15 de abril de 2017

Capítulo seis

Quando chegamos à casa, estava quase escuro. Nim nos conduziu para o hall de entrada, onde Bentham nos aguardava ansioso. Nem se deu ao trabalho de nos cumprimentar.
— Por que vocês trouxeram esses urxinins? — perguntou ele, com os olhos apontando para o carrinho de roupa suja. — Onde está a criatura?
— Aqui.
Desci os filhotes e comecei a remover os lençóis.
Bentham olhava, mas mantinha distância. Os lençóis por cima eram brancos, mas ficavam mais ensanguentados à medida que eu ia tirando, se transformando em um casulo negro quando cheguei ao fundo. Retirei o último e lá estava ele, uma coisa pequena e murcha encolhida em posição fetal. Era difícil acreditar que aquela criatura patética era a mesma que havia me causado tantos pesadelos.
Bentham se aproximou.
— Meu Deus! — exclamou ele, olhando para os lençóis ensanguentados. — O que fizeram com ele?
— Na verdade, fui eu que fiz isso. Não tive escolha — falei.
— Ele estava prestes a engolir a cabeça de Jacob — explicou Emma.
— Você não o matou, matou? — perguntou Bentham. — Ele não nos serve de nada morto.
— Acho que não — falei, e mandei o etéreo abrir os olhos, e ele o fez, muito lentamente. Ainda estava vivo, mas fraco. — Só não sei por quanto tempo ele ainda aguenta.
— Nesse caso, não temos um segundo a perder — disse Bentham. — Precisamos chamar minha curandeira agora e torcer pelos céus para que sua poeira funcione em etéreos.
Nim foi mandado com urgência para buscar a curandeira. Enquanto esperávamos, Bentham nos conduziu até a cozinha e nos ofereceu biscoitos e fruta enlatada. Por causa dos nervos ou de todas as coisas repulsivas que tínhamos visto, nem Emma nem eu estávamos com apetite. Beliscamos a comida por educação enquanto Bentham nos atualizava sobre o que acontecera enquanto estivéramos fora. Ele disse que fizera todos os preparativos necessários na máquina, estava tudo pronto. Só faltava conectar o etéreo.
— Tem certeza de que vai funcionar? — perguntou Emma.
— Tenho toda a certeza de quem nunca sequer tentou — respondeu ele.
— Será que isso não vai machucá-lo? — quis saber, me sentindo estranhamente protetor em relação ao etéreo, mesmo que apenas pelo trabalhão que tivera com o resgate.
— É claro que não — disse Bentham, indiferente.
A curandeira chegou, e quase gritei de surpresa quando a vi. Não por causa de sua aparência, que era bem estranha, mas porque eu tinha certeza absoluta de já tê-la visto, mesmo sem saber onde, ou como eu consegui me esquecer de um encontro com alguém tão diferente.
As únicas partes visíveis de seu corpo eram o olho e a mão esquerda. O restante estava escondido por trás de dezenas de metros quadrados de tecido: xales, cachecóis, um vestido com a saia armada em forma de sino. Ela parecia não ter a mão direita, e a esquerda estava apoiada nos braços de um rapaz de pele negra e olhos grandes e vivos. Ele usava uma camisa de seda vistosa e um chapéu de aba larga e conduzia a curandeira, como se ela fosse cega ou deficiente.
— Eu sou Reynaldo — disse o jovem, com forte sotaque francês. — E esta é a Mãe Poeira. Eu falo por ela.
A Mãe Poeira se inclinou na direção de Reynaldo e sussurrou algo em seu ouvido. Reynaldo olhou para mim.
— Ela espera que você esteja se sentindo melhor.
Foi então que me dei conta de onde eu a havia visto: em meus sonhos, ou no que eu achava terem sido sonhos, enquanto me recuperava do ataque.
— Sim, muito melhor — falei, nervoso.
Bentham deixou de lado as formalidades.
— Você consegue curar um desses? — perguntou, conduzindo Reynaldo e a Mãe Poeira até o carrinho. — É um etéreo, visível para nós apenas onde foi pintado.
— Ela pode curar qualquer ser que tenha um coração pulsante — disse Reynaldo.


— Então, por favor — suplicou Bentham. — É muito importante que a gente salve a vida dessa criatura.
Por meio de Reynaldo, a Mãe Poeira deu ordens. Tirem a fera do carrinho, disseram, então Emma e eu viramos o etéreo no chão. Coloquem na pia, disseram, então Emma e Sharon me ajudaram a erguê-lo e botar no fundo da pia comprida e funda. Limpamos seus ferimentos com água da torneira, com cuidado para não lavar muito da tinta branca. Em seguida, a Mãe Poeira examinou o etéreo enquanto Reynaldo me pedia para identificar todos os lugares em que ele estava ferido.
— Marion — disse Bentham, se dirigindo informalmente à Mãe Poeira —, você não precisa curar todos os cortes e feridas. Não queremos a criatura em plena forma. Só queremos ela com vida. Entende?
— Sim, sim — disse Reynaldo, sem lhe dar atenção. — Nós sabemos o que estamos fazendo.
Bentham pigarrou e deu as costas, demonstrando com exagero seu descontentamento.
— Agora ela vai fazer a poeira — disse Reynaldo. — Cheguem para trás, e cuidado para não a inalarem, pois coloca você para dormir na hora.
Nós recuamos. Reynaldo prendeu uma máscara contra poeira sobre o nariz e a boca e em seguida desamarrou o xale que envolvia o que restava do braço direito da Mãe Poeira. O coto por baixo tinha apenas alguns centímetros de comprimento e terminava bem acima de onde ficaria o cotovelo.
Com a mão esquerda, a Mãe Poeira começou a esfregar o coto, que liberou um pó branco e fino que ficou suspenso no ar. Prendendo a respiração, Reynaldo passou a mão no ar e recolheu a poeira. Nós assistimos, fascinados e com certa repulsa, até que ele reuniu cerca de trinta gramas, e o braço da Mãe Poeira foi reduzido na mesma quantidade.
Reynaldo transferiu a poeira para a mão de sua mentora. Ela se debruçou sobre o etéreo e soprou um pouco em sua cara da mesma forma que fizera comigo, segundo minhas lembranças. O etéreo a inalou e então teve um espasmo. Todo mundo deu um pulo para trás, menos a Mãe Poeira.
Não se levante, fique quieto, falei, mas nem precisava, pois era uma reação automática ao pó, explicou Reynaldo: o corpo reduzindo a uma marcha mais lenta. Enquanto a Mãe Poeira espalhava mais pó sobre o corte no pescoço do etéreo, Reynaldo nos contou que aquilo podia curar feridas e induzir o sono, dependendo de quanto fosse usado. Enquanto falava, uma espuma branca se desenvolveu em volta do ferimento do etéreo e começou a brilhar. O pó da Mãe Poeira, disse Reynaldo, era ela e, sendo assim, de quantidade limitada. Ela se desgastava um pouco sempre que curava alguém.
— Espero que essa não pareça uma pergunta grosseira, mas por que a senhora faz isso se faz mal para você? — disse Emma.
A Mãe Poeira parou por um instante, se virou para que o olho bom pudesse ver Emma e falou no tom mais alto que já a ouvimos falar, um balbucio embaralhado de alguém sem língua.
Reynaldo traduziu.
— Eu faço — disse ele — porque é assim que fui escolhida para servir.
— Então... obrigada — disse Emma com humildade.
A Mãe Poeira anuiu com um gesto de cabeça e voltou à sua tarefa.

* * *

A recuperação do etéreo não seria instantânea. Ele estava profundamente sedado e só iria despertar depois que se recuperasse dos ferimentos mais graves, um processo que provavelmente levaria a noite toda. Como o etéreo tinha que estar acordado quando Bentham o “conectasse” à sua máquina, a fase dois de nosso plano de resgate teria que aguardar várias horas. Até lá, a maioria de nós estava enfurnada na cozinha: Reynaldo e a Mãe Poeira, que tinha que reaplicar com frequência sua poeira sobre a ferida do etéreo, e Emma e eu, porque eu não me sentia confortável deixando o etéreo sozinho, apesar de ele estar em sono profundo. O etéreo agora era uma responsabilidade minha, do mesmo modo que um bicho sem adestramento era responsabilidade de quem o levara para casa. Emma também ficou por perto, porque eu, de certo modo, tinha me tornado sua responsabilidade (e ela, minha), e se eu dormia, ela fazia cócegas para me acordar ou me contava histórias sobre os bons tempos no lar da srta. Peregrine. Bentham verificava de vez em quando, mas na maior parte do tempo estava fazendo varreduras de segurança da casa com Sharon e Nim, paranoico com a possibilidade de que os soldados de seu irmão atacassem a qualquer momento.
Conforme a noite passava, Emma e eu conversamos sobre o que nos aguardava no dia seguinte. Supondo que Bentham conseguisse fazer sua máquina funcionar outra vez, era possível que em questão de horas nos encontrássemos dentro da fortaleza dos acólitos. Poderíamos voltar a ver nossos amigos e a srta. Peregrine.
— Se formos muito sorrateiros e tivermos muita, muita sorte — disse Emma. — E se...
Ela hesitou. Estávamos sentados lado a lado em um banco comprido de madeira encostado a uma parede, e nesse momento ela se virou de um jeito que não permitia ver seu rosto.
— O quê? — falei.
Ela olhou de volta para mim, com uma expressão sofrida.
— Se eles ainda estiverem vivos.
— Eles estão.
— Não, estou cansada de fingir. A essa altura, os acólitos podem ter coletado as almas dos nossos amigos para fazer ambrosia. Ou, em vez disso, ter percebido que as ymbrynes são inúteis e decidido torturá-las, ou podem ter sugado suas almas, ou feito de exemplo para alguém que tenha tentado escapar...
— Pare com isso — falei. — Não faz tanto tempo.
— Quando chegarmos lá, serão quarenta e oito horas, pelo menos. E muitas coisas horríveis podem acontecer em quarenta e oito horas.
— A gente não precisa imaginar todas elas. Você parece Horace falando todos os piores cenários possíveis. Não faz sentido a gente ficar se torturando até saber com certeza o que aconteceu.
— Faz, sim. Tem uma razão muito boa para a gente se torturar com isso. Se a gente considerar todas as piores possibilidades e uma delas se revelar verdadeira, não vamos estar totalmente despreparados.
— Eu acho que nunca conseguiria me preparar para uma coisa dessas.
Ela levou as mãos à cabeça e deu um suspiro trêmulo. Era coisa demais em que pensar.
Naquele instante, quis dizer a ela que a amava. Achei que isso pudesse ajudar, nos apoiar em algo sobre o qual estávamos seguros em vez de nos ancorar em incertezas, mas não havíamos dito as palavras um para o outro muitas vezes, e eu não consegui falar naquele momento, diante de dois completos estranhos.
Quanto mais eu pensava no meu amor por Emma, mais isso fazia com que eu me sentisse trêmulo e enjoado, exatamente por nosso futuro ser tão incerto. Eu precisava imaginar um futuro para mim em que Emma também estivesse, mas era impossível visualizar nossas vidas no futuro, mesmo que apenas o dia seguinte. Era uma luta constante, não ter ideia do que o amanhã reservava. Sou cauteloso por natureza, um planejador, alguém que gosta de saber o que tem depois da esquina à frente e da próxima, e toda aquela experiência, desde o momento em que me aventurei na casca abandonada da casa da srta. Peregrine até então, tinha sido uma longa queda livre no vazio. Para sobreviver, eu tinha que me transformar em uma nova pessoa, alguém flexível, seguro e corajoso. Alguém de quem meu avô ficaria orgulhoso. Mas minha transformação não havia sido total. Esse novo Jacob nascera a partir do antigo, e eu ainda tinha muitos momentos de pavor absoluto, além de desejar jamais ter ouvido falar da srta. Peregrine e de querer que o mundo parasse de girar para que eu pudesse apenas relaxar por alguns minutos. Eu me perguntei, com uma dor profunda, qual Jacob amava Emma. Era o novo, que estava pronto para qualquer coisa, ou o antigo, que precisava apenas de algo a que se apegar?
Decidi que não queria pensar nisso naquele momento, o que era um jeito nitidamente do velho Jacob de lidar com as coisas, e me concentrei na distração mais óbvia: o etéreo, e o que iria acontecer quando ele acordasse. Pelo jeito, eu teria que abrir mão dele.
— Eu gostaria de levá-lo com a gente — falei. — Com ele, ia ser muito fácil arrebentar qualquer um que entrasse em nosso caminho. Mas acho que ele tem que ficar para trás para manter a máquina em funcionamento.
Emma ergueu a sobrancelha.
— Não vá se afeiçoar demais. Lembre-se, se você der um mínimo de oportunidade, essa coisa vai comer você vivo.
— Eu sei, eu sei — falei, em meio a um suspiro.
— E talvez não fosse tão fácil arrebentar tudo, tenho certeza de que os acólitos sabem lidar com etéreos. Afinal, eles já foram etéreos.
— É um dom único que você tem — disse Reynaldo, falando conosco pela primeira vez em mais de uma hora.
Ele tirara uma folga de monitorar a ferida do etéreo para revirar os armários de Bentham à procura de comida, e agora ele e a Mãe Poeira estavam sentados a uma mesinha dividindo um pedaço de queijo com veios azuis.
— Mas é um dom estranho — respondi. Eu tinha passado um tempo pensando em como era estranho, mas não conseguira articular isso até então. — Em um mundo ideal, não haveria nenhum etéreo. E se não houvesse nenhum etéreo, minha visão especial não teria nada para ver e ninguém iria entender a língua esquisita que eu posso falar. Vocês nem iriam saber que eu tenho uma habilidade peculiar.
— Então é uma coisa boa que você esteja aqui agora — disse Emma.
— É, mas... isso não parece quase aleatório demais? Eu podia ter nascido em qualquer época. Meu avô também. Os etéreos só existem há cem anos, mais ou menos, mas aconteceu que nós dois nascemos agora, justo quando éramos necessários. Por quê?
— Acho que era para ser assim — disse Emma. — Ou talvez sempre tenham existido pessoas capazes de fazer o que você faz, só que elas nunca souberam. Talvez muitas pessoas passem pela vida sem jamais saber que são peculiares.
A Mãe Poeira se inclinou na direção de Reynaldo e sussurrou algo.
— Ela falou que não é nenhuma das duas coisas — disse Reynaldo. — Seu verdadeiro dom provavelmente não é manipular etéreos, essa é apenas a aplicação mais óbvia.
— O que você quer dizer? O que mais ele poderia ser? — perguntei.
A Mãe Poeira tornou a sussurrar.
— É mais simples que isso — disse Reynaldo. — Do mesmo modo que um violoncelista talentoso não nasceu com aptidão apenas para aquele instrumento, mas para música em geral, você não nasceu apenas para manipular etéreos. Nem você — disse ele a Emma — para fazer fogo.
Emma franziu a testa.
— Tenho mais de cem anos. Acho que, a essa altura, conheço minha habilidade peculiar, e sem dúvida não consigo manipular água, ar ou terra. Acredite em mim, eu tentei.
— Isso não significa que você não possa — disse Reynaldo. — No início da vida, nós reconhecemos alguns talentos em nós mesmos e nos concentramos neles, excluindo outros. Não é que mais nada seja possível, é que mais nada foi cultivado.
— É uma teoria interessante — falei.
— A questão é que não é coincidência você ter a habilidade de manipular etéreos. Seu dom se desenvolveu nessa direção porque isso era necessário.
— Se isso é verdade, então por que nem todos nós podemos controlar etéreos? — disse Emma. — O que Jacob tem seria útil para todo peculiar.
— Porque só o dom básico dele era capaz de se desenvolver assim. Em épocas anteriores aos etéreos, os talentos de peculiares com almas semelhantes à dele se manifestavam de outro modo. Dizem que na Biblioteca de Almas trabalhavam pessoas que liam almas de peculiares como se fossem livros. Se esses bibliotecários estivessem vivos hoje, talvez fossem como ele.
— Por que você está dizendo isso? Ver etéreos tem alguma coisa a ver com almas? — perguntei.
Reynaldo consultou a Mãe Poeira.
— Você parece ser um leitor de corações — disse ele. — Você viu bondade no de Bentham, mesmo depois de tudo. Decidiu perdoá-lo.
— Perdoar? Por que eu teria que perdoar Bentham?
A Mãe Poeira soube que tinha falado demais, mas agora não havia jeito. Ela sussurrou alguma coisa para Reynaldo.
— Pelo que ele fez com seu avô — respondeu ele.
Eu me virei para Emma, mas ela parecia tão confusa quanto eu.
— E o que ele fez com meu avô?
— Deixe que eu conto tudo a eles — disse uma voz, da porta, e o próprio Bentham entrou, mancando. — A vergonha é minha, e sou eu quem a deve confessar.
Ele passou devagar pela pia, puxou uma cadeira para longe da mesa e se sentou de frente para nós.
— Durante a guerra, seu avô era altamente valorizado pela facilidade em lidar com etéreos. Nós tínhamos um projeto secreto, alguns técnicos e eu: acreditávamos que seria possível reproduzir a habilidade dele e dar para outros peculiares. Inoculá-los contra etéreos, como uma vacina. Se todos conseguissem ver e sentir essas criaturas, elas deixariam de ser uma ameaça, e a guerra contra sua espécie seria vencida. Seu avô fez muitos sacrifícios nobres, mas nenhum tão grande quanto este: ele concordou em participar.
Emma escutava com o rosto tenso. Eu percebi que ela nunca tinha ouvido aquilo.
— Nós só pegamos um pouco — disse Bentham. — Só um pedaço de sua segunda alma. Achamos que ela pudesse ser utilizada, ou que fosse se recuperar, como quando uma pessoa doa sangue.
— Você tomou a alma dele — disse Emma, com uma voz vacilante.
— Só esse tanto. — Bentham ergueu o polegar e o indicador, afastados apenas um centímetro. — Nós a dividimos e ministramos a várias cobaias. Apesar de ter o efeito desejado, não durava muito, e a exposição repetida começou a acabar com suas habilidades naturais. Foi um fracasso.
— E quanto a Abe? — perguntou Emma, com a aspereza especial que ela reservava para aqueles que machucavam as pessoas que ela amava. — O que você fez com ele?
— Ele ficou enfraquecido, e seu talento se diluiu — disse Bentham. — Antes da intervenção, ele se parecia muito com o jovem Jacob. Sua habilidade de controlar etéreos era um fator decisivo em nossa guerra contra os acólitos. Depois da intervenção, porém, ele descobriu que não tinha mais o controle, e sua segunda visão se turvou. Me disseram que, logo depois, ele deixou completamente o mundo peculiar. Tinha medo de se tornar um risco para seus irmãos peculiares em vez de uma ajuda. Sentia que não podia mais proteger seu povo.
Olhei para Emma. Ela estava com o olhar fixo no chão, o rosto ilegível.
— Uma experiência fracassada não é nada de que se arrepender — disse Bentham. — É assim que se fazem progressos científicos. Mas o que aconteceu com seu avô é um dos maiores arrependimentos de minha vida.
— Foi por isso que ele partiu — disse Emma, erguendo o rosto. — Foi por isso que ele foi para os Estados Unidos. — Ela se virou para mim. Ela não parecia com raiva, mas tinha uma expressão de alívio por começar a entender. — Ele estava com vergonha. Certa vez ele disse isso em uma carta, e eu nunca entendi por quê. Que se sentia envergonhado e não peculiar.
— Isso foi tirado dele — falei.
Agora eu tinha uma resposta para outra pergunta: como um etéreo podia ter superado meu avô em seu próprio quintal. Ele não estava senil, nem particularmente frágil. Mas suas defesas contra etéreos estavam quase todas esgotadas, e havia muito tempo.
— Não é isso que o senhor deve lamentar — disse Sharon, parado na porta de braços cruzados. — Um homem não ia ganhar aquela guerra. A verdadeira vergonha é o que os acólitos fizeram com sua tecnologia. Você criou o precursor da ambrosia.
— Eu tentei pagar minha dívida — disse Bentham. — Não ajudei você? E você? — Ele olhou para Sharon, depois para a Mãe Poeira. Assim como Sharon, parecia que ela também tinha sido viciada em ambrosia. — Por anos eu quis me desculpar — disse ele, se virando para mim. — Compensar seu avô. Era por isso que estava esse tempo todo procurando por ele. Eu esperava que ele voltasse para me ver, e eu descobrisse um modo de restaurar seu talento.
Emma deu uma risada amarga.
— Depois do que você fez, achou que ele voltaria por mais?
— Eu não achava provável, mas tinha esperanças. Felizmente, a redenção vem de muitas formas. Nesse caso, na forma de um neto.
— Eu não estou aqui para redimir você — falei.
— Ainda assim, sou seu criado. Se eu puder fazer qualquer coisa, basta pedir.
— Apenas nos ajude a trazer nossos amigos e sua irmã de volta.
— Com prazer — disse ele, aparentemente aliviado por eu não ter exigido mais ou me erguido e gritado em sua cara. Talvez eu ainda fizesse isso, pois minha cabeça estava girando, e eu ainda não tinha descoberto como reagir. — Agora, em relação a como proceder a partir daqui...
— Podemos ter um instante a sós? — disse Emma. — Jacob e eu?
Saímos no corredor para conversar em particular, com o etéreo fora da vista, mas bem perto.
— Vamos fazer uma lista de todas as coisas terríveis que esse homem já fez — disse Emma.
— Está bem. Uma: ele criou os etéreos. Mas sem querer.
— Mas criou. E ele criou a ambrosia, e tirou o poder de Abe, ou a maior parte dele.
Sem querer, eu quase disse outra vez. Mas as intenções de Bentham não eram a questão. Eu sabia aonde ela queria chegar: depois de todas essas revelações, eu não estava tão confiante em botar nossos destinos nas mãos de Bentham, nem em fazer parte de seus planos. Ele podia ter sido bem-intencionado, mas tinha uma ficha lamentável.
— Podemos confiar nele? — perguntou Emma.
— Nós temos escolha?
— Essa não foi minha pergunta.
Pensei por um momento.
— Eu acho que podemos — respondi. — Só espero que o azar dele tenha se esgotado.

* * *

— VENHA RÁPIDO! ELE ESTÁ ACORDANDO!
Gritos ecoaram da cozinha. Emma e eu entramos correndo e encontramos todos encolhidos em um canto, aterrorizados por um etéreo grogue que se esforçava para se sentar, mas tinha conseguido apenas debruçar a parte superior do corpo por cima da borda da pia. Só eu podia ver sua boca aberta, as línguas pendendo inertes sobre o chão.
Feche a boca, falei em etéreo. Ele as sugou de volta para o interior da boca, com um barulho igual ao de alguém comendo espaguete.
Sente-se.
O etéreo não conseguia fazer isso, portanto eu o segurei pelos ombros e fiz com que se sentasse. Apesar disso, ele estava se recuperando com velocidade impressionante e, após alguns minutos, já havia recobrado habilidade motora suficiente para ser conduzido para fora da pia e ficar de pé. Ele não mancava mais. Tudo o que restara do corte no pescoço era uma leve linha branca, parecidas com aquelas que estavam rapidamente desaparecendo do meu próprio rosto. Enquanto eu observava aquilo, Bentham não conseguia esconder a irritação pelo fato de a Mãe Poeira ter curado tão bem o etéreo.
— Tenho culpa de minha poeira ser tão forte? — disse a Mãe Poeira, por meio de Reynaldo.
Exaustos, eles foram procurar camas. Emma e eu também estávamos cansados, pois estava quase amanhecendo e não tínhamos dormido, mas nosso progresso era animador, e a esperança nos dera um segundo fôlego.
Bentham se virou para nós, com os olhos brilhando.
— É a hora da verdade, amigos. Vamos ver se botamos a velha garota para funcionar outra vez?
Com isso ele queria dizer a máquina, e não havia necessidade de perguntar.
— Não vamos desperdiçar nem mais um segundo — disse Emma.
Bentham chamou o urxinim, e eu avivei meu etéreo. PT surgiu na porta, tomou seu mestre nos braços, e, juntos, eles nos conduziram pela casa. Que quadro estranho devíamos formar se alguém estivesse vendo: um cavalheiro elegante aninhado nos braços de um urxinim, Sharon em sua capa preta ondulante, Emma segurando bocejos com uma mão que não parava de soltar fumaça e eu murmurando com meu etéreo emplastrado de branco, que mesmo em saúde perfeita caminhava se arrastando, como se os ossos não coubessem bem no corpo.
Seguimos pelos corredores e descemos as escadas até as entranhas da casa: salas cheias de maquinaria barulhenta, uma menor que a outra, até que finalmente chegamos a uma porta pela qual o urxinim não conseguiu passar.
Nós paramos. PT pôs seu senhor no chão.
— Aqui estamos — disse Bentham, radiante como um pai orgulhoso. — O coração de meu Polifendador.
Bentham abriu a porta. PT esperou do lado de fora enquanto o resto de nós entrou atrás dele.
Na sala pequena, via-se uma máquina temível feita de ferro e aço. Suas entranhas se estendiam de parede a parede, um arranjo confuso de engrenagens, pistões e válvulas reluzentes por causa do óleo. Parecia uma máquina capaz de fazer muito barulho, mas por enquanto estava parada, fria e silenciosa. Um homem sujo de graxa estava de pé entre duas engrenagens gigantes, apertando alguma coisa com uma chave.
— Este é meu assistente, Kim — disse Bentham.
Eu o reconheci: era o homem que nos botou para correr do Quarto Sibéria.
— Eu sou Jacob — falei. — Nós demos um susto em você na neve, ontem.
— O que você estava fazendo lá? — perguntou Emma a ele.
— Congelando quase até a morte — disse o homem, com amargura, e continuou a apertar.
— Kim está me ajudando a encontrar uma entrada para o Polifendador do meu irmão. Se essa porta existe no Quarto Sibéria, provavelmente fica no fundo de uma fenda profunda no gelo. Tenho certeza de que Kim vai ficar grato se seu etéreo conseguir botar no ar algum de nossos outros quartos, onde é provável que haja portas em lugares mais acessíveis.
Kim resmungou, nos olhando de cima a baixo com ar cético. Eu me perguntei quantos anos ele havia passado lutando contra queimaduras de frio e vasculhando as fendas no gelo.


Bentham foi direto ao trabalho: deu ordens curtas para o assistente, que girou alguns seletores e puxou uma alavanca comprida. As engrenagens da máquina emitiram um chiado e gorgolejaram e em seguida giraram um grau.
— Traga a criatura — disse Bentham em voz baixa.
O etéreo estava esperando do lado de fora, e eu o chamei para entrar. Ele passou pela porta e soltou um rosnado baixo e rouco, como se soubesse que algo desagradável estava prestes a lhe acontecer.
O assistente deixou cair a chave inglesa, mas logo a recuperou.
— Aqui é a câmara da bateria — disse Bentham, chamando nossa atenção para uma caixa grande no canto. — Você precisa guiar a criatura para dentro, onde ela vai ser imobilizada.
A câmara parecia uma cabine telefônica feita de ferro fundido e sem janelas. Um emaranhado de tubos saía do topo e se conectava a canos que corriam pelo teto. Bentham pegou a maçaneta da pesada porta e a abriu com um ruído áspero. Eu olhei seu interior. As paredes eram de metal cinza e liso, perfuradas com pequenos buracos, como o interior de um forno. No fundo, havia um conjunto de grossas correias de couro penduradas.
— Isso vai machucar ele? — perguntei.
Eu me surpreendi com a pergunta, e Bentham, também.
— Isso importa? — respondeu ele.
— Eu preferia que ele não se machucasse. Se for possível.
— Não é — disse Bentham. — Mas ele não vai sentir nenhuma dor. A câmara automaticamente se enche de gás sonífero anestésico antes que qualquer coisa aconteça.
— E depois o quê?
Ele sorriu e deu um tapinha no meu braço.
— É muito técnico. Basta dizer que sua criatura vai sair viva da câmara, mais ou menos na mesma condição em que entrou. Agora, poderia, por favor, fazê-la entrar?
Eu ainda não estava convencido, mas também não sabia por que isso importava para mim. Os etéreos nos fizeram passar por um inferno, e pareciam tão desprovidos de sentimentos que causar dor neles deveria ser um prazer. Mas não era. Não tinha vontade nenhuma de matar o etéreo, assim como não tinha vontade nenhuma de matar um animal estranho. Durante o tempo em que conduzi a criatura, me aproximei o suficiente para entender que havia mais em seu interior, e não apenas vazio. Havia uma pequena centelha, uma pequena gota de alma no fundo de um poço profundo. Ele, na verdade, não era etéreo, não de verdade.
Venha, falei, e o etéreo, que estivera se escondendo timidamente no canto, fez a volta em Bentham para chegar à frente da cabine. Entre.
Eu o senti hesitar. Ele, agora, estava curado, e forte, e se meu controle vacilasse, eu sabia o que ele poderia fazer. Mas eu era mais forte, e ele não seria páreo para mim em uma batalha mental. Ele hesitou, acho, porque eu hesitei. Desculpe, falei.
O etéreo não se mexeu; desculpe era uma informação com a qual ele não sabia o que fazer. Mas eu precisava dizer.
Entre, repeti, e dessa vez o etéreo obedeceu e entrou na câmara. Como mais ninguém iria tocar nele, depois desse ponto Bentham me disse o que fazer.
Seguindo suas instruções, empurrei o etéreo contra a parede dos fundos e passei as tiras de couro sobre suas pernas, braços e peito, afivelando bem. Elas tinham sido obviamente projetadas para imobilizar um ser humano, o que levantou perguntas cujas respostas eu não queria naquele momento. Tudo o que importava era seguir adiante com o plano.
Eu saí me sentindo sufocado e em pânico devido aos poucos momentos que passara no interior.
— Feche a porta — disse Bentham.
Quando hesitei, o assistente se adiantou para fazer isso, mas eu bloqueei sua passagem.
— É meu etéreo — falei. — Eu faço.
Firmei os pés, segurei a maçaneta e então, apesar de tentar não fazer isso, olhei na cara do etéreo. Seus olhos grandes e negros estavam arregalados e assustados, bastante desproporcionais ao corpo pequeno e enrugado como um cacho de figos. Ele estava imóvel e sempre provocaria nojo, mas parecia tão patético que me senti inexplicavelmente terrível, como se estivesse prestes a sacrificar um cachorro inocente que não entendesse por que estava sendo punido.
Todos os etéreos têm que morrer, disse a mim mesmo. Eu sabia que estava certo, mas isso não fez com que eu me sentisse nem um pouco melhor.
Empurrei a porta, que se fechou ruidosamente. O assistente de Bentham enfiou um cadeado gigante na maçaneta, em seguida voltou para os controles da máquina e começou a girar alguns botões.
— Você fez a coisa certa — sussurrou Emma em meu ouvido.
Engrenagens começaram a se mover, pistões a bombear, a máquina inteira a vibrar em um ritmo que fazia com que toda a sala trepidasse. Bentham bateu palmas e sorriu, feliz como uma criança. Aí, do interior da câmara veio um grito como eu nunca tinha ouvido antes.
— Você disse que não ia machucar ele! — gritei com Bentham.
Ele se virou para gritar com o assistente.
— O gás! Você se esqueceu da anestesia!
O assistente se apressou a puxar outra alavanca. Houve um chiado alto de ar comprimido. Um jato de fumaça branca saiu por uma fresta na porta da câmara.
— Pronto — disse Bentham. — Agora ele não sente nada.
Desejei por um instante que Bentham estivesse no lugar do meu etéreo naquela câmara.
Outras peças da máquina ganharam vida. Houve o som de líquido correndo pelos canos no alto. Várias válvulas pequenas perto do teto soavam como sinos. Fluido negro começou a escorrer pelas entranhas da máquina. Não era óleo, mas algo ainda mais escuro e pungente: o fluido produzido constantemente pelos etéreos, que brotava de seus olhos e escorria de seus dentes. Seu sangue.
Eu já havia visto o suficiente e saí da sala sentindo o estômago embrulhado.
Emma me seguiu.
— Você está bem?
Eu não podia esperar que ela entendesse minha reação. Eu mesmo mal a entendia.
— Vou ficar bem — falei. — Isso é o certo a fazer.
— É a única coisa que importa — disse ela. — Estamos muito perto.
Bentham saiu mancando da sala.
— PT, para cima! — ordenou ele, e subiu nos braços do urxinim.
— Está funcionando? — perguntou Emma.
— Já vamos descobrir — respondeu Bentham.
Com meu etéreo imobilizado e trancado no interior de uma câmara de ferro, havia pouco perigo em deixá-lo para trás, mas mesmo assim eu permanecia junto à porta.
Durma, falei. Durma e não acorde até que isso acabe.
Saí atrás dos outros, passamos pelas salas de máquinas e subimos vários lances de escada. Chegamos ao corredor comprido e acarpetado no qual quartos com nomes exóticos se enfileiravam. As paredes vibravam com energia; a casa parecia viva.
PT colocou Bentham no chão.
— Hora da verdade! — disse ele.
Bentham foi até a porta mais próxima e a abriu.
Uma brisa úmida soprou no corredor.
Eu me adiantei para olhar lá dentro. O que vi me deixou arrepiado. Como no Quarto Sibéria, aquele era um portal para outro lugar e outra época. Os móveis simples do quarto, como a cama, o guarda-roupa e a mesa de cabeceira, estavam cobertos de areia. Não havia parede dos fundos. Em seu lugar havia uma praia curva margeada por palmeiras.
— Eu lhes entrego Rarotonga em 1752! — declarou Bentham, com orgulho. — Olá, Sammy! Há quanto tempo!
Agachado a uma curta distância, havia um homem pequeno limpando um peixe. Ele nos olhou com leve surpresa, em seguida ergueu o peixe e acenou para nós com ele.
— Muito tempo — concordou.




— Isso é bom, então — disse Emma para Bentham. — É isso o que você queria?
— O que eu queria, o que eu sonhava... — Bentham riu enquanto corria para abrir outra porta. Dentro dela havia um desfiladeiro largo cheio de árvores, atravessado por uma ponte suspensa. — Colúmbia Britânica, 1929.
Ele saiu dando piruetas pelo corredor para abrir outra porta (a essa altura, estávamos correndo atrás dele), dentro da qual vi grandes colunas de pedra, as ruínas empoeiradas de uma cidade antiga.
— Palmira! — gritou, batendo a mão espalmada contra a parede. — Viva! Essa coisa funciona mesmo!

* * *

Bentham mal conseguia se conter.
— Meu querido Polifendador — exclamou, estendendo bem os braços. — Como senti sua falta!
— Meus parabéns — disse Sharon. — Estou feliz por estar aqui para testemunhar isso.
A empolgação de Bentham era contagiante. Sua máquina era algo impressionante: um universo contido em um único corredor. Olhando para ele, eu via indícios de outros mundos escapando, vento uivando por trás de uma porta, grãos de areia soprados no corredor por baixo de outra. Em qualquer outro momento, sob quaisquer outras circunstâncias, eu teria corrido para abrir.
Mas, naquele instante, apenas uma porta me interessava.
— Qual delas leva ao interior da fortaleza dos acólitos? — perguntei.
— Sim, sim, ao trabalho — disse Bentham se contendo. — Minhas desculpas se me deixei levar um pouco. Botei minha vida nesta máquina, e é bom vê-la funcionando outra vez.
Ele se apoiou em uma parede, de repente esgotado.
— Levar vocês até o interior da fortaleza deve ser algo bastante simples. Atrás dessas portas há pelo menos meia dúzia de pontos de travessia. A questão é: o que vocês vão fazer quando chegarem lá?
— Isso depende — disse Emma. — O que nós vamos encontrar quando chegarmos lá?
— Faz muito tempo desde que estive lá dentro — disse Bentham. — Por isso meu conhecimento está ultrapassado. O Polifendador de meu irmão não se parece com o meu, ele é disposto verticalmente, em uma torre alta. Os prisioneiros são mantidos em outro lugar. Eles estarão em celas separadas sob forte vigilância.
— Os guardas vão ser nosso maior problema — falei.
— Talvez eu possa ajudar com isso — disse Sharon.
— Você vem com a gente? — perguntou Emma.
— Absolutamente, não! — disse Sharon. — Mas eu gostaria de dar minha colaboração de algum jeito, com o mínimo risco para mim, é claro. Vou criar um distúrbio fora da fortaleza que vai atrair a atenção dos guardas. Isso deve facilitar para que vocês se esgueirem por lá sem serem vistos.
— Que tipo de distúrbio? — perguntei.
— O tipo de que os acólitos menos gostam: um distúrbio civil. Vou fazer com que aqueles vadios da Rua da Fumaça catapultem coisas imundas e em chamas nas paredes até conseguirmos que todos os guardas venham atrás de nós.
— E por que eles ajudariam você? — perguntou Emma.
— Porque há muito mais de onde esse saiu. — Ele levou a mão ao interior da capa e sacou o vidro de ambrosia que pegara de Emma. — Prometa o suficiente disso que eles farão praticamente qualquer coisa.
— Guarde isso! O senhor sabe que não permito ambro em minha casa! — reclamou Bentham.
Sharon se desculpou e guardou o frasco de volta.
Bentham consultou o relógio de pulso.
— Bem, são pouco mais de quatro e meia da manhã. Sharon, imagino que seus perturbadores da paz estejam dormindo. Será que você conseguiria ter seu exército de enfurecidos pronto às seis?
— Com toda a certeza.
— Então cuide disso.
— Fico feliz por poder ajudar.
E, com um movimento da capa, Sharon se virou e saiu apressado.
— Com isso, vocês têm uma hora e meia para se preparar — disse Bentham, apesar de não ficar imediatamente claro quais preparativos podiam ser feitos. — Qualquer coisa que eu tenha está à sua disposição.
— Você tem armas? — perguntei.
Bentham sacudiu a cabeça.
— O PT aqui é toda a proteção de que preciso.
— Explosivos? — perguntou Emma.
— Infelizmente, não.
— Imagino que não tenha uma galinha do Armagedom — falei, mais ou menos de brincadeira.
— Uma empalhada, entre meus mostruários.
Imaginei jogar a galinha empalhada em um acólito armado e não sabia se ria ou chorava.
— Talvez eu esteja confuso — disse Bentham. — Por que vocês precisariam de armas e explosivos se você pode controlar etéreos? Há muitos no interior da fortaleza. Controle-os, e a batalha estará ganha.
— Não é tão fácil — falei, cansado de explicar. — Leva muito tempo para tomar o controle, mesmo só de um...
Meu avô poderia ter feito isso, eu quis dizer. Antes de você destruí-lo.
— Bem, isso é com vocês — disse Bentham, sentindo que tinha me aborrecido. — Seja lá como consigam, as ymbrynes devem ser sua prioridade. Tragam-nas de volta primeiro, o maior número possível, começando por minha irmã. Elas são as mais importantes, e estão correndo o maior perigo.
— Concordo com isso — disse Emma. — As ymbrynes primeiro, depois nossos amigos.
— E depois o quê? — falei. — Quando eles perceberem que estamos roubando de volta nossos peculiares, eles virão atrás de nós. O que fazemos então?
Seria como roubar um banco: pegar dinheiro era apenas metade do trabalho. Depois, é preciso escapar com o dinheiro.
— Vão para onde vocês quiserem — disse Bentham, gesticulando para a extensão do corredor. — Escolham qualquer porta, qualquer fenda. Vocês têm oitenta e sete rotas de fuga em potencial só neste corredor.
— Ele tem razão — disse Emma. — Como eles poderiam nos encontrar?
— Tenho certeza de que vão dar um jeito — falei. — Isso só vai retardá-los.
Bentham ergueu o dedo.
— E é por isso que eu vou preparar uma armadilha para eles e fazer com que pareça que nós nos escondemos no Quarto Sibéria. PT tem uma família grande lá, e eles vão estar à espera logo depois da porta, dispostos e famintos.
— E se os urxinins não conseguirem acabar com eles? — perguntou Emma.
— Aí imagino que nós vamos ter que fazer isso — disse Bentham.
— Então tudo certo — disse Emma, com uma expressão que seria incompreensível não fosse seu tom de voz sarcástico.
Tradução: sua atitude indiferente me parece loucura. Bentham havia falado como se toda a coisa fosse tão simples quanto ir ao mercado: entrar, resgatar todo mundo, se esconder, acabar com os vilões e pronto. O que era, é claro, loucura.
— O senhor percebe que somos apenas duas pessoas? Dois jovens? — perguntei.
— Sim, exatamente — disse Bentham, assentindo com um ar de grande sabedoria. — Isso vai ser uma vantagem. Se os acólitos estão esperando algum tipo de resistência, é um exército em seus portões, não duas crianças dentro da fortaleza deles.
Seu otimismo estava começando a me vencer. Talvez, pensei, nós tivéssemos uma chance.
— Olá, vocês!
Nim vinha correndo em nossa direção, arfante e sem fôlego.
— Ave para o sr. Jacob! — anunciou. — Ave mensageira para o sr. Jacob... Acabou de chegar... está à espera lá embaixo!
Assim que nos alcançou, ele se dobrou ao meio e teve um acesso de tosse.
— Mas como eu posso ter recebido uma mensagem? Ninguém sabe que estou aqui.
Nim desabou no chão.
— Meu Deus — disse Bentham. — Precisamos arranjar um instrutor de educação física para você, Nim. PT, dê uma carona a esse pobre homem!

* * *

O mensageiro estava esperando por ele em um foyer no andar de baixo. Era um papagaio grande e verde. Ele tinha entrado na casa por uma janela aberta, minutos antes, e começou a gritar meu nome, e em determinado momento Nim o pegou e o pôs em uma gaiola.
Ele ainda estava gritando meu nome.
— JAY-cob! JAY-cob!
Sua voz soava como uma dobradiça enferrujada.


— Ele não quer falar com ninguém, só com você — explicou Nim, me apressando na direção da gaiola. — Aqui está ele, sua ave tola! Entregue-lhe a mensagem!
— Olá, Jacob — disse o papagaio. — Aqui quem fala é a srta. Peregrine.
— O quê?! — falei, chocado. — Ela agora é um papagaio?
— Não — disse Emma. — A mensagem é da srta. Peregrine. Vá em frente, papagaio, o que ela diz?
— Estou viva e bem, na torre de meu irmão — disse a ave, falando agora em uma voz que soava assustadoramente humana. — Os outros estão aqui, também: Millard, Olive, Horace, Bruntley, Enoch e o resto.
Emma e eu nos entreolhamos. Bruntley?
Como uma secretária eletrônica viva, a ave prosseguiu:
— O cachorro da srta. Wren me contou onde eu poderia encontrar você e a srta. Bloom. Quero dissuadi-los de qualquer tentativa de resgate. Não estamos em perigo aqui, e não há necessidade de arriscar sua vida com proezas tolas. Em vez disso, meu irmão fez esta oferta: entreguem-se a seus guardas na brigada da Rua da Fumaça e não sofrerão mal algum. Insisto que obedeçam. É nossa única opção. Seremos reunidos, e, sob o cuidado e a proteção de meu irmão, todos faremos parte de um novo mundo peculiar.
O papagaio assoviou, indicando que a mensagem havia terminado.
Emma estava sacudindo a cabeça.
— Isso não parece a srta. Peregrine. A menos que ela tenha sofrido uma lavagem cerebral.
— E ela nunca chama os garotos só pelo nome ou sobrenome — falei. — Ela teria dito senhorita Bruntley.
— Vocês não acreditam que a mensagem seja autêntica? — disse Bentham.
— Não sei o que foi isso — retrucou Emma.
Bentham se inclinou na direção da gaiola e disse:
— Autentique!
A ave nada disse. Bentham repetiu a ordem, cauteloso, e virou o ouvido na direção da ave. Então, de repente, ele se ergueu.
— Ah, droga.
E então eu também ouvi: um tique-taque.
— BOMBA! — gritou Emma.
PT derrubou a gaiola em um canto, nos envolveu em um abraço protetor e deu as costas para a ave. Houve um clarão ofuscante e um estrondo ensurdecedor, mas eu não senti dor; o urso recebera o impacto da explosão.
Além de uma onda de pressão que fez meus ouvidos estalarem e arrancou o chapéu de Bentham, seguida por uma sensação de calor calcinante piedosamente breve, tínhamos sido poupados.
Choviam fragmentos de tinta e penas de papagaio enquanto saíamos cambaleantes do foyer. Estávamos todos ilesos, menos o urxinim, que ficou nas quatro patas e nos mostrou as costas com um gemido trêmulo. Elas estavam queimadas, pretas e sem pelos, e, quando viu isso, Bentham gritou de raiva e abraçou o animal pelo pescoço.
Nim foi correndo despertar a Mãe Poeira.
— Sabe o que isso quer dizer? — perguntou Emma.
Ela estava tremendo, de olhos arregalados, e tenho certeza de que eu também. Sobreviver a um ataque de bomba faz isso com uma pessoa.
— Tenho quase certeza de que não foi a srta. Peregrine quem mandou aquele papagaio — falei.
— Obviamente...
— E Caul sabe onde nós estamos.
— Se não sabia antes, agora sabe. Aves mensageiras são treinadas para encontrar pessoas mesmo que o remetente não tenha o endereço.
— Isso significa que eles com certeza pegaram Addison — falei, e me senti arrasado com a ideia.
— Sim... mas também significa outra coisa. Caul está com medo de nós. Ele não teria se dado ao trabalho de tentar nos matar se não fosse assim.
— Pode ser — falei.
— Sem dúvida. E se ele está com medo de nós, Jacob... — Ela semicerrou os olhos para mim. — Isso significa que há alguma coisa do que ter medo.
— Ele não está com medo — disse Bentham, levantando a cabeça das dobras do pescoço de PT. — Deveria, mas não está. O papagaio não foi mandado para matar vocês, só para incapacitar. Parece que meu irmão quer o jovem Jacob vivo.
— Eu? Para quê?
— Só posso pensar em uma razão. Ele soube de sua performance contra o etéreo, e isso o convenceu de que você é bem especial.
— Especial como? — falei.
— Meu palpite é este: ele acredita que você pode ser a última chave para a Biblioteca de Almas. A pessoa que pode ver e manipular os vasos de almas.
— Como a Mãe Poeira disse — sussurrou Emma.
— Isso é loucura — falei. — Será?
— O que importa é que ele acredita — disse Bentham. — Mas isso não muda nada. Vocês vão executar o resgate como planejado, e depois vamos levar vocês, meus amigos e nossas ymbrynes o mais longe possível de meu irmão e seus estratagemas. Mas precisamos nos apressar: a infantaria de Jack vai chegar a esta casa seguindo a pista do papagaio que explodiu. Em breve eles estarão aqui procurando vocês, e vocês precisam partir antes disso. — Ele consultou o relógio de bolso. — Aliás, são quase seis horas em ponto.
Estávamos prestes a sair quando vimos a Mãe Poeira e Reynaldo entrarem apressados.
— A Mãe Poeira gostaria de lhe dar uma coisa — disse ele, e a Mãe Poeira estendeu um objeto pequeno embrulhado em um pano.
Bentham disse que não tínhamos tempo para presentes, mas Reynaldo insistiu.
— Caso vocês enfrentem problemas — disse ele, enfiando o item na mão de Emma.
Emma abriu o tecido grosseiro. A coisa pequena em seu interior primeiro parecia um pedaço de giz, até que Emma a rolou na palma da mão.
Tinha duas articulações e uma unha pintada.
Era um dedo mindinho.
— A senhora não precisava — falei.
Reynaldo percebeu que não tínhamos entendido.
— É o dedo da Mãe Poeira — disse ele. — Esfarelem para usar como quiserem.
Emma arregalou os olhos e abaixou um pouco a mão, como se o dedo tivesse acabado de triplicar de peso.
— Não posso aceitar isto — disse ela. — É demais.
A Mãe Poeira estendeu a mão boa (estava melhor que da vez anterior, um curativo cobrindo o coto onde antes ficava seu mindinho) e fechou a mão de Emma em torno do presente. Ela murmurou, e Reynaldo traduziu:
— Você e ele são nossa última esperança. Eu lhes daria meu braço inteiro se pudesse.
— Não sei o que dizer — falei. — Obrigado.
— Usem com parcimônia — disse Reynaldo. — Um pouquinho dura muito. Ah, e vocês vão querer isso. — Ele tirou duas máscaras do bolso de trás e as agitou. — Senão, vão se botar para dormir junto com seus inimigos.
Eu tornei a agradecer a ele e aceitei as máscaras. A Mãe Poeira nos fez uma pequena reverência, sua saia enorme varrendo o chão.
— Agora nós temos mesmo que ir — disse Bentham, e deixamos PT na companhia dos curandeiros e dos dois filhotes de urxinim, que tinham chegado para abraçar seu ancião ferido.
Voltamos para o corredor das fendas, no andar de cima. Quando chegamos, senti uma leve vertigem, como a tontura repentina de quem se dá conta de que está parado na beira de um abismo: oitenta e sete mundos atrás de oitenta e sete portas, todos dispostos à nossa frente, todas aquelas infinidades se conectando ali como nervos a um tronco cerebral. Estávamos prestes a entrar em uma delas e talvez nunca mais tornar a sair. Eu sentia o velho Jacob e o novo Jacob se digladiando por causa disso, terror e empolgação chegando até mim em ondas sucessivas.
Bentham não parava de falar, caminhando depressa com a bengala. Ele nos disse qual porta usar e onde encontrar a porta dentro daquela porta que nos levaria para o lado da fenda onde estava Caul e como tornar a sair no interior do Polifendador de sua fortaleza. Tudo era muito complicado, mas Bentham prometeu que o caminho era curto e sinalizado por placas. Para se assegurar duplamente de que nós não nos perdêssemos, ele mandou junto seu assistente para nos guiar. O assistente foi chamado para cuidar das engrenagens da máquina e aguardava em silêncio, muito sério, enquanto nos despedíamos.
Bentham apertou nossas mãos.
— Até logo e boa sorte, e obrigado — disse ele.
— Não nos agradeça ainda — retrucou Emma.
O assistente abriu uma das portas e esperou ao lado.
— Tragam minha irmã de volta — disse Bentham. — E, quando encontrarem seus captores — ele ergueu a mão enluvada e cerrou o punho, o couro rangendo ao se apertar —, não tenham piedade.
— Pode deixar — falei, e cruzei a porta.

6 comentários:

  1. Essa "Mãe Poeira" me dá calafrios..

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  2. Agora que a ação vai começar ♡

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  3. Ainda bem que não sou fui só eu que me afeiçoei ao etéreo, tava me sentindo estranha já

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  4. Não li o segundo livro'-' vim direto pra esse
    Alguem pode me resumir a cidade dps etéreos pra que eu possa ter uma idéia? Não quero parar de ler agora ^^
    -Aniat

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    1. todas as aves foram sequestradas, é a ave que eles carregavam era o irmão mal da srta peregrine

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    2. /\ melhor resumo do livro ( O irmão do mal da Srta Peregrine se chamava Caul.

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Boa leitura :)