15 de abril de 2017

Capítulo três

Pouco antes de uma vaca ser abatida em um matadouro moderno, ela é conduzida por um labirinto sinuoso. As curvas fechadas e os cantos cegos impedem que o animal veja mais que uma curta distância à frente, para que só conheça seu destino nos últimos passos (quando o labirinto se estreita abruptamente e um colar de metal se prende firme em torno de seu pescoço).
Mas enquanto nós três corríamos atrás de Sharon para o coração do Recanto do Demônio, surgiu a certeza de saber o que nos esperava, mesmo sem ter a noção de quando ou como ocorreria. A cada passo e cada curva, nos envolvíamos mais em um nó, um que, temia eu, jamais seria desatado.
O ar fétido não circulava, sua única saída era uma fresta irregular de céu acima de nossas cabeças. O caminho entre as paredes irregulares e fora de prumo era tão estreito que em alguns lugares tínhamos que andar de lado, os trechos mais estreitos com manchas pretas devido à oleosidade das roupas dos que haviam passado antes. Não tinha nada natural ali, nada verde, nada vivo, com exceção de bichos rastejantes e de renegados com olhos injetados à espreita por trás de portas e debaixo de bueiros nas ruas, e que sem dúvida teriam saltado sobre nós não fosse nosso guia alto vestido de preto. Estávamos seguindo a própria morte rumo ao poço do inferno.
Fizemos uma curva e depois outra. Cada passagem parecia exatamente igual à anterior. Não havia placas, nenhuma identificação. Ou Sharon se orientava por algum brilhante feito de memória, ou seguia de modo completamente aleatório, tentando despistar quaisquer piratas do Valão que pudessem estar nos perseguindo.
— Você sabe mesmo aonde estamos indo? — perguntou Emma a ele.
— Claro que sei! — resmungou Sharon, virando uma esquina sem olhar para trás.
Então ele parou, voltou e desceu por uma porta um pouco abaixo do nível da rua. No interior havia um porão úmido, com apenas um metro e meio de altura e iluminado pelo mais leve espectro de uma fraca luz amarelada. Atravessamos um corredor subterrâneo às pressas, agachados sobre ossos de animais descartados, o teto tocando nossa cabeça. Passamos por coisas que tentei não ver: algo encolhido em um canto, pessoas dormindo trêmulas em esteiras de palha miseráveis, um garoto maltrapilho deitado no chão com um balde de pedinte preso em um dos braços. No fim, a passagem se abria em uma sala, e, à luz de algumas janelas sujas, uma dupla de lavadeiras ajoelhadas esfregava roupas em uma poça fedorenta de água do Valão.
Subimos mais degraus e saímos, graças a Deus, em um pátio murado comunal aos fundos de vários prédios. Em outra realidade, talvez contivesse uma faixa de grama feliz ou um pequeno gazebo, mas ali era o Recanto do Demônio, então havia uma lixeira e um chiqueiro. Repleto de moscas, o lixo jogado pelas janelas formava ondas que quebravam contra as paredes, e no centro, cravado de maneira torta na lama, havia um chiqueiro onde um garoto magro guardava um porco ainda mais magro, só um. Perto de uma parede havia uma mulher fumando e lendo um jornal sentada enquanto uma garota, de pé atrás dela, catava lêndeas de seu cabelo. A mulher e a garota não perceberam quando nosso grupo passou, mas o garoto brandiu os dentes de um forcado para nós. Quando ficou claro que não tínhamos interesse por seu porco, ele se agachou de cócoras, exausto.



Emma parou no meio do pátio para olhar as roupas penduradas no alto em cordas presas entre as calhas dos telhados. Ela tornou a observar que nossas roupas sujas de sangue nos faziam parecer autores de um assassinato e sugeriu que trocássemos. Sharon respondeu que assassinos não eram raros ali e a apressou, mas ela bateu o pé, argumentando que um acólito no metrô vira nossas roupas sujas de sangue e enviara um rádio sobre nós para seus camaradas.
Estávamos fáceis demais de identificar em uma multidão. Na verdade, acho que era mais porque ela se sentia desconfortável em uma blusa agora endurecida com o sangue de outra pessoa. Eu também me sentia, e, se encontrássemos nossos amigos outra vez, não queria que eles nos vissem daquele jeito.
Sharon concordou a contragosto. Ele estivera nos conduzindo na direção de uma cerca no fim do pátio, mas agora desviou e nos levou para um dos prédios. Subimos dois, três, quatro lances de escada, e até Addison começou a arfar, depois seguimos Sharon por uma porta aberta até um quarto pequeno e esquálido. Uma fenda no teto deixara a chuva entrar, o que distorcia o piso como ondas em um lago. Mofo negro se espalhava pelas paredes. A uma mesa junto de uma janela enfumaçada, duas mulheres e uma garota suavam debruçadas sobre máquinas de costura movidas a pedal.
— Precisamos de roupas — disse Sharon, dirigindo-se às mulheres em um tom grave e retumbante que abalou as paredes finas.
Seus rostos pálidos se ergueram. Uma das mulheres pegou uma agulha de costura e a brandiu como uma arma.
— Por favor — disse ela.
Sharon puxou o capuz de sua capa um pouco para trás, de modo que apenas as costureiras pudessem ver seu rosto. Elas levaram um susto, depois deram um gemido e desmaiaram sobre a mesa.
— Isso era mesmo necessário? — perguntei.
— Não exatamente — respondeu Sharon, recolocando o capuz. — Mas foi eficaz.
As costureiras estavam montando camisas e vestidos simples com retalhos de tecidos. Os trapos com que trabalhavam estavam empilhados no chão, e os resultados, que tinham mais remendos e costuras que o monstro de Frankenstein, estavam pendurados em uma corda do lado de fora da janela.
Enquanto Emma os puxava para dentro, meu olhar percorreu a sala. Era, sem dúvida, mais que um local de trabalho: as mulheres também moravam ali.
Havia uma cama montada a partir de restos de madeira. Espiei no interior de uma panela amassada pendurada na lareira e vi os ingredientes de uma sopa esquálida, com pele de peixe e folhas murchas de repolho. As tentativas desmazeladas de decoração (um ramo de flores secas, uma ferradura pregada acima da lareira, um retrato emoldurado da rainha Vitória) deixavam o ambiente mais triste do que se estivesse vazio.
O desespero ali era tangível, oprimia tudo, até o próprio ar. Eu nunca tinha sido confrontado com a miséria absoluta. Será que peculiares podiam mesmo estar vivendo aquelas vidas descartáveis? Enquanto Sharon pegava uma braçada de camisas pela janela, perguntei a ele, que pareceu quase ofendido pela ideia.
— Peculiares jamais se rebaixariam tanto. Esses são habitantes comuns do cortiço, presos em uma repetição infinita do dia em que essa fenda foi feita. Normais ocupam as bordas purulentas do Recanto, mas seu coração pertence a nós.
Elas eram normais. Não só isso, mas normais presas em uma fenda, como aqueles em Cairnholm que as crianças mais cruéis atormentavam durante as brincadeiras de Ataque ao Vilarejo. Tanto parte da paisagem quanto o mar ou os penhascos, disse a mim mesmo. Mas, não sei por quê, olhando para os rostos envelhecidos enfiados em trapos, não me senti menos terrível em roubar delas.
— Vamos reconhecer os peculiares, tenho certeza — disse Emma, escolhendo entre uma pilha de blusas sujas.
— Isso sempre acontece — disse Addison. — A sutileza nunca foi o forte de nossa espécie.
Tirei minha camisa ensanguentada e a troquei pela alternativa menos imunda que encontrei, o tipo de traje que você receberia em um campo de prisioneiros: sem colarinho e listrado, mangas de comprimentos diferentes, feito com retalhos de um tecido mais áspero que lixa. Mas serviu em mim, e, com a adição de um casaco preto simples que vi jogado sobre as costas de uma cadeira, eu agora parecia alguém que podia plausivelmente ser daquele lugar.
Viramos as costas quando Emma trocou de roupa e pôs um vestido semelhante a um saco de batatas, que ficou muito grande, com sobras de tecido em torno de seus pés.
— Vai ser impossível correr com isso — resmungou.
Ela pegou uma tesoura da mesa da costureira e começou a alterá-lo com a delicadeza de um açougueiro, cortando a barra até o joelho.
— Pronto. — Ela admirou sua obra no espelho. — Um pouco maltrapilho, mas…
Sem pensar, falei:
— Horace pode fazer um melhor para você. — Eu tinha esquecido que nossos amigos não estavam simplesmente esperando por nós na sala ao lado. — Quer dizer… se tornarmos a vê-los…
— Não — disse Emma. Por um instante, ela pareceu triste demais, absolutamente perdida em pensamentos, então virou o rosto, devolveu a tesoura e seguiu determinada na direção da porta. Quando se voltou para nos encarar outra vez, sua expressão tinha endurecido. — Vamos. Já desperdiçamos tempo demais aqui.
Ela tinha essa capacidade impressionante de transformar tristeza em raiva e raiva em ação, o que significava que nada a abatia por muito tempo. Então, Addison, eu e Sharon (que, eu desconfiava, não sabia exatamente com quem estava lidando até então) saímos atrás dela e descemos a escada.

* * *

O Recanto do Demônio (ou ao menos sua porção peculiar) tinha uma área de apenas dez ou vinte quadras. Depois de descer do asilo, soltamos a tábua de uma cerca e nos esprememos por uma passagem sufocante, que conduzia a outra um pouco menos sufocante, que, por sua vez, levava a outra um pouco mais larga — larga o suficiente para que Emma e eu pudéssemos caminhar lado a lado. Elas continuaram a se alargar, como artérias relaxando após um infarto, até chegarmos a algo que podia realmente ser chamado de rua, com tijolos vermelhos dispostos no meio e calçadas pavimentadas nas laterais.
— Para trás — murmurou Emma.
Nós paramos em uma esquina e observamos escondidos como tropas de elite, as cabeças enfileiradas.
— O que acham que estão fazendo? — perguntou Sharon.
Ele ainda estava na rua e parecia com mais medo de passar vergonha por nossa causa do que de ser morto.
— Procurando pontos de emboscada e rotas de fuga — disse Emma.
— Ninguém vai emboscar ninguém — retrucou Sharon. — Os piratas só operam na terra de ninguém. Eles não vêm atrás de nós aqui; aqui é a Rua da Depravação.
Havia, na verdade, uma placa que informava isso, a primeira que eu vira em todo o Recanto do Demônio. Rua da Depravação, dizia em letra manuscrita elegante. Desencoraja-se a pirataria.
— Desencorajar? — falei. — E assassinato? Não é visto com reprovação?
— Acredito que o assassinato seja “tolerado com reservas”.
— Alguma coisa é ilegal aqui? — perguntou Addison.
— As multas por atraso na biblioteca são duras. Dez chicotadas por dia.
— Tem uma biblioteca aqui?
— Duas. Mas uma não empresta livros, pois todos os volumes são encadernados em pele humana e extremamente valiosos.
Saímos lentamente de trás da parede e lançamos um olhar um tanto intrigado ao redor. Na terra de ninguém, eu antecipara a morte a cada curva, mas a Rua da Depravação, sob todas as aparências, era um refúgio de ordem cívica. Lojinhas arrumadas se enfileiravam dos dois lados da rua, com letreiros e vitrines e apartamentos nos sobrados. Não havia nenhum telhado desmoronado nem vidraças quebradas à vista. Também havia gente nas ruas, e elas pareciam sem pressa, caminhando sozinhas ou em duplas, parando de vez em quando para entrar em uma loja ou olhar uma vitrine. Suas roupas não eram trapos. Seus rostos eram limpos. Talvez nada ali fosse novo e brilhante, mas as superfícies desgastadas e a pintura descascada davam a tudo um aspecto artesanal e embotado que era curioso, até charmoso. Minha mãe, se tivesse visto a Rua da Depravação em uma daquelas revistas de viagens folheadas mas nunca lidas que abarrotavam nossa mesinha de centro, teria elogiado sua beleza e reclamado que ela e meu pai jamais haviam tirado férias de verdade na Europa (Ah, Frank, vamos!).

Emma estava visivelmente decepcionada.
— Eu esperava alguma coisa mais sinistra.
— Eu também — falei. — Onde estão todos os antros de assassinos e arenas de esportes sanguinários?
— Não sei em que tipo de negócios vocês acham que as pessoas se envolvem por aqui — disse Sharon. — Mas nunca ouvi falar em um antro de assassinos. Quanto a arenas de esportes sanguinários, só há uma, a de Derek, lá na Rua do Lodo. Um bom sujeito, Derek. Me deve cinco libras…
— E os acólitos? — disse Emma. — E nossos amigos raptados?
— Fale baixo — chiou Sharon. — Assim que resolver meu assunto, vamos encontrar uma pessoa que possa ajudar vocês. Até lá, não repitam isso para ninguém.
Emma confrontou Sharon:
— Então não me faça repetir isso. Apesar de estarmos agradecidos por sua ajuda e seu conhecimento, a vida de nossos amigos está com prazo de validade. Não vou ficar parada perdendo tempo simplesmente para evitar aborrecer certas pessoas.
Sharon olhou para ela, em silêncio por um instante.
— Todos temos prazo de validade. Se eu fosse vocês, não teria pressa para descobrir qual é.

* * *

Saímos para encontrar o advogado de Sharon. Ele logo ficou frustrado.
— Eu podia jurar que o escritório ficava nesta rua — disse ele, dando meia-volta. — Mas faz anos que não o vejo. Talvez tenha se mudado.
Sharon resolveu procurar por conta própria e nos mandou esperar ali.
— Volto em alguns minutos. Não falem com ninguém.
Ele saiu andando, nos deixando sozinhos. Nós nos agrupamos na calçada, desconfortáveis, sem saber o que fazer. As pessoas olhavam fixamente para nós ao passar.
— Ele nos enrolou mesmo, não é? — disse Emma. — Fez com que este lugar parecesse um antro de criminalidade, mas, para mim, parece uma fenda como outra qualquer. Na verdade, as pessoas aqui parecem mais normais do que qualquer peculiar que já vi. É como se as características diferentes deles tivessem sido sugadas. É muito entediante.
— Você deve estar brincando — disse Addison. — Eu nunca vi um lugar tão sinistro ou repulsivo.
Nós dois olhamos para ele, surpresos.
— Por que diz isso? — perguntou Emma. — Aqui só tem lojinhas.
— É, mas veja o que elas estão vendendo.
Até então, não tínhamos visto. Logo atrás de nós havia uma vitrine, e nela havia um homem bem-vestido de olhos tristes e barba comprida. Quando viu que tinha nossa atenção, ele balançou de leve a cabeça, ergueu um relógio de bolso e apertou um botão na lateral. No momento em que o apertou, ele congelou, e sua imagem pareceu borrar. Alguns segundos depois, ele se moveu sem se mover, desaparecendo e reaparecendo instantaneamente no canto oposto da vitrine.
— Uau! — falei. — Esse é um truque e tanto!
Ele o fez pela segunda vez, se teletransportando de volta para o outro canto.
Enquanto eu assistia, hipnotizado, Emma e Addison seguiram para a vitrine da loja ao lado. Me juntei a eles e vimos uma exibição parecida, só que por trás do vidro havia uma mulher de vestido preto e uma longa fieira de contas em uma das mãos.
Quando percebeu que estávamos olhando, ela fechou os olhos e estendeu os braços como uma sonâmbula. Começou a passar as contas lentamente entre os dedos, girando cada uma delas. Meus olhos estavam tão fixos nas contas que levei alguns segundos para perceber que algo estava acontecendo com seu rosto; estava mudando, sutilmente, a cada conta que ela girava. Com o giro de uma conta, vi o tom de sua pele clarear. Com o seguinte, seus lábios se estreitaram. Em seguida, o cabelo ganhou um tom avermelhado. O efeito cumulativo, entretanto, ao longo do curso de uma dezena de contas, foi tornar seu rosto completamente diferente, transformando os traços suaves e morenos de uma avó nos de uma jovem ruiva de nariz adunco. Foi ao mesmo tempo fascinante e perturbador.



Quando o espetáculo terminou, me virei para Addison.
— Não entendo — falei. — O que eles estão vendendo?
Antes que ele pudesse responder, um menino pré-adolescente correu até nós e forçou dois cartões em minha mão.
— Dois por um, só hoje! Nenhuma oferta razoável recusada!
Virei os cartões. Um tinha a foto do homem do cronômetro e, no verso, lia-se J-Edwin Bragg, bilocalizacionista. O outro mostrava a mulher das contas em transe e dizia G. Fünke, a mulher das mil caras.
— Vá embora, não estamos comprando — disse Emma, e o menino olhou para ela de cara feia e saiu correndo.
— Agora viram o que eles estão vendendo? — disse Addison.
Olhei rua abaixo. Havia pessoas como o homem do cronômetro e a mulher das contas em quase toda vitrine ao longo da Rua da Depravação, peculiares prontos para fazer um número, bastava olhar em sua direção.
Arrisquei um palpite:
— Eles estão… se vendendo?
— Com toda a certeza — disse Addison.
— E isso é ruim? — falei, arriscando mais um palpite.
— É — disse Addison bruscamente. — É contra a lei em todo o mundo peculiar, e por uma boa razão.
— A peculiaridade de uma pessoa é um dom sagrado — disse Emma. — Vendê-la desvaloriza o que nós temos de mais especial.
Ela parecia estar repetindo um clichê que havia sido inculcado em sua mente desde a infância.
— Hã… tudo bem.
— Você não está convencido — disse Addison.
— Acho que não vejo nenhum mal. Se eu precisasse dos serviços de uma pessoa invisível e a pessoa invisível precisasse do dinheiro, por que não deveríamos negociar?
— Mas você tem um forte senso moral, e isso o diferencia de noventa e nove por cento da humanidade — disse Emma. — E se uma pessoa, ou apenas uma pessoa de moral abaixo da média, quisesse contratar os serviços de um peculiar invisível?
— O peculiar invisível deveria dizer não.
— Mas as coisas nem sempre são simples assim — disse Emma. — E se vender reduz sua bússola moral. Em pouco tempo você está mergulhando do lado errado da área cinzenta sem saber, fazendo coisas que jamais faria se não tivesse sido pago. E se alguém estiver desesperado, pode se vender para qualquer pessoa, não importa a intenção do outro.
— Para um acólito, por exemplo — acrescentou Addison, de maneira incisiva.
— Está bem, é, isso seria ruim — falei. — Mas vocês acham mesmo que um peculiar faria isso?
— Não seja bobo! — disse Addison. — Olhe só para este lugar. É provavelmente a única fenda na Europa que não foi destruída pelos acólitos! E você acha que isso aconteceu por quê? Porque ela tem sido extremamente útil, tenho certeza, por ter uma população inteira de traidores e informantes dispostos a fazer sua vontade.
— Acho melhor você falar mais baixo — sugeri.
— Faz sentido — disse Emma. — Eles devem ter infiltrado informantes peculiares em nossas fendas. De que outro modo eles poderiam saber tanto? Entradas de fendas, defesas, pontos fracos… só com a ajuda de pessoas assim. — Ela lançou um olhar perverso ao redor, com a cara de quem acabou de tomar leite estragado.
— “Nenhuma oferta razoável recusada” — rosnou Addison. — Traidores, todos eles. Deviam ser enforcados.
— Qual o problema, queridos? Estão tendo um dia ruim?
Viramos e vimos uma mulher parada atrás de nós. (Há quanto tempo ela estava parada ali? O que tinha ouvido?) Estava vestida em estilo profissional e elegante dos anos 1950, com saia na altura do joelho e escarpim preto de salto baixo, e fumava preguiçosamente um cigarro. Seu cabelo tinha um penteado estilo bolo de noiva e seu sotaque era desafinado e americano como o predominante nas planícies do Meio-Oeste.
— Meu nome é Lorraine — disse ela. — Vocês são novos na cidade.
— Estamos esperando uma pessoa — disse Emma. — Estamos… de férias.
— Não diga mais nada! Eu também estou de férias. Estou há cinquenta anos. — Ela riu, mostrando dentes sujos de batom. — Me digam se precisarem de alguma coisa. Lorraine tem a melhor seleção na Rua da Depravação, e isso é fato.
— Não, obrigado — falei.
— Não se preocupe, querido. Eles não mordem.
— Não estamos interessados.
Lorraine deu de ombros.
— Eu só estava sendo simpática. Vocês parecem um pouco perdidos, só isso.
Ela começou a ir embora, mas algo que dissera despertou o interesse de Emma.
— Seleção de quê?
Lorraine se virou de volta e abriu um sorriso malicioso.
— Velhos, novos. Todo tipo de talento. Alguns de meus clientes apenas querem um show, mas outros têm necessidades específicas. Garantimos que todos fiquem satisfeitos.
— O garoto disse “não, obrigado” — disse Addison, de mau humor.
O cão parecia prestes a enxotar a mulher quando Emma entrou na frente dele e disse:
— Eu gostaria de ver.
— Você o quê? — perguntei.
— Eu quero ver — disse Emma, um tom incisivo surgindo em sua voz. — Vamos lá, me mostre.
— Apenas propostas sérias — disse Lorraine.
— Ah, eu estou muito séria.
Eu não sabia o que Emma estava tramando, mas confiava nela o suficiente para acompanhá-la.
— E eles? — disse Lorraine, lançando um olhar desconfiado para Addison e para mim. — Eles são sempre tão rudes?
— São. Mas são legais.
Lorraine semicerrou os olhos em nossa direção, como se imaginasse o que seria necessário para nos ejetar de seu estabelecimento, caso surgisse a necessidade.
— O que você pode fazer? — perguntou ela para mim. — QUALQUER coisa?
Emma limpou a garganta, em seguida esbugalhou os olhos para mim. Eu soube exatamente o que ela estava telegrafando: Minta!
— Eu costumava conseguir levitar lápis e coisas — falei. — Mas agora não consigo botar nem unzinho de pé. Acho que estou… com defeito, algo assim.
— Acontece com os melhores. — Ela olhou para Addison. — E ele?
Addison revirou os olhos.
— Eu sou um cão falante, ora.
— Isso é tudo o que você faz? Falar?
— Às vezes parece que sim — não resisti a dizer.
— Não sei por quem me sinto mais insultado — disse Addison.
Lorraine deu um trago final em seu cigarro e o arremessou longe.
— Está bem, doçuras. Sigam-me.
Ela saiu andando. Ficamos parados um instante, debatendo em sussurros.
— E Sharon? — falei. — Ele nos disse para esperar aqui.
— Isso só vai levar um minuto — disse Emma. — E tenho uma sensação de que ela sabe mais sobre o esconderijo dos acólitos do que Sharon.
— E você acha que ela vai revelar essa informação por vontade própria — questionou Addison.
— Vamos ver — disse Emma, e fez a volta para seguir Lorraine.

* * *

O endereço de Lorraine não tinha vitrine nem placa, só uma porta simples com um sino de prata e uma corrente para puxá-la. Lorraine tocou o sino. Esperamos enquanto uma série de trancas era destravada pelo lado de dentro do recinto, e em seguida a porta se entreabriu. Um olho brilhou para nós das sombras.
— Carne fresca? — perguntou uma voz masculina.
— Clientes — respondeu Lorraine. — Deixe-nos entrar.
O olho desapareceu, e a porta se abriu totalmente. Entramos em um vestíbulo formal, no qual o porteiro aguardava para nos examinar. Ele usava um sobretudo pesado com gola alta e um chapéu estilo fedora de abas largas, inclinado tão para baixo que a única coisa que víamos de seu rosto eram os olhos pequeninos e a ponta do nariz. Ele estava impedindo nosso caminho, olhando-nos de cima a baixo.


— Então? — disse Lorraine.
O homem parecia estar decidindo se éramos uma ameaça ou não.
— Está bem — disse ele, se afastando para o lado.
Em seguida, ele fechou e trancou a porta e depois veio atrás de nós enquanto Lorraine nos conduzia por um corredor comprido.
Chegamos a uma mal-iluminada sala de visita que tremeluzia sob a luz de lamparinas a óleo. Era um lugar desleixado e com delírios de grandeza: as paredes eram ornadas com arabescos dourados e cortinas de veludo, o teto abobadado era pintado com deuses gregos bronzeados em túnicas, e colunas de mármore emolduravam a entrada do salão.
Lorraine gesticulou com a cabeça para o porteiro.
— Obrigada, Carlos.
Carlos se afastou para o fundo do salão. Lorraine foi até uma parede protegida por uma cortina e puxou uma corda, e o tecido deslizou para o lado, revelando um painel largo de vidro grosso. Nós nos aproximamos para enxergar e vimos outro aposento pelo vidro. Era muito parecido com aquele em que estávamos, porém menor, e as pessoas estavam relaxando em poltronas e sofás, algumas lendo, enquanto outras cochilavam.
Contei oito delas. Algumas eram mais velhas, grisalhas nas têmporas. Duas, um garoto e uma garota, tinham menos de dez anos. Todos eram, eu me dei conta, prisioneiros.
Addison ia fazer uma pergunta, mas Lorraine o interrompeu com um gesto impaciente.
— Perguntas depois, por favor.
Ela foi até o vidro, pegou um tubo conectado à parede e falou em uma das extremidades.
— Número treze!
Do outro lado do vidro, o menino mais novo se levantou e deu passos arrastados à frente. Suas mãos e pernas estavam acorrentadas, e ele era o único peculiar usando algo que parecia um uniforme de presidiário: um traje listrado com gorro e um número treze costurado grosseiramente. Apesar de não aparentar mais de dez anos, tinha pelos no rosto como um homem: um cavanhaque denso e triangular e sobrancelhas como lagartas, os olhos frios e atentos.


— Por que ele está acorrentado desse jeito? — perguntei, com curiosidade.
— Ele é perigoso?
— Vocês vão ver — disse Lorraine.
O garoto fechou os olhos. Pareceu estar se concentrando. No instante seguinte, começou a emergir cabelo por baixo de seu boné, descendo por sua testa. Seu cavanhaque também cresceu, se enrolando em um emaranhado, depois se erguendo e ziguezagueando como uma cobra enfeitiçada.
— Garças dos céus! — exclamou Addison. — Que coisa mais estranha e maravilhosa.
— Agora olhem com atenção — disse Lorraine com um sorriso.
O número treze ergueu as mãos acorrentadas. A extremidade de seu cavanhaque enfeitiçado apontou para a tranca, farejou a fechadura e penetrou no orifício. O garoto abriu os olhos e encarou o espaço à sua frente, sem expressão. Depois de aproximadamente dez segundos, o cavanhaque emaranhado ficou rígido e começou a vibrar, produzindo uma nota musical aguda que podíamos ouvir do outro lado do vidro.
O cadeado se abriu, e as correntes caíram dos pulsos do garoto.
Ele fez uma leve reverência. Eu contive uma vontade súbita de aplaudir.
— Ele consegue abrir qualquer fechadura do mundo — disse Lorraine, com um toque de orgulho.
O garoto voltou a sua poltrona e sua revista.
Lorraine cobriu o tubo com a mão.
— Ele é um tipo único, assim como todos os outros. Um lê pensamentos, é muito bom nisso. Outro pode atravessar paredes, das mãos até os ombros. Isso é mais útil do que parece, acreditem em mim. A garotinha aqui voa se tomar refrigerante de uva.
— Uau — disse Addison secamente.
— Ela iria adorar fazer uma demonstração — disse Lorraine, e falou no tubo, chamando a menina até a vidraça.
— Não é necessário — disse Emma entre dentes cerrados.
— É o trabalho deles — disse Lorraine. — Cinco, aproxime-se!
A garotinha foi até uma mesa repleta de garrafas, escolheu uma cheia de um líquido roxo e tomou um gole grande. Depois de terminar, ela pousou a garrafa, soltou um soluço delicado e ficou de costas para uma cadeira com espaldar de palhinha. No instante seguinte, ela tornou a soluçar, e seus pés começaram a se erguer do chão, se elevando enquanto sua cabeça permanecia parada. No terceiro soluço, seu corpo tinha se inclinado a noventa graus, e seu único apoio era o encosto da cadeira sob a nuca.


Acho que Lorraine esperava uma reação maior, mas, apesar de impressionados, observávamos em silêncio.
— Plateia difícil — disse ela, e dispensou a menina. — Agora — prosseguiu Lorraine, devolvendo o tubo ao lugar e se virando para nos encarar —, se nenhum desses foi de seu agrado, tenho acordos de empréstimo com outros estábulos. Suas escolhas não estão de modo algum limitadas pelo que veem aqui.
— Estábulos — disse Emma. Sua voz estava calma, mas eu percebia que ela fervilhava logo abaixo da superfície. — Então você admite que os trata como animais.
Lorraine analisou Emma por um instante e lançou um olhar de relance ao homem de sobretudo a postos nos fundos.
— Claro que não — disse ela. — Eles são produtos de alto desempenho. São bem alimentados, descansados, treinados para agir sob pressão e puros como neve que acabou de cair. A maioria nunca tocou em sequer uma gota de ambrosia, e eu tenho os documentos que provam isso em meu escritório. Ou vocês podem simplesmente perguntar a eles. Números treze e cinco! — gritou ela no tubo de comunicação. — Venham e digam a essas pessoas quanto vocês gostam daqui.
O garotinho e a garotinha se levantaram e caminharam lentamente até o vidro. O menino pegou o tubo de comunicação.
— Nós gostamos muito daqui — disse ele roboticamente. — Nossa mãe nos trata muito bem.
Ele entregou o tubo à menina.
— Gostamos de fazer nosso trabalho. Nós… — Ela fez uma pausa, tentando se lembrar de algo. — Nós gostamos do nosso trabalho — balbuciou.
Lorraine os dispensou com irritação.
— Pronto, aí está. Agora posso deixar que vocês experimentem mais um ou dois, mas, além disso, vou precisar que paguem algum sinal.
— Eu gostaria de ver esses documentos — disse Emma, olhando para o homem de sobretudo atrás de nós. — Os que estão em seu escritório.
Seus punhos, cerrados ao lado do corpo, estavam começando a ficar vermelhos. Eu sabia que precisávamos sair dali antes que as coisas ficassem feias. Qualquer informação que aquela mulher pudesse ter não compensava a luta, e resgatar todos aqueles garotos… Bem, por mais frio que possa soar, tínhamos nossas próprias crianças para resgatar primeiro.
— Na verdade, isso não vai ser necessário — falei. Em seguida, me inclinei para perto de Emma e sussurrei: — Vamos voltar depois para ajudá-los. Temos nossas prioridades.
— Os documentos — disse ela, me ignorando.
— Sem problema — retrucou Lorraine. — Venham a meu escritório e vamos falar de negócios.
Então Emma se pôs a caminho, e não havia maneira discreta de detê-la.
O escritório era um closet embutido com uma mesa e uma cadeira espremidas dentro dele. Assim que Lorraine fechou a porta às nossas costas, Emma saltou sobre ela, empurrando-a com força contra a porta. Lorraine praguejou e gritou por Carlos, mas ficou quieta quando Emma aproximou de seu rosto uma das mãos, que brilhavam quentes como ferro incandescente. Na blusa de Lorraine, duas marcas negras de mão fumegavam onde Emma a empurrara.
Ouvimos um baque surdo na porta e um grunhido do outro lado.
— Diga a ele que você está bem — disse Emma, em voz baixa e dura.
— Estou bem! — disse Lorraine rigidamente.
A porta chacoalhou contra suas costas.
— Diga outra vez.
Lorraine, agora de forma mais convincente:
— Vá embora! Estou fazendo negócios!
Outro grunhido, depois passos se afastando.
— Vocês estão sendo muito burros — disse Lorraine. — Ninguém nunca roubou de mim e saiu vivo.
— Não queremos dinheiro — disse Emma. — Você vai responder a algumas perguntas.
— Sobre o quê?
— Essas pessoas aí fora. Essas crianças. Você as comprou… Você acha que é dona delas?
— Eu nunca comprei ninguém.
— Você comprou e agora está vendendo. Você é uma escravagista.
— Não é assim que funciona. Elas vieram a mim espontaneamente. Sou a agente deles.
— Você é a cafetina deles — vociferou Emma.
— Sem mim eles teriam passado fome. Ou sido levados.
— Levados por quem?
— Vocês sabem por quem.
— Quero ouvir você dizer.
A mulher riu.
— Isso não é uma boa ideia.
— É? — falei, dando um passo à frente. — Por que não?
— Eles têm ouvidos por toda parte, e não gostam que se fale deles.
— Eu já matei acólitos — falei. — Não tenho medo deles.
— Então você é um idiota.
— Vocês acham que eu deveria mordê-la? — disse Addison. — Eu gostaria muito, só uma vezinha.
— O que acontece quando eles levam as pessoas? — perguntei, ignorando Addison.
— Ninguém sabe — disse ela. — Já tentei descobrir, mas…
— Aposto que você tentou muito — disse Emma.
— Eles às vezes vêm aqui — disse Lorraine. — Fazer compras.
— Compras — disse Addison. — É uma bela palavra para isso.
— Usar meu povo… — Ela olhou ao redor. Sua voz se reduziu a um sussurro. — Odeio isso. Você nunca sabe quantos eles vão querer nem por quanto tempo. Mas damos o que eles pedem. Eu reclamaria, mas… não se pode reclamar de nada.
— Aposto que você não reclama do quanto eles pagam — disse Emma, com desprezo.
— Mal é suficiente, ainda mais por causa do que fazem com eles. Tento esconder os pequenos quando sei que eles estão vindo. Eles os trazem de volta maltratados, a memória apagada. Eu digo: “Aonde você foi? O que eles obrigaram você a fazer?”, mas as crianças não se lembram de nada. — Ela sacudiu a cabeça. — Mas elas têm pesadelos. Pesadelos feios. É difícil vender a mercadoria depois disso.
— Eu devia vender você — disse Emma, lívida e trêmula. — Mas ninguém pagaria porcaria nenhuma.
Enfiei as mãos nos bolsos para impedir que voassem em Lorraine. Havia mais a ser extraído dela.
— E os peculiares que eles sequestram em outras fendas? — perguntei.
— Eles chegam em caminhões. Costumava ser coisa rara. Ultimamente, tem sido o tempo todo.
— Chegou algum deles hoje mais cedo? — falei.
— Há algumas horas — disse ela. — Eles tinham guardas armados por toda parte, bloqueando a rua. Montaram uma operação e tanto.
— Não é isso que eles fazem normalmente?
— Normalmente, não. Acho que se sentem seguros aqui. Essa entrega deve ter sido importante.
Eram eles, pensei. Um tremor de excitação atravessou meu corpo, mas foi imediatamente amortecido por Addison se lançando sobre Lorraine.
— Tenho certeza de que eles se sentem bem seguros aqui — rosnou ele. — Em meio a traidores tão perfeitos!
Peguei sua coleira e o segurei.
— Calma!
Addison lutou contra mim, e achei por um momento que ele fosse morder minha mão, mas então ele se acalmou.
— Fazemos o que é preciso para sobreviver — sibilou Lorraine.
— Nós também — disse Emma. — Agora, conte para onde vão esses caminhões, e se você mentir, ou se for uma armadilha, vou voltar e derreter seu nariz até fechar os buraquinhos. — Ela ergueu um dedo em chamas bem perto da ponta do nariz de Lorraine. — Entendido?
Eu quase pude visualizar Emma fazendo aquilo. Ela estava bebendo em um poço profundo de ódio que eu nunca vira revelado por completo antes, e, por mais que fosse útil em situações como aquela, também era um pouco assustador. Eu não gostava de imaginar do que ela seria capaz, considerando a motivação apropriada.
— Eles vão para seu local do Recanto — disse Lorraine, afastando a cabeça do dedo quente de Emma. — Do outro lado da ponte.
— Que ponte? — perguntou Emma, aproximando o dedo.
— No alto da Rua da Fumaça. Mas nem se deem ao trabalho de atravessar, a menos que queiram ver suas cabeças na ponta de uma lança.
Percebi que aquilo era tudo o que iríamos conseguir tirar de Lorraine. Agora teríamos que descobrir o que fazer com ela. Addison queria mordê-la. Emma queria riscar um E em sua testa com o dedo calcinante, marcando-a para sempre como ESCRAVAGISTA.
Eu os convenci a não fazer nada disso, então a amordaçamos com a corda das cortinas e a amarramos a uma perna da mesa. Estávamos prestes a deixá-la daquele jeito quando me lembrei de uma última coisa que queria saber.
— Os peculiares que eles sequestram. O que acontece com eles?
— Hummph!
Retirei a mordaça.
— Nenhum escapou para contar — disse ela. — Mas há boatos.
— Sobre?
— Algo pior que a morte. — Ela deu um sorriso, babando. — Acho que vocês vão ter que descobrir, não vão?

* * *

No momento em que abrimos a porta do escritório, o homem de sobretudo do outro lado da sala irrompeu sobre nós com algo pesado na mão. Antes que ele conseguisse nos alcançar, um grito abafado de alerta soou no escritório e ele parou, mudando de direção para cuidar de Lorraine. Depois que ele entrou, Emma bateu a porta e derreteu a maçaneta, tornando-a uma bola de metal inútil.
Isso nos fez ganhar um ou dois minutos.
Addison e eu disparamos na direção da saída. A meio caminho de lá, eu me dei conta de que Emma não havia nos seguido. Ela estava batendo na janela dos aposentos dos peculiares escravizados.
— Podemos ajudar vocês a escapar! Mostrem onde fica a porta.
Eles se viraram lentamente para nos encarar, estirados em suas poltronas e sofás-camas.
— Joguem alguma coisa para quebrar o vidro! — disse Emma. — Rápido!
Ninguém se mexeu. Eles pareciam confusos. Talvez não acreditassem que um resgate fosse realmente possível, ou talvez não quisessem ser resgatados.
— Emma, não podemos esperar — falei, puxando seu braço.
Ela não desistia.
— Por favor! — gritou no tubo. — Pelo menos mandem as crianças!
Gritos guturais vinham do interior do escritório. A porta se balançou nas dobradiças. Frustrada, Emma bateu no vidro.
— Qual o problema com eles?
Olhares se agitaram. O garotinho e a garotinha começaram a chorar.
Addison puxou a barra do vestido de Emma com os dentes.
— Precisamos ir!
Emma deixou o tubo de comunicação cair e se virou com amargura.
Chegamos correndo à porta e saímos para a calçada. Uma turvação densa e amarelada tinha caído, envolvendo tudo em um véu e bloqueando a visão do outro lado da rua. Quando chegamos correndo ao final da quadra, ouvimos Lorraine gritando atrás de nós, mas sem conseguir enxergá-la; dobramos uma esquina, depois outra, até conseguirmos despistá-la. Paramos para recuperar o fôlego em uma rua deserta, em frente à fachada de uma loja bloqueada por tábuas.
— Isso se chama Síndrome de Estocolmo — falei. — Quando as pessoas começam a simpatizar com seus captores.
— Acho que eles estavam apenas com medo — disse Addison. — Para onde teriam fugido? Esse lugar inteiro é uma prisão.
— Vocês estão errados — disse Emma. — Eles foram drogados.
— Você parece estar bem certa disso — falei.
Ela ajeitou para trás o cabelo que tinha caído sobre seus olhos.
— Quando eu estava trabalhando no circo, depois de fugir de casa, uma mulher me abordou após um de meus números como devoradora de fogo. Ela disse que sabia o que eu era, que conhecia outros como eu e que eu podia ganhar muito mais dinheiro se fosse trabalhar com ela. — Emma olhou para a rua, as faces enrubescidas por conta da corrida. — Eu disse a ela que não queria ir. Ela não parava de insistir. Quando ela finalmente foi embora, eu estava com raiva. Naquela noite, acordei amordaçada e com as mãos algemadas na traseira de uma carroça. Não conseguia me mexer, não conseguia pensar direito. Foi a srta. Peregrine quem me resgatou. Se ela não tivesse me encontrado quando eles pararam para trocar a ferradura do cavalo, no dia seguinte… — Emma apontou com a cabeça para o lugar de onde viéramos. — Eu podia ter acabado como eles.
— Você nunca me contou isso — falei baixinho.
— Não é uma coisa sobre a qual eu goste de falar.
— Sinto muito por isso ter acontecido com você — disse Addison. — Foi aquela mulher lá atrás? Foi ela quem raptou você?
Emma pensou por um instante.
— Aconteceu há muito tempo. Eu bloqueei o pior de tudo, incluindo o rosto da minha raptora. Mas sei de uma coisa: se vocês tivessem me deixado sozinha com aquela mulher, não sei se eu teria conseguido me impedir de tirar a vida dela.
— Todos temos nossos próprios demônios — falei.
Apoiei-me contra uma janela coberta por tábuas, tomado por uma súbita onda de exaustão. Havia quanto tempo estávamos acordados? Quantas horas desde que Caul se revelara? Pareciam dias, apesar de não terem se passado mais de dez ou doze horas. Todo momento desde então fora uma guerra, um pesadelo de luta e terror sem fim. Eu sentia meu corpo formigar, prestes a desmoronar. O pânico era a única coisa que me mantinha de pé, e sempre que ele começava a fraquejar, eu também fraquejava.
Por uma mera fração de segundo, permiti que meus olhos se fechassem.
Mesmo naquela breve e curta pausa de escuridão, horrores me aguardavam. Um espectro de morte eterna, agachado e se alimentando do corpo de meu avô, seus olhos chorando óleo. Os mesmos olhos com tesouras de jardim fincadas neles, uivando ao mergulhar em uma cova lamacenta. O rosto de seu mestre contorcido de dor, cambaleando para trás em um vazio, gritando com um tiro na barriga.
Eu já havia matado meus demônios, mas as vitórias eram efêmeras: outros haviam se erguido rapidamente para substituí-los.
Meus olhos se abriram ao som de passos às minhas costas, do outro lado da janela bloqueada. Saltei para longe e me virei. Apesar de a loja parecer abandonada, havia alguém em seu interior, e estava saindo.
Lá estava ele: o pânico. Despertei. Os outros também ouviram o barulho.
Agindo por instinto coletivo, nós nos agachamos atrás de uma pilha de lenha próxima. Através dos troncos, espiei a fachada da loja e li o letreiro esmaecido pendurado acima da porta.
Munday, Dyson e Strype, advogados. Odiados e temidos desde 1666.
Uma tranca foi puxada, e a porta se abriu lentamente. Um capuz familiar surgiu: Sharon. Ele olhou ao redor, em seguida saiu e trancou a porta. Enquanto saía correndo na direção da Rua da Depravação, nos consultamos em sussurros sobre ir atrás dele. Será que ainda precisávamos de Sharon? Será que ele era de confiança? Talvez e talvez. O que ele estava fazendo naquela loja com as janelas cobertas? Era aquele o advogado sobre o qual tinha falado? Por que fazer aquilo às escondidas?
Perguntas demais, incertezas demais sobre ele. Decidimos que ficaríamos por nossa conta. Permanecemos onde estávamos e o observamos entrar fantasmagoricamente na turvação e desaparecer.

* * *

Partimos para encontrar a Rua da Fumaça e a ponte dos acólitos. Sem querer correr o risco de outro encontro imprevisível, decidimos procurar sem pedir informações. Isso ficou mais fácil depois que descobrimos as placas de ruas do Recanto do Demônio, que ficavam escondidas nos locais mais inconvenientes — atrás de bancos públicos na altura dos joelhos, penduradas em postes de luz, gravadas em paralelepípedos desgastados no chão. Mesmo com sua ajuda, porém, pegamos tantas ruas erradas quanto certas. Parecia que o Recanto tinha sido projetado para levar à loucura quem estivesse aprisionado dentro dele.
Havia ruas que terminavam em muros só para recomeçar em outro lugar. Ruas com curvas tão pronunciadas que faziam espirais sobre si mesmas. Ruas sem nome, ou com dois ou três. Nenhuma era tão limpa ou bem-cuidada quanto a Rua da Depravação, onde claramente um esforço tinha sido feito para criar um ambiente agradável para compradores no mercado de carne peculiar. Tal ideia, agora que eu vira o armazém de Lorraine e ouvira a história de Emma, fazia meu estômago se revirar.
Enquanto caminhávamos, comecei a entender a geografia singular do Recanto, reconhecendo as quadras menos por seus nomes do que por suas características. Cada rua era diferente, as lojas agrupadas por tipo. A Rua da Depressão contava com dois agentes funerários, um médium, um carpinteiro que trabalhava exclusivamente com “madeira de caixões reutilizada”, uma trupe de carpideiras profissionais que fazia bico no fim de semana como quarteto vocal e um contador. A Rua do Lodo era estranhamente alegre, com vasos de flores pendurados nos parapeitos das janelas e casas pintadas de cores vivas; até o abatedouro, que era o prédio principal, era de um convidativo azul-claro, e resisti a um impulso estranho de entrar e pedir para fazer um tour. A Rua do Caramujo, por outro lado, era uma fossa. No meio, havia esgoto correndo a céu aberto, uma população vicejante de moscas agressivas e calçadas transbordando com vegetais apodrecidos, propriedade de um quitandeiro barato que afirmava torná-las frescas outra vez com um beijo. A Avenida Amortecida tinha apenas quinze metros de comprimento e abrigava um único negócio: dois homens vendendo lanches de uma cesta apoiada em um trenó. Crianças se amontoavam ao redor, pedindo amostras.


Addison foi até lá e farejou em torno de seus pés à procura de restos. Eu estava prestes a chamá-lo quando um dos homens gritou:
— Carne de gato! Carne de gato cozida, aqui!
Ele voltou sozinho, o rabo entre as pernas, choramingando.
— Nunca mais vou comer carne, nunca mais…
Nós nos aproximamos da Rua da Fumaça vindos da Mancha Norte. Quanto mais perto chegávamos, mais a quadra parecia definhar, com lojas abandonadas, calçadas mais vazias, o calçamento escurecendo com correntes de cinzas que sopravam em nossos pés, como se a própria rua tivesse sido infectada com alguma morte rastejante. No fim, ela fazia uma curva brusca para a direita, e pouco antes da curva havia uma casa velha de madeira onde um homem igualmente velho ficava de guarda na varanda. Ele varria as cinzas com uma vassoura de pelos curtos, mas as cinzas se acumulavam com tal rapidez que ele mal tinha esperança de conseguir coletá-las.
Perguntei ao homem por que se dava ao trabalho. Ele ergueu os olhos de repente, abraçando a vassoura, como se tivesse medo de que eu a roubasse. Tinha os pés descalços e negros, e a calça estava coberta de fuligem até a altura dos joelhos.
— Alguém precisa fazer isso — respondeu ele. — Não dá para deixar o lugar se acabar.
Quando passamos, ele voltou carrancudo à sua tarefa, apesar de suas mãos artríticas mal conseguirem se fechar em torno do cabo. Havia algo quase régio nele, pensei; uma resistência que eu admirava. Ele era um baluarte que se recusava a abandonar seu posto. O último vigia no fim do mundo.
Passamos por uma zona de prédios em progressiva deterioração enquanto caminhávamos: primeiro havia tinta chamuscada, e mais além as janelas tinham enegrecido e se quebrado; depois, os telhados estavam caindo e as paredes desabando, e por fim, quando chegamos ao cruzamento com a Rua da Fumaça, só restavam seus ossos, um caos de madeiras incineradas e inclinadas, brasas brilhando na cinza como pequenos corações em suas últimas batidas.
Paramos e olhamos ao redor, aturdidos. Uma fumaça sulfurosa se erguia de rachaduras profundas do calçamento. Árvores chamuscadas assomavam como espantalhos acima das ruínas. Torrentes de cinzas fluíam pela rua, às vezes com trinta centímetros de profundidade. O mais próximo do inferno a que pretendo chegar.
— Então essa é a entrada principal dos acólitos — disse Addison. — Bem adequado.
— É surreal — falei, desabotoando o casaco. Um calor como o de uma sauna se erguia por toda a volta, irradiando através da sola de meus sapatos. — O que Sharon disse que acontecia aqui?
— Fogo subterrâneo — respondeu Emma. — Eles podem queimar por anos. Famosos pela dificuldade de apagar.
Ouvimos um ruído como o de uma lata de refrigerante gigante sendo aberta, e uma alta labareda alaranjada se projetou de uma fenda na calçada a menos de três metros de nós. Demos um pulo de susto, nos recompondo em seguida.
— Não vamos passar nem mais um minuto aqui do que o necessário — disse Emma. — Para onde?
Só podíamos escolher entre esquerda e direita. Sabíamos que, de um lado, a Rua da Fumaça terminava no Valão, e do outro, na ponte dos acólitos, mas não sabíamos para que lado ficava o quê, e, em meio à fumaça, à neblina e às cinzas sopradas pelo vento, não conseguíamos ver longe em nenhuma direção. Escolher ao acaso poderia causar um desvio perigoso e um desperdício de tempo.
Estávamos ficando desesperados quando ouvimos, do meio da neblina, uma cantoria fluir em nossa direção. Fugimos da rua para nos esconder entre o esqueleto carbonizado de uma casa. Conforme os cantores se aproximavam, as vozes ficavam mais altas, e então conseguimos compreender as palavras de sua canção estranha:

O carrasco chegou,
na noite antes de enforcar o ladrão.
Eu vim, disse ele, antes de sua morte,
Para lhe dar um alerta.
Vou estrangular seu pescoço, mandá-lo para o poço
E cortar seu braço e lhe fazer maldades
E arrancar seu couro e enterrar você…

Nesse ponto, todos eles pararam para respirar e, em seguida, terminaram:

— EMBAIXO DE SETE PALMOS!

Bem antes de emergirem da neblina, soube de quem eram aquelas vozes. As figuras assumiram forma em macacões e robustas botas pretas, bolsas de ferramentas balançando alegremente ao lado do corpo. Mesmo depois de um dia duro de trabalho, os indomáveis construtores de forcas ainda cantavam a plenos pulmões.
— Abençoadas sejam suas almas desafinadas — disse Emma, rindo baixinho.
Mais cedo, nós os víramos trabalhando na Rua da Fumaça, ao Valão da Febre, então parecia razoável supor que era de lá que estavam vindo. Ou seja, estavam caminhando em direção à ponte. Esperamos que passassem e tornassem a desaparecer na neblina antes de voltar a nos aventurar.
Passamos entre recifes de cinzas que enegreciam tudo: as barras de minha calça, os sapatos e os tornozelos nus de Emma, as pernas inteiras de Addison. Em algum lugar ao longe, os construtores de forca começaram outra música, suas vozes ecoando estranhamente pela paisagem calcinada. Nada à nossa volta além de ruína. De vez em quando ouvíamos uma rajada repentina seguida de uma língua de fogo brotando do chão. Nenhuma irrompeu tão perto quanto a primeira. Tivemos sorte; ser assado vivo ali era muito provável.
Um vento surgiu do nada, levantando cinzas e brasas quentes para o alto em um turbilhão preto. Nos viramos e cobrimos o rosto para conseguir respirar. Puxei a gola da camisa para cima da boca, mas não ajudou muito, e comecei a tossir. Emma pegou Addison nos braços, mas começou a sufocar. Arranquei meu casaco e o joguei sobre a cabeça deles. A tosse de Emma melhorou, e ouvi a voz abafada de Addison dizer por baixo do tecido:
— Obrigado!
Tudo o que podíamos fazer era nos encolher ali e esperar o fim da tempestade de cinzas. Eu estava com os olhos fechados quando ouvi algo se mover por perto, e olhando pelas frestas entre os dedos vi algo que até ali, em meio a tudo o que eu testemunhara no Recanto do Demônio, me assustou: um homem caminhando com a maior naturalidade, com um lenço protegendo a boca, mas, fora isso, imperturbável. Ele não tinha problemas em se localizar no escuro porque de cada uma de suas órbitas oculares se projetava um forte feixe de luz branca.
— Boa noite! — chamou ele, movendo seus feixes de luz em minha direção e erguendo o chapéu.
Tentei responder, mas minha boca se encheu de cinza, assim como meus olhos, e, quando os reabri, ele havia desaparecido.
Quando o vento começou a diminuir, tossimos, cuspimos e esfregamos os olhos até conseguirmos funcionar outra vez. Emma pôs Addison no chão.
— Se não tomarmos cuidado, essa fenda vai nos matar antes dos acólitos — disse ele.
Emma me devolveu o casaco e me abraçou com força até o ar clarear. Ela tinha um jeito de me envolver e de aninhar a cabeça no meio do meu peito que não deixava espaço nenhum entre nós, e eu quis muito beijá-la, mesmo ali, cobertos de cinzas dos pés à cabeça.
Addison limpou a garganta.
— Odeio interromper, mas temos mesmo que ir andando.
Desenganchamos nossos braços, um pouco envergonhados, e continuamos a andar. Dali a pouco, figuras pálidas surgiram na névoa adiante. Elas vagavam entre os barracos incrustados nos dois lados da rua. Nós hesitamos, nervosos, mas não havia outro caminho adiante.
— Queixo erguido, costas eretas — disse Emma. — Tentem parecer no mínimo assustadores.
Cerramos fileiras e caminhamos entre eles. Tinham olhos ariscos e de ar selvagem. Todos sujos de fuligem. Vestidos com roupas velhas que haviam resgatado do lixo. Fechei a cara, fazendo minha melhor imitação de uma pessoa perigosa. Eles recuaram como cães acostumados a apanhar.
Ali havia uma espécie de favela. Barracos baixos feitos de placas de metal à prova de fogo, telhados de lata presos no lugar com pedregulhos e tocos de madeira, lonas como portas, isso quando tinham portas. Uma camada vital de fungos crescendo sobre os ossos de uma civilização queimada. Praticamente inexistente.
Galinhas corriam pela rua. Havia um homem ajoelhado junto a um buraco fumegante na rua cozinhando ovos em seu calor borbulhante.
— Não se aproximem demais — murmurou Addison. — Todos parecem doentes.
Eu também achei. Era o andar manco, os olhares vidrados. Vários usavam sobre a cabeça máscaras toscas ou sacos com cortes na região dos olhos, como se para ocultar a cabeça carcomida pela doença ou para reduzir a transmissão da enfermidade.
— Quem são eles? — perguntei.
— Não tenho ideia — disse Emma. — E não pretendo perguntar.
— Meu palpite é de que eles não são bem-vindos em nenhum outro lugar — disse Addison. — Intocáveis, portadores da praga, criminosos cujos feitos são considerados imperdoáveis até mesmo no Recanto do Demônio. Aqueles que escaparam da forca se estabeleceram aí, no mais fundo, no limite extremo da sociedade peculiar. Exilados dos excluídos dos excluídos.
— Se isso é o limite — disse Emma —, os acólitos não podem estar longe.
— Temos certeza de que essas pessoas são peculiares? — perguntei.
Parecia não haver nada único neles além de sua desventura. Talvez fosse orgulho, mas eu não acreditava que uma comunidade de peculiares, por mais degradada que estivesse, se permitisse viver em tal sordidez medieval.
— Não sei, não me importo — respondeu Emma. — Só andem.
Continuamos de cabeça baixa e com o olhar à frente, fingindo desinteresse na esperança de que aquelas pessoas devolvessem o favor. A maioria permaneceu longe, mas alguns nos seguiram, mendigando.
— Qualquer coisa, qualquer coisa. Uma gota, um vidrinho — disse um, apontando para os próprios olhos.
— Por favor — implorou outro. — Não temos um barato há dias.
O rosto deles estava marcado e com cicatrizes, como se tivessem chorado lágrimas de ácido. Eu mal conseguia olhar.
— Seja lá o que vocês queiram, nós não temos — disse Emma.
Os mendigos se afastaram e ficaram pela rua, nos observando de um jeito sinistro. Outro chamou com voz aguda e arrastada:
— Ei, você aí! Garoto!
— Ignore — murmurou Emma.
Eu o olhei de esguelha, sem virar a cabeça. Ele estava encolhido contra uma parede, em farrapos, apontando para mim com a mão trêmula.
— Você é ele? Garoto! Você é ele, não é? — Ele usava um tapa-olho por cima dos óculos e o levantou para me observar. — Ééééééééé. — Assoviou baixo depois abriu um sorriso de gengivas negras. — Eles estão esperando por você.
— Quem?
Não aguentei mais. Parei em frente ao mendigo. Emma deu um suspiro de impaciência.
O sorriso dele ficou mais largo, mais louco.
— As mães-poeira e os desatadores! Os malditos bibliotecários e abençoados cartógrafos! Qualquer um que seja todo mundo! — Ele ergueu os braços e fez uma reverência, em falsa veneração, e senti uma onda de fedor forte. — Esperando há muuuuuuito tempo.
— Por quê?
— Vamos lá — disse Emma. — Ele é obviamente doido.
— O grande espetáculo. O grande espetáculo — disse o mendigo, elevando e baixando a voz como um apresentador de circo. — O maior, o melhor, o definitivo, o último! Está quuuuuaaaaseeee aqu…
Fui agitado por um estranho calafrio.
— Não conheço você, e você, com toda a certeza, não me conhece.
Eu me virei e saí andando.
— Claro que conheço — eu o ouvi dizer. — Você é o garoto que fala com etéreos.
Eu congelei. Emma e Addison se viraram para mim, boquiabertos.
Voltei correndo para confrontá-lo.
— Quem é você? — gritei na cara dele. — Quem contou isso?
Mas ele apenas riu e riu, e não consegui arrancar mais nada dele.


* * *

Escapamos quando começava a se formar uma multidão.
— Não olhem para trás — alertou Addison.
— Esqueça — disse Emma. — Ele é maluco.
Acho que todos sabíamos que ele era mais que isso, mas era apenas o que sabíamos. Caminhamos apressados em silêncio paranoico, nosso cérebro zunindo com perguntas irrespondíveis. Ninguém mencionou os pronunciamentos bizarros do mendigo, o que foi um alívio. Eu não tinha ideia do que eles significavam e estava exausto demais para especular, e por causa do arrastar de pés de Emma e Addison eu podia concluir que eles também estavam cansados.
Tampouco falamos sobre isso. A exaustão era nossa nova inimiga, e mencioná-la só lhe daria mais poder.
Tentávamos ver algum sinal da ponte dos acólitos à medida que a rua à frente se inclinava em um declive obscurecido pela neblina. Ocorreu-me que Lorraine podia ter mentido para nós. Talvez não houvesse ponte. Talvez ela nos tivesse mandado para aquele poço na esperança de que os habitantes dali nos devorassem vivos. Se ao menos a tivéssemos trazido conosco, poderíamos forçá-la a…
— Lá está! — exclamou Addison, o corpo apontando direto para a frente.
Nós nos esforçamos para ver o que ele estava vendo (mesmo com óculos, a visão de Addison era mais aguçada que a nossa) e, após uns dez passos, conseguimos enxergar, apenas vagamente, como a estrada se estreitava e depois fazia um arco acima de alguma espécie de abismo.
— A ponte! — exclamou Emma.
Começamos a correr, a exaustão momentaneamente esquecida, nossos pés levantando nuvens de poeira negra. No minuto seguinte, quando paramos para respirar, a paisagem tinha clareado. Uma mortalha de névoa esverdeada pairava acima do abismo. Nebulosa, uma parede de pedra branca assomava adiante, e, depois, uma torre alta e pálida, cujo topo se perdia em meio a nuvens baixas.
Era ela: a fortaleza dos acólitos. Havia um vazio incômodo em torno, como um rosto com os traços apagados. Também havia algo errado em seu posicionamento: o grande edifício branco de traços sóbrios contrastava de forma bizarra com a deterioração incinerada da Rua da Fumaça, como se um shopping center aparecesse do nada no meio da Batalha de Azincourt. Eu me enchia de medo e propósito só de olhar, como se pudesse sentir os caminhos diferentes de minha vida tola e desorganizada convergindo na direção de um único ponto, oculto por aqueles muros. Era isso: aquilo que eu deveria fazer, ou morrer tentando. A dívida que eu tinha que pagar. Aquilo para o que todas as alegrias e terrores de minha vida até então tinham sido um prelúdio. Se tudo acontece por uma razão, minha razão estava do outro lado.
Emma estava rindo. Dei a ela um olhar intrigado, e ela se recompôs.
— É lá que eles estão se escondendo? — perguntou ela.
— Parece que sim — disse Addison. — Você acha isso divertido?
— Por quase minha vida inteira, odiei e temi os acólitos. Durante todos esses anos, não sei dizer quantas vezes imaginei o momento em que finalmente iríamos encontrar seu esconderijo, seu covil. Eu esperava no mínimo um castelo sinistro. Muralhas escorrendo sangue. Um lago de óleo fervente. Mas não.
— Então você está decepcionada? — falei.
— Estou, um pouco. — Ela apontou de modo acusador para a fortaleza. — Isso é o melhor que eles podem fazer?
— Também estou decepcionado — disse Addison. — Esperava que tivéssemos ao menos um exército do nosso lado. Mas, aparentemente, talvez não precisemos de um.
— Duvido — falei. — QUALQUER coisa pode estar esperando por nós do outro lado desse muro.
— Então vamos estar prontos para qualquer coisa — disse Emma. — O que eles podem jogar contra nós que já não tenhamos enfrentado? Sobrevivemos a balas, bombas, ataques de etéreos… A questão é que finalmente estamos aqui, e, depois de todos esses anos em que eles nos emboscaram, finalmente estamos levando a luta até eles.
— Tenho certeza de que eles estão tremendo de medo — falei.
— Vou encontrar Caul — prosseguiu Emma. — Vou encontrá-lo e fazer com que ele chore pela mãezinha dele. Vou fazer com que implore por sua vida inútil, depois vou botar as mãos em seu pescoço e apertar até a cabeça dele derreter…
— Não vamos colocar o carro na frente dos bois — falei. — Tenho certeza de que há muitos obstáculos entre nós e ele. Haverá acólitos em toda parte. E, provavelmente, guardas armados.
— Talvez até etéreos — disse Addison.
— Com certeza etéreos — disse Emma.
Ela parecia um pouco empolgada com a ideia.
— Na verdade — falei —, acho que não devemos entrar pelo portão sem saber mais sobre o que está nos esperando do outro lado. Podemos ter apenas uma chance de fazer isso, e não quero perdê-la.
— Está bem — disse Emma. — O que você sugere?
— Que encontremos um jeito de botar Addison escondido lá dentro. Ele é o que tem mais chances de passar despercebido, pequeno o suficiente para se esconder em quase qualquer lugar, e ele tem o melhor nariz. Pode fazer reconhecimento, depois sair escondido e nos contar o que descobriu. Quer dizer, se ele concordar.
— E se eu não voltar? — disse Addison.
— Aí vamos atrás de você — falei.
O cachorro levou um momento refletindo, mas só um momento.
— Eu aceito, mas com uma condição.
— Pode falar.
— Nas histórias que serão contadas sobre nós após nossa vitória, eu gostaria de ser conhecido como Addison, o Intrépido.
— Assim será — disse Emma.
— Ou melhor: Extremamente Intrépido — disse Addison. — E bonito.
— Fechado — falei.
— Excelente — disse Addison. — É hora de agir, então. Quase todo mundo de quem gostamos no mundo está do outro lado daquela ponte. Cada minuto que passo deste lado é um minuto desperdiçado.
Nós iríamos acompanhar Addison até a ponte, depois esperar ali perto por seu retorno. Começamos a correr ladeira abaixo, uma descida fácil, a favela ao nosso redor ficando mais densa enquanto avançávamos. Os espaços entre os barracos diminuíam até sumir de vez, tudo passando em um vulto, um patchwork de metal carcomido pela ferrugem. Então, abruptamente, os barracos e telheiros terminaram, e por cem metros a Rua da Fumaça voltou a ser uma confusão de paredes desmoronadas e madeiras chamuscadas, uma espécie de zona de separação, talvez imposta pelos acólitos. Pelo menos chegamos à ponte, cuja entrada estava cercada de pessoas, algumas dezenas no total. Enquanto ainda estávamos longe demais para registrar o estado de suas roupas, Addison disse:
— Vejam, um exército acampado fazendo cerco à fortaleza! Eu sabia que não seríamos os únicos a entrar na luta…
A um exame mais próximo, entretanto, aquelas pessoas eram qualquer coisa, menos soldados. Com uma exclamação de decepção, a pequena esperança de Addison se apagou.
— Eles não estão fazendo cerco — falei. — Estão só… deitados.
Eram os moradores mais miseráveis da favela que tínhamos visto até então, jogados nas cinzas, prostrados em posições de tamanho torpor apático que por um momento eu os tomei, mesmo os que estavam sentados, por mortos. Seus cabelos e corpos estavam enegrecidos de cinzas e graxa, e seus rostos tão tomados por feridas e cicatrizes que eu me perguntei se eles eram leprosos.
Enquanto abríamos caminho através deles, alguns olharam para cima sem forças, mas, se estavam à espera de alguma coisa, não era de nós, pois baixaram a cabeça outra vez. O único de pé era um menino com um boné de caçador com proteção de orelhas, que rondava entre os adormecidos remexendo seus bolsos. Os que ele acordava o enxotavam, mas não se importavam em segui-lo.
Não tinham mesmo nada que valesse a pena roubar.
Tínhamos quase passado quando um gritou:
— Vocês vão morrer!
Emma parou e se virou, desafiadora.
— Como é?
— Vocês vão morrer.
O homem que falou isso estava deitado em uma folha de papelão. Seus olhos amarelos espiavam através de uma cortina de cabelos negros.
— Ninguém atravessa a ponte deles sem permissão.
— Nós pretendemos atravessar mesmo assim. Se você sabe de alguma coisa com a qual devemos tomar cuidado, diga agora!
O mendigo deu um riso contido. O restante ficou em silêncio.
Emma olhou para eles.
— Nenhum de vocês vai nos ajudar?
Um homem começou:
— Tomem cuidado com…
Mas logo outro homem o silenciou.
— Deixe eles irem, e em alguns dias vamos ter seus sumos!
Um gemido de desejo agoniado foi se elevando entre a população dos cortiços.
— Ah, o que eu não daria por um vidro daquilo... — disse uma mulher aos meus pés.
— Por apenas uma gota, uma gota! — disse um homem, erguendo-se de cócoras. — Uma gota dos seus sumos.
— Pare, é tortura — lamentou outro. — Nem falem nisso.
— Para o inferno com todos vocês! — gritou Emma. — Vamos atravessar você, Addison, o Intrépido.
E lhes demos as costas, enojados.

* * *

A ponte era estreita, arqueada no centro, e construída com mármore tão branco que até as cinzas da rua pareciam manter a cautela ao invadi-la.
Addison nos parou pouco antes de começarmos a subir.
— Esperem, tem alguma coisa aqui — disse ele, e aguardamos nervosos enquanto ele fechava os olhos e farejava o ar como um vidente lendo uma bola de cristal.
— Precisamos atravessar agora, estamos expostos aqui fora — murmurou Emma, mas Addison estava em outro lugar.
Na verdade, não parecíamos estar em grande perigo. Não havia ninguém na ponte, nem guardando o portão gradeado do outro lado. O topo da parede comprida e branca, onde se esperaria ver homens a postos com armas e binóculos, estava igualmente vazio. Além dos muros, a única defesa da fortaleza parecia ser o abismo que a circundava como um fosso, em cujo fundo agitava-se um rio em ebulição que liberava o vapor verde sulfuroso a pairar em volta. Pelo que eu podia ver, a ponte era o único meio de cruzá-lo.
— Ainda decepcionada? — perguntei a Emma.
— Absolutamente insultada — retrucou ela. — É como se eles não estivessem nem querendo nos manter fora.
— É isso o que me preocupa.
Addison arfou e arregalou os olhos, que brilharam, elétricos.
— O que foi? — disse Emma, sem fôlego.
— Apenas um vestígio extremamente leve, mas eu reconheceria o cheiro de Balenciaga Wren em qualquer lugar.
— E os outros?
Addison tornou a farejar.
— Havia outros de nossa espécie com ela. Não sei exatamente quem, nem quantos. A trilha fica um tanto confusa. Muitos peculiares passaram recentemente por este caminho, e não estou falando daqueles — disse Addison, lançando um olhar sinistro para as pessoas sentadas lá atrás. — A essência peculiar deles é muito fraca, quase inexistente.
— Então a mulher que interrogamos estava dizendo a verdade — falei. — É para cá que os acólitos trazem aqueles que capturam. Nossos amigos estiveram aqui.
Desde que eles tinham sido levados, um desespero sufocante estava apertando meu coração, mas naquele momento a pressão relaxou levemente.
Pela primeira vez em horas estávamos seguindo mais que apenas esperança e palpites. Tínhamos buscado nossos amigos através de território hostil até a porta dos acólitos. Por si só, isso já era uma pequena vitória, e fez com que eu sentisse, mesmo que momentaneamente, que qualquer coisa era possível.
— Então é até mais estranho não haver ninguém vigiando este lugar — disse Emma, de modo sombrio. — Não gosto nada disso.
— Nem eu. Mas não vejo nenhum outro jeito de atravessar.
— Eu podia muito bem resolver logo isso — disse Addison.
— Vamos com você o mais longe que pudermos — disse Emma.
— Agradeço — respondeu Addison, parecendo nem um pouco intrépido.
Era possível atravessar a ponte correndo em menos de um minuto, calculei, mas por que correr? Porque, pensei, com uma frase de Tolkien se materializando em minha cabeça, não se entra simplesmente caminhando em Mordor.
Começamos em um passo apressado, seguidos por murmúrios e risos abafados. Olhei de volta para os mendigos. Certos de que estávamos prestes a encontrar algum fim horrível, eles estavam se remexendo, à procura de um melhor ângulo de visão. Só faltava pipoca. Tive vontade de voltar e jogar até o último deles no rio fervente.
Em alguns dias vamos ter seus sumos. Eu não sabia o que isso queria dizer e esperava nunca descobrir.
A ponte ficou mais íngreme. Uma paranoia crescente fazia meu coração bater acelerado. Eu tinha certeza de que algo estava prestes a se abater sobre nós e que não teríamos para onde escapar. Sentia-me como um camundongo correndo na direção de uma ratoeira.
Revisamos nosso plano em sussurros: fazer Addison passar pelo portão, em seguida recuar para os cortiços e encontrar algum lugar discreto para esperar.
Se ele não retornasse dentro de três horas, Emma e eu encontraríamos um jeito de entrar.
Estávamos chegando ao alto da ponte, de onde eu conseguia ver um pequeno trecho da descida, até então oculta. Então, os postes de luz gritaram:
— Parem!
— Quem vem aí?
— Ninguém pode passar!
Paramos e olhamos para eles boquiabertos, pasmos ao perceber que não eram postes de luz, mas cabeças ressecadas empaladas em lanças compridas. Eram horríveis, com a pele esticada e cinzenta, a língua pendurada, e ainda assim, apesar de não estarem ligadas a gargantas, três das cabeças tinham falado conosco. Havia oito no total, montadas em pares dos dois lados da ponte.
Só Addison não pareceu surpreso.
— Não me digam que nunca viram uma cabeça de ponte? — disse ele.
— Parem onde estão! — disse a cabeça à nossa esquerda. — A morte quase certa aguarda aqueles que atravessarem sem permissão!
— Talvez você devesse dizer morte certa — disse a cabeça à nossa direita. — Quase não parece muito impactante.
— Nós temos permissão — falei, improvisando uma mentira. — Sou um acólito e estou trazendo estes dois peculiares capturados para Caul.
— Ninguém contou para nós — disse, com irritação, a cabeça que estava à esquerda.
— Eles parecem capturados para você, Richard? — disse a que estava à direita.
— Não saberia dizer — respondeu a da esquerda. — Corvos arrancaram meus olhos há semanas.
— Os seus também? — disse a da direita. — Que pena.
— A voz dele não parece a de nenhum acólito que eu conheça — disse a da esquerda. — Qual o seu nome, senhor?
— Smith — falei.
— Ha. Não temos nenhum Smith — disse a da direita.
— Acabei de ser recrutado.
— Boa tentativa. Não, acho que não vamos deixá-los passar.
— E quem vai nos impedir? — falei.
— Obviamente, não nós — disse a da esquerda. — Só estamos aqui para avisar.
— E informar — disse a da direita. — Sabia que eu me formei em museologia? Nunca quis ser uma cabeça de ponte…
— Ninguém quer ser uma cabeça de ponte — reclamou a da esquerda. — Nenhuma criança cresce sonhando se tornar uma cabeça de ponte, ficar alertando o dia inteiro e ter os olhos bicados por corvos. Mas a vida não é sempre um mar de rosas, não é verdade?
— Vamos — murmurou Emma. — Tudo que eles podem fazer é falar conosco.
Nós as ignoramos e seguimos pela ponte, cada cabeça nos alertando de novo conforme passávamos.
— Não avancem mais! — gritou a quarta.
— Continuem por sua conta e risco! — berrou a quinta.
— Acho que eles não estão escutando — disse a sexta.
— Ah, bom — disse a sétima, lentamente. — Depois, não digam que não avisamos.
A oitava só esticou a língua verde e gorda para nós. Aí passamos por elas e pelo topo da ponte e assim chegamos a um final abrupto, um vão aberto de seis metros onde devia haver pedra, e quase caí nele. Emma me segurou enquanto eu cambaleava para trás, girando os braços.
— Eles não terminaram a droga da ponte! — falei, o rosto corado pela adrenalina e pela vergonha.
As cabeças riam de mim, e, atrás delas, os mendigos na rua.
Se estivéssemos correndo, não teríamos parado a tempo e teríamos caído direto.
— Você está bem? — perguntou Emma.
— Estou bem. Mas nós não estamos. Como vamos botar Addison do outro lado, agora?
— Isto é irritante — disse Addison, andando de um lado para outro junto da borda. — Não podemos pular, certo?
— Sem chance — falei. — É longe demais, mesmo a toda velocidade. Mesmo com uma vara de saltar.
— Ah. — Emma olhou para trás. — Você acabou de me dar uma ideia. Eu já volto.
Addison e eu observamos enquanto ela caminhava de volta com determinação pela ponte. À primeira cabeça que chegou, parou, pegou a lança em que estava empalada e puxou.
A lança saiu com facilidade. Enquanto a cabeça protestava, Emma a pôs no chão, plantou o pé em sua cara e deu um puxão forte. A lança soltou-se da cabeça, que saiu rolando pela ponte, berrando de raiva. Emma voltou em triunfo, parou com a lança na beira do vão e a largou por cima, produzindo uma batida metálica alta.
Emma olhou para aquilo e franziu o cenho.
— Bem, não é a Ponte de Londres.
Com cinco metros de comprimento, três centímetros de largura e levemente curvada no centro, parecia a corda bamba de um acrobata de circo.
— Vamos pegar mais algumas — sugeri.
Corremos de um lado para outro, arrancando lanças e as dispondo sobre o vão. As cabeças praguejavam, xingavam e lançavam ameaças vazias. Quando a última delas foi arrancada e rolada para longe, formamos uma pequena ponte de metal, com cerca de trinta centímetros de largura, escorregadia devido aos restos pegajosos das cabeças e chacoalhando ao vento cheio de cinzas.
— Pela Inglaterra — disse Addison, e seguiu balançando hesitantemente sobre as lanças.
— Pela srta. Peregrine — falei, seguindo-o.
— Pelo amor das aves, simplesmente andem — disse Emma, e seguiu atrás de mim.
Addison nos retardava muito. Suas pernas curtas não paravam de escorregar entre as lanças, o que fazia com que rolassem como eixos e me causava um frio terrível na barriga. Tentava me concentrar em onde botar o pé e não olhar para o abismo abaixo, mas era impossível; o rio fervente atraía meus olhos como um ímã, e me peguei me perguntando se estávamos alto o suficiente para que só a queda me matasse ou se eu sobreviveria por tempo o suficiente para sentir ser cozinhado até a morte. Addison, enquanto isso, tinha desistido totalmente de andar e se deitara, começando a rastejar sobre as lanças como uma lesma.
Avançamos desse jeito, centímetro indigno após centímetro indigno, até pouco além da metade, e então minhas palpitações se aguçaram e deram lugar a algo diferente: um nó em meu estômago que eu passara a reconhecer muito bem.
Etéreo. Tentei dizê-lo em voz alta, mas minha boca estava seca; quando consegui engolir e pronunciar a palavra, a sensação tinha se multiplicado por dez.
— Que sorte terrível — disse Addison. — Está à nossa frente ou atrás?
Não consegui dizer de imediato, tive que explorar a sensação por um instante até conseguir determinar.
— Jacob! À frente ou atrás? — gritou Emma em meu ouvido.
À frente. Minha bússola interior era certeira, mas não fazia sentido: a descida da ponte agora estava totalmente visível até o portão, e toda a extensão estava deserta. Não havia nada ali.
— Não sei! — respondi.
— Então continue! — retrucou Emma.
Estávamos mais perto da extremidade final do vão do que da inicial; deixaríamos as lanças mais rápido se continuássemos em frente. Engoli meu medo, me abaixei, peguei Addison e comecei a correr, escorregando e balançando nas lanças bambas. O etéreo parecia perto o suficiente para ser tocado, e eu agora conseguia ouvi-lo, rosnando em nossa direção de algum lugar invisível adiante. Meus olhos seguiram o som até um ponto abaixo de nossos pés, na face interrompida da ponte, onde havia várias aberturas estreitas na pedra.
Ali. A ponte era oca, e havia um etéreo em seu interior. Apesar de seu corpo jamais passar pelas aberturas, as línguas podiam fazê-lo com facilidade.
Passei pelas lanças e cheguei à ponte sólida quando ouvi Emma gritar.
Larguei Addison, girei e a vi atrás de mim com uma das línguas do etéreo enrolada em sua cintura, erguendo-a no ar.
Ela gritou meu nome, e eu gritei o dela. A língua a virou de cabeça para baixo e a sacudiu. Ela tornou a gritar. Não havia som pior.
Outra das línguas golpeou a parte de baixo das lanças, e nossa ponte improvisada saiu voando, desmontando-se ruidosamente e mergulhando como palitos de fósforo no abismo. Aí a segunda língua foi na direção de Addison, e a terceira me golpeou no peito.
Caí no chão, sem ar. Enquanto tentava recuperar o fôlego, a língua me agarrou pela cintura e me levantou no ar. A outra segurava Addison pelas patas traseiras. Em um instante, todos os três estávamos pendurados de cabeça para baixo.
O sangue correu para minha cabeça, obstruindo minha visão. Eu ouvia Addison latir e tentar morder aquela língua.
— Não, ela vai largar você! — gritei, mas ele insistia.
Emma também estava indefesa. Se queimasse a língua em torno de sua cintura, o etéreo a largaria.
— Fale com ele, Jacob! — gritou ela. — Faça com que pare!
Eu me virei e vi as aberturas estreitas através das quais suas línguas tinham se espremido. Seus dentes roíam as lajes de pedra. Seus olhos negros se esbugalharam com fome. Estávamos pendurados como frutas em espessas trepadeiras negras, o abismo boquiaberto abaixo.
Tentei falar sua língua.
— PONHA-NOS NO CHÃO! — gritei, mas o que saiu foi meu idioma.
— Outra vez — pediu Addison.
Fechei os olhos e imaginei o etéreo fazendo o que pedi, depois tornei a tentar:
— Ponha-nos na ponte!
Nada. Aquele não era o etéreo que eu conhecia, o velho com quem eu convivera por horas enquanto estava congelado. Aquele era um novo, um estranho, e minha conexão com ele era tênue e fraca. Ele parecia sentir que eu estava procurando uma chave para seu cérebro e nos puxou de repente para cima, como se estivesse se preparando para nos arremessar no abismo. Eu tinha que me conectar, de algum modo, rápido…
— PARE! — gritei, minha garganta áspera, e dessa vez saiu o arranhar gutural da língua de etéreos.
Paramos bruscamente em pleno ar. Por um instante, ficamos ali imóveis, balançando como roupa secando ao vento. Minhas palavras tinham feito alguma coisa, mas não o suficiente. Eu o havia meramente confundido.
— Não consigo respirar — reclamou Emma.
A língua ao seu redor a apertava forte demais, e seu rosto estava ficando roxo.
— Coloque-nos na ponte — falei, em etéreo outra vez, as palavras arranhando minha garganta ao sair. Tudo o que eu falava em etéreo dava a sensação de que eu estava tossindo grampos.
O etéreo fez um movimento incerto. Em um momento de otimismo, acreditei que talvez ele fizesse o que eu pedira. Então ele me jogou para cima e para baixo muito rápido e com força, como quem sacode uma toalha.
Tudo se turvou e ficou preto por um instante. Quando recobrei a consciência, minha língua estava dormente e eu sentia gosto de sangue.
— Diga a ele para nos por no chão! — gritava Addison.
Mas agora eu mal conseguia falar.
— Esdou dendando — balbuciei. Tossi e cuspi o sangue que enchia minha boca. — Poghna-nhos nho chgão. Poghna-nhos…
Eu parei, reorientei meu cérebro. Respirei fundo.
— Coloque-nos no chão — falei em língua de etéreo clara.
Repeti aquilo mais três vezes, na esperança de que penetrasse em algum recôndito do cérebro reptiliano do etéreo.
— Coloque-nos sobre a ponte. Coloque-nos sobre a ponte. Coloque-nos sobre a ponte.
Ele deu um rugido de frustração repentino e assustador, me puxou até as aberturas da ponte onde estava aprisionado e tornou a rugir, borrifando meu rosto com respingos de saliva negra. Depois, ergueu a nós três e nos jogou para o lugar de onde viéramos.
Caímos pelo ar durante o que pareceu tempo demais; estávamos caindo, agora eu tinha certeza disso, mergulhando rumo a nosso fim. Então meu ombro bateu na pedra dura da ponte, e descemos escorregando até o final.

* * *

Estávamos milagrosamente vivos, surrados porém conscientes, os membros ainda conectados ao corpo. Tínhamos descido rolando a ponte lisa de mármore, espalhando a pilha de cabeças quando paramos de rolar. Elas estavam por toda a nossa volta agora, nos provocando enquanto nos recompúnhamos.
— Bem-vindos de volta! — disse a mais próxima. — Nós bem que gostamos de seus gritos de horror. Vocês têm pulmões poderosos!
— Por que vocês não nos contaram que havia um etéreo escondido na maldita ponte? — falei, me balançando até sentar.
Dores surgiam por meu corpo todo, de mãos arranhadas, joelhos ralados e um ombro latejante que provavelmente estava deslocado.
— Onde está a diversão nisso? Surpresas são muito melhores.
— Cócegas deve ter gostado de vocês — disse outra. — Ele comeu as pernas de seu último visitante!
— Isso não é nada — disse uma cabeça com um brinco reluzente de argola, como um pirata. — Certa vez eu o vi amarrar uma corda em um peculiar, baixá-lo no rio por cinco minutos e depois puxá-lo para cima e devorá-lo.
— Peculiar al dente — disse o terceiro, impressionado. — Nosso Cócegas é um gourmet.
Sem estar totalmente pronto para ficar de pé, me arrastei por pouco mais de um metro até Emma e Addison. Enquanto ela estava sentada esfregando a cabeça, ele testava o peso do corpo sobre uma pata ferida.
— Vocês estão bem? — perguntei.
— Bati a cabeça com bastante força — respondeu Emma, fazendo uma expressão de dor enquanto eu repartia seu cabelo para examinar um filete de sangue.
Addison ergueu uma pata claudicante.
— Temo que esteja quebrada. Imagino que você não tivesse como pedir à fera que nos pusesse no chão com delicadeza.
— Muito engraçado — falei. — Aliás, por que eu simplesmente não disse a ele para matar todos os acólitos e também resgatar nossos amigos?
— Na verdade, eu estava me perguntando a mesma coisa — disse Emma.
— Eu estou brincando.
— Bom, eu não.
Limpei seu ferimento com o punho da camisa. Ela respirou fundo e afastou minha mão.
— O que aconteceu lá atrás? — perguntou ela.
— Acho que o etéreo me entendeu, mas eu não consegui fazer com que me obedecesse. Não tenho uma conexão com esse etéreo como tenho, quer dizer, como eu tinha com o outro.
Aquela fera estava morta, esmagada embaixo de uma ponte e provavelmente afogada, e agora eu sentia um pouco de pena.
— Como você se conectou com o primeiro? — perguntou Addison.
Recontei rapidamente como eu o encontrara congelado até a altura dos olhos e que, depois de uma noite passada em uma comunhão estranhamente íntima, eu tinha, aparentemente, conseguido decifrar alguma parte vital de sua neurologia.
— Se você não tinha conexão com o etéreo da ponte — disse Addison —, por que ele poupou nossas vidas?
— Talvez eu o tenha confundido?
— Você precisa ficar melhor nisso — disse Emma bruscamente. — Precisamos levar Addison para o outro lado.
— Melhor? O que eu devo fazer, ter aulas? Essa coisa vai nos matar na próxima vez que nos aproximarmos dela. Vamos ter que encontrar outro caminho.
— Jacob, não tem outro caminho. — Emma afastou um véu de cabelo despenteado da frente do rosto e me olhou fixamente. — Você é o caminho.
Eu ia começar a dar uma resposta áspera quando senti uma dor lancinante no traseiro e saltei de pé, berrando. Uma das cabeças tinha me dado uma mordida.
— Ei! — gritei, esfregando o local.
— Enfie-nos de volta em nossas lanças como nos encontrou, vândalo! — disse ela.
Eu a chutei com toda a força possível, e ela caiu na multidão de mendigos.
Todas as cabeças começaram a gritar e nos xingar, rolando sem direção certa e de maneira grotesca com o movimento de suas mandíbulas. Xinguei de volta e chutei a cinza do chão em seus horríveis rostos curtidos até que todas começaram a cuspir e engasgar. Então uma coisa pequena e redonda veio voando e me acertou nas costas.
Uma maçã podre. Virei-me para os mendigos.
— Quem jogou isso?
Eles riram como drogados, um riso baixo e abafado.
— Voltem de onde vieram! — gritou um deles.
Eu estava começando a achar que não era uma má ideia.
— Como eles ousam — rosnou Addison.
— Esqueça — falei, minha raiva já passando. — Vamos apenas…
— Como vocês ousam! — gritou Addison, lívido, erguendo-se para se dirigir a eles sobre as patas traseiras. — Vocês não são peculiares? Não têm vergonha? Estamos tentando ajudá-los!
— Nos dê um frasco, ou vão se ferrar! — disse uma mulher maltrapilha.
Addison tremia, ultrajado.
— Estamos tentando ajudar vocês — disse ele outra vez. — E aí estão vocês, aí estão vocês! Enquanto nossa gente está sendo assassinada, nossas fendas completamente destruídas, aí estão vocês, dormindo nas portas do inimigo! Vocês deviam estar se lançando contra elas! — Ele apontou a pata ferida para eles. — Vocês são todos traidores, e juro que um dia vou vê-los ser arrastados ao Conselho das Ymbrynes e punidos.
— Está bem, está bem, não desperdice toda a sua energia neles — disse Emma, ficando de pé com dificuldade.
Então um repolho podre bateu em seu ombro e se esparramou no chão. Ela perdeu a calma.
— Está bem, a cara de alguém vai derreter! — gritou, acenando a mão em chamas para os mendigos.
Durante o discurso de Addison, um grupo estivera murmurando em uma rodinha conspiratória, e agora eles avançaram portando porretes. Um galho serrado. Um cano. A cena estava ficando feia.
— Estamos cansados de vocês — disse um homem cheio de feridas, em um tom de voz preguiçoso. — Vamos jogar vocês no rio.
— Eu quero ver vocês tentarem — disse Emma.
— Eu não quero não — falei. — Acho que devíamos ir embora.
Havia seis deles, três de nós, e estávamos em más condições: Addison mancava, Emma tinha sangue escorrendo pelo rosto, e, graças a meu ombro machucado, eu mal conseguia erguer o braço direito. Enquanto isso, os homens estavam se espalhando e se aproximando. Eles pretendiam nos jogar no abismo.
Emma olhou para a ponte atrás e, em seguida, para mim.
— Vamos. Sei que você consegue nos fazer passar. Mais uma tentativa.
— Não consigo, Emma. Não consigo. É sério.
E era. Não estava em meu poder controlar aquele etéreo, pelo menos ainda não, e eu sabia disso.
— Se o garoto diz que não consegue, estou inclinado a acreditar nele — disse Addison. — Precisamos achar outro jeito de sair dessa.
Emma bufou de raiva.
— Como o quê? — Ela olhou para Addison. — Você consegue correr? — Ela olhou para mim. — Você consegue lutar?
As duas respostas eram não. Eu entendi seu ponto de vista: nossas opções estavam se reduzindo rapidamente.
— Em momentos como este — disse Addison de forma assertiva —, minha espécie não luta. Nós oramos! — Encarando os homens, ele chamou em uma voz retumbante: — Irmãos peculiares, sejam razoáveis! Permitam-me algumas palavras!
Eles não prestaram nenhuma atenção. Enquanto continuavam a fechar nossas rotas de fuga, nós recuamos na direção da ponte. Emma preparava a maior bola de fogo que podia produzir, enquanto Addison se queixava: se os animais da floresta viviam em harmonia, por que nós não podíamos?
— Pensem no simples porco-espinho e seu vizinho, o gambá… Eles desperdiçam energia tentando jogar um ao outro em abismos quando encaram um inimigo em comum, o inverno? Não!
— Ele ficou completamente doido — disse Emma. — Cale a boca e morda um deles!
Olhei ao redor à procura de algo que servisse de arma. Os únicos objetos duros ao alcance eram as cabeças. Peguei uma pelos últimos fios de cabelo.
— Tem outro jeito de atravessar? — gritei em seu rosto. — Rápido, ou vou jogá-lo no rio!
— Vá para o inferno! — praguejou a cabeça, e tentou me morder.
Eu a joguei na direção dos homens, meio desajeitado, com o braço esquerdo. Ela caiu antes de alcançá-los. Virei-me para pegar outra cabeça e repeti a pergunta.
— Claro que tem — escarneceu a cabeça. — Em um caminhão prizzo! Mas, se eu fosse vocês, ia preferir correr o risco com o etéreo da ponte…
— O que é um caminhão prizzo? Me conta ou vou jogar você também!
— Você está prestes a ser atingido por um — respondeu ela, e então três tiros ecoaram ao longe, bam, bam, bam, lentos e calculados, como um alerta.
Imediatamente os homens que vinham em nossa direção pararam, e todos se viraram para olhar para a rua.
Havia algo grande com formato de caixa avançando parcialmente em meio a uma nuvem agitada de poeira e cinzas, roncando em nossa direção. Aí veio o ruído de um motor grande reduzindo a velocidade e da escuridão surgiu um caminhão. Era uma máquina moderna de uso militar, todos os rebites e reforços e pneus que chegavam à altura da cintura de um homem. A traseira era um cubo sem janelas, e dois acólitos de colete à prova de balas e armados com metralhadoras montavam guarda nos estribos.
No momento em que o veículo surgiu, os mendigos entraram em uma espécie de frenesi, rindo e arquejantes por alegria, agitando os braços e juntando as mãos como sobreviventes de um naufrágio em uma ilha deserta sinalizando para um avião passando, e com a mesma rapidez fomos esquecidos. Uma oportunidade de ouro tinha surgido, e não a desperdiçaríamos. Joguei a cabeça para o lado, botei Addison embaixo do braço esquerdo e saí correndo da rua para chegar até Emma. Podíamos ter continuado, saído da Rua da Fumaça e recuado para alguma área mais segura do Recanto do Demônio, mas ali, finalmente, estava nosso inimigo em carne e osso, e, seja lá o que estivesse acontecendo ou prestes a acontecer, era nitidamente importante. Paramos perto da lateral da rua, mal escondidos atrás de um grupo de árvores carbonizadas, e esperamos.
O veículo reduziu e a multidão o cercou, humilhando-se e implorando por frascos, por suulie e ambrosia, por só uma prova e só um pouco, por favor, senhor, revoltantes em sua veneração àqueles carniceiros, tocando as roupas e sapatos dos soldados e recebendo chutes com biqueiras de aço em retorno. Tive certeza de que os acólitos iam começar a atirar, ou acelerar e esmagar aqueles tolos que se colocava entre eles e a ponte. Em vez disso, o caminhão parou e os acólitos começaram a gritar instruções. Formem uma fila, por aqui, mantenham a ordem ou não vão receber nada! A multidão entrou em formação como pobres em uma fila de pão, todos assustados e irrequietos em antecipação ao que estavam prestes a receber.
Sem aviso, Addison começou a lutar para ser posto no chão. Perguntei a ele qual era o problema, mas ele só ganiu e se esforçou mais, com uma expressão desesperada, como se tivesse acabado de captar uma trilha de cheiro importante. Emma o beliscou e ele despertou daquilo por tempo suficiente para dizer:
— É ela, é ela… é a srta. Wren.
Então me dei conta de que caminhão prizzo era uma gíria para o veículo de prisioneiros e que a carga na traseira da enorme caminhonete dos acólitos era quase certamente humana.
Addison me mordeu. Gritei e o soltei, e no instante seguinte ele saiu correndo. Emma praguejou.
— Addison, não! — gritei.
Mas foi inútil. Ele estava operando por instinto, o reflexo irreprimível de um cão leal tentando proteger seu dono. Pulei para alcançá-lo, mas errei (ele era surpreendentemente veloz para uma criatura com apenas três patas funcionando direito), então Emma me levantou e juntos saímos atrás dele: deixamos nosso esconderijo e fomos para a rua.
Houve um momento, um breve instante no qual os soldados estavam completamente cercados pela multidão ocupada demais para perceber nossa presença, em que acreditei que conseguiríamos pegá-lo de volta. E isso poderia ter acontecido, não fosse a mudança que se abateu sobre Emma no meio da rua, quando ela viu as portas na traseira do veículo. Portas com trancas que podiam ser derretidas. Portas que podiam ser abertas, deve ter pensado, pois eu lia isso na esperança que surgia em seu rosto. Ela passou por Addison sem ao menos tentar pegá-lo e subiu no para-choque da caminhonete.
Gritos dos guardas. Tentei pegar Addison, mas ele escapou e foi para baixo do veículo. Emma estava começando a derreter a maçaneta de uma das portas quando o primeiro guarda brandiu a arma como se fosse um taco de beisebol. O golpe a acertou na lateral do corpo, e Emma caiu no chão. Corri para cima do guarda, pronto para fazer o possível contra ele com meu único braço bom, mas me deram uma rasteira. Eu desabei sobre o ombro machucado e fui tomado por uma explosão de dor.
Ao ouvir o guarda gritar, olhei para cima: ele estava desarmado e agitando uma mão machucada, então começou a tropeçar através do mar selvagem de corpos agitados. Os mendigos o assediavam não apenas implorando, mas exigindo e fazendo ameaças, enlouquecidos, e agora, em algum lugar, um deles tinha uma arma. Aparentando pânico, o guarda acenou para o outro acólito com um me tire daqui!, levando as mãos acima da cabeça.
Fiquei de pé com dificuldade e corri até Emma. O outro guarda mergulhou na multidão, atirando para o ar até conseguir resgatar o camarada e voltar para a caminhonete. No momento em que seus pés tocaram os estribos, eles bateram na lateral do veículo, e o motor roncou. Alcancei Emma no momento em que ele partiu na direção da ponte, seus pneus monstruosos cuspindo cascalho e cinza.
Agarrei seu braço para conferir se ela ainda estava inteira.
— Você está sangrando — falei. — Muito.
Era uma declaração óbvia, mas também a melhor maneira que consegui articular quão terrível eu me sentia por vê-la ferida, mancando, com um corte na cabeça e sangue escorrendo pelo cabelo.
— Onde está Addison? — perguntou ela. Mas antes que “Eu não sei” deixasse meus lábios, ela continuou: — Precisamos ir atrás dele. Esta pode ser nossa única chance.
Erguemos os olhos quando o veículo se aproximava da ponte e vimos o guarda atirar em dois mendigos que corriam atrás dele. Quando caíram se retorcendo no chão, soube que Emma estava errada: não havia como perseguir o veículo, não havia como atravessar a ponte. Não havia esperança, e agora os mendigos sabiam. Enquanto alguns caíam, senti seu desespero se transformar em raiva, e, no que pareceu um instante, a raiva se voltou contra nós.
Tentamos correr, mas nos vimos bloqueados por todos os lados. A multidão gritava que tínhamos “arruinado tudo”, que agora iam “cortar o fornecimento”. Que merecíamos morrer. Começaram a chover golpes sobre nós, tapas, socos, mãos puxando nossos cabelos e roupas. Tentei proteger Emma, mas ela é que acabou me protegendo, por alguns minutos, pelo menos, agitando as mãos ao redor, queimando quem estivesse ao seu alcance. Nem seu fogo era suficiente para mantê-los longe de nós, e os golpes continuaram a nos atingir até que caímos de joelhos, depois em posição fetal no chão, os braços protegendo o rosto, a dor vindo de todas as direções.
Eu tinha quase certeza de que estava morrendo, ou sonhando, porque ouvi naquele momento uma cantoria, um coral alto e agressivo de “Escutem o bater dos martelos, escutem as batidas nos pregos!”, mas com cada verso vinha um ruído baixo de golpes surdos e gritos correspondentes.
— É bom (BONC!) fazer forcas (CATCHUNC!) para todos os males!
Depois de alguns versos e do ruído de pancadas, a chuva de golpes parou e a multidão recuou, cautelosa e resmungando. Vi vagamente, através de uma névoa de sangue e brita, cinco construtores de forca musculosos, com cinturões de ferramentas e martelos erguidos. Eles haviam aberto uma clareira na multidão, e agora estavam à nossa volta, olhando para baixo desconfiados como se nós fôssemos alguma espécie estranha de peixe que eles não esperassem encontrar em suas redes.
— São eles? — disse um dos homens. — Eles não parecem muito bem, primo.
— Claro que são eles! — disse outro, sua voz parecendo um sinaleiro, grave e familiar.
— É o Sharon! — gritou Emma.
Consegui mexer a mão só o suficiente para limpar o sangue de um olho. Lá estava ele, todos os seus dois metros cobertos por capa negra. Eu me senti rir, ou tentando rir. Nunca tinha ficado tão feliz por ver alguém tão feio. Ele estava pegando alguma coisa do bolso, pequenos vidrinhos, e os ergueu acima da cabeça, gritando:
— TENHO O QUE VOCÊS QUEREM BEM AQUI, SEUS DOENTES! PEGUEM E DEIXEM ESSAS CRIANÇAS EM PAZ!
Ele se virou e jogou os frascos na rua. A multidão voou em cima deles, arquejando e gritando, os mendigos prontos para agredirem uns aos outros para consegui-los. Então, ficaram apenas os construtores de forca, levemente desgrenhados pela confusão mas ilesos, botando novamente os martelos nos cintos. Sharon se aproximou com a mão branca como neve estendida em nossa direção.
— Onde vocês estavam com a cabeça, saindo por aí desse jeito? Eu estava morrendo de preocupação!
— É verdade — disse um dos construtores de forca. — Ele estava fora de si. Nos fez procurar vocês por toda parte.
Tentei sentar, mas não consegui. Sharon estava bem acima de nós, olhando para baixo como se examinasse um bicho atropelado.
— Vocês estão inteiros? Conseguem andar? O que diabos esses depravados fizeram com vocês? — perguntou ele com um tom de voz entre um sargento irado e um pai preocupado.
— Jacob se machucou — disse Emma, com a voz entrecortada.
“VOCÊ também”, tentei dizer, mas não consegui fazer a língua se mover.
Parecia que ela estava certa: eu sentia a cabeça pesada como pedra e minha visão era um sinal de satélite irregular, boa em um momento, apagada no seguinte. Fui levantado, carregado nos braços de Sharon (ele era muito mais forte do que parecia), e tive um lampejo repentino de pensamento, que tentei dizer em voz alta: Onde está Addison?
Saiu tudo confuso, mas de algum modo ele me entendeu, e, virando minha cabeça na direção da ponte, ele disse:
— Lá.
De longe, o veículo parecia flutuar em pleno ar. Será que minha concussão estava me pregando peças?
Não. Eu podia ver, agora: a caminhonete estava sendo erguida através do vão pelas línguas do etéreo.
Mas onde está Addison?
— Lá — repetiu Sharon. — Embaixo.
Duas patas traseiras e um corpinho marrom pendiam da parte inferior do veículo. Addison tinha se prendido a alguma parte do chassi com os dentes e conseguira uma carona, o espertinho. E, enquanto as línguas depositavam o veículo no lado oposto da ponte, pensei: Boa sorte, cãozinho intrépido. Talvez você seja nossa maior esperança.
Então eu comecei a apagar, e o mundo se fechou na direção da noite.

2 comentários:

  1. ahhhhhh que delicia essa historia,melhor final de cap te agora

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)