10 de abril de 2017

Capítulo sete

Mais pesadelos terríveis, todos misturados, um se mesclando ao outro.
Fragmentos dos horrores dos últimos dias: o olho de aço de um cano de fuzil me olhando bem de perto; uma estrada cheia de cavalos mortos; as línguas de um etéreo tentando me pegar através do abismo; aquele acólito horrível sorrindo, olhos vazios.
Depois, isto: sonho que estou de volta em casa, mas sou um fantasma. Avanço meio que deslizando pela rua onde morava, passo pela porta, entro em casa. Vejo meu pai dormindo na mesa da cozinha com um telefone sem fio agarrado ao peito.
Não estou morto, digo, mas as palavras não saem.
Encontro minha mãe sentada na beira da cama, ainda de pijama, encarando a tarde pálida pela janela. Está magra e esgotada de tanto chorar. Estendo a mão para tocar seu ombro, mas ela atravessa meu braço.
Então estou em meu próprio funeral, olhando de dentro do túmulo para um retângulo de céu cinzento.
Meus três tios olham para baixo, o pescoço gordo querendo sair do colarinho branco engomado.
Tio Les: Que pena. Não é?
Tio Jack: Sinto muita pena de Frank e Maryann.
Tio Les: É. O que as pessoas vão pensar?
Tio Bobby : Vão achar que o garoto pirou. E pirou mesmo.
Tio Jack: Mas eu sabia. Sabia que um dia ele ia fazer uma coisa dessas. Ele tinha aquele jeito, sabe? Só um pouco...
Tio Bobby: Pirado.
Tio Les: Isso vem do lado da família do pai, não do nosso.
Tio Jack: Mesmo assim. É terrível.
Tio Bobby : É.
Tio Jack: ...
Tio Les: ...
Tio Bobby: Vamos comer?
Meus tios se afastam. Ricky se aproxima, o cabelo verde ainda mais espetado para a ocasião.
Ei, cara, agora que você morreu, posso ficar com a sua bicicleta?
Tento gritar: Eu não estou morto!
Só estou longe
Sinto muito
Mas as palavras ecoam de volta para mim, presas em minha cabeça.
O pastor olha para baixo. É Golan, com uma Bíblia na mão, de batina. Ele sorri.
Estamos à sua espera, Jacob.
Uma pá de terra é jogada sobre mim.
Estamos à sua espera.

* * *

Eu me sentei de uma vez, repentinamente desperto, a boca seca como papel.
Emma estava ao meu lado, com as mãos em meus ombros.
— Jacob! Graças a Deus... você nos deu um susto!
— Dei?
— Você estava tendo um pesadelo — explicou Millard, sentado à nossa frente, parecendo um terno vazio engomado, naquela posição. — E também estava falando dormindo.
— Estava?
Emma limpou o suor da minha testa com um dos guardanapos da primeira classe. (Tecido de verdade!)
— Sim — respondeu. — Mas pareciam palavras sem sentido. Eu não entendi nada.
Olhei ao redor, envergonhado, porém ninguém mais parecia ter notado. Os outros estavam espalhados pelo vagão, cochilando, sonhando acordados enquanto olhavam pela janela ou jogando cartas.
Eu esperava, sinceramente, que não estivesse começando a surtar.
— Você costuma ter pesadelos? — perguntou Millard. — Devia descrevê-los para Horace. Ele é bom em extrair significados ocultos de sonhos.
Emma acariciou meu braço.
— Tem certeza de que está bem?
— Tenho — respondi, e, como não gosto de ser o centro das atenções, mudei de assunto. Ao ver que Millard estava com o livro Contos peculiares aberto no colo, perguntei: — Lendo um pouco?
— Estudando — respondeu ele. — E pensar que antes eu desprezava esses contos, por serem apenas histórias para crianças. Na verdade, são extraordinariamente complexos, chegam a ser cheios de artimanhas, pois escondem informações secretas sobre o mundo peculiar. Eu precisaria de anos para decifrar tudo.
— Mas em que isso pode nos ajudar? — indagou Emma. — De que adiantam as fendas temporais se elas podem ser invadidas por etéreos? Até as secretas descritas nesse livro acabarão sendo encontradas.
— Talvez aquela tenha sido a única fenda invadida — sugeri, esperançoso. — Talvez o etéreo na fenda da srta. Wren fosse uma espécie de exceção.
— Um etéreo peculiar! — exclamou Millard. — Isso não é nada engraçado. Ele não era um acidente. Tenho certeza de que aqueles etéreos melhorados foram parte importante do ataque às fendas.
— Mas como? — indagou Emma. — O que mudou nos etéreos para agora conseguirem entrar nas fendas?
— Tenho pensado muito nisso — disse Millard. — Não sabemos muito sobre etéreos, nunca tivemos chance de examinar um deles em um ambiente controlado. No entanto, considera-se que, como os normais, eles não possuem algo que você, eu e todo mundo neste vagão de trem possui: alguma peculiaridade essencial, que é o que permite nossa interação com as fendas temporais, nossa conexão com elas, que sejamos absorvidos.
— Como uma chave — comentei.
— Algo do tipo — concordou Millard. — Alguns acreditam que, tal como o sangue ou o líquido cerebrospinal, nossa peculiaridade tem substância física. Outros acham que está dentro de nós, mas é intangível. Uma segunda alma.
— Hmm — foi minha resposta.
Eu gostava dessa ideia: de que a peculiaridade não era uma deficiência, mas algo a mais. A explicação não era que não tivéssemos algo que os normais tinham, eles é que não possuíam peculiaridade. Nós éramos mais, e não menos.
— Odeio essa conversa maluca — comentou Emma. — Essa ideia de poder capturar a segunda alma em um vidro? Isso me dá arrepios.
— Mesmo assim, ao longo dos anos foram feitas muitas tentativas de conseguir exatamente isso — retrucou Millard. — O que aquele soldado acólito disse a você, Emma? “Se eu pudesse engarrafar suas mãos” ou algo parecido, não foi?
Emma deu de ombros.
— Nem me lembre disso.
— De acordo com a teoria, se sua essência peculiar pudesse ser destilada e capturada em uma garrafa, como ele disse, ou, mais provavelmente, em uma placa de Petri, talvez essa essência pudesse ser transferida de um ser para outro. Se isso fosse possível, imagine como seria o mercado negro de almas peculiares entre os ricos e inescrupulosos. Peculiaridades como as suas chamas ou a força de Bronwyn seriam vendidas para quem pagasse mais!
— Isso é horrível — comentei.
— A maioria dos peculiares concorda com você — disse Millard. — É por isso que esse tipo de pesquisa foi proibida, muitos anos atrás.
— Como se os acólitos ligassem para nossas leis — retrucou Emma.
— Mas toda a ideia parece maluca — comentei. — Não funcionaria de verdade, não é?
— Eu achava que não — respondeu Millard. — Pelo menos até ontem. Agora, não tenho tanta certeza.
— Por causa do etéreo na fenda temporal dos bichos?
— É. Antes disso, eu não sabia nem se acreditava em uma “segunda alma”. Na minha cabeça, havia apenas um forte argumento a favor da existência disso: quando um etéreo consome o suficiente de nós, ele se transforma em uma criatura completamente diferente, de um tipo que consegue viajar pelas fendas temporais.
— Ele se torna um acólito — falei.
— Sim. Mas só se consumir peculiares. Ele pode devorar quantos normais quiser que nunca vai se transformar em acólito. Por isso, devemos ter alguma coisa que os normais não têm.
— Mas aquele etéreo lá na fenda dos bichos não tinha virado acólito — interveio Emma. — Ele se transformou em um etéreo capaz de entrar em fendas.
— O que me faz pensar se os acólitos não andaram alterando a natureza — explicou Millard. — Em relação à transferência de almas peculiares.
— Não quero nem pensar nisso — disse Emma. — Podemos, por favor, por favor, falar sobre outra coisa?
— Mas onde eles conseguiriam as almas? — perguntei. — E como?
— Chega, vou sentar em outro lugar! — exclamou Emma, levantando-se para procurar outro assento.
Millard e eu ficamos em silêncio por um tempo. Eu não conseguia parar de imaginar como seria ficar preso a uma mesa enquanto uma junta de médicos do mal removia minha alma. Como fariam isso? Com uma agulha? Uma faca? Para sair daqueles trilhos de pensamento mórbido, tentei mudar de assunto outra vez:
— Millard, para começo de conversa, como é que nós viramos peculiares? — perguntei.
— Ninguém sabe ao certo — respondeu ele. — Mas há lendas.
— Como o quê?
— Algumas pessoas acreditam que somos descendentes de um pequeno grupo de peculiares que viveu há muito, muito tempo — explicou. — Eles eram muito poderosos e enormes, como o gigante de pedra que encontramos.
— Então por que somos tão pequenos se antes éramos gigantes? — perguntei.
— Segundo a história, com o passar dos anos, à medida que nos multiplicamos, nosso poder se diluiu. Conforme ficamos menos poderosos, também ficamos menores.
— Essa é difícil de engolir — comentei. — Eu me sinto tão poderoso quanto uma formiga.
— Na verdade, as formigas são muito poderosas, considerando o tamanho que têm.
— Você entendeu — retruquei. — Mas o que eu não consigo compreender é: por que eu? Eu nunca pedi para ser assim. Quem decidiu isso?
Era uma pergunta retórica. Na verdade, eu não esperava resposta, mas Millard respondeu mesmo assim:
— Para citar um peculiar famoso: “Um novo mistério reside na essência do mistério da natureza.”
— Quem disse isso?
— Nós o conhecemos como Perplexus Anomalous. Um nome provavelmente inventado para um grande pensador e filósofo. Perplexus também era cartógrafo. Ele desenhou a primeira edição do Mapa dos dias, mais de mil anos atrás.
Dei risada.
— Você às vezes fala como um professor. Alguém já lhe disse isso?
— Sempre dizem — respondeu Millard. — Eu adoraria tentar seguir carreira. Se não tivesse nascido assim.
— Você seria um excelente professor.
— Obrigado — respondeu ele.
Então ficamos em silêncio. E, no silêncio, senti que ele sonhava com aquilo. Com cenas de uma vida que poderia ter sido. Depois de algum tempo, Millard falou:
— Não quero que pense que não gosto de ser invisível. Eu gosto. Adoro ser peculiar, Jacob, é a essência do que sou. Mas tem dias em que eu gostaria de poder desligar essa habilidade.
— Entendo — respondi.
Mas é claro que não entendia. Minha peculiaridade tinha seus desafios, só que eu ao menos podia fazer parte da sociedade.
A porta da cabine se abriu. Millard ergueu o capuz do casaco depressa, ocultando o rosto — ou melhor, a aparente falta de rosto.
Uma jovem estava parada à porta. Ela vestia uniforme e tinha uma caixa com produtos à venda.
— Cigarros? — perguntou ela. — Chocolate?
— Não, obrigado — respondi.
Ela olhou para mim.
— Você é americano.
— Sou, sim.
Ela sorriu com pena.
— Espero que esteja fazendo boa viagem. Você escolheu um período estranho para visitar a Grã-Bretanha.
Eu ri.
— É, já me disseram isso.
Ela foi embora. Millard girou o corpo para vê-la partir.
— Bonita — comentou, com a voz distante.
Só então me ocorreu que fazia muito tempo que Millard não via nenhuma garota além daquelas poucas que moravam em Cairnholm. Mas, afinal, que chance alguém como ele teria com uma garota normal?
— Não olhe desse jeito para mim — reclamou ele.
Não tinha reparado que estava olhando para ele de um modo diferente.
— De que jeito?
— Como se estivesse com pena.
— Não estou com pena — respondi.
Mas estava.
Então Millard se levantou e tirou o casaco, desaparecendo. Fiquei um bom tempo sem vê-lo.

* * *

As horas se passaram e as crianças se ocuparam com histórias. Histórias sobre peculiares famosos e sobre a srta. Peregrine, nos dias estranhos e iniciais da fenda temporal. Por fim, acabaram contando as próprias histórias. Algumas eu já tinha ouvido — como Enoch levantara os mortos na casa funerária do pai e como Bronwyn, na tenra idade dos dez anos, sem querer quebrara o pescoço do padrasto que a maltratava —, mas outras eram novidade para mim. Por mais velhas que fossem, não era comum elas caírem em ondas de nostalgia.
Os sonhos de Horace haviam começado quando ele tinha apenas seis anos, mas o menino só se deu conta de que antevia acontecimentos reais dois anos depois, quando sonhou com o naufrágio do Lusitania e, no dia seguinte, soube do ocorrido ao ouvir no rádio. Desde pequeno, Hugh amava mel mais do que qualquer outro alimento, e aos cinco anos começou a comer os favos junto, tão depressa que, na primeira vez que engoliu uma abelha, não percebeu até senti-la zumbindo no estômago.
— A abelha não parecia se importar nem um pouco — comentou. — Então não liguei e voltei a comer. Logo tinha uma colmeia inteira lá dentro.
Quando as abelhas precisavam polinizar, ele saía em busca de um campo florido. Foi em um deles que conheceu Fiona, dormindo entre as flores.
Hugh também contou a história dela. Fiona era uma refugiada da Irlanda, onde fez crescer alimentos para o povo de seu vilarejo durante a fome dos anos 1840, até ser acusada de bruxaria e expulsa. Hugh só descobriu isso depois de anos de comunicação sutil e não verbal. Mas não era que Fiona não pudesse falar, explicou Hugh:
— Era porque o que ela testemunhou durante a fome foi tão horrível que lhe roubou a voz.
Então foi a vez de Emma, mas ela não tinha a menor vontade de contar sua história.
— Por que não? — choramingou Olive. — Ah, vai, conta de quando você descobriu que era peculiar.
— Foi há muito tempo — murmurou ela. — Não tem importância. E não é melhor pensarmos no futuro, em vez de nos ocuparmos com o passado?
— Lá vai a estraga-prazeres — reclamou Olive.
Emma se levantou e se afastou, seguindo para o fundo do vagão, onde ninguém a aborreceria. Deixei que um ou dois minutos se passassem, para que ela não se sentisse sufocada, e fui me sentar ao seu lado. Emma me viu chegar e se escondeu atrás de um jornal, fingindo ler.
— Porque eu não quero discutir esse assunto — resmungou, por trás do jornal. — É isso!
— Eu não disse nada.
— É, mas ia perguntar, então poupei seu trabalho.
— Só para ser justo, vou contar algo sobre mim primeiro — falei.
Emma espiou por cima do jornal, um pouco intrigada.
— Mas eu já não sei tudo sobre você?
— Ah, não mesmo — respondi.
— Está bem, então me conte três coisas sobre você que eu não saiba. Só valem segredos sombrios, hein. Rápido!
Vasculhei o cérebro em busca de fatos interessantes sobre mim, mas só encontrei situações embaraçosas.
— Está bem, aqui vai um: quando eu era pequeno, era muito sensível às cenas de violência na TV. Não entendia que aquilo não era real. Mesmo se fosse só um rato de desenho animado dando um soco em um gato, eu começava a chorar.
Emma baixou um pouco o jornal.
— Abençoada seja sua alma ingênua! — exclamou. — E veja como está agora... empalando criaturas bem entre os olhos ocos do monstro.
— Segunda — continuei. — Eu nasci na noite de Halloween, e, até completar oito anos, meus pais me convenceram de que os doces que as pessoas distribuíam quando eu ia à casa delas eram presentes de aniversário.
— Hmm — murmurou Emma, baixando um pouco mais o jornal. — Isso não foi lá muito sombrio. Mas pode continuar.
— Terceira. Quando nos conhecemos, eu estava convencido de que você ia cortar o meu pescoço. Mas, por mais medo que eu tivesse, uma voz na minha cabeça dizia: Se esse é o último rosto que você vai ver, pelo menos vai ser um rosto bonito.
O jornal caiu no colo dela.
— Jacob, isso é... — Ela olhou para o chão, depois pela janela, depois para mim outra vez. — Que coisa mais fofa de se dizer.
— E é verdade — retruquei, e estendi a mão para alcançar a mão de Emma na outra poltrona. — Pronto, agora é sua vez.
— Não estou tentando esconder nada, você sabe. É que essas histórias antigas me fazem sentir como se eu tivesse dez anos outra vez, além de rejeitada. Isso não passa nunca, não importa quantos dias mágicos de verão eu tenha vivido desde então.
Emma ainda carregava aquela dor forte, mesmo tantos anos depois.
— Quero conhecer você — falei. — Quem é você, de onde é... Só isso.
Ela pareceu desconfortável.
— Nunca contei a você sobre meus pais?
— Tudo o que sei, quem me contou foi Golan, naquela noite no frigorífico. Ele disse que deram você para um circo.
— Não foi bem assim. — Emma afundou no assento, a voz se reduzindo a um murmúrio: — Acho que é melhor você saber a verdade do que ouvir esses rumores e especulações. Então lá vai: comecei a manifestar meu poder com apenas dez anos. Primeiro eu só botava fogo na cama enquanto dormia, até que meus pais tiraram todos os lençóis e me puseram para dormir em uma cama de armar de metal, em um quarto vazio e sem nada inflamável por perto. Eles achavam que eu era piromaníaca e mentirosa e que o fato de eu nunca me queimar era prova disso. Mas eu não me queimava, algo que nem eu sabia. Eu tinha dez anos, não sabia nada! É muito assustador, se manifestar sem saber o que está acontecendo, apesar de ser um medo que quase todas as crianças peculiares experimentam, já que pouquíssimas são filhas de pais peculiares.
— Imagino — comentei.
— De acordo com todo mundo, um dia eu era totalmente comum e no seguinte comecei a sentir uma coceira na palma das mãos. Elas ficaram vermelhas, inchadas e quentes, tão quentes que eu corri até a mercearia e as enfiei em uma caixa de bacalhau congelado! Quando os peixes começaram a derreter e a feder, o dono da mercearia me perseguiu até em casa e exigiu que minha mãe pagasse por tudo o que eu havia estragado. A essa altura, minhas mãos estavam queimando. O gelo só tinha piorado a situação! Finalmente, elas pegaram fogo, e eu tinha certeza de que estava completamente louca.
— E o que os seus pais acharam? — perguntei.
— Minha mãe, que era muito supersticiosa, fugiu de casa e nunca mais voltou. Ela achava que eu era um demônio vindo do inferno pelo seu útero. Meu pai teve uma reação diferente: me bateu e me trancou no quarto. Quando tentei sair queimando um buraco na porta, ele me amarrou com folhas de amianto. Ele me manteve assim por dias, me dando comida na boca de vez em quando, já que não confiava em mim o suficiente para me desamarrar. O que foi bom para ele, porque, no momento em que me soltasse, eu o queimaria até virar carvão.
— E era o que você devia ter feito — comentei.
— Que bom que você pensa assim. Mas não teria adiantado muito. Meus pais eram pessoas horríveis, mas, se não tivessem sido, se eu tivesse ficado muito mais tempo com eles, não tenho dúvida de que os etéreos teriam me encontrado. Devo minha vida a duas pessoas: minha irmã mais nova, Julia, que uma noite me libertou, para que finalmente eu pudesse fugir; e à srta. Peregrine, que me descobriu um mês depois, em um circo itinerante, onde eu fazia números de engolir fogo. — Emma deu um sorriso nostálgico. — Considero o dia em que a conheci como o meu aniversário. O dia em que conheci minha verdadeira mãe.
Senti um calor no coração.
— Obrigado por me contar — falei.
Ouvir a história de Emma me deixou mais próximo dela e menos sozinho em minha própria confusão. Todo peculiar passara por um período de sofrimento e incerteza. Todo peculiar fora testado. A grande diferença entre nós era que meus pais ainda me amavam e, apesar dos nossos problemas, eu também os amava, do meu jeito. A ideia de que eu os estava magoando era um sofrimento constante.
O que eu devia a eles? Como isso podia ser comparado à dívida que eu tinha com a srta. Peregrine, à obrigação com meu avô ou ao sentimento terno e forte que eu tinha por Emma — algo que parecia ficar mais forte a cada vez que eu olhava para ela?
A balança sempre pendia para o último. No futuro, porém, se eu sobrevivesse àquilo tudo, gostaria de encarar a decisão que tomara e a dor que causara.
Se.
se sempre levava meus pensamentos de volta ao presente, porque ele dependia muito de manter as faculdades mentais em ordem. Eu não podia sentir as coisas se estivesse distraído. O se exigia toda a minha presença e participação naquele momento.
se, por mais que me assustasse, também mantinha minha sanidade.
Londres se aproximava. Vilarejos davam lugar a cidadezinhas, que davam lugar a trechos intermináveis de subúrbios. Eu imaginava o que estaria à nossa espera, que novos horrores encontraríamos adiante.
Olhei para a manchete do jornal ainda aberto no colo de Emma: ATAQUES AÉREOS ATINGEM A CAPITAL, FAZENDO CENTENAS DE MORTOS.
Fechei os olhos e tentei não pensar.

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