15 de abril de 2017

Capítulo sete

Entramos no quarto seguindo o assistente de Bentham, passamos pelos móveis de sempre, atravessamos o espaço onde deveria estar a parede dos fundos e saímos em um bosque denso de pinheiros. Era meio-dia, fim do outono ou início da primavera, o ar estava frio e com um travo de fumaça de lenha queimada.
Nossos pés faziam muito barulho enquanto caminhávamos por uma trilha antiga, e o trinado de um passarinho e o ronco baixo e crescente de água caindo eram os únicos outros barulhos. O assistente de Bentham falava pouco, o que não era problema algum; Emma e eu estávamos enérgicos, vibrando de tensão, e não tínhamos interesse em conversa fiada.
Passamos pelas árvores e saímos em uma trilha que fazia a volta na encosta de uma montanha. Uma paisagem de rochas cinzentas esparsas e faixas de neve. Pinheiros distantes pareciam as cerdas de uma escova. Corríamos em ritmo moderado, com cuidado para não nos cansarmos cedo demais. Depois de alguns minutos, dobramos uma curva e nos deparamos com uma cachoeira estrondosa.
Ali estava uma das placas prometidas por Bentham: POR AQUI, dizia, claro como o dia.


— Onde estamos? — perguntou Emma.
— Argentina — respondeu o assistente.
Obedecendo à placa, seguimos uma trilha que aos poucos foi sendo tomada por árvores e arbustos. Seguimos em frente afastando os arbustos espinhosos, a cachoeira se silenciando às nossas costas. A trilha terminava em um pequeno córrego. Seguimos seu curso por algumas centenas de metros até que ele, também, terminou, a água correndo para uma abertura no pé de uma encosta cuja entrada estava oculta por samambaias e musgos. O assistente se ajoelhou às margens do riacho, afastou uma cortina de ervas e então congelou.
— O que foi? — sussurrei.
Ele sacou uma arma do cinto e atirou três vezes na abertura. De lá veio um grito assustador, e em seguida uma criatura saiu rolando no riacho, morta.


— O que foi? — tornei a perguntar, olhando fixamente para a criatura. Ela era toda pelo e garras.
— Não sei — respondeu o assistente. — Mas estava esperando por vocês.
Não consegui identificar. Tinha um corpo volumoso, dentes pontiagudos e olhos gigantes e bulbosos, e até eles pareciam cobertos de pelo. Eu me perguntei se Caul a pusera ali, se talvez ele houvesse antecipado o plano do irmão e preparado armadilhas em todos os atalhos para seu Polifendador.
O riacho levou o corpo embora.
— Bentham disse que não tinha nenhuma arma — disse Emma.
— Ele não tem — disse o assistente. — Esta é minha.
Emma olhou para ele com expectativa.
— Bem, nós podemos pegar emprestada?
— Não. — Ele a guardou e apontou para a caverna. — Entrem por ali. Refaçam seus passos até o lugar de onde vieram. Aí vocês estarão entre os acólitos.
— Onde você vai estar?
Ele se sentou na neve.
— Aqui.
Olhei para Emma, e ela olhou para trás, nós dois tentando esconder que nos sentíamos muito vulneráveis. Tentando revestir de aço nosso coração. Para nos proteger do que poderíamos ver. Do que poderíamos fazer. Do que poderíamos sofrer.
Desci até o riacho e ajudei Emma a entrar. A água estava tão fria que nos fazia perder as sensações. Eu me abaixei para espiar no interior da caverna e vi a luz do dia brilhando suavemente na outra extremidade. Outra transformação, escuridão em luz, pseudonascimento.
Parecia não haver mais criaturas cheias de dentes à espera no interior, por isso eu afundei na água. O riacho cobriu minhas pernas e minha cintura em um torvelinho congelante que me tirou o fôlego. Ouvi Emma engasgar em seco às minhas costas enquanto fazia o mesmo, em seguida segurei a beirada da caverna e deslizei para dentro.
Estar imerso em água corrente gelada dói como ter o corpo todo perfurado com agulhas. Toda dor é motivadora, especialmente a desse tipo; eu me apressei e avancei com rapidez me apoiando no túnel de pedra, passando por cima de rochas afiadas e escorregadias e por partes baixas do teto, quase sufocando quando a água passava sobre meu rosto. Então saí e me virei para ajudar Emma.
Pulamos para fora da água congelante e olhamos ao redor. O lugar era idêntico ao outro lado da caverna, só não havia assistente, nenhum cartucho de bala na neve, nenhuma pegada. Como se tivéssemos atravessado um espelho e entrado no reflexo de um mundo, com exceção de alguns detalhes.
— Você está azul — disse Emma.
Ela me puxou para a margem e me abraçou. Seu calor passou por mim, devolvendo a sensação aos membros dormentes.
Fomos andando, refazendo cada passo da rota que fizéramos. Encontramos o caminho de volta por entre os arbustos morro acima e passamos pela cachoeira, toda a paisagem exatamente a mesma, exceto pela placa de POR AQUI que Bentham colocara para nós. Ela não estava ali. Aquela fenda não pertencia a ele.
Chegamos outra vez à pequena floresta. Corremos de árvore a árvore, usando cada uma como proteção até chegarmos ao lugar onde a trilha terminava e se transformava em um piso e em seguida em um quarto, emoldurado e oculto por um par de abetos cruzados. Mas aquele quarto era diferente do de Bentham: era espartano, sem mobília, sem papel de parede com papoulas, e o chão e as paredes eram de concreto liso. Entramos e procuramos por uma porta na escuridão, tateando até encontrar uma pequena maçaneta embutida.
Apertamos os ouvidos contra a porta, tentando escutar vozes ou passos. Ouvi apenas ecos indistintos.
Devagar e com cuidado, deslizei a porta e a entreabri. Enfiei a cabeça no vão para observar. Havia um largo corredor de pedra, limpo como um hospital e ofuscantemente claro, as paredes lisas denteadas com portas negras parecidas com túmulos, dezenas delas desaparecendo em uma curva pronunciada.
Era aquilo: a torre dos acólitos. Tínhamos entrado na cova dos leões.

* * *

Ouvi passos se aproximando. Recuei. Não havia tempo para fechar a porta.
Pelo vão, vislumbrei um vulto branco quando um homem passou. Ele caminhava depressa, vestindo um jaleco de laboratório, de cabeça baixa para ler um papel em sua mão.
Ele não me viu.
Esperei que os passos se afastassem e em seguida me espremi pela porta para o corredor. Emma me seguiu.


Esquerda ou direita? Para a esquerda havia uma subida, e para a direita, uma descida. Segundo Bentham, estávamos na torre de Caul, mas os prisioneiros dele estavam em outro local. Precisávamos sair. Descendo, então. Para a direita e para baixo.
Viramos à direita e descemos agarrados à parede do corredor em espiral. As solas de borracha dos meus sapatos rangiam. Eu não tinha percebido o barulho até então, e, no silêncio amplificado do corredor de paredes duras, cada passo fazia com que eu me encolhesse de medo.
Tínhamos seguido por pouco tempo, quando Emma se retesou e jogou o braço à frente do meu peito para me deter.
Nós escutamos. Com nossos passos silenciados, pudemos ouvir outros. Eles estavam à nossa frente, e perto. Corremos para a porta mais próxima, que se abriu com facilidade. Mergulhamos para dentro, a fechamos e apoiamos as costas nela.
O aposento em que entramos era redondo, tanto as paredes quanto o teto. Estávamos no interior de uma grande galeria de águas, com dez metros de diâmetro e ainda em construção. E não estávamos sozinhos. Onde a tubulação terminava e se abria para um dia chuvoso, havia uma dezena de homens sentados em um andaime na forma de tubo, nos encarando estupefatos.
Havíamos interrompido seu horário de almoço.
— Ei! Como vocês entraram aqui?
— Eles são crianças — disse outro. — Ei, isso aqui não é parquinho!
Eram americanos, e pareciam não saber o que pensar de nós. Não ousamos responder, por medo de que os acólitos no corredor nos ouvissem, e me preocupei que os gritos dos trabalhadores também atraíssem sua atenção.
— Está com aquele dedo? — sussurrei para Emma. — Agora parece uma boa hora para testar.
Era hora de mostrar o dedo para eles. Botamos as máscaras (molhadas pelo rio, mas ainda utilizáveis), Emma esfarelou um pedacinho do mindinho da Mãe Poeira e nós caminhamos pela tubulação na direção dos homens, tentando lançar a poeira em sua direção. Primeiro, Emma tentou soprá-la de sua mão em concha, mas a poeira apenas se agitou e subiu em uma nuvem em volta de nossas cabeças, o que fez meu rosto formigar e ficar um pouco dormente. Em seguida, eu tentei jogá-la, mas não funcionou. A poeira, aparentemente, não era muito boa como arma ofensiva. Àquela altura, os construtores da tubulação estavam ficando impacientes, e um saltara do andaime para nos retirar à força.
Emma guardou o dedo e criou uma chama com a mão, o que causou um puf!, transformando a poeira que pairava no ar instantaneamente em fumaça.
— Ei! — disse o homem.
Ele começou a tossir e logo despencou no chão, ferrado no sono. Quando alguns de seus amigos correram para ajudá-lo, eles também se tornaram vítimas da nuvem de fumaça anestésica e caíram no chão ao seu lado.
Agora os trabalhadores restantes estavam com medo e gritando conosco.
Corremos de volta para a porta antes que a situação piorasse. Conferi se a barra estava limpa, e saímos para o corredor.
Quando fechei a porta, o som das vozes dos homens foi completamente emudecido, como se eu não os houvesse apenas fechado lá dentro, mas de algum modo os tivesse desligado.
Corremos um pouco, então paramos e tentamos ouvir passos. Depois corremos mais, paramos de novo e escutamos, intercalando ação e silêncio enquanto descíamos a torre espiralada. Por mais duas vezes, ouvimos a aproximação de pessoas e corremos para nos esconder por trás de portas.
Dentro de uma havia uma floresta tropical com os gritos de macacos, e outra abria para um aposento de tijolos, além do qual havia chão de terra batida e assomavam montanhas.
O piso ficou plano, e o corredor, reto. Depois da última curva havia um par de portas duplas com uma claridade de luz natural brilhando por baixo delas.
— Não devia haver mais guardas por perto? — perguntei, nervoso.
Emma deu de ombros e, com um gesto de cabeça, indicou as portas, que pareciam ser a única saída da torre. Eu estava prestes a abri-las quando ouvi vozes do outro lado. Um homem contando uma piada. Eu só conseguia ouvir o burburinho de sua voz, não as palavras, mas era sem dúvida uma piada, porque quando ele terminou houve uma erupção de risos.
— Seus guardas — disse Emma, como um garçom apresentando uma refeição requintada.
Nós podíamos esperar e torcer para que fossem embora, ou abrir a porta e enfrentá-los. A última opção era mais corajosa e rápida, por isso invoquei o novo Jacob e lhe disse que íamos abrir a porta e lutar, e, por favor, que ele não discutisse a questão com o Velho Jacob, que iria inevitavelmente choramingar e resistir. Quando consegui resolver isso tudo, Emma já estava em ação.
Em silêncio e com velocidade, ela abriu uma das portas de vaivém. À nossa frente estavam dispostas as costas de cinco acólitos em uniformes diferentes, todos portando na cintura pistolas modernas como as usadas pela polícia de hoje.
Estavam de pé e despreocupados, olhando para o outro lado. Ninguém tinha visto a porta se abrir. À frente deles havia um pátio cercado de prédios com aparência de alojamentos, e ao fundo erguia-se o muro da fortaleza. Apontei meu dedo na direção do dedo escondido no bolso de Emma e disse dormir com a boca, sem emitir som. Com isso eu queria dizer que deixar aqueles acólitos inconscientes e arrastá-los para dentro da torre parecia a atitude mais conveniente a tomar. Ela entendeu, fechou parcialmente a porta e começou a sacar o dedo. Eu peguei as máscaras que estavam guardadas em meu cinto.


Então, ao longe, uma massa flamejante de alguma coisa passou por cima da muralha da fortaleza, voou em nossa direção em um arco gracioso e se estatelou no meio do pátio, espirrando gotas de fogo por toda parte e lançando os guardas em um estado de agitação. Dois se arriscaram a ver o que tinha aterrissado, e, enquanto se abaixavam para examinar a gosma em chamas, outro pedaço chegou voando por cima do muro e acertou um deles. Ele foi derrubado no chão, com o corpo em chamas. (Pelo cheiro, que era forte e viajava rápido, aquilo era uma mistura de gasolina com excremento.)
Os guardas restantes correram para apagá-lo. Um alarme alto começou a soar. Em segundos, acólitos começaram a sair dos prédios em torno do pátio, indo em disparada à muralha. O ataque de Sharon tinha começado, abençoado seja ele, e não poderia ter sido em momento mais preciso. Com alguma sorte, aquilo nos daria cobertura suficiente pelo menos por alguns minutos. Eu não conseguia imaginar que demorasse mais que isso para os acólitos rechaçarem alguns viciados em ambro armados com catapultas.
Examinamos o pátio. Era cercado de prédios baixos por três lados, cada um mais ou menos idêntico ao seguinte. Não havia setas piscando nem letreiros em neon anunciando a presença de ymbrynes. Precisaríamos vasculhar o local o mais rápido possível e torcer para termos sorte.
Três dos acólitos haviam corrido até o muro, deixando dois para trás para apagar o que estava coberto por excremento em chamas. Eles o estavam rolando na terra, de costas para nós.
Escolhemos um prédio qualquer — o da esquerda — e corremos na direção da porta. Lá dentro havia uma sala grande abarrotada com o que parecia e cheirava a roupas de segunda mão. Cruzamos um corredor onde se encontravam alinhadas roupas de todos os tipos, de todas as épocas e culturas, todas etiquetadas e organizadas. Um guarda-roupa, talvez, para toda fenda em que os acólitos tivessem se infiltrado. Talvez o cardigã que o dr. Golan sempre usava em nossas sessões estivesse pendurado naquela sala.
Mas nossos amigos não estavam ali, tampouco as ymbrynes, por isso saímos pelos corredores à procura de um caminho para o prédio seguinte que não nos levasse de volta ao pátio exposto.
Não havia nenhum. Nós teríamos que arriscar outra corrida lá fora.
Fomos até a porta, observamos pela fresta e esperamos enquanto um retardatário corria pelo pátio, vestindo o uniforme de guarda no caminho. Quando a barra estava limpa, saímos correndo em campo aberto.
Objetos catapultados caíam por toda a nossa volta. Depois de ficar sem excremento, o exército improvisado de Sharon começara a atirar outras coisas: tijolos, lixo, pequenos animais mortos. Ouvi um desses projéteis proferir uma série de palavrões ao atingir o solo e reconheci a forma enrugada de uma cabeça de ponte girando pelo chão. Se meu coração não estivesse batendo tão tremendamente forte, talvez eu tivesse rido alto.
Conseguimos cruzar o pátio até o prédio em frente. A porta parecia promissora: pesada e de metal, e sem dúvida estaria vigiada se os guardas não tivessem abandonado o posto para se dirigir ao muro. Com certeza havia algo importante no interior.
Era um pequeno laboratório revestido de ladrilhos brancos e com cheiro forte de produtos químicos. Meus olhos foram atraídos por um armário cheio de instrumentos cirúrgicos terríveis, todos de aço e brilhantes. Um zumbido grave atravessava as paredes (a pulsação dissonante de máquinas) e outra coisa, também...
— Ouviu isso? — perguntou Emma, tensa, atenta.
Eu ouvi. Era um som prolongado, acelerado e inarticulado, mas nitidamente humano. Alguém rindo.
Nós trocamos um olhar intrigado. Emma me entregou o dedo da Mãe Poeira e acendeu uma chama na mão, e nós dois pusemos nossas máscaras. Prontos para tudo, pensamos, embora em retrospecto não estivéssemos em nada preparados para o show de horrores que nos aguardava.
Passamos por salas que agora tenho dificuldade em descrever porque tentei apagá-las da memória. Cada uma era um pesadelo pior que o outro. A primeira era um pequeno anfiteatro cirúrgico, a mesa armada com correias e algemas. Recipientes de porcelana junto da parede estavam prontos para recolher fluidos que escorressem. Depois, vinha uma área de pesquisa onde havia crânios pequeninos e outros ossos conectados a equipamentos elétricos e medidores. As paredes estavam cobertas de fotos Polaroid documentando experimentos realizados em animais. Àquela altura, estávamos tremendo, encobrindo os olhos.
O pior ainda estava por vir.
Na sala seguinte havia um experimento real em andamento. Surpreendemos duas enfermeiras e um médico realizando algum procedimento horripilante em uma criança. Eles tinham um menino esticado entre duas mesas, com jornais estendidos embaixo para receber os respingos. Uma enfermeira segurava os pés enquanto o médico agarrava a cabeça e olhava com frieza nos olhos do menino.
Quando se viraram e nos viram com as máscaras de poeira e as mãos em chamas, eles gritaram por ajuda, mas não havia ninguém para ouvi-los. O médico correu até uma mesa cheia de instrumentos cortantes, mas Emma foi mais rápida que ele e, depois de uma luta breve, ele levantou as mãos em derrota. Encurralamos os adultos no canto e exigimos que nos dissessem onde eram mantidos os prisioneiros. Eles se recusaram a dizer, por isso soprei poeira em seus rostos até desabarem em uma pilha no chão.
O menino estava atônito, mas ileso. Parecia não conseguir produzir mais que um gemido em resposta a nossas perguntas apressadas — Você está bem? Há outros como você? Onde? —, por isso achamos melhor escondê-lo provisoriamente. Nós o envolvemos em um lençol para aquecê-lo e, em meio a promessas de voltar, que eu esperava conseguir cumprir, o pusemos em um armário pequeno.
A sala seguinte era ampla e sem divisórias, como uma enfermaria de hospital. Havia vinte ou mais camas acorrentadas às paredes, e peculiares, tanto adultos quanto crianças, presos com correias às camas. Nenhum parecia consciente. Agulhas e tubos serpenteavam das solas de seus pés até bolsas que se enchiam lentamente de líquido negro.
— Eles estão sendo drenados — disse Emma, com a voz trêmula. — Estão extraindo suas almas.
Eu não queria olhar, mas era preciso.
— Quem está aqui, quem está aqui, quem é você — murmurava eu enquanto corríamos de cama em cama.
Eu torcia, vergonhosamente, para que nenhum daqueles pobres coitados fosse nosso amigo. Mas reconhecemos vários: a garota telecinética, Melina; os irmãos pálidos, Joe-e-Peter, separados para que não houvesse nenhuma chance de outra explosão destruidora. Seus rostos estavam contorcidos; os músculos, tensos; e os punhos, cerrados mesmo durante o sono, como se os dois fossem presas de sonhos terríveis.





— Meu Deus — disse Emma. — Eles estão tentando lutar contra isso.
— Então vamos ajudar — falei, e, me aproximando do pé da cama de Melina, puxei cuidadosamente a agulha de seu pé.
Uma pequena gota de líquido negro vazou do ferimento. Depois de um momento, o rosto dela relaxou.
— Olá — disse uma voz em outro lugar da sala.
Nos viramos para trás. Havia um homem com as pernas acorrentadas sentado no canto. Ele estava encolhido, parecendo uma bola negra, se balançava e ria sem sorrir, com olhos que pareciam fragmentos de gelo preto.
Fora seu riso frio que tínhamos ouvido ecoar pelas salas.


— Onde estão os outros? — perguntou Emma, se ajoelhando diante dele.
— Ora, eles estão todos bem aqui! — disse o homem.
— Não, os outros. Tem que haver mais.
Ele riu outra vez, seu hálito saindo em uma pequena nuvem gélida, o que era estranho, porque não estava frio na sala.
— Vocês estão em cima deles — disse o homem.
— Diga algo que faça sentido! — gritei, perdendo a calma. — Não temos tempo para isso!
— Por favor — implorou Emma. — Nós somos peculiares. Estamos aqui para ajudar vocês, mas primeiro temos que encontrar nossas ymbrynes. Elas estão em qual prédio?
— Vocês. Estão. Em cima deles — repetiu o homem, bem devagar, e suas palavras sopraram uma corrente prolongada de ar gelado em nosso rosto.
Quando eu estava prestes a agarrá-lo e sacudi-lo, o homem levantou um braço e apontou para algo atrás de nós. Eu me virei e percebi, camuflada no chão de lajotas, uma maçaneta e o contorno quadrado da portinhola de um alçapão.
Em cima deles. Literalmente.
Corremos até lá, giramos a maçaneta e puxamos uma portinhola no chão. Uma escadaria de metal descia em espiral pela escuridão.
— Como podemos saber que você está dizendo a verdade? — perguntou Emma.
— Não podem — disse o homem, com razão.
— Vamos tentar — falei.
Não havia, afinal de contas, nenhum outro lugar para ir além de voltar por onde tínhamos vindo.
Emma parecia dividida, seu olhar viajando da escada abaixo para as camas à nossa volta. Eu sabia o que ela estava pensando, mas ela sequer pediu, pois não havia tempo para ir de cama em cama, desconectando todo mundo. Nós teríamos que voltar por eles. Eu só esperava que, quando fizéssemos isso, houvesse algo para o que voltar.

* * *

Emma pegou a escada de metal e desceu pelo buraco escuro no chão. Antes de ir atrás dela, olhei nos olhos do louco e levei o dedo aos lábios. Ele sorriu e copiou meu gesto. Eu esperava que ele levasse aquilo a sério. Guardas logo chegariam ali, e se ele ficasse de boca fechada talvez não nos seguissem pelo alçapão. Comecei a descer a escada e fechei a portinhola atrás de mim.
Emma e eu nos encolhemos no alto, atrás do eixo cilíndrico e estreito da escada em caracol, e olhamos para baixo. Ao sair da sala iluminada acima, nossos olhos demoraram um pouco para se adaptarem àquela masmorra praticamente sem luz, construída com rocha bruta.
Ela apertou meu braço e sussurrou em meu ouvido:
— Celas.
Apontou.
Mal iluminadas, elas surgiram à vista: as grades de uma cela de prisão.
Descemos com cuidado. O espaço começou a se revelar: estávamos no fim de um longo corredor subterrâneo com uma sequência de celas, e, apesar de não conseguirmos ver quem estava dentro delas, eu tive um momento exaltado de esperança. Era ali. Aquele era o lugar que queríamos encontrar.
Então ouvimos um repentino ruído de botas no corredor. Fui tomado por uma onda de adrenalina. Havia um guarda patrulhando, com rifle no ombro e pistola na cintura. Ele ainda não tinha nos visto, mas ia ver a qualquer momento.
Estávamos longe demais do alçapão para escapar por onde viéramos e longe demais do chão para pular com facilidade e enfrentar o guarda, por isso nos agachamos e nos encolhemos, na esperança de que o corrimão comprido e estreito fosse suficiente para nos esconder.
Mas não seria. Estávamos quase ao nível dos olhos dele. Ele estava a vinte passos de distância, depois quinze. Precisávamos fazer alguma coisa.
Então eu fiz.
Eu me levantei e desci a escada. Ele me viu na hora, é claro, mas antes que pudesse dar uma boa olhada eu comecei a falar.
Alto e com autoridade, perguntei:
— Você não ouviu o alarme? Por que não está lá fora defendendo o muro?
Quando ele percebeu que eu não era uma pessoa de quem recebia ordens, eu já tinha chegado ao chão, e quando ele foi pegar sua arma, eu já havia percorrido metade da distância entre nós, arremetendo em sua direção como um jogador de futebol americano. Acertei o guarda com o ombro no instante em que ele puxou o gatilho. A arma rugiu, o tiro ricocheteou atrás de mim. Nós dois nos estatelamos no chão. Cometi o erro de tentar impedir que disparasse outro tiro enquanto tentava usar com ele o dedo da Mãe Poeira, que agora eu guardava no fundo do meu bolso direito. Como eu não tinha braços suficientes para fazer os dois, ele me tirou de cima dele e se levantou. Tenho certeza de que seria meu fim se ele não tivesse visto Emma correndo em sua direção com as mãos em chamas.
O guarda disparou uma saraivada de balas, mas sem alvo e alto demais, o que me deu a oportunidade de ficar de pé e atacá-lo de novo. Eu o derrubei, e caímos pelo corredor, suas costas batendo nas grades de uma das celas. Ele me golpeou com o cotovelo, me atingindo em cheio no rosto, e eu girei e caí. Ele começou a erguer a arma para atirar em mim, e nem Emma nem eu estávamos perto o suficiente para detê-lo.
De repente, um par de mãos carnudas saiu da escuridão, passou pela grade e segurou o guarda pelo cabelo. Sua cabeça foi puxada bruscamente para trás e retiniu contra as barras da grade como um sino.
O guarda ficou imóvel e deslizou para o chão. Em seguida, Bronwyn se adiantou no interior da cela, encostou o rosto nas barras e sorriu.
— Sr. Jacob! Srta. Bloom!
Eu nunca tinha ficado tão feliz por encontrar alguém. Os olhos bons e grandes, o queixo forte, o cabelo castanho escorrido: era Bronwyn! Enfiamos os braços pela grade e a abraçamos da melhor maneira possível. Estávamos tão felizes e aliviados que começamos a balbuciar.
— Bronwyn, Bronwyn — engasgou Emma. — É você mesmo?
— É você, senhorita? — disse Bronwyn. — Nós rezamos e torcemos e, ah, eu estava com tanto medo de que os acólitos tivessem pegado vocês...
Bronwyn estava nos apertando contra as grades com tanta força que achei que eu fosse estourar. As barras eram grossas como tijolos e feitas de algo mais forte que ferro, então percebi que essa era a única razão para Bronwyn não ter escapado de sua cela.
— Não consigo... respirar — gemeu Emma, e Bronwyn se desculpou e nos soltou.
Só então pude olhar direito para ela, e percebi um hematoma no seu rosto e uma marca escura que podia ser uma mancha de sangue na lateral da sua blusa.
— O que eles fizeram com você? — perguntei.
— Nada sério. E algumas ameaças.
— E os outros? Onde estão os outros? — perguntou Emma, novamente em pânico.
— Aqui! — disse uma voz, dos fundos do corredor.
— Aqui! — ecoou outra.
Então eu me virei e vi, apertados contra as grades das celas alinhadas no corredor, o rosto de nossos amigos. Lá estavam eles: Horace e Enoch, Hugh e Claire, Olive ofegando para nós através das grades, do alto de sua cela, de costas contra o teto. Todos ali, todos respirando e vivos, exceto Fiona, que caíra do precipício na coleção de animais da srta. Wren. Mas chorar por ela era um luxo com o qual não podíamos arcar naquele momento.
— Ah, graças às aves, às malditas aves milagrosas! — exclamou Emma, correndo para pegar a mão de Olive. — Vocês não imaginam como estávamos preocupados!
— Não chega nem à metade da preocupação que a gente estava sentindo — disse Hugh, dos fundos do corredor.
— Eu falei que vocês vinham nos buscar! — disse Olive, quase chorando. — Falei várias vezes, mas Enoch sempre dizia que eu era doida de acreditar nisso...
— Não importa, eles estão aqui agora! — disse Enoch. — Droga, por que vocês demoraram tanto?
— Como, em nome de Perplexus, vocês nos encontraram? — perguntou Millard.
Ele era o único que os acólitos tinham se dado ao trabalho de vestir com uniforme de presidiário: um moletom listrado que o tornava fácil de ver.
— Vamos contar toda a história — disse Emma. — Mas primeiro precisamos encontrar as ymbrynes e tirar vocês daqui!
— Elas estão no fim do corredor! Depois da porta grande! — exclamou Hugh.
No final do corredor havia uma porta de metal enorme. Parecia pesada o suficiente para proteger um cofre de banco ou deter um etéreo.
— Vocês vão precisar da chave — disse Bronwyn, apontando para um molho no cinto do guarda inconsciente. — É a dourada grande. Eu tenho vigiado ele!
Corri até o guarda e arranquei as chaves de seu cinto. Aí parei congelado com elas na mão, meus olhos se dividindo entre as portas das celas e Emma.
— Corra e nos solte! — disse Enoch.
— Com qual chave? — perguntei.
Eram dezenas, todas idênticas, menos a dourada.
Emma ficou muito desapontada.
— Ah, não...
Mais guardas iriam chegar em breve, e destrancar todas as celas iria custar minutos preciosos. Por isso, fomos até o fim do corredor, destrancamos a porta e demos a chave para Hugh, cuja cela era a mais próxima.
— Liberte os outros! — falei.
— Depois fique aqui até a gente voltar para buscar vocês — acrescentou Emma.
— Sem chance! Vamos com vocês! — reclamou Hugh.
Não havia tempo para discutir, e no fundo fiquei aliviado ao ouvir isso. Depois de todo aquele tempo lutando sozinhos, eu estava ansioso para ter algum apoio.
Emma e eu abrimos a porta grande que parecia um bunker, demos uma última olhada para nossos amigos e os deixamos.

* * *

Do outro lado da porta havia uma grande sala retangular atulhada de móveis utilitários e iluminada de cima por lâmpadas fluorescentes esverdeadas. Ela estava fazendo sua melhor imitação de um escritório, mas não me enganou. A parede era macia, com espuma à prova de som. A porta era tão grossa que aguentaria uma explosão nuclear. Aquilo não era nenhum escritório.
Podíamos ouvir alguém se mover nos fundos da sala, mas nossa visão estava bloqueada por um arquivo volumoso. Toquei o braço de Emma e gesticulei com a cabeça — vamos —, e começamos a avançar em silêncio, na esperança de surpreender quem quer que estivesse ali conosco.
Captei o vislumbre de um jaleco branco e da cabeça parcialmente calva de um homem. Com certeza não era uma ymbryne. Será que não tinham ouvido a porta ser aberta? Não, não tinham, e então eu percebi por quê: estavam ouvindo música. Uma voz feminina cantava um rock melódico e grudento, uma canção antiga que eu já tinha ouvido antes, mas de cujo nome não me lembrava. Era muito estranho, muito deslocado ouvir aquilo justamente ali, naquele momento.
Avançamos lentamente, o som alto o bastante apenas para mascarar nossos passos, e passamos por escrivaninhas cobertas de papéis e mapas. Uma prateleira presa a uma parede continha centenas de vidrinhos cheios de líquido negro com partículas prateadas rodopiando em seu interior. Olhei mais atentamente e vi que todos eles estavam identificados em letras pequenas, com os nomes das vítimas cujas almas continham.


Olhando de trás do arquivo, vimos um homem vestindo um jaleco, de costas para nós, sentado a uma escrivaninha folheando papéis. Ao redor dele havia um show de horrores de anatomia aleatória. Um braço sem pele, com a musculatura exposta; uma coluna vertebral pendurada na parede como se fosse um troféu; alguns órgãos sem sangue espalhados sobre a mesa como peças perdidas de um quebra-cabeça. O homem estava escrevendo alguma coisa, balançando a cabeça, cantarolando junto com a música — algo sobre amor, algo sobre milagres.
Saímos de onde estávamos e seguimos na direção dele. Lembrei onde ouvira a música pela última vez: no dentista, enquanto um instrumento de metal perfurava a carne macia e rosada de minhas gengivas.
— You make loving fun...
Agora estávamos a apenas alguns passos de distância. Emma estendeu o braço, pronta para criar fogo. Mas pouco antes de alcançarmos o homem, ele falou conosco:
— Olá, eu estava esperando por vocês.
Era uma voz pegajosa e suave que eu jamais esqueceria. Caul.
Emma invocou chamas que brotaram das palmas de suas mãos com o som do estalo de um chicote.
— Conte onde estão as ymbrynes e talvez eu poupe sua vida!
Assustado, o homem girou para trás em sua cadeira. O que vimos nos assustou também: abaixo de seus olhos arregalados, seu rosto era uma ruína de carne derretida. Aquele homem não era Caul, não era sequer um acólito, e não podia ter sido ele quem havia falado. Os lábios do homem estavam fundidos juntos. Nas mãos ele segurava um lápis e um pequeno controle remoto. Havia uma etiqueta com nome em seu jaleco.
Warren.
— Nossa, vocês não fariam mal ao velho Warren, fariam? — Outra vez a voz de Caul, vindo do mesmo lugar que a música: um alto-falante na parede. — Se bem que não faria muita diferença. Ele é só meu residente.
Warren afundou na cadeira giratória, olhando com medo para a chama na mão de Emma.
— Onde está você? — gritou Emma, olhando ao redor.
— Isso não importa! O importante é que vocês vieram me ver. Estou contente! É tão mais fácil que caçá-los!
— Temos um exército inteiro de peculiares a caminho! — blefou Emma. — A multidão em seus portões é só a ponta da lança. Diga onde estão as ymbrynes e talvez possamos resolver isso de forma pacífica!
— Exército! — exclamou Caul, rindo. — Com o que sobrou de peculiares em Londres preparados para a luta, não dá para formar nem uma brigada de incêndio, muito menos um exército. Quanto às suas ymbrynes patéticas, poupem suas ameaças vazias. Eu mostro com prazer onde elas estão. Warren, você faria as honras?
Warren apertou um botão no controle remoto e, com um movimento barulhento, um painel deslizou para o lado em uma das paredes laterais. Atrás, havia uma segunda parede, feita de vidro, que dava para uma sala ampla envolta em sombras.
Nós nos apertamos contra o vidro, protegendo os olhos com as mãos para enxergar. Aos poucos, surgiu à nossa vista um espaço que lembrava um porão abandonado, com móveis e cortinas pesadas e formas humanas em posturas estranhas, muitas das quais pareciam, como os órgãos soltos na mesa de Warren, ter tido a pele arrancada.
Meu Deus o que ele fez com elas...
Meus olhos correram de um lado para outro. Meu coração batia acelerado no peito.
— Aquela é a srta. Swallow*! — exclamou Emma, e então eu também a vi.
Ela estava sentada de lado em uma cadeira, masculina e de rosto achatado, com tranças perfeitamente simétricas caindo dos dois lados da cabeça.
Batemos no vidro e a chamamos, mas ela apenas olhava fixamente, em torpor, sem reagir.


* Em português, “andorinha”. (N. da E.)


— O que você fez com ela? — gritei. — Por que ela não responde?
— Ela teve parte da alma removida. Isso costuma entorpecer o cérebro.
— Seu canalha! — gritou Emma, e socou o vidro. Warren recuou sua cadeira de rodinhas para o canto. — Seu covarde perverso e desprezível...
— Ah, calma. Eu só peguei um pouco de sua alma, e o resto de suas babás está com saúde perfeita, embora seu ânimo, não.
Uma luz forte se acendeu no teto da sala bagunçada, e de repente ficou claro que a maioria das figuras eram apenas bonecos, manequins ou algum tipo de modelo anatômico, pois obviamente não eram reais. Posavam como estátuas, com os tendões e músculos todos flexionados e salientes. Mas entre eles, amordaçadas e amarradas a cadeiras e estacas de madeira, piscando e apertando os olhos contra a luz repentina, havia pessoas reais, vivas. Mulheres.
Não tive tempo para contar, mas pareciam ser oito ou dez, a maioria delas mais velha, desgrenhada, mas de aparência respeitável.
Nossas ymbrynes.
— Jacob, são elas! — exclamou Emma. — Você está conseguindo ver a senhori...?
A luz se apagou antes que pudéssemos encontrar a srta. Peregrine, e meus olhos, inúteis na escuridão, não viam nada através do vidro.
— Ela está aí, também. Sua ave piedosa, sua babá... — disse Caul, com um suspiro entediado.
— Sua irmã — falei, na esperança de injetar alguma humanidade nele.
— Eu odiaria ser obrigado a matá-la. E imagino que isso não será necessário, desde que você me dê o que quero.
— E o que é? — perguntei, me afastando do vidro.
— Nada de mais. Só um pouquinho da sua alma — provocou ele, de um jeito descontraído.
— O quê?! — gritou Emma.
Dei uma risada alta.
— Ora, ora, me escutem! Eu nem quero a alma inteira. Só o suficiente para encher um conta-gotas. Menos ainda do que tirei da srta. Swallow. Sim, isso vai atordoar você por algum tempo, mas em poucos dias você recupera completamente suas faculdades.
— Você quer minha alma porque acha que isso vai ajudar você a usar a Biblioteca. E se apropriar de todo aquele poder.
— Vejo que tem conversado com meu irmão — retrucou Caul. — É bom que você também saiba: estou quase lá. Depois de uma vida inteira de buscas, finalmente encontrei Abaton. E as ymbrynes, esse grupo perfeito de ymbrynes, destrancaram a porta para mim. Infelizmente, só então eu descobri que precisaria de outro componente. De um peculiar com um talento muito específico, raramente visto no mundo de hoje. Eu quase havia desistido de encontrar tal pessoa quando percebi que talvez o neto de certo peculiar talvez se encaixasse no papel, e aquelas ymbrynes, agora inúteis para mim, poderiam servir de isca. E deu certo! Acredito que seja o destino, meu rapaz. Você e eu, nós vamos entrar para a história do mundo peculiar juntos.
— Nós não vamos a lugar nenhum juntos — respondi. — Se você conseguir esse tipo de poder, vai transformar o mundo em um verdadeiro inferno.
— Você não me compreende — prosseguiu ele. — Isso não me surpreende. A maioria não compreende. Sim, tive que transformar o mundo em um inferno para quem ficou em meu caminho, mas agora que quase alcancei meu objetivo, estou pronto para ser generoso. Magnânimo. Clemente.
A música, ainda tocando ao fundo, se reduzira a uma faixa calma e instrumental, tão diferente do meu pânico que até me deu um calafrio.
— Vamos finalmente viver em paz e harmonia — disse ele, com uma voz suave e reconfortante. — E eu serei seu rei, seu deus. Essa é a hierarquia natural do mundo peculiar. Nunca fomos feitos para viver assim, descentralizados e fracos. Governados por mulheres. Não vamos mais nos esconder quando eu estiver no poder. Chega de se encolher de medo pateticamente embaixo das saias das ymbrynes. Como peculiares, temos lugar de honra à mesa da humanidade. Vamos governar a terra. Vamos finalmente herdar o que é nosso!
— Se acha que vamos ter algum papel nisso, você está maluco — replicou Emma.
— Eu já esperava isso de você, garota. Você é o típico peculiar criado por ymbrynes: sem ambição e sem noção, além de se achar superior. Silêncio, estou falando com o homem — ordenou Caul.
O rosto de Emma ficou tão vermelho quanto a chama em sua mão.
— Continue — falei, pensando nos guardas que provavelmente estavam a caminho e em nossos amigos, que ainda deviam estar atrapalhados com as chaves no corredor.
— Eis minha oferta. Permita que meus especialistas realizem o procedimento em você, e quando eles tiverem obtido o que quero, eu liberto você, seus amigos e suas ymbrynes. Elas, então, não vão ser mais nenhuma ameaça para mim.
— E se eu me recusar?
— Se não permitir que eu remova sua alma com facilidade e sem dor, então meus acólitos terão grande prazer em intervir. Entretanto, eles não são conhecidos pelas boas maneiras, e quando terminarem com você, infelizmente não terei condições de impedi-los de prosseguir com suas ymbrynes. Então, veja, terei o que quero de qualquer maneira.
— Isso não vai funcionar — disse Emma.
— Está se referindo ao pequeno truque do garoto? Soube que ele é capaz de controlar um etéreo, mas e dois ao mesmo tempo? Ou três, ou cinco?
— Quantos eu quiser — falei, tentando parecer confiante, imperturbável.
— Eu gostaria muito de ver — disse Caul. — Devo tomar isso como sua resposta, então?
— Tome como quiser. Não vou ajudar você — falei.
— Que ótimo — disse Caul. — Assim vai ser muito mais divertido!
Ouvimos Caul rindo pelo sistema de som, depois me assustei com uma campainha alta.
— O que você fez agora? — disse Emma.
Senti uma pontada forte no estômago, e, sem que Caul precisasse explicar nada, pude visualizar exatamente o que estava acontecendo: em um túnel um andar abaixo da sala das ymbrynes, um etéreo havia sido libertado do interior das profundezas do complexo. Ele estava se aproximando, subindo na direção de uma grade no chão que se abria lentamente. Logo estaria entre as ymbrynes.
— Caul está mandando um etéreo! Ele está chegando àquela sala! — exclamei.
— Vamos começar só com um etéreo — ameaçou Caul. — Se você conseguir lidar com ele, vou apresentar os amigos dele a vocês.
Eu bati no vidro.
— Deixe a gente entrar!
— Com prazer. Warren?
Warren apertou outro botão do controle remoto. Uma parte do vidro do tamanho de uma porta se abriu.
— Eu vou lá. Você fique aqui e vigie-o! — falei para Emma.
— Se a srta. Peregrine está aí dentro, eu vou também — respondeu ela.
Estava claro que não havia como convencê-la do contrário.
— Então vamos levar ele com a gente — falei.
O assistente tentou fugir às pressas, mas Emma o pegou pelas costas do jaleco.
Passei correndo pela porta e entrei na sala escura e bagunçada, e Emma veio atrás de mim puxando pela gola o internista sem boca, relutante.
Ouvi o barulho da porta de vidro se fechando às nossas costas.
Emma xingou. Eu me virei para olhar.
O controle remoto estava do outro lado da porta, no chão. Estávamos trancados lá dentro.

* * *

Estávamos na sala havia alguns segundos quando Warren conseguiu se soltar de Emma e sair aos tropeções pela escuridão. Emma ia atrás dele, mas eu a segurei; ele não importava, afinal. O que importava era o etéreo, que agora estava quase escapando de sua cova e entrando na sala.
Ele estava faminto. Eu sentia seu apetite torturante como se fosse meu. Em instantes ele iria começar a devorar as ymbrynes, a menos que conseguíssemos detê-lo. A menos que eu conseguisse detê-lo. Primeiro, pensei, eu teria que encontrá-lo, e a sala estava tão cheia de tralhas e sombras que minha habilidade de ver etéreos não era grande vantagem.
Pedi mais luz a Emma. Ela aumentou o máximo que pôde as chamas em sua mão, mas isso pareceu apenas alongar as sombras.
Para sua segurança, pedi que ficasse perto da porta. Ela se recusou.
— Vamos ficar juntos — disse ela.
— Fique atrás de mim, então. Bem atrás.
Isso, pelo menos, ela me concedeu. Quando passei pela catatônica srta. Swallow, Emma estava vários passos atrás, a mão erguida para iluminar o caminho. O que conseguíamos ver do ambiente parecia um hospital de campanha, mas sem sangue, com formas humanas desconstruídas espalhadas por toda parte.
Chutei sem querer um braço de gesso, que rolou para longe com um ruído seco. Aqui havia um tronco em uma mesa; ali, uma cabeça em um vidro cheio de líquido, com olhos e boca abertos, quase certamente real, mas não de uma safra recente. Aquele parecia ser o laboratório, câmara de tortura e depósito de Caul, tudo junto. Tal como o irmão, ele era um acumulador de coisas horripilantes. A diferença era que, enquanto Bentham era extremamente organizado, Caul precisava urgentemente de uma empregada.
— Bem-vindo ao playground dos etéreos — disse Caul, sua voz amplificada ecoando pelo aposento. — Conduzimos experimentos neles aqui, os alimentamos, assistimos a eles destroçarem sua comida. Estou me perguntando que parte de vocês ele vai comer primeiro. Alguns etéreos começam com os olhos... Um pequeno tira-gosto...
Tropecei em um corpo, que uivou quando meu pé afundou nele. Olhei para baixo e vi o rosto morto de medo de uma mulher de meia-idade me encarando, de olhos arregalados: uma ymbryne que eu não conhecia. Sem parar, eu me abaixei e sussurrei:
— Não se preocupe, vamos tirar você daqui.
Mas não, pensei, não íamos; aquele caos de formas e sombras loucas seria o cenário de nossa morte, o Velho Jacob surgindo, anunciando o fim, impossível de ser calado.
Ouvi algo se mover perto dos fundos da sala, seguido pela sucção úmida da boca de um etéreo se abrindo. Ele estava ali entre nós. Eu mirei em sua direção e corri, tropeçando, me reequilibrando, e Emma também correndo e dizendo:
— Jacob, corra!
— Jacob, corra! — arremedou Caul, pelo sistema de som.
Ele tinha aumentado a música: animada, sincopada, demente.
Passamos por três, quatro outras ymbrynes, todas amarradas e se debatendo, até que finalmente o vi.
Parei sem fôlego, com a mente em torvelinho diante de todo o seu tamanho.
O etéreo era um gigante: várias cabeças mais alto que aquele que eu domara, seu crânio quase arrastando no teto, apesar de sua estrutura encurvada. Ele estava a seis metros de distância, as mandíbulas abertas e as línguas varrendo o ar. Emma caminhou aos tropeções até pouco mais de um metro à minha frente e estendeu a mão, acendendo uma chama ao mesmo tempo que apontava para alguma coisa.
— Ali! Olhe!
Não era o etéreo que ela tinha visto, é claro, mas aquilo em direção à qual ele estava se movendo: uma mulher, de cabeça para baixo e se retorcendo, pendurada como uma peça de carne, suas saias negras se avolumando ao redor da cabeça. Mesmo daquele jeito, mesmo no escuro, eu a reconheci: era a srta. Wren.
Addison estava pendurado bem ao lado dela. Os dois se debatiam, amordaçados e a poucos metros de um etéreo cujas línguas então se esticaram na direção deles e se enroscaram nos ombros da srta. Wren, puxando-a para dentro da boca.
— PARE! — gritei, primeiro em inglês, em seguida na língua rascante que o etéreo entendia.
Gritei mais uma vez, então mais outra, até que ele parou, não por estar sob meu controle, mas porque, de repente, eu tinha me tornado uma presa mais interessante.
Ele soltou a ymbryne, que balançou como um pêndulo. O etéreo virou as línguas em minha direção.
— Tire a srta. Wren de lá enquanto eu atraio o etéreo para longe — falei.
Fui para longe da srta. Wren enquanto falava com o etéreo em um fluxo constante, na esperança de afastá-lo dela e manter sua atenção em mim.
Feche a boca. Sente-se. Deite.
Tirei os olhos da sra. Wren enquanto eu me movia — bom, bom — e então, quando eu recuei, ele avançou.
Sim. Certo. E agora?
Levei as mãos aos bolsos. Em um deles, tinha o que restava do dedo que a Mãe Poeira nos dera. No outro, um segredo: um vidro de ambro que eu pegara na sala anterior enquanto Emma não estava olhando. Eu o pegara em uma perda momentânea de confiança. E se eu não conseguisse fazer aquilo por conta própria? E se eu precisasse de um auxílio?
Sente-se, falei. Pare.
O etéreo lançou uma das línguas em minha direção. Eu me abaixei atrás de um manequim, que a língua laçou para depois erguê-lo e jogá-lo contra a parede, onde ele se espatifou.
Mergulhei para escapar de uma segunda língua e bati as canelas em uma cadeira caída. A língua atingiu o piso vazio de onde eu acabara de sair. O etéreo, agora, estava brincando comigo, mas logo partiria para o abate. Eu precisava fazer algo, e havia duas coisas que eu podia fazer.
O vidro ou o dedo.
Não havia como controlar aquele etéreo sem o aumento de minhas habilidades, coisa que um frasco de ambro podia proporcionar. O dedo esfarelado da Mãe Poeira, por outro lado, não era algo que eu pudesse jogar para longe de mim, e eu havia perdido a máscara. Se tentasse usá-lo, só me faria dormir; era pior que nada.
Outra língua bateu no chão ao meu lado. Deslizei para baixo de uma mesa e saquei o vidro do bolso. Fiquei atrapalhado para tirar a rolha, com mãos trêmulas. Será que aquilo iria me transformar em herói ou escravo? Será que um vidro podia me deixar viciado para o resto da vida? E qual seria o pior resultado: ficar viciado e escravo, ou morto no estômago daquele etéreo?
A mesa foi arrebentada, me deixando exposto. Eu me levantei de um pulo.
Pare, pare, gritei, dando pequenos saltos para trás enquanto as línguas do etéreo se lançavam em minha direção, errando por meros centímetros.
Minhas costas atingiram a parede. Não restava mais para onde ir.
Fui atingido na barriga, então a língua que me acertou se desenrolou e se moveu para se enrolar em meu pescoço. Eu precisava correr, mas estava atordoado, dobrado ao meio, sem fôlego. Aí ouvi um rosnado raivoso que não tinha vindo do etéreo, e um latido vigoroso.
Addison.
De repente, a língua que procurava meu pescoço ficou rígida, como se dolorida, e se retraiu pelo salão. O cão, aquele pequeno boxer, o havia mordido. Eu o ouvi rosnar e latir enquanto começava a lutar contra uma criatura invisível, vinte vezes maior do que ele.
Deslizei para o chão, encostado na parede, e enchi os pulmões de ar outra vez. Ergui o frasco, agora determinado. Convencido de que não tinha chance sem aquilo. Tirei a rolha, ergui o vidro acima dos olhos e joguei a cabeça para trás.
Então ouvi meu nome dito rapidamente no escuro, a pouco mais de um metro de distância.
— Jacob.
Eu me virei para olhar, e ali no chão, deitada em meio a uma pilha de partes humanas, estava a srta. Peregrine. Machucada, amarrada, lutando para falar através de uma nuvem de dor ou drogas, mas ainda assim ali, e me olhando com aqueles olhos verdes penetrantes.
— Não — disse ela. — Não faça isso.
Mal dava para ouvir sua voz, ela mal estava ali.
— Srta. Peregrine!
Baixei o frasco, coloquei a rolha de volta e arrastei as mãos até onde ela estava.
Minha segunda mãe, aquela santa peculiar. Caída, ferida. Talvez morrendo.
— A senhora está bem? — perguntei.
— Abaixe essa coisa. Você não precisa disso — disse ela.
— Preciso, sim. Eu não sou tão bom quanto ele.
Nós dois sabíamos de quem eu estava falando: meu avô.
— É, sim. Tudo de que precisa já está dentro de você. Esqueça esse frasco e use aquilo ali — disse ela, e apontou com a cabeça para algo que estava entre nós: a estaca serrilhada de madeira, parte de uma cadeira quebrada.
— Não posso. Não é suficiente.
— É, sim. Atinja os olhos.
— Não consigo — falei, mas fiz o que ela mandou.
Baixei o frasco e peguei a estaca.
— Bom garoto — sussurrou ela. — Agora vá e faça alguma coisa terrível com isso.
— Vou fazer — falei, e ela sorriu, e sua cabeça tornou a deitar no chão.
Eu me levantei, agora determinado, com a estaca de madeira na mão. Do outro lado do salão, Addison estava montado no etéreo como um peão de rodeio, os dentes cravados profundamente em uma das línguas, rosnando. O cão se segurava com valentia enquanto o etéreo o jogava para a frente e para trás.
Emma libertara a srta. Wren da corda em que ela estava pendurada e montava guarda ao lado dela, agitando às cegas as mãos em chamas.
O etéreo empurrou Addison contra uma coluna, e o cão se soltou e caiu.
Parti na direção do etéreo, correndo o mais depressa possível por uma pista de obstáculos de membros espalhados. Mas, como uma mariposa diante da luz, a criatura parecia mais interessada em Emma. Estava começando a se aproximar dela, por isso gritei, primeiro em inglês:
— Ei! Aqui!
Depois, em etéreo:
— Venha me pegar, canalha!
Peguei a coisa que estava mais à mão, que por acaso era outra mão, e a joguei. Ela bateu nas costas do etéreo, que se virou para me encarar.
Venha me pegar, venha me pegar.
Por um instante o etéreo ficou confuso, o que foi tempo suficiente para que eu me aproximasse dele sem ficar preso em suas línguas. Eu o apunhalei com a estaca, uma, duas vezes no peito. Ele reagiu como se tivesse sido picado por uma abelha, nada além disso, e me derrubou no chão com uma língua.
Pare, pare, pare, gritei em etéreo, desesperado para que alguma coisa fosse transmitida, mas a fera parecia à prova de bala, totalmente vacinada contra minhas sugestões. Então me lembrei do dedo, do pequeno toco de poeira em forma de giz em meu bolso. Quando fui pegá-lo, uma língua me envolveu e me ergueu no ar. Ouvi Emma gritando com ele para que me botasse no chão; Caul também.
— Não o coma! — gritou Caul pelo sistema de som. — Ele é meu!
Enquanto tirava o dedo da Mãe Poeira do bolso, o etéreo me largou dentro de suas mandíbulas abertas.
Fiquei preso em sua boca dos joelhos ao peito, preso por seus dentes que começavam a penetrar em minha carne, as mandíbulas se expandindo rapidamente para me engolir.
Aquele seria meu último ato. Meu momento final. Esmigalhei o dedo em minha mão e o enfiei pelo que acreditava ser a garganta do etéreo. Emma estava golpeando a criatura, a queimando, e então, antes que pudesse fechar as mandíbulas e me serrar ao meio com seus dentes, a criatura começou a engasgar. Ela cambaleou para longe de Emma, queimada e sufocando, recuando na direção da grade no chão, de onde saíra rastejando. Estava voltando para seu ninho, onde teria todo o tempo que quisesse para me devorar.
Tentei detê-lo, gritar Me solte!, mas ele estava mordendo, e a dor era tão terrível que eu não conseguia nem pensar. Então chegamos à grade e descemos pelo buraco. Sua boca estava tão cheia de mim que ele não conseguiu segurar os degraus na parede e estava caindo, caindo e sufocando, e eu, de algum modo, ainda estava vivo.
Batemos no fundo com o estrondo alto de ossos quebrados, um choque que esmagou nossos pulmões e lançou toda a poeira sedativa que eu enfiara no esôfago do etéreo em uma nuvem no ar ao nosso redor. Conforme a poeira caiu, comecei a sentir seus efeitos, aliviando minha dor e entorpecendo meu cérebro, e devia estar fazendo a mesma coisa com o etéreo, porque ele praticamente parou de me morder, suas mandíbulas relaxando.
Enquanto jazíamos em uma pilha atônita e sedada, correndo na direção do sono, vi se formar na minha frente, através de todas aquelas partículas flutuantes, um túnel úmido e escuro cheio de ossos empilhados. A última coisa que vi antes que a poeira me dominasse foi uma multidão de etéreos, encurvados e curiosos, avançando devagar.

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