10 de abril de 2017

Capítulo três

Corremos aos tropeços pela floresta escura durante o que pareceram horas, sem lua nem movimento de estrelas para nos ajudar a calcular a passagem do tempo. Ouvíamos os gritos de homens e o latido de cães à nossa volta enquanto corríamos, ameaças vindas de toda parte e de lugar nenhum. Para despistar os cães, entramos em um riacho gélido e seguimos por ali até nossos pés ficarem dormentes; quando saímos da água, a sensação era de que caminhávamos sobre tocos de madeira com espinhos.
Depois de um tempo, começamos a fraquejar. Alguém gemeu no escuro.
Olive e Claire foram ficando para trás, então Bronwyn as pegou no colo, mas só conseguiu carregá-las por certa distância. Finalmente, quando Horace tropeçou em uma raiz, caiu e ficou no chão, implorando para descansar, todos paramos.
— Levanta, seu preguiçoso desgraçado! — rosnou Enoch, que também mal conseguia respirar, mas em seguida se apoiou em uma árvore para recuperar o fôlego. A energia para brigar pareceu se esvair dele.
Estávamos chegando ao limite da resistência. Tínhamos que parar.
— Não adianta correr em círculos no escuro — disse Emma. — Podemos muito bem acabar no lugar onde começamos.
— À luz do dia vamos ter uma ideia melhor dessa floresta — disse Millard, concordando.
— Se sobrevivermos até lá — retrucou Enoch.
Uma garoa começou a cair, produzindo um ruído suave. Para criar um abrigo, Fiona persuadiu um círculo de árvores a se curvar e juntar os galhos mais baixos até se unirem, formando um teto de folhas à prova-d’água. A altura era suficiente apenas para nos sentarmos embaixo. Entramos engatinhando e ficamos ali escutando a chuva e o latido distante dos cães. Em algum lugar na floresta, homens armados continuavam à nossa caça. Sozinhos com nossos pensamentos, tenho certeza de que cada um de nós estava se fazendo a mesma pergunta: o que aconteceria se nos pegassem.
Claire começou a chorar, a princípio baixinho, mas depois cada vez mais alto, até que suas duas bocas estavam berrando e ela mal conseguia respirar entre um soluço e outro.
— Contenha-se! — ralhou Enoch. — Vão ouvir você... e aí todos nós teremos motivo para chorar!
— Eles vão nos dar de comida para os cachorros! — retrucou ela. — Vão fazer buracos de bala no nosso corpo e levar a srta. Peregrine!
Bronwyn se aproximou de Claire e envolveu a menina em um abraço caloroso.
— Por favor, Claire! Você precisa pensar em outra coisa!
— E-eu estou t-tentando! — choramingou ela.
— Tente com mais afinco.
Claire apertou bem os olhos, inspirou fundo e prendeu a respiração até parecer um balão prestes a explodir — então irrompeu em um ataque de tosses e soluços ainda mais altos.
Enoch tapou as duas bocas dela com as mãos.
— Shhhhhhh!
— D-d-desculpa — balbuciou a menina. — T-t-talvez se eu ouvisse uma história... um daqueles Contos...
— Ah, de novo não — reclamou Millard. — Estou começando a achar que seria melhor ter perdido esses malditos livros no mar com as outras coisas!
A srta. Peregrine interveio como podia: pulando em cima do baú e batendo na tampa com o bico. Lá dentro, junto com nossa mísera carga, estavam os Contos.
— Concordo com a srta. Peregrine — comentou Enoch. — Vamos tentar. Qualquer coisa para que ela pare com esse berreiro!
— Está bem então, pequenina — disse Bronwyn. — Mas só uma história, e você precisa prometer que vai parar de chorar.
— Eu p-prometo — disse Claire, fungando.
Bronwyn abriu o baú e pegou um volume encharcado dos Contos peculiares. Emma se aproximou e acendeu uma chama minúscula na ponta do dedo para que fosse possível ler. Então a srta. Peregrine, que parecia impaciente para acalmar Claire, pegou uma ponta do livro com o bico e o abriu em um capítulo aparentemente aleatório. Bronwyn começou a ler baixinho:
— “Era uma vez, em tempos peculiares, uma floresta densa e muito antiga onde viviam muitos animais. Havia coelhos, cervos e raposas, como em todas as florestas, mas havia também animais menos comuns, como urxinins pernaltas, linces de duas cabeças e jumirafas falantes. Esses animais peculiares eram o alvo favorito de caçadores, que adoravam atirar neles para empalhá-los, pendurá-los nas paredes e exibi-los para os amigos caçadores, mas sua predileção era por vendê-los para os donos de zoológicos, que os trancavam em jaulas e cobravam ingresso das pessoas que quisessem vê-los. Ora, você deve estar pensando que seria muito melhor viver trancado em uma jaula do que levar um tiro e ser pendurado em uma parede, mas acontece que as criaturas peculiares precisam de liberdade para serem felizes. Depois de um tempo, os espíritos dos animais peculiares enjaulados murchavam, e eles começavam a invejar os amigos nas paredes.”
— Que história triste — queixou-se Claire. — Conta outra.
— Eu gostei — interveio Enoch. — Fale mais sobre os tiros e o empalhamento.
Bronwyn ignorou os dois e prosseguiu:
— “Nessa época, os gigantes ainda andavam pela terra como nos remotos tempos Aldinn, mas eram pouco numerosos e cada vez mais raros. Por acaso, um desses gigantes vivia perto da floresta. Ele era muito simpático, falava com muita delicadeza e só comia plantas. Seu nome era Cuthbert. Um dia, Cuthbert foi à floresta colher frutas silvestres e, quando estava por lá, viu um caçador tentando capturar uma jumirafa. Como era um gigante bom, Cuthbert pegou a pequena jumirafa pelo pescoço comprido e, esticando-se todo na ponta dos pés (coisa que raramente fazia, pois a posição sempre estalava todos os seus ossos velhos), conseguiu alcançar muito alto e deixar a jumirafa no topo de uma montanha, bem longe de perigo. Aí, só para garantir, pisou no caçador, esmagando-o até o homem virar uma geleia que escorreu entre os dedos dos pés do gigante.
“Os relatos da bondade de Cuthbert se espalharam pela floresta, e logo os animais peculiares começaram a procurá-los todos os dias, pedindo para serem erguidos até o alto da montanha, onde ficariam longe de perigo. E Cuthbert sempre dizia: ‘Vou proteger vocês, irmãozinhos. Tudo o que peço em troca é que conversem comigo e me façam companhia. Não sobraram muitos gigantes no mundo, e de vez em quando eu me sinto solitário.’
“‘Mas é claro que vamos lhe fazer companhia, Cuthbert’, respondiam os animais.
“Todos os dias, Cuthbert salvava mais animais peculiares da mira dos caçadores, erguendo-os pelo pescoço até o alto da montanha, e isso continuou até haver um monte de animais peculiares morando lá em cima. Os animais estavam felizes porque finalmente podiam viver em paz, e Cuthbert também estava feliz, porque, se ficasse na ponta dos pés e apoiasse o queixo no topo da montanha, podia conversar com seus novos amigos pelo tempo que quisesse. Até que, certa manhã, uma bruxa foi visitá-lo. Ele estava tomando banho em um laguinho à sombra da montanha quando ela apareceu e anunciou: ‘Sinto muitíssimo, mas preciso transformar você em pedra.’
“‘Por que você faria uma coisa dessas?’, perguntou o gigante. ‘Eu sou muito bondoso. Sou um gigante que gosta muito de ajudar.’
“‘Fui contratada pela família do caçador que você esmagou’, respondeu a bruxa.
“‘Ah’, disse o gigante. ‘Eu já tinha me esquecido dele.’
“‘Sinto muitíssimo’, repetiu a bruxa, e em seguida agitou um galho de bétula na direção de Cuthbert, transformando em pedra o pobre coitado.
“De repente, Cuthbert se sentiu pesado, tão pesado que começou a afundar no lago. Ele afundou, afundou e não parou de afundar, ficou com água até o pescoço. Seus amigos animais viram o que estava acontecendo e, apesar de ficarem muito tristes, chegaram à conclusão de que nada podiam fazer para ajudá-lo.
“‘Sei que vocês não podem me salvar’, gritou Cuthbert para seus amigos, ‘mas pelo menos venham aqui conversar comigo! Estou preso aqui embaixo e me sinto tão solitário!’
“‘Mas se descermos até aí, os caçadores vão atirar em nós!’, responderam os animais.
“Cuthbert sabia que eles tinham razão, mas mesmo assim implorou, gritando: ‘Conversem comigo! Por favor, venham conversar comigo.’
“Os animais tentaram cantar e gritar para o pobre Cuthbert do topo da montanha, mas estavam longe demais, e suas vozes eram baixas até mesmo para Cuthbert, com suas orelhas de gigante; soavam mais baixas que o farfalhar de folhas ao vento.
“‘Conversem comigo!’, implorava ele. ‘Venham aqui conversar comigo!’
“Mas os animais não foram. E o gigante ainda estava gritando quando sua garganta virou pedra, igual ao restante do corpo. Fim.”
Bronwyn fechou o livro.
Claire parecia horrorizada.
— É isso?
Enoch começou a rir.
— É isso — respondeu Bronwyn.
— Essa história é horrível — reclamou Claire. — Conta outra!
— Uma história é uma história — retrucou Emma. — E agora é hora de dormir.
Claire fez biquinho, mas tinha parado de chorar, então a história cumprira seu objetivo.
— Amanhã não deve ser nem um pouco mais fácil do que foi hoje — comentou Millard. — Vamos precisar descansar o máximo que conseguirmos.
Juntamos pedaços macios de musgo para usar como travesseiro. Emma secava a água da chuva que eles tinham absorvido antes de os pegarmos. Como não tínhamos cobertores, nos deitamos bem próximo uns dos outros: Bronwyn abraçou todos os pequenos; Fiona se enroscou com Hugh, cujas abelhas saíam de sua boca aberta quando ele roncava e depois voltavam, vigiando o mestre adormecido; Horace e Enoch tremiam de frio, de costas um para o outro, orgulhosos demais para se aconchegarem. Eu estava com Emma, deitado de costas. Ela se aninhou entre meu braço e meu tronco, a cabeça em meu peito e o rosto tão convidativamente perto do meu que eu poderia beijar sua testa a qualquer momento — e não teria parado, mas estava tão cansado quanto um homem morto, e ela era tão quente quanto um cobertor de lã, então em pouco tempo eu estava dormindo e sonhando coisas agradáveis e bobagens fáceis de esquecer.
Nunca me lembro de sonhos bons, só os ruins ficam na memória.
Foi um milagre eu ter conseguido pegar no sono, dadas as circunstâncias. Mesmo numa situação daquelas — depois de tanto correr e agora dormindo ao relento, correndo risco de vida —, estar nos braços de Emma sempre me permitia encontrar um pouco de paz.
A srta. Peregrine vigiava todos nós, seus olhos negros reluzindo no escuro. Apesar de machucada e enfraquecida, ainda era nossa protetora.
A noite esfriou, e Claire começou a tremer e tossir. Bronwyn cutucou Emma para acordá-la, dizendo:
— Srta. Bloom, a menorzinha precisa de você. Acho que está ficando doente.
Murmurando um pedido de desculpas, Emma saiu de meus braços e foi cuidar de Claire. Senti uma pontada de ciúme, mas depois veio a culpa por sentir ciúme de uma amiga doente. Fiquei deitado sozinho, com uma sensação irracional de abandono, encarando a escuridão, mais exausto do que jamais me sentira e, no entanto, incapaz de dormir, ouvindo os outros se remexerem e gemerem entre as garras de pesadelos que nem se aproximavam daquele para o qual provavelmente despertaríamos. Aos poucos a escuridão foi se desfazendo, camada por camada, e, com gradações imperceptíveis, o céu foi clareando para um delicado azul-claro.

* * *

Ao amanhecer, saímos rastejando do abrigo improvisado. Tirei o musgo que grudara em meu cabelo e tentei limpar a lama da calça, mas só consegui espalhá-la mais, o que me deixou parecendo uma criatura do pântano vomitada pela terra. Estava com uma fome que nunca tinha sentido, meu estômago se corroendo por dentro, e meu corpo doía em praticamente todas as partes em que é possível sentir dor, por ter remado, corrido e dormido no chão. Apesar de tudo isso, porém, tínhamos recebido algumas bênçãos: a chuva parou de cair durante a noite, o dia estava esquentando bastante e parecia que tínhamos despistado os acólitos e seus cães, pelo menos por enquanto. Ou eles tinham parado de latir, ou estavam longe demais.
Mas, ao despistá-los, tínhamos nos perdido completamente. Era difícil se orientar na floresta, tanto de dia quanto à noite. Abetos verdejantes se espalhavam em fileiras intermináveis e desordenadas, todas idênticas umas às outras. O chão ali era um carpete de folhas caídas que ocultavam quaisquer rastros que pudéssemos ter deixado à noite. Tínhamos acordado no centro de um labirinto verde sem mapa nem bússola, e a asa quebrada da srta. Peregrine não a deixaria voar acima da copa das árvores para nos guiar. Enoch sugeriu que erguêssemos Olive, como tínhamos feito na neblina, mas, sem corda, não conseguiríamos puxá-la de volta se ela saísse voando.
Claire estava passando mal e parecia cada vez pior, toda encolhida no colo de Bronwyn, a testa coberta de suor apesar do frio. Estava tão magra que dava para contar as costelas sob o tecido do vestido.
— Ela vai ficar bem? — perguntei.
— Está com febre — respondeu Bronwyn, sentindo o rosto da menina. — Precisa de remédios.
— Primeiro temos que encontrar a saída dessa maldita floresta — disse Millard.
— Primeiro devíamos comer — interveio Enoch. — Vamos comer e discutir nossas opções.
— Que opções? — indagou Emma. — É só escolher uma direção e seguir. Pode ser qualquer uma, tanto faz.
Então nos sentamos e comemos em um silêncio triste e mal-humorado.
Nunca provei comida de cachorro, mas tenho certeza de que nossa comida era pior: quadrados marrons de gordura de carne congelada tirados de latas enferrujadas. E, como não tínhamos talheres, comemos com as mãos.
— Botei cinco frangos salgados e três latas de foie gras com cornichons na mala e é isso que sobrevive ao naufrágio — comentou Horace, amargamente. Ele tampou o nariz e jogou um naco gelatinoso garganta abaixo, sem mastigar. — Deve ser castigo.
— Pelo quê? — retrucou Emma. — Temos sido perfeitos, uns anjinhos. Quer dizer, quase todos nós.
— Talvez por pecados de vidas passadas. Não sei.
— Peculiares não têm vidas passadas — respondeu Millard. — Vivemos todas de uma vez só.
Terminamos de comer depressa, enterramos as latas vazias e nos preparamos para partir. Foi quando Hugh saiu de uma moita no meio do acampamento improvisado, uma nuvem agitada de abelhas voando ao redor de sua cabeça. Ele estava sem fôlego de tão empolgado.
— Onde você se enfiou? — perguntou Enoch.
— Precisava de privacidade para resolver umas questões matinais que não são da sua conta — retrucou Hugh. — E nisso eu descobri...
— Quem lhe deu permissão para sumir de vista? — interrompeu Enoch. — Quase fomos embora sem você!
— Quem disse que preciso de permissão? Mas então: eu vi...
— Você não pode simplesmente sair andando por aí! E se tivesse se perdido? — insistiu ele.
— Nós já estamos perdidos.
— Seu idiota! E se não conseguisse encontrar o caminho de volta?
— Deixei uma trilha de abelhas, como sempre...
— Você pode, por favor, deixar Hugh terminar de falar? — gritou Emma.
— Obrigado. — Hugh se virou e apontou para o lugar de onde viera. — Eu vi água. Muita água. Por entre aquelas árvores.
Emma fechou a cara e respondeu:
— Estamos tentando nos afastar do mar, não voltar para ele. Devemos ter andado em círculos durante a noite.
Seguimos Hugh pelo caminho que ele indicava. Bronwyn levava a srta. Peregrine no ombro e a pobre Claire, doente, nos braços. Depois de cem metros de caminhada, surgiu um brilho de ondulações cinza depois das árvores: um enorme volume de água.
— Ah, isso é terrível — reclamou Horace. — Os acólitos nos seguiram até voltarmos para os braços deles!
— Não estou ouvindo nenhum soldado — comentou Emma. — Na verdade, não estou ouvindo nada. Nem o mar.
Enoch se pronunciou:
— É porque isso não é do oceano, sua burra.
Ele se levantou e correu na direção da água. Fomos encontrá-lo com os pés enfiados na areia molhada, olhando para nós com um sorriso satisfeito de “Não falei?”. Enoch tinha razão: aquilo não era o mar. Era um amplo lago cinzento, enevoado e cercado de abetos, a superfície lisa como ardósia. No entanto, a característica mais marcante era algo que não percebi de imediato, só notei quando Claire apontou para uma grande formação rochosa que se projetava dos baixios próximos. Meus olhos não repararam nela da primeira vez, mas depois voltaram e prestaram mais atenção. Havia algo assustador (e bastante familiar) naquele lugar.
— Ei, é o gigante da história! — exclamou Claire, ainda nos braços de Bronwyn, apontando naquela direção. — É o Cuthbert.
Bronwyn acariciou o cabelo da menina.
— Shhh. Você está com febre, querida.
— Não seja ridícula — disse Enoch. — É só uma pedra.
Não era. Apesar de o vento e a chuva terem desgastado os traços, parecia idêntica a um gigante que afundara no lago até o pescoço. Dava para ver uma cabeça, um pescoço e um nariz, e havia até um pomo de adão, além de alguns arbustos crescendo no topo, como uma coroa de cabelo desgrenhado. Mas o mais estranho era a posição da cabeça: jogada para trás, com a boca aberta, como se ele tivesse se transformado em pedra enquanto chamava pelos amigos no alto da montanha, igual ao gigante da história que Bronwyn havia contado à noite.
— E olhe ali! — exclamou Olive, apontando para uma elevação rochosa que se erguia ao longe. — Aquela deve ser a montanha de Cuthbert!


— Gigantes existiram mesmo — murmurou Claire, com a voz fraca, mas maravilhada. — E os Contos são reais!
— Não vamos nos precipitar — interveio Enoch. — O que é mais provável? Que o autor da história de ontem tenha se inspirado em uma rocha que por acaso tem a forma parecida com uma cabeça de gigante ou que essa pedra com formato de cabeça tenha sido um gigante?
— Você tira a graça de tudo — reclamou Olive. — Eu acredito em gigantes, mesmo que você não acredite!
— Os Contos são só histórias — resmungou Enoch.
— Que engraçado — comentei —, era exatamente o que eu pensava de vocês antes de conhecê-los.
Olive riu.
— Jacob, seu bobo. Você achava mesmo que a gente fosse de mentira?
— É claro. Mesmo depois de conhecer vocês, passei um tempo achando que fossem. Era como se eu estivesse enlouquecendo.
— Reais ou não, é uma coincidência incrível, não acham? — interveio Millard. — Ter lido essa história ontem à noite e, na manhã seguinte, vir parar exatamente no ponto geográfico que a inspirou? Qual a probabilidade?
— Não acho que seja uma mera coincidência — comentou Emma. — Foi a srta. Peregrine quem abriu o livro, lembram? Ela deve ter escolhido a história de propósito.
Bronwyn se virou para encarar a ave, empoleirada em seu ombro, e perguntou:
— É isso mesmo, srta. Peregrine? Por quê?
— Porque significa alguma coisa — respondeu Emma.
— Sem dúvida — disse Enoch. — Significa que devemos subir aquele morro. De lá, talvez a gente veja um caminho para sair dessa floresta!
— Eu quis dizer que o conto significa alguma coisa — retrucou Emma. — Na história, o que o gigante queria? O que ele não parava de pedir?
— Alguém para conversar! — exclamou Olive, como se fosse uma aluna modelo numa escola.
— Exatamente — disse Emma. — Então, se ele quer conversar, vamos ouvir o que tem a dizer. — E, dizendo isso, ela entrou na água.
Ficamos vendo-a se afastar, perplexos.
— Aonde ela está indo? — perguntou Millard.
Ele parecia estar falando comigo. Apenas balancei a cabeça em negativa.
— Tem acólitos nos perseguindo! — gritou Enoch para Emma. — Estamos completamente perdidos! Pelo mundo verde dos pássaros, onde você está com a cabeça?
— Estou pensando de modo peculiar! — gritou Emma.
Ela foi chapinhando pela parte rasa até a base da rocha, depois subiu até a mandíbula e olhou para o interior da boca aberta.
— E aí? — gritei. — O que você está vendo?
— Não sei! — respondeu ela. — Parece muito fundo. É melhor eu olhar mais de perto!
Emma se enfiou na boca de pedra do gigante.
— É melhor descer daí, antes que se machuque! — gritou Horace. — Você está deixando todo mundo nervoso!
— Tudo deixa você nervoso! — retrucou Hugh.
Emma jogou uma pedra pela garganta do gigante e ficou esperando ouvir o som de quando batesse no fundo.
— Acho que pode ser um... — começou ela, mas escorregou em um cascalho solto, e a última palavra da frase se perdeu enquanto ela agitava os braços para se equilibrar.
— Cuidado! — gritei, com o coração acelerado. — Espere, estou indo!
Fui chapinhando até Emma.
— Pode ser o quê? — perguntou Enoch.
— Só tem um jeito de descobrir! — respondeu Emma, empolgada, e entrou ainda mais na boca do gigante.
— Ai, meu Deus — resmungou Horace. — Lá vai ela...
— Espere! — gritei de novo, mas Emma já tinha desaparecido garganta abaixo.

* * *

De perto, o gigante parecia ainda maior do que da margem, e, olhando para o interior da garganta escura, a sensação era de que quase dava para ouvir a respiração do velho Cuthbert. Pus as mãos em concha na boca e chamei por Emma. Minha voz ecoou de volta. Os outros também estavam avançando pelo lago, mas eu não podia esperar. E se Emma estivesse em apuros lá embaixo?
Cerrei os dentes, enfiei as pernas na escuridão e pulei.
A queda demorou. Um segundo inteiro. Depois... splash! — mergulhei numa água tão gelada que fiquei sem fôlego e todos os meus músculos se contraíram na mesma hora. Precisei lembrar a mim mesmo que, se não nadasse de volta à superfície, afundaria. Estava em uma câmara escura e estreita, cheia de água e sem um meio de subir de volta pela garganta comprida e lisa: nada de corda, escada ou apoios. Gritei, chamando Emma, mas ela não estava por perto.
Meu Deus, pensei. Ela se afogou!
Então alguma coisa fez cócegas em meus braços e bolhas surgiram na água em volta. No instante seguinte, Emma surgiu na superfície, quase sem ar.
Ela parecia bem sob a luz pálida.
— O que está esperando? — perguntou, batendo na água com força, como se quisesse que eu mergulhasse atrás dela. — Vamos!
— Você ficou maluca? Estamos presos!
— Claro que não! — retrucou ela.
A voz de Bronwyn chamou do alto:
— Alôôôô-oooou, estou ouvindo vocês aí embaixo! O que encontraram?
— Acho que é a entrada de uma fenda! — gritou Emma. — Diga a todo mundo que podem mergulhar sem medo. Jacob e eu estaremos esperando vocês do outro lado!
Então ela pegou minha mão e, apesar de eu continuar sem entender muito bem o que estava acontecendo, enchi os pulmões e deixei que Emma me puxasse para baixo. Batemos os braços e as pernas, nos impulsionando na direção de um buraco na rocha do tamanho de uma pessoa, através do qual passava um facho de luz do sol. Ela me empurrou, me fazendo entrar ali, e entrou depois de mim. Seguimos nadando por um canal de uns três metros, até emergir no lago.
Dava para ver a superfície ondulada lá em cima e, mais além, o céu azul refratado. Conforme subíamos, a água ficava bem mais quente. Quando viemos à tona e conseguimos respirar, senti imediatamente que o clima mudara: estava quente e úmido e a luz era como a de uma tarde dourada. A profundidade do lago também estava diferente: a água batia no queixo do gigante.
— Viu? — disse Emma, com um sorriso. — Estamos em outra época!
E, de repente, entramos em uma fenda temporal: trocamos uma manhã fria de 1940 por uma tarde quente de algum ano anterior, embora fosse difícil saber qual era aquela época estando no meio da floresta, longe de indícios datáveis de civilização.
Um a um, os outros emergiram ao nosso redor. Ao perceberem as diferenças, logo concluíram o que tinha acontecido.
— Vocês têm noção do que isso significa? — indagou Millard, girando, batendo na água e perdendo o fôlego de tanto entusiasmo. — Significa que há informações secretas nos Contos!
— Eles não parecem tão inúteis agora, hein? — retrucou Olive.
— Ah, mal posso esperar para analisar e fazer anotações sobre eles — respondeu Millard, esfregando as mãos.
— Não ouse escrever no meu livro, Millard Nullings! — exclamou Bronwyn.
— Mas o que é esta fenda? — perguntou Hugh. — Quem vocês acham que mora aqui?
— Os animais amigos de Cuthbert, é claro! — respondeu Olive.
Enoch revirou os olhos, mas se conteve e não falou o que devia estar pensando: “É só uma história!” Talvez porque também estivesse começando a mudar de ideia.
— Toda fenda tem uma ymbryne — comentou Emma. — Mesmo as fendas misteriosas dos livros de histórias. Vamos atrás dela.
— Está bem — concordou Millard. — Onde procuramos?
— O único lugar que a história mencionava além do lago era aquela montanha — respondeu Emma, indicando uma elevação depois das árvores. — Quem quer escalar?
Estávamos todos cansados e famintos, mas encontrar a fenda renovou nossas energias. Deixamos para trás o gigante de pedra e seguimos pela floresta em direção ao sopé da montanha, as roupas ensopadas secando depressa no calor. O solo se elevava à medida que nos aproximávamos da encosta. Encontramos então uma trilha muito usada. Seguimos por ali, em meio a abetos frondosos e sinuosas passagens rochosas, até que o caminho ficou tão íngreme que às vezes tínhamos que subir de quatro, agarrando-nos às reentrâncias do chão para conseguir avançar.
— É melhor que tenha alguma coisa maravilhosa no fim desta trilha — comentou Horace, esfregando o suor da testa. — Cavalheiros não transpiram!
Em certo ponto, a trilha virava uma faixa estreita, o solo se erguendo íngreme à direita e despencando à esquerda; abaixo, estendia-se um tapete verde de copas de árvores.
— Segurem-se na pedra! — alertou Emma. — É uma queda enorme até o chão.
Fiquei tonto só de olhar para baixo. De repente, pareceu que eu desenvolvera um medo de altura de embrulhar o estômago, e precisei de toda concentração só para pôr um pé na frente do outro.
Emma tocou meu braço.
— Você está bem? — sussurrou ela. — Parece pálido.
Menti, dizendo que estava bem, o que consegui fingir por exatamente mais três curvas. A essa altura, meu coração estava acelerado e minhas pernas tremiam tanto que precisei me sentar bem no meio da trilha estreita, bloqueando a passagem de todos.
— Ah, não! — resmungou Hugh. — Jacob está entrando em colapso.
— Não sei o que tem de errado comigo — murmurei.
Eu nunca tinha sentido medo de altura, mas não conseguia nem olhar pela beira do penhasco sem sentir o estômago se revirar.
Então pensei em algo terrível: e se o que eu estava sentindo não fosse medo de altura, mas de etéreos?
Não podia ser. Estávamos no interior de uma fenda, onde os etéreos não conseguem entrar, mas quanto mais eu analisava a sensação que agitava minhas entranhas, mais convencido ficava de que não era o precipício o que estava me perturbando; era outra coisa.
Eu precisava conferir.
Todos tagarelavam, ansiosos, perguntando qual era o problema, querendo saber se eu estava bem. Isolei as vozes, me inclinei para a frente e engatinhei até a borda do penhasco. Quanto mais eu avançava, pior era a sensação no estômago, como se garras o estivessem rasgando por dentro. A centímetros da beira, deitei de barriga no chão e me estiquei para segurar a borda com os dedos, então me puxei para poder espiar.
Levou alguns instantes para que meus olhos reconhecessem o etéreo. A princípio era apenas um brilho contra a encosta rochosa e irregular da montanha, um ponto trêmulo no ar, como ondas de calor subindo de um carro quente. Um detalhe quase imperceptível.
Era assim que eles pareciam para gente normal e outros peculiares — para qualquer um que não conseguia fazer o que eu fazia.
Foi então que senti nitidamente a ativação de minha habilidade peculiar. Foi bem depressa: o embrulho no meu estômago se reduziu a um único ponto de dor e então, não sei bem explicar como, se tornou direcional, um ponto esticando-se em uma linha, uma dimensão tornando-se duas. A linha, como a agulha de uma bússola, se inclinou e apontou para aquele brilho indefinido lá embaixo na encosta, cem metros à esquerda, e as ondas e os brilhos começaram a se juntar e a se materializar em uma massa negra e sólida, uma criatura humanoide feita de tentáculos e de sombra, agarrada às rochas.
Então o etéreo me viu e todo o corpo horrível da criatura se retesou. Ele se encolheu contra a pedra, abriu a boca cheia de dentes afiados e soltou um grito agudo de perfurar os tímpanos.
Meus amigos não precisaram que eu descrevesse o que estava vendo. O som foi suficiente.
— Etéreo! — gritou um.
— Corram! — gritou outro, expressando o óbvio.
Eu me afastei depressa da beirada e senti que me erguiam do chão. Logo estávamos correndo em bando — não montanha abaixo, mas acima, cada vez mais longe, em direção ao desconhecido, em vez de retornarmos para o solo plano e a saída da fenda, que ficava atrás de nós. Era tarde demais para voltarmos: dava para sentir o etéreo saltando de uma saliência de rocha para outra, subindo pela parede do penhasco. Mas estava se afastando, descendo a trilha, para nos interceptar caso tentássemos passar por ele na descida da montanha. Estava nos cercando.
Isso era novidade. Eu nunca tinha localizado um etéreo com nenhum outro sentido que não a visão, mas aquela pequena agulha de bússola dentro de mim estava apontando para trás. Quase podia visualizar a criatura correndo para a superfície plana abaixo da montanha. Era como se, depois de ver o etéreo, meus olhos tivessem implantado nele um sinal localizador.
Fizemos uma curva correndo — meu medo passageiro de altura parecia ter desaparecido — e nos deparamos com um muro de pedra liso de pelo menos quinze metros de altura. A trilha terminava ali. O solo ao redor estava revirado em ângulos estranhos. O muro não tinha escadas nem apoio para as mãos.
Procuramos, desesperados, algum outro caminho, uma passagem secreta na rocha, uma porta, um túnel, mas não vimos coisa alguma nem qualquer maneira de seguir adiante. Só havia como ir para cima. E, aparentemente, não tínhamos como subir sem um balão de ar quente ou a ajuda da mão amiga de um gigante provavelmente mítico.
O pânico tomou conta de nós. A srta. Peregrine começou a piar, enquanto Claire chorava e Horace se lamentava:
— É o fim, vamos todos morrer!
Os outros procuravam alguma saída. Fiona passava a mão pelo muro em busca de rachaduras que pudessem conter terra, onde ela poderia fazer crescer uma trepadeira ou algo parecido para escalarmos. Hugh correu até a beira da trilha e olhou para o precipício.
— Se tivéssemos um paraquedas, poderíamos pular!
— Eu posso servir de paraquedas! — exclamou Olive. — Segurem nas minhas pernas!
Mas era uma longa distância até o chão, e lá embaixo havia uma floresta escura e ameaçadora. Era melhor, concluiu Bronwyn, mandar Olive até o alto do muro do que montanha abaixo. E, com Claire fraca e febril em um dos braços, ela conduziu Olive até a parede.
— Me dê seus sapatos! — disse Bronwyn a Olive. — Pegue Claire e a srta. P. e vá lá para cima o mais depressa que der!
Olive parecia horrorizada.
— Não sei se tenho forças! — exclamou.
— Você precisa tentar, minha codorninha! É a única que pode protegê-las!
Bronwyn se ajoelhou e pôs Claire de pé. A menina foi cambaleando até os braços de Olive, que a abraçou apertado e tirou os sapatos de chumbo. Assim que as duas começaram a subir, Bronwyn transferiu a srta. Peregrine do ombro para o topo da cabeça de Olive. Com mais peso, ela subia bem devagar. Foi só quando a srta. Peregrine começou a bater a asa boa e a puxar a menina pelo cabelo, com Olive dando gritinhos e agitando os pés, que as três decolaram de vez.
O etéreo chegara quase ao nível do chão. Eu sabia disso com tanta certeza quanto se o estivesse vendo. Enquanto isso, procuramos pelo chão ao redor do muro em busca de qualquer coisa que pudesse ser usada como arma, mas só encontramos pedrinhas.
— Eu posso ser uma arma — declarou Emma.
Ela bateu palmas uma vez e afastou as mãos, revelando uma bola de fogo impressionante que crepitava à medida que ganhava vida.
— E não esqueçam as minhas abelhas! — exclamou Hugh, abrindo a boca para deixá-las sair. — Elas podem ser bem ferozes quando provocadas!
Enoch, que sempre encontrava um jeito de rir nos momentos mais inadequados, soltou uma gargalhada.
— O que você vai fazer? Matar o etéreo com pólen?
Hugh o ignorou. Em vez disso, virou-se para mim.
— Você será nossos olhos, Jacob. Basta dizer onde está o monstro e vamos acabar com ele na base das ferroadas!
A agulha da minha bússola de dor revelou que o etéreo estava na trilha, e o modo como seu veneno se expandia, tomando meu corpo, indicava que ele se aproximava depressa.
— Ele vai aparecer a qualquer minuto — falei, apontando para a curva na trilha por onde tínhamos vindo. — Fiquem a postos.
Não fosse a adrenalina que inundava meu organismo, a dor seria incapacitante.
Assumimos nossas posições de luta ou de fuga, alguns agachados com os punhos erguidos, como boxeadores, outros em posição de um corredor antes do tiro de largada, apesar de ninguém saber para que lado correr.
— Que fim deprimente e lamentável para nossas aventuras — comentou Horace. — Devorados por um etéreo numa floresta do interior do País de Gales.
— Eu achava que eles não pudessem entrar nas fendas — disse Enoch. — Como foi que esse entrou aqui?
— Parece que eles evoluíram — respondeu Millard.
— Quem se importa em saber como aconteceu?! — rebateu Emma. — Ele está aqui e está com fome!
Do alto, uma vozinha gritou:
— Cuidado aí embaixo!
Estiquei o pescoço e vi Olive afastando o rosto, desaparecendo no topo do muro de pedra. No momento seguinte, algo parecido com uma corda desceu flutuando pela borda. A coisa se desenrolou e ficou bem esticada, então uma rede se abriu na extremidade e bateu no chão.
— Rápido! — veio a voz de Olive outra vez. — Tem uma alavanca aqui. Todo mundo precisa se agarrar à rede que eu vou puxar!
Corremos até a rede, mas era pequena demais, mal cabiam duas pessoas.
Presa à corda, no nível dos olhos, havia a foto de um homem dentro da rede — dentro daquela mesma rede —, com as pernas dobradas à frente do corpo, pendurado pouco acima do chão diante de um muro liso de rocha — aquele mesmo muro. No verso da foto, lia-se a mensagem:

ACESSO RESTRITO À FAUNA
LIMITE DE PESO: UM PASSAGEIRO


Aquela engenhoca era uma espécie de elevador primitivo feito para apenas um passageiro por vez, não oito. Mas não havia tempo para usá-lo da forma correta, por isso todos nos amontoamos em cima dele, enfiando braços e pernas pelos buracos e nos agarrando à corda, nos segurando do jeito que dava.
— Puxe! — gritei.
O etéreo estava muito perto. A dor era sobrenatural.
Por alguns segundos intermináveis, nada aconteceu. O etéreo fez a curva usando as línguas musculosas como pernas, os membros humanos atrofiados pendendo inúteis ao lado do corpo. Em seguida, um guincho metálico soou, a corda se retesou e fomos puxados com força para cima.
O etéreo percorrera quase toda a distância que nos separava. Ele galopava com as mandíbulas bem abertas, como se quisesse nos prender entre os dentes do mesmo jeito que uma baleia faz com plânctons. Não estávamos nem na metade do muro quando ele chegou ao chão logo abaixo de nós, olhou para o alto e se agachou, como uma mola prestes a se soltar.
— Ele vai pular! — gritei. — Puxem as pernas para dentro da rede!
O etéreo enfiou as línguas no chão e saltou. Estávamos subindo depressa, e parecia que ele não ia nos alcançar, mas, quando chegou ao ápice do pulo, ele projetou uma das línguas e agarrou o tornozelo de Emma.
Ela gritou e chutou a língua com o outro pé. A rede parou de repente, pois a roldana era fraca demais para erguer todos nós e mais o etéreo.
— Me solte! — gritou Emma. — Me solte, me solte, me largue!
Também tentei chutar, mas a língua do etéreo era forte como um cabo de aço e a ponta estava coberta por centenas de ventosas, de modo que quem tentasse arrancá-la acabava preso. Além disso, o etéreo estava encolhendo a língua e se alçando para cima. Suas mandíbulas chegavam cada vez mais perto, até que começamos a sentir o fedor de túmulo de seu hálito.
Emma gritou para que alguém a segurasse. Agarrei as costas de seu vestido com uma das mãos e Bronwyn soltou a rede, ficando presa apenas pelas pernas, o que lhe permitiu abraçar Emma pela cintura. Então ela também se soltou.
Bronwyn e eu éramos tudo o que evitava sua queda. Com as mãos livres, Emma se abaixou e enlaçou a língua.
O etéreo guinchou. As ventosas que se prendiam à perna de Emma começaram a enrugar e a emanar uma fumaça preta, até que se soltaram da carne da língua, chiando. Emma apertou ainda mais, fechou os olhos e deu um grito — percebi que não era de dor, e sim uma espécie de grito de guerra. Ela ficou assim até o etéreo ser obrigado a soltá-la, o tentáculo ferido se desenrolando do tornozelo de Emma. Houve um momento surreal, em que não era mais o etéreo quem segurava Emma, e sim ela que o segurava. A criatura se contorcia e guinchava abaixo de nós. A fumaça acre que saía da carne queimada preenchia nosso nariz, até que finalmente tivemos que gritar para que ela o soltasse. Então Emma abriu os olhos, pareceu lembrar-se de onde estava e afastou as mãos.
O etéreo despencou, tentando se segurar no ar durante a queda. A rede subiu como foguete quando a tensão que nos segurava foi liberada de repente, e, ao passarmos pela beira do muro, caímos em um monte lá em cima. Olive, Claire e a srta. Peregrine ficaram esperando enquanto nos soltávamos da rede e cambaleávamos para longe da borda do penhasco. Olive vibrava, a srta. Peregrine piava e batia a asa boa, e Claire, deitada no chão, ergueu a cabeça e abriu um sorriso fraco.
Estávamos tontos de felicidade e, pela segunda vez em muitos dias, surpresos por estarmos vivos.
— É a segunda vez que você salva nossa vida, codorninha — disse Bronwyn a Olive. — E, srta. Bloom, eu já sabia que você era corajosa, mas dessa vez se superou!
Emma deu de ombros.
— Era ele ou eu — respondeu.
— Eu não acredito que você encostou nele — comentou Horace.
Emma esfregou as mãos no vestido, levou-as ao nariz e fez uma careta.
— Só espero que esse cheiro saia logo — retrucou. — Aquele monstro fedia como um lixão.
— Como está seu tornozelo? — perguntei. — Dói?
Emma se ajoelhou e baixou a meia, revelando um círculo inchado e vermelho na pele.
— Não está tão ruim — respondeu, tocando de leve.
Mas, quando ela se levantou e apoiou o peso do corpo na perna ferida, notei que fez uma careta de dor.
— Você ajudou muito — resmungou Enoch para mim. — “Corram!”, instruiu o neto do matador de etéreos.
— Se meu avô tivesse corrido do etéreo que o matou, talvez ainda estivesse vivo — retruquei. — É um bom conselho.
Ouvi um baque surdo do outro lado do muro que tínhamos acabado de escalar, e aquela sensação começou a se agitar outra vez dentro de mim. Fui até a borda e olhei para baixo. O etéreo estava vivo e muito bem lá na base do penhasco, muito entretido em abrir buracos na rocha com as línguas.
— Má notícia — comentei. — Ele não morreu na queda.
Emma chegou ao meu lado em um segundo.
— O que ele está fazendo?
Eu o vi girar uma das línguas para dentro de um furo que fizera na pedra, para então se içar e começar a fazer o segundo. Estava criando pontos de apoio para subir.
— Está tentando escalar — expliquei. — Meu Deus, parece o Exterminador do Futuro.
— Parece o quê? — indagou Emma.
Quase comecei a explicar, mas desisti. De qualquer jeito, era uma comparação ruim: etéreos eram mais assustadores, e provavelmente mais mortais, do que qualquer monstro do cinema.
— Precisamos impedi-lo! — exclamou Olive.
— Ou melhor: precisamos fugir! — exclamou Horace.
— Chega de fugir! — retrucou Enoch. — Por favor, vamos simplesmente matar essa coisa maldita.
— Claro — disse Emma. — Mas como?
— Alguém trouxe um caldeirão cheio de óleo fervente? — sugeriu Enoch.
— Será que isso serve? — ouvi Bronwyn dizer, e me virei para vê-la erguer uma rocha enorme acima da cabeça.
— Pode servir — respondi. — Você tem boa pontaria? Consegue jogar essa pedra onde eu indicar?
— Posso tentar — retrucou Bronwyn, andando com dificuldade até a beira do penhasco, a rocha equilibrada precariamente nas mãos.
Ficamos olhando lá para baixo.
— Mais um pouco para cá — direcionei, fazendo com que Bronwyn desse alguns passos para a esquerda.
Mas, quando estava prestes a dar o sinal para que ela largasse a rocha, o etéreo pulou de um apoio para outro, e de repente Bronwyn estava no lugar errado.
Ele estava criando os pontos de apoio cada vez mais rápido, tinha virado um alvo móvel. Para piorar as coisas, a pedra que Bronwyn segurava era a única à vista. Se ela errasse, não teríamos uma segunda chance.
Eu me obriguei a encarar o etéreo, apesar da vontade quase insuportável de desviar o olhar. Por alguns estranhos segundos de confusão mental, as vozes de meus amigos desapareceram; ouvi o sangue pulsando em meus ouvidos e o coração batendo no peito. Meus pensamentos se voltaram para a criatura que matara meu avô, que ficara parada junto ao corpo moribundo dele antes de, covardemente, fugir pela floresta.
Minha visão ficou embaçada e minhas mãos começaram a tremer. Tentei me manter firme.
Você nasceu para isso, pensei. Foi feito para matar monstros como esse. Eu repetia isso baixinho, como um mantra.
— Depressa, Jacob, por favor — pediu Bronwyn.
A criatura fingiu que ia para a esquerda, mas pulou para a direita. Eu não queria tentar adivinhar e acabar desperdiçando nossa melhor chance de matá-la. Eu queria ter certeza. De algum modo, por alguma razão, senti que podia.
Então me ajoelhei tão perto da borda que Emma enganchou dois dedos na parte de trás do meu cinto, para evitar que eu caísse. Concentrado no etéreo, repeti o mantra baixinho — fui feito para matar você, fui feito para matar — e, apesar de naquele instante o etéreo estar parado, abrindo outro buraco no muro, senti a agulha da bússola em minhas entranhas se mover bem de leve para a direita.
Foi como uma premonição.
Bronwyn estava começando a tremer sob o peso da rocha.
— Não vou aguentar muito mais! — avisou ela.
Resolvi confiar em meu instinto. Apesar de o ponto para onde a bússola apontava estar vazio, gritei para Bronwyn jogar a rocha ali. Ela se inclinou na direção ordenada e, com um gemido de alívio, soltou a rocha.
No instante seguinte, o etéreo saltou para a direita, o lugar exato para o qual a bússola apontara. Ele olhou para cima, viu a rocha indo em sua direção e se preparou para saltar outra vez, mas não teve tempo. A pedra o acertou bem na cabeça, afastando seu corpo do muro. Com um estrondo trovejante, o etéreo e a pedra acertaram o solo. Línguas de tentáculos saíram de debaixo do pedregulho, estremeceram e ficaram imóveis. Em seguida, um sangue negro escorreu e cercou a rocha, formando uma grande poça viscosa.
— Em cheio! — berrei.
As crianças começaram a pular e a comemorar.
— Ele morreu, ele morreu! — gritava Olive. — O etéreo horroroso morreu!
Bronwyn me abraçou. Emma beijou o topo da minha cabeça, Horace apertou minha mão, e Hugh me deu um tapinha nas costas. Até Enoch me parabenizou.
— Bom trabalho — disse ele, com certa relutância. — Mas não vá ficar convencido por isso.
Eu deveria estar pulando de felicidade, mas mal sentia qualquer coisa além de uma dormência que se espalhava conforme a dor e os tremores da Sensação diminuíam. Emma percebeu que eu estava simplesmente esgotado. Com enorme gentileza, mas de um jeito que mais ninguém notaria, ela tomou meu braço e me ajudou a ficar de pé enquanto caminhávamos para longe do penhasco.
— Isso não foi sorte — sussurrou ela no meu ouvido. — Eu estava certa sobre você, Jacob Portman.

* * *

A trilha que terminara na base do muro de pedra recomeçava ali no alto, seguindo a crista de um espinhaço que subia e descia uma colina.
— A placa na corda dizia Acesso restrito à fauna — comentou Horace. — O que vocês acham que vamos encontrar lá na frente?
— É você quem sonha com o futuro — retrucou Enoch. — Por que não diz o que acha?
— O que é “fauna”? — perguntou Olive.
— É quando tem muitos animais num lugar — explicou Emma.
Olive deu um gritinho e bateu palmas.
— São os amigos de Cuthbert! Da história! Ah, mal posso esperar para encontrá-los! Vocês acham que a ymbryne também mora lá?
— Bem, na atual conjuntura — começou Millard —, é melhor não fazer suposições.
Começamos a andar. Eu ainda estava um pouco atordoado pelo encontro com o etéreo. Minha habilidade parecia estar se desenvolvendo, como Millard previra, crescendo como um músculo conforme eu a exercitava. Depois de ver um etéreo, eu conseguia rastreá-lo e, se me concentrasse o suficiente, antecipar seus movimentos de um jeito meio instintivo, mais do que consciente. Senti certa satisfação por ter aprendido algo sobre minha peculiaridade, ainda mais por ter sido guiado unicamente pela experiência. Mas eu não estava aprendendo em um ambiente seguro e controlado. Não havia rede de proteção. Qualquer erro que eu cometesse teria consequências imediatas e fatais, tanto para mim quanto para as pessoas à minha volta. Receei que os outros começassem a confiar demais na minha capacidade — ou, pior ainda, que eu começasse a confiar demais. E eu sabia que, no instante em que ficasse convencido, no instante em que deixasse de ficar apavorado de medo dos etéreos, algo terrível aconteceria.
Então talvez fosse bom que minha relação terror/confiança estivesse no ponto mais baixo, praticamente na proporção dez para um. Enfiei as mãos nos bolsos enquanto caminhávamos, com medo de que os outros me vissem tremendo.
— Vejam! — gritou Bronwyn, parando no meio da trilha. — Uma casa nas nuvens!
Estávamos na metade da subida da montanha. Adiante, bem no alto, uma casa quase parecia se equilibrar nas nuvens. Conforme avançamos, as nuvens foram se abrindo, nos permitindo uma boa visão da casa. Era muito pequena e havia sido construída não sobre uma nuvem, mas sobre uma torre muito alta, toda feita de dormentes de trilhos ferroviários, erguida no centro de um planalto gramado.
Era uma das construções mais estranhas que eu já vira. Ao redor, no platô, havia algumas cabanas espalhadas, além de um pequeno bosque na extremidade mais distante. Mas não demos atenção aos arredores: nossos olhos estavam fixos na torre.
— O que é isso? — murmurei.


— Uma torre de observação? — sugeriu Emma.
— Um lugar de onde aviões decolam? — chutou Hugh.
Mas não havia aviões por ali, nem quaisquer indícios de uma pista de pouso.
— Talvez seja uma plataforma de lançamento de zepelins — disse Millard.
Eu me lembrei de vídeos antigos do Hindemburg, um dirigível desafortunado, atracando no alto do que parecia uma torre de rádio, que era uma estrutura não muito diferente daquela. Senti uma onda de medo gélida atravessar meu corpo. E se os balões que nos caçaram na praia estivessem estabelecidos ali e nós, sem querer, tivéssemos caído em um ninho de acólitos?
— Talvez seja a casa da ymbryne — sugeriu Olive. — Por que todo mundo sempre pensa no pior?
— Olive só pode estar certa — disse Hugh. — Não tem nada a temer aqui.
A resposta veio na mesma hora: um urro inumano que parecia vir das sombras sob a torre.
— O que foi isso? — indagou Emma. — Outro etéreo?
— Acho que não — respondi, notando que a Sensação continuava desvanecendo.
— Não sei e não quero saber — retrucou Horace, recuando.
Mas não tínhamos escolha: a coisa queria nos encontrar. Ouvimos outra vez aquele urro de arrepiar os pelos dos braços, e no instante seguinte um rosto peludo surgiu entre dois dos dormentes mais baixos. A criatura rosnou para nós como um cão raivoso, fios de saliva escorrendo da boca cheia de presas.
— Em nome dos Anciões, o que é isso? — murmurou Emma.
— Mas que bela ideia, entrar nessa fenda — resmungou Enoch. — Está sendo ótimo.
O que quer que fosse a coisa, ela rastejou de trás dos dormentes e saiu ao sol, onde se agachou e nos olhou de soslaio, dando um sorriso estranho, como se imaginasse que gosto teria nosso cérebro. Não dava para dizer se era humano ou animal: estava vestido em trapos e tinha corpo de homem, mas se movia como um macaco. Sua forma encurvada lembrava um ancestral há muito perdido cuja evolução fora interrompida milhões de anos antes. Os olhos e dentes eram de um amarelado fosco, a pele era pálida e sarapintada de manchas escuras e o cabelo comprido emaranhado parecia um ninho.
— Alguém precisa fazer essa coisa morrer! — exclamou Horace. — Ou pelo menos parar de olhar para mim!
Bronwyn pôs Claire no chão e assumiu uma postura de luta, enquanto Emma estendia as mãos para produzir uma chama — mas, aparentemente, estava surpresa demais para evocar mais que uma baforada de fumaça. A fera humana se retesou, rosnou e saiu correndo como um velocista olímpico. Mas não corria na nossa direção, e sim ao redor do nosso grupo. Então mergulhou atrás de uma pilha de rochas e reapareceu com um sorriso arreganhando os dentes. Estava brincando com a gente, como um gato brinca com a presa pouco antes de matá-la.
A criatura parecia prestes a sair correndo novamente — dessa vez, sim, na nossa direção —, quando uma voz vinda de trás ordenou que se sentasse.


— Sente-se e comporte-se!
E a criatura obedeceu, relaxando sobre as patas traseiras, a língua pendendo  da boca em um sorriso abobalhado.
Quando nos viramos, vimos apenas um cachorro trotando com muita calma em nossa direção. Procurei ver atrás dele, mas não havia ninguém. Então o cachorro abriu a boca e disse:
— Não se incomodem com o Grunt, ele não tem modos mesmo! É só o jeito dele de agradecer. Aquele etéreo era um estorvo terrível.
O cão parecia estar falando comigo, mas eu não consegui responder, de tão surpreso. Ele não só falava em uma voz quase humana (e com sotaque britânico refinado), como carregava um cachimbo na mandíbula saliente e usava um par de óculos de lentes verdes redondas.
— Minha nossa, espero que vocês não estejam muito ofendidos — continuou o cão, interpretando errado meu silêncio. — Grunt tem boas intenções, vocês terão que perdoá-lo. Ele foi criado em um celeiro. Eu, por outro lado, fui educado em uma grande propriedade, sou o sétimo filhote de um sétimo filhote de uma linhagem ilustre de cães de caça. — Ele fez a melhor reverência que um cachorro poderia fazer, tocando o focinho no chão. — Addison MacHenry, a seu dispor.
— É um nome pomposo para um cachorro — comentou Enoch, aparentemente sem se impressionar com um animal falante.
Addison espiou Enoch por cima dos óculos e respondeu:
— Permita-me perguntar: qual é a sua graça?
— Enoch O’Connor — respondeu o menino, orgulhoso, estufando um pouco o peito.
— É um nome pomposo para um menino sujo e de rosto gorducho — comentou Addison, e se levantou nas patas traseiras, chegando quase à altura de Enoch. — É, sou mesmo um cachorro, mas um cachorro peculiar. Então por que eu deveria ficar restrito a um nome de cachorro comum? Meu antigo dono me chamava de Bob e eu detestava. Era uma afronta a minha dignidade! Então o mordi no rosto e tomei seu nome. Addison. Acredito que seja muito mais apropriado para um animal de meu nível intelectual. Isso foi pouco antes de a srta. Wren* me descobrir e me trazer para cá.
O rosto de meus amigos se iluminou à menção do nome de uma ymbryne.
Uma pulsação de esperança se acendeu em todos nós.
— A srta. Wren trouxe você para cá? — perguntou Olive. — Mas e Cuthbert, o gigante?
— Quem? — indagou Addison, mas depois balançou a cabeça. — Ah, sim, a história. Temo que seja apenas isso, uma história, muito antiga, inspirada naquela rocha curiosa lá embaixo e na fauna peculiar da srta. Wren.
— Eu disse — murmurou Enoch.
— E onde está a srta. Wren? — perguntou Emma. — Precisamos falar com ela!
Addison olhou para a casa no alto da torre e respondeu:
— Aquela é a residência dela, mas a srta. Wren não está no momento. Saiu voando há alguns dias para ajudar suas irmãs ymbrynes em Londres. Está havendo uma guerra... Mas imagino que vocês tenham ouvido falar e saibam tudo a respeito. Isso explicaria por que estão viajando com roupas degradantes de refugiados.
— Nossa fenda foi atacada — explicou Emma. — Depois perdemos nossos pertences no mar.
— E quase nos afogamos — acrescentou Millard.
Ao ouvir a voz de Millard, o cão levou um susto.
— Um invisível! Que rara surpresa. E também um americano — comentou ele, me cumprimentando com um aceno de cabeça. — Que grupo peculiar, mesmo em se tratando de peculiares. — Ele voltou a se apoiar nas quatro patas e se virou na direção da torre. — Venham, vou apresentá-los aos outros. Eles ficarão fascinados em conhecê-los. Depois dessa jornada, vocês devem estar famintos, pobrezinhos. Providenciaremos forragem nutriente mais do que depressa!
— Também precisamos de remédios — disse Bronwyn, ajoelhando-se para pegar Claire. — Essa pequenina está muito doente!
— Faremos todo o possível por ela — respondeu o cão. — Devemos isso e muito mais a vocês, por resolverem nosso problema com o etéreo. Um estorvo terrível, como já expliquei.
— Ele falou forragem? — perguntou Olive.
— Mantimentos, rações! — respondeu o cão. — Por aqui vocês comerão como a realeza.
— Mas eu não gosto de comida de cachorro — retrucou Olive.
Addison riu, com um timbre surpreendentemente humano.
— Nem eu, senhorita.


* Em português, “cambaxirra”. (N. da E.)

Um comentário:

  1. Karen- filha de Atena, selecionada, tributo,grifinória30 de outubro de 2017 23:21

    " mais eu não gosto de comida de cachorro"
    " nem eu senhorita"
    mesmo com toda a tenção que teve eu ainda consegui rir

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Boa leitura :)