10 de abril de 2017

Capítulo seis

O lugar se chamava Carvoeira. Tinha esse nome porque antigamente havia algumas cidades bem pequenas apenas para atender as pessoas que trabalhavam nas minas de carvão. Em Carvoeira havia carvão por toda parte: em pedaços, empilhados junto à lateral das casas; a fumaça oleosa subindo pelas chaminés; manchas negras nos macacões dos homens que iam para o trabalho. Passamos por eles correndo, nos dirigindo à estação.
— Depressa — mandou Emma. — Nada de conversa. E fiquem de cabeça baixa.
Era uma regra bem conhecida: evitar contato visual com os normais, porque olhares podiam levar a conversas, que podiam levar a perguntas, e as crianças peculiares consideravam as perguntas dos adultos normais muito difíceis de responder de um jeito que não gerasse ainda mais perguntas. Claro, nada melhor para gerar perguntas do que um grupo de crianças sujas e esfarrapadas viajando sozinhas em tempos de guerra — ainda por cima, com uma grande ave de rapina com garras afiadas pousada no ombro de uma das meninas —, mas os moradores da cidade mal pareceram nos notar. Eles assombravam as filas das lavanderias e as entradas dos bares das ruas sinuosas de Carvoeira, encurvados como flores murchas. Seus olhos passavam por nós e logo se desviavam. Aquelas pessoas tinham outras preocupações.
A estação de trem era tão pequena que fiquei imaginando se os trens se davam mesmo ao trabalho de parar ali. A única parte coberta era a bilheteria, uma casinha no meio de uma plataforma ao ar livre. Um homem dormia sentado ali dentro, os óculos bifocais grossos como fundos de garrafa pendurados na ponta do nariz.
Emma bateu com força no vidro do guichê, despertando o funcionário com um susto.
— Oito passagens para Londres! — disse. — Precisamos chegar lá hoje à tarde.
O bilheteiro nos observou através do vidro. Ele tirou os óculos bifocais, limpou-os e os recolocou, só para se certificar de que estava vendo direito. Tenho certeza de que causávamos um choque: roupas manchadas de lama, cabelo oleoso e despenteado. Devíamos estar fedendo também.
— Sinto muito — disse o bilheteiro. — O trem está lotado.
Olhei ao redor. Além de algumas pessoas dormindo nos bancos, a estação estava vazia.
— Isso é um absurdo! — reclamou Emma. — Venda esses bilhetes de uma vez, ou vou denunciá-lo às autoridades da ferrovia por discriminação contra crianças!
Eu teria lidado com o bilheteiro com mais delicadeza, mas Emma não tinha paciência com os pequenos burocratas que davam importância demais à própria autoridade.
— Se tal estatuto existisse — retrucou o funcionário, erguendo o nariz em desprezo —, não se aplicaria a vocês. Estamos em guerra, sabe, e existem coisas mais importantes do que crianças e animais para transportar pelos campos de Sua Majestade! — Ele lançou um olhar severo para a srta. Peregrine. — Aliás, animais não são permitidos!
Um trem entrou na estação assobiando e parou com um ruído estridente. O condutor pôs a cabeça para fora de uma janela e gritou:
— Oito e meia para Londres! Todos a bordo!
As pessoas que dormiam nos bancos se levantaram e começaram a seguir para o trem arrastando os pés.
Um homem de terno cinza passou por nós, foi até o guichê e entregou dinheiro para o bilheteiro. Em troca, recebeu uma passagem. Ele correu na direção do trem.
— Você disse que estava lotado! — reclamou Emma, batendo com força no vidro. — Você não pode fazer isso!
— O cavalheiro comprou um bilhete de primeira classe — explicou o bilheteiro. — Agora vão embora, seus mendigos fedorentos! Vão procurar bolsos para roubar em outro lugar!
Horace foi até o guichê e disse:
— Mendigos, por definição, não andam com grandes somas de dinheiro. — Ele enfiou a mão no bolso do casaco e jogou um gordo maço de notas sobre o balcão. — Se há bilhetes de primeira classe disponíveis, são esses mesmo que queremos!
O bilheteiro se endireitou na cadeira, boquiaberto diante do bolo de dinheiro.
Também ficamos boquiabertos, sem saber onde Horace conseguira aquilo.
Contando as notas, o bilheteiro comentou:
— Nossa, isso é suficiente para comprar passagens de um vagão inteiro de primeira classe!
— Então queremos um vagão inteiro! — retrucou Horace. — Assim você pode ter certeza de que não vamos roubar ninguém.
O funcionário enrubesceu e começou a gaguejar.
— S-sim, senhor... desculpe, senhor... e espero que não considere meus comentários anteriores, era apenas brincadeira...
— Me dê logo a porcaria das passagens para que possamos embarcar!
— É pra já, senhor!
O bilheteiro empurrou uma pilha de bilhetes em nossa direção.
— Boa viagem! E, por favor, não contem a ninguém que eu sugeri isto, senhoras e senhores, mas, se eu fosse vocês, esconderia essa ave. Os condutores não vão gostar, com ou sem passagens de primeira classe.
Enquanto nos afastávamos da bilheteria com as passagens na mão, Horace estufou o peito como um pavão.
— Onde foi que você arrumou esse dinheiro todo? — perguntou Emma.
— Resgatei da cômoda da srta. Peregrine antes do incêndio. Fiz um bolso especial no casaco, por garantia.
— Horace, você é um gênio! — exclamou Bronwyn.
— Será que um gênio de verdade teria dado de bandeja cada centavo que tínhamos? — inquiriu Enoch. — Nós realmente precisávamos de um vagão de primeira classe inteiro?
— Não, mas deixar aquele homem com cara de idiota foi bom, não foi? — respondeu Horace.
— Acho que foi — concordou Enoch.
— Isso porque o verdadeiro propósito do dinheiro é manipular os outros e fazê-los se sentir inferiores.
— Não tenho tanta certeza quanto a isso — interveio Emma.
— Brincadeira! — exclamou Horace. — Dinheiro serve para comprar roupas, é claro.
Estávamos prestes a embarcar quando o condutor nos parou.
— Apresentem suas passagens! — O homem já ia pegando a pilha de bilhetes das mãos de Horace quando reparou que Bronwyn estava enfiando alguma coisa no casaco. — O que você tem aí? — inquiriu o homem, andando ao redor dela, desconfiado.
— O que eu tenho onde? — perguntou Bronwyn, tentando parecer despreocupada enquanto segurava o casaco fechado sobre um grande calombo que não parava de se remexer.
— Aí no casaco! — respondeu o condutor. — Não brinque comigo, mocinha.
— É, hã... — Bronwyn tentou pensar numa resposta, mas não conseguiu. — ... um pássaro?
Emma baixou a cabeça. Enoch cobriu os olhos com a mão e soltou um gemido.
— Não permitimos animais no trem! — repreendeu o condutor.
— Mas o senhor não compreende — retrucou Bronwyn. — Eu a tenho desde pequena... e nós precisamos embarcar nesse trem... pagamos tanto pelas passagens!
— Regras são regras! — respondeu o condutor, com a paciência se esgotando. — Não pense que esse trem é um brinquedo, para ser tão desrespeitosa!
Emma ergueu a cabeça de repente, com uma expressão satisfeita.
— Um brinquedo! — exclamou.
— Como? — indagou o condutor.
— Não é um pássaro de verdade, senhor condutor. Nunca sonharíamos em desrespeitar as regras desse jeito. É o brinquedo favorito da minha irmã, e ela acha que o senhor quer roubá-lo. — Emma uniu as mãos em um gesto de súplica, implorando. — O senhor não tiraria o brinquedo preferido de uma criança, tiraria?
O condutor observou Bronwyn, desconfiado.
— Ela parece já ter passado da idade para brinquedos, não acha?
Emma se inclinou para perto dele e murmurou:
— Ela é um pouco atrasada, sabe...
Bronwyn fez cara feia para o comentário, mas não tinha escolha: precisava entrar no papel. O condutor foi até ela.
— Então me deixe ver esse brinquedo.
Era o momento da verdade. Prendemos a respiração. Bronwyn abriu o casaco, enfiou a mão e retirou a srta. Peregrine bem lentamente. Quando vi a ave, pensei, por um momento terrível, que ela tivesse morrido. A srta. Peregrine estava rígida, deitada de olhos fechados nas mãos de Bronwyn, as pernas duras e esticadas. Então percebi que ela também estava interpretando.
— Viu? — disse Bronwyn. — Não é de verdade. É empalhada.
— Eu a vi se mexendo! — retrucou o condutor.
— Ela é... é... um brinquedo de corda — respondeu Bronwyn. — Veja só.
A menina se ajoelhou, pôs a srta. Peregrine no chão, enfiou a mão debaixo de uma das asas e fingiu girar alguma coisa. No instante seguinte, a srta. Peregrine abriu os olhos e começou a andar, balançando a cabeça e movendo as pernas de um jeito duro, como se fossem acionadas por molas. Finalmente, a ave parou de repente e tombou para o lado, rígida como uma pedra. Uma interpretação digna de Oscar.
O condutor pareceu quase convencido; mas não totalmente.
— Bem... — Ele pigarreou. — Já que é um brinquedo, vocês não vão se importar de guardá-lo no baú de brinquedos. — Ele apontou com a cabeça para o baú, que Bronwyn deixara na plataforma.
A menina hesitou.
— Não é um...
— Sim, está bem, isso não é problema — interrompeu Emma, abrindo o trinco do baú. — Guarde o brinquedo, irmã!
— Mas e se não tiver ar aí dentro? — sussurrou Bronwyn para Emma.
— Então faremos alguns furos nas laterais, ora! — sussurrou Emma em resposta.
Bronwyn pegou a srta. Peregrine e a colocou com cuidado dentro do baú.
— Sinto muito, senhora — murmurou, baixando e fechando a tampa.
O condutor finalmente pegou nossas passagens.
— Primeira classe! — comentou, surpreso. — O vagão de vocês é lá na frente. — Ele apontou para o final da plataforma. — É melhor correrem!
— E só agora ele diz isso!? — resmungou Emma, e então saímos correndo pela plataforma.
Com uma baforada de fumaça e um gemido metálico, o trem começou a se mover ao nosso lado. De início, apenas nos acompanhava na corrida, mas a cada giro das rodas a velocidade aumentava um pouco.
Emparelhamos com o vagão da primeira classe. Bronwyn foi a primeira a pular para a porta aberta. Ela pousou o baú no chão do corredor e estendeu a mão para ajudar Olive.
Então, atrás de nós, alguém gritou:
— Parem! Afastem-se daí!
Não era o condutor. Era uma voz mais grossa, mais autoritária.
— Ah, eu juro que se mais uma pessoa tentar impedir que a gente embarque nesse trem... — começou Enoch.
Ouvimos um tiro, e o choque que isso provocou fez meus pés vacilarem.
Tropecei ao tentar pular no vagão e caí de volta na plataforma.
— Eu mandei parar! — berrou a voz outra vez.
Quando olhei para trás por cima do ombro, vi um soldado uniformizado com os joelhos dobrados em posição de tiro, o fuzil apontado para nós. Com um par de explosões altas, ele disparou duas outras balas acima de nossas cabeças, só para mostrar que estava falando sério.
— Desçam do trem e se ajoelhem! — mandou, indo depressa na nossa direção.
Pensei em sair correndo, mas captei um vislumbre dos olhos do soldado, e os globos protuberantes e completamente brancos me convenceram a não fazê-lo.
Era um acólito, e eu sabia que ele não pensaria duas vezes antes de atirar em qualquer de nós. Era melhor não dar pretextos. Bronwyn e Olive deviam estar pensando mais ou menos a mesma coisa, porque desceram do trem e se ajoelharam junto com o restante do grupo.
Tão perto, pensei. Chegamos tão perto.
O trem deixou a estação sem nós. Lá se ia nossa chance de salvar a srta. Peregrine, soltando baforadas de fumaça.
E levando a srta. Peregrine, lembrei, com um nó de preocupação no estômago. Bronwyn deixara o baú a bordo! Por instinto, dei um pulo e saí correndo atrás do trem — mas aí o cano do fuzil surgiu a centímetros do meu rosto e senti toda a força se esvair de meus músculos em um instante.
— Nem mais um passo — ordenou o soldado.
Caí de volta no chão.

* * *

Estávamos ajoelhados, com as mãos para o alto e o coração batendo forte. O soldado andou em círculo ao redor de nosso grupo, tenso, o fuzil apontado e o dedo no gatilho. Era o mais próximo que eu chegara de um acólito e o maior tempo na presença de um deles desde o dr. Golan. Ele usava um uniforme padrão do Exército britânico — camisa cáqui para dentro da calça de lã, botas pretas e capacete —, mas estava vestido de um jeito estranho, com a calça torta e o capacete muito para trás, como se fosse uma fantasia que ainda não tivesse se acostumado a usar. Parecia nervoso, virando o rosto de um lado para o outro enquanto nos examinava. O soldado estava em inferioridade numérica e sabia que, apesar de sermos apenas um bando de crianças desarmadas, tínhamos matado um acólito e dois etéreos nos últimos três dias. Aquele sujeito estava com medo da gente, e isso, mais que qualquer outra coisa, me deixava com medo dele. O medo o tornava imprevisível.
Ele tirou um rádio do cinto e falou alguma coisa. Ouvimos um ruído alto de estática, e, no instante seguinte, uma resposta. Toda em código. Eu não consegui entender nem uma palavra.
Ele mandou que ficássemos de pé. Obedecemos.
— Aonde vamos? — perguntou Olive, timidamente.
— Dar uma volta — respondeu o acólito. — Em fila.
Ele tinha um jeito de falar entrecortado e com vogais sem expressão, indicando que era de outro lugar e que estava fingindo sotaque britânico, apesar de não ser muito bom nisso. Supostamente, os acólitos eram mestres do disfarce, mas aquele com certeza não era um dos melhores da turma.
— Vocês não vão sair da fila — continuou o sujeito, encarando todos um a um. — Não vão fugir. Tenho quinze balas no pente, o suficiente para fazer dois furos em cada um. E não vá pensando que não estou vendo seu paletó, garoto invisível. Se me obrigar a sair atrás de você, corto seus polegares invisíveis para guardar de lembrança.
— Sim, senhor — respondeu Millard.
— E não quero ouvir nem um pio! — gritou o soldado. — Agora marchem!
Passamos pela bilheteria. O funcionário não estava mais lá. Então descemos pela plataforma, saímos da estação e seguimos pelas ruas. Apesar de os habitantes de Carvoeira não terem nos dado a menor atenção quando chegamos à cidade mais cedo, agora viravam a cabeça como corujas para nos examinar enquanto passávamos em fila indiana sob a mira do fuzil. O soldado nos mantinha em uma fileira organizada, gritando quando qualquer um se afastava um pouco.
Eu era o último da fila. O acólito estava atrás de mim, e dava para ouvir o tilintar do cinturão de munição enquanto caminhávamos. Estávamos voltando pelo caminho por onde tínhamos vindo, saindo da cidade.
Imaginei uma dúzia de planos de fuga. Podíamos nos espalhar — não, ele conseguiria acertar pelo menos alguns. Talvez alguém pudesse fingir um desmaio na estrada, aí a pessoa de trás tropeçaria, dando início a uma confusão — não, ele não cairia nessa. Um de nós precisaria chegar perto e lhe tomar a arma.
Eu. Eu estava mais perto. Talvez, se reduzisse um pouco o passo, deixasse que ele se aproximasse e então o atacasse... Mas quem eu estava querendo enganar? Eu não era um herói de cinema. Estava com tanto medo que mal conseguia respirar. Além do mais, o acólito estava a dez metros de mim, com a arma apontada bem para as minhas costas. Ele atiraria no instante em que eu me virasse, e eu ia me esvair em sangue ali no meio da estrada. Tentar aquilo seria burrice, não heroísmo.
Um jipe veio depressa de trás e encostou ao lado, reduzindo a velocidade para acompanhar nosso ritmo. Havia mais dois soldados no veículo, e, apesar de ambos usarem óculos escuros, eu sabia o que havia por trás das lentes. O acólito no banco do carona olhou para o que nos capturara e fez um breve elogio: Muito bom! Então se virou para nós e ficou nos encarando. Daquele momento em diante, não tirou os olhos de nós ou as mãos do fuzil que carregava.
Então tínhamos uma escolta, e um acólito com um fuzil se transformara em três. Qualquer esperança que eu tivesse de fugir fora eliminada.
Andamos muito. Nossos sapatos faziam ruído na estrada de cascalho e o motor do jipe roncava ao lado como um cortador de grama barato. A cidadezinha foi ficando para trás e vimos fazendas se estendendo dos dois lados da estrada margeada por árvores. Os soldados não trocaram sequer uma palavra.
Havia algo de robótico neles, como se seu cérebro tivesse sido retirado e substituído por fios. Em tese, os acólitos eram brilhantes, mas aqueles caras pareciam robôs. Então ouvi um zumbido como o de uma máquina em meu ouvido. Ergui os olhos e reparei em uma abelha, que deu a volta na minha cabeça e foi embora.
Hugh, pensei. O que ele está planejando? Olhei em volta, temendo que ele estivesse pensando em fazer algo que acabasse com todos nós baleados... mas não o vi.
Fiz uma contagem rápida. Um-dois-três-quatro-cinco-seis. Na minha frente estava Emma, depois Enoch, Horace, Olive, Millard e Bronwyn.
Onde estava Hugh?
Quase dei um salto. Hugh não estava ali! O que significava que não fora capturado como os outros. Hugh ainda estava livre! Talvez, no caos da estação, ele tivesse conseguido descer para o vão entre o trem e a plataforma ou tivesse embarcado sem que o soldado percebesse. Fiquei me perguntando se ele estava nos seguindo... Eu queria olhar para trás, mas sem entregá-lo.
Torci para que ele não estivesse ali, que estivesse com a srta. Peregrine. Do contrário, como a encontraríamos novamente? E se ela ficasse sem ar, trancada naquele baú? E o que as pessoas faziam com bagagem suspeita abandonada no ano de 1940?
Meu rosto corou e ficou quente, e senti um nó na garganta. Havia muitas coisas das quais sentir medo, centenas de situações de horror, todas rivalizando por atenção em minha mente.
— De volta para a fila! — gritou o soldado atrás de mim; estava falando comigo.
Eu estava tão transtornado que tinha desviado demais do centro da estrada. Mais do que depressa, voltei para meu lugar atrás de Emma, que me encarou suplicante por cima do ombro, como que implorando: Não o deixe com raiva!
Prometi a mim mesmo que ia me controlar.
Caminhamos em um silêncio cortante, a tensão zumbindo através de nós como uma corrente elétrica. Dava para notá-la no movimento de apertar e relaxar de punhos de Emma; no balançar de cabeça de Enoch, que murmurava consigo mesmo; nos passos hesitantes de Olive. Parecia apenas questão de tempo até que um de nós cometesse algum ato desesperado, e as balas fossem disparadas.
Então ouvi Bronwyn levar um susto e me virei para ela. Um cenário de horror que eu ainda não imaginara tomava forma diante de meus olhos. Havia três formas enormes à nossa frente, uma na estrada e duas nos campos laterais, logo ao lado de uma vala rasa. A princípio julguei que fossem montes de terra, recusando-me a enxergar.
Quando nos aproximamos, não consegui mais me enganar: eram três cavalos mortos na estrada.
Olive gritou. Bronwyn foi confortá-la instintivamente.
— Não olhe, codorninha!
O soldado no banco do carona atirou para cima. Todos nos jogamos no chão e cobrimos a cabeça.
— Façam isso de novo e vão acabar na vala junto com eles! — gritou o soldado.
Quando nos levantamos outra vez, Emma se inclinou na minha direção e sussurrou a palavra ciganos, então indicou o cavalo mais próximo com a cabeça.
Entendi o que ela estava querendo dizer: eram os cavalos deles. Cheguei a reconhecer as marcas de um dos animais, as manchas brancas nas patas traseiras, e percebi que era exatamente o mesmo ao qual eu estava agarrado uma hora antes.
Achei que fosse vomitar.
Tudo se encaixou, passando como um filme na minha cabeça. Aquilo era obra dos acólitos — os mesmos que haviam atacado o acampamento. Haviam encontrado os ciganos na estrada, depois que eles nos deixaram perto da cidade. Houve luta, seguida de perseguição. Os acólitos atiraram nos cavalos com os ciganos ainda montados.
Eu sabia que os acólitos já tinham matado pessoas — crianças peculiares, pelo que a srta. Avocet nos contara —, mas a brutalidade de atirar naqueles animais parecia ultrapassar até a maldade de que os julgávamos capazes. Uma hora antes, aqueles corpos eram algumas das criaturas mais cheias de vida que eu já vira: os olhos brilhando de inteligência, os músculos torneados, o corpo irradiando calor — mas, graças à intervenção de alguns pedaços de metal, não passavam de montes de carne fria. Animais fortes e orgulhosos tinham sido mortos e largados na estrada como lixo.
Tremi de medo e fervi de raiva. Também fiquei triste por ter deixado de apreciar os cavalos como mereciam. Como eu era idiota, mimado e ingrato.
Segura a onda, disse a mim mesmo. Segura a onda.
Onde estariam Bekhir e seus homens? Onde estaria o filho dele? Tudo o que eu sabia era que os acólitos iam atirar em nós. Eu tinha certeza disso. Aqueles impostores em trajes de soldado eram animais, ainda mais monstruosos do que os etéreos que controlavam. Os acólitos ao menos tinham mentes capazes de raciocinar, mas usavam essa faculdade criativa para destruir o mundo. Para transformar coisas vivas em coisas mortas. E por quê? Para que eles vivessem um pouco mais. Para terem um pouco mais de poder sobre o mundo à sua volta e sobre as criaturas que nele viviam, com as quais se importavam tão pouco.
Desperdício. Um desperdício estúpido.
E iam acabar com a gente. Iam nos levar para algum campo de morte, onde seríamos interrogados e desovados. E se Hugh tivesse feito a burrice de nos seguir — se a abelha que voava de uma ponta a outra da fila significasse que ele estava por perto —, iriam matá-lo também.
Precisávamos de sorte.


* * *

Os cavalos caídos já estavam bem para trás quando os soldados nos mandaram sair da estrada principal para pegar um caminho estreito que atravessava as fazendas. Mal passava de uma trilha, com pouco mais de um metro de largura, por isso os soldados que estavam no carro que nos acompanhava tiveram que estacionar e ir andando, um à frente de nós e dois atrás. Em ambos os lados, os campos cresciam sem cuidado, cheios de mato florido e repleto dos zumbidos de insetos do fim do verão.
Um belo lugar para morrer.
Depois de um tempo, vimos uma cabana com telhado de sapê no campo. É lá que vão fazer o serviço, pensei. É lá que vão nos matar.
Quando estávamos nos aproximando, a porta se abriu e um soldado saiu da cabana. Ele estava vestido diferente dos outros à nossa volta: em vez de capacete como os outros, usava um quepe negro de oficial; e, em vez de fuzil, levava um revólver no coldre.
Era ele quem estava no comando.
O sujeito ficou parado na trilha enquanto nos aproximávamos, balançando-se nos calcanhares e exibindo um sorriso brilhante como pérola.
— Finalmente nos encontramos! — exclamou. — Vocês nos deram um trabalho e tanto, mas eu sabia que no fim das contas íamos pegá-los. Era só questão de tempo!
Ele tinha feições infantis e gorduchas, cabelo ralo e quase branco de tão louro. Demonstrava uma energia esquisita, como um líder de escoteiros que tomou cafeína demais. Quando olhei para ele, só conseguia defini-lo como: Animal. Monstro. Assassino.
— Entrem, entrem — disse o oficial, abrindo a porta da cabana com um empurrão. — Seus amigos estão esperando aí dentro.
Enquanto passávamos por ele, empurrados pelos soldados, notei o nome bordado em sua camisa: W. ALVO.
Sr. Alvo. Será que era uma piada? Nada nele parecia autêntico. Aquilo muito menos.
Fomos empurrados para dentro da cabana e gritaram para que fôssemos para um canto. Era um único aposento, quase sem móveis, mas cheio de gente. Vimos Bekhir e seus homens sentados no chão, de costas para a parede. Eles haviam sido maltratados; estavam machucados, sangrando e encolhidos em posição de derrota. Faltavam alguns, entre eles o filho de Bekhir. Dois soldados montavam guarda. Isso dava um total de seis, incluindo o sr. Alvo e nossa escolta.
Bekhir captou meu olhar e assentiu, com um ar grave. Seu rosto estava roxo, cheio de hematomas. Sinto muito, disse, sem emitir qualquer som.
O sr. Alvo percebeu a troca de olhares e foi até Bekhir.
— Arrá! Você reconhece essas crianças?
— Não — respondeu Bekhir, olhando para o chão.
— Não? — O sr. Alvo fingiu surpresa. — Mas pediu desculpas àquele garoto ali. Deve conhecê-lo, ou será que tem o hábito de se desculpar com estranhos?
— Não são eles que vocês estão procurando — insistiu Bekhir.
— Acho que são, sim — retrucou o sr. Alvo. — Acho que essas são exatamente as crianças que estávamos procurando. Além disso, acho que passaram a noite no seu acampamento.
— Eu já disse: nunca vi essas crianças.
O sr. Alvo estalou a língua como uma professora dando uma bronca:
— Cigano, está lembrado do que eu prometi que faria se descobrisse que você estava mentindo? — Ele desembainhou uma faca do cinto e a encostou no rosto de Bekhir. — Isso mesmo. Prometi cortar sua língua mentirosa e dá-la de comer aos meus cães. E eu sempre cumpro minhas promessas.
Os olhos de Bekhir se fixaram no olhar vazio do sr. Alvo, encarando-o de volta. Os segundos se estendiam em um silêncio insuportável. Meus olhos estavam fixos na faca. Por fim, o sr. Alvo deu um sorriso e se levantou depressa, quebrando o encanto.
— Mas vamos por partes! — exclamou, animado, e se virou para os soldados que tinham nos escoltado até ali. — Qual de vocês está com a ave?
Os soldados se entreolharam. Um deles balançou a cabeça em negativa, depois outro.
— Não a vimos! — respondeu o que nos tomara como prisioneiros na estação.
O sorriso do sr. Alvo desapareceu.
— Você falou que eles estavam com a ave — disse, ajoelhando-se ao lado de Bekhir.
Bekhir deu de ombros.
— Aves têm asas. Vão embora quando querem.


O sr. Alvo o apunhalou na coxa. Foi um movimento rápido e sem a menor emoção: a lâmina entrou e saiu depressa. Bekhir deu um grito de surpresa e de dor e rolou para o lado, agarrando a perna enquanto o sangue começava a escorrer.
Horace desmaiou e caiu no chão. Olive levou um susto e cobriu os olhos.
— É a segunda vez que você mente para mim — ralhou o sr. Alvo, limpando a lâmina em um lenço.
O restante de nós cerrou os dentes e ficou quieto, mas percebi que Emma já estava planejando vingança, juntando as mãos às costas, deixando-as bem quentinhas.
O sr. Alvo jogou o lenço branco no chão, embainhou a faca e se levantou para nos encarar. Ele parecia sorrir, mas não era exatamente um sorriso: os olhos bem arregalados e a monocelha erguida, formando um M maiúsculo.
— Cadê sua ave? — perguntou, com a voz calma.
— Saiu voando — retrucou Emma, amargurada. — Exatamente como aquele homem disse.
Desejei que ela não tivesse respondido. Naquele momento, tive medo de que o sujeito tivesse escolhido Emma para atormentar.
O sr. Alvo foi na direção dela e disse:
— Ela estava com a asa machucada. Vocês foram vistos com a ave ontem mesmo. Ela não deve estar longe. — O sujeito pigarreou. — Vou perguntar de novo.
— Ela morreu — declarei. — Nós a jogamos em um rio.
Talvez, se eu o perturbasse mais que Emma, o sujeito esquecesse até que ela tinha falado.
O sr. Alvo deu um suspiro. Sua mão direita passou lentamente pela pistola no coldre, parou acima do cabo da faca e descansou sobre a fivela de metal do cinto. Ele baixou a voz, como se o que estivesse prestes a dizer fosse dirigido apenas a mim.
— Entendi o problema. Você acha que não há nada a ganhar sendo sincero comigo. Que vamos matar vocês não importa o que digam. Preciso que saiba que não é verdade. Entretanto, no espírito de total honestidade, vou dizer uma coisa: vocês não deviam nos ter obrigado a persegui-los. Isso foi um erro. Tudo podia ter sido muito mais fácil, mas agora está todo mundo com raiva, sabe, porque vocês nos fizeram perder muito tempo.
Ele apontou para os soldados.
— Esses homens? Eles adorariam machucar vocês. Eu, por outro lado, consigo ver as coisas do ponto de vista de vocês. Nós realmente parecemos assustadores, eu entendo. Nosso primeiro encontro, a bordo do meu submarino, foi lamentavelmente pouco civilizado. Além disso, há gerações as ymbrynes envenenam vocês com informações falsas a nosso respeito. Então, é natural que estejam sempre fugindo. Diante disso tudo, estou disposto a fazer o que creio que seja uma oferta razoável. Levem-nos à ave, e, em vez de machucá-los, nós os mandaremos para um belo lugar, onde serão muito bem cuidados. Serão alimentados todos os dias e cada um terá a própria cama... Um lugar com tanta liberdade quanto aquela fenda temporal ridícula onde passaram todos esses anos escondidos.
O sr. Alvo olhou para seus homens e deu risada.
— Dá para acreditar que eles passaram os últimos... o quê?... setenta anos?... em uma ilhota, vivendo sempre o mesmo dia? Isso é pior do que qualquer prisão que eu possa imaginar. Cooperar teria sido tão mais fácil! — Ele deu de ombros e voltou a olhar para nós. — Mas o orgulho, esse sentimento tão venenoso, subiu à cabeça de vocês. E pensar que, durante todo esse tempo, podíamos estar aliados por um bem comum!
— Aliados? — indagou Emma. — Vocês nos caçaram! Mandaram monstros para nos matar!
Droga, pensei. Fique quieta.
O sr. Alvo fez cara de cachorrinho triste.
— Monstros? — repetiu. — Isso dói. É de mim que você está falando, sabia? De mim e dos homens aqui, antes de evoluirmos. Mas vou tentar não levar para o lado pessoal. É raro a fase adolescente ser atraente, não importa a espécie. — Ele bateu palmas de repente, o que me deu um susto. — Agora, vamos ao que interessa!
Ele lançou um demorado olhar gelado para nós, como se nos examinasse em busca de alguma fraqueza. Qual seria o primeiro a ceder? Qual diria a verdade sobre o paradeiro da srta. Peregrine?
O sr. Alvo fixou os olhos em Horace, que já se recuperara do desmaio, mas ainda estava no chão, encolhido e tremendo. Ele deu um passo decidido na direção do menino, que se encolheu ao ouvir o estalido das botas do oficial.
— Levante-se, garoto.
Horace não se mexeu.
— Alguém o ponha de pé.
Um soldado o puxou com força pelo braço. Horace se encolheu diante do sr. Alvo, mantendo o olhar fixos no chão.
— Qual é o seu nome, garoto?
— Ho-Ho-Horace...
— Bem, Ho-Horace, você parece uma pessoa com extremo bom senso. Por isso, vou deixar você decidir.
O menino ergueu um pouco a cabeça.
— Decidir...?
O sr. Alvo desembainhou a faca e a apontou para os ciganos.
— Qual desses homens matar primeiro. A menos, é claro, que queira me dizer onde está a ymbryne. Aí ninguém precisa morrer.
Horace fechou bem os olhos, como se pudesse simplesmente desaparecer se desejasse com ardor.
— Ou — continuou o sr. Alvo —, se preferir não escolher um deles, posso muito bem escolher um de vocês. Prefere assim?
— Não!
— Então fale! — berrou o sr. Alvo, revelando os dentes reluzentes.
— Não diga nada a eles, syndrigasti! — gritou Bekhir.
Um dos soldados o chutou na barriga. O cigano gemeu e ficou quieto.
O sr. Alvo estendeu o braço e segurou Horace pelo queixo, tentando forçá-lo a encarar seus horríveis olhos vazios.
— Você vai me contar, não vai? É só me contar, que eu não vou precisar machucar você.
— Sim — respondeu Horace, ainda de olhos bem fechados, ainda desejando desaparecer, mas ainda ali.
— Sim o quê?
Horace suspirou, trêmulo.
— Sim, vou contar.
— Não! — gritou Emma.
Meu Deus, pensei. Ele vai entregá-la. É fraco demais. Devíamos tê-lo deixado lá com os bichos...
— Shh — sibilou o sr. Alvo no ouvido de Horace. — Não dê ouvidos a eles. Vá em frente, filho. Diga onde está aquela ave.
— Está na gaveta — respondeu Horace.
A monocelha do sr. Alvo se franziu em um emaranhado.
— Gaveta. Que gaveta?
— A mesma em que sempre fica — explicou Horace.
Ele sacudiu o menino pelo queixo e gritou:
Que gaveta?!
Horace ia dizer alguma coisa, mas fechou a boca. Engoliu em seco.
Endireitou as costas. Então abriu os olhos e encarou o sr. Alvo.
— Na gaveta de calcinhas da sua mãe — completou, e cuspiu na cara do acólito.
O sr. Alvo acertou a lateral do rosto de Horace com o cabo da faca. Olive gritou, e vários de nós nos retraímos quando o garoto caiu no chão como um saco de batatas, e moedas e passagens de trem caíram de seus bolsos.
— O que é isso? — indagou o sr. Alvo, agachando-se para investigar.
— Eu os encontrei quando estavam prestes a embarcar em um trem — explicou o soldado que nos capturara.
— E por que só está me contando isso agora?
O soldado hesitou.
— Eu pensei que...
— Não importa — interrompeu o sr. Alvo. — Interceptem o trem. Agora.
— Senhor?
O sr. Alvo olhou para a passagem, depois para o relógio.
— O trem das oito e meia faz uma longa parada em Porthmadog. Se vocês forem rápidos, o encontrarão lá. Façam uma busca de ponta a ponta, começando pela primeira classe.
O soldado bateu continência e saiu correndo.
O sr. Alvo se virou para os demais soldados.
— Revistem os outros — mandou. — Vejam se estão carregando mais alguma coisa interessante. Se eles resistirem, atirem.
Enquanto dois soldados com fuzis nos vigiavam, um terceiro revistava os bolsos de cada um de nós. Quase todos levávamos apenas migalhas e fiapos, mas o soldado achou um pente de marfim com Bronwyn.
— Por favor, isso pertencia à minha mãe! — implorou a menina, mas o homem riu e disse:
— Então ela devia ter lhe ensinado a usá-lo, sua machuda.
Enoch estava carregando um saquinho com terra de túmulo cheia de minhocas. O soldado o abriu, cheirou e jogou o conteúdo fora, enojado. Em meu bolso, ele encontrou o celular desligado. Emma viu o aparelho ser jogado no chão e olhou estranho para mim, intrigada por eu ainda guardá-lo. Horace permanecia imóvel no chão. Parecia apagado, ou apenas fingindo estar desmaiado. Então chegou a vez de Emma, mas ela não ia cooperar. Quando o soldado se aproximou, ela anunciou, irritada:
— Se encostar em mim, queimo sua mão até fazê-la cair!
— Por favor, não brinque com fogo! — disse o homem, e desandou a rir. — Desculpe, não resisti.
— Não estou brincando — retrucou Emma, tirando a mão das costas. Estavam brilhando, vermelhas, e mesmo a um metro de distância dava para sentir o calor que emanavam.
O soldado se afastou de um pulo.
— Mãos tão quentes quanto o temperamento! — comentou. — Gosto disso em uma mulher. Mas se você me queimar, Clark vai espalhar pedacinhos do seu cérebro pela parede.
O soldado para quem ele apontou apertou o cano do fuzil contra a cabeça de Emma, que fechou bem os olhos, o peito subindo e descendo depressa, depois baixou as mãos e as cruzou às costas. Estava vibrando de raiva.
Eu também.
— Cuidado — alertou-a o soldado. — Nada de movimentos bruscos.
Cerrei os punhos enquanto o observava passar as mãos de cima a baixo nas pernas dela e, em seguida, enfiar os dedos pela gola do vestido, tudo com lentidão desnecessária e um sorriso malicioso. Eu nunca me sentira tão impotente em toda a vida, nem mesmo quando estávamos aprisionados naquela jaula.
— Ela não está carregando nada! — gritei. — Deixe-a em paz!
Fui ignorado.
— Gosto dessa aqui — anunciou o soldado, dirigindo-se ao sr. Alvo. — Acho que devíamos ficar com ela por um tempo. Por motivos... puramente científicos.
O sr. Alvo fez uma expressão de nojo.
— Você é um espécime repugnante, cabo. Mas concordo... ela é fascinante. Já tinha ouvido falar de você, sabia? — disse ele a Emma. — Daria qualquer coisa para fazer o que você faz. Se pudéssemos engarrafar essas suas mãos... — O sr. Alvo deu um sorriso estranho antes de se voltar para o soldado. — Acabe logo com isso — disse, em um tom ríspido. — Não temos o dia inteiro.
— Com prazer — respondeu o soldado e então se levantou, arrastando as mãos pelo tronco de Emma.
O que aconteceu em seguida pareceu se desenrolar em câmera lenta. Eu percebi que aquele tarado nojento estava prestes a se debruçar sobre Emma e beijá-la. Também sabia que as mãos dela, ainda para trás do corpo, estavam cobertas de chamas. Sabia no que aquilo ia dar: no instante em que os lábios do sujeito se aproximassem dela, Emma derreteria o rosto do soldado, mesmo que isso significasse levar um tiro. Ela chegara ao limite.
E eu também.
Eu me retesei, pronto para lutar. Aqueles, eu me convenci, eram nossos últimos momentos. Mas iríamos vivê-los em nossos próprios termos. Se fôssemos morrer, jurei por Deus, levaríamos alguns acólitos conosco.
O soldado a enlaçou pela cintura. O cano de outro fuzil encostou na testa dela.
Emma parecia estar empurrando-o de volta, desafiando-o a atirar. Em suas costas, vi as mãos começarem a se abrir, chamas se formando em cada um dos dedos.
Lá vamos nós...
De repente... POW! Ouvimos um disparo, surpreendente e alto.
Eu travei, fiquei sem visão por um segundo.
Quando voltei a enxergar, Emma ainda estava de pé, intacta. O fuzil que estivera encostado em sua cabeça apontava para o chão, e o soldado recuara e se virara para olhar pela janela.
O tiro tinha vindo de fora.
Todos os nervos do meu corpo estavam entorpecidos, vibrando pelo efeito da adrenalina.
— O que foi isso? — indagou o sr. Alvo, correndo até a janela.
Dava para ver através do vidro acima do ombro dele. O soldado que tinha sido mandado para interceptar o trem estava parado lá fora, coberto até a cintura de flores silvestres. Estava de costas para nós, o fuzil apontado para o campo.
O sr. Alvo enfiou a mão entre as barras que cobriam a janela, para alcançar o fecho, e a abriu.
— Em que diabos você está atirando? — gritou ele. — Por que ainda está aqui?
O soldado não se moveu nem falou nada. O campo estava vibrando com o zumbido de insetos, e, por um breve intervalo, foi tudo o que ouvimos.
— Cabo Brown! — gritou o sr. Alvo.
O homem se virou devagar, sem equilíbrio. O fuzil escorregou de suas mãos e caiu na grama alta. Ele deu alguns passos cambaleantes para a frente.
O sr. Alvo sacou o revólver do coldre e o apontou para Brown.
— Diga alguma coisa, droga!
Brown abriu a boca e tentou falar, mas, em vez de sua voz, saiu um estranho ruído contínuo, ecoando do interior de suas entranhas, imitando o som que estava por toda parte nos campos ao redor.
Era o som de abelhas. Centenas, milhares delas. Depois vieram as abelhas em si. No início eram só algumas, saindo de seus lábios entreabertos. Depois, uma força do além pareceu tomar conta dele: os ombros caíram, o peito se estufou e as mandíbulas se abriram de vez. De sua boca escancarada começou a jorrar um fluxo denso de abelhas que pareciam um único objeto sólido: um tubo longo e largo feito de insetos saía infinitamente de dentro de sua garganta.
O sr. Alvo cambaleou para trás, intrigado e horrorizado.
Lá fora, no campo, o cabo Brown desmoronou em uma nuvem de insetos com ferrões. Quando seu corpo caiu, outro se revelou por trás dele.
Era um garoto.
Hugh.
Parado em uma pose desafiadora, ele encarava os homens através da janela.
Os insetos voavam ao seu redor em uma grande esfera em movimento. Os campos estavam cheios deles: abelhas, vespões, vespas e outros insetos que picam que eu nunca tinha visto e dos quais nem sabia o nome — e todos pareciam estar sob o comando de Hugh.
O sr. Alvo ergueu a pistola e disparou. Esvaziou o pente.
Hugh se abaixou, desaparecendo na grama. Eu não sabia se ele tinha caído ou se jogado. Então três outros soldados correram até a janela e, enquanto Bronwyn gritava “Por favor, não o matem!”, varreram o campo a bala, enchendo nossos ouvidos com os tiros.
Então abelhas entraram na cabana. Umas dez, furiosas, atacando implacavelmente os soldados.
— Fechem a janela! — gritou o sr. Alvo, golpeando o ar em volta.
Um dos soldados fechou a janela com um baque. Todos começaram a ajudar, matando as abelhas que haviam entrado. Enquanto estavam ocupados com isso, mais e mais se reuniram do lado de fora, formando um cobertor gigante e tranquilizador que pulsava contra o outro lado do vidro. Eram tantas que, quando o sr. Alvo e seus homens haviam terminado de matar as abelhas dentro da cabana, as de fora tinham praticamente bloqueado o sol.
Os soldados se amontoaram no chão, no meio da cabana, as costas umas contra as outras, os fuzis apontados como espinhos de um ouriço. Estava escuro e quente, e o zumbido estranho de um milhão de abelhas alucinadas reverberava por todo o cômodo como algo saído de um pesadelo.
— Façam elas irem embora! — gritou o sr. Alvo, com a voz alterada, desesperado.
Como se alguém além de Hugh pudesse fazer isso... Quer dizer, se ele ainda estivesse vivo.
— Farei outra oferta — retrucou Bekhir, levantando-se com a ajuda das barras da janela, o contorno de sua silhueta encurvada pela dor esboçado no vidro escuro. — Baixem as armas ou eu abro essa janela.
O sr. Alvo se virou para encarar o homem.
— Nem um cigano seria tão burro.
— Você nos superestima — retrucou Bekhir, passando os dedos pelo trinco.
Os soldados apontaram os fuzis.
— Vão em frente — disse Bekhir. — Atirem.
— Não, vocês vão quebrar os vidros! — gritou o sr. Alvo. — Agarrem-no!
Dois dos soldados largaram os fuzis e pularam em cima de Bekhir, mas não antes que ele quebrasse o vidro com um soco.
A janela se espatifou. Abelhas entraram na cabana e o caos se instalou: gritos, tiros, empurrões... e olha que eu mal conseguia ouvir qualquer coisa que não o zumbido dos insetos, que não parecia encher apenas meus ouvidos, mas cada poro de meu corpo.
Todos lá dentro começaram a se amontoar uns sobre os outros para sair. À minha direita, vi Bronwyn empurrar Olive para o chão e cobri-la com o próprio corpo.
— Abaixem-se! — gritou Emma.
Nós nos abaixamos para nos proteger enquanto as abelhas batiam contra nossa pele, nosso cabelo... Achei que fosse morrer, que cada centímetro de meu corpo seria coberto por picadas, que acabariam provocando um curto em meu sistema nervoso.
Alguém abriu a porta com um chute. A luz entrou, forte. Uma dúzia de botas saiu pisando forte nas tábuas do assoalho.
Fiquei quieto. Aos poucos, descobri a cabeça.
As abelhas tinham ido embora. Os soldados, também.
Do lado de fora veio um coro de gritos de pânico. Levantei-me de um pulo e corri até a janela estilhaçada, onde um grupo de ciganos e de peculiares já estava amontoado, vendo o que acontecia.
A princípio não consegui ver os soldados, apenas uma massa gigante de insetos em movimento na trilha, tão densa que parecia opaca, a cerca de quinze metros à frente.
Os gritos vinham de dentro da massa de insetos.
Então, um a um, os gritos cessaram. Quando tudo estava acabado, nuvens de abelhas começaram a se afastar e a se espalhar, revelando os corpos do sr. Alvo e de seus homens. Eles jaziam na grama baixa, mortos ou quase isso.
Vinte segundos depois, os assassinos haviam desaparecido e o zumbido monstruoso se esvaía conforme os insetos voltavam para os campos. Em seu rastro, deixavam uma calma estranha e bucólica, como se fosse apenas mais um dia de verão e nada fora do comum tivesse acontecido.
Emma contou os corpos dos soldados.
— Seis. São todos eles — anunciou. — Acabou.
Eu a abracei, trêmulo de gratidão e descrença.
— Alguém está machucado? — indagou Bronwyn, olhando ao redor, preocupada.
Aqueles últimos momentos haviam sido uma loucura: incontáveis abelhas, tiros no escuro. Examinamos nosso corpo em busca de ferimentos. Horace estava tonto, mas consciente, com um filete de sangue escorrendo da têmpora. A facada em Bekhir era profunda, mas ia cicatrizar. O restante estava abalado, mas ileso; por um milagre, nem um de nós tinha sido picado.
— Quando você quebrou a janela, como sabia que as abelhas não iriam nos atacar? — perguntei a Bekhir.
— Eu não sabia — respondeu o homem. — Por sorte, o poder do seu amigo é forte.
Nosso amigo...
Emma se afastou de mim de repente.
— Ah, meu Deus! Hugh!
No meio de todo aquele caos, havíamos nos esquecido dele, que devia estar esvaindo em sangue em algum lugar da grama alta. No entanto, justo quando estávamos prestes a sair correndo para procurá-lo, Hugh apareceu na soleira da porta todo desarrumado, sujo e coberto de grama, mas sorridente.
— Hugh! — exclamou Olive, correndo na direção dele. — Você está vivo!
— Estou! — respondeu ele, satisfeito. — Vocês também estão?
— Sim, graças a você! — exclamou Bronwyn. — Três vivas para Hugh!
— Você é nosso salvador nas adversidades, Hugh! — exclamou Horace.


— Não há lugar onde eu consiga ser mais letal do que em um campo de flores silvestres — comentou Hugh, apreciando a atenção.
— Me desculpe por todas as vezes que zombei da sua peculiaridade — disse Enoch. — Acho que não é tão inútil assim.
— Além disso, gostaria de cumprimentar Hugh por ter chegado no momento mais adequado possível. Sério, se você tivesse aparecido apenas alguns segundos depois... — disse Millard.
Hugh explicou como evitara ser capturado na estação pulando no vão entre o trem e a plataforma, exatamente como eu imaginara. Ele tinha mandado uma de suas abelhas nos seguir, o que lhe permitiu nos acompanhar a uma distância segura.
— Aí foi só uma questão de descobrir a hora certa de atacar — explicou, com orgulho, como se a vitória estivesse garantida desde o momento em que decidira nos salvar.
— E se você não tivesse esbarrado em um campo cheio de abelhas? — indagou Enoch.
Hugh tirou algo do bolso e ergueu a mão para nos mostrar o que era: um ovo de galinha peculiar.
— Plano B.
Bekhir foi mancando até Hugh e apertou sua mão.
— Rapaz, nós lhe devemos nossas vidas.
— E o seu menino peculiar? — perguntou Millard a Bekhir.
— Ele conseguiu escapar com dois de meus homens, graças a Deus. Perdemos três belos animais, mas nenhuma pessoa. — Bekhir fez uma reverência para Hugh, e por um momento achei que ele pegaria a mão do menino para beijá-la. — Vocês precisam permitir que façamos algo para recompensá-los!
Hugh enrubesceu.
— Não precisa, eu garanto...
— Também não há tempo — interveio Emma, afastando Hugh da porta. — Precisamos pegar o trem!
Os peculiares que ainda não tinham percebido que a srta. Peregrine sumira empalideceram.
— Vamos pegar o jipe deles — sugeriu Millard. — Com sorte, se o acólito estivesse certo, conseguiremos pegar o trem na parada em Porthmadog.
— Eu conheço um atalho — anunciou Bekhir, e desenhou na terra, com o sapato, um mapa simples.
Agradecemos aos ciganos. Eu disse a Bekhir que sentíamos muito por todo o problema que havíamos causado, ao que ele soltou uma gargalhada estrondosa e, da trilha, acenou em despedida.
— Vamos nos encontrar outra vez, syndrigasti. Tenho certeza.

* * *

Todos nos amontoamos no jipe dos acólitos, oito crianças e adolescentes apertados como sardinhas em lata em um veículo para apenas três pessoas.
Como eu era o único que já dirigira, assumi o volante. Demorei muito para aprender a ligar a maldita coisa, até descobrir que não era com chave, e sim apertando um botão no chão — sem contar o problema da troca de marchas. Eu tinha dirigido carros com câmbio manual poucas vezes, e sempre com meu pai me ajudando, no banco do carona. No entanto, apesar de tudo, depois de um ou dois minutos estávamos, aos solavancos e em um ritmo meio hesitante, seguindo o caminho.
Pisei fundo e dirigi o mais depressa que o jipe sobrecarregado permitia, enquanto Millard gritava instruções e todo mundo se segurava para não cair e se manter vivo. Chegamos à cidade de Porthmadog vinte minutos depois, com o apito do trem soando enquanto descíamos correndo pela rua principal em direção à estação. Paramos com uma freada brusca em frente a área de embarque e saímos aos tropeções. Nem me dei ao trabalho de desligar o motor. Correndo pela estação como guepardos atrás de uma gazela, subimos a bordo do último vagão justamente quando ele estava saindo.
Paramos no corredor, arfando e sem conseguir ficar em pé direito, enquanto passageiros surpresos fingiam não prestar atenção. Suados, sujos e descabelados, devíamos ser uma imagem e tanto.
— Conseguimos. — Emma arfava. — Não acredito que conseguimos.
— Não acredito que dirigi um carro com câmbio manual — comentei.
O condutor apareceu.
— Vocês voltaram — disse, com um suspiro aborrecido. — Espero que estejam com as passagens.
Horace sacou o maço de bilhetes do bolso.
— A cabine de vocês é por aqui — anunciou o condutor.
— Nosso baú! — exclamou Bronwyn, segurando o cotovelo do condutor. — Ainda está lá?
O condutor se soltou.
— Tentei levá-lo para os achados e perdidos. Não consegui mover aquela coisa nem um centímetro.
Corremos de vagão em vagão até chegar à cabine da primeira classe, onde encontramos o baú de Bronwyn exatamente onde ela o deixara. Bronwyn correu e abriu os trincos, depois a tampa.
A srta. Peregrine não estava lá dentro.
Tive um pequeno ataque cardíaco.
— Minha ave! — exclamou Bronwyn. — Onde está minha ave?!
— Acalme-se, está bem aqui — respondeu o condutor, e apontou para cima de nossas cabeças. A srta. Peregrine estava empoleirada em um bagageiro, dormindo pesadamente.
Bronwyn foi até a parede, andando de costas. Estava tão aliviada que quase desmaiou.
— Como ela chegou lá em cima? — perguntou-se ela.
O condutor ergueu a sobrancelha.
— É um brinquedo muito realista. — Ele se virou, foi até a porta, parou e disse: — Por falar nisso, onde consigo um desses? Minha filha ia adorar.
— Infelizmente, é uma peça única — respondeu Bronwyn, então pegou a srta. Peregrine e a abraçou junto ao peito.

* * *

Depois de tudo pelo que havíamos passado nos últimos dias — sem falar nas últimas horas —, o luxo de uma cabine de primeira classe foi um choque para nós. Nosso vagão tinha sofás estofados em couro, uma mesa de jantar e janelas panorâmicas. Parecia a sala de estar de um homem muito rico, e era toda nossa. Nós nos revezamos para nos lavar no banheiro de painéis de madeira, depois analisamos o cardápio do jantar.
— Peçam o que quiserem — disse Enoch, pegando um telefone preso ao braço de uma poltrona reclinável. — Alô, têm patê de fígado de ganso? Eu gostaria de tudo. Sim, tudo o que tiverem. E torradas cortadas em triângulo.
Ninguém falou sobre o que acontecera. Tinha sido demais, horrível demais, e por enquanto só queríamos nos recuperar e esquecer aquilo tudo. Havia muito a ser feito, muitos perigos a serem enfrentados.
Todos nos acomodamos para a viagem. Lá fora, as casinhas de Porthmadog iam diminuindo, e a montanha da srta. Wren surgiu ao longe, erguendo-se cinzenta acima das colinas. Enquanto os outros se distraíam com conversas, meu nariz permaneceu colado à janela e ao mundo de 1940 que se desenrolava lá fora — até pouco antes, aquela época era apenas algo pequeno em minha experiência, do tamanho de uma ilhota, um lugar que eu podia deixar a qualquer momento, bastaria passar pelas entranhas escuras do túmulo pré-histórico de Cairnholm. Porém, desde que tinha deixado a ilha, ele se transformara em um mundo, um mundo inteiro de florestas pantanosas, cidadezinhas coroadas de fumaça, vales cruzados por rios cintilantes e pessoas e coisas que pareciam velhas mas ainda não eram — como objetos cenográficos e figurantes em algum filme de época bem-produzido, mas sem roteiro, tudo passando sem parar pela janela, como um sonho sem fim.
Eu adormecia e despertava, adormecia e despertava, hipnotizado pelo ritmo do trem, em um estado semiconsciente em que era fácil esquecer que eu não me resumia a um espectador passivo, que minha janela era mais que apenas uma tela de cinema, que lá fora era exatamente tão real quanto ali dentro. Então, lentamente, eu me lembrei de como me tornara parte daquilo: meu avô, a ilha, as crianças. A garota bonita de olhos cinzentos ao meu lado, com a mão sobre a minha.
— Estou mesmo aqui? — perguntei.
— Volte a dormir — disse ela.
— Você acha que vai dar tudo certo?
Ela me deu um beijo na ponta do nariz.
— Volte a dormir.

4 comentários:

  1. não sou muito de parar para ler algum livro, mas quando comecei a ler esta série não consigo mais parar. Já se tornou um vicio rs, estou amando. muito bom!

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    1. Volte a dormir rsrsrs esse mundo é bom demais

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  2. meu deus, fiquei muito puto naquela hora q o soldado fez aquilo com a Emma

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Boa leitura :)