5 de abril de 2017

Capítulo três

neblina se fechou em torno de nós como se fosse uma venda. Quando o capitão anunciou que estávamos quase chegando, no início achei que ele estivesse de brincadeira; tudo o que eu conseguia ver do convés, que não parava de se mexer, era uma infinita cortina cinzenta. Agarrei a amurada e encarei fixamente as ondas verdes, contemplando os peixes que logo poderiam estar comendo meu café da manhã, enquanto meu pai permanecia de pé, tremendo do meu lado em manga de camisa. Estava mais frio e úmido do que jamais imaginei que junho pudesse ser. Eu esperava, pelo meu bem e pelo dele, que as 36 horas de sofrimento enfrentadas bravamente por nós para chegar até ali — três aviões, duas conexões, cochilos em estações de trem imundas e agora essa viagem de barca que embrulhava meu estômago — valessem a pena. Então meu pai exclamou:
— Veja! — E eu levantei a cabeça para avistar uma enorme montanha rochosa emergir da tela em branco à nossa frente.
Era a ilha de meu avô. Agigantando-se cinzenta, envolta pela névoa, guardada por um milhão de pássaros que não paravam de piar, ela parecia uma fortaleza antiga construída por gigantes. Enquanto eu erguia os olhos para seus penhascos escarpados, cujos cumes desapareciam em um recife de nuvens fantasmagóricas, a ideia de que esse era um lugar mágico não parecia tão ridícula.
Meu enjoo pareceu desaparecer. Meu pai saiu correndo pela balsa como uma criança no Natal, os olhos colados nos pássaros que voavam em círculos acima de nós.
— Jacob, olhe só! — gritou, apontando para um bando de pontos voadores. — Pardelas!
— Que legal, pai!
Conforme nos aproximávamos dos penhascos, comecei a notar formas estranhas escondidas sob a água. Um tripulante que passava me viu debruçado sobre a amurada para observá-las e disse:
— Nunca viu um naufrágio antes, hein?
Eu me virei para ele.
— Sério?
— Toda esta ilha é um cemitério de navios — respondeu ele. — É como os velhos capitães costumavam dizer: “Da ponta de Twixt Hartland à baía de Cairnholm é um cemitério de marujos, seja de dia, seja de noite!”.
Nesse instante passamos por um navio naufragado tão próximo da superfície, a silhueta de sua carcaça esverdeada tão nítida que parecia prestes a se erguer da água como um zumbi de sua cova rasa.
— Viu aquele? — perguntou enquanto apontava para o navio. — Foi afundado por um submarino, foi sim.
— Havia submarinos por aqui?
— Aos montes. Todo o mar da Irlanda estava infestado de submarinos alemães. Aposto que você teria metade de uma marinha nas mãos se pudesse tirar do fundo do mar todos os navios que eles torpedearam. — Ele ergueu uma sobrancelha para mim de modo teatral, depois se afastou, rindo.
Quando eu começava a me perguntar se íamos precisar de equipamento de alpinismo para entrar na ilha, seus penhascos íngremes passaram a declinar suavemente para nos encontrar. Contornamos um cabo e entramos em uma baía rochosa em forma de meia-lua, e a distância vi uma pequena enseada cheia de barcos de pesca coloridos e, além dela, uma cidade localizada em uma verde enseada de terra. Uma colcha de retalhos de campos pontilhados de carneiros se espalhava pelas colinas que se elevavam ao longe até se juntar a uma serra alta, onde uma parede de nuvens parecia formar um parapeito de algodão. Era dramático e belo, diferente de qualquer outro lugar que eu já tinha visto. Senti um pouco da emoção de nossa aventura enquanto o barco entrava na baía, como se avistasse terra onde mapas antigos registravam apenas traços de um azul indistinto.
A balsa atracou, pegamos nossa bagagem e desembarcamos na cidadezinha. Após uma inspeção mais cuidadosa, concluí que ela não era, como tantas outras coisas, tão bonita de perto quanto parecia a certa distância. Casinhas caiadas de branco, estranhas, exceto pelas parabólicas que brotavam de seus telhados, enfileiravam-se ao longo de ruas de terra enlameadas. Como Cairnholm era muito distante e sem importância para justificar o custo de levar cabos de energia do continente, fedorentos geradores a diesel zumbiam em cada esquina como vespas raivosas, harmonizando-se com o ronco dos tratores, os únicos veículos a transitar na ilha. Nos limites da cidade, casinhas de aspecto desgastado erguiam-se abandonadas e sem teto, provas de uma população que encolhia. As crianças eram atraídas para longe das tradições seculares de pesca e trabalho no campo por oportunidades mais glamorosas no continente.
Arrastamos nossas coisas pela cidade em busca de um lugar chamado Arco do Padre, onde meu pai havia reservado um quarto. Imaginei uma igreja antiga convertida em pensão, nada elegante, apenas um lugar para dormir quando não estivéssemos observando aves ou seguindo pistas. Perguntamos sobre o caminho a alguns moradores locais, mas recebemos de volta apenas olhares confusos.
— Eles falam inglês, certo? — meu pai perguntou a si mesmo em voz alta.
Quando minha mão começava a doer devido ao peso absurdo da minha mala, chegamos a uma igreja. Achamos que tínhamos encontrado nossas acomodações, até que entramos e vimos que ela tinha, sim, sido convertida, mas em um pequeno museu lúgubre, não em pensão.
Encontramos um curador provavelmente de meio período em um aposento cheio de redes de pesca e lâminas de tosquiar carneiros penduradas nas paredes.
O rosto dele se iluminou quando nos viu, depois tornou a se fechar quando se deu conta de que estávamos apenas perdidos.
— Imagino que estejam procurando o Buraco do Padre — disse ele. — São os únicos quartos para alugar na ilha.
Ele começou a nos explicar o caminho com um sotaque cantado, que achei tremendamente divertido. Adorava ouvir os galeses falarem, mesmo que metade do que diziam fosse incompreensível. Meu pai o agradeceu e virou-se para ir embora, mas o homem mostrara-se tão prestativo que pensei em outra pergunta para fazer a ele — onde ficava o velho orfanato?
— O velho o quê? — disse ele, olhando-me de um jeito esquisito.
Por um momento terrível temi que estivéssemos na ilha errada ou, ainda pior, que o orfanato fosse apenas mais uma das invenções de meu avô.
— Um lar para crianças refugiadas? — disse eu. — Durante a guerra? Uma casa grande?
O homem mordeu os lábios e me olhou desconfiado, como se estivesse decidindo se deveria ajudar ou lavar as mãos para tudo aquilo. Mas ele ficou com pena de mim.
— Não sei nada sobre refugiados — disse ele. — Mas acho que conheço esse lugar de que você está falando. Fica longe, lá do outro lado da ilha, depois da charneca pantanosa e da mata, mas eu não pensaria em perambular por lá sozinho se fosse você. Afaste-se demais da trilha e nunca mais vão ouvir falar de você. Não tem nada além de mato, lama e bosta de carneiro para impedi-lo de cair de um precipício sobre rochas pontiagudas.
— É bom saber disso — disse meu pai, olhando para mim. — Prometa que não vai lá sozinho.
— Está bem, está bem.
— Mas por que você está interessado nisso? — perguntou o homem. — Não é exatamente um ponto turístico.
— Apenas um projeto de genealogia — disse meu pai, hesitando perto da porta. — Meu pai passou alguns anos lá quando criança. — Sabia que ele estava se esforçando para evitar qualquer menção a psiquiatras ou avós mortos, e ele tornou a agradecer ao homem e rapidamente me conduziu porta afora.
Seguindo as indicações do curador, refizemos nossos passos até chegarmos a uma estátua em pedra negra de aspecto assustador, um memorial chamado Mulher à Espera, em homenagem aos moradores da ilha perdidos no mar. A estátua tinha uma expressão patética, ali parada com os braços estendidos na direção da enseada, a muitas quadras de distância, mas também na direção do Buraco do Padre, que era logo do outro lado da rua. Bem, não sou nenhum especialista em hotéis, mas apenas um olhar para o letreiro marcado pelo tempo do Buraco do Padre me dizia que nossa estada não seria exatamente uma experiência quatro-estrelas, com chocolate de menta nos travesseiros como cortesia. Na fachada, lia-se em letras gigantes: VINHOS, CERVEJAS E AGUARDENTES. Abaixo disso, em letras mais modernas, Boa comida. Na parte de baixo, escrito à mão, sem dúvida posteriormente: Quartos para alugar, apesar de o “s” ter desaparecido, deixando apenas um único Quarto. Quando nos dirigíamos com as malas para a porta, e meu pai reclamava de vigaristas e propaganda enganosa, dei uma espiada na Mulher à Espera às nossas costas e me perguntei se ela não estava apenas esperando que alguém lhe servisse uma bebida.
Esprememos nossas malas pela porta e paramos, os olhos piscando na escuridão súbita de um pub de teto baixo: janelas pequenas e chumbadas permitiam a entrada de luz suficiente apenas para encontrar a serpentina de cerveja sem tropeçar nas mesas e cadeiras no caminho. As próprias mesas, gastas e bambas, aparentemente teriam mais serventia como lenha. O bar não estava tão cheio; sabe-se lá a hora da manhã que era, com homens em estados variados de intoxicação silenciosa, de cabeça baixa como se rezassem diante de copinhos com um líquido âmbar.
— Vocês vieram por causa do quarto — disse um homem saindo de trás do bar para nos apertar a mão. — Eu sou Kev, e essa é a nossa turma. Digam olá, turma.
— Olá — eles murmuraram, acenando com suas bebidas.
Seguimos Kev por uma escadinha estreita até um grupo de quartos — plural! — que podiam, com caridade, ser descritos como simples. Havia dois quartos, o maior dos quais ficou com meu pai; um terceiro aposento funcionava como cozinha, sala de jantar e de estar, o que significava ter uma mesa, um sofá roído por traças e um fogão elétrico. O banheiro funcionava “a maior parte do tempo”, segundo Kev.
— Mas, se ele ficar estranho, sempre há o Velho Fiel. — E ele desviou nossa atenção para um banheiro químico no beco dos fundos, convenientemente visível da janela do meu quarto.
— Ah, e vocês vão precisar disto — disse ele, pegando dois lampiões a querosene em um armário. — Os geradores param de funcionar às dez, pois é muito caro trazer combustível até aqui, então ou você dorme cedo, ou aprende a gostar de velas e querosene! — Ele sorriu. — Espero que não seja medieval demais para vocês.
Garantimos a Kev que estava tudo bem com banheiros externos e querosene. Na verdade, parecia divertido — um pouco de aventura, sim, senhor —, e em seguida ele nos levou lá para baixo, para a última parte de nosso tour.
— Vocês são bem-vindos para fazer as refeições aqui — disse ele. — E imagino que vão fazer, pois não há outro lugar para comer. Se precisar telefonar, temos uma cabine telefônica ali no canto. Algumas vezes tem um pouco de fila, já que quase não temos sinal de celular aqui, e você está olhando para o único telefone fixo da ilha. Está bem, temos tudo... a única comida, a única cama, o único telefone! — E ele se inclinou para trás e riu, uma gargalhada longa e ruidosa.
O único telefone na ilha. Olhei na direção dele — havia uma cabine telefônica num dos cantos, aquele tipo com uma porta que você podia fechar se quisesse privacidade, como aquelas que se vê nos filmes antigos — e então percebi com um crescente horror que essa era a orgia grega, essa era a festa de fraternidade furiosa para a qual eu havia ligado quando telefonei para a ilha há algumas semanas. Esse era o Buraco do Pau.
Kev deu as chaves dos nossos quartos para meu pai.
— Qualquer pergunta — disse —, vocês sabem onde me encontrar.
— Tenho uma pergunta — falei. — O que é um buraco do pau... quer dizer, padre?
Os homens no bar caíram na gargalhada.
— Ora, é um buraco para padres, claro! — disse um deles, o que fez com que os outros rissem ainda mais.
Kev caminhou sobre um trecho irregular do piso de tábuas perto da lareira, onde um cachorro nojento dormia.
— Bem aqui — disse ele, batendo com o sapato no que parecia ser uma porta no chão. — Séculos atrás, quando o simples fato de ser católico bastava para o enforcarem numa árvore, muitos clérigos vinham para cá em busca de refúgio. Quando o bando de capangas da rainha Elizabeth vinha atrás deles, nós os ajudávamos a se esconder em lugarezinhos confortáveis como este, um buraco do padre.
Pelo modo como falou, parecia até que ele conhecia pessoalmente esses ilhéus havia tanto tempo mortos.
— Bem confortável! — disse um dos clientes do bar. — Aposto que era quente e apertado como uma torradeira lá embaixo!
— Sempre vou preferir esse calor e conforto a ser enforcado por assassinos de padres! — comentou outro.
— Aqui, aqui! — disse o primeiro homem. — A Cairnholm, que seja sempre nossa rocha de refúgio!
— A Cairnholm! — repetiram os outros, e todos brindaram juntos.

* * *

Exaustos e sofrendo com a diferença de fuso horário, fomos dormir cedo — melhor, fomos para a cama e ficamos deitados com o travesseiro sobre a cabeça para abafar a cacofonia de batidas que ecoava através do piso, que em certo ponto ficou tão alta, a ponto de eu ter certeza de que a comemoração tinha invadido meu quarto. Então deve ter dado dez horas, porque de repente os geradores que roncavam lá fora engasgaram e morreram, assim como a música que vinha lá de baixo e a luz da rua que entrava pela janela e caía direto nos meus olhos, e logo me vi envolto por uma escuridão silenciosa e aconchegante, apenas o murmúrio de ondas distantes me lembrando de onde eu estava.
Pela primeira vez em meses mergulhei em um sono pesado e sem pesadelos. Em vez disso, sonhei com meu avô quando menino, com a primeira noite dele aqui, um estranho em terra estranha, sob um teto estranho, devendo a vida a pessoas que falavam uma língua estranha. Quando acordei, com o sol entrando alegremente pela minha janela, eu me dei conta de que não tinha sido apenas a vida de meu avô que a srta. Peregrine salvara, mas a minha também e a de meu pai. Hoje, com alguma sorte, eu finalmente poderia agradecer a ela.
Desci apressadamente as escadas e encontrei meu pai já sentado à mesa, bebendo café e limpando seus binóculos caros. Enquanto eu me sentava, Kev surgiu com dois pratos cheios de uma carne misteriosa e torradas fritas.
— Não sabia que era possível fritar torradas — observei, ao que Kev respondeu que não conhecia nenhuma comida que não ficasse melhor frita.
Meu pai e eu discutimos os planos do dia durante o café. Íamos fazer uma espécie de exploração, para nos familiarizarmos com o ambiente da ilha.
Primeiro, íamos avaliar os melhores pontos de observação de aves, depois íamos encontrar o orfanato. Devorei com pressa minha comida, ansioso para começar.
Bem fortificados com gordura, saímos do pub e cruzamos a cidade a pé, desviando de tratores e gritando um para o outro acima do ruído dos geradores, até que as ruas deram lugar a campos e o barulho desapareceu às nossas costas. Fazia um dia revigorante, com céu tempestuoso. O sol se escondia atrás de massas gigantescas de nuvens apenas para ressurgir momentos mais tarde e colorir as colinas com raios de luz espetaculares, e eu me sentia energizado e esperançoso. Estávamos nos dirigindo a uma praia rochosa onde, da balsa, meu pai avistara muitas aves. Eu não tinha, porém, certeza de como chegaríamos lá — a ilha lembrava ligeiramente a forma de um anfiteatro, com colinas que desciam suavemente até a borda de perigosos penhascos escarpados à beira-mar —, mas, nesse lugar específico, a borda do penhasco tinha sido circundada e havia uma trilha que levava a uma pequena faixa de areia nas margens.
Tomamos o caminho que descia até a praia, onde o que parecia ser uma civilização inteira de pássaros batia asas, gritava e pescava em poças deixadas pela maré baixa. Observei os olhos de meu pai se arregalarem.
— Fascinante! — murmurou ele, arranhando um pedaço de guano petrificado com a ponta de sua caneta. — Vou precisar de algum tempo aqui, tudo bem?
Eu já vira aquela expressão em seu rosto antes e sabia exatamente o que “algum tempo” significava: horas.
— Então eu vou achar a casa sozinho — disse eu.
— Não, sozinho não. Você prometeu.
— Vou procurar alguém que possa me levar.
— Quem?
— Kev deve conhecer alguém.
Meu pai olhou para o mar, onde um grande e enferrujado farol erguia-se sobre um monte de rochas empilhadas não muito longe da costa.
— Você sabe qual seria a resposta se sua mãe estivesse aqui — disse ele.
Meus pais tinham teorias diferentes sobre a quantidade de proteção paterna necessária para mim. Mamãe era mais severa, sempre no controle, mas meu pai era mais relaxado. Ele achava importante que eu cometesse meus próprios erros de vez em quando. Além disso, se me deixasse ir, estaria livre para brincar com guano o dia inteiro.
— Está bem — disse ele. — Mas não se esqueça de deixar no pub o número do telefone de quem quer que vá com você.
— Pai, ninguém aqui tem telefone.
Ele deu um suspiro.
— Está bem, desde que seja de confiança.

* * *

Kev tinha saído para resolver alguma coisa, e como chamar um de seus fregueses bêbados para me acompanhar era o mesmo que procurar encrenca, fui até o estabelecimento seguinte fazer minha pergunta a alguém que, pelo menos, tivesse um emprego remunerado — na porta, estava escrito PEIXEIRO —, só para me ver encolhido de medo diante de um gigante barbado com um avental sujo de sangue. O gigante parou de decapitar peixes e olhou para mim, com o cutelo respingante na mão, e eu jurei nunca mais ter preconceito contra alcoólatras.
— Mas pra quê? — rosnou o peixeiro quando contei a ele aonde queria ir. — Lá não tem nada além de pântanos e um tempo maluco.
Expliquei sobre meu avô e o orfanato. Ele virou-se para observar um garoto mais ou menos da minha idade que estava arrumando peixes numa gaveta do freezer, depois debruçou sobre o balcão para lançar um olhar desconfiado para meus sapatos.
— Acho que Dylan não está muito ocupado e pode levá-lo até lá — disse ele. — Mas você vai precisar de sapatos apropriados. Não é legal ir de tênis, eles vão ser sugados em um segundo pela lama.
— Sério? — disse eu. — Tem certeza?
— Dylan, pegue um par de botas de borracha para nosso amigo aqui!
O garoto resmungou e fez uma cena para fechar lentamente o freezer e limpar as mãos antes de se arrastar até uma parede de prateleiras cheias de produtos.
— Por acaso temos boas botas assim em oferta — disse o peixeiro. — Compre uma e leve a outra grátis! — Ele soltou uma gargalhada e bateu com o cutelo num salmão. A cabeça do peixe voou do balcão sujo de sangue para aterrissar perfeitamente num pequeno balde de guilhotina.
Pesquei do bolso o dinheiro para emergências que meu pai tinha me dado, pensando que uma pequena extorsão era um preço baixo a pagar para encontrar a mulher que eu cruzara o Atlântico para conhecer.
Saí da loja atrás de Dylan calçando um par de botas de borracha tão grandes que meus tênis cabiam dentro delas, e tão pesadas que era difícil acompanhar o ritmo de meu guia mal-humorado.
— Você estuda aqui na ilha? — perguntei a ele, apressando-me para alcançá-lo. Eu estava realmente curioso: como seria a vida ali para uma pessoa da minha idade? Ele murmurou o nome de uma cidade no continente.
— Quanto tempo: uma hora para ir e outra para voltar, de balsa?
— É.
E foi tudo. Ele respondeu a outras tentativas de conversa com menos entusiasmo ainda, então finalmente desisti e apenas o segui. Saindo da cidade, encontramo-nos com um amigo dele, um garoto mais velho, que vestia um agasalho esportivo amarelo-berrante e correntes de ouro falso no pescoço — uma figura que não pareceria mais deslocada em Cairnholm nem se estivesse vestida de astronauta. Ele cumprimentou Dylan batendo seu punho no dele e se apresentou como Verme.
— Verme? — disse eu, sentindo que isso exigia mais perguntas.
— É o nome artístico dele — explicou Dylan.
— Somos a dupla de rap mais sinistra do País de Gales — disse Verme. — Sou o MC Verme e esse é o Esturjão Cirurgião, vulgo MC Dirty Dylan, vulgo MC Dirty Business, o melhor human beat-box de Cairnholm. Quer mostrar a esse americano como a gente manda bem, Dylan?
Dylan pareceu sem graça.
— Agora?
— Manda ver uma batida pesada, irmão!
Dylan revirou os olhos, mas fez o que lhe foi pedido. No início achei que ele estivesse engasgando com a própria língua, mas havia um ritmo em seus pigarros balbuciados — pu-pu-ca, pu-pu-ca —, sobre o qual Verme começou a cantar rap.
— O Buraco do Padre é um lugar imundo/ Seu pai vai sempre lá porque é um vagabundo/ A minha rima é boa porque sou muito sinistro/ E o ritmo do Dylan é coisa de ministro!
Dylan parou.
— Isso não faz o menor sentido. E vagabundo é o seu pai.
— Ah, merda, Dirty Dylan, deixa o ritmo rolar! — Verme começou a fazer ele mesmo o beat-box e uma até razoável dança de robô, deixando marcas de tênis no cascalho. — Pega o microfone, D!
Dylan parecia envergonhado, mas mesmo assim começou a marcar o ritmo.
— Conheci a Sharon, uma mina de primeira/ Gostava da minha roupa, ela achava bem maneira/ Dei bom-dia a ela, como o doutor Who/ Quando fiz esta rima, eu vi um urubu.
Verme sacudiu a cabeça.
— Um urubu?
— Eu não estava preparado.
Eles se viraram para mim e perguntaram o que eu tinha achado. Levando em conta que nem mesmo eles tinham gostado do rap um do outro, eu não tinha certeza do que dizer.
— Acho que minha praia é mais música com cantores e guitarras, essas coisas.
Verme fez um aceno de mão desdenhoso.
— Ele não saberia diferenciar uma boa rima nem que ela o acertasse no meio das pernas — resmungou ele.
Dylan gargalhou e trocaram uma série de complexos apertos-de-mão-acenos-toques de vários estágios.
— Podemos ir agora? — perguntei.
Depois disso, os garotos ficaram ali enrolando e durante algum tempo me ignoraram, na esperança de que eu fosse embora, mas, como não fui, Dylan deu um suspiro e disse que era melhor a gente resolver logo aquilo. De repente estávamos novamente a caminho, dessa vez com a companhia de Verme. Eu ia atrás deles e tentava imaginar o que diria à srta. Peregrine quando a encontrasse.
Esperava ser apresentado a uma senhora galesa educada e beber chá na sala, conversando bobagens até que parecesse adequado dar a má notícia. Sou o neto de Abraham Portman, eu diria. Desculpe por ter de lhe dar a notícia, mas ele não está mais entre nós. Então, quando ela terminasse de enxugar as lágrimas em silêncio, eu a encheria de perguntas.
Segui os garotos galeses por uma trilha que fez uma curva no meio de um pasto de ovelhas atentas antes de subir por uma ladeira íngreme até o topo da colina. Lá no alto havia uma nuvem de neblina que baixava rapidamente, tão densa que parecíamos estar entrando em outro mundo. Era algo verdadeiramente bíblico: uma neblina que parecia um produto de Deus, em um de seus pequenos acessos de fúria, para amaldiçoar os egípcios. Quando começamos a descer do outro lado, ela pareceu ficar ainda mais densa. O sol esvaneceu-se em uma película branca e pálida. A umidade se agarrava a tudo, escorrendo pela minha pele e molhando minhas roupas. A temperatura caiu. Por um instante perdi Dylan e Verme em meio ao nevoeiro, e então a trilha ficou plana e deparei com eles parados à minha espera.
— Ô americano! — chamou Dylan. — Por aqui!
Segui, obediente. Deixamos a trilha e prosseguimos por entre um capinzal enlameado, onde ovelhas nos encaravam com grandes olhos úmidos, a lã molhada e o rabo pendurado. De repente, surgiu uma casinha no meio da névoa.
Estava com todas as janelas e portas fechadas com tábuas.
— Vocês têm certeza de que é essa? — perguntei. — Parece tão vazia.
— Vazia? De jeito nenhum, tem um monte de merda lá dentro — retrucou Verme.
— Vá lá — disse Dylan. — Dá uma olhada.
Eu tinha a sensação de que era alguma armação, mas mesmo assim fui até a porta e bati. Estava destrancada e se abriu um pouquinho quando a toquei.
Estava escuro demais para ver o que havia lá dentro, então dei um passo à frente — e, para minha surpresa, caí — no que parecia um chão de terra, mas que, logo percebi, era na verdade um oceano de excremento que batia na altura das canelas. Aquela casa desabitada, tão inocente quando vista de fora, era na verdade um estábulo de ovelhas improvisado. Quase literalmente um monte de merda.
— Ah, meu Deus! — gritei com nojo.
As gargalhadas explodiram do lado de fora. Voltei pela porta antes que o fedor me fizesse desmaiar e encontrei os garotos se dobrando de tanto rir.
— Vocês são uns babacas — disse eu, enquanto batia os pés no chão com força, para tentar limpar a sujeira das botas.
— Por quê? — perguntou Verme. — Dissemos que tinha um monte de merda lá!
Encarei Dylan com firmeza.
— Você vai me mostrar a casa ou não?
— Ele está falando sério — disse Verme, enxugando as lágrimas.
— É claro que estou falando sério!
O sorriso de Dylan se apagou.
— Achei que você estivesse zoando.
— O quê?
— Brincando com a gente.
— Bem, eu não estava.
Os garotos trocaram um olhar desconfortável. Dylan sussurrou algo para Verme. Verme sussurrou algo em resposta. Por fim Dylan se virou e apontou para a trilha.
— Se quer mesmo ir lá ver — disse ele —, siga em frente, atravesse a charneca e a mata. É um lugar grande e velho. Você não tem como errar.
— Mas que droga! Era para vocês irem até lá comigo!
Verme desviou o olhar e disse:
— A gente só vai até aqui.
— Por quê?
— Porque sim — disse Dylan. E eles se viraram e começaram a voltar pelo caminho por onde viemos, rapidamente desaparecendo na neblina.
Avaliei minhas opções. Podia colocar o rabo entre as pernas, seguir aqueles dois caras que tinham me atormentado e voltar para a cidade derrotado, ou ir em frente por conta própria e mentir para meu pai sobre isso.
Não era uma escolha lá muito difícil.

* * *

A charneca pantanosa se estendia nevoeiro adentro dos dois lados da trilha, apenas capim amarronzado, lama e água cor de chá até onde a vista alcançava, completamente plana, com a exceção de pilhas de pedras que surgiam de vez em quando. Terminava de repente em uma floresta de árvores esquálidas, com galhos que se erguiam como as cerdas molhadas de pincéis, e por algum tempo a trilha perdeu-se tanto em meio a troncos caídos e tapetes de hera que segui-la foi uma questão de fé. Eu me perguntei como uma pessoa idosa como a srta. Peregrine podia passar por uma trilha de obstáculos como aquela. Devem entregar lá tudo o que ela precisa, pensei, apesar de a trilha ter o aspecto de não ver uma pegada havia meses, senão anos.
Passei por cima de um tronco gigantesco e escorregadio por causa do musgo, e a trilha fez uma curva acentuada. De repente, as árvores se afastaram quase como uma cortina e lá estava ela, envolta na neblina, assomando no alto de uma colina coberta de hera. Compreendi no ato por que os garotos tinham se recusado a vir.
Meu avô a havia descrito cem vezes, mas em suas histórias a casa era sempre um lugar claro e feliz — grande e bagunçado, sim, mas cheio de luz e risos. O que havia diante de mim não era um refúgio de monstros, mas o próprio monstro, encarando-me com uma fome inexpressiva do alto de seu posto.
Árvores saíam de janelas quebradas e raízes de trepadeiras escabrosas corroíam as paredes como se fossem anticorpos atacando um vírus — era como se a própria natureza tivesse declarado guerra contra o lugar —, mas a casa parecia impossível de exterminar, mantendo-se de pé resolutamente, apesar da incorreção de seus ângulos e dos recortes irregulares de céu visíveis através de partes do telhado desmoronado.
Tentei me convencer de que ainda era possível que alguém vivesse ali, mesmo naquele estado. Essas coisas não eram raras de onde eu vinha — uma casa caindo aos pedaços nos limites da cidade, com cortinas permanentemente fechadas, que se revelava ser a casa de algum velho recluso que sobrevivia de macarrão instantâneo e unhas dos pés desde tempos imemoriais, apesar de ninguém se dar conta disso até que um corretor de imóveis ou um recenseador extremamente ambicioso abrisse caminho, entrasse e encontrasse a pobre alma voltando ao pó em cima de um sofá vagabundo. As pessoas ficam velhas demais para cuidar de um lugar, a família as abandona por alguma razão... é triste, mas acontece. O que significava que, gostando ou não, eu teria de bater à porta. Reuni toda a escassa coragem que tinha e avancei com dificuldade em meio ao mato pela altura da cintura até a varanda, onde havia apenas lajotas quebradas e madeira podre, e lá espiei por uma janela rachada em forma de teia. Tudo o que consegui ver através do vidro sujo foram as silhuetas de móveis, então bati à porta e dei um passo para trás, a fim de aguardar em meio a um silêncio assustador, apalpando a carta da srta. Peregrine em meu bolso. Eu a trouxera comigo caso precisasse provar quem era, mas após um minuto, depois dois, parecia cada vez menos provável que eu fosse precisar dela.
Saí para o quintal e dei a volta na casa em busca de outra entrada, enquanto tentava avaliar o tamanho do lugar, mas ele parecia não ter limites, como se de cada canto da casa em que eu virasse brotassem novas sacadas, pequenas torres e chaminés. Então cheguei aos fundos e vi uma oportunidade: uma soleira sem porta, coberta de trepadeiras, profunda e negra: uma boca aberta, só esperando para me engolir. Só de olhar para ela minha pele se arrepiou. Precisava fazer força até para manter meus pés parados ali. Mas eu não tinha vindo do outro lado do mundo para sair correndo e gritando ao ver uma casa assustadora. Pensei em todos os horrores que o vovô Portman encarara na vida e o motivo de eu estar ali, e senti minha determinação ganhar força. Se havia alguém a encontrar lá dentro, eu encontraria. Subi os degraus, cruzei o umbral e penetrei a escuridão.

* * *

Assim que entrei, parei em um vestíbulo escuro como uma tumba e encarei paralisado o que para todos os efeitos pareciam ser peles penduradas em ganchos, mas após um momento delicado, no qual imaginei um canibal louco saltando das trevas com uma faca, decidido a juntar meu couro macio à sua coleção, percebi serem apenas casacos, trapos apodrecidos e esverdeados pelo tempo. Suspirei aliviado. Tinha explorado só dois metros da casa e já estava quase sujando a cueca. Segura a onda, disse para mim mesmo. Respirei fundo e fui em frente, o coração batendo forte.
Cada aposento era um desastre pior que o outro. Jornais esparramados em pilhas; brinquedos espalhados, prova da existência de crianças que haviam partido havia muito tempo, jaziam jogados e cobertos por uma camada de poeira. O mofo rastejante deixara as paredes próximas às janelas negras e peludas. As lareiras estavam sufocadas por trepadeiras que desciam do telhado e começavam a se espalhar pelo chão como se fossem tentáculos alienígenas. A cozinha parecia uma experiência científica malsucedida — prateleiras inteiras de conservas tinham explodido após umas sessenta estações no estoque, deixando grandes manchas de aspecto maligno nas paredes —, e havia tanto gesso caído do teto da sala de jantar que por um instante pensei que tinha nevado lá dentro. No fim de um corredor desprovido de luz testei meu peso em uma escada caindo aos pedaços, deixando marcas de bota na camada de poeira. Os degraus gemiam, como se despertassem de um sono muito longo. Se havia alguém no segundo andar, devia estar lá fazia muito tempo.
Finalmente cheguei a dois aposentos com paredes em ruínas, nos quais havia crescido uma pequena floresta de arbustos e diminutas árvores retorcidas.
Parei diante de uma brisa repentina e me perguntei o que poderia ter causado tamanho estrago, começando a ter a sensação de que algo horrível acontecera ali. Não conseguia encaixar as histórias idílicas de meu avô naquela casa de pesadelo, nem a ideia de que ele encontrara refúgio naquele lugar impregnado com a sensação de desastre. Restava mais a explorar, mas de repente aquilo me pareceu perda de tempo. Era impossível que alguém ainda pudesse viver ali, nem mesmo o mais misantropo dos reclusos. Deixei a casa sentindo que estava mais longe que nunca da verdade.

Um comentário:

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Boa leitura :)