10 de abril de 2017

Capítulo treze

Caminhei pelos corredores sem fazer barulho. Fiquei um tempo parado do lado de fora da sala de reuniões das ymbrynes, ouvindo as vozes abafadas através da porta, mas não entrei. Espiei o quarto da enfermeira e a vi cochilando em um banco entre os peculiares de uma alma só. Entreabri a porta do quarto da srta. Wren e a vi balançando a srta. Peregrine no colo, acariciando as penas. Não disse nada a ninguém.
Vaguei por corredores vazios e escritórios invadidos e revistados tentando imaginar como me sentiria em casa, se decidisse voltar depois de viver tudo aquilo. Pensei no que diria a meus pais. Muito provavelmente, não diria coisa alguma. Eles nunca acreditariam mesmo. Eu diria que enlouqueci, que escrevi uma carta cheia de histórias malucas, que peguei um barco e fugi. Eles chamariam de reação ao estresse. Descobririam alguma disfunção inventada e ajustariam meus remédios. Culpariam o dr. Golan, por sugerir que eu fosse para o País de Gales. O dr. Golan, de quem, é claro, nunca mais ouviriam falar. O homem deixou a cidade, diriam, porque era uma farsa, um charlatão em quem nunca deveríamos ter confiado. Eu voltaria a ser um pobre menino rico, traumatizado e mentalmente perturbado.
Parecia que estavam me condenando à prisão. No entanto, se meu maior motivo para ficar no mundo peculiar não me queria mais, eu não me rebaixaria continuando apegado a ela. Eu tinha meu orgulho.
Por quanto tempo suportaria a Flórida, depois de provar aquela vida peculiar?
Eu não era nem de perto tão comum quanto costumava ser — ou pelo menos descobrira que na verdade nunca tinha sido. Eu estava mudado. Isso pelo menos me dava alguma esperança: mesmo sob circunstâncias comuns, eu ainda conseguiria encontrar um modo de viver uma vida extraordinária.
Sim, era melhor ir embora. Era melhor. Se aquele mundo estava morrendo e não havia o que fazer por ele, o que restava para mim? Fugir e me esconder até que não houvesse um lugar seguro para ir, uma fenda temporal para sustentar a juventude artificial de meus amigos. Vê-los morrer. Segurar Emma enquanto ela se despedaçava e se desfazia em meus braços.
Isso acabaria comigo mais depressa do que qualquer etéreo seria capaz.
Então estava decidido: eu iria partir. Resgatar o que sobrara de minha antiga vida. Adeus, peculiares. Adeus, mundo peculiar.
Era o melhor a fazer.
Continuei vagando até chegar a um lugar onde os aposentos estavam apenas parcialmente congelados. O gelo chegara a meio caminho do teto, como água em um navio afundando, e parara por ali, deixando o tampo das mesas e o alto das luminárias para fora, como nadadores perdendo as forças. Por trás das janelas congeladas, o sol estava se pondo. Sombras se projetavam nas paredes e multiplicavam as escadarias. A luz ia ficando mais azul à medida que diminuía, mergulhando tudo ao meu redor em um mar de cobalto.
Ocorreu-me que aquela provavelmente era minha última noite no mundo peculiar. Minha última noite com os melhores amigos que já tivera. Minha última noite com Emma.
Por que eu estava passando por aquele momento sozinho? Porque estava triste, e Emma ferira meu orgulho. Eu precisava ficar sozinho.
Já era o bastante.
No entanto, quando me virei para deixar a sala, senti aquela velha pontada familiar no estômago.
Um etéreo.
Parei, esperando outra pontada. Precisava de mais informações. A intensidade da dor correspondia à proximidade do etéreo, e a frequência, à força. Quando dois etéreos fortes estavam atrás de nós, a Sensação tinha sido de um espasmo longo e ininterrupto, mas dessa vez demorou muito antes de se repetir, quase um minuto. E, quando me atingiu, foi tão suave que nem tive certeza de que a sentia.
Saí da sala devagar e peguei o corredor. Quando passei pela porta seguinte, senti uma terceira pontada, dessa vez um pouco mais forte, mas ainda apenas um murmúrio.
Tentei abrir a porta com cuidado e sem fazer barulho, mas estava bloqueada pelo gelo. Tive que puxar com força várias vezes e depois chutá-la, até que ela finalmente se abriu, revelando uma sala cheia de gelo que chegava à altura do peito. Eu me aproximei com cautela e examinei o gelo. Mesmo sob a luz fraca, não demorei a ver o etéreo. Ele estava agachado no chão, preso no gelo até a altura dos globos oculares negros. A metade superior da cabeça estava exposta acima do gelo; o restante, as partes perigosas, as mandíbulas abertas e todos os seus dentes e línguas, estava preso abaixo da superfície.
Mal parecia vivo. O coração estava quase parando, batendo praticamente uma vez por minuto apenas. A cada pulsação frágil eu sentia uma pontada de dor.
Parei na entrada da sala e fiquei olhando para a criatura, fascinado e enojado.
O etéreo estava inconsciente, imobilizado, completamente vulnerável. Seria fácil subir no gelo e enfiar a ponta de um pingente em seu crânio — e, se qualquer outra pessoa soubesse que ele estava ali, tenho certeza de que teria feito exatamente isso. Mas algo me impediu. Aquela criatura não era mais uma ameaça. Todo etéreo com o qual eu entrara em contato me deixara uma marca. Eu via em sonhos suas caras putrefatas. E em breve eu iria para casa, onde não seria mais Jacob, o matador de etéreos. Não queria levar mais esse comigo. Isso não era mais da minha conta.
Saí da sala e fechei a porta.

* * *

Quando voltei para o salão de reuniões, estava quase escuro lá fora, e o aposento, negro como a noite. Como a srta. Wren não permitia que acendessem lampiões a gás, por medo de que fossem vistos da rua, todos estavam reunidos ao redor de algumas velas dispostas na grande mesa, alguns em cadeiras, outros sentados de pernas cruzadas sobre o tampo de madeira, conversando em voz baixa e com os olhos fixos em alguma coisa.
Quando as portas pesadas rangeram, todos se viraram para mim.
— Srta. Wren? — indagou Bronwyn, esperançosa, ajeitando a cadeira e apertando os olhos.
— É só o Jacob — disse outra forma sombria.
Depois de um coral de suspiros de decepção, Bronwyn falou:
— Ah, oi, Jacob.
E voltou a olhar para a mesa.
Enquanto eu ia até eles, meus olhos se cruzaram com os de Emma. Sustentei seu olhar e notei algo sensível e desprotegido. Imaginei que fosse o medo de que eu tivesse realmente decidido fazer o que ela insistira que eu fizesse. Então seus olhos se tornaram inexpressivos, e ela baixou a cabeça outra vez.
Eu tinha um pouco de esperança de que Emma tivesse se apiedado de mim e contado aos outros que eu estava de partida, mas é claro que ela não o fizera. Eu não contara nem a ela. No entanto, Emma parecia saber só de olhar para o meu rosto enquanto eu atravessava a sala.
Estava claro que os outros não faziam ideia. Estavam tão acostumados à minha presença que até haviam esquecido que isso era uma opção minha. Eu me aprumei e pedi a atenção de todos.
— Espere um pouco — pediu uma voz com sotaque pronunciado. À luz de velas, vi que a garota da cobra e sua serpente olhavam para mim. — Este garoto aqui acabou de dizer um monte de bobagens sobre o lugar de onde venho. — Ela se virou para a única cadeira vazia. — Meu povo chama o lugar de Simhaladvipa, o refúgio dos leões.
Millard respondeu, da cadeira:
— Sinto muito, mas a caligrafia é bem clara: Terra de Serendípia. Os cartógrafos peculiares que fizeram esse mapa não eram de inventar coisas!
Então me aproximei um pouco e vi sobre o que eles estavam discutindo. Era um Mapa dos dias, só que uma edição muito maior do que a que tínhamos perdido no mar. Ocupava praticamente toda a mesa e era grossa como um tijolo.
— Eu conheço minha terra, e ela se chama Simhaladvipa! — insistiu a menina.
A cobra saltou de seu pescoço, deu um pulo, atravessando quase a mesa toda, e caiu de cabeça no mapa, bem em cima de uma ilha em forma de gota perto da costa da Índia. Nesse mapa, porém, a Índia se chamava Malabar, e em cima da ilha, que eu sabia se chamar Sri Lanka, estava escrito à mão, em uma letra apertada: Terra de Serendípia.
— É inútil discutir — retrucou Millard. — Alguns lugares têm tantos nomes quanto ocupantes para lhes dar nomes. Agora, por favor, peça para sua cobra sair daí antes que ela amasse as páginas.
A garota da serpente resmungou e murmurou alguma coisa. A cobra se encolheu e se enroscou de volta ao redor de seu pescoço. Durante todo esse tempo, não consegui parar de olhar para o livro. O volume que tínhamos perdido no mar já era bem impressionante, apesar de eu tê-lo visto aberto apenas uma vez, à noite, à luz laranja e trêmula do incêndio que destruíra o lar das crianças peculiares. Aquele tinha uma escala completamente diferente. Além de ser de várias ordens de grandeza maior, era tão ornamentado que fazia o outro parecer papel higiênico encadernado em couro. Mapas coloridos jorravam das páginas, feitos de algo mais resistente que papel, talvez pele de bezerro, todos com bordas em ouro. Ilustrações suntuosas, legendas e blocos de textos explicativos enchiam as margens.
Millard percebeu que eu estava admirando o mapa.
— Não é maravilhoso? — comentou ele. — Com exceção, talvez, do Codex Peculiaris, esta edição do mapa é o livro mais lindo de todo o mundo peculiar. Uma equipe de cartógrafos, ilustradores e encadernadores levou a vida inteira para criá-lo, e dizem que o próprio Perplexus Anomalous desenhou alguns dos mapas. Desde pequeno, sempre quis vê-lo. Ah, estou tão feliz!
— É mesmo impressionante — concordei. E de fato era.
— Millard só estava nos mostrando algumas de suas partes favoritas — explicou Olive. — Eu gosto mais das figuras!
— Para distraí-los das outras coisas e tornar a espera mais fácil — explicou Millard. — Aqui, Jacob, venha me ajudar a virar as páginas.
Em vez de arruinar o momento de Millard com meu anúncio triste, decidi que poderia esperar um pouco mais. Eu não ia a lugar algum até de manhã, pelo menos, e queria aproveitar mais alguns minutos com meus amigos sem o fardo de certas questões. Sentei-me ao lado de Millard e enfiei os dedos sob a página; era tão grande que precisei das duas mãos para virá-la.
Ficamos olhando o mapa. Fui absorvido por ele, em especial pelas partes mais distantes e menos conhecidas. Naturalmente, a Europa e suas muitas fendas do tempo estavam bem definidas, mas locais mais ermos eram menos detalhados. Vastas áreas da África estavam em branco. Terra Incógnita. O mesmo acontecia com a Sibéria, apesar de o Mapa dos dias ter outro nome para o extremo leste da Rússia: A Vastidão Solitária.
— Existem fendas do tempo nesses lugares? — indagou Olive, apontando para um vazio que se estendia pela maior parte da China. — Existem peculiares lá, assim como nós?
— Sem dúvida — respondeu Millard. — A peculiaridade é determinada por genes, não pela geografia. Mas grandes porções do mundo peculiar simplesmente não foram exploradas.
— Por que não?
— Acho que estávamos ocupados demais sobrevivendo.
Ocorreu-me que a tarefa de sobreviver impedia muitas coisas, entre elas explorar e se apaixonar.
Viramos mais páginas em busca de pontos vazios. Havia muitos, todos com nomes pomposos. O Pesaroso Reino de Areia. A Terra Criada por Raiva. Lugar Alto e Cheio de Estrelas. Eu pronunciava as palavras em silêncio para mim mesmo, apreciando sua fluidez.
Nas margens espreitavam lugares temerários que o mapa chamava de Terras Ermas. O extremo norte da Escandinávia eram Terras Ermas Geladas. O centro de Bornéu era chamado de Terras Ermas Sufocantes. Grande parte da Península Arábica: Terras Ermas Impiedosas. A extremidade sul da Patagônia: Terras Ermas Melancólicas. Certos lugares não eram sequer representados. Nova Zelândia. Havaí. A Flórida era apenas uma protuberância sem forma no pé dos Estados Unidos, praticamente inexistente.
Ao observar o Mapa dos dias, até os lugares que pareciam mais proibitivos evocavam uma estranha saudade, me lembrando tardes há muito passadas com meu avô estudando mapas históricos na National Geographic — mapas desenhados muito antes dos dias de satélites e aviões, quando câmeras de alta resolução não conseguiam ver todos os cantos e dobras do mundo. Quando a forma das linhas costeiras, agora familiar, era trabalho de adivinhação. Quando as profundezas e dimensões de mares gelados e selvas proibitivas eram montadas com base em rumores, lendas e nas histórias exageradas de aventureiros que haviam perdido metade de seus grupos em uma exploração.
Enquanto Millard continuava a falar sobre a história do mapa, passei o dedo por um deserto vasto e sem marcas na Ásia. Onde a Criatura Alada Não Termina o Voo. Havia um mundo inteiro para ser descoberto, e eu tinha apenas arranhado a superfície. Pensar isso me encheu de arrependimento, mas também de uma espécie de alívio envergonhado. Eu voltaria a ver minha casa, afinal de contas, e meus pais. Talvez fosse criancice aquela velha vontade de explorar só por explorar. Havia certo romantismo no desconhecido, mas, depois que um local era descoberto, catalogado e mapeado, era diminuído, virava apenas mais um fato empoeirado em um livro, tinha seu mistério diluído. Então talvez fosse melhor deixar alguns pontos vazios no mapa. Deixar que o mundo preservasse um pouco de sua magia, em vez de obrigá-lo a revelar até seu último segredo.
Talvez fosse melhor se surpreender de vez em quando.
Então contei a eles. Não fazia sentido esperar mais. Fui direto ao ponto:
— Eu vou embora. Quando tudo isso acabar, vou voltar para casa.
Houve um momento de silêncio em sinal de surpresa. O olhar de Emma encontrou o meu finalmente, e vi que seus olhos estavam cheios de lágrimas.
Bronwyn se levantou e me abraçou.
— Irmão — disse —, vamos sentir saudades.
— Eu também vou sentir saudades — respondi. — Mais do que consigo expressar.
— Mas por quê? — indagou Olive, flutuando até ficar na altura de meus olhos. — Eu fui irritante demais?
Pus a mão na cabeça dela e a empurrei de volta para o chão.
— Não, não, não tem nada a ver com você — respondi. — Você foi ótima, Olive.
Emma deu um passo à frente.
— Jacob veio aqui para nos ajudar — explicou. — Mas ele precisa voltar para sua antiga vida enquanto ela ainda está lá, esperando por ele.
Todos pareceram entender. Não havia raiva. Eles pareciam genuinamente felizes por mim.
A srta. Wren enfiou a cabeça pela porta do salão e nos deu uma rápida atualização: tudo estava correndo maravilhosamente bem. A srta. Peregrine estava a caminho da recuperação. Estaria bem pela manhã. Então a srta. Wren desapareceu outra vez.
— Graças aos deuses — comentou Horace.
— Graças às aves — corrigiu Hugh.
— Graças aos deuses e às aves — interveio Bronwyn. — Todas as aves de todas as árvores de todas as florestas.
— Graças a Jacob também — acrescentou Millard. — Nunca teríamos chegado aqui sem ele.
— Nem teríamos conseguido sair da ilha — concordou Bronwyn. — Você fez muito por nós, Jacob.
Todos me abraçaram, cada um deles, um de cada vez. Depois se afastaram e só restou Emma. Ela me abraçou por último — um abraço demorado e meio triste, que pareceu muito uma despedida.
— Pedir que você partisse foi a coisa mais difícil que eu já tive que fazer — falou. — Ainda bem que você entendeu. Acho que eu não teria forças para pedir de novo.
— Odeio isso — respondi. — Queria que existisse um mundo no qual pudéssemos ficar juntos e em paz.
— Eu sei. Eu sei, eu sei.
— Eu queria... — comecei.
— Pare — pediu Emma.
Mas continuei assim mesmo:
— Eu queria que você pudesse ir comigo.
Ela virou o rosto.
— Você sabe o que aconteceria comigo se eu fosse.
— Sei.
Emma não gostava de despedidas longas. Senti seu corpo se enrijecer, tentando conter a dor.
— Então — prosseguiu, tentando ser prática. — Quanto à logística. Quando a srta. Peregrine virar humana, vai conduzi-lo de volta até o metrô. Quando você passar pelo portal, estará de volta ao presente. Acha que consegue se virar depois disso?
— Acho que sim — respondi. — Vou ligar para os meus pais. Ou ir a uma delegacia, algo do tipo. Tenho certeza de que deve ter um cartaz com a minha foto em todos as delegacias do país, se bem conheço meu pai. — Dei uma risadinha, porque, se não tivesse feito isso, teria começado a chorar.
— Tudo bem, então — concluiu Emma.
— Tudo bem.
Olhamos um para o outro, não totalmente prontos para acabar com aquilo, sem saber ao certo o que fazer. Meu instinto era beijá-la, mas não o fiz. Não era mais permitido.
— Vá — disse ela. — E se nunca mais ouvir falar de nós... bem, um dia você vai poder contar a nossa história. Vai poder contar sobre nós para os seus filhos. Ou seus netos. E não seremos totalmente esquecidos.
Ali eu soube que, a partir daquele instante, qualquer palavra que trocássemos machucaria, por estar envolta e marcada pela dor do momento. Soube que eu precisava me afastar imediatamente, ou aquilo nunca teria fim. Então assenti com tristeza, abracei-a outra vez e me afastei para um canto. Queria dormir, pois estava muito, muito cansado.
Depois de algum tempo, os outros arrastaram colchões e cobertores para dentro do salão e fizeram um ninho ao meu redor. Ficamos deitados bem juntinhos, para nos aquecermos em meio àquele frio invasivo. Contudo, quando os outros começavam a deitar, vi que não conseguiria dormir, apesar do cansaço, e me levantei para andar um pouco pelo salão, observando-os de longe.
Eu sentira tantas coisas desde o começo de nossa jornada: alegria, medo, esperança, pavor... mas, até aquele momento, não me sentira sozinho nem uma única vez. Bronwyn me chamara de irmão, mas isso não fazia mais sentido. Eu era no máximo um primo de segundo grau. Emma tinha razão: eu nunca entenderia. Eles eram muito velhos, tinham visto muitas coisas. E eu era de outro mundo. Era hora de voltar.

* * *

Acabei pegando no sono ao som do gelo rangendo e estalando nos andares abaixo de nós e no sótão acima. O prédio estava vivo.
Naquela noite, tive sonhos estranhos e urgentes.
Estou em casa outra vez, fazendo tudo o que eu costumava fazer. Devorando um hambúrguer grande, marrom e gorduroso de uma lanchonete; no banco do passageiro do carro de Ricky, o rádio ruim no volume máximo; no mercado com meus pais, andando por corredores compridos e iluminados demais — e Emma está lá, esfriando as mãos no gelo da seção de peixes, a água derretida escorrendo por toda parte. Ela não me reconhece.
Em seguida, estou no fliperama onde fiz minha festa de aniversário de doze anos, atirando com um revólver de plástico. Corpos explodindo, balões cheios de sangue.
Jacob, onde está você
Depois, a escola. A professora está escrevendo no quadro, mas as letras não fazem sentido. Em seguida, todo mundo se levanta e sai correndo. Tem alguma coisa errada. Um barulho alto, que aumenta e diminui. Todos ficam imóveis, a cabeça erguida.
Ataque aéreo.
Jacob, Jacob, onde está você
Sinto a mão de alguém em meu ombro. É de um velho. Um velho sem olhos.
Veio roubar os meus. Não é um homem. É outro ser — um monstro.
Estou correndo. Perseguindo minha velha cadela. Ela fugiu há anos, saiu correndo ainda com a coleira e a prendeu em um galho enquanto perseguia um esquilo que subiu em uma árvore. Estrangulou-se. Passamos duas semanas andando pelo bairro chamando seu nome. Nós a encontramos na terceira semana. A velha Focinha.
A sirene é ensurdecedora. Corro, até que um veículo para ao meu lado e eu entro. São meus pais, com roupas formais. Eles não olham para mim. As portas se trancam. O carro avança e está muito quente lá fora, mas o aquecimento está ligado, as janelas, fechadas, e o rádio está alto, mas sintonizado no chiado entre estações.
Mãe, aonde estamos indo
Ela não responde.
Pai, por que estamos parando aqui
Então estamos do lado de fora, andando, e consigo respirar de novo. Um lugar verde, bonito. Cheiro de grama recém-cortada. Vejo pessoas de preto reunidas ao redor de um buraco no chão.
Um caixão aberto sobre um estrado. Olho lá para dentro. Está vazio, vejo apenas uma mancha de óleo crescendo lentamente no fundo, enegrecendo o cetim branco. Rápido, fechem a tampa! De rachaduras e fendas sai um alcatrão negro e borbulhante que goteja na grama e penetra na terra.
Jacob, onde está você diga alguma coisa
Na lápide está escrito: ABRAHAM EZRA PORTMAN. Caio na cova aberta, e a escuridão gira para me engolir. Não paro de cair, não tem fundo, e então estou em algum lugar embaixo da terra, sozinho, andando por mil túneis interconectados. Estou sem rumo e está frio, tão frio que tenho medo de que minha pele congele e meus ossos se quebrem. E há olhos amarelos por toda parte, me olhando da escuridão.
Sigo a voz dele. Yakob, venha cá. Não tenha medo.
Os túneis se inclinam em direção à superfície, e há luz no final. Vejo um rapaz parado na saída, lendo um livro com toda a calma. Ele é igualzinho a mim, ou quase igual. E talvez seja eu. Até que ele fala, e é a voz de meu avô. Eu tenho uma coisa para lhe mostrar.


Acordei de repente, por apenas um instante, no escuro. Sabia que estava sonhando, mas não sabia onde estava — só tinha a consciência de que não estava mais na cama, nem na sala de reuniões com os outros. Tinha ido para outro lugar, um aposento totalmente escuro, com gelo embaixo de mim e meu estômago se contorcendo...
Jacob venha cá onde está você
Uma voz que vinha de fora, do corredor; uma voz de verdade, não de um sonho.
Então estou no sonho outra vez, fora de um ringue de boxe, junto às cordas.
No centro, no halo das luzes, meu avô enfrenta um etéreo.
Eles andam em círculos, sem se aproximar. Meu avô é jovem, tem pés ágeis, está sem camisa e com uma faca na mão. O etéreo está curvado e retorcido, as línguas se agitando no ar, um líquido negro gotejando da boca aberta e caindo na lona. Ele lança uma língua na direção de meu avô, que se esquiva.
Não resista à dor, essa é a chave, diz meu avô. A dor está lhe dizendo alguma coisa. Receba-a de braços abertos, deixe que ela fale com você. A dor diz: Olá, eu não sou outra pessoa; eu sou do etéreo, mas também sou sua.
O etéreo tenta acertá-lo outra vez. Meu avô antecipa o ataque e desvia. O etéreo ataca pela terceira vez, e meu avô o golpeia com a faca. A ponta da língua negra cai na lona, amputada, sofrendo espasmos.
São criaturas burras. Altamente sugestionáveis. Fale com eles, Yakob. E meu avô começa a falar, mas não em inglês ou em polonês, nem em qualquer língua que eu já tenha ouvido fora dos sonhos. É um sibilar gutural, como sons que não são feitos por uma garganta e uma boca.
E a criatura agora só fica se balançando no mesmo lugar, parecendo hipnotizada. Ainda falando aquelas palavras assustadoras e sem sentido, meu avô baixa a faca e caminha lentamente na direção do etéreo. Quanto mais ele se aproxima, mais dócil fica a criatura, que finalmente cai de joelhos. Acho que o etéreo está prestes a fechar os olhos e dormir quando escapa de repente de seja lá qual for o feitiço que meu avô lançou sobre ele, ataca com todas as línguas e o empala. Enquanto meu avô cai, salto as cordas e corro na direção dele. O etéreo vai embora. Vejo seu corpo de costas na lona, me ajoelho a seu lado e acaricio seu rosto. Ele murmura alguma coisa, o sangue borbulhando de seus lábios, então me debruço para ouvi-lo. Você é mais que eu, Yakob, diz. Você é mais do que eu já fui.
Sinto seu coração bater devagar. Consigo ouvir as batidas, de algum modo, até que segundos inteiros se passam entre uma e outra. Depois, dezenas de segundos, e então...
Jacob onde está você
Acordei de novo de repente. Havia luz no cômodo. Era de manhã, bem cedinho. Eu estava ajoelhado no gelo na sala meio cheia, e minha mão não estava no rosto de meu avô, mas pousada no crânio do etéreo preso, com o cérebro reptiliano e lento. Os olhos da criatura me encaravam, abertos, e eu o encarava de volta. Eu vejo você.
— Jacob! O que está fazendo? Procurei você por toda parte!
Era Emma, nervosa, no corredor.
— O que está fazendo? — repetiu ela.
Ela não via o etéreo. Não sabia que ele estava ali.
Tirei a mão da cabeça da criatura e deslizei para longe dela.
— Não sei — respondi. — Acho que tive uma crise de sonambulismo.
— Não importa — disse ela. — Venha logo... A srta. Peregrine está prestes a se transformar!

* * *

As crianças e as aberrações do circo abarrotavam o quartinho, todos pálidos e nervosos, encostados na parede e agachados no chão, formando uma espécie de cerca ao redor das duas ymbrynes, como apostadores em uma rinha de galos clandestina. Emma e eu nos enfiamos entre eles e nos encolhemos em um canto, mantendo os olhos colados no espetáculo que se desenrolava. O quarto estava uma bagunça: a cadeira de balanço em que a srta. Wren passara a noite sentada com a srta. Peregrine estava caída de lado, a bancada com frascos e provetas fora empurrada de qualquer jeito contra a parede. Althea estava de pé em cima dela, segurando uma rede na extremidade de um cabo, pronta para usá-la.
A srta. Wren e a srta. Peregrine estavam no chão. A srta. Wren, de joelhos, mantinha a srta. Peregrine presa contra as tábuas do assoalho, as mãos calçadas em grossas luvas de falcoaria, suando e cantando em peculiar antigo. A srta. Peregrine piava e agitava as garras. Por mais que a diretora fizesse força, a srta. Wren não a soltava.
Em algum momento da noite, a massagem suave da srta. Wren se transformara em algo parecido com uma luta misturada com exorcismo. A metade ave da srta. Peregrine dominara sua natureza de tal forma que se recusava a ser expulsa. As duas ymbrynes tinham pequenos ferimentos: penas da srta. Peregrine estavam espalhadas por toda parte, e escorria sangue de um corte no rosto da srta. Wren. Era uma imagem perturbadora, e várias crianças ficaram olhando, chocadas, boquiabertas. Mal dava para reconhecer a ave de olhos bem abertos e selvagens que a srta. Wren apertava contra o chão. Parecia incrível que a velha srta. Peregrine completamente restaurada pudesse sair daquela demonstração violenta, mas Althea não parava de sorrir para nós e balançar a cabeça nos encorajando, como se dissesse: Está quase lá, é só apertar mais um pouco!
Para uma frágil senhora de idade, a srta. Wren estava dando uma bela surra na srta. Peregrine. Então a ave atacou a srta. Wren com o bico, e as mãos da velha mulher escorregaram. Em seguida, com um forte bater de asas, a srta. Peregrine quase escapou. As crianças reagiram com gritos e exclamações de surpresa. A srta. Wren foi rápida, saltou e conseguiu segurar a srta. Peregrine pela pata traseira e derrubá-la no chão de novo, o que fez as crianças soltarem exclamações de surpresa ainda mais altas. Não estávamos acostumados a ver nossa ymbryne ser tratada daquela forma. Bronwyn até precisou impedir Hugh de intervir.
Naquele momento, as duas ymbrynes pareciam exaustas; a srta. Peregrine ainda mais. Dava para ver que ela estava sem forças. A natureza humana da diretora parecia estar vencendo a natureza de ave.
— Vamos lá, srta. Wren! — exclamou Bronwyn.
— Você vai conseguir, srta. Wren! — gritou Horace. — Traga-a de volta para nós!
— Por favor! — disse Althea. — Precisamos de silêncio absoluto.
Depois de bastante tempo, a srta. Peregrine parou de se debater e ficou deitada no chão com as asas abertas, sem fôlego, o peito emplumado arfando. A srta. Wren tirou as mãos da ave e se sentou no chão.
— Está prestes a acontecer — anunciou. — E, quando acontecer, não quero que venham correndo aqui para abraçá-la. A ymbryne de vocês muito provavelmente estará confusa, e quero que o primeiro rosto que ela veja e a primeira voz que escute sejam os meus. Vou precisar explicar o que aconteceu. — A srta. Wren uniu as mãos no peito e murmurou: — Volte para nós, Alma. Vamos, irmã. Volte para nós.
Althea desceu da bancada e pegou um lençol, que desdobrou e estendeu à frente da srta. Peregrine, para ocultá-la. Quando as ymbrynes se transformavam de aves em humanas, apareciam nuas, e aquilo daria a ela alguma privacidade.
Aguardamos em suspense, prendendo a respiração, enquanto de trás do lençol vinha uma sucessão de ruídos: ar expelido, um som parecido com alguém batendo palmas uma vez, alto, e então a srta. Wren se levantou de repente e deu um passo hesitante para trás.
Ela parecia assustada e estava boquiaberta, assim como Althea.
— Não, isso é impossível! — exclamou a srta. Wren.
Althea desmaiou e deixou cair o lençol. No chão, vimos uma forma humana, mas não de mulher.
Ele estava nu, em posição fetal, de costas para nós. Então começou a se mexer, se esticar e, finalmente, se levantar.
— Essa é a srta. Peregrine? — indagou Olive. — Ela ficou esquisita.
Era evidente que não. A pessoa ali à nossa frente não apresentava semelhança alguma com a srta. Peregrine. Era um homenzinho atarracado, com joelhos nodosos, pouco cabelo e um nariz que parecia uma borracha usada. Estava completamente nu, coberto dos pés à cabeça com um gel grudento e translúcido.
Enquanto a srta. Wren o encarava boquiaberta e tateava em busca de algo em que se segurar, todos os outros, chocados e com raiva, começaram a gritar:
— Quem é você? Quem é você? O que fez com a srta. Peregrine?
Lentamente, bem lentamente, o homem levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos. Depois, enfim, os abriu.
As órbitas eram brancas e vazias.
Ouvi alguém gritar.
Em seguida, com muita calma, o homem anunciou:
— Meu nome é Caul. E vocês são meus prisioneiros.

* * *

— Prisioneiros! — repetiu o homem dobrável, dando risada. — O que ele querer dizer com prisioneiros?
Emma gritou com a srta. Wren.
— Onde está a srta. Peregrine? Quem é esse homem? O que a senhora fez com a srta. Peregrine?
A srta. Wren parecia ter perdido a capacidade de falar.
À medida que nossa confusão se transformou em choque e raiva, enchemos o homenzinho de perguntas. Ele as suportou com uma expressão levemente entediada, parado no meio do quarto com as mãos cobrindo as partes íntimas.
— Se vocês me deixassem falar, eu poderia explicar tudo.
— Onde está a srta. Peregrine?! — gritou Emma outra vez, tremendo de raiva.
— Não se preocupe — respondeu Caul. — Ela está segura sob nossa custódia. Nós a raptamos há alguns dias, na ilha.
— Então a ave que resgatamos do submarino... — falei. — Aquela era...
— Era eu — completou Caul.
— Impossível! — exclamou a srta. Wren, finalmente recuperando a fala. — Acólitos não podem se transformar em aves!
— Isso é verdade, como regra geral. Mas Alma é minha irmã, sabe, e, apesar de eu não ter tido a sorte de herdar seus talentos de manipulação do tempo, compartilho sua característica mais inútil: a habilidade de me transformar em uma avezinha de rapina maligna. Fiz um belo trabalho me passando por ela, não acham? — Então ele fez uma reverência. — Agora, posso pedir calças para vestir? Estou em situação de desvantagem.
O pedido foi ignorado. Enquanto isso, eu sentia a cabeça girar. Eu me lembrava de a srta. Peregrine mencionar que tinha dois irmãos. Na verdade, tinha visto a foto deles, de quando estavam todos sob os cuidados da srta. Avocet. Voltei no tempo, para os dias que havíamos passado com a ave que acreditávamos ser a srta. Peregrine. Tudo pelo que havíamos passado, tudo o que tínhamos visto... A srta. Peregrine engaiolada que Golan jogara no oceano... aquela tinha sido a verdadeira, enquanto a que “resgatamos” era o irmão dela.
Os atos cruéis que a ave cometera nos últimos dias passaram a fazer mais sentido: não tinham sido obra da srta. Peregrine. Mas eu ainda tinha um milhão de perguntas.
— Esse tempo todo — falei. — Por que você permaneceu como ave? Só para nos observar?
— Apesar de minhas observações de suas atividades infantis terem sido indubitavelmente fascinantes, eu tinha grandes esperanças de que vocês me ajudassem com um detalhe de um negócio inacabado. Fiquei impressionado quando mataram meus homens no campo. Vocês se revelaram bem fortes. Naturalmente, meus homens poderiam ter intervindo e capturado seu grupo a qualquer momento depois daquilo, mas achei melhor deixá-los soltos mais um pouco e ver se sua engenhosidade nos levaria até a única ymbryne que sempre conseguia escapar. — Com isso, ele se virou para a srta. Wren e abriu um grande sorriso. — Olá, Balenciaga. É muito bom vê-la de novo.
A srta. Wren gemeu e se abanou com a mão.
— Seus idiotas, seus cretinos, seus imbecis! — gritou o palhaço. — Vocês os trouxeram direto até nós!
— E, como um belo bônus — completou Caul —, fizemos uma visita à sua montanha dos bichos! Meus homens chegaram pouco depois que saímos. As cabeças empalhadas daquela jumirafa e do cachorro vão ficar magníficas acima da minha lareira.
— Seu monstro! — gritou a srta. Wren, cujas pernas fraquejaram, obrigando-a a se apoiar na mesa.
— Ah, pela ave! — exclamou Bronwyn, de olhos arregalados. — Fiona e Claire!
— Vocês vão vê-las em breve — disse Caul. — As duas estão em segurança.
Tudo começou a fazer um sentido terrível. Caul sabia que seria bem recebido na fenda da srta. Wren se entrasse disfarçado de srta. Peregrine. Como ela não estava em casa para ser raptada, ele nos induziu a ir atrás dela, em Londres.
Tínhamos sido manipulados de muitas maneiras desde o começo, desde o momento em que decidimos deixar a ilha e eu resolvi ir junto. Até a história que ele escolheu para que Bronwyn lesse naquela primeira noite na floresta, sobre o gigante de pedra, fora manipulação. Ele queria que encontrássemos a fenda do tempo da srta. Wren e que pensássemos que nós é que tínhamos resolvido o mistério.
Aqueles que não estavam mergulhados no horror espumavam de raiva.
Várias pessoas estavam gritando que Caul deveria ser morto e procuravam objetos pontiagudos que servissem para isso, enquanto os poucos com a cabeça no lugar tentavam impedi-los. Caul permaneceu calmo o tempo todo, esperando que o furor abrandasse.
— Se me permitem — começou —, eu não acharia boa ideia me assassinar. Vocês poderiam, é claro. Ninguém pode impedi-los. Mas será muito mais fácil para vocês se eu estiver ileso quando meus homens chegarem. — Ele fingiu olhar para um relógio inexistente no pulso. — Já devem estar por aqui... é, já devem estar cercando o prédio, cobrindo todas as possíveis saídas, incluindo o telhado. E posso acrescentar que são cinquenta e seis deles, sem dúvida armados até os dentes. Além dos dentes. Vocês já viram o que uma minipistola pode fazer com um corpo humano do tamanho de uma criança? — Ele olhou bem para Olive. — Pode transformá-la em comida de gato, querida.
— Você está blefando! — exclamou Enoch. — Não tem ninguém lá fora!
— Garanto que tem. Eles estão me vigiando de perto desde que deixamos aquela ilhota deprimente, e dei meu sinal no momento em que Balenciaga se revelou para nós. Isso faz mais de doze horas, tempo mais do que suficiente para reunir um grupo de combate.
— Permitam-me verificar — disse a srta. Wren.
Ela foi à sala de reuniões das ymbrynes, onde as janelas estavam obstruídas por gelo, sobretudo no exterior, e algumas tinham pequenos túneis telescópicos derretidos, com espelhos presos para permitir a visão da rua abaixo.
Enquanto esperávamos que ela voltasse, o palhaço e a menina da cobra discutiam as melhores maneiras de torturar Caul.
— Eu sugiro primeiro arrancar as unhas dos pés — disse o palhaço. — Depois, enfiar espetos quentes nos olhos.
— De onde eu venho — retrucou a menina das cobras —, o castigo para traição é ser coberto de mel, depois amarrado dentro de um barco aberto e colocado em um lago de águas paradas. Os insetos vão devorá-lo vivo.
Caul estava parado, alongando o pescoço de um lado para o outro e esticando e estalando os braços, entediado.
— Perdão — falou. — Permanecer como ave por tanto tempo costuma dar cãibra.
— Acha que estamos de brincadeira? — indagou o palhaço.
— Acho que vocês são amadores — respondeu Caul. — Se encontrassem uns brotos de bambu, eu poderia mostrar algo realmente perverso. Mas, por mais prazeroso que isso possa ser, recomendo que derretam esse gelo, o que vai nos poupar um mundo de problemas. Digo isso para o seu próprio bem, por me preocupar de verdade com o seu bem-estar.
— É, eu sei — retrucou Emma. — Onde andava essa preocupação quando você estava roubando as almas daqueles peculiares?
— Ah, sim. Nossos três pioneiros. O sacrifício deles foi necessário... Tudo em nome do progresso, meus caros. Sabe, estamos tentando aprimorar a espécie peculiar.
— Que piada — rosnou ela. — Vocês não passam de sádicos com fome de poder!
— Sei que vocês cresceram muito protegidos do mundo real e foram pouco educados — retorquiu Caul —, mas suas ymbrynes não lhes ensinaram a história de nosso povo? Nós, peculiares, éramos deuses na terra! Gigantes... reis... governantes do mundo por direito! No entanto, ao longo dos séculos e milênios, sofremos um declínio terrível. Nós nos misturamos com os normais a tal nível que a pureza de nosso sangue peculiar foi diluída a quase nada. Agora olhem só para nós, vejam como estamos degradados! Nos escondemos nesses lugares temporais remotos com medo das pessoas que devíamos estar governando, presos em um estado de infância permanente por essa confederação de fofoqueiras... essas mulheres! Vocês não veem a que elas nos reduziram? Não sentem vergonha disso? Vocês têm ideia do poder que é nosso por direito? Não sentem o sangue de gigantes em suas veias? — Ele estava perdendo a calma, seu rosto começando a ficar vermelho. — Não estamos tentando acabar com o mundo peculiar... estamos tentando salvá-lo!
— É mesmo? — indagou o palhaço, então se aproximou de Caul e cuspiu bem na cara dele. — Bem, você arranjou um jeito bem doentio de fazer isso.
Caul limpou o cuspe com as costas da mão.
— Eu sabia que seria inútil argumentar com vocês. Há cem anos as ymbrynes enchem suas cabeças de mentiras e propaganda. O melhor a fazer é tomar suas almas e começar de novo, do zero.
A srta. Wren voltou.
— Ele está falando a verdade — anunciou. — Deve ter uns cinquenta soldados lá fora. Todos armados.
— Ah, meu Deus! — lamentou Bronwyn. — O que vamos fazer?
— Desistir — respondeu Caul. — Sair sem resistir.
— Não importa quantos são — disse Althea. — Eles nunca vão conseguir atravessar meu gelo.
O gelo! Eu quase tinha esquecido. Estávamos dentro de uma fortaleza de gelo!
— É verdade! — concordou Caul, animado. — Ela tem toda razão, eles não podem entrar. Isso nos deixa com duas opções: um modo rápido e indolor de acabar com isso, no qual vocês derretem o gelo voluntariamente, e um jeito longo, teimoso e triste, que é chamado de cerco, em que meus homens montam guarda por semanas e meses enquanto ficamos aqui dentro, morrendo de fome em silêncio. Talvez vocês desistam quando ficarem famintos e desesperados o suficiente. Ou talvez comecem a canibalizar uns aos outros. De qualquer modo, se meus homens tiverem que esperar tanto quando entrarem, vão torturar até a morte todos os que restarem. Se escolherem esse caminho entediante, lento e triste, por favor, em consideração às crianças, arrumem uma calça para mim.
— Althea, arranje a droga de um par de calças para o homem! — ralhou a srta. Wren. — Mas não derreta este lugar, sob circunstância alguma.
— Sim, senhora — respondeu Althea, e saiu.
— Bem — começou a srta. Wren, virando-se para Caul —, eis o que vamos fazer: diga a seus homens para nos deixar sair livremente, ou matamos você. Se for preciso, garanto que o faremos. E depois vamos desovar seu corpo fedorento por um buraco no gelo, um pedaço de cada vez. Embora eu saiba que isso não vai deixar seus homens muito contentes, nos dará bastante tempo para pensar no que fazer em seguida.
Caul deu de ombros.
— Ah, está bem.
— Sério? — indagou a srta. Wren.
— Achei que pudesse assustar vocês — disse ele. — Mas você tem razão, prefiro não morrer. Me leve até um desses buracos no gelo que eu faço como você pediu e grito para meus homens lá embaixo.
Althea voltou com uma calça e jogou-a para Caul, que a vestiu. A srta. Wren pediu que Bronwyn, o palhaço e o homem dobrável vigiassem Caul e os armou com pingentes de gelo. Com as pontas voltadas para as costas dele, seguimos para o corredor. Mas, quando começamos a formar um pequeno engarrafamento no escritório escuro que dava para o salão de reunião das ymbrynes, tudo deu errado. Alguém tropeçou em um colchão e caiu, aí eu ouvi uma briga começar no escuro. Emma acendeu uma chama bem a tempo de ver Caul arrastando Althea pelo cabelo para longe de nós. Ela chutava e se remexia enquanto o acólito segurava um pingente de gelo afiado contra sua garganta.
— Para trás, ou enfio isso na jugular dela! — gritou.
Seguimos Caul a uma distância cautelosa. Ele arrastou Althea, que não parava de se debater e chutar, para dentro da sala de reuniões, e depois para cima da mesa, sobre a qual a segurou, sufocando-a, com o pingente de gelo a um centímetro de seu olho, e gritou:
Estas são as minhas exigências!
Antes que ele conseguisse prosseguir, porém, Althea arrancou o pingente de gelo de sua mão com um tapa. O gelo voou e aterrissou com a ponta cravada nas páginas do Mapa dos dias. Enquanto a boca do acólito ainda formava um “O” de surpresa, Althea agarrou a parte da frente da calça dele, e o “O” se alargou em uma careta de horror.
Agora! — gritou Emma, e então eu, ela e Bronwyn corremos para cima deles passando pelas portas de madeira.
Enquanto corríamos, a distância do salão parecia aumentar, e em segundos a luta entre Althea e Caul tomara outro rumo: Caul se livrara de Althea e caíra da mesa, estendendo os braços para pegar o pingente de gelo. Althea caíra junto com ele, mas não o largara, e estava com as mãos em torno da coxa de Caul.
Uma camada de gelo se espalhava depressa pela parte inferior do corpo do acólito, paralisando-o da cintura para baixo e congelando a mão de Althea à perna dele. Caul conseguiu passar um dedo ao redor do pingente de gelo, depois a mão inteira. Gemendo pelo esforço e de dor, Caul arrancou o gelo do mapa, girou a parte superior do corpo e encostou a ponta do pingente nas costas de Althea. Ele gritou, mandando a menina largá-lo e derreter o gelo, ou enfiaria o pingente nela.
Estávamos a poucos metros deles, mas Bronwyn nos deteve.
— Pare! Pare com isso! — gritou Caul.
Seu rosto se contorcia de dor, o gelo subindo por seu peito e seu ombro. Em segundos, seus braços e mãos também ficariam cobertos.
Althea não parou.
Então Caul fez o que ameaçara: a apunhalou nas costas com o pingente de gelo. Ela se retesou, surpresa, e gemeu. A srta. Wren correu na direção dos dois, gritando o nome de Althea enquanto o gelo que se espalhara por quase todo o corpo do acólito começou a recuar bem lentamente. Quando a Sra. Wren os alcançou, Caul estava quase livre, mas, nessa hora, o gelo do prédio todo também começou a derreter — desaparecendo e minguando tão depressa quanto a vida de Althea. O gelo no sótão gotejava e chovia teto abaixo tal como o sangue de Althea corria por seu corpo. Ela estava jogada nos braços da srta. Wren, nos deixando.
Bronwyn partiu para cima da mesa, segurando Caul pelo pescoço, a arma de gelo esmagada na outra mão. Dava para ouvir os andares abaixo derretendo, e todos os resquícios de água congelada desapareceram das janelas. Corremos para olhar para fora e vimos água jorrando para a rua pelas janelas inferiores, onde soldados em uniformes cinza de camuflagem urbana se agarravam a postes de luz e hidrantes para evitar serem arrastados pela torrente gélida.
Então ouvimos os passos pesados das botas nos degraus das escadas abaixo e descendo pelo telhado. Momentos depois eles surgiram, aos gritos, armados.
Alguns dos homens usavam óculos de visão noturna, e todos portavam armas: metralhadoras, pistolas com mira laser e facas. Foi preciso três deles para soltar Bronwyn de Caul, que mal conseguia respirar com a traqueia meio esmagada.
— Levem todos daqui. E não sejam delicados!
A srta. Wren gritava, implorando para que obedecêssemos:
— Façam o que estão mandando, ou eles vão machucar vocês!
Mas ela não largava Althea, então fizeram dela um exemplo: arrancaram o corpo de suas mãos e a derrubaram com um chute. Um dos soldados disparou a submetralhadora no teto, só para assustar. Quando vi que Emma estava prestes a criar uma bola de fogo com as mãos, a agarrei pelo braço e implorei para que não o fizesse.
— Não, por favor, não. Eles vão matar você!
Então a coronha de um fuzil golpeou meu peito e caí no chão, sem ar. Um dos soldados amarrou minhas mãos às costas.
Eu os ouvi contando quantos éramos. Caul listava nossos nomes, garantindo que até Millard estivesse registrado, porque, é claro, depois de passar três dias conosco, conhecia todos nós, sabia tudo a nosso respeito.
Fui puxado até ficar de pé e todos fomos empurrados para fora da sala.
Emma ia ao meu lado, com sangue no cabelo. Eu sussurrei:
— Por favor, faça o que eles mandarem.
E, apesar de ela não responder, eu sabia que tinha me ouvido. A expressão em seu rosto era de raiva, medo e choque — mas acho que também de pena, por tudo o que eu havia perdido a chance de recuperar.
Do alto da escada, vimos que os andares abaixo eram uma torrente vertiginosa, um vórtice de ondas em cascata. Só havia como sair pelo alto. Fomos empurrados escada acima, passando por uma porta direto para a forte luz do dia, no telhado. Todos estavam molhados, gelados, amedrontados e em silêncio.
Todos menos Emma.
— Para onde estão nos levando? — perguntou.
Caul foi até ela na mesma hora e sorriu diante de seu rosto enquanto um soldado segurava suas mãos às costas.
— Para um lugar muito especial — respondeu ele. — Onde nem uma gotinha da sua alma peculiar vai ser desperdiçada.
Ela se retraiu, e o acólito deu risada e se afastou, se espreguiçando e bocejando. Um par estranho de protuberâncias arredondadas se projetava de suas omoplatas, os resquícios de asas abortadas: a única pista de que aquele homem perverso tinha alguma relação com uma ymbryne.
Vozes gritaram do alto de outro prédio. Mais soldados. Estavam armando uma ponte entre os telhados.
— E a garota morta? — perguntou um deles.
— Uma pena, um desperdício — respondeu Caul, estalando a língua. — Eu teria gostado de jantar a alma dela. A alma peculiar em si não tem sabor, sabiam? — comentou, dirigindo-se a nós. — A consistência é um pouco gelatinosa e pastosa, na verdade, mas, se batida com umas ervas e espalhada na carne branca, fica bem palatável.


Os acólitos soltaram uma gargalhada.
Enquanto nos levavam, um a um, pela larga ponte desmontável, senti uma pontada familiar no estômago; leve, mas cada vez mais forte; lenta, mas acelerando. O etéreo, agora descongelado, voltava à vida.

* * *

Dez soldados nos escoltaram para fora da fenda temporal sob a mira de armas. Passamos pelas tendas do circo e dos shows secundários e por espectadores boquiabertos. Seguimos pelo labirinto emaranhado de becos com as barraquinhas, vendedores ambulantes e garotos de rua que não tiravam os olhos de nós. Entramos na sala de disfarces, passamos pelas pilhas de roupas que tínhamos deixado para trás e descemos para o metrô. Os soldados nos empurravam para a frente, exigindo, aos gritos, que ficássemos calados (apesar de ninguém dizer nada havia um tempo), mantivéssemos a cabeça baixa e ficássemos em fila, ou levaríamos uma coronhada.
Caul não estava mais com nosso grupo. Ficara para trás com o contingente maior de soldados, para “limpar o terreno”, o que eu acho que significava fazer uma busca na fenda atrás de alguém que estivesse escondido ou tivesse fugido.
Na última vez que o vimos, ele estava usando botas modernas e uma jaqueta militar e disse que estava farto da nossa cara, mas que nos veria “do outro lado”, o que quer que isso significasse.
Passamos pelo portal e avançamos outra vez no tempo, mas não para uma versão dos túneis que eu reconhecesse. Os trilhos e dormentes eram todos de metal, e as luzes eram diferentes: não vermelhas incandescentes, mas tubos fluorescentes tremeluzentes que emitiam um brilho verde doentio. Quando saímos do túnel para a plataforma, entendi o porquê: não estávamos mais no século XIX, nem mesmo no XX. A multidão de refugiados que se abrigava ali desaparecera; a estação estava quase deserta. A escadaria circular pela qual havíamos descido também sumira, substituída por uma escada rolante. Uma tela de LED acima da plataforma anunciava: “TEMPO PARA O PRÓXIMO TREM: DOIS MINUTOS”. Na parede havia o cartaz de um filme que eu vira no início do verão, pouco antes da morte de meu avô.
Tínhamos deixado 1940 para trás. Eu estava de volta ao presente.
Algumas crianças perceberam isso e demonstraram surpresa e medo, como se temessem envelhecer em questão de minutos, mas, para a maioria deles, acho que o choque da captura repentina não seria superado por uma viagem inesperada ao presente. Eles estavam com medo de terem as almas removidas, não de ficarem com cabelo branco e manchas na pele.
Os soldados nos encurralaram no meio da plataforma para esperar pelo trem. Passos pesados vieram em nossa direção. Arrisquei olhar para trás e vi um policial se aproximando. Atrás dele, saindo da escada rolante, outros três.
— Ei! — gritou Enoch. — Policial, aqui!
Um soldado socou Enoch no estômago, e ele se dobrou ao meio.
— Tudo bem aí? — indagou o policial mais próximo.
— Eles estão nos prendendo! — gritou Bronwyn. — Não são soldados de verdade, são...
Então ela também levou um soco no estômago, apesar de não parecer machucá-la. Quem a impediu de dizer mais foi o próprio policial, que tirou os óculos espelhados e revelou olhos completamente brancos. Bronwyn se encolheu.
— Vou dar um aviso — começou o policial. — Não haverá ajuda para vocês. Estamos em toda parte. Aceitem isso, e tudo será mais fácil.
Os normais começaram a encher a estação. Os soldados nos apertaram por todos os lados, mantendo as armas ocultas.
Um trem cheio de gente chegou chiando à estação. As portas elétricas se abriram, e muitos passageiros saíram. Os soldados começaram a nos empurrar na direção do vagão mais próximo, com os policiais à frente para retirar os poucos passageiros que permaneciam lá dentro.
— Vão para outro vagão! — gritavam.
Os passageiros reclamavam, mas obedeciam. No entanto, havia mais gente atrás de nós na plataforma, tentando entrar no vagão, e alguns dos soldados que estavam nos cercando tiveram que se afastar para impedi-los. Então houve uma pequena confusão. As portas tentaram se fechar, mas os policiais as mantiveram abertas até um alarme começar a tocar. Os soldados nos empurraram para a frente com mais força, e Enoch tropeçou, fazendo outras crianças caírem por cima dele em uma reação em cadeia. Foi pouco, mas o suficiente para o homem dobrável, cujos pulsos eram tão magros que ele conseguia escapar das algemas, resolver tentar fugir e sair correndo.
Ouvimos um tiro, depois outro, e o homem dobrável caiu esparramado no chão. A multidão saiu correndo, em pânico, as pessoas gritando e fugindo para todos os lados tentando escapar dos tiros, e o que era apenas uma confusão se transformou em caos.
Àquela altura, os acólitos nos empurravam e chutavam para dentro do trem.
Além de mim, Emma resistia, fazendo com que o soldado que a empurrava se aproximasse. Então vi suas mãos algemadas soltarem um brilho laranja, e ela as esticou para trás e o agarrou. O soldado desabou no chão, gritando, com um buraco no formato de mão na roupa camuflada. Então o soldado que estava me empurrando ergueu a coronha da arma e estava prestes a golpear o pescoço de Emma quando, por instinto, enfiei o ombro nas costas dele.
Ele se desequilibrou.
Emma derreteu as algemas que a prendiam. Elas caíram de suas mãos, transformados em uma massa disforme de metal quente e vermelho. O soldado que havia se desequilibrado apontou a arma para mim, mas, antes que ele pudesse disparar, Emma se aproximou por trás e segurou o rosto dele na palma das mãos. Seus dedos estavam tão quentes que passaram derretendo as bochechas do sujeito, como se a carne fosse manteiga derretida. Ele largou a arma e caiu, gritando.
Tudo aconteceu muito depressa, em questão de segundos.
Dois outros soldados vieram em nossa direção. Quase todo o restante do nosso grupo estava no trem, todos menos Bronwyn e os irmãos cegos, que não tinham sido algemados e estavam apenas parados de braços dados. Ao ver que estavam prestes a atirar em nós, Bronwyn fez algo que nunca imaginei que ela fizesse sob qualquer outra circunstância: deu um tapa no rosto do irmão mais velho, então pegou o mais novo e o afastou com violência do outro.
No instante em que a conexão entre os dois foi rompida, eles soltaram um grito tão poderoso que gerou até vento. O grito saiu destroçando a estação como um furacão de pura energia, soprando eu e a Emma para trás, estilhaçando os óculos dos soldados, eclipsando a maioria das frequências que meus ouvidos podiam detectar, de forma que tudo o que eu ouvia era um piiiiiiiiiiiiii altíssimo e muito agudo.
Vi todas as janelas do trem se estilhaçarem, as telas de LED se romperem em lâminas afiadas e as lâmpadas de vidro ao longo do teto explodirem, e por um instante mergulhamos na mais completa escuridão. Então veio o brilho vermelho e histérico de luzes de emergência.
Eu tinha caído de costas, sem fôlego, os ouvidos apitando. Algo me puxava para trás pela gola, para longe do trem, e eu não conseguia me lembrar exatamente de como fazer com que meus braços e pernas funcionassem bem o suficiente para resistir. Sob o zunido em meus ouvidos, consegui identificar vozes gritando:
Corra, corra!
Senti algo frio e molhado na nuca, e fui puxado para o interior de uma cabine telefônica. Emma também estava lá, encolhida em um canto, semiconsciente.
— Ponha as pernas para dentro — ouvi uma voz conhecida dizer, e de trás de mim veio trotando uma coisa baixa e peluda com um focinho achatado e uma boca pelancuda.
O cão. Addison.
Puxei as pernas para dentro da cabine, recuperando o raciocínio por tempo o suficiente para me mexer, mas não para falar.
A última coisa que vi sob aquela luz vermelha e piscante infernal foi a srta. Wren sendo enfiada no vagão do metrô e as portas se fechando. Todos os meus amigos estavam lá dentro com ela, encolhidos sob a mira de armas. Eu os vi através das janelas estilhaçadas do trem, cercados por homens de olhos brancos.
O trem foi embora roncando escuridão adentro, até desaparecer.

* * *

Acordei assustado, com uma língua lambendo meu rosto.
O cão.
A porta da cabine telefônica fora fechada, e nós três estávamos espremidos lá dentro, no chão.
— Você desmaiou — explicou o cachorro.
— Eles foram embora — falei.
— É, mas não podemos ficar aqui. Eles vão voltar, vão vir atrás de vocês. Precisamos ir.
— Acho que ainda não consigo ficar de pé.
Addison tinha um corte no focinho e perdera um bom pedaço de uma das orelhas. Fosse lá o que tivesse feito para chegar ali, também passara por maus bocados.
Senti algo tocar minha perna de leve, mas estava cansado demais para olhar o que era. Minha cabeça pesava como pedra.
— Não durma de novo — ralhou o cão, então se virou para Emma e começou a lamber o rosto dela.
Senti o toque leve novamente. Dessa vez, estiquei a mão para tatear o local.
Era meu celular. Meu telefone estava vibrando. Eu não conseguia acreditar.
Peguei-o do bolso. A bateria estava quase no fim e o sinal era quase inexistente.
Na tela, a mensagem: PAI (177 LIGAÇÕES PERDIDAS).
Se eu não estivesse tão atordoado, provavelmente não teria atendido. A qualquer momento, um homem armado poderia aparecer para acabar com a gente. Não era uma boa hora para conversar com meu pai. Mas eu não estava pensando direito, e, sempre que meu telefone tocava, eu tinha o impulso pavloviano de atendê-lo.
Apertei o botão ATENDER.
— Alô?
Ouvi um grito engasgado do outro lado. E então:
— Jacob? É você?
— Sou eu.
Minha voz devia estar horrível. Era apenas um ruído fraco e rouco.
— Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! — exclamou meu pai. Ele não esperava que eu atendesse, talvez já tivesse desistido e me considerasse morto, mas continuava ligando por algum reflexo instintivo de pesar que ele não conseguia desativar. — Eu não... onde você... o que aconteceu... onde você está, filho?
— Estou bem — respondi. — Estou vivo. Em Londres.
Não sei por que disse essa última parte. Acho que senti que devia alguma verdade a ele.
Então ouvi um barulho como se ele tivesse afastado a cabeça do fone para gritar para outra pessoa.
— É o Jacob! Ele está em Londres! — Então voltou a falar comigo: — Achamos que você tivesse morrido.
— Eu sei. Quer dizer, não estou surpreso. Me desculpe por ter sumido desse jeito. Espero não ter assustado vocês demais.
— Você quase nos matou de susto, Jacob. — Meu pai deu um longo suspiro, um som trêmulo de alívio, descrença e desespero. — Sua mãe e eu também estamos em Londres. Quando a polícia não conseguiu encontrá-lo na ilha... Enfim, não importa, só nos diga onde está e vamos buscá-lo!
Emma começou a se mexer. Ela abriu os olhos e se voltou para mim com uma expressão vazia de cansaço, como se estivesse em algum lugar muito profundo em seu interior, me espiando através de quilômetros de cérebro e corpo.
— Bom, muito bom — disse Addison. — Agora fique conosco. — Então começou a lamber a mão dela.
Eu falei ao telefone:
— Não posso, pai. Não posso arrastar você para isso.
— Meu Deus, eu sabia. Você está usando drogas, não está? Olha, não importa com quem você se meteu, podemos ajudar. Não precisamos colocar a polícia no meio. Só queremos você de volta.
Tudo escureceu por um segundo e, quando voltei a mim, senti uma pontada tão forte no estômago que larguei o telefone.
Addison ergueu a cabeça para mim.
— O que é?
Foi quando vi uma língua negra e comprida se comprimindo contra a parte de fora do vidro da cabine. Ela logo foi acompanhada por uma segunda, depois uma terceira.
O etéreo. O etéreo descongelado. Ele nos seguira.
Addison não podia vê-lo, mas podia perceber a expressão em meu rosto.
— É um deles, não é?
Eu respondi sem emitir som: Sim. Addison se encolheu em um canto.
— Jacob? — Era a voz baixinha de meu pai, ao telefone. — Jacob, você está aí?
As línguas começaram a cercar a cabine, nos envolvendo. Eu não sabia o que fazer, só sabia que precisava fazer alguma coisa, então mexi os pés, apoiei as mãos na parede e tentei me levantar.
Fiquei cara a cara com o etéreo. Línguas se agitavam do interior da boca aberta e afiada da criatura. Seus olhos eram negros, envoltos em líquido ainda mais negro, e encaravam os meus a centímetros de distância, através do vidro. O etéreo soltou um rosnado baixo gutural que transformou minhas entranhas em geleia, e eu meio que desejei que a fera simplesmente me matasse e acabasse logo com aquilo, para que a dor e o terror terminassem.
O cão gritou para Emma.
— Acorde! Precisamos de você, garota! Faça seu fogo!
Mas Emma não conseguia falar nem se levantar. Estávamos sozinhos na estação, exceto por duas mulheres de capa de chuva que se afastaram, apertando o nariz para evitar o fedor pútrido do etéreo.
Então a cabine — a cabine inteira, com todos nós dentro — balançou para um lado e para o outro, e ouvi quaisquer rebites que a prendessem ao chão gemerem e arrebentarem. Lentamente, o etéreo nos ergueu do chão: dez centímetros, vinte, cinquenta. Então nos arremessou para baixo, estilhaçando as janelas, fazendo chover vidro sobre nós.
Não havia mais nada entre o etéreo e eu. Nem um centímetro, nem uma lâmina de vidro. Suas línguas se agitaram no interior da cabine e se enroscaram em meu braço, minha cintura, apertando cada vez mais forte, até eu não conseguir mais respirar.
Foi então que eu soube que estava morto. Como estava morto e não havia nada que eu pudesse fazer, parei de lutar. Relaxei todos os músculos, fechei os olhos e me entreguei à dor que explodia em meu estômago como fogos de artifício.
Em seguida, aconteceu uma coisa estranha: a dor parou. A dor mudou e se tornou outra coisa. Entrei nela, que me envolveu, e, por baixo de sua superfície turbulenta, descobri algo tranquilo e suave.
Um murmúrio.
Abri os olhos outra vez. O etéreo parecia congelado, me encarando. Eu o encarei de volta, sem medo. Minha visão estava cheia de pontos pretos por falta de oxigênio, mas eu não sentia dor.
O aperto do etéreo em meu pescoço relaxou. Respirei pela primeira vez em minutos, uma inspiração calma e profunda. Então o murmúrio que eu encontrara dentro de mim viajou, subiu do estômago pela garganta, passou por meus lábios e fez um ruído que não parecia uma língua, mas cujo significado eu entendi instintivamente.
Para trás.
O etéreo recolheu as línguas. Guardou-as todas na boca e fechou as mandíbulas. Fez uma leve reverência — um gesto quase de submissão.
Depois se sentou.
Emma e Addison olharam para mim, surpresos com a calma repentina.
— O que foi isso? — indagou o cão.
— Não há nada a temer — respondi.
— Ele se foi?
— Não, mas não vai mais nos machucar.
Ele não perguntou como eu sabia disso, apenas assentiu, tranquilizado pelo meu tom de voz.
Abri a porta da cabine e ajudei Emma a se levantar.
— Você consegue andar? — perguntei. Ela passou um braço ao redor de minha cintura e apoiou o peso contra mim. Juntos, demos um passo. — Não vou deixar você para trás — declarei. — Goste disso ou não.
Ela sussurrou em meu ouvido:
— Eu amo você, Jacob.
— Eu também — murmurei de volta.
Eu me abaixei para pegar o celular.
— Pai?
— O que foi esse barulho? Com quem você está?
— Estou aqui. Estou bem.
— Não está, não. Fique aí.
— Pai, eu preciso ir. Desculpe.
— Espere, não desligue — insistiu ele. — Você está confuso, Jacob.
— Não. Eu sou como o vovô. Tenho o mesmo que o vovô tinha.
Houve uma pausa do outro lado da linha. E depois:
— Por favor, volte para casa.
Respirei fundo. Havia muito a ser dito, mas não havia tempo. Isto teria que servir:
— Espero poder ir para casa um dia. Mas antes preciso resolver umas coisas. Quero que saiba que amo você e a mamãe e que não estou fazendo isso para magoar vocês dois.
— Nós também amamos você, Jake. Se for um problema com drogas, ou o que quer que seja, não ligamos. Vamos fazer você se recuperar. Como eu disse, você está confuso.
— Não, pai. Eu sou peculiar.
Desliguei. Depois, falando uma língua que eu não sabia que conhecia, mandei o etéreo se levantar.
Obediente como uma sombra, ele se levantou.

4 comentários:

  1. minha reação😱😱😱😱😱😱😱😱😱
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  2. Peculiar não resgatada12 de maio de 2017 00:44

    O QUE ACABOU DE ACONTECER AQUI?
    EU QUERO O PRÓXIMO LIVRO E É AGORA!! ♡

    Porra, Jake, seu pai tá mal mesmo. É melhor que você volte vivo pra casa!

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  3. DO ULTIMO CAPITULO SÓ GOSTEI DA ULTIMA PARTE!!
    A ULTIMA PARTE FOI TIPO UOOOOOOOOOOOOUUUUUUUUU

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Boa leitura :)