5 de abril de 2017

Capítulo seis

Quando as últimas casinhas tinham desaparecido às nossas costas, saltamos da carroça em silêncio, subimos a colina a pé e descemos na direção da floresta do outro lado. Emma caminhava a meu lado, em silêncio e reflexiva, sem nunca soltar meu braço. Do outro lado, Millard cantarolava para si mesmo e, satisfeito, chutava pedras pelo caminho. Eu estava nervoso, intrigado e, ao mesmo tempo, meio zonzo e empolgado, com o estômago dando voltas. Parte de mim achava que algo muito importante estava prestes a acontecer. A outra parte esperava acordar a qualquer momento, sair deste sonho febril, deste episódio de estresse ou do que quer que fosse, despertando com o rosto em uma poça de baba em uma mesa na copa da Smart Aid e pensando: Bem, isso foi estranho, e então voltar ao entediante e velho negócio de ser eu mesmo.
Mas não acordei. Apenas continuamos a caminhar — a menina que fazia fogo com as mãos, o garoto invisível e eu — até a floresta, onde a trilha era tão larga e clara quanto qualquer trilha em um parque nacional, e então chegamos a um amplo gramado cheio de flores e marcado por longos canteiros bem cuidados.
Tínhamos chegado à casa. Olhei para ela, boquiaberto, não porque fosse horrível, mas porque era linda. Não havia uma telha fora do lugar nem uma janela rachada. Pequenas torres e chaminés que haviam despencado em ângulos lânguidos na casa de que eu me lembrava agora apontavam cheias de confiança para o céu. A floresta que parecia devorá-la agora se detinha a uma distância respeitosa.
Fui conduzido por um caminho de lajotas de pedra antes oculto pelo mato e subi um recém-pintado lance de escadas até a varanda. Emma não parecia mais me ver como a ameaça inicial, mas, antes de entrar, ainda assim ela amarrou minhas mãos às costas com um pedaço de corda, acho que apenas em prol das aparências. Ela estava fazendo o papel do caçador que voltava para casa, e eu era sua presa capturada. Ela endireitou as costas e estava prestes a entrar comigo quando Millard a deteve.
— Os sapatos dele estão cobertos de sujeira — disse ele. — Ele não pode deixar uma trilha de lama por aí, a Ave vai ter um ataque.
Então, enquanto meus captores aguardavam, tirei os sapatos, depois as meias, também sujas de lama, e, quando Emma ia entrar comigo, Millard sugeriu que eu enrolasse as pernas do meu jeans para que não se arrastassem no carpete; fiz isso também, e depois Emma me agarrou pelo nó da corda com impaciência e me arrastou porta adentro.
Seguimos por um corredor que eu me lembrava estar praticamente intransponível, repleto de móveis quebrados; passamos pela escada de verniz reluzente, de onde rostos curiosos me espiavam através dos vãos na balaustrada, e cruzamos a sala de jantar, onde não havia qualquer sinal de nevasca de gesso, e sim uma mesa comprida, intacta, cercada de cadeiras. Era a mesma casa que eu havia explorado, mas tudo ali havia sido restaurado à perfeição. Onde eu me lembrava haver uma pátina de bolor esverdeado havia papel de parede, lambris de madeira e tintas de cores alegres. Havia vasos com arranjos de flores. Pilhas de madeira apodrecida e tecidos esfarrapados tinham se reconstruído em sofás elegantes e poltronas com detalhes dourados, e a luz do sol entrava por janelas altas que antes estavam tão cobertas de sujeira que pareciam pintadas de preto.
Por fim chegamos a uma saleta com vista para os fundos da casa.
— Segure-o aí enquanto eu aviso a diretora — disse Emma para Millard, e eu senti a mão dele sobre o meu ombro. Quando ela saiu, ele me largou.
— Você não tem medo de que eu coma seu cérebro ou algo assim, não é?
— Não mesmo — respondeu Millard.
Virei-me na direção da janela e olhei lá para fora, maravilhado. O quintal estava cheio de crianças; quase todas elas eu reconheci das fotografias amareladas. Algumas descansavam à sombra de árvores frondosas, enquanto outras jogavam bola e corriam atrás umas das outras em meio a canteiros de flores que explodiam em cores. Era exatamente o paraíso que meu avô me descrevera em suas histórias. Essa era a ilha encantada; essas eram as crianças mágicas. Se eu estava sonhando, não queria mais acordar. Pelo menos, não por um bom tempo.
Lá no gramado, alguém chutou uma bola com força demais e ela voou, ficando presa em um arbusto podado na forma de um animal gigante. Havia, enfileirados, vários daqueles animais feitos de plantas, criaturas fantásticas tão altas quanto a casa, montando guarda contra a floresta — entre elas um grifo alado, um centauro empinando e golpeando o ar com seus cascos de folha e uma sereia que saía de um pedaço de madeira ondulada. Dois adolescentes foram atrás da bola e correram até a base do centauro, seguidos por uma garota mais nova. Eu a reconheci no ato como a “menina que levitava” das fotos de meu avô, só que agora não estava levitando. Ela andava devagar, cada passo uma tarefa árdua. Como se um excesso de gravidade a ancorasse ao chão.
Quando alcançou os garotos, ela levantou os braços e eles amarraram uma corda à sua cintura. Então ela saiu cuidadosamente de seus sapatos, um pé de cada vez, e quando ficou livre deles começou a flutuar no ar como um balão. Era impressionante. Ela elevou-se até esticar a corda que a prendia pela cintura e ficou ali, pairando, ancorada pelos dois garotos, a três metros do chão.
A menina disse algo, os garotos assentiram e começaram a mover a corda.
Ela lentamente pairou pela lateral do centauro e, quando chegou ao nível de seu peito, enfiou os braços no arbusto para pegar a bola perdida, mas não conseguiu alcançá-la. Olhou para baixo e sacudiu a cabeça, e os garotos a puxaram de volta ao chão, onde ela tornou a calçar os pesados sapatos e desamarrou a corda.
— Está gostando do show? — perguntou Millard, e eu assenti com a cabeça, em silêncio. — Há vários modos bem mais fáceis de recuperar aquela bola — disse. — Mas eles perceberam que têm uma plateia.
Lá fora, uma segunda menina se aproximava do centauro. Ela devia ter cerca de dezoito anos e tinha um aspecto selvagem, os cabelos a meio caminho de se transformarem em dreadlocks. Ela se agachou e segurou a cauda comprida e cheia de folhas do arbusto esculpido e a envolveu em seu braço, mantendo os olhos fechados como se estivesse se concentrando. No instante seguinte, vi a mão do centauro se mexer. Fiquei olhando fixamente através do vidro para aquele pedaço de vegetação, pensando que devia ter sido o vento, mas então cada um de seus dedos se moveu, um depois do outro, como se a sensibilidade lentamente retornasse a eles, e depois todo o seu enorme braço enfiou-se no próprio peito, tirou de lá a bola e a entregou nas mãos dos meninos, que vibravam. Quando o jogo recomeçou, a garota de cabelos selvagens soltou a cauda do centauro e ele ficou novamente imóvel.
Millard também observava a cena, e sua respiração embaçava o vidro perto de mim. Virei-me para ele tomado de surpresa.
— Não quero ser rude, mas o que são essas pessoas? — perguntei.
— Nós somos peculiares — respondeu, soando um pouco intrigado. — Você não é?
— Não sei. Acho que não.
— É uma pena.
— Por que você o soltou? — perguntou uma voz às nossas costas, e eu me virei para ver Emma parada à porta. — Ah, deixa pra lá — disse ela, aproximando-se para agarrar o nó que me prendia. — Vamos lá. A diretora vai vê-lo agora.

* * *

Continuamos nosso passeio pela casa, passando por mais olhos curiosos que nos espiavam por frestas de portas e de trás de sofás, até chegar a uma saleta de estar ensolarada, onde sobre um tapete persa elaborado, sentada em uma cadeira de espaldar alto, estava uma senhora distinta, que tricotava. Toda vestida de preto, com os cabelos presos em um coque perfeitamente redondo no topo da cabeça e usando luvas de renda e uma blusa de gola alta bem ajustada no pescoço, tão fastidiosamente limpa e arrumada quanto a própria casa, eu adivinharia quem era no ato, mesmo que não me lembrasse da foto encontrada no baú que destruí.
Aquela era a srta. Peregrine.
Emma me guiou até o tapete, pigarreou para chamar atenção, e a cadência firme das agulhas da srta. Peregrine se deteve.


— Boa tarde — disse a senhora, enquanto se levantava. — Você deve ser Jacob.
Emma olhou boquiaberta para ela.
— Como sabe o no...
— Eu sou a diretora Peregrine — disse ela, levantando um dedo para silenciar Emma. — Ou se preferir, como não está atualmente sob a provisão de meus cuidados, srta. Peregrine. É um prazer finalmente conhecê-lo.
A srta. Peregrine estendeu a mão enluvada em minha direção, e então, como não a apertei, percebeu a corda que amarrava meus pulsos.
— Senhorita Bloom — exclamou. — O que significa isso? Isso são modos de se tratar um hóspede? Solte-o imediatamente!
— Mas, diretora, ele é um bisbilhoteiro e um mentiroso, e eu não sei mais o quê! — Emma me lançou um olhar cheio de desconfiança e murmurou algo no ouvido da srta. Peregrine.
— Ora, senhorita Bloom! — disse a srta. Peregrine, soltando uma sonora gargalhada. — Que grande bobagem! Se esse garoto fosse um acólito, você já seria picadinho na panela dele. Se não consegue ver que esse é o neto de Abraham Portman só de olhar em seu rosto, você deve ser cega!
Senti um rubor de alívio; talvez eu não tivesse de me explicar no fim das contas. Ela estava me esperando!
Emma tentou protestar, mas a srta. Peregrine fez com que se calasse apenas com um olhar sério.
— Ah, está bem — suspirou Emma. — Mas não digam que eu não avisei.
E, com alguns puxões no nó, a corda caiu de minhas mãos.
— Peço que perdoe a senhorita Bloom — disse a srta. Peregrine enquanto eu esfregava os pulsos doloridos. — Ela adora fazer um drama.
— Percebi.
Emma fez uma cara feia.
— Se ele é quem diz ser, então por que ele num sabe nada sobre as fendas de tempo, nem mesmo em que ano ele está? Vá em frente, pergunte a ele!
— “Por que ele não sabe” — corrigiu a srta. Peregrine. — E a única pessoa que vou submeter a perguntas é você, amanhã à tarde, sobre a correta pronúncia das palavras!
Emma ficou resmungando.
— Agora, se não se importa — disse a srta. Peregrine —, preciso ter uma conversa em particular com o senhor Portman.
Emma sabia que não adiantava discutir e, de cabeça baixa, foi até a porta, mas antes de sair virou-se para me lançar um último olhar sobre o ombro. Havia em seu rosto uma expressão que eu ainda não vira nela antes: preocupação.
— Você também, senhor Nulings — exclamou em voz alta a srta. Peregrine. — Pessoas educadas não ficam ouvindo escondidas a conversa dos outros!
— Eu só esperei para perguntar se gostariam de um pouco de chá — disse Millard, que desconfiei ser um pouco puxa-saco.
— Não queremos, obrigada — respondeu lacônica a srta. Peregrine.
Ouvi os pés descalços de Millard soarem no chão de madeira e se afastarem, e a porta se fechar quando saiu.
— Eu devia lhe pedir que se sentasse — disse a srta. Peregrine, fazendo um gesto para uma poltrona estofada atrás de mim. — Mas você parece estar incrustado de sujeira. — Então me ajoelhei no chão, me sentindo como um peregrino em busca de conselho diante de um oráculo onisciente.
— Você já está na ilha faz alguns dias — disse a srta. Peregrine. — Por que demorou tanto para nos fazer uma visita?
— Não sabia que vocês estavam aqui — respondi. — Como sabia que eu estava?
— Eu o tenho observado — disse ela. — Você também já me viu, mas talvez não tenha percebido. Eu estava em minha forma alternativa. — Ela levou a mão à cabeça e puxou uma pena grande e cinzenta dos cabelos. — É muito melhor assumir a forma de uma ave para observar humanos — explicou.
Meu queixo caiu.
— Era a senhora no meu quarto hoje de manhã? O gavião?
— O falcão — corrigiu. — Um peregrino, é claro.
— Então é verdade! — disse eu. — Você é mesmo uma Ave!
— É um apelido que eu tolero, mas não incentivo — respondeu ela. — De qualquer modo, voltemos à minha pergunta — prosseguiu a srta. Peregrine. — O que na face da terra você estava procurando naquela deprimente ruína de casa?
— A senhora — respondi, e os olhos dela se arregalaram um pouco. — Não sabia como encontrá-la. Só descobri ontem que vocês estavam todos... — Então parei e percebi como iria soar estranho o que estava prestes a dizer. — Não sabia que vocês estavam mortos — concluí o pensamento.
Ela me lançou um leve sorriso.
— Meu Deus. Seu avô não lhe contou nada sobre os velhos amigos dele?
— Algumas coisas. Mas por muito tempo achei que eram apenas contos de fadas.
— Entendo — retrucou ela.
— Espero que isso não a ofenda.
— De jeito nenhum. Na verdade, geralmente é assim que preferimos que as pessoas pensem sobre nós, pois isso ajuda a manter afastados os visitantes indesejáveis. Hoje em dia cada vez menos gente acredita nessas coisas, fadas, duendes e toda essa bobagem, por isso as pessoas comuns não fazem mais muita força para nos descobrir. Isso torna nossa vida muito mais fácil. Histórias de fantasmas e casas velhas assustadoras também foram muito úteis para nós, apesar de não, aparentemente, no seu caso. — Ela abriu um sorriso. — Um coração de leão deve ser uma característica de sua família.
— É, acho que sim — disse eu com um riso nervoso, sentindo-me prestes a desmaiar a qualquer momento.
— De qualquer modo, em relação a este lugar — disse ela, fazendo um gesto grandiloquente ao seu redor —, quando era criança, você acreditou que seu avô estava “delirando”, como dizem por aí? Contando a você um monte de mentiras, é isso?
— Não exatamente mentiras, mas...
— Ficções, cascatas, inverdades, falsidades, seja lá a terminologia que você prefira. Quando percebeu que Abraham estava lhe contando a verdade?
— Bem — disse eu, encarando o labirinto de padrões entrelaçados tecidos no tapete —, para ser honesto, acho que só estou me dando conta disso agora.
A srta. Peregrine, que estava tão animada, pareceu murchar um pouco.
— Nossa — disse ela. — Entendo. — E depois fechou a cara, como se, no breve silêncio que caiu entre nós, ela houvesse intuído algo terrível que eu viera lhe dizer. E mesmo assim eu ainda tinha de encontrar um modo de exprimi-lo em palavras.
— Acho que meu avô queria me explicar tudo — disse eu. — Mas ele esperou demais. Então, em vez disso, ele me mandou aqui para encontrá-los. — Saquei a carta amarrotada do casaco e a entreguei à srta. Peregrine. — Isto é da senhora. Foi o que me trouxe aqui.
Ela a alisou com cuidado sobre o braço de sua poltrona e depois a ergueu para ler, movendo os lábios enquanto o fazia.
— Que tristeza! — disse ela ao terminar. — O modo como eu praticamente imploro a ele por uma resposta. — Ela sacudiu a cabeça, melancólica por um instante. — Sempre estivemos desesperados por notícias de Abe. Certa vez perguntei a ele se queria me matar de preocupação, pelo modo como insistia em viver lá fora, com o mundo daquele jeito. Ele podia ser extremamente teimoso!
Ela dobrou a carta e a guardou de volta no envelope. Ficou séria, como se houvesse uma nuvem negra pairando sobre ela.
— Ele morreu, não é?
Assenti com a cabeça, hesitante. E contei a ela o que havia acontecido, ou seja, contei a história aceita oficialmente pela polícia e na qual eu, após muita terapia, também começara a acreditar. Para segurar o choro enquanto a contava, dei a ela apenas as linhas gerais: ele morava nos arredores quase rurais da cidade; tínhamos passado por uma seca, e a mata estava cheia de animais famintos e desesperados. Ele estava no lugar errado na hora errada.
— Ele não devia estar morando sozinho — expliquei. — Mas, como a senhora disse, ele era teimoso.
— Temia isso — disse ela. — Eu o avisei para não partir. — Ela apertou as mãos que seguravam as agulhas de tricô em seu colo, como se pensasse em quem iria apunhalar com elas. — E depois fazer o pobre do neto nos trazer essas notícias terríveis.
Eu podia entender sua raiva. Também tinha passado por isso. Tentei confortá-la, recitando todas as meias verdades que meus pais e dr. Golan tinham me contado nos meus momentos mais depressivos no outono anterior.
— Era sua hora de partir. Ele estava com 86 anos. Era solitário. Minha avó morreu há muitos anos. E sua mente não estava mais tão lúcida; ele sempre esquecia coisas, se confundia... foi por isso, para começar, que ele foi até a mata.
A srta. Peregrine assentiu com tristeza.
— Ele se deixou envelhecer.
— De certa forma, ele teve sorte. Não demorou muito, nem houve grande sofrimento. Ele não passou meses no hospital ligado a máquinas. — Era ridículo, é claro; sua morte fora desnecessária, obscena, mas acho que dizer isso fez com que nós dois nos sentíssemos um pouco melhor.
A srta. Peregrine pôs o tricô de lado, se levantou e foi até a janela com passos pesados. Seu andar era rígido e estranho, e eu percebi que uma de suas pernas era menor que a outra.
Ela olhou para o quintal lá fora, para as crianças que brincavam ali.
— As crianças não devem saber disso — disse ela. — Pelo menos não agora. Isso só serviria para deixá-las nervosas.
— Está bem. Como preferir.
Ela ficou parada diante da vidraça por um tempo, com os ombros trêmulos. Quando finalmente se virou para me encarar outra vez, estava recomposta e concentrada.
— Bem, senhor Portman — disse ela, bruscamente —, acho que você foi devidamente interrogado. Agora deve ter suas próprias perguntas.
— Só umas mil — respondi.
Ela tirou um relógio do bolso e o consultou.
— Temos algum tempo antes da hora do jantar. Espero que seja suficiente para respondê-las.
A srta. Peregrine fez uma pausa e ergueu a cabeça. De repente, foi até a porta da sala de estar e a abriu num átimo para encontrar Emma agachada do outro lado, o rosto vermelho e marcado de lágrimas. Ela tinha ouvido tudo.
— Senhorita Bloom! — ralhou a diretora. — Estava escutando atrás da porta?
Emma levantou-se com dificuldade e soltou um soluço.
— Gente educada não escuta conversas que não lhe dizem respeito... — Mas Emma já tinha saído correndo dali, e a srta. Peregrine parou na metade do que dizia, com um suspiro de frustração. — Isso foi lastimável — disse ela. — Acho que ela tem sentimentos especiais por seu avô.
— Percebi. Por quê? Eles eram...?
— Quando Abraham foi embora daqui para lutar na guerra, ele nos deixou muito tristes, mas em especial a senhorita Bloom. Sim, eles se gostavam, eram queridinhos, como namorados.
Comecei a entender por que Emma relutara tanto em acreditar em mim.
Isso significava, muito provavelmente, que eu estava ali para dar alguma notícia muito ruim sobre Abe.
A srta. Peregrine bateu palmas como se quebrasse um feitiço.
— Ora — disse ela —, o que se há de fazer?
Saí da sala e a segui até a escada. A srta. Peregrine subiu com resolução amarga, segurando a balaustrada com as duas mãos para galgar os degraus, um a um, recusando qualquer ajuda. Quando chegamos ao andar de cima, ela me conduziu pelo corredor até a biblioteca. Ela agora se parecia com uma sala de aula de verdade, com as carteiras enfileiradas, um quadro-negro na parede e os livros limpos e organizados nas prateleiras. A srta. Peregrine apontou para uma carteira e disse:
— Sente-se.
Então me encolhi à carteira. Ela tomou seu lugar à frente da sala e me encarou.
— Permita-me fazer esta breve apresentação. Acho que você vai encontrar nela a resposta para a maioria de suas perguntas.
— Está bem.
— A composição da espécie humana é infinitamente mais diversa do que a maioria dos humanos suspeita — começou a srta. Peregrine. — A verdadeira taxonomia do Homo sapiens é um segredo conhecido por poucos, e você agora será um deles. Para começar, há uma dicotomia simples: existem os coerlfolc, a grande massa de pessoas comuns que formam a numerosa humanidade, e há o ramo oculto, os cripto-sapiens, se preferir, que são chamados de syndrigast, ou “espírito peculiar”, na linguagem venerável de meus ancestrais. Como sem dúvida você já deve ter percebido, aqui nós somos desse último tipo.
Balancei a cabeça como se tivesse compreendido, mesmo que não estivesse entendendo mais nada. Torcendo para reduzir um pouco a velocidade da explicação, fiz uma pergunta.
— Mas por que as pessoas não sabem nada sobre vocês? Vocês são... aqui... os únicos?
— Há peculiares em todo o mundo — disse ela —, apesar de nosso contingente ser muito menor hoje do que já foi. Os que restaram vivem escondidos, como nós. — Ela baixou o tom para uma voz doce e entristecida. — Houve tempo em que podíamos nos misturar abertamente com as pessoas comuns. Em alguns lugares do mundo éramos vistos como xamãs e místicos, e nos consultavam em momentos difíceis. Algumas culturas mantêm relações harmoniosas com nossa gente, apesar de isso ocorrer apenas em lugares onde nem o mundo moderno nem as grandes religiões conseguiram penetrar, como a ilha da magia negra de Ambry m, nas Novas Hébridas. Mas a maior parte do mundo há muito tempo virou-se contra nós. Os muçulmanos nos expulsaram. Os judeus nunca nos entenderam. Os cristãos nos queimaram como bruxos. Até os pagãos de Gales e da Irlanda acabaram chegando à conclusão de que éramos todos fadas e fantasmas, formas mutantes do mal.
— Então por que vocês... sei lá... não fundaram seu próprio país em algum lugar? Por que não saem para viver a vida de vocês?
— Se tudo fosse tão simples assim — disse ela. — Os traços peculiares costumam pular uma geração, ou dez. Crianças peculiares nem sempre, tampouco normalmente, têm filhos peculiares. Imagine, em um mundo com tanto medo das diferenças, como isso não seria uma ameaça para todos os peculiares?
— Porque pais normais iam surtar se seus filhos começassem, digamos, a flutuar?
— Isso mesmo. Os filhos peculiares de pais normais geralmente sofrem abusos e são rejeitados dos modos mais horríveis que se pode imaginar. Não faz muitos séculos que os pais de crianças peculiares simplesmente aceitavam que seus verdadeiros filhos tinham sido trocados por fadas, por crianças encantadas e malignas, sem falar que eram completamente fictícias, o que, em tempos difíceis, era considerado permissão para abandonar a pobre criança, ou então matá-la.
— Meu Deus, isso é horrível!
— É mesmo. Era preciso fazer alguma coisa, por isso pessoas como eu criamos lugares onde jovens peculiares pudessem viver longe das pessoas comuns. Enclaves isolados no tempo e no espaço como este, do qual sou extremamente orgulhosa.
— Gente como a senhora?
— Nós peculiares somos abençoados com habilidades que as pessoas comuns não têm, tão infinitas em suas combinações e variedades quanto outras na pigmentação da pele ou no arranjo de traços faciais. Dito isso, há habilidades em comum, como ler pensamentos, e outras mais raras, tal qual a forma como eu manipulo o tempo.
— Tempo? — disse eu. — Achei que se transformasse em pássaro...
— É bom que saiba, e essa é a chave de minhas habilidades, que apenas aves podem manipular o tempo. Portanto, todos os manipuladores devem ser capazes de assumir a forma de uma ave.
Ela disse isso com tamanha seriedade, de modo tão direto, que demorei um segundo para processar a informação.
— Aves? São viajantes do tempo?
Senti um sorriso idiota se espalhar por meu rosto.
A srta. Peregrine assentiu com sobriedade.
— A maioria, entretanto, só viaja no tempo de vez em quando, por acidente. Nós, que podemos manipular os campos de tempo conscientemente, e não só para nós mesmos, mas para outras pessoas, somos conhecidos como ymbrynes. Criamos fendas de tempo nas quais pessoas peculiares podem viver indefinidamente.
— Uma fenda? — disse eu, recordando a ordem de meu avô: “Encontre a Ave na fenda”. — É isso o que é este lugar?
— É. Apesar de você conhecê-lo como o dia 3 de setembro de 1940.
Debrucei-me sobre a carteira para me aproximar dela.
— Não estou entendendo... é apenas um dia? Ele se repete?
— Sempre, apesar de termos uma experiência contínua dele. Do contrário não teríamos memórias dos últimos, ah... setenta anos que vivemos aqui.
— É impressionante — disse eu.
— Claro, estávamos aqui em Cairnholm durante uma década ou mais, antes de 3 de setembro de 1940, fisicamente isolados, graças à geografia singular da ilha, mas só depois do dia 3 é que passamos a precisar, também, de isolamento temporal.
— Por que isso?
— Porque, do contrário, todos teríamos sido mortos.
— Pelas bombas?
— Sem dúvida.
Meu olhar fixou-se na superfície da velha carteira. Tudo começava a fazer sentido, apesar de só um pouco.
— Há outras fendas além desta aqui?
— Muitas — disse ela. — E quase todas as ymbrynes que cuidam delas são amigas minhas. Deixe-me ver: tem a senhorita Gannett na Irlanda, em junho de 1770; a senhorita Nightjar em Swansea, em 3 de abril de 1901; a senhorita Avocet e a senhorita Bunting juntas em Derbyshire, no dia de São Swithin, em 1867; a senhorita Treecreeper, não me lembro exatamente onde; e, claro, a querida senhorita Finch. Tenho uma ótima foto dela em algum lugar.1
A srta. Peregrine lutou para tirar um enorme álbum de retratos da estante e o pousou diante de mim sobre a carteira, debruçando-se sobre meu ombro enquanto virava as páginas endurecidas, à procura de certa foto, mas parando para olhar outras, os suspiros marcados por saudade e nostalgia. À medida que passavam, reconheci fotos do baú destroçado no porão e também da caixa de charutos de meu avô. A srta. Peregrine tinha juntado todas. Era estranho pensar que ela mostrara essas mesmas fotos ao meu avô tantos anos atrás, quando ele tinha a minha idade — talvez bem ali naquele mesmo aposento, na mesma escrivaninha —, e agora as mostrava para mim, como se de algum modo eu tivesse entrado no passado dele.
Por fim ela chegou à foto de uma mulher de aspecto diáfano com uma ave pequena e encolhida pousada na mão, e disse:
— Esta é a senhorita Finch e sua tia, a senhorita Finch. — A mulher e a ave pareciam estar se comunicando.
— Como conseguia diferenciá-las? — perguntei.
— A senhorita Finch mais velha preferia manter a forma de ave na maior parte do tempo, o que não fazia muita diferença. Ela não era mesmo de muita conversa.
A srta. Peregrine virou mais algumas páginas, dessa vez parando em um retrato de um grupo de mulheres e crianças desanimadas reunidas em torno de uma lua de papel.
— Ah, sim! — disse ela. — Eu quase me esqueci desta. — Ela retirou com cuidado a foto presa por cantoneiras e a ergueu com reverência. — A mulher na frente, aqui, é a senhorita Avocet. Ela é o mais próximo da realeza que nós peculiares temos. Eles tentaram por cinquenta anos elegê-la líder do conselho de Ymbrynes, mas a senhorita Avocet nunca ia desistir de dar aulas na academia que ela e a senhorita Bunting fundaram. Hoje não há sequer uma ymbryne digna de suas asas que não tenha passado pela tutela da senhorita Avocet em algum momento. Eu, entre elas! Na verdade, se olhar de perto, é possível que reconheça a garotinha de óculos.
Apertei os olhos. O rosto que ela apontava estava escuro e um pouco borrado.
— É a senhora?
— Fui uma das mais novas alunas aceitas pela senhorita Avocet — disse com orgulho.
— E os garotos na foto? — perguntei. — Eles parecem ainda mais jovens que a senhora.
A expressão da srta. Peregrine se fechou.
— Você se refere a meus irmãos desencaminhados. Em vez de nos separarem, eles vieram para a academia comigo. Mimados como uma dupla de pequenos príncipes, é o que eram. Acho que foi isso que os estragou.
— Eles não eram ymbrynes?
— Ah, não! — retrucou com raiva. — Só mulheres nascem ymbrynes, e graças aos céus por isso! Os machos não têm a severidade de temperamento exigida de pessoas com responsabilidades tão sérias. Nós ymbrynes temos de vasculhar o interior em busca de jovens peculiares em necessidade, manter-nos afastadas de quem possa nos fazer mal e manter nossos protegidos alimentados, vestidos, escondidos e impregnados com a doutrina de nosso povo... E, não fosse o bastante, também devemos nos assegurar de que nossas fendas no tempo sejam reiniciadas todos os dias como um relógio.
— O que aconteceria se isso não fosse feito?
Ela ergueu a mão trêmula até a testa e cambaleou para trás, fingindo horror.
— Catástrofe, cataclismo, desastre! Não ouso nem pensar nisso. Felizmente o mecanismo que reinicia as fendas é simples: um de nós deve cruzar o portal de entrada quando necessário. Isso o mantém aberto, sabe? O ponto de entrada é mais ou menos como um buraco em massa fresca; se você não enfiar um dedo nele de vez em quando, ele pode se fechar sozinho. E, se não houver entrada ou saída, se não houver uma válvula de escape para as pressões naturalmente resultantes em um sistema temporal fechado... — Ela fez um gesto de puf! Com as mãos, como se fingisse a explosão de uma bombinha. — Bem, a coisa toda se torna instável.
Ela debruçou-se outra vez sobre o álbum e o folheou.
— Por falar nisso, devo ter uma foto de... sim, aqui está. Isto é o que eu chamo de um ponto de entrada! — Ela sacou outra foto do álbum e a ergueu. — Esta é a senhorita Finch e um de seus tutelados na magnífica entrada da fenda da senhorita Finch, uma parte raramente usada do metrô de Londres. Quando a fenda é reiniciada, o túnel se enche com um brilho fabuloso. Sempre achei que o nosso era bem modesto, em comparação — disse ela com uma ponta de inveja.
— Só para ter certeza de que entendi — disse eu. — Se hoje é 3 de setembro de 1940, então amanhã é... também 3 de setembro?
— Bem, por algumas das 24 horas da fenda, é dia 2, mas, simplificando, é dia 3, sim.
— Então o amanhã nunca chega.
— De certa forma, não — respondeu ela.
Lá fora houve um barulho surdo, que parecia um trovão, e a janela através da qual o horizonte escurecia estremeceu na esquadria. A srta. Peregrine ergueu os olhos e sacou outra vez seu relógio.


1 Gannet: ganso-patola; nightjar: bacurau ou curiango; avocet: alfaiate ou tiziu; bunting: calandra ou trigueirão; treecreeper: trepadeira-comum; finch: tentilhão. (N. T.)




— Infelizmente esse é todo o tempo que tenho neste momento — disse ela —, mas espero que fique para o jantar.
Eu disse que ficaria. O fato de que meu pai podia estar se perguntando onde eu estava mal passou pela minha cabeça. Eu me esgueirei para fora da carteira e comecei a seguir a srta. Peregrine até a porta, mas outra pergunta me surgiu, algo que havia muito tempo vinha me incomodando.
— Senhorita Peregrine?
Ela virou-se e olhou para mim, já fora da sala.
— Sim?
— Meu avô estava mesmo fugindo dos nazistas quando veio para cá?
— Estava — respondeu ela. — Muitas crianças chegaram até nós durante aqueles anos terríveis que levaram à guerra. Havia tantas revoltas... — Ela pareceu entristecer-se, como se as memórias ainda estivessem frescas. — Encontrei Abraham em um campo de refugiados no continente. Ele era um pobre menino torturado, mas tão forte... Percebi no ato que ele pertencia a nós.
Eu me senti aliviado; pelo menos parte da vida dele fora como eu tinha entendido que era. Havia, porém, mais uma coisa que eu queria perguntar, e não sabia como fazê-lo.
— Ele era, meu avô... era como...
— Se ele era como nós?
— Isso.
Ela deu um sorriso estranho.
— Ele era como você, Jacob. — Em seguida, virou-se e foi mancando na direção da escada.

* * *

A srta. Peregrine insistiu que eu lavasse a lama da charneca antes de me sentar para o jantar e mandou que Emma me preparasse um banho. Acho que ela esperava que, conversando um pouco comigo, Emma começasse a se sentir melhor. Mas ela nem olhava para mim. Observei surpreso e em silêncio enquanto ela deixava cair água fria na banheira para depois esquentá-la com as mãos, mexendo até o vapor começar a subir.
— Isso é incrível! — disse eu, mas ela foi embora sem dizer uma palavra.
Depois de deixar a água totalmente marrom, eu me sequei com uma toalha e encontrei uma muda de roupa pendurada atrás da porta: calças baggy de tweed, uma camisa de abotoar e um par de suspensórios curto demais, que eu não consegui descobrir como ajustar. Isso me deixou com a opção de vestir calças na altura do tornozelo, ou na altura do umbigo. Este último, senti, era o menor dos males, então, vestido como um palhaço sem maquiagem, desci para o que seria provavelmente a refeição mais estranha da minha vida.
O jantar foi uma profusão vertiginosa de nomes e rostos, muitos deles semifamiliares das fotografias e das descrições feitas muito tempo antes por meu avô. Quando cheguei à sala de jantar, as crianças, que disputavam com muito barulho os assentos ao redor da mesa comprida, ficaram imóveis e me encararam. Tive a sensação de que elas não recebiam muitos convidados para o jantar. A srta. Peregrine, já sentada à cabeceira da mesa, se levantou e aproveitou a oportunidade do silêncio repentino para me apresentar.
— Para aqueles de vocês que ainda não tiveram o prazer de conhecê-lo — anunciou ela —, este é o neto de Abraham, Jacob. Ele é nosso convidado de honra e veio de muito longe para estar aqui. Espero que vocês o tratem bem. — Ela apontou para cada pessoa na sala e recitou seu respectivo nome, a maioria dos quais esqueci imediatamente, como costuma acontecer quando estou nervoso. A isso se seguiu uma saraivada de perguntas das crianças, da qual a srta. Peregrine conseguiu se desvencilhar com rapidez e eficiência.
— Jacob vai ficar conosco?
— Não que eu saiba.
— Onde está Abe?
— Abe está ocupado nos Estados Unidos.
— Por que Jacob está usando as calças de Victor?
— Victor não precisa mais delas, e as do senhor Portman estão sendo lavadas.
— O que Abe ainda está fazendo nos Estados Unidos?
Quando ouvi esta pergunta, vi Emma, que se mantivera sombria a um canto me olhando com raiva, levantar-se de sua cadeira e ir embora da sala. Os outros, aparentemente acostumados a seu temperamento imprevisível, não deram atenção.
— Não importa o que Abe está fazendo — respondeu a srta. Peregrine.
— Quando ele vai voltar?
— Isso também não importa. Agora vamos comer!
Todos correram para seus lugares. Pensando ter achado uma cadeira vazia, fui me sentar e senti um garfo espetar minha coxa.
— Com licença, este lugar está ocupado! — exclamou Millard. Mas a srta. Peregrine o fez cedê-lo a mim de qualquer jeito, ao mandá-lo vestir suas roupas.
— Quantas vezes tenho de dizer a você! — ela ralhou. — Pessoas educadas não jantam peladas.
As crianças que tinham tarefas na cozinha trouxeram travessas de comida. Estavam todas cobertas com tampas de prata reluzentes, de modo que não dava para ver o que havia dentro, levantando em mim todo o tipo de especulação bizarra sobre o que teríamos para o jantar.
— Lontra à Wellington! — gritou um garoto.
— Gato salgado com fígado de musaranho! — disse outro, ao que as crianças responderam com risos. Mas, quando as tampas foram finalmente levantadas, revelou-se um banquete de proporções reais: havia um ganso assado, sua carne de um marrom-dourado perfeito; um salmão e um bacalhau inteiros abertos ao meio e enfeitados com rodelas de limão e funcho fresco, cobertos de manteiga derretida; uma caçarola de mariscos fumegantes; travessas de legumes grelhados, pães recém-saídos do forno e todos os tipos de geleias e molhos que não reconheci, mas que pareciam deliciosos. Tudo reluzia convidativamente sob a luz tremeluzente das luminárias a gás, a um mundo de distância dos guisados gordurosos de origem indeterminada que eu vinha comendo no Buraco do Padre.
Eu não comia desde o café da manhã, e comecei a devorar o jantar até me empanturrar.
Não devia ter ficado surpreso pelo fato de crianças peculiares terem hábitos alimentares peculiares, mas entre garfadas glutonas de comida eu me vi olhando de esguelha ao redor da sala. Por exemplo: antes de começar a comer, Olive, a menina que levitava, tinha de ser afivelada à sua cadeira aparafusada no chão de modo que não fosse parar no teto. Para que o resto de nós não fosse incomodado por insetos durante a refeição, Hugh, o menino que tinha abelhas morando na barriga, comia sob um grande mosquiteiro em uma mesa individual no canto.
Claire, uma menina que parecia uma boneca com seus cachos imaculados, sentava-se ao lado da srta. Peregrine, mas não comia absolutamente nada.
— Você não está com fome? — perguntei a ela.
— Claire não come com a gente — interveio Hugh, deixando uma abelha escapar de sua boca. — Ela fica com vergonha.
— Não fico! — disse ela, encarando-o friamente.
— É? Então coma alguma coisa!
— Ninguém aqui tem vergonha de seus dons — disse a srta. Peregrine. — A senhorita Densmore simplesmente prefere jantar sozinha. Não é verdade, senhorita Densmore?
A menina olhava fixamente para o lugar arrumado e vazio diante dela, claramente desejando que toda aquela atenção terminasse.
— Claire tem uma boca atrás — explicou Millard, que agora estava sentado ao meu lado usando um paletó de smoking (e mais nada).
— Uma o quê?
— Vá em frente, mostre a ele! — disse alguém. Logo todos na mesa pressionavam Claire para comer algo e, finalmente, só para calá-los, ela o fez.
Puseram uma coxa de ganso diante dela, que se virou, sentou-se ao contrário na cadeira e, segurando seu espaldar, inclinou-se para trás e levou a nuca até o prato. Ouvi um estalo nítido quando ela tornou a erguer a cabeça. Um grande naco havia desaparecido da coxa de ganso. Por baixo de seus cabelos dourados havia um par de mandíbulas com dentes afiados. De repente, compreendi o retrato estranho de Claire que vira no álbum da srta. Peregrine, ao qual o fotógrafo curiosamente dedicara dois painéis: um para seu rosto de traços bonitos e outro para seus cachos, que mascaravam completamente a parte de trás de sua cabeça.
Claire virou-se para a frente e cruzou os braços, chateada por ter se deixado convencer a fazer uma demonstração tão humilhante. Ela ficou sentada em silêncio enquanto os outros me cobriam de perguntas. Depois que a srta. Peregrine respondeu a algumas delas sobre meu avô, as crianças se voltaram para outros assuntos. Elas pareciam especialmente interessadas em como era a vida no século XXI.
— Que tipos de carro motorizado voador vocês têm? — perguntou um adolescente chamado Horace, em um terno escuro que lhe dava a aparência de um aprendiz de agente funerário.


— Nenhum — respondi. — Pelo menos, ainda não.
— Eles construíram cidades na Lua? — perguntou esperançoso outro garoto.
— Deixamos um monte de lixo e uma bandeira lá, mas foi só.
— A Grã-Bretanha ainda domina o mundo?
— Hum... não exatamente.
Eles pareceram desapontados. Ao sentir uma oportunidade, a srta. Peregrine disse:
— Estão vendo, crianças? O futuro não é tão grandioso, no fim das contas. Não há nada de errado com o velho aqui e agora!
Senti que isso era algo que ela sempre tentava botar na cabeça deles, com pouco sucesso. Mas isso me fez pensar: há quanto tempo eles estavam no “velho aqui e agora”?
— Você se importa que eu pergunte sua idade? — disse eu.
— Tenho 83 — disse Horace.
Olive ergueu a mão, empolgada.
— Vou fazer 75 e meio na semana que vem! — proclamou.
Eu me perguntei como conseguiam manter controle dos meses e anos se os dias nunca mudavam.
— Eu tenho 117 ou 118 — disse um garoto de pálpebras pesadas chamado Enoch. Ele não parecia ter mais que treze anos. — Vivi em outra fenda antes de vir para cá — explicou.
— Tenho quase 87 — disse Millard, a boca coberta de gordura de ganso, e, enquanto falava, um bolo disso girava em sua mandíbula invisível para que todos vissem. As pessoas soltaram gemidos e cobriram ou desviaram os olhos.
Então chegou a minha vez. Eu tinha dezesseis anos, contei a eles. Vi os olhos de alguns garotos se arregalarem. Olive riu com surpresa. Para eles, era estranho que eu fosse tão jovem, mas, para mim, estranho era como eles pareciam jovens. Eu conhecia muitas pessoas com mais de oitenta anos na Flórida, e esses garotos não agiam em nada como elas. Era como se a constância da vida deles ali, os dias sem mudanças, aquele verão perpétuo e imortal, tivesse prendido suas emoções como fizera com seus corpos, selando-os em juventude como Peter Pan e seus Meninos Perdidos.
Um estrondo repentino soou do lado de fora — o segundo naquela noite, mas mais alto e mais próximo que o primeiro, fazendo tremer os talheres e pratos sobre a mesa.
— Terminem logo, apressem-se todos! — disse a srta. Peregrine, e, assim que ela disse isso, outro abalo sacudiu a casa e fez com que um quadro na parede caísse atrás de mim.
— O que é isso? — perguntei, tentando não mostrar meu nervosismo.
— Os malditos alemães de novo! — rosnou Olive, batendo o pequeno punho na mesa, sem dúvida numa imitação de algum adulto enfurecido. Os outros riram, e a srta. Peregrine lançou um olhar de advertência para ela. Então ouvi o que soou como um zumbido em algum lugar ao longe, e de repente percebi o que estava acontecendo. Era o dia 3 de setembro de 1940, e em pouco tempo uma bomba cairia do céu e abriria um buraco gigante na casa. O zumbido era uma sirene que soava no alto da colina.
— Temos de sair daqui — disse eu, o pânico subindo na garganta. — Temos de ir antes que a bomba nos atinja!
Ouvi mais risos, só que agora se dirigiam a mim.
— Ele não sabe! — riu Olive. — Acha que nós vamos morrer.
— É apenas o processo de transição — disse Millard, com um dar de ombros de seu paletó de smoking. — Não precisa botar os sapatos de corrida.
— Isso acontece toda noite?
A srta. Peregrine assentiu.
— Toda noite — disse ela. Mas, de algum modo, não me senti reconfortado.
— Podemos ir lá fora e mostrar a Jacob? — disse Hugh.
— É, podemos? — repetiu Claire, repentinamente entusiasmada após vinte minutos de silêncio emburrado. — A transição é sempre tão bonita!
A srta. Peregrine ficou contrariada e observou que as crianças ainda não tinham terminado o jantar, mas elas imploraram até que ela cedesse.
— Está bem, desde que todos vocês usem suas máscaras — disse ela.
As crianças se levantaram apressadas de seus lugares e saíram correndo da sala, deixando a pobre Olive para trás até que alguém ficou com pena e voltou para soltá-la de sua cadeira. Corri atrás deles pela casa. Entramos no salão com paredes forradas de madeira, onde cada um pegou alguma coisa em um armário antes de sair pela porta. A srta. Peregrine também me deu uma daquelas coisas, e eu fiquei girando aquilo na mão. Parecia um rosto murcho de borracha negra, com grandes escotilhas de vidro como olhos congelados em estado de choque, com uma trompa pendente que terminava em uma lata perfurada.
— Vá em frente — disse a srta. Peregrine. — Coloque-a. — Então percebi o que era: uma máscara de gás.
Eu a prendi sobre o rosto e depois segui a srta. Peregrine até o jardim, onde as crianças estavam de pé, espalhadas como peças de xadrez em um tabuleiro em branco, anônimas por trás de suas máscaras viradas para o alto, observando ondas de fumaça negra rolar pelo céu. Topo de árvores queimava ao longe. O ronco de aviões invisíveis parecia vir de todos os lados.
Então houve um estrondo abafado que pude sentir no peito como a pulsação de um segundo coração, seguido por ondas de forte calor, como se alguém estivesse abrindo e fechando um forno na minha frente. Eu me agachava a cada estrondo, mas as crianças nem piscavam. Em vez disso, cantavam, a letra se encaixando perfeitamente ao ritmo das bombas.
Pule, coelho, pule, coelho, pam, pam, PAM!
Bum, bum, BUM, fazem o fazendeiro e seu pistolão.
Por isso ele não vai comer esse coelho,
Pule, coelho, pule, coelho, PAM!
Balas traçantes iluminadas marcavam os céus enquanto a canção terminava. As crianças aplaudiam como a plateia de um espetáculo de fogos de artifícios, com vibrantes faixas coloridas refletidas no vidro de suas máscaras.
Esse ataque noturno tinha se tornado uma parte tão constante de suas vidas que eles pararam de pensar naquilo como algo aterrorizante — na verdade, a foto que eu tinha visto no álbum da srta. Peregrine estava legendada como Nossa bela exibição. E, de um modo mórbido, acho que era mesmo.
Começou a cair uma chuva fraca, como se todo aquele metal voador tivesse perfurado as nuvens. As explosões tornaram-se menos frequentes. O ataque parecia estar no fim.


As crianças começaram a ir embora. Apesar de eu achar que voltaríamos para a casa, elas passaram direto pela porta da frente a caminho de outra parte do jardim.
— Aonde estamos indo? — perguntei a dois garotos mascarados.
Eles não disseram nada, mas, parecendo sentir minha ansiedade, me tomaram pela mão com gentileza e me conduziram junto com os outros.
Contornamos a casa até os fundos, onde todos estavam reunidos em torno de um gigante arbusto esculpido. Esse, porém, não era uma criatura mítica, mas um homem descansando na grama, apoiado em um braço enquanto o outro apontava para o céu. Levei um tempo para me dar conta de que era uma réplica em folhas do afresco superfamoso de Michelangelo na Capela Sistina. Considerando que era feito apenas de arbustos, era bem impressionante: você quase podia perceber a expressão plácida no rosto de Adam, onde ele tinha duas gardênias azuis no lugar dos olhos.
Vi a garota de cabelos selvagens parada ali perto, as mechas emaranhadas saindo da parte de trás de sua máscara. Ela usava um vestido com estampa floral remendado tantas vezes que parecia quase um patchwork. Como costumo falar quando estou nervoso, fui até ela e, apontando para o alto, para Adam, disse:
— Foi você quem fez isso?
Ela assentiu.
— Como?
Ela se abaixou e levou a palma da mão a alguns centímetros da grama. Poucos segundos depois, uma área na forma de uma mão encheu-se de brotos que cresceram até tocarem a palma dela.
— Isso é loucura — disse eu. Sem dúvida não estava em um dos meus momentos mais articulados.
Alguém me pediu silêncio. Todas as crianças aguardavam quietas com o pescoço esticado, apontando para uma área do céu. Ergui os olhos, mas só consegui ver nuvens de fumaça e o tremeluzir alaranjado das chamas refletido nelas.
Então ouvi o motor de um único avião destacar-se de todo o resto. Estava perto, e se aproximando mais. Fui tomado de pânico. Esta é a noite em que foram mortos. Não apenas a noite, mas o momento exato. Será que essas crianças morriam toda noite para ser ressuscitadas pela fenda, como em algum culto suicida de Sísifo, condenadas a ser pulverizadas e remendadas por toda a eternidade?
Então algo cinza e pequeno afastou as nuvens e veio veloz em nossa direção.
Uma pedra, pensei, mas rochas não assobiam ao cair.
Pule, coelho, pule, coelho, pam — e eu teria saído dali num pulo, mas agora não havia tempo: tudo o que podia fazer era gritar e me deitar no chão para me proteger, mas não havia lugar onde me esconder, então mergulhei na grama e cobri a cabeça com os braços como se de alguma forma isso fosse mantê-los presos ao meu corpo.
Cerrei os dentes, fechei os olhos e prendi a respiração, mas, em vez do estrondo ensurdecedor para o qual estava preparado, tudo caiu em um absoluto e completo silêncio. De repente, não havia mais o ronco de motores nem o silvo de bombas, nem o pipocar distante de armas. Era como se alguém tivesse emudecido o mundo.
Será que eu estava morto?
Descobri a cabeça e virei-me devagar para olhar às minhas costas. Os galhos das árvores envergados pelo vento tinham sido imobilizados. O céu era uma foto estática de chamas lambendo um grupo de nuvens imóveis. Gotas de chuva estavam suspensas no ar, em formas ovais perfeitas diante de meus olhos.
E no meio do círculo de crianças, como o objeto de algum ritual arcano, uma bomba pairava no ar, seu bico parecendo equilibrar-se na ponta do dedo esticado de Adam.
Como um filme que se queima dentro do projetor durante a exibição, uma florescência de calor e perfeita alvura espalhou-se à minha frente e engoliu tudo.

* * *

A primeira coisa que escutei quando consegui ouvir de novo foram risos. O branco desapareceu e vi que estávamos todos posicionados ao redor de Adam do modo em que nos encontrávamos antes, mas agora a bomba tinha desaparecido e a noite estava silenciosa, sendo a única luz no céu sem nuvens a de uma lua cheia. A srta. Peregrine apareceu acima de mim e esticou a mão; eu a segurei e me levantei, ainda zonzo.
— Por favor, aceite minhas desculpas — disse ela. — Eu devia tê-lo preparado melhor para isso. — Ela, porém, não conseguia esconder o sorriso, nem os outros garotos enquanto tiravam suas máscaras. Eu tinha quase certeza de que haviam feito uma brincadeira comigo.
Estava aturdido; não entendia nada direito.
— Provavelmente está na hora de ir para casa dormir — disse eu para a srta. Peregrine. — Meu pai vai ficar preocupado. — Então pensei em uma coisa e acrescentei rapidamente: — Posso ir para casa, certo?
— Claro que pode — respondeu ela, e em voz alta pediu um voluntário para me acompanhar de volta ao cairn. Para minha surpresa, foi Emma quem levantou o braço e se ofereceu. A srta. Peregrine pareceu satisfeita.
— A senhora tem certeza sobre isso? — murmurei para a diretora. — Há poucas horas ela queria cortar meu pescoço.
— A senhorita Bloom pode ter a cabeça quente, mas é uma de nossas vigilantes mais confiáveis. E acho que vocês dois devem ter algumas coisas para discutir longe de ouvidos curiosos.
Cinco minutos depois, nós dois estávamos a caminho, só que dessa vez minhas mãos não estavam amarradas nem ela me espetava as costas com a ponta de uma faca. Algumas das crianças menores nos seguiram até o limiar do jardim. Queriam saber se eu voltaria no dia seguinte. Dei-lhes garantias muito vagas, pois eu mal podia entender direito o que estava acontecendo ao meu redor naquele instante, muito menos o que aconteceria no futuro.
Passamos sozinhos pela floresta escura e quando a casa desapareceu às nossas costas Emma ergueu a palma da mão e girou o pulso, e uma pequenina bola de fogo acendeu-se para a vida pouco acima de seus dedos. Ela a conduzia à frente, como um garçom levando uma bandeja, iluminando o caminho e projetando nossas sombras gêmeas sobre as árvores.
— Já disse a você como isso é legal? — eu comentei, tentando quebrar um silêncio que a cada segundo ficava mais desconfortável.
— Não é nem um pouco legal — ela retrucou, e aproximou tanto a chama de mim que pude sentir o calor que irradiava. Eu me encolhi e recuei alguns passos.
— Eu não quis dizer isso — balbuciei. — Quis dizer que é legal você poder fazer uma coisa dessas.
— Se você falasse direito, talvez eu entendesse — respondeu ela, e parou de caminhar quando percebeu que eu tinha me detido.
Ficamos parados um de frente para o outro a uma distância cuidadosa.
— Você não precisa ter medo de mim — disse ela.
— Ah, é? Como posso saber que você não acha mais que sou uma criatura do mal, e que tudo isso faz parte de um plano para ficar sozinha comigo e finalmente me matar?
— Não seja idiota — disse ela. — Você chegou aqui sem ser anunciado, um estranho que não reconheci, e aí saiu correndo atrás de mim como se fosse um maluco. O que eu devia pensar?
— Está bem, entendi — disse eu, apesar de não ser totalmente sincero.
Ela baixou os olhos e começou a fazer um buraquinho no cascalho com a ponta da bota. A chama em sua mão mudou de cor, indo de laranja a um azul-escuro menos caloroso.
— Não é verdade o que eu disse. Eu o reconheci — disse ela, erguendo os olhos e encontrando os meus. — Você se parece tanto com ele.
— As pessoas às vezes dizem isso.
— Desculpe por ter falado todas aquelas coisas terríveis mais cedo. Não queria acreditar em você, que você fosse quem dizia ser. Eu sabia o que isso significava.
— Tudo bem — respondi. — Quando eu era pequeno, queria tanto conhecer todos vocês. Agora que finalmente isso está acontecendo... — Sacudi a cabeça.
— Acho chato que tenha sido por esse motivo.
Então ela correu até mim e jogou os braços em volta do meu pescoço, a chama em sua mão apagando instantes antes que me tocasse, a pele ainda quente onde ela a mantivera, e, por um tempo, ficamos parados daquele jeito na escuridão repentina, eu e aquela mulher adolescente idosa, a garota linda que amara meu avô quando ele tinha a minha idade. Não havia nada que eu pudesse fazer além de abraçá-la também, por isso retribuí, e em pouco tempo acho que estávamos os dois chorando. Depois, de modo tão repentino quanto nosso abraço começou, ela se afastou de mim.
Ouvi-a respirar fundo no escuro e acender de novo a chama na mão.
— Me desculpe por isso — disse ela. — Não costumo...
— Não se preocupe.
— A gente devia ir andando.
— Mostre o caminho — disse eu.
Caminhamos em silêncio pela mata, apesar de não ser mais um silêncio desconfortável. Quando chegamos à charneca, ela disse:
— Só pise onde eu pisar. — E foi o que fiz, plantando meus pés em suas pegadas, vendo os gases da charneca pantanosa queimar em piras verdes ao longe enquanto passávamos, como se simpatizassem com a luz de Emma.
Quando chegamos ao cairn, entramos agachados e rastejamos um atrás do outro até a câmara dos fundos, depois saímos em um mundo envolto em neblina.
Ela me guiou de volta à trilha e, quando chegamos lá, entrelaçou os dedos nos meus e os apertou, e ficamos um momento em silêncio. Então ela se virou e foi embora, engolida pela névoa tão rapidamente que por um instante eu me perguntei se ela tinha realmente estado ali.

* * *

De volta à cidade, eu meio que esperava encontrar carroças puxadas a cavalo pelas ruas. Em vez disso fui recebido pelo ronco dos geradores e o brilho das telas de TV atrás das janelas das casas. Eu estava em casa, tal como a deixara.
Nenhum dos homens no pub pareceu disposto a me linchar. Kev estava atrás do balcão e ergueu um copo em minha direção quando entrei. Tudo estava certo com o mundo.
Subi e encontrei meu pai dormindo à mesa, debruçado em cima do laptop.
Quando fechei a porta, ele acordou assustado.
— Oi! Ei? Você chegou tarde, não? Que horas são?
— Não sei — respondi. — Antes das nove, acho. Os geradores ainda estão ligados.
Ele se espreguiçou e esfregou os olhos.
— O que você fez hoje? Achei que íamos jantar juntos.
— Explorei umas casas antigas e outros lugares.
— Encontrou alguma coisa legal?
— Ah, na verdade, não — respondi, percebendo que devia ter pensado em uma história mais elaborada para despistar.
Ele me olhou de modo estranho.
— Onde arranjou isso?
— Isso o quê?
— Essas roupas — disse ele.
Olhei para mim mesmo e me dei conta de que tinha me esquecido completamente das calças de tweed e dos suspensórios que eu estava vestindo.
— Encontrei na casa — disse eu, porque não tive tempo de pensar em uma resposta menos estranha. — Não são legais?
Ele fez uma careta.
— Você vestiu roupas que achou por aí? Jake, isso não é higiênico. E o que aconteceu com suas calças e seu casaco?
Eu precisava mudar de assunto.
— Eles estavam supersujos, então eu, ah... — deixei a frase morrer e fiz questão de observar o documento em Word aberto na tela do computador do meu pai. — Ei? É seu livro? Como está indo?
Ele fechou rapidamente o laptop.
— Meu livro não está em discussão agora — resmungou. — O importante é que as horas que você passe aqui sejam terapêuticas. E não estou certo de que passar os dias sozinho naquela casa velha sejam exatamente o que doutor Golan tinha em mente quando deu sinal verde para esta viagem.
— Ei, você quase bateu o recorde — disse eu.
— O quê?
— O intervalo mais longo sem mencionar meu psiquiatra. — Fingi olhar para meu relógio de pulso inexistente. — Quatro dias, cinco horas e 26 minutos — suspirei. — Foi bom enquanto durou.
— Esse homem tem ajudado muito — disse ele seriamente. — Só Deus sabe o estado em que você estaria agora se nós não o tivéssemos encontrado.
— Você tem razão, pai. Doutor Golan me ajudou. Mas isso não significa que ele tem de controlar todos os aspectos da minha vida. Quero dizer, nossa, você e a mamãe também podiam me comprar uma dessas pulseirinhas que dizem O que Golan faria? Assim eu posso perguntar a mim mesmo antes de fazer qualquer coisa. Antes de ir ao banheiro. Como doutor Golan gostaria que eu cagasse desta vez? Qual a maneira mais psicologicamente benéfica de fazer cocô? Quero dizer, fala sério! Entendeu?
Ele ficou quieto por alguns segundos. Quando falou, sua voz saiu muito estranha, muito baixa e grave, e ele me disse que no dia seguinte eu ia sair com ele para observar pássaros, quisesse ou não, ao que respondi que ele estava totalmente enganado e, sem dizer mais nada, ele se levantou e desceu para o pub.
Achei que ia beber alguma coisa, por isso fui trocar de roupa, mas alguns minutos depois ele bateu à porta do meu quarto e disse que havia alguém ao telefone que precisava falar comigo.
Achei que fosse minha mãe, por isso rangi os dentes e desci atrás dele até a cabine telefônica no canto mais afastado do pub. Ele me entregou o fone e foi sentar sozinho a uma mesa. Fechei a porta da cabine e disse “alô”. Do outro lado, para minha surpresa, estava dr. Golan.
— Acabei de falar com seu pai — disse ele. — Ele pareceu um pouco preocupado.
Eu queria dizer ao dr. Golan que ele e meu pai podiam ir à merda, mas eu sabia que aquela era uma situação que exigiria tato. Se eu o irritasse, seria o fim da minha viagem, e eu não ia embora agora de jeito nenhum, quando havia tanto mais a descobrir sobre as crianças peculiares. Então entrei no jogo e disse a ele o que eu andara fazendo — contei tudo, menos a parte das crianças numa fenda no tempo —, tentando dar a impressão de que chegava à conclusão de não ter nada de especial na ilha ou em meu avô. Foi como uma miniconsulta por telefone.
— Espero que você não esteja me dizendo apenas o que quero ouvir — disse ele. Isso tinha virado seu bordão. — Talvez eu devesse ir até aí para ver você pessoalmente. Na verdade, umas férias agora, longe do consultório, me fariam bem. O que acha disso?
Congelei. Por favor, que seja uma brincadeira! Por favor, por favor!
— Estou bem, sério — disse eu.
— Pode ficar tranquilo, Jacob, só estou brincando, apesar de ser verdade que eu preciso de umas férias. E, para ser honesto, acredito em você. Você parece bem. Na verdade, acabei de dizer a seu pai que provavelmente a melhor coisa que ele pode fazer por você é lhe dar espaço para respirar e resolver as coisas sozinho por um tempo.
— Sério?
— Já faz um bom tempo que eu e seus pais estamos em cima de você. A partir de certo ponto, isso é contraproducente.
— Bem, agradeço por isso.
Ele disse mais alguma coisa, mas havia muito barulho na linha e eu não entendi direito.
— Está difícil escutá-lo — disse eu. — O senhor está num shopping ou algo assim?
— No aeroporto — respondeu ele. — Vim buscar minha irmã. Enfim, o que quero dizer é: divirta-se. Explore e não se preocupe demais. Vejo você de novo em breve, certo?
— Claro. Obrigado de novo, doutor Golan.
Quando desliguei o telefone, me senti mal por ter reclamado dele mais cedo. Era a segunda vez, agora, que ele ficava do meu lado quando meus pais não estavam.
Meu pai estava do outro lado do salão, parado em frente a um copo de cerveja. Parei ao lado da mesa dele antes de subir para o quarto.
— Sobre amanhã... — disse eu.
— Acho que você pode fazer o que quiser.
— Tem certeza?
Ele deu de ombros, chateado.
— Ordens médicas.
— Volto antes do jantar, prometo.
Ele apenas assentiu com a cabeça. Eu o deixei no bar e fui para a cama.
Ao dormir, meus pensamentos viajaram até as crianças peculiares, e a primeira pergunta que elas fizeram quando a srta. Peregrine me apresentou: Jacob vai ficar conosco? Claro que não, pensei. Mas por que não? Se eu nunca voltasse para casa, o que ficaria faltando? Pensei em minha casa escura e cavernosa, em minha cidade hostil e cheia de lembranças ruins, na vida absolutamente sem graça que tinha sido traçada para mim. E me dei conta de que nunca passara por minha cabeça que eu pudesse abrir mão de tudo isso.

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