólitos; Enoch atordoado com o tiro; Hugh aproveitando o caos para tirar os sapatos pesados de Olive e deixar que flutuasse para longe dali; Olive pega pelo calcanhar e puxada para baixo antes que conseguisse escapar. Todos eles chorando de terror, chutados para dentro do trem sob a mira de armas, levados embora. Levados com a ymbryne que quase nos matamos para encontrar e que agora corria pelas entranhas de Londres rumo a um destino bem pior que a morte. É tarde demais, pensei. Já era tarde demais no momento em que os soldados de Caul atacaram o esconderijo congelado da srta. Wren. Já era tarde demais também na noite em que confundimos o irmão maligno da srta. Peregrine com nossa amada ymbryne. Mas jurei para mim mesmo que encontraríamos nossos amigos e nossa ymbryne, não importava quanto custasse, mesmo que houvesse apenas cadáveres para recolher, mesmo que com isso estivéssemos somando nossos corpos à pilha.
Bem, então: em algum lugar no escuro em que o vermelho piscava havia uma saída para a rua. Uma porta, uma escada, uma escada rolante ao longe, junto da parede mais distante. Mas como chegar até lá?
Saia da droga do nosso caminho!, gritei novamente para o etéreo, em uma última tentativa.
Nada, é claro. O etéreo bufou como uma vaca, mas não se mexeu. As palavras tinham se esvaído.
— Plano B — falei. — Ele não me escuta, então vamos dar a volta e torcer para que não se mexa.
— Dar a volta por onde? — perguntou Emma.
Para passarmos a uma boa distância dele, teríamos que atravessar pilhas de vidro, mas os cacos retalhariam as pernas nuas de Emma e as patas de Addison.
Tentei pensar em alternativas: eu podia carregar Addison no colo, mas não teria como proteger Emma. Ou eu podia encontrar um pedaço de vidro comprido como uma espada e enfiar nos olhos da criatura — um recurso que já tinha dado certo uma vez —, mas, se não conseguisse matá-la de primeira, acabaria por despertar o monstro, e seríamos mortos. O único outro meio era passar pelo pequeno espaço sem vidro, entre o etéreo e a parede. Mas era estreito: trinta, no máximo quarenta centímetros de largura; muito apertado, mesmo que colássemos as costas à parede. Se fôssemos por ali, corríamos o risco de nos aproximar demais do etéreo, ou pior, encostar nele sem querer, o que poderia romper o delicado transe que o mantinha imobilizado. Porém, como não podíamos criar asas e passar por ali voando, esta última parecia ser nossa única opção.
— Você consegue andar um pouco? — perguntei a Emma. — Mesmo que mancando?
Ela firmou os joelhos e se soltou um pouco de mim, testando.
— Consigo ir mancando.
— Então vamos fazer assim: a gente passa de fininho por ele e segue encostado na parede até se enfiar por aquele espaço ali. Não é grande, mas se tomarmos cuidado…
Addison entendeu a ideia e se encolheu, voltando para dentro da cabine telefônica.
— Você acha mesmo que devíamos nos aproximar tanto assim dele?
— Provavelmente não.
— E se ele acordar enquanto…?
— Ele não vai acordar — falei, fingindo confiança. — Só não faça nenhum movimento brusco. E, não importa o que aconteça, não toque nele.
— Você agora vai ser nossos olhos — disse Addison. — Que a Ave nos proteja.
Escolhi um caco bem comprido no chão e o enfiei no bolso. Avançamos dois passos, inseguros, e alcançamos a parede, onde colamos as costas nas lajotas frias e começamos a seguir lentamente na direção do etéreo. Os olhos dele nos acompanhavam, fixos em mim. Depois de alguns aterrorizantes passos andando de lado, fomos engolidos por um cheiro de etéreo tão repugnante que meus olhos lacrimejaram. Addison começou a tossir. Emma cobriu o nariz com a mão.
— Só mais um pouco — falei, a calma forçada fazendo minha voz sair esganiçada.
Peguei do bolso o caco de vidro, segurando-o com a ponta para a frente, e dei mais um passo, depois mais um. Agora estávamos tão perto que, se eu esticasse o braço, podia tocar o etéreo. Ouvi o coração dele batendo dentro das costelas, a pulsação se acelerando a cada passo nosso. Ele estava lutando contra mim, tentando, com cada neurônio, se libertar do controle de minhas mãos atrapalhadas. Não se mexa, pensei. Você é meu. Eu controlo você. Não se mexa.
Encolhi o peito, me estiquei todo e encostei cada vértebra na parede, e fui andando assim, como um caranguejo, pelo estreito espaço que havia entre a parede e o etéreo.
Não se mexa, não se mexa.
Deslizar o pé, mover o corpo, deslizar o pé. Eu prendia minha respiração enquanto a do etéreo se acelerava, úmida e arquejante, expelindo uma sinistra névoa negra pelas narinas. O ímpeto de nos devorar devia ser excruciante para ele, assim como meu ímpeto de correr para longe dali. Mas ignorei esse impulso; fazer isso seria agir como uma presa, não como aquele que está no domínio do outro.
Não se mexa, não se mexa.
Mais alguns passos, pouco mais de um metro, e conseguiríamos. O ombro dele estava a um fio de cabelo do meu peito.
Não…
E ele se mexeu. Em um movimento rápido, girou a cabeça e se posicionou de frente para mim.
Meu corpo ficou rígido.
— Não se mexam — falei, dessa vez em voz alta, para os outros.
Addison enfiou a cara entre as patas; Emma congelou e apertou meu braço como um torno. Eu me preparei para o que estava por vir: as línguas do monstro, seus dentes, o fim.
Afaste-se, afaste-se, afaste-se.
Nada, nada, nada.
Passaram-se alguns segundos, durante os quais, sei lá como, não fomos mortos. Mas, pelos movimentos do peito subindo e descendo, a criatura tinha virado pedra outra vez.
Com cuidado, milímetro a milímetro, fui deslizando pela parede. O etéreo me acompanhou com sutis movimentos de cabeça, fixo em mim como a agulha de uma bússola, seu corpo em perfeita sintonia com o meu. Mas ele não nos seguiu, não abriu as mandíbulas. Se o feitiço que eu lançara tivesse sido quebrado, já estaríamos mortos àquela altura.
O etéreo apenas me observava, aguardando instruções que eu não sabia como dar.
— Alarme falso — falei.
Emma soltou um ruidoso suspiro de alívio.
Passamos pelo vão, nos desgrudamos da parede e saímos correndo o mais rápido que Emma conseguia se movimentar mancando. Quando tínhamos aberto alguma distância entre nós e o etéreo, olhei para trás. Ele tinha se virado completamente na minha direção.
Parado, murmurei. Muito bem.

* * *

Passamos por uma cortina de vapor, e a escada rolante surgiu à nossa frente, parada como uma escada normal, já que não tinha energia elétrica. Em volta brilhava um halo suave de luz do dia, um emissário tentador do mundo acima. O mundo dos vivos, o mundo de agora. Um mundo onde eu tinha pais. Os dois estavam ali, em Londres, respirando aquele ar. Daria para ir andando até eles. Opa, e aí, tudo bem?
Impensável. Ainda mais impensável: menos de cinco minutos antes, eu tinha contado tudo a meu pai. Quer dizer, a versão resumida: Eu sou como vovô Portman. Sou peculiar. Eles não entenderiam, mas, pelo menos, agora sabiam.
Minha ausência pareceria menos uma traição. Eu ainda ouvia meu pai implorando que eu voltasse para casa, e, enquanto seguíamos mancando na direção da luz, tive que lutar contra a vontade repentina de largar o braço de Emma e correr para lá, fugir daquela escuridão sufocante, encontrar meus pais e implorar por perdão, depois me deitar na cama do hotel caro deles e dormir.
Isso era o mais impensável de tudo. Eu jamais poderia voltar: eu amava Emma e tinha dito isso a ela. Não a deixaria para trás por nada. E não porque eu fosse nobre, corajoso ou cavalheiresco. Não sou nada disso. Eu tinha medo de ser partido ao meio se a deixasse para trás.
E os outros, os outros… Nossos pobres amigos, condenados. Precisávamos ir atrás deles, mas como? Não entrava um trem na estação desde o que os levara embora, e, após a explosão e os tiros que abalaram o lugar, eu tinha certeza de que não chegariam outros. Assim, tínhamos duas opções, ambas terríveis: ir atrás deles a pé através dos túneis e torcer para não encontrar mais nenhum etéreo, ou subir pela escada rolante e encarar o que quer que estivesse a nossa espera lá em cima — muito provavelmente, um grupo de busca de acólitos —, depois nos reagruparmos e reavaliarmos nossa situação.
Eu sabia qual opção preferia. Estava farto da escuridão e mais ainda dos etéreos.
— Vamos subir — falei, conduzindo Emma na direção da escada rolante parada. — Vamos encontrar algum lugar seguro para planejar o que fazer. Enquanto isso, você recupera as forças.
— De jeito nenhum! — disse ela. — Não podemos simplesmente abandonar os outros. Não interessa como eu estou.
— Não vamos abandonar ninguém. Mas precisamos ser realistas. Estamos feridos e indefesos, e os outros devem estar a quilômetros de distância, já fora do metrô e a caminho de algum outro lugar. Como vamos encontrá-los?
— Do mesmo jeito que encontrei você — respondeu Addison. — Com meu focinho. Peculiares têm um aroma bastante único, sabe, que só cães de minha estirpe conseguem farejar. Você, por acaso, é de um grupo de peculiares com odor forte. O medo só aumenta o odor, eu acho, além da falta de banho…
— Então vamos atrás deles! — disse Emma.
Ela me puxou na direção dos trilhos com uma força surpreendente. Resisti, fazendo um cabo de guerra com nossos braços entrelaçados.
— Não, não… Os trens não estão mais circulando, não tem como. E se formos por ali a pé…
— Não me importa se é perigoso. Eu não vou deixá-los para trás.
— Não é só perigoso. É inútil. Eles já não estão por aqui. Emma!
Ela soltou o braço e saiu mancando na direção dos trilhos. Tropeçou, recuperou o equilíbrio. Diga alguma coisa, sussurrei para Addison, que deu a volta para bloquear o caminho de Emma.
— Infelizmente, ele tem razão. Se formos a pé, o rastro do cheiro de nossos amigos terá se dissipado muito antes que a gente consiga encontrá-los. Mesmo as minhas capacidades têm limites.
Emma contemplou o túnel, depois olhou para mim com uma expressão atormentada. Estendi a mão.
— Por favor, vamos embora. Não significa que estamos desistindo.
— Tudo bem — disse ela, com firmeza. — Tudo bem.
Mas quando começamos a caminhar na direção da escada rolante, alguém nos chamou do escuro, perto dos trilhos.
— Aqui!
A voz era fraca, mas familiar, com sotaque russo. Era o homem dobrável.
No escuro, identifiquei suas formas amassadas junto aos trilhos, com o braço erguido. Ele tinha levado um tiro durante a confusão, e imaginei que os acólitos o houvessem enfiado no trem com os outros. Mas ali estava ele, acenando para nós.
— Sergei! — exclamou Emma.
— Você o conhece? — perguntou Addison, desconfiado.
— Era um dos peculiares refugiados da srta. Wren — falei, os ouvidos atentos ao som de sirenes distantes que ecoava lá embaixo, vindo da superfície.
Estava chegando problema, talvez problema disfarçado de ajuda, e temi que nossa melhor chance de sair dali sem transtornos estivesse escapando. No entanto, não podíamos simplesmente abandoná-lo.
Addison correu na direção do homem, desviando dos recifes mais profundos de vidro. Emma me deixou segurar seu braço outra vez, e seguimos a passos arrastados. Sergei estava caído de lado, coberto de vidro e sangrando. A bala o atingira em algum ponto vital. Seus óculos de armação de metal estavam rachados, e ele tentava arrumá-los para me enxergar direito.
— É um milagre, é um milagre — disse ele com dificuldade, a voz fraca como chá feito com saquinho usado. — Ouvi você falando na língua do monstro. É um milagre!
— Não é — falei, me ajoelhando ao lado dele. — Acabou. Já perdi o dom.
— Se está no seu interior, é para sempre.
Passos e vozes ecoaram pelo vão da escada rolante. Afastei cacos de vidro para poder passar a mão por baixo do homem dobrável.
— Você vem com a gente — falei.
— Me deixem — resmungou ele. — Eu já vou morrer…
Ignorando-o, passei as mãos por baixo de seu corpo e o levantei. Ele era do tamanho de uma escada, mas leve como uma pena, e o segurei no colo como quem pega um bebê grande, as pernas magricelas pendendo entre meus braços enquanto a cabeça pendia do meu ombro.
Duas pessoas desceram ruidosamente os últimos degraus da escada rolante e pararam, envoltas pela luz pálida do dia e olhando atentamente para a escuridão recém-encontrada. Emma apontou para o chão, e nos ajoelhamos em silêncio, na esperança de que não nos vissem, de que fossem apenas civis que tivessem chegado para pegar o metrô, mas então ouvi o chiado de um walkie-talkie, e os dois acenderam lanternas. Os dois feixes de luz se refletiram no colete de segurança que ambos usavam.
Eles podiam estar ali atendendo a um chamado de emergência, ou ser acólitos disfarçados. Eu não tinha certeza até que, em sincronia, eles tiraram os óculos largos.
Claro.
Nossas opções tinham acabado de se reduzir à metade. Agora havia apenas os trilhos, os túneis. Feridos como estávamos, nunca seríamos mais rápidos que eles, mas fugir ainda era possível se não nos vissem, e ainda não tinham nos visto em meio ao caos da estação em ruínas. As lanternas duelavam pelo chão.
Emma e eu recuamos na direção dos trilhos. Se pudéssemos apenas entrar nos túneis sem sermos vistos… Mas o maldito do Addison não se mexia.
— Vamos — sussurrei.
— Eles são motoristas de ambulância, e este homem precisa de ajuda — disse ele, alto demais. No mesmo instante, os feixes de luz saltaram do chão em nossa direção.
— Fiquem onde estão! — gritou um dos homens, sacando uma arma, enquanto o outro pegava o walkie-talkie.
Então duas coisas inesperadas aconteceram em rápida sucessão. A primeira foi que, quando eu estava prestes a soltar o homem dobrável nos trilhos e mergulhar atrás dele com Emma, um apito trovejante soou do interior do túnel e um único farol surgiu, uma luz muito intensa. A lufada de vento abafado vinha, é claro, de um trem, que, não sei como, corria nos trilhos mesmo depois da explosão. A segunda coisa, anunciada por uma pontada dolorosa no meu estômago, foi que o etéreo saiu do transe e agora vinha em nossa direção. Um instante depois de sentir isso, eu de fato o vi, correndo através de uma nuvem de vapor, os lábios negros escancarados, as línguas se agitando no ar.
Estávamos cercados. Se corrêssemos para a escada, seríamos baleados e destroçados. Se saltássemos para os trilhos, seríamos esmagados pelo trem. E não podíamos escapar embarcando no trem porque ainda demoraria pelo menos dez segundos para que ele parasse, doze até que as portas se abrissem e mais dez até que se fechassem outra vez, e a essa altura teríamos morrido três vezes. Por isso, fiz o que costumo fazer quando estou sem ideias: olhei para Emma. Li, no desespero em seu rosto, que ela entendia o desespero da nossa situação e, na rigidez de seus maxilares cerrados, que estava disposta a agir mesmo assim. Só quando ela começou a cambalear adiante, as palmas das mãos estendidas para a frente, é que lembrei que ela não enxergava o etéreo, e tentei avisá-la, alcançá-la, impedi-la, mas não conseguia falar nada nem segurá-la sem largar o homem dobrável, e no instante seguinte Addison estava a seu lado, latindo para o acólito enquanto Emma tentava inutilmente produzir uma chama — fagulha, fagulha e nada, como um isqueiro sem gás.
O acólito começou a rir, puxou a arma e a apontou para ela. O etéreo correu na minha direção, uivando em contraponto ao rangido dos freios do trem às minhas costas. Foi quando eu soube que o fim tinha chegado e que não havia nada que eu pudesse fazer para impedir. Naquele momento, algo em meu interior relaxou, e, quando isso aconteceu, a dor que eu sentia com a proximidade de um etéreo também desapareceu. A dor era como um lamento agudo, e, quando ela abrandou, descobri outro som oculto por baixo, um murmúrio nos limites da consciência.
Uma palavra.
Eu mergulhei por ela. Agarrei-a com os dois braços. Juntei energias e a gritei com toda a força de um arremessador de beisebol profissional. Ele, falei, em uma língua que não era a minha. Foi apenas uma palavra, mas continha volumes de significado, e no momento em que ela ecoou da minha garganta, o resultado foi instantâneo. O etéreo parou de correr — parou imediatamente, chegando a derrapar no piso —, depois se virou bruscamente para um lado e arremessou uma língua, que se projetou até a outra extremidade da plataforma e envolveu três vezes a perna de um acólito. Desequilibrado, ele deu um tiro que ricocheteou no teto, depois foi virado de cabeça para baixo e erguido no ar, se debatendo e gritando.
Meus amigos demoraram um pouco para perceber o que tinha acontecido.
Enquanto estavam ali parados, boquiabertos, e o outro acólito gritava alguma coisa no walkie-talkie, ouvi as portas do trem se abrindo atrás de mim.
Era nossa hora.
— VAMOS! — gritei.
E eles foram. Emma correu mancando, com Addison se emaranhando entre seus pés, e eu tentando enfiar o magro e alto homem dobrável, todo escorregadio por causa do sangue, entre as portas estreitas. Por fim, caímos todos juntos dentro do vagão.
Mais tiros foram disparados. O acólito atirava às cegas, tentando acertar o etéreo.
As portas começaram a se fechar, mas tornaram a abrir.
Favor liberar as portas, anunciou uma simpática voz de gravação.
— Os pés dele! — disse Emma, apontando para os sapatos na extremidade das pernas compridas do homem dobrável.
Eu me apressei a chutar seus pés para soltá-los, e, nos segundos intermináveis até que as portas tornassem a se fechar, o acólito pendurado disparou mais tiros a esmo até que o etéreo se cansou dele e o jogou contra a parede, na qual ele deslizou para o chão em uma pilha inerte.
O outro acólito saiu correndo para a saída. Ele também, tentei dizer, mas era tarde demais. As portas estavam se fechando, e, com um arranco estranho, o trem se pôs em movimento.
Olhei ao redor, aliviado por termos encontrado um carro vazio. O que as pessoas normais iam pensar de nós?
— Você está bem? — perguntei a Emma. Ela estava sentada, respirando com dificuldade, e me observava com muita atenção.
— Graças a você — respondeu ela. — Você realmente fez o etéreo fazer tudo aquilo?
— Acho que sim — respondi, embora nem eu mesmo conseguisse acreditar direito.
— Isso é incrível. — Eu não sabia se ela estava assustada ou impressionada, ou os dois.
— Devemos a vida a você — disse Addison, esfregando a cabeça carinhosamente em meu braço. — Você é um garoto muito especial.
O homem dobrável riu, e baixei os olhos para vê-lo sorrir para mim através de uma máscara de dor.
— Viu? — disse ele. — Eu falei. É um milagre. — Então sua expressão ficou séria. Ele segurou minha mão e apertou um quadradinho de papel em seu interior. Uma fotografia. — Minha esposa, meu filho — disse ele. — Levados por nosso inimigo, há muito tempo. Se encontrar outros, talvez…
Quando olhei para a foto, levei um susto. Era um retrato nove por sete de uma mulher com um bebê no colo. Sergei o levava consigo havia muito tempo, sem dúvida. Apesar de as pessoas na foto estarem bem alegres, a foto em si — ou o negativo — tinha sido seriamente danificada, talvez sobrevivido por pouco ao fogo, exposta a tanto calor que os rostos estavam distorcidos e fragmentados. Sergei nunca mencionara a família; desde que tínhamos nos conhecido, só falara sobre levantar um exército de peculiares, ir de fenda em fenda para recrutar sobreviventes fisicamente capazes dos ataques e expurgos.
Ele nunca nos contou para quê queria um exército: para resgatar a família.


— Vamos encontrá-los também — falei.
Nós dois sabíamos que era bem improvável, mas era o que ele precisava ouvir.
— Obrigado — disse Sergei, e relaxou em uma poça de sangue que só crescia.
— Ele não tem muito tempo — disse Addison, aproximando-se para lamber o rosto de Sergei.
— Talvez eu ainda tenha calor suficiente para cauterizar o ferimento — disse Emma. Ela avançou até ele e começou a esfregar as mãos.
Addison farejou a parte da camisa que cobria a barriga do homem dobrável.
— Aqui, ele está ferido aqui — disse o cão.
Emma pôs as mãos dos dois lados do ponto, e eu me levantei quando ouvi o chamuscar de carne, me sentindo fraco.
Olhei pela janela. Ainda estávamos deixando a estação, retardados, talvez, pelo entulho nos trilhos. O pisca-pisca das luzes de emergência captava detalhes aleatórios da escuridão. O corpo de um acólito morto parcialmente enterrado em vidro; a cabine telefônica destruída, cena de minha descoberta; o etéreo, cuja silhueta percebi com um susto, nos seguia trotando pela plataforma, alguns vagões atrás, natural como um atleta.
Pare. Não se aproxime, falei na direção da janela, na minha língua. Meus pensamentos não estavam claros, pois a dor e o sofrimento atrapalhavam outra vez.
Ganhamos velocidade e entramos no túnel. Encostei minha cabeça no vidro, virando o rosto para trás para mais uma olhada. Estava escuro, escuro, então em um clarão de luz como o flash de uma câmera vi o etéreo como o quadro de um filme, voando, seus pés se erguendo da plataforma, as línguas laçando a balaustrada do último vagão.
Milagre. Maldição. Eu não tinha entendido exatamente a diferença.

* * *

Peguei as pernas dele, Emma pegou os braços, e, com cuidado, erguemos Sergei e o pusemos sobre um assento comprido, embaixo de um anúncio de pizza congelada, no qual ele ficou desmaiado, balançando com o movimento do metrô. Se fosse morrer, parecia errado deixá-lo no chão.
Emma levantou sua camisa fina.
— O sangramento parou — anunciou. — Mas ele vai morrer se não for logo para um hospital.
— É provável que ele morra mesmo assim — disse Addison. — Especialmente em um hospital aqui no presente. Imagine, ele acorda curado daqui a três dias, mas com problemas em todo o resto, envelhecido duzentos anos ou sabe a ave quantos mais.
— Pode ser — retrucou Emma. — Na verdade, eu vou me surpreender se em três dias qualquer um de nós estiver vivo, seja lá em que condição for. Não sei o que mais podemos fazer por ele.
Eu já tinha ouvido alguém mencionar aquele prazo: dois ou três dias era o máximo de tempo que qualquer peculiar que vivera em uma fenda podia permanecer no presente sem envelhecer. Era o suficiente apenas para que eles visitassem o presente. O suficiente para viajar entre fendas, mas pouco para incentivar algum deles a se demorar. Só os mais audaciosos e as ymbrynes faziam excursões ao presente que demoravam mais que algumas horas, pois as consequências de um atraso eram graves demais.
Emma se ergueu, parecendo doente sob a fraca luz amarelada, depois mancou de um pé e tentou segurar um dos apoios do trem. Peguei sua mão e a fiz se sentar junto de mim, e ela desabou ao meu lado, exausta. Nós dois estávamos. Eu não dormia direito havia dias. Também não comia direito, exceto pelas poucas chances que tivemos de nos empanturrar. Já nem sabia mais havia quanto tempo eu estava aterrorizado e correndo com aqueles malditos sapatos que provocavam bolhas, porém, mais do que isso, sempre que eu falava etéreo, isso parecia talhar algo de mim que eu não sabia recolocar de volta. Me deixava cansado a um nível que era totalmente desconhecido, subterrâneo. Eu tinha descoberto um novo veio em meu interior, uma nova fonte de poder para garimpar, mas era exaurível e finito. Será que, caso o esgotasse, eu também me esgotaria?
Deixaria para me preocupar com isso em outra hora. Por enquanto, tentava saborear um raro momento de paz, apenas respirando, meu braço ao redor de Emma e sua cabeça em meu ombro. Sendo egoísta, talvez, não mencionei o etéreo que perseguira nosso trem. O que poderíamos fazer em relação a ele? Ou ele nos pegaria, ou não. Ou nos mataria, ou não. Quando nos encontrasse, e eu tinha certeza de que encontraria, ou eu descobriria as palavras para deter suas línguas, ou não.
Observei Addison saltar no banco à nossa frente, destrancar a janela com a pata e abri-la um pouco. O som furioso do trem e um cheiro quente do ar do túnel entraram com velocidade, e o cão se sentou para decifrá-lo pelo olfato, fungando, os olhos brilhando. Para mim, o ar tinha cheiro de suor rançoso e podridão seca, mas ele pareceu perceber algo mais sutil, algo que exigia interpretação cuidadosa.
— Consegue farejá-los? — perguntei.
O cachorro me ouviu, mas levou um bom tempo para responder, os olhos direcionados para o teto como se terminasse um pensamento.
— Consigo — disse ele. — O rastro está nítido e fresco.
Mesmo àquela alta velocidade, ele conseguia captar os traços de peculiares que tinham sido enclausurados em um vagão de trem alguns minutos antes. Fiquei impressionado, e disse isso a ele.
— Obrigado, mas não posso receber todo o crédito — disse ele. — Alguém também deve ter aberto uma janela em seu vagão, senão a trilha estaria muito mais leve. Talvez a srta. Wren tenha feito isso, sabendo que eu tentaria seguir.
— Ela sabia que você estava aqui? — perguntei.
— Como você nos encontrou? — indagou Emma.
— Só um instante — disse Addison bruscamente. O trem estava parando em uma estação, as janelas mudando do preto do túnel para o branco de azulejos. Ele enfiou o focinho pela janela e fechou os olhos, tomado pela concentração, e continuou: — Não acho que eles tenham saltado, mas estejam preparados.
Emma e eu ficamos de pé, fazendo o possível para deixar o homem dobrável fora de vista. Vi, com certo alívio, que não havia muita gente à espera na plataforma. Era engraçado ainda ter alguém lá e os trens ainda circularem. Era como se nada tivesse acontecido. Os acólitos tinham se assegurado disso, eu desconfiava, na esperança de que mordêssemos a isca e entrássemos em um trem, pois assim seria mais fácil nos cercar. Nós, sem dúvida, não seríamos difíceis de identificar em meio às pessoas indo trabalhar de metrô na Londres moderna.
— Aja naturalmente — falei. — Como se você fosse daqui.
Emma pareceu achar graça disso e segurou o riso. Era engraçado, acho, considerando que não pertencíamos a lugar nenhum em particular, muito menos àquele.
O trem parou, as portas se abriram. Addison inalou profundamente o ar enquanto uma mulher com cara de estudiosa vestindo um blazer de lã entrou em nosso vagão. Ao nos ver, ela ficou boquiaberta, então se virou rapidamente e tornou a sair. Não. Não, obrigada. A culpa não era dela. Estávamos imundos, cobertos de sangue, com aparência esquisita em roupas antigas e bizarras.
Provavelmente parecíamos ter matado o pobre homem ao nosso lado.
— Aja com naturalidade — disse Emma, e fez uma expressão de escárnio.
Addison retirou o focinho da janela.
— Estamos na pista certa — disse ele. — A srta. Wren e os outros sem dúvida passaram por aqui.
— Eles não saltaram aqui? — perguntei.
— Acho que não. Mas, caso eu não sinta o cheiro deles na próxima estação, saberemos que fomos longe demais.
As portas bateram ao fechar, e, com um apito eletrônico, tornamos a partir.
Eu estava prestes a sugerir que encontrássemos uma nova muda de roupa quando Emma se agitou ao meu lado, como se tivesse acabado de se lembrar de alguma coisa.
— Addison, o que aconteceu com Fiona e Claire? — perguntou ela.
À menção de seus nomes, fui tomado por uma onda nauseante de preocupação. A última vez que as víramos tinha sido na fauna peculiar da srta. Wren, onde a garota mais velha ficara para trás com Claire, que estava doente demais para viajar. Caul nos contou que atacara a fauna e capturara as garotas, mas ele também nos contou que Addison estava morto, então claramente sua informação não era de confiança.
— Ah — fez Addison, balançando a cabeça com pesar. — São más notícias, infelizmente. Parte de mim, admito, estava torcendo para que você nunca perguntasse.
O rosto de Emma ficou lívido.
— Conte.
— É claro. Logo depois que vocês partiram, fomos atacados por um bando de acólitos. Jogamos ovos do Armagedom neles, depois nos espalhamos e nos escondemos. A garota maior, com cabelo despenteado…
— Fiona — falei, o coração batendo forte.
— Ela usou sua aptidão com plantas para nos esconder em árvores e sob arbustos. Ficamos tão bem camuflados que levaria dias para os acólitos desenterrarem a todos nós, mas eles nos atacaram com gás e nos expulsaram para campo aberto.
— Gás! — exclamou Emma. — Os canalhas juraram que nunca mais voltariam a usar isso!
— Parece que eles mentiram — disse Addison.
Eu tinha visto uma foto uma vez, em um dos álbuns da srta. Peregrine, de um daqueles ataques: acólitos em máscaras fantasmagóricas com tanques para respirar, agindo com naturalidade enquanto lançavam nuvens de gás no ar. Apesar de não ser fatal, o gás fazia olhos, pulmões e garganta arderem, provocando uma dor terrível, e havia rumores de que aprisionava ymbrynes em sua forma de ave.


— Quando eles nos cercaram — prosseguiu Addison —, fomos interrogados sobre o paradeiro da srta. Wren. Eles viraram a torre dela do avesso à procura de mapas, diários e sei lá mais o quê. E quando a pobre Deirdre tentou detê-los, eles a mataram.
Um lampejo do rosto comprido da jumirafa surgiu à minha frente, desajeitado, doce, com dentes afastados, e meu estômago se embrulhou. Que tipo de pessoa era capaz de matar uma criatura daquelas?
— Meu Deus, isso é horrível — falei.
— Horrível — concordou Emma mecanicamente. — E as garotas?
— A pequena foi capturada pelos acólitos — disse Addison. — A outra… Bem, houve um confronto com alguns soldados, e eles estavam quase na beira do precipício, e ela caiu.
— O quê? — perguntei.
Por um instante o mundo se turvou, depois voltou ao foco bruscamente.
Emma se enrijeceu, mas seu rosto não denunciou nada.
— Como assim, caiu? Caiu de que altura?
— Era uma queda íngreme, de pelo menos trezentos metros. Eu realmente sinto muito.
Eu me sentei com toda a força do meu peso. Emma permaneceu de pé, as mãos apertando a barra de apoio.
— Não — disse ela com firmeza. — Não, não pode ser. Talvez ela tenha se agarrado a alguma coisa na queda. Um galho ou uma pedra…
Addison encarou o chão pontilhado de chiclete.
— É possível.
— Ou as árvores lá embaixo tenham amortecido a queda e a segurado como uma rede! Fiona pode falar com elas, você sabe.
— Sei — disse ele. — Sempre se pode ter esperança.
Tentei imaginar ser amortecido por um pinheiro pontudo depois de uma queda daquelas. Não parecia possível. Vi a pequena esperança despertada por Emma se extinguir, e então suas pernas começaram a tremer, e ela soltou a barra de apoio e se jogou no banco ao meu lado.
Ela olhou para Addison com os olhos marejados.
— Sinto muito por sua amiga.
— Eu digo o mesmo.
— Nada disso teria acontecido se a srta. Peregrine estivesse aqui — sussurrou ela. Então, em silêncio, baixou a cabeça e chorou.
Quis abraçá-la, mas me parecia uma intromissão em um momento particular, tomando-o para mim quando na verdade era apenas dela; então, em vez disso, me sentei, olhei para minhas mãos e deixei que ela chorasse pela amiga morta. Addison virou a cara, por respeito, acho, e porque o trem reduzia a velocidade ao entrar em outra estação.
As portas se abriram. Addison enfiou a cabeça pela janela, farejou o ar na plataforma, rosnou para alguém que tentou embarcar em nosso vagão, depois tornou a entrar. Quando as portas se fecharam outra vez, Emma já tinha reerguido a cabeça e secado as lágrimas.
Apertei sua mão.
— Você está bem? — perguntei, desejando conseguir pensar em algo a mais a dizer, ou em algo melhor.
— Preciso estar, não é? — disse ela. — Pelos que ainda estão vivos.
Para alguns, poderia parecer insensível o modo como ela reprimia e afastava sua dor, mas eu já a conhecia bem o suficiente para entender. Ela tinha um coração do tamanho da França, e os poucos sortudos que eram amados por ele eram amados com cada centímetro quadrado. Porém, o tamanho de seu coração também o tornava algo perigoso. Se ela se permitisse sentir tudo, ficaria devastada. Por isso, tinha que domá-lo, silenciá-lo, calá-lo. Mandar as piores dores para uma ilha que estava rapidamente sendo ocupada por elas e na qual um dia ela iria viver.
— Mas continue — disse Emma. — O que aconteceu com Claire?
— Os acólitos a levaram. Amordaçaram suas duas bocas e a jogaram em uma saca.
— Mas ela estava viva? — perguntei.
— Sim, ao menos até o meio-dia de ontem. Depois enterramos Deirdre em nosso pequeno cemitério e fui às pressas para Londres procurar a srta. Wren e alertar vocês. Um dos pombos da srta. Wren me conduziu a seu esconderijo, e, ao mesmo tempo que fiquei feliz ao ver que tinham chegado antes de mim, percebi que, infelizmente, os acólitos também tinham. O cerco já havia começado, e fui obrigado a assistir sem poder fazer nada e… Bom, o resto vocês sabem. Segui vocês enquanto eram conduzidos para o metrô. Quando houve aquela explosão, aproveitei a oportunidade para ajudá-los.
— Obrigado por isso — falei, percebendo que ainda não havíamos reconhecido a dívida que tínhamos com ele. — Se você não tivesse nos arrastado de lá…
— Sim, bom… Não há necessidade de se ater a situações hipotéticas desagradáveis — disse ele. — Mas, em agradecimento à minha bravura, eu esperava que vocês me auxiliassem a resgatar a srta. Wren dos acólitos. Por mais improvável que isso pareça. Ela significa tudo para mim, sabem?
Era a srta. Wren quem ele queria reaver dos acólitos, não nós, mas fomos o resgate realista, mais longe do trem, então ele tomara uma decisão rápida e salvou quem pôde.
— Claro que vamos ajudar — falei. — Não é isso o que estamos fazendo agora?
— Sim, sim — disse ele. — Mas vocês devem se dar conta de que, como ymbryne, a srta. Wren é mais valiosa para os acólitos que as crianças peculiares, e por isso talvez libertá-la se prove mais difícil. Eu me preocupo que, se por algum milagre tivermos sorte suficiente para libertar seus amigos…
— Ei, espere aí — interrompi. — Quem disse que ela é mais…
— Não, é verdade — disse Emma. — Ela vai estar por trás de fechaduras e trancas mais pesadas, sem dúvida. Mas não vamos deixá-la para trás. Não vamos deixar mais ninguém para trás, nunca mais. Você tem nossa palavra de peculiares.
O cachorro pareceu satisfeito com isso.
— Obrigado — disse ele, e em seguida suas orelhas grandes se achataram. Ele saltou para um banco e olhou pela janela enquanto parávamos na estação seguinte. — Escondam-se — disse, se abaixando. — Há inimigos por perto.

* * *

Os acólitos estavam à nossa espera. Vi dois deles aguardando na plataforma, vestidos de policiais em meio à dispersão de passageiros. Estavam examinando os vagões enquanto nosso trem parava na estação. Abaixamos sob as janelas, na esperança de que não nos vissem, mas eu sabia que veriam. O que portava um walkie-talkie mandou um rádio: eles deviam saber que estávamos naquele trem. Agora só precisavam revistá-lo.
O trem parou e as pessoas começaram a embarcar, mas nenhuma em nosso vagão. Arrisquei espiar através das portas abertas e vi um dos acólitos na plataforma, caminhando depressa em nossa direção enquanto olhava atentamente para o vagão.
— Tem um vindo — murmurei. — Como está seu fogo, Emma?
— Quase nulo.
Ele estava se aproximando. Quatro vagões de distância. Três.
— Então se prepare para correr.
Dois vagões de distância. Em seguida, uma delicada voz de gravação:
“Atenção: portas se fechando.”
Ele enfiou um braço. As portas bateram e se abriram. Ele embarcou no vagão contíguo ao nosso.
Meus olhos se dirigiram à porta que conectava nossos vagões. Estava trancada com uma corrente — graças a Deus por seus pequenos gestos. As portas estalaram ao fechar, e o trem começou a se movimentar. Transferimos o homem dobrável para o chão e nos encolhemos com ele em um canto no qual não podíamos ser vistos do vagão do acólito.
— O que vamos fazer? — disse Emma. — No momento em que este trem parar outra vez, ele vem direto para cá e vai nos achar.
— Temos certeza absoluta de que ele é um acólito? — perguntou Addison.
— Por acaso gatos nascem em árvores? — retrucou Emma.
— Não nesta parte do mundo.
— Então, claro que não. Mas, em se tratando de acólitos, há um velho ditado: se não tem certeza, suponha.
— Está bem, então — falei. — Assim que as portas se abrirem, corremos para a saída.
Addison soltou um suspiro.
— Essa mania de sair correndo — disse ele com desdém, como se fosse um gourmet e lhe houvessem oferecido um pedaço mole de queijo processado. — Não há nenhuma imaginação nisso. Não podíamos tentar sair escondidos? Nos misturar? Nisso há arte. Aí poderíamos simplesmente sair caminhando tranquilamente, sem sermos percebidos.
— Odeio sair correndo tanto quanto qualquer outra pessoa — falei —, mas Emma e eu parecemos psicopatas do século XIX e você é um cachorro de óculos. Com certeza seríamos notados.
— Enquanto não fazem lentes de contato caninas, tenho que usar isso — resmungou Addison.
— Onde está aquele etéreo quando a gente mais precisa dele? — disse Emma, com naturalidade.
— Atropelado por um trem, se tivermos sorte — falei. — E o que você quer dizer com isso?
— Ah, que ele foi bastante útil mais cedo.
— E antes disso ele quase nos matou, duas vezes. Não, três vezes! Seja lá o que eu tenha feito para controlá-lo, foi mais ou menos por acidente. E se eu não conseguir? Estamos mortos.
Emma não respondeu imediatamente, mas me analisou por um momento e depois pegou minha mão, toda coberta de sujeira, e a beijou com delicadeza, uma, duas vezes.
— Por que isso? — perguntei, surpreso.
— Você não tem ideia, tem?
— De quê?
— De como você é um milagre total.
Addison rosnou.
— Você tem um talento maravilhoso — sussurrou Emma. — Tenho certeza de que só precisa de um pouco de prática.
— Talvez. Mas, normalmente praticar alguma coisa significa errar algumas vezes, e errar com isso significa a morte de pessoas.
Emma apertou minha mão.
— Bem, nada como um pouco de pressão para ajudar você a aperfeiçoar uma nova habilidade.
Tentei sorrir, mas não consegui. Meu coração também doía muito ao pensar em todo o estrago que eu podia provocar. Essa coisa que eu podia fazer parecia uma arma carregada que eu não sabia usar. Droga, eu nem sabia qual lado apontar para o alvo. Era melhor deixá-la de lado, para não explodir em minhas mãos.
Ouvimos um ruído do outro lado do vagão. Olhei e vi a porta se abrindo. Esta não estava trancada com corrente, e um casal de adolescentes com roupas de couro entrou em nosso vagão, um garoto e uma garota, rindo e passando um cigarro aceso entre eles.
— Vão pegar a gente! — disse a garota, beijando o pescoço dele.
O garoto afastou dos olhos uma mecha pretensiosa de cabelo.
— Sempre faço isso, gata — respondeu o rapaz.
Assim que ele nos viu, paralisou, suas sobrancelhas curvadas como parábolas.
A porta por onde entraram bateu com força atrás deles.
— Olá — falei com naturalidade, como se não estivéssemos agachados no chão com um homem moribundo coberto de sangue. — Tudo bem?
Não surtem. Não nos entreguem.
O garoto franziu o cenho.
— Vocês estão…
— Fantasiados — respondi. — Exageramos com o sangue falso.
— Ah — disse o garoto, nitidamente sem acreditar em mim.
A garota olhava fixamente para o homem dobrável.
— Ele está…
— Bêbado — disse Emma. — Louco das ideias. Por isso derramou todo o nosso sangue falso no chão. E em si mesmo.
— E em nós — completou Addison.
A cabeça dos adolescentes virou bruscamente em sua direção, seus olhos ficando ainda mais arregalados.
— Seu idiota — murmurou Emma. — Fique quieto.
O garoto ergueu a mão trêmula e apontou para o cachorro.
— Ele acabou de…
Addison dissera só três palavras. Talvez pudéssemos fingir que tinha sido um truque de ventriloquismo, algo diferente do que parecera, mas ele era orgulhoso demais para se passar por um cachorro normal.
— É claro que não — disse ele, erguendo o focinho no ar. — Cães não sabem falar inglês. Nem qualquer outra língua humana, com a notável exceção do luxemburguês, um idioma compreensível apenas para banqueiros e luxemburgueses e, portanto, praticamente inútil. Não, você comeu algo estragado e está tendo uma alucinação, só isso. Agora, se não for incômodo demais, meus amigos precisam pegar suas roupas emprestadas. Por favor, dispam-se imediatamente.
Pálido e trêmulo, o garoto começou a tirar a jaqueta de couro, mas tinha soltado apenas um braço quando os joelhos cederam e ele caiu desmaiado no chão. Então a garota começou a gritar, e não parou.
No instante seguinte, o acólito estava esmurrando a porta acorrentada, com um brilho assassino nos olhos vazios.
— Sem chance de sair escondido — falei.
Addison se virou para ele.
— Sem dúvida um acólito — disse ele, balançando a cabeça com sabedoria.
— Que bom, mistério resolvido — disse Emma.
Um solavanco e um rangido de freios. Estávamos chegando a uma estação.
Coloquei Emma de pé e me preparei para correr.
— E Sergei? — perguntou Emma, virando-se bruscamente.
Já seria bem difícil ir mais rápido que uma dupla de acólitos com Emma ainda recuperando as forças; carregando o homem dobrável, seria impossível.
— Vamos ter que deixá-lo aqui — falei. — Vão encontrá-lo e levá-lo para o hospital. É a melhor opção para ele… E para a gente.
Surpreendentemente, ela concordou.
— Acho que era isso o que ele iria querer. — Ela foi rapidamente até ele. — Desculpa não podermos levar você com a gente. Mas tenho certeza de que vamos nos encontrar de novo.
— No outro mundo — resmungou ele, entreabrindo os olhos. — Em Abaton.
Com essas palavras misteriosas e os gritos da garota ecoando em nossos ouvidos, o trem parou e as portas se abriram.

* * *

Não tentamos nada inteligente. Não tentamos nada elegante. No instante em que as portas se abriram, apenas corremos o mais rápido possível.
O acólito saltou para o interior do nosso vagão. A essa altura, já tínhamos passado pela garota gritando e pelo garoto desmaiado e estávamos numa plataforma em que, como um cardume a caminho da desova, lutávamos contra uma multidão que fluía para entrar no trem. Aquela estação, ao contrário de todas as outras, estava lotada de gente.
— Ali! — gritei, puxando Emma na direção de uma placa de SAÍDA que brilhava ao longe.
Torci para que Addison estivesse em algum ponto perto de nossos pés, mas havia tanta gente aglomerada à nossa volta que eu mal via o chão. Por sorte, a força de Emma estava voltando, ou uma carga de adrenalina estava entrando em ação, porque acho que eu não teria aguentado seu peso ao mesmo tempo em que atravessava a manada humana.
Tínhamos posto uns dez metros e cinquenta pessoas entre nós e o trem quando o acólito saiu do vagão, empurrando passageiros e gritando Eu sou um agente da lei! e Saiam do caminho! e Parem aqueles garotos! Ou ninguém o ouvia acima do burburinho da estação ou ninguém estava prestando atenção.
Olhei para trás para vê-lo se aproximando, e foi quando Emma começou a fazer as pessoas tropeçarem, jogando suas pernas à direita e à esquerda enquanto corríamos. As pessoas gritavam e caíam aos montes atrás de nós, e, quando voltei a olhar para trás, o acólito caminhava com dificuldade, pisando sobre pernas e costas e sendo atacado com maletas e guarda-chuvas em retaliação. Furioso e frustrado, ele parou para abrir o coldre de sua arma, mas o fluxo de pessoas entre nós tinha aumentado demais, e, apesar de eu ter certeza de que ele seria insensível o bastante para disparar em meio à multidão, não era burro o suficiente para isso. O pânico causado iria nos tornar ainda mais difíceis de pegar.
Na terceira vez que olhei para trás, ele estava tão distante que mal consegui vê-lo, engolido pela aglomeração de pessoas. Talvez não se preocupasse com nossa captura. Afinal, não éramos nem uma grande ameaça nem um grande prêmio. Talvez o cachorro tivesse razão: em comparação a uma ymbryne, mal valíamos o esforço.
A meio caminho das saídas, a multidão diminuiu o suficiente para que começássemos a correr, mas tínhamos dado apenas alguns passos quando Emma me pegou pela manga e me deteve.
— Addison! — exclamou ela, virando-se para olhar para trás. — Onde está Addison?
No instante seguinte, ele chegou, saindo correndo da parte mais densa da multidão com um pedaço grande de pano branco preso em um pino da coleira.
— Vocês esperaram por mim! — disse ele. — Fiquei preso na meia de uma mulher…
Cabeças se viraram ao som de sua voz.
— Vamos, não podemos parar agora! — falei.
Emma tirou a meia presa da coleira de Addison e saímos correndo outra vez.
À nossa frente havia uma escada rolante e um elevador. A escada rolante estava funcionando, mas muito cheia, então nos conduzi na direção do elevador.
Passamos por uma mulher pintada de azul dos pés à cabeça, e tive que me virar e olhar mesmo enquanto minhas pernas me levavam para a frente. Seu cabelo estava pintado de azul, o rosto coberto de maquiagem azul, e ela usava uma malha colada ao corpo, também azul.
A mulher tinha acabado de sair de vista quando alguém ainda mais bizarro apareceu: um homem cuja cabeça era dividida em dois lados: um era careca, queimado e enrugado; o outro, intocado, o cabelo com uma ondulação elegante fixada com gel. Se Emma o viu, não se virou para olhar. Talvez estivesse tão acostumada a encontrar peculiares verdadeiros que mal percebia pessoas normais de aparência peculiar. Mas e se eles não forem normais?, pensei. E se forem peculiares e, em vez de no presente, fomos parar em outra fenda?
Aí vi dois meninos com espadas brilhantes lutando perto de uma parede com máquinas de vendas, cada encontro de sabres soando com um TEC fraco e plástico, e a realidade entrou em foco. Aquelas pessoas de aparência estranha não eram peculiares. Eram nerds. Com certeza absoluta, estávamos no presente.
A uns sete metros de distância, as portas do elevador se abriram.
Aceleramos e nos jogamos para dentro, amortecendo o impacto com as mãos apoiadas na parede do fundo enquanto Addison se estatelava sobre as patas cambaleantes. Eu me virei bem a tempo de ver duas coisas através do vão da porta se fechando: o acólito saindo da multidão e indo em nossa direção a toda velocidade e, lá atrás nos trilhos, onde o trem estava partindo, o etéreo saltando do teto do último vagão para o teto da estação. Com a língua segurando um suporte de luz, balançou pendurado como uma aranha, os olhos negros brilhando para mim.
Então as portas se fecharam e começamos a subir lentamente, e alguém estava dizendo:
— Onde é o incêndio, parceiro?
Um homem de meia-idade estava parado no canto do elevador, fantasiado e com expressão de escárnio. Sua camisa estava rasgada, seu rosto estava coberto de falsos cortes e, preso à extremidade de um braço, no estilo Capitão Gancho, havia uma serra elétrica suja de sangue.
Emma o viu e deu um passo para trás.
— Quem é você? — perguntou ela.
— Ah, o que é isso? — disse ele, parecendo levemente ofendido.
— Se você quiser mesmo saber onde é o fogo, não responda — ameaçou Emma.
Ela começou a erguer as mãos, mas eu estendi o braço e a detive.
— Ele não é ninguém — falei.
— Achei que tivesse feito uma escolha óbvia este ano — murmurou o homem. Ele arqueou a sobrancelha e ergueu um pouco a serra elétrica. — Eu sou Ash. Vocês sabem… Uma noite alucinante III.
— Nunca ouvi falar de nenhum dos dois — disse Emma. — Quem é sua ymbryne?
— Minha o quê?
— Ele só está imitando um personagem — tentei explicar, mas ela não estava me ouvindo.
— Não importa quem você é — disse ela. — Um exército cairia bem, e não estamos podendo escolher. Onde está o resto dos seus homens?
O homem revirou os olhos.
— Ha, ha! Caras, vocês são engraçados. Todo mundo está no centro de convenções, é óbvio.
— Ele está usando uma fantasia — sussurrei para Emma. Depois, para o cara: — Ela não vê muitos filmes.
— Uma fantasia? — Emma franziu a testa. — Mas ele é adulto.
— E daí? — disse o homem, nos olhando de cima a baixo. — E vocês, quem deveriam ser? Idiotas Andantes? A Liga dos Babacas Extraordinários?
— Peculiares — esclareceu Addison, cujo ego não permitiu mais que ficasse em silêncio. — E eu sou o sétimo filhote do sétimo filhote de uma longa e ilustre linhagem de…
O homem desmaiou antes que Addison pudesse terminar, e sua cabeça bateu no chão com um barulho que me fez encolher.
— Você precisa parar de fazer isso — disse Emma, e depois não conteve o riso.
— Ele mereceu — disse Addison. — Que pessoa mal-educada. Agora, rápido, pegue a carteira dele.
— De jeito nenhum! — falei. — Não somos ladrões.
Addison zombou de mim.
— Eu diria que precisamos dela mais que ele.
— Por que raios ele está vestido desse jeito? — perguntou Emma.
A campainha do elevador tocou, e as portas começaram a se abrir.
— Acho que você está prestes a descobrir — falei.

* * *

As portas do elevador se abriram, e, como mágica, o mundo à luz do dia se descortinou à nossa frente, tão claro que tivemos que proteger os olhos. Enchi o pulmão com o bem-vindo ar fresco quando saímos na calçada abarrotada.
Havia pessoas fantasiadas por toda parte: super-heróis de lycra, zumbis andando com dificuldade com maquiagem pesada, garotas estilo anime com olhos de guaxinim brandindo machados. Eles se congregavam em grupos improváveis e se espalhavam por uma rua com trânsito bloqueado, atraídos como mariposas para um grande prédio cinza onde uma grande faixa anunciava: CONVENÇÃO DE QUADRINHOS.
Emma recuou na direção do elevador.
— O que é isso tudo?
Addison espiou por cima dos óculos para o Coringa de cabelo verde que retocava a maquiagem.
— A julgar pelos trajes, parece alguma espécie de feriado religioso.
— Tipo isso — falei, conduzindo Emma de volta para a calçada. — Mas não se assuste, eles são apenas normais fantasiados, e é isso o que nós parecemos para eles. Só precisamos nos preocupar com aquele acólito. — Deixei de mencionar o etéreo, na esperança de que o tivéssemos despistado ao desaparecer no elevador. — Deveríamos encontrar um lugar para nos esconder até ele sumir, e depois voltar discretamente para o metrô…
— Isso não vai ser necessário — disse Addison, e entrou trotando em uma rua cheia, fungando.
— Ei! — chamou Emma, atrás dele. — Aonde você vai?
Mas ele já estava fazendo a volta.
— Demos muita sorte! — disse ele, agitando a cauda curta e cotó. — Meu focinho me diz que nossos amigos foram tirados do metrô aqui, pela escada rolante. Viemos, no fim das contas, pelo caminho certo!
— Graças às aves! — disse Emma.
— Acha que consegue seguir o rastro? — perguntei.
— Você acha que eu posso? Eles não me chamam de Addison, o Incrível, por nada! Ora, não há aroma, fragrância e perfume peculiar que eu não fareje a centenas de metros de…
Addison se distraía com facilidade quando o tema era sua própria grandeza, mesmo com assuntos urgentes em questão, e sua voz orgulhosa e grave tinha uma tendência a se prolongar.
— Está bem, já entendemos — falei, mas ele continuou a falar por cima, agora caminhando, seguindo o nariz.
— … eu poderia encontrar um peculiar em um amontoado de etéreos, ou uma ymbryne em um aviário…
Nós o seguimos pela multidão fantasiada, entre anões de pernas de pau, desviando de um bando de princesas mortas-vivas e em uma rota de quase colisão com um Pikachu e um Edward Mãos de Tesoura que estavam valsando na rua. Claro que nossos amigos foram trazidos por aqui, pensei. Era a camuflagem perfeita, não apenas para nós, que em meio a tudo aquilo parecíamos totalmente normais, mas também para acólitos raptando um bando de crianças peculiares. Mesmo se alguma delas tivesse ousado gritar por ajuda, quem as teria levado a sério? Todas as pessoas à nossa volta estavam atuando, improvisando lutas teatrais, rosnando em fantasias monstruosas, gemendo como zumbis. Alguns garotos estranhos gritando sobre estarem sendo raptados por pessoas que queriam roubar suas almas? Isso não causaria nenhuma estranheza.
Addison andou em círculo farejando o chão, então se sentou, perplexo.
Discretamente, porque mesmo naquela multidão um cachorro falante seria um choque, eu me abaixei e perguntei a ele qual era o problema.
— Eu simplesmente… err… Parece que eu acabei de…
— Perder o rastro? — disse Emma. — Achei que seu faro fosse infalível.
— Eu apenas me confundi com a trilha. Mas não entendo como… Ela traz bem nitidamente até este ponto, então desaparece.
— Amarre os sapatos — disse Emma de repente. — Agora.
Olhei para baixo.
— Mas não estão…
Ela segurou meu antebraço e me puxou para baixo.
— Amarre. Os. Sapatos — repetiu, e em seguida articulou uma palavra sem emitir som: acólito!
Nós nos agachamos ali, abaixo das cabeças da multidão espaçada. Aí veio um ruído alto de estática, e uma voz distorcida por um walkie-talkie:
— Código 141! Todas as equipes se apresentem ao Recanto imediatamente!
O acólito estava perto. Nós o ouvimos responder com uma voz rouca e de sotaque estranho:
— Aqui é M. Estou seguindo os foragidos. Solicito permissão para continuar a busca. Câmbio.
Troquei um olhar tenso com Emma.
— Negada, M. Limpadores vão varrer a área depois. Câmbio.
— O garoto parece ter alguma influência sobre os limpadores. A varredura pode não ser eficiente.
Limpadores. Ele devia estar falando dos etéreos. E com certeza estava falando sobre mim.
— Negada! — disse a voz, entre estalidos. — Retorne imediatamente, ou passe a noite no poço. Câmbio.
— Entendido — murmurou o acólito em seu walkie-talkie, e foi embora.
— Temos que segui-lo — disse Emma. — Ele pode nos levar aos outros!
— E direto ao covil dos leões — disse Addison. — Se bem que, eu suponho, isso não pode ser evitado.
Eu ainda estava atônito.
— Eles sabem quem sou — falei baixinho. — Devem ter visto o que fiz.
— Isso mesmo — disse Emma. — O que deu um susto e tanto neles!
Eu me ergui para ver o acólito se afastar. Ele seguiu através da multidão, saltou um cavalete de bloqueio de trânsito e correu na direção de um carro de polícia estacionado.
Fomos atrás. Olhei ao redor, tentando imaginar o movimento seguinte dos sequestradores. Às nossas costas havia uma multidão e, à frente, além do bloqueio, carros circulavam a quadra em busca de vaga para estacionar.
— Talvez nossos amigos tenham vindo até aqui a pé — falei. — Depois foram postos em um carro.
Animado, Addison se ergueu nas patas traseiras para espiar por cima do cavalete de bloqueio.
— Sim! Deve ser isso. Garoto esperto!
— Por que você está tão contente? — perguntou Emma. — Se eles foram levados de carro, a essa altura podem estar em qualquer lugar!
— Então vamos segui-los a qualquer lugar — disse Addison incisivamente. — Mas duvido que estejam muito longe. Meu velho mestre tinha uma casa perto daqui, e conheço bem esta parte da cidade. Não há docas importantes nem saídas óbvias de Londres por perto, mas há algumas entradas de fendas. É muito mais provável que eles tenham sido levados para uma delas. Agora me levantem!
Eu fiz isso, e com minha ajuda ele passou por cima da barreira e começou a farejar do outro lado. Em segundos, Addison tinha encontrado outra vez o rastro de nossos amigos.
— Por aqui! — disse ele, apontando para a rua na direção do acólito, que tinha entrado no carro de polícia e estava indo embora.
— Parece que vamos dar uma caminhada — falei para Emma. — Você acha que consegue?
— Vou dar um jeito — disse ela. — Desde que a gente encontre outra fenda em algumas horas. Senão, vou começar a ficar com cabelo branco e pés de galinha.
Ela sorriu, como se aquilo fosse motivo de piada.
— Não vou deixar que isso aconteça — respondi.
Saltamos o bloqueio de trânsito. Dei uma última olhada na estação.
— Está vendo o etéreo? — perguntou Emma.
— Não, não sei onde ele está. E isso me preocupa.
— Vamos nos preocupar com uma coisa de cada vez — disse ela.

* * *

Caminhamos o mais depressa que Emma conseguia, ficando do lado da rua que ainda estava mergulhado na sombra da manhã, atentos à polícia e seguindo o faro de Addison. Passamos por uma área industrial perto das docas, o rio Tâmisa se revelando sombriamente através dos vãos entre os armazéns. Depois adentramos o bairro comercial elegante onde lojas deslumbrantes eram coroadas por prédios reluzentes. Acima dos telhados, captei vislumbres da cúpula da Catedral de St. Paul, inteira outra vez, o céu limpo e azul ao seu redor.
Todas as bombas já tinham caído, e os bombardeiros havia muito tempo desapareceram — derrubados, desmontados, aposentados e acumulando poeira por trás de cordas em museus, sendo observados por estudantes tolos para quem aquela guerra parecia tão distante quanto as Cruzadas. Para mim tinha sido, literalmente, ontem. Era difícil acreditar que aquelas eram as mesmas ruas laterais esburacadas pelas quais corremos por nossas vidas em meio a um blecaute, na noite anterior. Estavam irreconhecíveis, shopping centers aparentemente conjurados das cinzas, e as pessoas que caminhavam por ali também eram totalmente diferentes, de cabeça baixa, grudadas a celulares, com roupas de marca. De súbito, o tempo presente me pareceu estranho, trivial e confuso. Eu me senti como um daqueles heróis míticos que luta para voltar do mundo inferior apenas para descobrir que o mundo acima está exatamente tão amaldiçoado quanto o de baixo.
Então me dei conta: eu estava de volta. Estava outra vez no presente, e tinha chegado ali sem a intervenção da srta. Peregrine… O que supostamente era impossível.
— Emma, como eu cheguei aqui?
Ela manteve os olhos fixos na rua à frente, atenta a qualquer problema que pudesse surgir.
— Chegou aonde? A Londres? — indagou ela. — De trem, seu bobo.
— Não. — Baixei a voz. — Quero dizer ao agora. Você disse que a srta. Peregrine era a única que podia me mandar de volta.
Ela se virou para olhar para mim, semicerrando os olhos.
— Sim — disse ela lentamente. — Era a única.
— Ou era o que você pensava…
— Não… era a única. Tenho certeza disso. É assim que funciona.
— Então como eu cheguei aqui?
Ela pareceu perdida.
— Não sei, Jacob. Talvez…
— Ali! — disse Addison, empolgado, e interrompemos o assunto para olhar. Seu corpo estava rígido, apontando para o fim da rua na qual acabáramos de entrar. — Estou captando dezenas de rastros de peculiares… dezenas e mais dezenas. E são frescos!
— O que isso significa? — perguntei.
— Outros peculiares sequestrados foram trazidos por aqui, não foram só nossos amigos — disse Emma. — O esconderijo dos acólitos deve estar por perto.
— Perto daqui? — falei. A quadra tinha apenas lanchonetes e lojas cafonas de suvenires lado a lado, e estávamos emoldurados pela vitrine iluminada por néon de um restaurante vagabundo. — Acho que eu estava imaginando algum lugar… mais maligno.
— Como um calabouço em algum castelo abandonado — disse Emma, balançando a cabeça.
— Ou um campo de concentração cercado de guardas e cercas de arame farpado — falei.
— Na neve. Como o desenho de Horace.
— Talvez ainda encontremos um lugar assim — disse Addison. — Lembrem-se, deve ser apenas a entrada de uma fenda.
Do outro lado da rua, turistas tiravam fotos de si mesmos diante de uma das clássicas cabines telefônicas vermelhas da cidade. Então nos notaram e tiraram uma foto de nós.
— Ei! — disse Emma. — Sem fotos!
As pessoas estavam começando a olhar fixamente. Como não estávamos mais cercados pelo público da convenção de quadrinhos, nos destacávamos tanto quanto se tivéssemos uma melancia na cabeça.
— Sigam-me — disse Addison. — Todos os rastros levam a esse caminho. Por aqui.
Fomos correndo atrás dele.
— Pena que Millard não está aqui — falei. — Ele poderia explorar este lugar sem ser notado.
— Ou, se Horace estivesse aqui, talvez se lembrasse de algum sonho que nos ajudasse — disse Emma.
— Ou arranjasse roupas novas para nós — acrescentei.
— Melhor parar, senão eu choro — disse Emma.
Chegamos a um cais bastante agitado. O sol reluzia na água de uma enseada do turvo rio Tâmisa, e grupos de turistas com viseiras e pochetes entravam e saíam de grandes barcos, cada um oferecendo passeios turísticos de Londres mais ou menos idênticos.
Addison parou.
— Eles foram trazidos até aqui — disse ele. — Parece que foram postos em um barco.
Seguimos seu focinho através da multidão até um ancoradouro vazio. Os acólitos tinham realmente carregado nossos amigos em um barco, e agora precisávamos continuar atrás deles, mas com o quê? Demos a volta no cais à procura de transporte.
— Isso não vai adiantar — resmungou Emma. — Estes barcos são grandes e cheios demais. Precisamos de um pequeno, algo que a gente mesmo possa pilotar.
— Esperem um instante — disse Addison, farejando.
Ele saiu correndo, o focinho junto às tábuas de madeira. Nós o seguimos ao longo do cais e por uma pequena rampa sem identificação que era ignorada pelos turistas e que levava para uma doca inferior, abaixo da rua, quase ao nível da água. Não havia ninguém por perto. Estava deserta.
Addison parou ali, com uma expressão de concentração profunda.
— Peculiares vieram por aqui.
— Nossos peculiares? — perguntou Emma.
Ele tornou a farejar a doca e sacudiu a cabeça.
— Não os nossos. Mas há muitos rastros aqui, novos e velhos, fortes e esmaecidos, todos misturados. Esta é uma passagem muito usada.
À nossa frente, a doca se estreitava e desaparecia sob o cais principal, onde era engolida pelas sombras.
— Muito usada por quem? — perguntou Emma, espiando, inquieta, a escuridão. — Nunca ouvi falar na entrada de uma fenda embaixo de uma doca em Wapping.
Addison não tinha resposta. Não havia mais nada a fazer além de dar um passo de cada vez e explorar, e foi o que fizemos, entrando apreensivamente nas sombras. Conforme nossos olhos se adaptavam, outro cais surgiu à vista, um completamente diferente daquele ensolarado e agradável acima de nós. As tábuas ali embaixo estavam verdes e apodrecidas, quebradas em alguns pontos.
Um amontoado de ratos guinchando se dispersou por trás de uma pilha de latas velhas, depois saltou uma distância curta entre a doca e o interior de um bote de aparência antiga que balançava na água escura entre as estacas de madeira cobertas de limo.
— Muito bem — disse Emma. — Acho que, em nossa situação, vai servir.
— Mas está cheio de ratos! — disse Addison, horrorizado.
— Não por muito tempo — disse Emma, acendendo uma pequena chama na mão. — Ratos não gostam muito da minha companhia.
Como não parecia haver ninguém para nos deter, fomos até o barco, com o cuidado para desviar das tábuas de aparência mais frágil, e começamos a desamarrá-lo da doca.
— PAREM! — disse uma voz grave, do interior do barco.
Emma deu um grito, Addison ganiu, e eu quase morri de susto. Havia um homem sentado no barco. Como não o tínhamos visto até então?! Ele ficou de pé, se erguendo lentamente, centímetro a centímetro, até assomar sobre nós. Tinha pelo menos dois metros de altura, seu corpo enorme envolto em uma capa e o rosto oculto por um capuz escuro.
— Eu… eu sinto muito — gaguejou Emma. — É que… pensamos que o barco estivesse…
— Muitos tentaram roubar de Sharon! — trovejou o homem. — Agora seus crânios servem de lar para criaturas marinhas!
— Juro que não estávamos tentando…
— Nós estamos de partida — ganiu Addison, recuando. — Por isso, nos desculpe por incomodarmos o cavalheiro.
— SILÊNCIO! — berrou o barqueiro, dando um enorme passo para cima da doca. — Qualquer um que vem por meu barco deve PAGAR O PREÇO.
Eu estava completamente aterrorizado, e quando Emma gritou “CORRAM!”, eu já estava me virando para ir. Mas tínhamos dado apenas alguns passos quando meu pé atravessou uma tábua podre e desabei de cara na doca. Tentei me levantar, mas minha perna estava muito enfiada no buraco. Eu estava preso, e quando Emma e Addison fizeram a volta para me ajudar, era tarde demais. O barqueiro já tinha nos alcançado, sua grande figura se erguendo acima de nós e rindo, com gargalhadas cavernosas que ecoavam ao nosso redor.
Podia ser um truque da escuridão, mas eu poderia jurar ter visto um rato cair do seu capuz e outro escorregar da manga de sua capa enquanto ele erguia o braço lentamente em nossa direção.
— Saia de perto de nós, seu louco! — gritou Emma, batendo palmas para acender uma chama.
Apesar de a chama que Emma produziu nada ter feito para expulsar a escuridão do interior do capuz do barqueiro (desconfiei que nem o sol poderia fazer isso), conseguimos ver o que ele tinha na mão estendida, que não era uma faca nem uma arma. Era um pedaço de papel, preso entre o polegar e o indicador comprido e branco.
Ele o estava estendendo para mim, se curvando muito para que eu conseguisse alcançar.
— Por favor — disse ele, com calma. — Leia.
Hesitei.
— O que é isso?
— O preço. E mais algumas informações sobre meus serviços.
Tremendo de medo, peguei o papel. Todos nos debruçamos para ler à luz da chama de Emma.


Ergui os olhos para o barqueiro gigante.
— Então esse é você? — perguntei, desconfiado. — Você é… Sharon?
— O próprio — respondeu o homem, com uma voz escorregadia que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.
— Pela boa ave, você quase nos matou de susto! — disse Addison. — Todas essas ameaças e gargalhadas eram mesmo necessárias?
— Minhas desculpas. Eu estava dormindo, e vocês me assustaram.
— Nós assustamos você?
— Por um instante, achei que vocês estivessem mesmo tentando roubar meu barco. — Ele riu.
— Ha, ha! — fez Emma, forçando uma risada. — Não, estávamos só… conferindo se estava amarrado direito.
Sharon se virou para examinar seu bote, que estava amarrado com simplicidade a uma das estacas de madeira.
— E o que acharam? — perguntou ele, e surgiu sob seu capuz um meio-sorriso como uma lua crescente branca e sombreada.
— Totalmente… em ótimas condições — falei, finalmente conseguindo soltar a perna do buraco. — Na verdade... hum, uma amarração muito boa.
— Eu mesma não podia ter feito um nó melhor — disse Emma, me ajudando a me levantar.
— Por falar nisso — disse Addison —, os que tentaram… Eles estão todos… — Ele olhou para a água escura e engoliu em seco.
— Isso não importa — disse o barqueiro. — Agora vocês me acordaram, e estou a seu serviço. O que posso fazer por vocês?
— Precisamos alugar seu barco — disse Emma, com firmeza. — Sem você.
— Não posso permitir isso — disse Sharon. — Eu sempre conduzo o barco.
— Ah, é uma pena! — disse Addison, virando-se, ansioso para partir.
Emma o pegou pela coleira.
— Espere! — chiou ela. — Nós não terminamos aqui. — Ela deu um sorriso simpático para o barqueiro. — Sabe, soubemos que muitos peculiares passam por este… — ela olhou ao redor à procura da palavra certa — … lugar. É porque há uma entrada de fenda por perto?
— Não sei do que você está falando — disse Sharon, sem rodeios.
— Está bem, sim, é claro, você não pode simplesmente admitir isso. Eu entendo perfeitamente. Mas você está em companhia segura conosco. Obviamente, nós somos
Eu a cutuquei com o cotovelo.
— Emma, não!
— Por que não? Ele já viu o cachorro falar, já me viu fazer fogo. Se não pudermos falar honestamente…
— Mas não sabemos se ele é — falei.
— Claro que ele é — disse ela, e olhou para Sharon. — Você é, não é?
O barqueiro nos encarou, impassível.
— Ele é, não é? — perguntou Emma a Addison. — Você não consegue farejar isso nele?
— Não, não com clareza.
— Bem, imagino que não importe, desde que não seja um acólito. — Ela deu um olhar malicioso para Sharon. — Você não é, é?
— Sou só um homem de negócios — disse ele sem se alterar.
— Que está acostumado a encontrar cães falantes e garotas que fazem fogo com as mãos — disse Addison.
— Em meu ramo, conhece-se uma grande variedade de pessoas.
— Vou direto ao ponto — falei, sacudindo um pé para tirar a água, depois o outro. — Estamos procurando alguns amigos nossos. Achamos que eles podem ter passado por aqui mais ou menos na última hora. A maioria crianças, alguns adultos. Um era invisível, uma podia flutuar…
— Seria difícil não notar — disse Emma. — Um bando de acólitos estava apontando armas para eles.
Sharon cruzou os braços em um grande X preto.
— Como eu disse, todo tipo de gente contrata meu barco, e todos confiam em minha discrição absoluta. Não vou comentar sobre minha clientela.
— É mesmo? — disse Emma. — Com licença, um instante.
Ela me puxou para o lado para sussurrar em meu ouvido:
— Se ele não começar a falar, vou ficar com muita raiva.
— Não faça nada irresponsável — sussurrei em resposta.
— Por quê? Você acredita nessa bobagem de crânios e criaturas marinhas?
— Na verdade, sim. Sei que ele é um canalha, mas…
— Canalha? Ele praticamente admitiu fazer negócios com acólitos. Pode até ser um!
— Mas ele é um canalha útil. Tenho a sensação de que ele sabe exatamente para onde nossos amigos foram levados. É só uma questão de fazer as perguntas certas.
— Então vá em frente — disse ela, mal-humorada.
Olhei para Sharon e falei, com um sorriso:
— O que você pode me contar sobre seus passeios?
Ele se animou.
— Finalmente um assunto sobre o qual posso falar livremente. Por acaso tenho alguma informação bem aqui…


Ele se virou rapidamente e foi até uma estaca próxima. Uma prateleira havia sido pregada nela, e sobre a prateleira havia um crânio vestindo um antigo traje de aviador (capacete de couro, óculos e um cachecol vistoso). Preso entre seus dentes havia vários panfletos, e Sharon pegou um deles e o entregou a mim.
Era uma brochura turística barata que parecia ter sido impressa quando meu avô era criança. Folheei as páginas enquanto Sharon pigarreava e falava.
— Vamos ver... As famílias gostam do pacote Fome e Chamas… De manhã, subimos o rio e vemos artefatos de guerra vikings lançarem carneiros doentes por cima das muralhas da cidade, depois comemos um belo almoço frio em caixinhas e voltamos à noite através do Grande Incêndio de 1666, que é uma verdadeira maravilha depois do anoitecer, com as chamas refletidas na água, muito bonito. Ou, se tivermos apenas algumas horas, temos uma adorável execração pública perto da Doca das Execuções, bem ao pôr do sol, popular entre casais em lua de mel, quando excelentes piratas de língua suja fazem discursos pitorescos antes de serem enforcados. Por uma pequena taxa, podem até tirar fotos com eles.
No interior da brochura havia ilustrações de turistas sorridentes se divertindo nos locais que ele descrevera. Na última página havia uma foto de um dos clientes de Sharon posando com um bando de piratas ameaçadores brandindo facas e armas de fogo.


— Peculiares fazem isso por diversão? — perguntei, assombrado.
— Isso é perda de tempo — sussurrou Emma, que toda hora olhava às nossas costas, ansiosa. — Aposto que ele está só tentando ganhar tempo até a chegada da próxima patrulha de acólitos.
— Acho que não — falei. — Espere só…
Sharon prosseguia como se não tivesse nos ouvido:
— … e vocês podem ver todas as cabeças dos lunáticos dispostas em lanças enquanto passamos por baixo da Ponte de Londres! Por último, nossa excursão mais requisitada, que é, pessoalmente, minha favorita. Mas… ah, não importa — disse ele timidamente, acenando com a mão. — Pensando bem, duvido que estejam interessados no Recanto do Demônio.
— Por que não? — disse Emma. — É muito simpático e agradável?
— Na verdade, é um local um tanto sinistro. Sem dúvida não é lugar para crianças…
Emma bateu o pé, fazendo toda a doca apodrecida balançar.
— É para onde nossos amigos foram levados, não é? — gritou ela. — Não é?
— Não perca a calma, senhorita. Sua segurança é minha maior preocupação.
— Pare de nos enrolar e diga o que tem lá!
— Bem, se insistem… — Sharon fez um som como se estivesse entrando em uma banheira quente e começou a esfregar as mãos, que pareciam de couro, como se sentisse prazer só de pensar. — Coisas ruins — disse ele. — Coisas terríveis. Coisas malignas. O que você quiser, desde que o que você queira seja ruim, terrível e vil. Várias vezes sonhei pendurar meu remo e me aposentar lá um dia, talvez abrir um abatedouro na Rua do Lodo…
— Como se chama mesmo esse lugar? — perguntou Addison.
— Recanto do Demônio — disse o barqueiro, desejoso.
Addison estremeceu do focinho ao rabo.
— Eu conheço — disse o cão com gravidade. — É um lugar terrível… O cortiço mais depravado e perigoso em toda a longa história de Londres. Já ouvi histórias de animais peculiares levados para lá em gaiolas e postos para lutar em jogos sangrentos. Urxinins contra jumirafas, macacerontes contra flamimbodes… pais contra os próprios filhos! Forçados a mutilar e matar uns aos outros para a diversão de alguns peculiares doentios.
— Revoltante — disse Emma. — Que peculiar iria participar de uma coisa dessas?
Addison sacudiu a cabeça com tristeza.
— Foras da lei… mercenários… exilados…
— Mas não há foras da lei no mundo peculiar! — disse Emma. — Todo peculiar condenado por algum crime é levado pela guarda doméstica para uma fenda de punição.
— Como você sabe pouco do seu próprio mundo! — exclamou, admirado, o barqueiro.
— Criminosos não podem ser presos se jamais forem capturados — explicou Addison. — Se escaparem para uma fenda dessas, sem lei, ingovernável.
— Isso parece um inferno — falei. — Por que alguém escolheria ir para lá?
— O que é o inferno para alguns — disse o barqueiro — é o paraíso para outros. É o último lugar realmente livre. Um local onde você pode comprar ou vender qualquer coisa… — Ele se inclinou em minha direção e baixou a voz. — Ou esconder qualquer coisa.
— Como ymbrynes e crianças peculiares raptadas? — falei. — É aí que você quer chegar?
— Eu não disse isso. — O barqueiro deu de ombros, pegando um rato puxado da barra de sua capa. — Quieto aí, Percy, papai está trabalhando.
Enquanto ele punha delicadamente o rato de lado, abracei Emma e Addison em um círculo apertado.
— O que vocês acham? — sussurrei. — Será que esse… lugar do demônio… pode ser mesmo para onde nossos amigos foram levados?
— Bom, eles precisam manter os prisioneiros dentro de uma fenda, e uma bem antiga — disse Emma. — Do contrário, a maioria de nós ia envelhecer e morrer depois de um ou dois dias.
— Mas por que os acólitos iriam se importar se morrêssemos? — falei. — Eles só querem roubar nossas almas.
— Pode ser, mas eles não podem deixar que as ymbrynes morram. Eles precisam delas para recriar o acontecimento de 1908. Não se lembra do plano maluco dos acólitos?
— Toda aquela história sobre a qual Golan estava falando. Imortalidade e dominar o mundo…
— É. Por isso eles estão há meses raptando ymbrynes, e precisam de um lugar para guardá-las onde elas não se transformem em frutas murchas e ressecadas, certo? Ou seja, uma fenda bem antiga. Pelo menos oitenta, cem anos. E se o Recanto do Demônio é mesmo uma selva depravada e sem lei…
— É, sim — confirmou Addison.
— Então parece um lugar perfeito para acólitos esconderem seus cativos.
— Bem no coração da Londres peculiar, aliás — disse Addison. — Bem debaixo do nariz de todo mundo. Vilõezinhos inteligentes…
— Acho que isso resolve as coisas — falei.
Emma caminhou com arrogância na direção de Sharon.
— Queremos três passagens para esse lugar repulsivo e terrível que você descreveu, por favor.
— Estejam bem certos do que vocês querem — disse o barqueiro. — Cordeiros inocentes como vocês nem sempre retornam do Recanto do Demônio.
— Temos certeza.
— Muito bem, então. Mas não digam que não avisei.
— Só tem um problema: não temos as três moedas de ouro — disse Emma.
— É mesmo? — Sharon recolheu os dedos compridos e soltou um suspiro que fedeu como uma tumba aberta. — Normalmente eu insisto em pagamento adiantado, mas esta manhã estou me sentindo generoso. Acho charmoso esse seu otimismo impetuoso. Vocês podem ficar devendo. — Então ele riu, como se soubesse que não iríamos viver para lhe pagar. Em seguida, chegou para o lado e ergueu um braço coberto pela capa na direção do seu barco.
— Bem-vindas a bordo, crianças.

Um comentário:

  1. Isso me parece a barca do inferno com o barqueiro sinistro que sempre cobra uma moeda de ouro aos seus passageiros.E esse rato de nome Percy? Ate em os peculiares a mitologia grega está!

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Boa leitura :)