5 de abril de 2017

Capítulo um

Passei a última noite do Antes construindo uma réplica do edifício Empire State em escala 1/10.000, com caixas de fraldas geriátricas. Era algo bonito, de verdade, com um metro e meio na base e mais alto que as prateleiras; embalagens grandes como alicerces, médias para o terraço panorâmico e pequenas empilhadas meticulosamente para formar sua espiral icônica. Ficou quase perfeito, não fosse por um detalhe crucial.
— Você usou SuperSeca — disse Shelley, avaliando minha habilidade com expressão fechada e cética. — A promoção é da Segura e Seca. — Shelley era a gerente da loja, e os ombros curvados e a expressão severa faziam parte de seu uniforme tanto quanto as camisas polo azuis que todos tínhamos de usar.
— Achei que você tinha dito SuperSeca — disse eu, porque ela tinha feito isso.
— Segura e Seca — ela insistiu, balançando a cabeça com pesar, como se minha torre fosse um cavalo de corridas aleijado e ela, a portadora de uma pistola com cabo de madrepérola. Houve um silêncio breve mas estranho, durante o qual ela continuou a sacudir a cabeça e a olhar de mim para a torre e da torre para mim, enquanto eu a encarava sem expressão, como se não fizesse ideia do que ela, agressiva e passivamente, sugeria.
— Ahhhhh! — exclamei por fim. — Você quer, então, que eu faça tudo de novo?
— É que você usou a SuperSeca — respondeu.
— Tudo bem. Vou começar agora mesmo. — E com o bico do meu tênis preto do uniforme tirei uma única caixa da base da torre para, no instante seguinte, toda aquela magnífica estrutura desmoronar em cascata ao nosso redor, um verdadeiro tsunami de fraldas que se espalhou pelo chão, rolando entre as pernas dos clientes assustados. Uma das embalagens deslizou para tão longe que chegou até a porta automática, que se abriu e deixou entrar uma lufada do calor de agosto.
O rosto de Shelley ficou da cor de uma romã madura. Ela devia ter me demitido no ato, mas eu sabia que não teria tanta sorte assim. Estava tentando ser demitido do Smart Aid desde o começo do verão, mas isso se revelou praticamente impossível. Eu chegava tarde, sempre, e com as desculpas mais esfarrapadas; cometia erros grosseiros na hora de dar o troco; e guardava as mercadorias nas prateleiras erradas, empilhando loções entre os laxantes e misturando anticoncepcionais com xampu de bebê. Raras vezes eu me dediquei com tanto afinco a um propósito, mas, por mais incompetente que eu fingisse ser, Shelley teimava em me manter na folha de pagamento.
Deixe-me explicar melhor minha afirmação anterior: era praticamente impossível que me demitissem do Smart Aid. Qualquer outro funcionário teria ido para o olho da rua por uma única de infração menor. Foi minha primeira lição de política. Há três Smart Aid em Englewood, a pequena e sonolenta cidade onde moro, 27 no condado de Sarasota e 115 em toda a Flórida, espalhados por todo o estado como uma doença incurável. O motivo por eu não conseguir ser demitido é que meus tios eram donos de toda a rede. O motivo que me impedia de pedir demissão é que trabalhar no Smart Aid como primeiro emprego era uma longa e sagrada tradição familiar. Tudo o que consegui com minha campanha de autossabotagem foi um conflito com Shelley que eu não podia vencer e o ressentimento de meus colegas de trabalho, que, convenhamos, ficariam ressentidos comigo de qualquer jeito, porque, independentemente de quantas pilhas de produtos eu derrubasse ou de quantos trocos de cliente errasse, um dia eu iria herdar uma parte considerável da empresa, e eles não.

* * *

Caminhando com dificuldade entre as fraldas, Shelley se aproximou, enfiou o dedo em meu peito e estava prestes a dizer algo muito sério, tenho certeza, quando o sistema de alto-falantes a interrompeu.
— Jacob, chamada na linha dois; Jacob, linha dois.
Ela me encarou enquanto eu me afastava, deixando seu rosto de romã em meio às ruínas de minha torre.

* * *

Na sala dos funcionários, um lugar úmido e sem janelas, encontrei a assistente de farmácia, Linda, comendo um sanduíche de pão de fôrma sem casca diante do brilho vivo da máquina de refrigerante. Ela indicou com a cabeça o telefone preso à parede.
— Na linha dois, é para você. Não sei quem é, mas parece surtado.
Peguei o fone que pendia do aparelho.
— Yakob? É você?
— Oi, vovô Portman.
— Yakob, graças a Deus! Preciso da minha chave. Onde está minha chave? — Ele parecia nervoso, sem fôlego.
— Que chave?
— Pare de brincadeira! — repreendeu-me. — Você sabe que chave.
— Você provavelmente guardou em outro lugar.
— Seu pai fez isso com você — disse ele. — Pode me contar, ele não precisa saber.
— Ninguém fez nada comigo. — Tentei mudar de assunto. — Você tomou seu remédio de manhã?
— Eles estão vindo atrás de mim, entendeu? Não sei como me encontraram depois de todos esses anos, mas conseguiram, e o que eu devo fazer? Lutar contra eles com uma porcaria de faca de pão?
Não era a primeira vez que eu o via falar assim. Meu avô estava ficando velho e, para dizer a verdade, começava a ficar senil. No início, os sinais de seu declínio mental eram sutis, como esquecer de fazer compras ou chamar minha mãe pelo nome de minha tia. Mas ao longo do verão a demência que o minava tomou um rumo cruel: as histórias fantásticas que inventara sobre sua vida durante a guerra — os monstros, a ilha encantada — tornaram-se completa e opressivamente reais para ele, que estava especialmente agitado nas últimas semanas. Meus pais temiam que ele se tornasse um perigo para si próprio e consideravam seriamente a ideia de mandá-lo para um asilo. Mas, por algum motivo, eu era o único que recebia dele esses telefonemas apocalípticos.
Como sempre, fiz o possível para acalmá-lo.
— Você está em segurança. Está tudo bem. Vou levar um vídeo para a gente ver mais tarde, o que acha?
— Não! Fique onde está! Aqui não é seguro!
— Os monstros não estão atrás de você. Você matou todos eles na guerra, lembra? — Eu me virei para ficar de frente para a parede, tentando esconder de Linda a minha parte daquela conversa bizarra. Ela me lançava olhares curiosos enquanto fingia ler uma revista de moda.
— Não todos — respondeu. — Não, não, não. Eu matei muitos, é verdade, mas sempre havia mais. — Eu podia ouvi-lo andando pela casa, abrindo gavetas, batendo nas coisas. Estava completamente surtado. — Mas fique longe daqui, está me ouvindo? Vou ficar bem, é só cortar a língua deles e furá-los bem nos olhos! Se ao menos eu conseguisse achar aquela maldita CHAVE!
A chave em questão abria a porta de um armário na garagem do vovô Portman. Lá dentro havia uma pilha de revólveres e facas suficientes para armar uma pequena milícia. Não seria exagero dizer que meu avô era louco por armas. Ele as colecionou por mais da metade de sua vida, ia a feiras de armas em outros estados, fazia longas viagens de caça e, nos domingos de sol, arrastava a família à força até estandes de tiro com rifle, de modo que todos aprendessem a atirar.
Ele amava tanto suas armas que às vezes chegava a dormir com elas. Meu pai tinha uma velha foto para provar: o vovô Portman cochilando com uma pistola na mão.
Quando perguntei a meu pai por que meu avô era tão louco por armas, ele disse que isso às vezes acontecia com ex-combatentes e pessoas submetidas a experiências traumáticas. Acho que depois de tudo pelo que vovô tinha passado, ele nunca se sentia realmente seguro em lugar nenhum, nem mesmo em casa. A ironia era que, agora que os delírios e a paranoia estavam começando a acabar com sua sanidade, isso era verdade: ele não estava seguro em casa, não com todas aquelas armas por perto. Foi por isso que meu pai pegou a chave e a guardou.
Repeti a mentira de não saber onde ela estava. Ouvi mais xingamentos e ruídos enquanto vovô Portman andava pela casa procurando por ela.


— Droga! — disse por fim. — Seu pai pode ficar com a chave se isso é tão importante para ele. E também pode ficar com o meu cadáver.
Desliguei o telefone com o máximo de educação que consegui e liguei para meu pai em seguida.
— O vovô está surtando — contei.
— Ele tomou os remédios hoje?
— Ele não quis me dizer, mas parece que não.
Ouvi meu pai dar um suspiro.
— Será que você pode dar uma passada lá para ver se ele está bem? Não posso sair agora do trabalho. — Meu pai era voluntário em meio período no resgate de aves: ajudava a recuperar pelicanos que haviam engolido anzóis e garças-brancas atropeladas por carros. Era um ornitólogo amador e desejava escrever profissionalmente sobre a natureza, tendo uma pilha de manuscritos não publicados para prová-lo, o que só é um emprego de verdade se por acaso você for casado com uma mulher cuja família seja dona de 115 drogarias.
Claro, meu emprego também não era dos mais reais e era fácil escapar sempre que me dava vontade. Eu disse que podia ir.
— Obrigado, Jake. Prometo que vamos resolver logo toda essa situação do vovô, está bem?
Toda essa situação do vovô...
— Você quer dizer botá-lo em um asilo? — observei com frieza. — Passar o problema para outra pessoa?
— Sua mãe e eu ainda não decidimos.
— É claro que já.
— Jacob...
— Eu posso cuidar dele, pai. Sério.
— Talvez agora você consiga, mas ele só vai piorar.
— Está bem, como quiser.
Desliguei o telefone, liguei para meu amigo Ricky e pedi uma carona. Dez minutos depois ouvi a buzina rouca e inconfundível de seu velho Crown Victoria no estacionamento. Quando estava de saída, dei a má notícia para Shelley: sua torre de Segura e Seca teria de esperar até o dia seguinte.
— Emergência de família — disse eu.
— Está bem — retrucou ela.
Quando saí, o fim de tarde estava quente e muito úmido, e encontrei Ricky fumando sentado sobre o capô todo amassado de seu carro. Algo em suas botas sujas de lama ressecada, o modo como a fumaça saía de seus lábios em espiral e os reflexos do sol poente em seus cabelos verdes me faziam lembrar de um punk, um James Dean caipira. Ele era todas essas coisas, uma polinização cruzada entre subculturas, possível apenas no sul da Flórida.
Ele me viu e saltou do capô.
— Já foi demitido? — berrou do fundo do estacionamento.
— Pssst! — fiz para silenciá-lo enquanto corria em sua direção. — Eles não sabem do meu plano.
Ricky me deu um soco no ombro com a intenção de me animar, mas quase tirou meu braço do lugar.
— Não se preocupe, Edu Especial. Sempre há outro dia.
Ele me chamava de Edu Especial porque eu estava em uma das turmas especiais para bons alunos, que eram, falando tecnicamente, parte do currículo de educação especial de nossa escola — uma sutileza de nomenclatura que Ricky achava extremamente engraçada. Assim era nossa amizade: porções equivalentes de irritação e cooperação. A porção de cooperação era um acordo comercial de escambo de inteligência por músculos, estabelecido quando eu o ajudei a passar de ano em inglês e ele me ajudou a não ser exterminado pelos sociopatas cheios de anfetamina que povoavam os corredores de nossa escola. O fato de ele deixar meus pais um pouco desconfortáveis era um bônus. Na minha opinião, ele era meu melhor amigo — o que é um modo menos patético de dizer que era meu único amigo.
Ricky deu um chute na porta do carona do Crown Victoria, seu modo de abri-la, e eu entrei. O Victoria era maravilhoso, uma peça de arte popular involuntária digna de um museu. Ricky o comprara no depósito de lixo da cidade por um vidro cheio de moedas de 25 centavos — pelo menos era o que ele contava —, um pedigree que nem a floresta de árvores de papelão purificadoras de ar pendurada no retrovisor conseguia mascarar. Os bancos estavam cobertos de fita adesiva prateada para que as molas rebeldes do estofado não espetassem nosso traseiro. O melhor de tudo era o exterior, uma paisagem lunar enferrujada formada por sulcos e amassados, resultado de um plano para ganhar uma grana extra para a gasolina: deixar que bêbados saídos de festas e bares batessem no carro com um taco de golfe por um dólar a tacada. A única regra, que não tinha sido cumprida com muito rigor, era que você não podia mirar em nada feito de vidro.
O motor engasgou e depois pegou em meio a uma nuvem de fumaça azulada. Depois de sair do estacionamento, quando passávamos pelos pequenos shoppings espalhados à beira da estrada no caminho para a casa do vovô Portman, comecei a me preocupar com o que poderíamos encontrar quando chegássemos lá. Os piores cenários incluíam meu avô correndo pelado na rua com um rifle de caça nas mãos, a boca espumando no gramado em frente à casa, ou escondido à espera de visitantes inesperados, com um objeto pesado nas mãos. Tudo era possível, e o fato de que essa seria a primeira impressão de Ricky de um homem sobre quem eu sempre falava com reverência me deixou ainda mais nervoso.
O céu tomava a cor de um hematoma recente quando chegamos ao condomínio do meu avô, um labirinto confuso de becos sem saída interligados, chamados coletivamente de Circle Village. Paramos na guarita do vigia para nos anunciar, mas o velho roncava e o portão estava aberto, como costumava acontecer; então, em vez de acordá-lo, simplesmente entramos. Meu telefone tocou anunciando uma mensagem do meu pai, em que perguntava como estavam as coisas, e, no curto espaço de tempo que levei para responder, Ricky conseguiu se perder. Quando contei a ele que não tinha a menor ideia de onde estávamos, ele reclamou e fez uma sucessão de retornos, cantando pneus, enquanto cuspia longe, pela janela, a gosma do tabaco que mascava, e eu examinava a vizinhança em busca de um ponto de referência conhecido. Não era fácil porque, apesar de eu ter visitado meu avô inúmeras vezes desde pequeno, as casas eram todas iguais: caixotes de um só andar com variações mínimas, decorados com esquadrias de alumínio ou madeira escura, ou com colunatas de gesso na fachada que pareciam quase propositadamente delirantes.
As placas de sinalização, metade das quais estava gasta pela exposição ao sol, não ajudavam muito. Os únicos pontos de referência de verdade eram ornamentos de jardim bizarros e coloridos, dos quais Circle Village era um verdadeiro museu a céu aberto.
Finalmente reconheci uma caixa de correio carregada pela figura de um mordomo forjada em metal — apesar da expressão permanentemente esnobe, a figura parecia chorar lágrimas de ferrugem — e gritei para Ricky entrar à esquerda. O Victoria cantou pneu e fui jogado contra a porta do carona; Ricky deve ter achado que o impacto havia soltado alguma coisa no meu cérebro, porque depois disso comecei a gritar praticamente sem pensar todas as indicações do caminho até a casa do meu avô.
— À direita na orgia de flamingos! Esquerda no telhado cheio de Papais Noéis multirraciais! Passe direto pelos querubins fazendo xixi!
Quando, por fim, viramos depois dos querubins, Ricky reduziu a marcha e, desconfiado, observou atento a quadra da casa do meu avô. Não havia uma luz acesa sequer nas varandas, nem o brilho de uma TV por trás de alguma janela, tampouco os carros grandes nas garagens. Todos os vizinhos tinham fugido para o norte, a fim de escapar do castigo do calor do verão, deixando para trás anões de jardim em gramados descuidados e persianas à prova de furacão bem fechadas, o que dava às casas a aparência de abrigos antibombas.
— A última à esquerda — disse eu. Ricky pisou no acelerador e o carro seguiu engasgando até o fim da rua. Na altura da quarta ou quinta casa de janelas escuras, passamos por um senhor que regava o jardim. Era careca como um ovo e estava ali, de pé, molhando a grama na altura de seus tornozelos, de roupão de banho e chinelos. A casa às suas costas estava escura e toda fechada, como as outras. Virei-me para observá-lo quando o Victoria passou, e ele pareceu retribuir o olhar, apesar de não poder ter feito isso. Percebi, com um pequeno choque, que seus olhos eram todos de um branco perfeitamente leitoso. Que estranho. O vovô Portman nunca comentou que um de seus vizinhos era cego.
A rua terminava numa cerca de pinheirinhos, e Ricky fez uma curva brusca à esquerda para entrar na garagem da casa do meu avô. Ele desligou o carro, saiu e abriu minha porta com um chute, e caminhamos com passos silenciosos pela grama seca até a varanda.
Toquei a campainha e esperei. Ouvimos o latido distante de um cão, um som solitário naquela noite extremamente úmida e quente. Como ninguém atendeu, bati à porta, pensando que talvez a campainha estivesse com defeito.
Ricky tentava matar os pernilongos que tinham começado a nos cercar.
— Talvez ele tenha saído — disse Ricky com um sorriso. — Um encontro animado.
— Vai, pode rir — disse eu. — Ele tem mais chances de se dar bem do que nós, em qualquer noite da semana. Este lugar está cheio de viúvas bem bonitas. — Brinquei apenas para acalmar meus nervos. O silêncio estava me deixando ansioso.
Peguei uma cópia da chave no esconderijo dos arbustos.
— Espere por mim aqui — disse eu.
— Nem pensar. Por quê?
— Porque você tem dois metros de altura e cabelos verdes, e meu avô não conhece você, está paranoico e tem um monte de armas.
Ricky deu de ombros e enfiou outro pedaço de tabaco na boca, depois se largou numa cadeira do jardim. Abri a porta da frente e entrei.
Mesmo na penumbra percebi que a casa estava um desastre. Parecia ter sido saqueada por ladrões. Estantes de livros e armários tinham sido esvaziados, os livros e bibelôs que os enchiam estavam espalhados pelo chão. As almofadas do sofá tinham sido arrancadas, e as cadeiras estavam viradas de ponta-cabeça.
Na cozinha, as portas do freezer e da geladeira estavam abertas, e seu conteúdo, jogado no chão, derretia em poças grudentas sobre o linóleo.
Fiquei arrasado. Talvez meus pais tivessem razão e não fosse mais seguro para meu avô continuar a morar sozinho. Chamei por ele, mas não ouvi nenhuma resposta.
Percorri todos os aposentos, um a um, acendendo as luzes e procurando em qualquer lugar onde um velho paranoico pudesse pensar em se esconder de monstros: atrás de móveis, no sótão de teto baixo onde era necessário se arrastar, sob a bancada de trabalho na garagem. Cheguei a pensar em conferir o armário de armas, apesar de, obviamente, estar trancado. Mas vi a fechadura marcada por um emaranhado de arranhões, indicando uma tentativa desesperada de arrombamento. Na varanda, vasos de samambaias malcuidadas pendurados no teto balançavam, enquanto eu, de joelhos sobre o chão coberto de grama sintética, espiava sob cadeiras de vime, com medo do que poderia descobrir.
Então vi o brilho de uma luz no quintal dos fundos.
Saí correndo pela porta de tela e encontrei uma lanterna abandonada sobre a grama, com o facho de luz apontado para a mata que cercava o quintal de meu avô — uma floresta baixa e densa, com diversos tipos de palmeiras de alturas variadas, que se estendia por quase dois quilômetros entre Circle Village e o condomínio seguinte, Century Woods. Segundo uma lenda local, a mata estava cheia de cobras, guaxinins e javalis selvagens. Imaginei meu avô lá fora, perdido, surtado e só de roupão, e fui tomado por uma sensação sinistra. Quase toda semana havia uma notícia sobre algum cidadão idoso que caía nas águas de uma represa e era devorado por jacarés. A pior situação possível não era difícil de imaginar.
Gritei por Ricky e, num instante, ele surgiu do outro lado da casa e imediatamente percebeu algo que eu não havia notado: um corte longo e feio na porta de tela. Ele soltou um assobio.
— É um corte e tanto — disse ele. — Pode ter sido feito por um porco selvagem. Ou talvez um lince. Você devia ver as garras desses bichos.
Perto dali, ouvimos o som de um latido selvagem. Nós dois levamos um susto e trocamos olhares nervosos.
— Ou um cachorro — disse eu. Começou, então, uma reação em cadeia entre os cães de toda a vizinhança, e logo ouvíamos latidos vindos de todas as direções.
— Pode ser — concordou Ricky, balançando a cabeça. — Eu tenho uma calibre 22 no porta-malas. Espere aí — disse, e saiu para buscá-la.
Os latidos cessaram e em seu lugar surgiu um coral de insetos noturnos, um zumbido que me pareceu muito estranho. O suor escorria por meu rosto e descia pelo pescoço. Agora estava escuro, mas a brisa tinha parado e de alguma forma parecia fazer mais calor do que durante o dia.
Peguei a lanterna na grama e dei um passo adiante na direção das árvores.
Meu avô estava lá, em algum lugar, eu tinha certeza disso, mas onde? Não sabia seguir uma trilha na mata, nem Ricky, mesmo com todo seu ar de homem do campo. Mas de alguma maneira algo parecia guiar-me, uma aceleração no peito, um murmúrio no ar denso... De repente, não consegui mais ficar esperando por algum som. Entrei correndo no mato, como um cão de caça que fareja uma trilha invisível.
É difícil correr numa floresta da Flórida, onde cada metro quadrado não ocupado por árvores é tomado por palmeiras baixas e emaranhados de cipós e trepadeiras, mas segui em frente, chamando pelo nome de meu avô e apontando a lanterna para todos os lados. Vislumbrei um reflexo branco a distância e corri direto para lá, porém ao me aproximar vi que era apenas uma bola de futebol desbotada e murcha que eu tinha perdido anos antes, semidigerida pelas plantas.
Estava pronto para desistir e voltar até onde Ricky estava quando percebi uma faixa estreita de mato recém-pisado. Parei e iluminei a área com a lanterna. Em vários pontos as folhas estavam respingadas com algo escuro. Senti um nó na garganta. Preparado para o pior, comecei a seguir a trilha de arbustos pisoteados. Quanto mais eu avançava, mais apertado ficava o nó em meu estômago, como se meu corpo soubesse o que estava à frente e tentasse me alertar para evitá-lo.
Quando encontrei meu avô, tive certeza de que estava morto. Tinha o rosto virado para baixo e estava esparramado numa área coberta por ervas rasteiras, as pernas estendidas e afastadas, e um braço cruelmente retorcido sob o corpo, como se tivesse caído de uma grande altura. Sua camiseta estava ensopada de sangue, as calças rasgadas e tinha apenas um sapato. Permaneci imóvel por alguns instantes, só olhando, vendo o facho frio e trêmulo da luz da lanterna iluminar seu corpo. Quando consegui voltar a respirar, disse seu nome, mas ele não se mexeu.
Mesmo sem forças, ajoelhei-me ao seu lado e apertei a palma da mão contra suas costas. O sangue que empapava a camisa ainda estava quente. E, mesmo muito fraca, consegui sentir sua respiração.
Segurei-o cuidadosamente com os braços e o virei de costas. Estava vivo, mas por um fio. Tinha os olhos vidrados e o rosto encovado e branco como papel.
Então vi os cortes em sua barriga e quase desmaiei. Eram largos e profundos, e estavam sujos de terra; no lugar onde se encontrava, o sangue formara uma lama. Fechei bem os olhos e puxei os farrapos de sua camisa sobre as feridas.
Ouvi Ricky chamar do quintal.
— ESTOU AQUI! — gritei, e talvez devesse ter dito algo como perigo ou sangue, mas não consegui pronunciar as palavras. Tudo em que podia pensar era que avôs deviam morrer em camas, em lugares brancos e tranquilos, com o zumbido suave de máquinas, não jogados em uma superfície fedorenta e lamacenta, cobertos de formigas e com a mão trêmula agarrando um abridor de cartas de metal.
Um abridor de cartas. Foi tudo o que achara para se defender. Eu o retirei de seus dedos, e ele tentou inutilmente agarrar o ar, então tomei sua mão e a segurei. Minha mão com as unhas roídas entrelaçou-se com a dele, pálida e com uma teia de veias púrpuras.
— Tenho de tirá-lo daqui — disse a ele, passando um braço sob suas costas e outro sob as pernas enquanto começava a erguê-lo, mas ele gemeu e ficou rígido, e parei porque não conseguia vê-lo sofrer. Não podia deixá-lo ali, e não havia nada a fazer além de esperar. Comecei, então, a limpar a terra sobre seus braços, o rosto e os ralos cabelos brancos, e nesse momento vi seus lábios se moverem.
Eu mal conseguia ouvir sua voz, mais baixa do que um sussurro. Debrucei-me sobre ele e aproximei o ouvido de seus lábios. Ele dizia palavras sem sentido, entrando e saindo do estado de lucidez, falando ora inglês, ora polonês.
— Não estou entendendo — murmurei.
Repeti o nome dele até que seu olhar pareceu se fixar em mim. Então ele respirou fundo e disse baixinho, mas com toda a clareza:
— Vá para a ilha, Yakob. Aqui não é seguro.
Era a velha paranoia. Apertei sua mão e garanti que estava tudo certo e que ele ficaria bem. Era a segunda vez no dia que eu mentia para ele. Perguntei o que havia acontecido, que animal o havia ferido, mas ele não me ouvia.
— Vá para a ilha — repetiu. — Lá você estará em segurança. Prometa.
— Eu vou. Prometo. — O que mais eu poderia dizer?
— Achei que eu podia proteger você. Devia ter lhe contado há muito tempo... — Sua linha de raciocínio se perdeu. Podia ver sua vida se esvaindo.
— Contado o quê? — perguntei, segurando as lágrimas.
— Não há tempo — sussurrou. Depois ergueu a cabeça do chão, tremendo com o esforço, e respirou em meu ouvido: — Encontre a Ave. Na fenda. Do outro lado do túmulo do homem velho. Três de setembro de 1940. — Concordei com a cabeça, mas ele percebeu que eu não tinha entendido. Com suas últimas forças, ele acrescentou: — Emerson... a carta. Conte a eles o que aconteceu, Yakob.
Depois disso, deitou-se outra vez, cansado e agonizante. Deixei escapar um soluço. Disse a meu avô que o amava. E então ele pareceu desaparecer dentro de si mesmo, o olhar viajando além de mim, direto para o céu.
No instante seguinte, Ricky apareceu do meio do mato. Viu o velho jogado em meus braços e deu um passo para trás.
— Ah, cara, meu Deus, ah, meu Deus, ah, Deus — disse, esfregando as mãos no rosto. Enquanto ele balbuciava algo sobre tentar medir o pulso e chamar a polícia, e se eu tinha visto alguma coisa na mata, fui tomado pela mais estranha das sensações. Soltei o corpo de meu avô e me levantei, cada terminação nervosa vibrando com um instinto que eu não sabia que tinha. Havia mesmo algo na mata, eu podia sentir.
Não havia lua e nenhum movimento no matagal além do nosso; mesmo assim, de algum modo, eu soube exatamente quando erguer a lanterna e para onde apontá-la, e por um instante, naquele estreito facho de luz, vi o rosto que parecia transplantado direto dos pesadelos de minha infância. Ele me olhava com olhos que nadavam em líquido escuro, trincheiras peludas de carne negra como carvão penduradas sobre sua estrutura encurvada. Sua boca enorme abriu-se de modo grotesco e liberou uma massa de línguas compridas como enguias. Gritei, e então ele se encolheu e desapareceu, sacudindo os arbustos e chamando a atenção de Ricky. Ele ergueu a calibre 22 e atirou — pop-pop-pop-pop —, perguntando que diabos era aquilo. Ele não tinha visto nada, e eu não conseguia articular nenhuma palavra, congelado no lugar onde me encontrava, a luz cada vez mais fraca da lanterna tremeluzindo na mata vazia. Devo ter apagado, porque Ricky dizia “Jacob, Jake! Ei, Ed, vocêestábemouoquê?”, e isso foi a última coisa de que me lembro.

6 comentários:

  1. que capitulo massa,coisa de filme de terror amei o primeiro capitulo

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  2. "ah meu deus" kkkkkkkkkkkkkkk

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  3. Muito bom esse livro, pra mim está parecido com o filme que muitos criticaram

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  4. 'À direita na orgia de flamingos! Esquerda no telhado cheio de Papais Noéis multirraciais! Passe direto pelos querubins fazendo xixi!'

    Chorei 😂😂😂

    Pera aí, Yakob e Jacob eu sei que é o mesmo nome, mas Emerson? Edu? Buguei.

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    1. Edu é de Educação. Edu Especial.
      Já Emerson é um mistério

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  5. Aí mds😮😮😮...
    Qe sinistro

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Boa leitura :)