5 de abril de 2017

Capítulo sete

manhã trouxe chuva, vento e neblina, um tempo opressivo que tornou difícil acreditar que a véspera não passara de um sonho estranho e maravilhoso. Engoli apressadamente o café da manhã e disse ao meu pai que ia sair. Ele me olhou como se eu estivesse maluco.
— Com esse tempo? Fazer o quê?
— Ver as pessoas... — comecei a dizer sem pensar muito e, então, para continuar a besteira que tinha falado, fingi pigarrear para tirar algo preso da garganta. Mas era tarde demais para voltar atrás. Ele tinha me ouvido.
— Ver que pessoas? Não aqueles rappers delinquentes, espero.
O único modo de sair daquele buraco, pensei, seria ir mais fundo.
— Não — respondi. — Você não os conhece; eles moram do outro lado, hum... da ilha, e...
— Sério? Achei que ninguém morava lá.
— Ora, bem, é pouca gente. Pastores de ovelhas, gente assim. Enfim, eles são legais e tomam conta de mim enquanto estou na casa. — Amigos e segurança, duas coisas às quais meu pai jamais poderia se opor.
— Quero conhecê-los — disse ele, tentando demonstrar seriedade. Ele costumava fazer essa cara, fingindo ser o pai enfezado que aspirava ser.
— Claro. Mas nós vamos nos encontrar lá, então fica para a próxima.
Ele assentiu e deu outra garfada no café da manhã. Relaxei um pouco.
Talvez essa mentira não fosse nada de mais.
— Quero você de volta antes do jantar.
— Pode ficar tranquilo, pai.
Praticamente corri até a charneca. Enquanto encontrava meu caminho em meio à sua lama traiçoeira, tentando com pouco sucesso me lembrar da rota de ilhas de grama semi-invisíveis que Emma usara para atravessá-lo, fiquei preocupado em encontrar do outro lado apenas mais chuva e a casa em ruínas.
Então, foi com grande alívio que emergi do túmulo antigo para encontrar o dia 3 de setembro de 1940 igualzinho a como eu o deixara: quente, ensolarado e sem névoa, o céu de um azul confiável, com nuvens em formas que pareciam reconfortantemente familiares. Melhor ainda: Emma estava à minha espera, sentada na beirada da elevação, jogando pedras no pântano.
— Já não era sem tempo! — exclamou, ficando de pé em um salto. — Vamos, todos estão esperando por você.
— Estão?
— Es-tão! — disse ela, revirando os olhos com impaciência. Então tomou minha mão e me puxou atrás dela. Estremeci de excitação ao seu toque e ao pensar no dia que havia pela frente, cheio de possibilidades intermináveis.
Mesmo que de milhões de modos superficiais ele fosse idêntico ao dia anterior — a mesma brisa ia soprar, os mesmos galhos cairiam na floresta e as pessoas na cidade fariam as mesmas coisas que tinham feito ontem —, minha experiência não seria a mesma. Nem a das crianças peculiares. Eles eram deuses desse pequeno e estranho paraíso, e eu era o hóspede.
Corremos pela charneca e pela floresta como se estivéssemos atrasados para um compromisso, e quando chegamos à casa Emma me conduziu até os fundos, onde um pequeno palco de madeira tinha sido montado no quintal. As crianças entravam e saíam da casa carregando objetos de cena, abotoando seus paletós e fechando os zíperes de vestidos de cetim. Uma pequena orquestra se aquecia, apenas um acordeão, um trombone velho e um serrote musical que Horace tocava com um arco.
— O que é isso? — perguntei a Emma. — Vocês vão fazer uma peça de teatro?
— Você vai ver — disse ela.
— Quem vai participar?
— Você vai ver.
— É sobre o quê?
Ela me deu um beliscão.
Um apito soprou e todos correram para arranjar lugar em uma das fileiras de cadeiras dobráveis armadas diante do palco. Emma e eu nos sentamos no momento em que as cortinas se abriram, revelando um chapéu de palhinha flutuando acima de um paletó listrado de vermelho e branco. Só quando ele começou a falar eu percebi o óbvio: era Millard que estava vestido com aquelas roupas.
— Senhooraaas e senhooorees! — anunciou ele. — Tenho o maior prazer em trazer para vocês um espetáculo como nenhum outro na história! Um show de ousadia e coragem inigualáveis, de magia tão poderosa que vocês simplesmente não vão acreditar em seus próprios olhos. Meus caros cidadãos, apresento-lhes a senhorita Peregrine e suas crianças peculiares!
A pequena plateia irrompeu em uma grande salva de palmas. Millard os saudou com o chapéu.
— Para nossa primeira ilusão, vou fazer a própria senhorita Peregrine aparecer! — Ele se agachou atrás da cortina para, um momento depois, surgir com um lençol dobrado pendurado sobre um braço e um falcão-peregrino empoleirado no outro. Ele acenou com a cabeça para a orquestra, que começou a tocar uma espécie de música festiva assobiada.
Emma me cutucou com o ombro.
— Preste atenção — sussurrou.
Millard baixou a ave, ergueu o lençol para escondê-la do público e começou uma contagem regressiva.
— Três, dois, um!
No um, ouvi o bater de asas inconfundível, e então a cabeça da srta. Peregrine — sua cabeça humana — surgiu de trás do lençol para uma salva de palmas ainda mais alta. Seus cabelos estavam despenteados, e eu só podia vê-la dos ombros para cima, mas ela parecia estar nua atrás do lençol.
Aparentemente, quando você se transforma em ave, suas roupas não se transformam junto. Ela segurou as pontas do lençol e o envolveu castamente em torno do corpo.
— Senhor Portman! — disse ela, olhando para mim do alto do palco. — Estou tão feliz por tê-lo de volta. Esta é uma pequena apresentação com a qual costumávamos sair em turnê pelo continente em tempos mais tranquilos. Imaginei que você poderia achá-la educativa! — Então ela deixou o palco com um floreio e sumiu para vestir suas roupas.
Uma atrás da outra, as crianças peculiares saíram da plateia e subiram ao palco, cada uma delas com um número próprio. Millard tirou o smoking para ficar totalmente invisível e fez malabarismo com garrafas de vidro. Olive tirou os sapatos de chumbo e fez um número de ginástica em barras paralelas que desafiava a gravidade. Emma produziu fogo, então o engoliu e soprou outra vez, sem se queimar. Eu aplaudi tudo até começar a achar que ficaria com bolhas nas mãos.
Quando Emma voltou a se sentar, virei-me para ela e disse:
— Não entendo... vocês apresentavam isso para as pessoas?
— Claro — respondeu.
— Pessoas normais?
— Claro que pessoas normais. Por que os peculiares pagariam para ver coisas que eles mesmos podem fazer?
— Mas isso não pode, digamos, estragar o disfarce de vocês?
Ela riu da minha ingenuidade.
— Ninguém suspeitava de nada — respondeu. — As pessoas vão a apresentações como essa para ver façanhas, truques e coisas assim, e para todos os efeitos era exatamente isso o que mostrávamos a elas.
— Então vocês se escondiam em plena vista.
— Esse era o modo como a maioria dos peculiares ganhava a vida.
— E ninguém nunca percebeu nada?
— De vez em quando aparecia algum chato nos bastidores fazendo perguntas enxeridas, por isso sempre tivemos um braço forte à mão para chutá-los para longe. Por falar no diabo, olha ela aí agora!
No alto do palco, uma menina de aspecto masculinizado, com o corpo em forma de um hidrante, arrastava uma pedra do tamanho de uma geladeira detrás da cortina.
— Ela pode não ser a coisa mais bonita do mundo — sussurrou Emma —, mas tem um coração enorme e defenderia seus companheiros até a morte. Somos muito unidas, Bronwyn e eu.
Alguém tinha passado uma pilha de cartões promocionais que a srta. Peregrine usava no passado para anunciar seu espetáculo. Quando chegou a mim, o cartão de Bronwyn estava em cima. Ela estava de pé e descalça, desafiando a câmera com um olhar gelado. No fundo, lia-se a inscrição A GAROTA DE FORÇA DESCOMUNAL DE SWANSEA!


— Por que ela não está erguendo uma pedra, se é isso que ela faz no palco? — perguntei.
— Ela estava de mau humor porque a Ave a fez se vestir como uma dama para a foto. Ela se recusou a levantar até mesmo uma caixa de chapéu.
— Parece que ela se recusou, também, a calçar sapatos.
— Ela normalmente faz isso.
Quando Bronwyn terminou de arrastar a rocha até o meio do palco, houve um momento estranho no qual ela apenas encarou a plateia, como se alguém lhe tivesse dito para fazer uma pausa que aumentasse o efeito dramático. Depois ela se abaixou e agarrou a rocha com suas grandes mãos e, lentamente, ergueu-a acima da cabeça. Todos aplaudiram e gritaram, as crianças totalmente entusiasmadas, apesar de, provavelmente, já terem visto Bronwyn fazer aquilo mil vezes antes. Era quase como ir a uma apresentação de alunos de uma escola que você não frequentava.
Bronwyn bocejou e deixou o palco com a rocha embaixo do braço. Então a garota de cabelos selvagens subiu ao palco. O nome dela era Fiona, disse Emma. A garota parou de frente para a plateia atrás de um vaso cheio de terra, as mãos erguidas sobre ele como um maestro. A orquestra começou a tocar O voo do besouro — do jeito que conseguiam —, e Fiona acariciou o ar acima do vaso enquanto fazia expressões torturantes, até que uma fileira de margaridas projetou a cabeça para fora da terra e se abriu no ar. Era como um daqueles vídeos acelerados de plantas brotando, exceto que ela parecia puxar as flores do leito de terra semeada por meio de fios invisíveis. As crianças adoraram e pularam da cadeira para aplaudi-la.
Emma folheou a pilha de cartões até achar o de Fiona.
— O dela é o meu favorito — disse. — Trabalhamos juntas por dias em seu figurino.
Olhei para o cartão.
— O que ela devia parecer? — perguntei. — Uma mendiga maluca?
Emma me beliscou.
— Ela devia parecer natural, como se fosse uma pessoa selvagem. Nós a chamávamos de Jill das Selvas.
— Ela veio mesmo da floresta?
— Ela é da Irlanda.
— Há muitas galinhas na floresta?


Ela me beliscou outra vez. Enquanto sussurrávamos, Hugh se juntou a Fiona no palco. Ele estava parado de boca aberta e soltava abelhas por ela para que polinizassem as flores que Fiona fizera crescer, como um estranho ritual de acasalamento.
— O que mais Fiona faz crescer além de flores e arbustos?
— Todas essas verduras e legumes — disse Emma, apontando para canteiros nas extremidades do quintal. — E às vezes árvores.
— Sério? Árvores inteiras?
Ela procurou outra vez na pilha de cartões.
— Às vezes brincamos de Jill e o pé de feijão. Alguém pega uma muda na beira da floresta e vemos até que altura Fiona consegue fazê-la crescer enquanto estamos montados sobre ela. — Emma chegou à imagem que procurava e a apontou com o dedo. — Bem aqui. Este foi o recorde — disse com orgulho. — Vinte metros.


— Vocês ficam mesmo muito entediados por aqui, hein?
Ela moveu-se para me beliscar outra vez, mas detive sua mão. Não sou especialista em garotas, mas, quando uma delas o belisca quatro vezes, tenho quase certeza de que está paquerando você.
Havia outros números, por isso Fiona e Hugh deixaram o palco. Mas as crianças estavam ficando impacientes e logo nos dispersamos para passar o resto do dia em um idílio de verão: bebemos limonada deitados preguiçosamente ao sol, jogamos croqué, cuidamos dos jardins que, graças a Fiona, mal precisavam de cuidados e discutimos nossas opções para o almoço. Eu queria perguntar à srta. Peregrine mais sobre meu avô — um assunto que eu tomava o cuidado de evitar tocar com Emma, que ficava entristecida e pensativa a qualquer menção de seu nome —, mas a diretora tinha ido para a biblioteca dar algum tipo de aula para as crianças. Parecia, porém, que eu tinha muito tempo, e o ritmo lânguido e o calor do meio-dia minaram meu desejo de fazer qualquer coisa mais exigente que circular pela propriedade fascinado, como se estivesse sonhando.
Após um almoço pantagruélico de sanduíches de ganso e pudim de chocolate, Emma começou a incitar os garotos mais velhos para irmos nadar.
— Nem pensar — resmungou Millard, que estava com o botão superior da calça quase estourando. — Estou tão cheio quanto um peru de Natal recheado.
Nós estávamos jogados em móveis muito estofados pela sala de estar, cheios a ponto de estourar. Bronwyn estava deitada sobre um divã com a cabeça enfiada entre duas almofadas.
— Eu iria afundar direto — ouvi sua voz abafada dizer.
Mas Emma era persistente. Dez minutos depois de muito insistir, ela conseguiu arrancar Hugh, Fiona e Horace de suas sestas e desafiou Bronwyn, que aparentemente não resistia a qualquer tipo de competição, a uma prova de natação. Quando nos viu todos saindo de casa juntos, Millard nos deu uma bronca por tentar deixá-lo para trás.
O melhor lugar para nadar era na baía, mas chegar lá significava caminhar pela cidade.
— E esses bêbados malucos que acham que sou um espião alemão? — disse eu. — Hoje não me sinto com vontade de ser perseguido com porretes.
— Seu pateta — disse ela. — Isso foi ontem. Eles não vão se lembrar de nada.
— Só se enrole numa toalha para que eles não vejam suas, hum, roupas do futuro — disse Horace. Eu estava vestindo calças jeans e camisa, meu traje habitual, e Horace vestia o seu terno preto de costume. Ele parecia seguir a escola de vestuário da srta. Peregrine: morbidez ultraformal, independentemente da ocasião. A foto dele estava entre as que eu encontrara no baú despedaçado e, numa tentativa de se “embecar” como sugeria o retrato, ele tinha exagerado completamente: cartola, bengala e monóculo, uma produção total.
— Tem razão — disse eu, apontando Horace com um gesto de sobrancelha. — Eu não ia querer ninguém achando que me visto de modo estranho.
— Se está se referindo a meu paletó — respondeu ele com arrogância —, sim, admito ser um seguidor da moda. — Os outros riram. — Podem ir em frente, riam à custa do velho Horace! — disse ele. — Podem me chamar de dândi se quiserem, mas só o fato de os moradores do vilarejo não se lembrarem o que você veste não lhe dá o direito de se vestir como um vagabundo! — Dito isso, ele ajeitou a lapela, o que só fez com que os garotos rissem com mais força. Furioso, ele apontou um dedo acusador para as minhas roupas. — E, em relação a ele, Deus nos ajude se essas são todas as roupas que o futuro nos reserva!
Depois que os risos morreram, puxei Emma de lado e murmurei:
— O que exatamente faz de Horace peculiar, além de suas roupas, quero dizer?
— Ele tem sonhos proféticos — respondeu ela. — Tem esses grandes pesadelos premonitórios de vez em quando, que têm a perturbadora tendência de se tornar realidade.
— Com que frequência? Muita?
— Pergunte você mesmo a ele.
Mas Horace não estava no clima de responder às minhas perguntas. Quando chegamos à cidade, enrolei uma toalha em volta da cintura e pendurei outra nos ombros, e, apesar de não ser exatamente uma profecia, Horace estava certo sobre uma coisa: ninguém me reconheceu. Descemos direto pela trilha principal e, mesmo recebendo alguns olhares de estranheza, ninguém nos incomodou.
Passamos até pelo gordo que tinha pegado no meu pé no bar — o sujeito estava enchendo um cachimbo diante da charutaria e discursando sobre política para uma mulher que parecia prestar pouca atenção a ele. Não consegui evitar encará-lo quando passamos. Ele devolveu o olhar, sem sequer um momento de reconhecimento.
Era como se alguém tivesse “reiniciado” a cidade. Eu continuava a perceber coisas que tinha visto no dia anterior: a mesma carroça correndo loucamente trilha abaixo, sua roda traseira derrapando no cascalho; as mesmas mulheres em fila para pegar água no poço; um homem calafetando o fundo de um barco a remo, não mais adiantado em sua tarefa do que 24 horas antes. Eu quase esperava ver meu sósia correndo pela cidade perseguido por uma turba, mas acho que as coisas não funcionavam assim.
— Cara, vocês devem saber muito do que rola por aqui — disse eu. — Como ontem, com os aviões e aquela carroça.
— É Millard que sabe tudo — disse Hugh.
— Isso mesmo — disse Millard. — Na verdade, estou a caminho de completar o primeiro relato completo de um dia na vida de uma cidade, como foi experimentado por todos os seus habitantes. Todas as ações, todas as conversas, todos os sons feitos por cada um dos 159 humanos e 332 animais residentes na cidade de Cairnholm, minuto a minuto, do alvorecer ao pôr do sol.
— Isso é incrível! — falei.
— Não posso fazer outra coisa senão concordar — retrucou Millard. — Em 27 anos observei metade dos animais e quase todos os humanos.


Fiquei boquiaberto.
— Vinte e sete anos?
— Ele passou três só com os porcos! — disse Hugh. — Isso significa todos os dias de três anos inteiros tomando notas sobre porcos! Você pode imaginar? Esse aí fez um monte de cocô! Aquele disse oinc-oinc e depois foi dormir na própria sujeira!
— As anotações são absolutamente essenciais no processo — disse Millard. — Mas posso entender sua inveja, Hugh. Minha obra promete ser um trabalho sem precedentes na história das pesquisas acadêmicas.
— Não seja metido — disse Emma. — Também não terá precedentes na história das coisas sem graça. Pode ser a coisa mais sem graça já escrita!
Em vez de responder, Millard começou a apontar coisas antes que acontecessem.
— A senhora Higgins está prestes a ter um acesso de tosse — dizia ele, e então uma mulher na rua começava a tossir com força, até ficar com o rosto vermelho. Ou: — Agora um pescador vai lamentar a dificuldade de ganhar a vida com seu ofício em tempos de guerra. — E em seguida um homem recostado em uma carroça cheia de redes virou-se para outro homem e disse:
— Tem tantos malditos submarinos na água agora que não é seguro para ninguém jogar suas linhas de pesca por aí!
Fiquei bem impressionado e disse isso a Millard.
— Fico satisfeito por alguém apreciar meu trabalho — respondeu.
Caminhamos pela orla da baía até o fim das docas, depois seguimos pela costa rochosa na direção do pontal até chegarmos a uma enseada com praia de areia. Nós rapazes tiramos a roupa e ficamos de cuecas (todos menos Horace, que tirou apenas os sapatos e a gravata), enquanto as meninas sumiram para se trocar e vestir maiôs recatados e antiquados, e então fomos nadar. Bronwyn e Emma apostaram corrida uma com a outra enquanto o resto ficou só boiando e nadando sem rumo. Quando ficamos exaustos, voltamos para a areia e tiramos um cochilo. Depois, com o sol quente demais, voltamos para a água, e, quando o mar frio nos fez tremer, voltamos para a praia, ficando assim até que nossas sombras começaram a se projetar compridas na enseada.
Começamos a conversar. Eles tinham um milhão de perguntas para mim, e com a srta. Peregrine longe eu podia respondê-las com franqueza. Como era meu mundo? O que as pessoas comiam, bebiam e vestiam? Quando a morte e as doenças seriam dominadas pela ciência? Eles viviam em esplendor, mas estavam famintos por novos rostos e histórias. Contei a eles tudo o que pude, revirando o cérebro em busca de pérolas da história do século XX da aula da sra. Johnston — a aterrissagem na Lua, o Muro de Berlim! O Vietnã... Mas eram histórias pouco compreendidas.
Foram a tecnologia e o padrão de vida de meu tempo que os impressionaram mais. As casas tinham ar-condicionado. Eles tinham ouvido falar em televisão, mas nunca haviam visto uma, e ficaram chocados ao saber que minha família tinha uma dessas caixas de imagens falantes em praticamente todos os aposentos da casa. Viagens pelo ar eram tão comuns e baratas quanto as viagens de trem eram para eles. Nosso exército lutava com aviões guiados por controle remoto. Tínhamos computadores-telefone que cabiam no bolso; e, mesmo que o meu não funcionasse lá (nada eletrônico parecia funcionar), eu o peguei só para mostrar seu invólucro reluzente e espelhado.
O crepúsculo se aproximava quando finalmente resolvemos voltar. Emma grudou-se em mim como cola, as costas de sua mão se esfregando na minha enquanto andávamos. Quando passamos por uma macieira nos limites da cidade, ela parou para apanhar uma fruta, mas, mesmo na ponta dos pés, a maçã mais baixa estava fora de seu alcance, por isso fiz o que qualquer cavalheiro faria e a ajudei, abraçando-a pela cintura e tentando não gemer enquanto a erguia, ela com o alvo braço estendido, os cabelos molhados brilhando com os reflexos do sol poente. Quando a abaixei, ela me deu um beijo leve no rosto e me entregou a maçã.
— Aqui — disse ela. — Você fez por merecer.
— A maçã ou o beijo?
Ela riu e saiu correndo para alcançar os outros. Eu não sabia como chamar aquilo que acontecia entre nós, mas estava gostando. Era uma sensação tola, frágil e boa. Guardei a maçã no bolso e fui correndo atrás de Emma.
Quando chegamos à charneca pantanosa e eu disse que precisava ir para casa, ela fingiu fazer um biquinho.
— Pelo menos me deixe acompanhá-lo — disse ela; então acenamos, nos despedimos dos outros e seguimos até o túmulo de pedra, enquanto eu fazia o máximo possível para memorizar o lugar onde ela botava os pés no caminho.
Quando chegamos lá, eu disse:
— Venha até o outro lado comigo por um minuto.
— Eu não devia. Tenho de voltar ou a Ave vai desconfiar de nós.
— Desconfiar de nós? De quê?
Ela deu um sorriso recatado.
— De... alguma coisa.
— Alguma coisa.
— Ela está sempre à procura de alguma coisa — respondeu rindo.
Mudei de tática.
— Por que não vem me ver amanhã, então?
— Ver você? Do outro lado?
— Por que não? A senhorita Peregrine não estará por perto para nos ver. Você podia até conhecer meu pai. É óbvio que não vamos dizer a ele quem você é. E ele vai relaxar um pouco em relação a onde vou e ao que faço o tempo todo. Eu saindo com uma garota bonita? Isso seria o melhor dos sonhos para meu pai!
Pensei que ela pudesse sorrir à menção do “garota bonita”, mas em vez disso ela ficou séria.
— A Ave só nos deixa ir ao outro lado por alguns minutos de cada vez, apenas para manter a fenda aberta, você sabe.
— Então diga a ela que é isso o que você vai fazer!
Ela deu um suspiro.
— Eu quero. Quero mesmo. Mas é uma má ideia.
— Ela mantém vocês na coleira.
— Você não sabe o que está dizendo — disse ela de cara fechada. — E obrigada por me comparar a um cachorro; isso foi brilhante.
Eu me perguntei como tínhamos passado da paquera à discussão tão rapidamente.
— Não quis dizer isso — retruquei.
— Não é que eu não queira ir — disse ela, acalmando-se. — Simplesmente não posso.
— Está bem, vamos fazer um trato. Esqueça o dia inteiro. Só venha por um minuto, agora mesmo.
— Um minuto? O que você pode fazer em um minuto?
Sorri.
— Você vai ficar surpresa.
— Me conte! — disse ela, empurrando-me.
— Tirar seu retrato.
O sorriso dela desapareceu.
— Não estou exatamente com minha melhor aparência — disse ela, avaliando-se com desconfiança.
— O que é isso? Você está ótima. De verdade.
— Só um minuto? Promete?
Deixei que entrasse à minha frente no cairn. Ela sacudiu o pulso e uma pequena chama azul se acendeu acima de sua mão, mais que suficiente para iluminar nosso caminho. Quando saímos outra vez, o mundo estava frio e enevoado, apesar de, misericordiosamente, a chuva ter parado. Saquei meu celular e adorei ver que minha teoria estava certa — desse lado da fenda, as coisas eletrônicas funcionavam direito.
— Onde está sua câmera? — disse, tremendo. — Vamos acabar logo com isso.
Ergui o celular e tirei uma foto dela. Ela apenas sacudiu a cabeça, como se nada mais em meu mundo bizarro pudesse surpreendê-la. Então se esquivou e se afastou, e tive de ir atrás dela em volta do cairn para conseguir fotografá-la, enquanto nós dois ríamos, Emma se agachando para sair da minha vista só para surgir de novo e fazer pose para a câmera. Um minuto depois, eu tinha tirado tantas fotos que a memória do telefone estava quase esgotada.
Emma correu até a boca do cairn e me soprou um beijo todo teatral.
— Vejo você amanhã, garoto do futuro.
Ergui a mão para um aceno de despedida e ela entrou agachada no túnel de pedra.

* * *

Corri de volta para a cidade, molhado e congelando, sorrindo como um idiota. Ainda estava a várias quadras do pub quando ouvi um barulho estranho surgir acima do ruído dos geradores — alguém chamando meu nome. Corri na direção da voz e encontrei meu pai parado no meio da rua com o suéter ensopado, a fumaça de sua respiração à sua frente, como a válvula de uma panela de pressão em uma manhã fria.
— Jacob, eu estava te procurando!
— Você disse para voltar para o jantar, então aqui estou eu!
— Esqueça o jantar. Venha comigo.
Meu pai nunca pulava o jantar. Algo estava definitivamente errado.
— O que está acontecendo?
— Vamos — disse ele. — Explico no caminho. — Ele me olhou com atenção. — Você está todo molhado! — exclamou. — Pelo amor de Deus, você perdeu o outro casaco também?
— Eu, hum...
— E por que seu rosto está vermelho? Você parece queimado de sol.
Droga. Uma tarde inteira na praia sem usar protetor solar.
— Estou com calor de tanto correr até aqui — respondi, apesar de a pele nos meus braços estar arrepiada de frio. — O que aconteceu? Alguém morreu, ou o quê?
— Não, não, não — disse ele. — Bem, algo do tipo. Uma ovelha.
— O que isso tem a ver com a gente?
— Eles acham que crianças fizeram isso. Como um ato de vandalismo.
— Eles quem? A polícia das ovelhas?
— Os fazendeiros — respondeu. — Eles basicamente interrogaram todo mundo com menos de vinte anos, todo mundo menos você. E, é claro, estão muito interessados em saber onde esteve o dia inteiro.
Senti um aperto no estômago. Mais uma vez eu não tinha uma desculpa muito boa e me apressei a pensar em uma enquanto seguíamos para o Buraco do Padre.
Diante do pub havia uma pequena multidão reunida em torno de um grupo de criadores de ovelhas muito furiosos. Um deles usava um macacão enlameado e se apoiava ameaçadoramente sobre um forcado. Outro segurava Verme pela gola. Verme estava vestido com calças de agasalho esportivo fluorescentes e uma camiseta onde se lia EU ADORO QUANDO ME CHAMAM DE PAIZÃO. Ele tinha chorado e havia uma bolota de catota acima de seu lábio superior.
Um terceiro fazendeiro, muito magro e com uma boina de tricô, apontou para mim quando nos aproximávamos.
— Por onde você andou, filho?
Meu pai me deu um tapinha nas costas.
— Conte a eles — disse com confiança.
Tentei agir como se não tivesse nada a esconder.
— Estava explorando o outro lado da ilha. A casa grande.
O homem de boina de tricô pareceu confuso.
— Que casa grande?
— Ele está falando daquele monte de destroços velho na floresta — disse o do forcado. — Só um completo idiota poria os pés lá. O lugar é enfeitiçado e também muito perigoso.
Boina de Tricô apertou os olhos para me ver melhor.
— Na casa grande com quem?
— Ninguém — respondi, no que meu pai me lançou um olhar engraçado.
— Mentira! Acho que você estava junto com este aqui — disse o homem que segurava Verme.
— Eu não matei ovelha nenhuma! — berrou Verme.
— Cale a boca! — rosnou o homem.
— Jake? — disse meu pai. — E os seus amigos?
— Ah, bobagem, pai.
Boina de Tricô virou-se e cuspiu.
— Seu mentiroso. Eu devia lhe dar uma surra de cinto em frente de Deus e de todo mundo!
— Fique longe dele — disse meu pai, com sua melhor voz de progenitor sério.
Boina de Tricô praguejou e deu um passo na direção dele, e os dois se encararam como se um pudesse socar o outro. Antes que um dos dois fizesse isso, ouvi uma voz familiar.
— Calma, Dennis. Vamos resolver isso. — E Martin deu um passo à frente do grupo para se meter entre os dois. — Comece contando o que quer que seu garoto tenha lhe dito — disse ele para meu pai.
Meu pai me lançou um olhar gelado.
— Ele disse que ia ver amigos do outro lado.
— Que amigos? — perguntou Forcado.
Percebi que as coisas iam ficar mais feias a menos que eu fizesse algo drástico. Obviamente não podia contar a ele sobre as crianças — mesmo porque não iam acreditar —, por isso assumi um risco calculado.
— Ninguém — falei, baixando os olhos para fingir vergonha. — Eles são imaginários.
— O que ele disse?
— Ele disse que os amigos são imaginários — repetiu meu pai, parecendo preocupado.
Os fazendeiros trocaram olhares intrigados.
— Viram? — disse Verme. — O garoto é um psicopata completo! Só pode ter sido ele!
— Eu nunca toquei nelas! — disse eu, apesar de ninguém estar realmente escutando.
— Não foi o americano — disse o fazendeiro que segurava Verme, puxando com força a camiseta do garoto. — Não é de hoje que este aqui tem história. Há uns anos eu vi quando ele chutou um cordeiro num precipício. Eu não teria acreditado se não tivesse visto com meus próprios olhos. Depois que ele fez aquilo, eu perguntei por quê. Ele disse que era pra ver se o bicho podia voar. Estou dizendo que ele é doente.
As pessoas resmungaram, insatisfeitas. Verme não parecia à vontade, mas não negou a história.
— Onde está o peixeiro amigo dele? — perguntou Forcado. — Se esse aí está metido nisso, podem apostar que o outro também está.
Alguém disse ter visto Dylan perto da baía, e um grupo foi enviado para trazê-lo até ali.
— Não pode ter sido um lobo ou um cão selvagem? — disse meu pai. — Meu próprio pai foi morto por cães.
— Os únicos cães em Cairnholm são pastores — respondeu Boina de Tricô. — E não é exatamente da natureza de cães pastores sair por aí matando ovelhas.
Eu torcia para que meu pai desistisse e fosse embora enquanto as coisas estavam bem, porém ele estava metido no caso como Sherlock Holmes.
— Mas de quantas ovelhas estamos falando? — perguntou.
— Cinco — respondeu o quarto fazendeiro, um homem baixo e de rosto zangado que até então não havia falado. — Todas minhas. Mortas dentro do curral. Pobres coitadas, nem tiveram chance de correr.
— Cinco ovelhas. Quanto sangue acha que há em cinco ovelhas?
— Imagino que uma banheira cheia — disse Forcado.
— Então quem fez isso devia estar coberto de sangue, não?
Os fazendeiros olharam uns para os outros, depois para mim e em seguida para Verme. Então deram de ombros e coçaram a cabeça.
— É, podem ter sido raposas — disse Boina de Tricô.
— Talvez um bando grande de raposas — disse Forcado, duvidando —, se é que a ilha tem tantas raposas assim.
— Eu ainda acho que os cortes são limpos demais — disse o que segurava Verme. — Só podem ter sido feitos com uma faca.
— Não pode ser — retrucou meu pai.
— Então venha ver com seus próprios olhos — disse Boina de Tricô.
Enquanto a multidão começava a se dispersar, seguimos os fazendeiros em um pequeno grupo à cena do crime, subindo uma ladeira até um terreno próximo, onde havia um pequeno barraco marrom e um curral retangular nos fundos. Hesitantes, aproximamo-nos do curral e espiamos pelos vãos da cerca.
A violência lá dentro era quase caricata, como a obra de algum impressionista louco que só pintasse com vermelho. A grama pisoteada estava banhada em sangue, bem como os cochos do curral e os próprios corpos brancos e rígidos das ovelhas, jogados pelo chão em posições de agonia submissa. Uma tentara subir pela cerca e ficara com as pernas finas presas em seus vãos. Estava à minha frente em posição estranha, com o ventre aberto do pescoço até as pernas, como se tivessem simplesmente aberto seu zíper.
Tive de desviar o olhar. Outros murmuraram e sacudiram a cabeça, e alguém soltou um assobio baixo. Verme gaguejou e começou a chorar, o que foi visto como admissão tácita de culpa: o criminoso que não conseguia encarar o próprio crime. Ele foi levado para ser trancafiado no museu de Martin, no lugar que costumava ser a sacristia e agora funcionava como a cela provisória da ilha, até que pudesse ser enviado para a delegacia de polícia no continente.
Deixamos o fazendeiro pensativo, olhando para suas ovelhas mortas, e voltamos para a cidade, caminhando com dificuldade por colinas encharcadas sob uma noite cor de granito. De volta ao quarto, eu sabia que era a hora de o pai severo falar, por isso fiz o possível para desarmá-lo antes que ele pudesse começar a pegar pesado comigo.
— Menti para você, pai. Me desculpe.
— É? — disse ele com sarcasmo, enquanto trocava o suéter molhado por outro seco. — Dessa vez você se superou. Diga de que mentira estamos falando. Eu não consigo acompanhar todas.
— Sobre encontrar amigos. Não há mais nenhum garoto na ilha. Inventei isso porque não queria que você se preocupasse quando eu fosse lá sozinho.
— Ora, eu me preocupo até quando o médico diz para eu não me preocupar.
— Eu sei que se preocupa.
— E sobre esses amigos imaginários? Doutor Golan sabe disso?
Sacudi a cabeça.
— Isso também foi mentira. Eu só queria que aqueles caras saíssem de cima de mim.
Meu pai cruzou os braços, sem saber no que acreditar.
— É mesmo?
— Melhor que eles acreditassem que sou um pouco excêntrico do que um assassino de ovelhas, não é?
Eu me sentei à mesinha. Meu pai ficou me olhando por um bom tempo. Eu não estava certo se ele confiava em mim ou não, mas então ele foi até a pia e jogou água no rosto; quando terminou de se secar e se virou outra vez, parecia ter resolvido que seria muito menos complicado confiar em mim.
— Tem certeza de que não precisamos ligar de novo para doutor Golan?
— Só se você quiser. Eu estou bem.
— Era exatamente por isso que eu não queria você por aí com esses rappers — disse ele. Precisava se aproximar de algo paternal o suficiente para que aquilo contasse como uma conversa séria.
— Você tinha razão sobre eles, pai — concordei. Mas por dentro eu não conseguia acreditar que algum deles fosse capaz daquilo. Verme e Dylan falavam demais, mas era só isso.
Meu pai se sentou à minha frente. Ele parecia cansado.
— Eu ainda gostaria de saber como alguém consegue se queimar de sol num dia como este.
Claro. O bronzeado.
— Acho que minha pele é muito sensível — falei.
— É? — disse ele secamente. — Se é você quem diz...
Ele tinha terminado. Fui tomar um banho e pensei em Emma. Então escovei os dentes e pensei em Emma e lavei o rosto e pensei em Emma. Depois disso fui para o quarto e peguei do bolso a maçã que ela me dera e a coloquei sobre a mesinha de cabeceira. Como para me assegurar de que ela ainda existia, peguei o celular e comecei a olhar as fotos tiradas naquela tarde. Ainda as olhava quando ouvi meu pai se deitar no quarto ao lado; continuei olhando quando os geradores se desligaram e meu abajur se apagou, e também quando já não havia mais luz em lugar nenhum além do rosto dela naquela telinha. Fiquei ali no escuro, sem conseguir parar de olhar.

9 comentários:

  1. Deve ter sido o mesmo monstro que matou o avô dele.

    ResponderExcluir
  2. AHHHHHHHHHHH ELE SE APAIXONOUUUU *-*

    ResponderExcluir
  3. Seria legal se mostrassem as fotos de Emma q ele tirou rsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O pai dele podia reconhecer por conta das fotografias do avó, e além do mais seria estranho ngm nunca ter visto ela

      Excluir
  4. O amor existe galera, olha esse shipp que perfeito

    ResponderExcluir
  5. S H I P P O
    A GAROTA DO PASSADO E O MENINO DO FUTURO.
    AWN

    ResponderExcluir
  6. "— O dela é o meu favorito — disse. — Trabalhamos juntas por dias em seu figurino.
    Olhei para o cartão.
    — O que ela devia parecer? — perguntei. — Uma mendiga maluca?
    Emma me beliscou.
    — Ela devia parecer natural, como se fosse uma pessoa selvagem. Nós a chamávamos de Jill das Selvas.
    — Ela veio mesmo da floresta?
    — Ela é da Irlanda.
    — Há muitas galinhas na floresta?"

    Tô rindo e não é pouco kkkkkk

    ResponderExcluir
  7. Estou amando ler este livro!!!!e com CERTEZA Nesse Capitulo Jacob se apaixonou por Emma.

    ResponderExcluir
  8. Estou amando ler este livro! E COM CERTEZA que neste Capitulo Jacob esta se apaixonando por Emma, e Ela tambem esta Gostando MUITO de Jacob. Estou ansiosa por saber mais...vou continuar a ler.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)