15 de abril de 2017

Capítulo quatro

Sonhos turbulentos, sonhos em línguas estranhas, sonhos com casa, com morte.
O absurdo em estranhos fragmentos que se desenrolavam em lampejos de consciência, vertiginosos e instáveis, invenções de meu cérebro abalado. Uma mulher sem rosto soprando poeira em meus olhos. Uma sensação de ser submerso em água morna. A voz de Emma me garantindo que tudo ia ficar bem, eles são amigos, estamos em segurança. Depois, uma escuridão profunda e sem sonhos por não sei quantas horas.
Quando acordei novamente, não estava sonhando e sabia disso. Estava deitado na cama de um quartinho. Uma luz fraca entrava por trás de uma persiana fechada. Então, manhã. Mas de que dia?
Eu vestia um pijama, não minhas roupas velhas e sujas de sangue, os olhos limpos de brita. Alguém estava cuidando de mim. Além disso, apesar de estar cansado até os ossos, sentia pouca dor. Meu ombro parara de doer, assim como minha cabeça. Eu não sabia ao certo o que isso significava.
Tentei sentar. Tive que parar a meio caminho e me apoiar nos cotovelos.
Havia uma jarra de água sobre uma mesa de cabeceira. Em um canto do quarto havia um grande guarda-roupa de madeira. No outro (pisquei e esfreguei os olhos), sim, havia um homem dormindo em uma cadeira. Minha mente estava tão devagar que nem me assustei. Apenas pensei: isso é estranho. E ele também era. Na verdade, tinha uma aparência tão estranha que, por um instante, me esforcei para entender o que estava vendo. Ele parecia um homem composto de metades diferentes: metade de seu cabelo era lambida para baixo, enquanto a outra era toda penteada para cima; metade de seu rosto era barbada, e a outra, bem lisa. Até suas roupas (calças, suéter amarfanhado, colarinho elisabetano com babados) eram metade modernas, metade arcaicas.


— Olá? — falei, hesitante.
O homem deu um grito, ficou tão assustado que caiu da cadeira e aterrissou no chão com um estrondo.
— Ah. Nossa! Minha nossa! — Ele tornou a sentar na cadeira, com os olhos arregalados e as mãos agitadas. — Você acordou!
— Desculpe, não quis assustar você...
— Ah, não, foi tudo culpa minha — disse ele, alisando as roupas e ajeitando a gola com babados. — Por favor, não conte a ninguém que eu dormi vigiando você!
— Quem é você? — perguntei. — Onde estou? — Minha mente estava desanuviando depressa e se enchendo de perguntas. — E onde está Emma?
— Certo, sim! — disse o homem, parecendo aturdido. — Creio que eu não seja o membro desta casa mais bem-preparado para responder a... bem, a perguntas...
Ele sussurrou a palavra, com as sobrancelhas erguidas, como se perguntas fossem proibidas.
— Mas! — Ele apontou para mim. — Você é Jacob. — Ele apontou para si mesmo. — Eu sou Nim. — Ele fez um rodopio com a mão. — E esta é a casa do sr. Bentham. Ele está muito ansioso para conhecê-lo. Na verdade, devo avisar a ele que você está acordado.
Eu me contorci e me ergui dos cotovelos para sentar reto, esforço que quase me deixou exausto.
— Não ligo para nada disso. Quero ver Emma.
— É claro! Sua amiga...
Ele agitou as mãos como pequenas asas enquanto seus olhos iam de um lado para outro como se pudesse encontrar Emma em um canto do quarto.
— Eu quero ver Emma. Agora!
— Meu nome é Nim! — Ele deu um gritinho. — E devo avisar, sim, sob ordens estritas...
Um pensamento apavorante me passou pela cabeça: de que Sharon, o mercenário que era, nos tivesse resgatado da multidão apenas para nos vender como peças de reposição.
— EMMA! — consegui gritar. — CADÊ VOCÊ?
Nim ficou lívido e afundou na cadeira. Acho que o assustei muito.
No instante seguinte, passos se aproximaram pelo corredor. Um homem de jaleco branco surgiu no quarto.
— Você está acordado! — exclamou ele.
Só pude supor que fosse um médico.
— Quero ver Emma! — falei.
Tentei jogar as pernas para fora da cama, mas pareciam pesadas como troncos.
O médico correu até meu lado e me empurrou de volta na direção dos lençóis.
— Não se esforce, você ainda está em recuperação!
O homem de branco mandou que Nim fosse procurar o sr. Bentham. Nim saiu correndo, tocou rapidamente a maçaneta da porta e voou para o corredor.
Em seguida, Emma surgiu à porta, sem fôlego e sorrindo, o cabelo caindo sobre um vestido branco limpo.
— Jacob?
Ao vê-la, fui tomado por uma onda de força e me sentei, empurrando o médico para o lado.
— Emma!
— Você está acordado! — disse ela, correndo em minha direção.
— Cuidado, ele está frágil! — alertou o médico.
Controlando-se, Emma me deu o mais delicado dos abraços, depois se sentou na beira da cama ao meu lado.
— Desculpe por não estar aqui quando você acordou. Eles disseram que você ainda ia ficar inconsciente por horas...
— Está tudo bem — falei. — Mas onde estamos? Há quanto tempo estamos aqui?
Emma olhou para o médico. Ele estava escrevendo em um caderninho, mas obviamente escutando. Emma deu as costas para ele e baixou a voz:
— Estamos na casa de um homem rico do Recanto do Demônio. Algum lugar escondido. Sharon nos trouxe aqui há um dia, um dia e meio.
— É só isso? — falei, observando o rosto de Emma. Sua pele estava perfeitamente lisa, os cortes haviam desaparecido e se tornado finas linhas brancas. — Você parece quase curada.
— Eu só tive uns arranhões e levei umas pancadas...
— De jeito nenhum — falei. — Eu me lembro do que aconteceu lá fora.
— Você quebrou uma costela e deslocou um ombro — interveio o médico.
— Eles tinham uma mulher aqui — disse Emma. — Uma curandeira. O corpo dela produz uma poeira poderosa...
— E uma concussão dupla — completou o médico. — Nada que não pudéssemos resolver. Mas você, garoto, você estava quase morto quando chegou aqui.
Toquei o peito, a barriga, todos os lugares em que havia sido golpeado. Nenhuma dor. Levantei o braço direito e girei o ombro. Nenhum problema aparente.
— Parece que tenho um braço novo — falei, maravilhado.
— Você teve sorte de não precisar de uma cabeça nova — disse outra voz: Sharon, se abaixando para que toda a sua altura passasse pela porta. — Na verdade, é uma vergonha que eles não tenham lhe dado uma, porque, pelo visto, a que você já tem está cheia de serragem. Desaparecer daquele jeito, dando no pé sem ao menos saber para onde ir, e depois de todos os meus avisos sobre o Recanto! O que vocês estavam pensando? — Ele se aproximou de Emma e de mim, agitando o dedo comprido e branco.
Sorri para ele.
— Oi, Sharon. É bom ver você de novo.
— É. Ha, ha. Agora que está tudo bem, são só sorrisos, mas você quase conseguiu que todos fôssemos mortos lá fora!
— Tivemos sorte — disse Emma.
— É... sorte que eu estava lá! Sorte que meus primos construtores de forca estavam disponíveis naquela noite e que consegui alcançá-los antes que eles tivessem bebido cerveja demais no Berço e Caixão! Eles não trabalham de graça, por falar nisso. Estou acrescentando os serviços deles à conta de vocês, junto com meu barco danificado!
— Está bem, está bem! — falei. — Fique tranquilo, está bem?
— O que você estava pensando? — perguntou ele outra vez, seu hálito horrível baixando sobre nós como uma nuvem.
Então aquilo voltou à minha mente, o que eu estivera pensando e meio que esquecera.
— Que você era um grosseirão vigarista! — retruquei. — Tudo é só dinheiro com você, e você provavelmente teria nos vendido como escravos na primeira chance que tivesse! É — falei. — Nós pesquisamos. Sabemos tudo sobre as coisas suspeitas em que vocês, peculiares, se metem por aqui, e se você pensa por um minuto que acreditamos que você — eu apontei para Sharon — ou qualquer um de vocês — apontei para o médico — está nos ajudando por pura bondade, vocês estão loucos! Por isso, ou nos contam o que querem de nós ou nos deixam ir, porque... nós temos...
Uma onda súbita de exaustão. Minha visão se desfocou.
— ... temos coisas melhores para...
Sacudi a cabeça e tentei me levantar, mas o quarto tinha começado a girar.
Emma segurou meus braços, e o médico me empurrou para trás com delicadeza sobre o travesseiro.
— Estamos ajudando você porque o sr. Bentham nos pediu — disse ele laconicamente. — O que ele quer com você, bom, você mesmo vai ter que perguntar a ele.
— Como eu sempre digo, o senhor Seja-Lá-Quem-For pode ir tomar no mmmfff...
Emma pôs a mão sobre minha boca.
— Jacob está um pouco confuso nesse momento — disse ela. — Tenho certeza de que o que ele quis dizer foi: obrigado por nos salvar. Temos uma dívida com o senhor.
— Isso também — murmurei através dos dedos dela.
Eu estava com raiva e com medo, mas também realmente feliz por estar vivo e por ver Emma sã e salva. Quando pensei nisso, toda a agressividade em mim desapareceu, e me enchi de pura gratidão. Fechei os olhos numa tentativa de fazer o quarto parar de girar e aproveitei para escutar o que estavam sussurrando sobre mim.
— Esse garoto é problema — disse o médico. — Não podemos deixar que conheça o sr. Bentham desse jeito.
— O cérebro dele está atordoado — disse Sharon. — Se a garota e eu pudermos apenas conversar com ele em particular, tenho certeza de que ele pode ser trazido à razão. Podemos ter o quarto só para nós?
O médico saiu com relutância. Tornei a abrir os olhos e foquei em Emma, que olhava para mim.
— Onde está Addison? — perguntei.
— Ele atravessou.
— Certo — falei, lembrando. — Teve notícias dele? Ele já voltou?
— Não — disse ela em voz baixa. — Ainda não.
Refleti sobre o que aquilo podia significar, mas não suportei o pensamento.
— Prometemos salvá-lo — falei. — Se ele pode atravessar, nós também podemos.
— Aquele etéreo da ponte pode não ter se importado com um cachorro atravessando — interveio Sharon —, mas você, ele ia esfolar e jogar direto na fervura.
— Vá embora — falei. — Quero conversar com Emma em particular.
— Por quê? Para que vocês possam pular pela janela e fugir de novo?
— Não vamos a lugar algum — disse Emma. — Jacob não consegue nem sair da cama.
Sharon não se convenceu.
— Fico no canto e não presto atenção — disse ele. — É minha melhor oferta.
Ele se encolheu na cadeira de um só braço, e começou a assoviar e a limpar as unhas.
Emma me ajudou a sentar, e apoiamos a testa uma na outra e falamos em sussurros. Por um instante, fiquei tão emocionado com sua proximidade que todas as perguntas que enchiam meu cérebro desapareceram e a única coisa que havia era sua mão tocando meu rosto, acariciando minha bochecha, meu queixo.
— Fiquei tão assustada... — disse Emma. — Eu achei mesmo que tivesse perdido você.
— Estou bem — falei.
Eu sabia que não estava bem, mas me embaraçava ter sido motivo de preocupação.
— Você não estava bem. Não mesmo. Você devia pedir desculpas àquele médico.
— Eu sei. Eu só estava surtado. E desculpe se assustei você.
Ela assentiu, depois virou o rosto. Seus olhos fitaram rapidamente a parede, e, quando voltaram, uma nova dureza brilhava neles.
— Gosto de pensar que sou forte — disse ela. — A razão por eu estar livre agora, e não Bronwyn ou Millard ou Enoch, é que sou forte. Todos contam comigo. Essa sempre fui eu, aquela que podia enfrentar tudo. Como se houvesse um sensor de dor dentro de mim que não liga. Posso bloquear coisas horríveis e seguir em frente, fazer o que precisa ser feito. — A mão dela encontrou a minha em cima dos lençóis. Nossos dedos se entrelaçaram automaticamente. — Mas quando penso em você, como você estava quando o tiraram do chão, depois que aquelas pessoas...
Ela deu um suspiro vacilante e sacudiu a cabeça, como se expulsasse a lembrança.
— Eu simplesmente não aguentei.
— Eu também — falei, me lembrando da dor que sentia sempre que via Emma machucada, o horror que me tomava sempre que ela estava em perigo. — Eu também.
Apertei a mão dela e procurei algo a mais para dizer, mas ela falou primeiro.
— Preciso que você me prometa uma coisa.
— Qualquer coisa.
— Preciso que você não morra.
Abri um sorriso. Mas Emma, não.
— Você não pode morrer — insistiu ela. — Se eu perder você, nada mais vai importar.
Passei os braços em volta dela e a puxei para mim.
— Vou fazer o possível.
— Isso não é suficiente — sussurrou ela. — Prometa para mim.
— Está bem. Não vou morrer.
— Diga “Eu prometo”.
— Eu prometo. Diga você também.
— Eu prometo — disse ela.
— Ahhh — disse Sharon delicadamente, do canto. — As doces mentiras ditas pelos namorados...
Nós nos afastamos.
— Você não devia estar escutando! — falei.
— Foi tempo o suficiente — disse ele, arrastando ruidosamente a cadeira pelo chão e a plantando ao lado da cama. — Temos coisas importantes para discutir. Principalmente as desculpas que você me deve.
— Pelo quê? — falei, irritado.
— Questionar meu caráter e reputação.
— Tudo o que eu disse era verdade — respondi. — Esta fenda está cheia de vagabundos e marginais, e você é um grosseirão que só pensa em dinheiro.
— Sem um pingo de compaixão pelo sofrimento de seu próprio povo peculiar — acrescentou Emma. — Embora, mais uma vez, eu deva agradecer por nos salvar.
— Por aqui a gente aprende a cuidar apenas de si mesmo — disse Sharon. — Todo mundo tem uma história. Um problema. Todo mundo quer alguma coisa de você, e eles estão quase sempre mentindo. Então, sim, eu permaneço desavergonhadamente autocentrado e motivado pelo lucro. Mas ressinto profundamente sua sugestão de que eu teria qualquer tipo de negócio com alguém que negocia carne de peculiares. Só porque sou um capitalista não significa que eu seja um canalha sem coração.
— E como íamos saber disso? — falei. — Tivemos que implorar e subornar você para que não nos abandonasse na doca, lembra?
Ele deu de ombros.
— Isso foi antes que eu me desse conta de quem você é.
Eu olhei para Emma, depois para meu peito.
— Quem eu sou?
— Você, meu rapaz... O sr. Bentham está aguardando há muito tempo para falar com você. Desde o primeiro dia em que comecei a trabalhar como barqueiro, há mais de quarenta e tantos anos, Bentham me assegurou entrada e saída livres do Recanto do Demônio se eu prometesse ficar de olho em você enquanto fazia isso. Eu precisava trazer você para conhecê-lo. E agora, finalmente, cumpri minha parte no negócio.
— Você deve ter me confundido com outra pessoa — falei. — Não sou ninguém.
— Ele disse que você seria capaz de falar com etéreos. Quantos peculiares você conhece que conseguem fazer isso?
— Mas ele só tem dezesseis anos — disse Emma. — Dezesseis mesmo. Então como pode...
— Foi por isso que demorei a juntar as coisas — disse Sharon. — Precisei falar pessoalmente com o sr. Bentham sobre isso, e era onde eu estava quando vocês fugiram. Você não se encaixa na descrição, sabe? Por todos esses anos, esperei um velho.
— Um velho — falei.
— Isso.
— Que pode falar com etéreos.
— Como eu disse.
Emma apertou minha mão, e trocamos um olhar — não, não pode ser —, e então joguei as pernas para fora da cama, subitamente com as energias recarregadas.
— Quero falar com esse tal de Bentham. Agora mesmo.
— Quando ele estiver pronto, falará com você — disse Sharon.
— Não — falei. — Agora.
Por acaso, naquele exato momento houve uma batida na porta. Sharon a abriu e encontrou Nim.
— O sr. Bentham vai se encontrar com nossos convidados para o chá em uma hora — disse ele. — Na biblioteca.
— Não podemos esperar uma hora — reclamei. — Já desperdiçamos tempo demais aqui.
Com isso, Nim ficou um pouco vermelho e inflou as bochechas.
Desperdiçaram?
— O que Jacob quis dizer é que temos outro compromisso urgente em outro lugar no Recanto e já estamos atrasados.
— O sr. Bentham insiste em se encontrar com vocês de maneira adequada — disse Nim. — Como ele sempre diz, no dia em que não houver tempo para boas maneiras, o mundo estará completamente perdido para nós. Por falar nisso, eu devo me assegurar que vocês estejam vestidos apropriadamente. — Ele foi até o guarda-roupa e abriu as portas pesadas. No interior, havia várias roupas nos cabides. — Podem escolher o que quiserem.
Emma pegou um vestido de babados e torceu os lábios.
— Isso parece tão errado... Brincar de se enfeitar e tomar chá enquanto nossos amigos e ymbrynes são forçados a suportar sabe a ave o quê.
— Estamos fazendo isso por eles — falei. — Só temos que entrar no jogo até Bentham nos contar o que sabe. Pode ser importante.
— Ou ele pode ser apenas um velho solitário.
— Não falem desse jeito sobre o sr. Bentham — disse Nim, franzindo o rosto. — O sr. Bentham é um santo, um gigante entre os homens!
— Ah, calma — disse Sharon. Ele foi até a janela e abriu as persianas, permitindo que uma fraca luz do dia com tom de sopa de ervilha gotejasse no interior do quarto. — Então vamos lá — disse ele para nós. — Vocês dois têm um encontro.
Joguei para trás as cobertas, e Emma me ajudou a sair da cama. Para minha surpresa, minhas pernas aguentaram meu peso. Olhei da janela para uma rua vazia envolta em névoa amarela, e então, com Emma segurando meu braço, fui até o armário escolher uma muda de roupas. Encontrei uma vestimenta em um cabide etiquetado com meu nome.
— Podemos ter alguma privacidade para nos trocar, por favor? — falei.
Sharon olhou para Nim e deu de ombros. As mãos de Nim dançaram.
— Não seria apropriado!
— Ah, eles estão bem — disse Sharon, acenando com a mão. — Não vão fazer nenhuma gracinha, ouviram?
Emma ficou vermelha como um tomate.
— Não faço ideia do que você quer dizer.
— Claro que não. — Ele enxotou Nim do quarto, depois fez uma pausa na porta. — Posso confiar que vocês não vão fugir de novo?
— Por que você acha que a gente vai fugir? — indaguei. — Queremos conhecer o sr. Bentham.
— Não vamos a lugar algum — disse Emma. — Mas porque você ainda está aqui?
— O sr. Bentham me pediu para ficar de olho em vocês.
Será que isso significava que Sharon iria nos deter se tentássemos sair?
— Deve ser um baita favor que você deve a ele, hein? — falei.
— Enorme — respondeu Sharon. — Devo minha vida ao homem.
E, se dobrando quase ao meio, ele se espremeu para sair para o corredor.

* * *

— Você muda de roupa ali dentro — disse Emma, apontando com a cabeça para um pequeno banheiro anexo. — Eu vou me trocar aqui. E sem olhar até eu bater!
— Está beeeem — falei, exagerando minha decepção para fingir que não fiquei desapontado.
Ver Emma de calcinha era sem dúvida uma perspectiva interessante, mas todas as situações de risco de vida pelas quais havíamos passado deixaram a parte adolescente do meu cérebro um pouco anestesiada. Porém, mais alguns beijos de verdade e meus instintos básicos poderiam começar a acordar novamente.
Mas enfim.
Eu me fechei no banheiro, que era todo de azulejos brancos brilhantes e ornamentos de ferro pesado, e me apoiei na pia para me examinar em um espelho prateado.
Eu estava um lixo.
Meu rosto estava inchado e todo marcado com linhas rosadas feias, que estavam sarando rapidamente, mas ainda presentes, lembranças de cada golpe que eu sofrera. Meu tronco era um mapa de hematomas indolores, porém feios. Havia sangue seco nas dobras das minhas orelhas. Ver aquilo me deixou tonto, e precisei me segurar na pia para me manter de pé. Tive um flashback repentino: punhos e pés me golpeando, o chão subindo em minha direção.
Ninguém jamais tentara me matar com as próprias mãos antes. Isso era novidade, muito diferente de ser caçado por etéreos, que corriam por instinto. Diferente, também, de levar tiros: balas eram uma maneira rápida e impessoal de matar. Usar as mãos, porém... isso dava trabalho. Exigia ódio. Era uma coisa estranha e amarga, saber que tal ódio tinha sido dirigido a mim. Que peculiares que nem sabiam meu nome tinham, em um momento de loucura coletiva, me odiado o suficiente para tentar me tirar a vida daquela forma. Senti vergonha por isso, desumanizado, apesar de não conseguir entender exatamente por quê.
Era algo sobre o qual eu precisaria refletir, se um dia viesse a ter o luxo do tempo para refletir sobre tais coisas.
Abri a torneira para lavar o rosto. Os canos estremeceram e gemeram, mas, após um grande floreio orquestral, produziram apenas um soluço de água marrom. Aquele sujeito, Bentham, podia ser rico, mas nenhum luxo podia isolá-lo da realidade do lugar infernal onde ele vivia.
Como ele havia ido parar ali?
Ainda mais intrigante: como o homem tinha conhecimento sobre, ou conhecia, meu avô? Sem dúvida era a quem Sharon estava se referindo quando disse que Bentham estava procurando por um velho que podia falar com os etéreos. Talvez meu avô tivesse conhecido Bentham durante seus anos de guerra, depois de deixar a casa da srta. Peregrine mas antes de ter ido para os Estados Unidos. Foi um período decisivo de sua vida sobre o qual ele falava apenas raramente, e nunca com detalhes. Apesar de tudo o que eu descobrira sobre meu avô nos últimos meses, em muitos aspectos ele ainda permanecia um mistério para mim. Agora que ele estava morto, pensei com tristeza, talvez fosse ser assim para sempre.
Vesti as roupas que Bentham me dera, uma camisa azul de estilo estudantil e um suéter cinza de lã e calça preta simples. Tudo coube com perfeição, como se feitos sob medida. Enquanto eu calçava um par de sapatos Oxford de couro marrom, Emma bateu na porta.
— Como você está indo aí dentro?
Abri a porta e me deparei com uma explosão de amarelo. Emma estava péssima em um vestido amarelo-canário enorme com mangas bufantes e uma barra que nadava em torno de seus pés.
Ela deu um suspiro.
— Este era o menor de muitos males da costura, garanto.
— Você parece o Garibaldo — falei, saindo do banheiro e a seguindo. — Esse sr. Bentham é um homem cruel.
Ela não entendeu a referência. Ignorando meu comentário, foi até a janela e olhou para fora.
— Hum. Bom.
— O que é bom? — perguntei.
— Esse beiral. É do tamanho da Cornualha, e há apoios por toda parte. Mais seguro que um trepa-trepa.
— E por que nos preocuparíamos com a segurança do beiral? — perguntei, me juntando a ela.
— Porque Sharon está vigiando o corredor, então obviamente não podemos sair por aquele caminho.
Às vezes parecia que Emma tinha conversas inteiras comigo dentro de sua cabeça, conversas das quais eu não participava, e se frustrava ao me ver confuso quando finalmente as explicava. Seu cérebro trabalhava tão rápido que de vez em quando disputava corrida contra si mesmo.
— Não podemos ir a lugar nenhum — falei. — Temos que encontrar Bentham.
— E nós vamos. Mas nem morta vou passar a próxima hora sem fazer nada neste quarto. O santo sr. Bentham é um exilado que vive no Recanto do Demônio. O que significa que ele é um bandido perigoso com passado sórdido. Quero dar uma olhada ao redor e ver o que podemos descobrir. Vamos voltar antes que alguém perceba que sumimos. Palavra de honra.
— Ah, bem, uma operação secreta. Então estamos vestidos perfeitamente.
— Muito engraçado.
Eu estava com sapatos de sola dura que faziam cada passo soar como uma martelada, ela estava com um vestido mais amarelo que um sinal de perigo tóxico, e eu mal tinha encontrado a energia para ficar sobre meus dois pés.
Mesmo assim, concordei. Emma costumava estar certa sobre essas coisas, e eu tinha passado a contar com seus instintos.
— Caso alguém note a gente, que se dane — disse ela. — Pelo visto, o homem já esperou séculos para conhecer você. Ele não vai nos expulsar agora por causa de um pequeno passeio.
Ela abriu a janela e subiu no beiral. Botei a cabeça para fora com cautela.
Estávamos dois andares acima de uma rua vazia na área “boa” do Recanto do Demônio. Reconheci uma pilha de lenha: foi onde me escondi quando Sharon saiu da loja de aspecto abandonado. Diretamente abaixo de nós ficava o escritório de advocacia de Munday, Dyson e Strype. Não havia tal firma, é claro. Era uma fachada, uma entrada secreta para a casa de Bentham.
Emma me ofereceu a mão.
— Sei que você não é um grande fã de alturas, mas não vou deixar que você caia.
Depois de ser pendurado acima de um rio fervente por um etéreo, aquela pequena queda não parecia tão assustadora. E Emma tinha razão: o beiral era largo, e saliências decorativas e rostos de gárgulas se projetavam por toda a fachada, criando apoios naturais para as mãos. Eu saí, me segurei e fui me arrastando atrás dela.
Quando o beiral fez uma curva e tivemos quase certeza de que estávamos em paralelo com um corredor fora da vista de Sharon, tentamos abrir uma janela.
Estava trancada. Avançamos e tentamos a seguinte, mas também estava trancada, assim como a terceira, a quarta e a quinta janelas.
— O prédio está acabando.
— A próxima vai — disse Emma.
— Como você sabe?
— Sou clarividente.
E, com isso, ela a chutou, jogando estilhaços de vidro no interior do aposento e os derrubando na frente do prédio.
— Não, você é uma vândala.
Emma sorriu para mim e derrubou os últimos cacos do batente com as costas da mão.
Ela entrou pela abertura. Eu a segui, um pouco relutante, para o interior de um quarto escuro e cavernoso. Nossos olhos precisaram de um momento para se ajustar. A única luz vinha do caixilho da janela que acabáramos de quebrar, seu brilho fraco revelando a borda do paraíso de um acumulador compulsivo.
Engradados e caixas de madeira se amontoavam até o teto em pilhas mal sustentadas, deixando apenas um pequeno corredor entre elas.
— Tenho a sensação de que Bentham não gosta de jogar coisas fora — disse Emma.
Em resposta, disparei um espirro triplo rápido. O ar estava repleto de poeira.
Emma me desejou saúde e acendeu uma chama na mão, que ergueu até o engradado mais próximo. Estava identificado como Rm. AM-157.
— O que você acha que tem dentro deles?
— Precisamos de um pé de cabra para descobrir — disse Emma. — Esses são resistentes.
— Achei que você fosse clarividente.
Ela fez uma careta para mim.
Sem um pé de cabra, nos arriscamos a entrar mais no ambiente, Emma aumentando a chama à medida que deixávamos para trás a luz definhante da janela. A passagem estreita entre as caixas conduzia através de uma porta com arco e para outra sala, que era igualmente escura e quase tão atulhada quanto a primeira. Em vez de caixas, estava abarrotada de objetos volumosos escondidos por lençóis brancos. Emma estava prestes a puxar um deles, mas, antes que fizesse isso, segurei seu braço.
— Qual o problema? — disse ela, irritada.
— Pode haver algo horrível embaixo disso.
— Sim, exatamente — disse ela, e arrancou a cobertura, o que levantou um ciclone de pó.
Quando a poeira baixou, vimos nosso reflexo esmaecido em um mostruário com tampo de vidro do tipo que se encontra em museus. Chegava na altura da cintura e tinha cerca de quatro metros quadrados. Em seu interior, muito arrumados e etiquetados, havia uma casca de coco entalhada, um pente feito de vértebra de baleia, um pequeno machado de pedra e alguns outros objetos cuja utilidade não era imediatamente óbvia. Havia uma placa no vidro com os dizeres: Objetos usados em residências de peculiares na Ilha de Espírito Santo, Novas Hébridas, região do Pacífico Sul, cerca de 1750.
— Hum — disse Emma.
— Estranho — respondi.
Ela recolocou o lençol, apesar de haver pouca utilidade em cobrir nossos rastros (não tinha como desquebrar a janela), e seguimos lentamente pela sala, descobrindo outros objetos aleatoriamente. Todos eram expositores de museu, de diferentes tipos. Os conteúdos tinham pouca relação uns com os outros, exceto o fato de terem pertencido ou sido utilizados por peculiares. Um continha uma seleção de sedas de cores vivas usadas por peculiares no Extremo Oriente por volta de 1800. Outro exibia o que parecia, à primeira vista, um grande corte transversal de tronco de árvore, mas a um exame mais aproximado era uma porta com dobradiças de ferro e uma maçaneta feita de um nó de árvore. Sua placa de identificação dizia Entrada da casa de um peculiar na Grande Floresta Hiberniana, cerca de 1530.
— Uau — disse Emma, se aproximando para ver melhor. — Nunca soube que há tantos de nós no mundo.
— Ou havia — falei. — Se é que ainda estão por aí.
O último mostruário que olhamos estava identificado como Armas de peculiares hititas, cidade subterrânea de Kaymakli, sem data. O intrigante era que no interior só víamos besouros e borboletas mortos.
Emma levou sua chama em minha direção para olhar para mim.
— Acho que podemos afirmar que Bentham é um aficionado por história. Pronto para seguir em frente?
Passamos apressados por mais duas salas cheias de mostruários cobertos por lençóis e chegamos a uma escada se serviço, que subimos até o andar seguinte.
A porta do andar abria para um corredor longo, opulento e acarpetado que parecia se prolongar para sempre, com os mesmos espaços entre uma porta e outra e papel de parede repetido, criando uma impressão estonteante de infinitude.
Espionamos os quartos enquanto caminhávamos pelo corredor. O mobiliário era igual, a disposição era igual, o papel de parede era igual: todos tinham cama, mesa de cabeceira e guarda-roupa, igual ao quarto onde eu me recuperara. Um padrão de ramos de papoulas vermelhas serpenteava pelo papel de parede e continuava pelo carpete em ondas hipnóticas, fazendo com que o lugar inteiro parecesse estar sendo lentamente recuperado pela natureza. Na verdade, os quartos seriam totalmente indiferenciáveis não fosse por pequenas placas de latão pregadas às portas, que davam a cada um deles um nome único. Todos tinham uma sonoridade exótica: Quarto dos Alpes, Quarto Gobi, Quarto Amazonas.
Devia haver uns cinquenta quartos, e estávamos na metade do corredor, agora correndo, certos de que não havia nada útil a ser descoberto ali, quando um golpe de ar soprou sobre nós, tão frio que arrepiou minha pele.
— Eeeiiiii! De onde veio isso? — perguntei.
— Será que alguém deixou alguma janela aberta?
— Mas não está frio lá fora — falei, e Emma deu de ombros.
Continuamos. O ar esfriava à medida que avançávamos. Finalmente, viramos uma curva e chegamos a um trecho do corredor onde pingentes de gelo haviam se formado no teto e o carpete cintilava congelado. O frio parecia emanar de um quarto em especial, e paramos diante dele, observando flocos de neve serem soprados um por um pela fresta sob a porta.
— Isso é muito estranho — falei, tremendo.
— Definitivamente — concordou Emma. — Até para meus padrões.
Dei um passo à frente, meus pés esmagando o carpete coberto de neve, para examinar a placa na porta. Quarto Sibéria.
Olhei para Emma. Ela olhou para mim.
— Provavelmente é só um ar-condicionado superpotente — disse ela.
— Vamos descobrir — falei. Levei a mão à maçaneta e tentei abri-la, mas ela não girou. — Está trancada.
Emma levou a mão à maçaneta e a manteve ali por vários segundos.
Começou a escorrer água enquanto o gelo derretia de seu interior.
— Não trancada — disse ela —, congelada.
Ela girou a maçaneta e empurrou, mas a porta se abriu apenas alguns centímetros; havia neve empilhada do outro lado. Encostamos o ombro em sua superfície e, ao contar três, empurramos. A porta se abriu, e uma lufada de ar ártico soprou sobre nós. Neve flutuava por toda parte, entrando em nossos olhos, no corredor às nossas costas. Protegendo o rosto, olhamos no interior. Era mobiliado como os outros quartos (cama, guarda-roupa, mesa de cabeceira), mas havia montes indistintos de branco enterrados sob pilhas enormes de neve.
— O que é isto? — falei, gritando para ser ouvido acima do uivo do vento. — Outra fenda?
— Não pode ser! — respondeu Emma, gritando. — Nós já estamos em uma!
Inclinando-nos contra o vento, entramos para olhar mais de perto. Achei que a neve e o vento estivessem entrando por uma janela aberta, mas aí a agitação do ar diminuiu, e percebi que não havia janela nenhuma, nem mesmo uma parede no fundo do quarto. De nossos dois lados erguiam-se paredes cobertas de gelo. Havia um teto, e provavelmente existia um carpete em algum lugar sob nossos pés, mas no local onde deveria haver uma quarta parede, o aposento dava lugar a uma caverna de gelo e, além disso, ao ar livre, a um espaço aberto e a uma vista infinita de neve branca e rochas negras.
Aquilo era, pelo que eu podia compreender, a Sibéria.
Uma trilha solitária escavada na neve seguia através do quarto e pela brancura adiante. Seguimos pelo caminho e saímos do quarto para a caverna, maravilhados com tudo ao redor. Pingentes gigantes de gelo pendiam do teto e se erguiam do chão como uma floresta de árvores brancas.
Emma não se impressionava fácil (ela tinha quase cem anos, vivenciados entre coisas peculiares), mas aquele lugar parecia enchê-la de um verdadeiro assombro.
— É impressionante! — disse ela, se abaixando para pegar um punhado de neve. Ela o jogou em mim, rindo. — Não é impressionante?
— É — falei batendo os dentes. — Mas o que isso está fazendo aqui?
Passamos pelos pingentes de gelo gigantes e emergimos no espaço aberto.
Olhando para trás, não consegui mais ver o quarto; estava perfeitamente camuflado no interior da caverna.
Emma saiu correndo na frente, então se virou e disse, com urgência na voz:
— Por aqui!
Eu caminhei com dificuldade pela neve cada vez mais profunda até chegar a seu lado. A paisagem era bizarra. Diante de nós havia um campo branco e plano, além do qual o solo mergulhava em dobras profundas e onduladas, como fendas de geleiras.
— Não estamos sozinhos — disse Emma, e apontou para um detalhe que eu não percebera: um homem parado na borda de uma fenda na neve, olhando para o fundo.
— O que ele está fazendo? — perguntei, de forma mais ou menos retórica.
— Procurando alguma coisa, aparentemente.
O homem caminhou devagar ao longo da fenda na geleira, sempre olhando para baixo. Após cerca de um minuto, percebi que estava tão frio que eu não conseguia mais sentir o rosto. Uma lufada de vento e neve soprou e apagou a cena.
Quando o vento cessou, um instante depois, o homem estava olhando diretamente para nós.
Emma ficou tensa.
— Ops.
— Você acha que ele nos vê?
Emma olhou para seu vestido amarelo forte.
— Acho.
Ficamos ali parados por um instante, com olhos fixos no homem que nos encarava do outro lado daquela desolação branca, então ele saiu correndo em nossa direção. Estava a centenas de metros de distância em meio a neve profunda e uma paisagem de fissuras onduladas. Não estava claro se ele queria nos fazer mal, mas estávamos em um lugar onde não deveríamos estar, e ir embora parecia a melhor coisa a fazer, uma decisão reforçada por um uivo, do tipo que eu ouvira apenas uma vez, no acampamento dos ciganos.
Um urso.
Uma olhada rápida para trás confirmou: um urso negro gigante tinha subido por uma das fendas no gelo para se juntar ao homem na neve, e os dois estavam vindo atrás de nós, o urso se aproximando muito mais depressa que o homem.
  


— URSO! — gritei, constatando o óbvio.
Tentei correr, mas meus pés congelados se recusaram a cooperar.
Aparentemente imune ao frio, Emma agarrou meu braço e me arrastou.
Recuamos de volta para a caverna, atravessamos o quarto aos tropeções e saímos pela porta, em torno da qual soprava um véu de neve que estava enchendo o corredor. Fechei a porta às nossas costas, como se isso fosse deter um urso, refizemos nossos passos pelo corredor comprido, descemos as escadas e voltamos ao museu morto de Bentham para nos esconder em meio a seus fantasmas cobertos de pano branco.

* * *

Emma e eu nos escondemos atrás de uma parede e de um enorme monólito coberto por lençol no canto mais distante que encontramos, confinando a nós mesmos em um espaço tão estreito que não podíamos nos virar para olhar um para o outro, e o frio do qual corrêramos se estabelecia com firmeza em nossos ossos. Ficamos em silêncio e tremendo, rígidos como manequins, a neve em nossas roupas derretendo em poças aos nossos pés. A mão esquerda de Emma pegou a minha direita, e este era todo o calor e significado que conseguíamos trocar. Estávamos desenvolvendo uma língua que era intraduzível em palavras, um vocabulário especial de gestos, olhares, toques e beijos que ficava mais rico, intenso e complexo a cada hora. Era fascinante e essencial e, em momentos como aquele, me tornava menos frio e me deixava com um pouco menos de medo.
Quando, após alguns minutos, nenhum urso apareceu para nos devorar, ousamos trocar sussurros.
— Aquilo em que estávamos era uma fenda? — perguntei. — Uma fenda dentro de uma fenda?
— Não sei o que era aquilo — respondeu Emma.
— Sibéria. Era o que estava escrito na porta.
— Se aquilo era a Sibéria, então o quarto era uma espécie de portal, não uma fenda. E portais não existem, claro.
— Claro — respondi, apesar de não ser tão estranho acreditar que, em um mundo onde existiam fendas de tempo, houvesse também portais. — E se na verdade fosse apenas uma fenda antiga? — sugeri. — Talvez da Era Glacial, com dez ou quinze mil anos? O Recanto do Demônio devia ser daquele jeito na época.
— Não acho que exista uma fenda tão antiga.
Meus dentes batiam.
— Não consigo parar de tremer — falei.
Emma apertou o corpo contra o meu e esfregou minhas costas com a mão quente.
— Se eu pudesse criar um portal para algum lugar — falei —, a Sibéria não estaria no topo da minha lista de escolhas.
— Para onde você iria, então?
— Hummm... Havaí, talvez? Se bem que talvez isso seja chato. Todo mundo diria o Havaí.
— Eu não.
— Para onde você iria?
— Para o lugar de onde você é — disse Emma. — Flórida.
— Mas por que você iria querer ir para lá?
— Acho que seria interessante conhecer onde você cresceu.
— Isso é carinhoso — falei. — Mas lá não é grande coisa. É bem tranquilo.
Ela apoiou a mão em meu ombro e exalou um hálito cálido sobre meu braço.
— Parece o paraíso.
— Você está com neve no cabelo — falei, mas derreteu quando eu tentei limpar.
Sacudi a água fria da mão para o chão, e nesse momento percebi nossas pegadas. Havíamos deixado uma trilha de neve derretida que provavelmente conduzia direto para nosso esconderijo.
— Que idiotas nós somos — falei, apontando para nossos rastros. — Devíamos ter deixado os sapatos para trás!
— Está tudo bem — disse Emma. — Se não nos encontraram até agora, provavelmente...
Passos barulhentos e pesados ecoaram pela sala, acompanhados do som da respiração de um animal grande.
— De volta para a janela, o mais depressa possível — sussurrou Emma, e nos esgueiramos de nosso esconderijo.
Tentei correr, mas escorreguei em uma poça. Agarrei a coisa mais próxima à mão, que por acaso era o lençol que cobria o objeto grande atrás do qual estávamos escondidos. O lençol rasgou quando puxei, revelando outro mostruário com um sonoro raassssg! e me derrubando no chão em uma pilha de pano amarfanhado.
Quando olhei para cima, a primeira coisa que vi foi uma garota, e não era Emma, que estava de pé ao meu lado. A garota estava no interior do mostruário, por trás do vidro. Ela tinha um rosto perfeitamente angelical, um vestido de babados e um arco no cabelo, e um olhar vidrado, no que parecia a rigidez permanente de um ser humano empalhado.
Eu me apavorei. Emma se virou para ver por que eu estava apavorado, e então ela se apavorou.
Ela me colocou de pé e nós corremos.


* * *

Eu tinha me esquecido completamente do cara nos perseguindo, do urso, da Sibéria. Só queria sair daquela sala, ficar longe da garota empalhada, longe de qualquer possibilidade de que eu e Emma acabássemos como ela, mortos e trancafiados atrás de vidro. Agora eu sabia tudo o que precisava saber sobre aquele sujeito, Bentham. Ele era alguma espécie de colecionador pervertido, e eu tinha certeza de que, se olhássemos por baixo de mais lençóis, encontraríamos mais espécimes como a menina.
Fizemos uma curva correndo só para encontrar, alta à nossa frente, uma montanha aterrorizante de três metros de pelo e garras. Gritamos, tentamos parar de correr, mas era tarde demais, então escorregamos e caímos em uma pilha aos pés do urso. Nós nos encolhemos ali, esperando morrer. Um hálito quente e fedorento passou por nós. Algo úmido e áspero esfregou um lado do meu rosto.
Eu tinha sido lambido por um urso. Eu tinha sido lambido por um urso, e alguém estava rindo.
— Acalmem-se, ele não vai morder! — disse esse alguém, e descobri o rosto para ver um focinho comprido e peludo olhando para mim.
O urso tinha falado? Ursos falam sobre si mesmos na terceira pessoa?
— O nome dele é PT — prosseguiu alguém. — Meu guarda-costas. Ele é bem amigável, desde que você esteja do meu lado. PT, sente-se!
PT se sentou e começou a lamber a pata em vez de meu rosto. Eu girei de frente, limpei a gosma do rosto e finalmente vi o dono da voz. Era um homem de idade, um cavalheiro, com um leve sorriso malicioso que complementava seu traje impecável: cartola, luvas e um colarinho branco alto que se erguia do paletó escuro.
Ele fez uma leve reverência e uma saudação com o chapéu.
— Myron Bentham, a seus serviços.


— Para trás, devagar — sussurrou Emma ao meu ouvido; nos levantamos juntos e caminhamos de lado para fora do alcance do urso. — Não queremos nenhum problema, senhor. Só nos deixe ir e ninguém se machuca.
Bentham estendeu os braços e sorriu.
— Vocês são livres para partir a hora que quiserem. Mas seria uma grande decepção. Vocês acabaram de chegar, e temos muito o que conversar.
— É? — falei. — Talvez possa começar explicando aquela garota ali no mostruário!
— E o Quarto Sibéria! — disse Emma.
— Vocês estão nervosos, com frio e molhados. Não preferem discutir isso bebendo uma xícara de chá quente?
Sim, mas eu não ia dizer isso.
— Não vamos a lugar nenhum com o senhor até sabermos o que está acontecendo aqui — disse Emma.
— Muito bem — retrucou Bentham, sem perder um pingo de seu bom humor. — Foi meu assistente que vocês surpreenderam no Quarto Sibéria. E, como vocês provavelmente notaram, o quarto leva a uma fenda do tempo na Sibéria.
— Mas isso é impossível — disse Emma. — A Sibéria fica a milhares de quilômetros de distância.
— Cinco mil seiscentos e quinze — respondeu ele. — Mas tornar possível a viagem entre fendas é o trabalho da minha vida. — Ele se virou para mim. — Sobre aquele mostruário que você descobriu, é Sophronia Winstead, a primeira criança peculiar nascida na família real da Inglaterra. Teve uma vida fascinante, apesar de um pouco trágica, no fim. Tenho todos os tipos de peculiares notáveis aqui em meu peculiarium, conhecidos e desconhecidos, famosos e infames, todos os quais terei o prazer de lhes mostrar. Não tenho nada a esconder.
— Ele é um psicopata — murmurei para Emma. — Só quer nos empalhar e nos acrescentar à coleção.
Bentham riu. (Sua audição, aparentemente, era muito aguçada.)
— São apenas modelos em cera, meu rapaz — explicou ele. — Sou um colecionador e conservador, sim, mas não de humanos. Acredita mesmo que esperei tanto tempo para conhecer você só para arrancar suas entranhas e o trancar em um mostruário?
— Eu já soube de hobbies mais estranhos — falei, pensando em Enoch e seu exército de homúnculos. — O que quer de nós?
— Tudo a seu tempo — disse ele. — Vamos aquecê-los e secá-los primeiro. Depois, chá. Depois...
— Não quero ser grosseira — interrompeu Emma —, mas já passamos tempo demais aqui. Nossos amigos...
— Por enquanto, eles estão bem — disse Bentham. — Já investiguei a situação e a hora deles não está tão próxima quanto vocês imaginam.
— Como o senhor sabe? — indagou Emma. — O que quer dizer com a hora deles não está tão...
— O que o senhor quer dizer com investigou? — falei ao mesmo tempo.
— Tudo a seu tempo — repetiu Bentham. — Sei que é difícil, mas vocês precisam ser pacientes. Há muita coisa a contar, e vocês estão em uma condição lastimável. — Ele estendeu um braço em nossa direção. — Vejam, estão tremendo.
— Então está bem — falei. — Vamos tomar chá.
— Excelente! — exclamou Bentham, e bateu com a bengala duas vezes no chão. — PT, venha cá!
O urso rosnou de um jeito agradável, ficou de pé nas patas traseiras e caminhou, se balançando como uma pessoa gorda de pernas curtas e grossas, até Bentham. Ao chegar lá, o animal abaixou-se e o levantou no ar, carregando-o como um bebê, uma pata sustentando suas costas, e a outra, suas pernas.
— Sei que é uma maneira inusitada de viajar — disse Bentham por cima do ombro peludo de PT —, mas eu me canso com facilidade. — Ele apontou para a frente com a bengala e disse: — PT, biblioteca.
Emma e eu observamos pasmos quando PT saiu andando com o sr. Bentham no colo.
Isso não é algo que se vê todo dia, pensei. O que era verdade em relação a praticamente tudo o que eu tinha visto naquele dia.
— PT, pare! — ordenou Bentham.
O urso parou. Bentham acenou para nós.
— Vocês vêm?
Nós estávamos parados, olhando fixamente.
— Desculpe — disse Emma, e corremos para alcançá-los.

* * *

Seguimos pelo labirinto atrás de Bentham e seu urso.
— Seu urso é peculiar? — perguntei.
— Sim, é um urxinim — respondeu Bentham, acariciando com ternura o ombro de PT. — Eles são a companhia preferida das ymbrynes na Rússia e na Finlândia, e domar urxinins é uma arte antiga e respeitada entre os peculiares de lá. Têm força para enfrentar um etéreo, mas ao mesmo tempo são afáveis o suficiente para cuidar de uma criança; são mais quentes que cobertores elétricos em noites frias e são guarda-costas assustadores, como vocês vão ver aqui... PT, esquerda!
Enquanto Bentham exaltava as virtudes dos urxinins, chegamos a uma pequena antessala. Sob uma abóbada de vidro no centro do ambiente havia três mulheres e, atrás delas, um urso gigante de aspecto sinistro. Levei um susto até me dar conta de que estavam imóveis: mais um dos expositores de Bentham.
— Esta é a srta. Waxwing, a srta. Troupial e a srta. Grebe* — disse Bentham.
— E seu urxinim, Alexi.
O urxinim, após uma olhada mais atenta, parecia estar protegendo as ymbrynes de cera. As senhoras posavam calmamente em torno do animal enquanto ele se erguia nas patas traseiras, congelado em pleno urro enquanto golpeava um inimigo com a pata. Sua outra pata repousava quase delicadamente sobre o ombro de uma das ymbrynes, e os dedos dela estavam segurando uma de suas garras compridas, como se para demonstrar seu domínio descontraído sobre uma criatura tão temível.


* Em português, respectivamente: “tagarela-europeu”, “corrupião” e “mergulhão”. (N. da E.)


— Alexi era tio-avô de PT — disse Bentham. — Diga olá para seu tio, PT!
PT grunhiu.
— Ah, se você pudesse fazer isso com etéreos — sussurrou Emma para mim.
— Quanto tempo leva para se treinar um urxinim? — perguntei a Bentham.
— Anos. Urxinins são naturalmente muito independentes.
— Anos — murmurei para Emma.
Emma revirou os olhos.
— E Alexis é feito de cera também? — perguntou ela a Bentham.
— Ah, não, ele é empalhado.
Aparentemente, a aversão de Bentham a empalhar pessoas peculiares não se estendia a animais peculiares. Se Addison estivesse ali, pensei, certamente teríamos problemas.
Senti um calafrio. Emma passou a mão quente em minhas costas. Bentham também percebeu.
— Perdoem-me! Tenho tão poucas visitas que não consigo deixar de exibir minha coleção quando elas aparecem. Agora, não paro de prometer chá, e chá nós teremos!
Bentham apontou a bengala, e PT voltou a caminhar. Saímos das salas de armazenamento de artefatos cobertos por lençóis e os seguimos por outras partes da casa. Em muitos aspectos, era a casa média de um homem rico: havia um hall de entrada com colunas de mármore, uma sala de jantar formal com tapeçarias nas paredes e mesa com lugar para dezenas de pessoas, salas cujo único objetivo parecia ser exibir móveis dispostos com bom gosto. Mas em cada aposento, junto com todo o resto, sempre havia alguns objetos da coleção peculiar de Bentham.
— Espanha, século XV — disse ele, apontando para uma armadura reluzente erguida em um corredor. — Eu a mandei fazer novinha. Cai em mim como uma luva!
Finalmente chegamos à biblioteca, a mais bonita que eu já vira. Bentham mandou que PT o pusesse no chão, limpou o pelo do paletó e nos convidou a entrar. O salão tinha três andares de pé-direito, no mínimo, com prateleiras que se erguiam a alturas estonteantes. Uma série de escadarias, passarelas e escadas deslizantes tinha sido construída para alcançá-las.
— Confesso que não li todos — disse Bentham. — Mas estou trabalhando nisso.
Ele nos conduziu na direção de um batalhão de sofás que cercavam uma lareira flamejante cujo calor enchia o aposento. Sharon e Nim aguardavam junto ao fogo.
— Chamar a mim de “grosseirão que não merece confiança”! — chiou Sharon, mas, antes que ele me repreendesse mais, Bentham o mandou nos buscar cobertores. Estávamos sob a proteção das boas graças do mestre, e as reclamações de Sharon teriam que esperar.
Em menos de um minuto, estávamos sentados em um sofá e enrolados em cobertores. Nim movimentava-se à nossa volta preparando chá em bandejas douradas, e PT, enroscado diante do fogo, entrava rapidamente em um estado de hibernação. Tentei resistir à sensação e à satisfação aconchegante que começava a baixar sobre mim e me concentrar em nossos negócios inacabados — as grandes perguntas e os problemas aparentemente insolúveis. Nossos amigos e ymbrynes. A tarefa absurda e desesperada que tínhamos imposto a nós mesmos. Era o bastante para me esmagar, se pensasse em tudo ao mesmo tempo. Então pedi a Nim três torrões de açúcar e leite suficiente para deixar o chá branco, em seguida o bebi em três goles e pedi mais.
Sharon tinha recuado para um canto, onde podia demonstrar seu aborrecimento mas ainda escutar nossa conversa.
Emma estava ansiosa para dispensar as formalidades.
— Então — disse ela —, podemos conversar agora?
Bentham a ignorou. Ele estava sentado à nossa frente, mas olhando fixamente para mim, com um sorrisinho muito estranho.
— O que foi? — perguntei, limpando uma gota de chá do queixo.
— É inacreditável — retrucou ele. — Você é a imagem cuspida e escarrada.
— De quem?
— Seu avô, é claro.
Baixei minha xícara de chá.
— O senhor o conheceu?
— Conheci. Ele foi meu amigo, há muito tempo, quando eu precisei muito de um.
Olhei para Emma. Ela ficara um pouco pálida e estava apertando a xícara.
— Ele morreu há alguns meses — falei.
— É. Eu fiquei muito triste quando soube — disse Bentham. — E, para ser honesto, fiquei surpreso, por ele ter durado tanto quanto durou. Eu achava que ele havia sido morto anos atrás. Ele tinha muitos inimigos, mas era extremamente talentoso, seu avô.
— Qual era exatamente a natureza de sua amizade? — quis saber Emma, com o tom de uma interrogadora da polícia.
— E você deve ser Emma Bloom — disse Bentham, finalmente olhando para ela. — Já ouvi falar muito sobre você.
Ela pareceu surpresa.
— Ouviu?
— Ah, sim. Abraham gostava muito de você.
— Isso é novidade para mim — disse ela, corando.
— Você é ainda mais bonita do que ele dizia.
Ela cerrou os dentes.
— Obrigada. Como o senhor o conheceu?
O sorriso de Bentham feneceu.
— Direto aos negócios, então.
— Se não se importar.
— Nem um pouco — disse ele, apesar de sua atitude ter esfriado alguns graus. — Bem, vocês me perguntaram sobre o Quarto Sibéria, e sei, srta. Bloom, que não ficou satisfeita com a resposta que dei.
— Sim, mas estou... nós estamos mais interessados no avô de Jacob e em saber por que o senhor nos trouxe aqui.
— Os dois estão relacionados, prometo. O quarto, e esta casa em geral, é o lugar por onde começar.
— Está bem — falei. — Conte-nos sobre a casa.
Bentham respirou fundo, juntou os dedos e os levou aos lábios por um instante, pensando. Então, ele disse:
— Esta casa está cheia de artefatos valiosíssimos que eu trouxe de uma vida de expedições, mas nenhum é mais valioso que a própria casa. É uma máquina, um equipamento que eu mesmo inventei. Eu a chamo de Polifendador.
— O sr. Bentham é um gênio — disse Nim, depositando um prato de sanduíches à nossa frente. — Servido, sr. Bentham?
Bentham o dispensou com um aceno.
— Mas nem isso é exatamente o essencial — prosseguiu ele. — Minha história começa muito antes da construção desta casa, quando eu era um rapaz da sua idade, Jacob. Meu irmão e eu nos considerávamos exploradores. Olhávamos para os mapas de Perplexus Anomalous e sonhávamos visitar todas as fendas que ele descobrira. Descobrir novas e visitá-las não apenas uma vez, mas várias. Assim, esperávamos tornar o mundo peculiar grandioso outra vez. — Ele se inclinou para a frente. — Vocês entendem o que quero dizer?
Franzi a testa.
— Torná-lo grandioso... com mapas?
— Não, não apenas com mapas. Pergunte a si mesmo: o que nos torna fracos, como um povo?
— Acólitos? — sugeriu Emma.
— Antes mesmo que eles existissem — insistiu Bentham.
— Perseguição por normais?
— Não. Isso é apenas um sintoma de nossa fraqueza. O que nos torna fracos é a geografia. Há, por minhas estimativas grosseiras, cerca de dez mil peculiares hoje no mundo. Sabemos disso como sabemos que deve haver outros planetas no universo que abrigam vida inteligente. É matematicamente obrigatório. — Ele sorriu e bebeu seu chá. — Agora imaginem dez mil peculiares, todos com talentos incríveis, todos no mesmo lugar e unidos por uma causa comum. Eles seriam um poder a ser respeitado, não?
— Imagino que sim — disse Emma.
— Com toda a certeza, sim — disse Bentham. — Mas estamos divididos pela geografia em centenas de subunidades fracas (dez peculiares aqui, doze ali), porque é extraordinariamente difícil viajar de uma fenda no Outback australiano, por exemplo, até uma fenda no Chifre da África. Não há apenas os perigos inerentes dos normais e do mundo natural a levar em conta, mas os perigos de envelhecer rapidamente durante uma viagem longa. A tirania da geografia impossibilita todas as visitas a fendas distantes, excetuando as mais apressadas, mesmo nesta era moderna de viagens aéreas.
Ele fez uma pausa por um instante antes de prosseguir, varrendo a sala com o olhar.
— Então agora imaginem que houvesse uma ligação entre aquela fenda na Austrália e a da África. De repente, essas duas populações poderiam desenvolver uma relação. Fazer negócios uma com a outra. Aprender uma com a outra. Se juntar para defender uma à outra em tempos de crise. Surgem todos os tipos de possibilidades excitantes que antes eram impossíveis. E, gradualmente, quanto mais dessas conexões fossem feitas, o mundo peculiar seria transformado de uma coleção de tribos distantes escondidas dentro de fendas isoladas em uma nação poderosa, unida e forte.
Bentham fora se animando ao falar, e nesse último trecho levantara as mãos e abrira os dedos, como se tentasse agarrar uma barra de exercícios invisível.
— Por isso a máquina? — arrisquei.
— Por isso a máquina — disse ele, baixando as mãos. — Nós estávamos procurando, meu irmão e eu, um modo mais fácil de explorar o mundo peculiar e, em vez disso, nos deparamos com um modo de uni-lo. O Polifendador deveria ser a salvação de nosso povo, uma invenção que mudaria para sempre a natureza da sociedade peculiar. Ele funciona assim: você começa aqui, na casa, com o transportador, que é uma parte pequena da máquina. Cabe na mão — disse ele, espalmando a própria mão. — Você sai com ele de casa, sai da fenda e cruza o presente até outra fenda, que pode ser do outro lado do mundo ou na aldeia vizinha. E quando você volta para cá, o transportador recolheu e trouxe a assinatura da outra fenda, uma espécie de DNA, que pode ser usada para produzir uma segunda entrada para ela, aqui, no interior desta casa.
— Naquele corredor do andar de cima — disse Emma. — Com todas as portas e plaquinhas.
— Exatamente — disse Bentham. — Cada quarto daqueles é a entrada de uma fenda que meu irmão e eu, ao longo de muitos anos, coletamos e trouxemos para cá. Com o Polifendador, a árdua jornada inicial do primeiro contato tem que ser feita apenas uma vez, e cada viagem de volta depois disso é instantânea.
— Como instalar linhas de telégrafo — disse Emma.
— Isso mesmo. E dessa forma, teoricamente, a casa se torna um repositório de todas as fendas em toda parte.
Fiquei pensando naquilo. Em como tinha sido difícil chegar à fenda da srta. Peregrine da primeira vez. E se, em vez de ter que ir até aquela ilhota na costa do País de Gales, eu pudesse ter entrado na fenda da srta. Peregrine do meu armário em Englewood? Eu podia ter vivido as duas vidas, em casa com meus pais, e ali, com meus amigos e Emma.
Só que... Se isso tivesse existido, vovô Portman e Emma nunca precisariam ter se separado. O que foi uma frase tão estranha que me deu um calafrio na espinha.
Bentham parou e tomou um gole de chá.
— Frio — disse ele, e o pôs na mesa.
Emma se desenrolou do cobertor, ficou de pé, foi até a poltrona de Bentham e enfiou a ponta do dedo em seu chá. Em um instante estava fervendo outra vez.
Ele sorriu para ela.
— Fantástico.
Ela retirou o dedo.
— Uma pergunta.
— Aposto que sei o que é — disse Bentham.
— Está bem. O que é?
— Se uma coisa tão maravilhosa existe, por que você não ouviu falar nela até agora?
— É isso — disse Emma, e voltou a se sentar ao meu lado.
— Você nunca ouviu falar nela, ninguém ouviu, devido ao problema infeliz com meu irmão. — A expressão de Bentham se fechou. — A máquina nasceu com a ajuda dele, mas acabou sendo sua desgraça. Na verdade, o Polifendador nunca foi usado como ferramenta para unir nosso povo, como era a intenção, mas exatamente com o objetivo contrário. O problema começou quando percebemos que a tarefa de visitar todas as fendas do mundo para podermos recriar suas entradas aqui era, no mínimo, risível, tão além de nossas habilidades que beirava o delírio. Precisávamos de ajuda, e muita. Por sorte, meu irmão era um sujeito tão carismático e convincente que recrutar toda a ajuda de que precisávamos se revelou fácil. Em pouco tempo tínhamos um pequeno exército de peculiares jovens e idealistas dispostos a arriscar até a vida para nos ajudar a realizar nosso sonho. O que não percebi na época foi que meu irmão tinha um sonho diferente do meu.
Com algum esforço, Bentham se levantou.
— Há uma lenda — continuou ele. — Talvez você a conheça, srta. Bloom. — Batendo com a bengala, ele foi até as estantes e pegou um livro pequeno. — É a história de uma fenda perdida. Uma espécie de mundo do além, onde nossas almas peculiares ficam guardadas depois que morremos.
— Abaton — disse Emma. — Claro, eu já ouvi falar. Mas é só uma lenda.
— Talvez você possa contar a história — disse ele. — Em benefício de nosso amigo neófito.
Bentham voltou claudicando para o sofá e me entregou o livro. Era fino, verde e tão velho que as bordas se desfaziam. Na capa estava impresso Contos peculiares.
— Eu já li isso! — falei. — Uma parte, pelo menos.
— Esta edição tem quase seiscentos anos — disse Bentham. — Foi a última a trazer a história que a srta. Bloom está prestes a contar, pois foi considerada perigosa. Durante algum tempo, contá-la era considerado um crime, e por isso o livro que você tem em mãos é o único volume na história do mundo peculiar a jamais ter sido banido.
Abri o livro. Todas as páginas eram manuscritas em uma caligrafia extremamente ornamentada e precisa, e as margens eram cheias de ilustrações.
— Faz muito tempo que eu não a escuto — disse Emma com hesitação.
— Eu a ajudo enquanto conta — disse Bentham, sentando-se delicadamente no sofá. — Vá em frente.
— Bom — começou Emma —, diz a lenda que, antigamente, milhares e milhares de anos atrás, havia uma fenda especial para onde iam os peculiares quando morriam.
— O céu peculiar — falei.
— Não exatamente. Não ficávamos lá por toda a eternidade, nem nada. Era mais como uma... biblioteca. — Ela parecia insegura sobre a escolha da palavra e olhou para Bentham. — Certo?
— Certo — disse ele, balançando a cabeça afirmativamente. — Era como se as almas dos peculiares fossem algo precioso e com estoque limitado, e seria um desperdício levá-las conosco para o túmulo. Em vez disso, no fim de nossas vidas, devíamos fazer uma peregrinação à biblioteca, onde nossas almas seriam depositadas para serem usadas por outros no futuro. Mesmo em questões espirituais, nós, peculiares, sempre tivemos uma mente frugal.
— A primeira lei da termodinâmica — falei.
Ele olhou para mim sem entender.
— A matéria não pode ser criada nem destruída. Nem almas, nesse caso. — (Às vezes me surpreendo com as coisas que lembro da escola.)
— Imagino que o princípio seja parecido — disse Bentham. — Os antigos acreditavam que havia apenas um determinado número de almas peculiares disponível para a humanidade e que, quando um peculiar nascia, ele ou ela apanhava uma, da mesma forma que eu ou você pegaríamos um livro emprestado na biblioteca. — Ele fez um gesto para as estantes à nossa volta. — Mas quando sua vida, seu prazo de empréstimo, terminava, a alma tinha que ser devolvida. — Bentham gesticulou para Emma: — Por favor, continue.
— Então. Havia essa biblioteca. Eu sempre a imaginei cheia de livros bonitos e reluzentes, cada um contendo a alma de um peculiar. Por milhares de anos as pessoas pegaram almas emprestadas e as devolveram pouco antes de morrer, e estava tudo bem. Então, um dia, alguém descobriu que era possível invadir a biblioteca, mesmo que você não estivesse prestes a morrer. E ele entrou lá e roubou o lugar. Roubou as almas mais poderosas que encontrou e as usou para provocar o caos. — Emma olhou para Bentham. — Certo?
— Os fatos estão corretos, embora a narração seja um pouco sem graça — disse Bentham.
— Usou? — falei. — Como?
— Combinando os poderes delas com o seu próprio — explicou Bentham. — Os guardas da biblioteca acabaram matando o vilão, recuperaram as almas roubadas e acertaram as coisas. Mas o caminho tinha sido descoberto, digamos assim. O conhecimento de que nossa biblioteca podia ser violada se tornou um veneno que se espalhou por nossa sociedade. Quem quer que controlasse a biblioteca poderia dominar todo o mundo peculiar, e em pouco tempo mais almas foram roubadas. Foi o início de um período sombrio, no qual os loucos por poder travavam batalhas épicas uns contra os outros pelo controle de Abaton e da Biblioteca de Almas. Muitas vidas se perderam. A terra ficou arrasada. Fome e doenças reinaram enquanto peculiares com poderes além da imaginação se matavam com enchentes e raios. Foi daí que os normais tiraram suas histórias de deuses lutando pela supremacia no céu. Sua Fúria de Titãs foi nossa batalha pela Biblioteca de Almas.
— Achei que o senhor tivesse dito que a história não era real — falei.
— Estou chegando lá — disse Bentham, então se virou para Nim, que estava parado ali perto. — Você pode ir, Nim. Não precisamos mais de chá.
— Desculpe, senhor, não era minha intenção escutar, mas esta é minha parte favorita.
— Então, sente-se!
Nim se sentou no chão com as pernas cruzadas e apoiou o queixo nas mãos.
— Como eu estava dizendo, por um período curto mas terrível a destruição e a desgraça se abateram sobre nosso povo. O controle da Biblioteca mudou de mãos frequentemente, acompanhado de imenso derramamento de sangue. Então, um dia, isso parou. O autoproclamado rei de Abaton tinha sido morto em batalha, e quem o matara estava a caminho de tomar para si a Biblioteca, mas ele nunca a encontrou. Da noite para o dia, a fenda simplesmente desapareceu.
— Desapareceu? — falei.
— Estava lá um dia e, no dia seguinte, não estava — disse Emma.
— Puf — disse Nim.
— De acordo com a lenda, a Biblioteca de Almas ficava nas colinas da antiga cidade de Abaton. Mas, quando o futuro rei chegou para reclamar seu prêmio, a Biblioteca tinha sumido. Assim como a cidade. Desaparecidas como se jamais tivessem estado ali. Havia apenas um prado verde e plano em seu lugar.
— Isso é loucura — falei.
— Mas isso não é verdade — disse Emma. — É só uma história antiga.
— A lenda da fenda perdida — falei, lendo a página em que o livro estava aberto em minhas mãos.
— Talvez nunca saibamos se Abaton é um lugar real — disse Bentham, os lábios se abrindo em um sorriso de esfinge. — É isso o que faz dele uma lenda. Mas, como boatos de tesouros escondidos, o fato de a história ser uma lenda não impediu pessoas, ao longo dos séculos, de procurar por ele. Dizem que o próprio Perplexus Anomalous dedicou anos à procura da fenda perdida de Abaton, e foi assim que ele começou a descobrir tantas das fendas que aparecem em seus famosos mapas.
— Eu não sabia — disse Emma. — Pelo menos alguma coisa boa saiu disso, então.
— E uma coisa muito ruim — acrescentou Bentham. — Meu irmão também acreditava na história. Por tolice, eu lhe perdoei essa fragilidade e a ignorei, percebendo tarde demais como ela o dominava completamente. Àquela altura, meu carismático irmão convencera nosso pequeno exército de jovens recrutas de que era verdade. Abaton era real. Era possível descobrir a Biblioteca de Almas. Perplexus chegara muito perto, ele lhes dissera, e tudo o que restava fazer era completar seu trabalho. Aí o grande e perigoso poder contido na Biblioteca poderia pertencer a nós. A eles.
“Esperei demais, e essa ideia se tornou um câncer. Eles procuraram muito pela fenda perdida, montando uma expedição após outra, cada fracasso apenas abastecendo seu ardor. O objetivo de unificar o mundo peculiar foi esquecido. Durante todo o tempo, meu irmão se interessara apenas em governá-lo, como os antigos supostos deuses peculiares. E quando tentei desafiá-lo e reconquistar o controle da máquina que eu construíra, ele me acusou de traidor, voltou os outros contra mim e me trancou em uma cela.”
Bentham estava apertando o cabo da bengala como se fosse um pescoço que desejasse torcer, mas então ergueu os olhos, seu rosto tão emaciado quanto uma máscara de morte.
— Talvez a essa altura vocês tenham adivinhado seu nome.
Meus olhos foram imediatamente para Emma. Os dela estavam arregalados como luas. Nós falamos juntos:
— Caul.
Bentham balançou a cabeça afirmativamente.
— O nome verdadeiro dele é Jack.
Emma inclinou-se para a frente.
— Então sua irmã é...
— Minha irmã é Alma Peregrine.

* * *

Ficamos olhando boquiabertos para Bentham. Será que o homem à nossa frente podia mesmo ser irmão da srta. Peregrine? Eu sabia que ela tinha dois, pois os mencionara uma ou duas vezes e até me mostrara uma foto deles de quando crianças. Ela me contou a história, também, de como sua busca por imortalidade os levou ao desastre de 1908 que transformou a eles e a seus seguidores em etéreos e, mais tarde, nos acólitos que conhecíamos e temíamos.
Mas ela jamais mencionara nenhum dos irmãos pelo nome, e sua história tinha pouca semelhança com a que Bentham acabara de expor.
— Se o que diz é verdade — falei —, então o senhor deve ser um acólito.
— O sr. Bentham não é — disse Nim, boquiaberto.
Ele estava pronto para se levantar e defender a honra de seu mestre quando este o deteve com um aceno.
— Está tudo bem, Nim. Eles ouviram apenas a versão de Alma. Mas há furos no que ela sabe.
— Não ouvi o senhor negar — disse Emma.
— Eu não sou um acólito — disse Bentham bruscamente.
Ele também não estava acostumado a ser questionado por tipos como nós, e seu orgulho estava começando a aparecer por baixo do verniz de gentileza.
— Então não se importaria se checássemos — falei. — Só para podermos ter certeza...
— Nem um pouco — disse Bentham.
Ele se levantou apoiado na bengala e manquejou pela terra de ninguém entre nossos sofás. PT levantou a cabeça, preguiçosamente curioso, enquanto Nim deu as costas, com raiva por seu mestre ter que se submeter a humilhações.
Emma e eu nos aproximamos. Ele era surpreendentemente alto, por isso se abaixou um pouco para que não tivéssemos que ficar na ponta dos pés e esperou enquanto examinávamos o branco de seus olhos à procura de lentes de contato ou outro embuste. Suas pupilas estavam terrivelmente injetadas, como se ele não dormisse havia dias, mas, fora isso, nada havia de suspeito.
Nós recuamos.
— Está bem, o senhor não é um acólito — falei. — Mas isso significa que não pode ser o irmão de Caul.
— Infelizmente, o conjunto de hipóteses com o qual vocês estão trabalhando está errado — disse ele. — Fui responsável por meu irmão e seus seguidores se transformarem em etéreos, mas eu mesmo nunca me transformei em um.
— O senhor criou os etéreos? — disse Emma. — Por quê?
Bentham se virou e olhou fixamente para o fogo.
— Foi um erro terrível. Um acidente. — Nós esperamos pela explicação. Pareceu lhe custar um grande esforço desencavar a história de onde ele a havia escondido. — Foi minha culpa deixar as coisas se estenderem por tanto tempo — disse ele severamente. — Eu tentava me convencer de que meu irmão não era tão perigoso quanto parecia. Só quando ele me aprisionou é que percebi como eu estava errado, e aí era tarde demais para agir.
Ele se aproximou do calor do fogo e se ajoelhou para acariciar a barriga grande do urxinim, deixando que os dedos se perdessem nos pelos.
— Eu sabia que Jack precisava ser detido, e não apenas por minha causa, nem por haver qualquer risco de que algum dia encontrasse a Biblioteca de Almas. Não, estava claro que suas ambições tinham crescido para além disso. Ele passou meses transformando nossos recrutas na infantaria de um movimento político perigoso. Ele criou para si a imagem de um oprimido lutando para tirar o controle da sociedade do que ele chamou de a “influência infantilizadora das ymbrynes”.
— As ymbrynes são a razão de nossa sociedade ainda existir — disse Emma, com amargura.
— Sim. Mas, sabe, meu irmão era terrivelmente invejoso. Desde quando éramos pequenos, Jack invejava o poder e o status de nossa irmã. Nossas habilidades inatas eram mínimas em comparação com as dela. Em seu terceiro aniversário, as velhas ymbrynes que cuidavam de nós sabiam que Alma era um grande talento. As pessoas a paparicavam muito, e isso deixava Jack maluco. Quando ela era bebê, ele a beliscava só para vê-la chorar. Quando ela treinava se transformar em ave, ele a perseguia e arrancava suas penas.
Vi uma chama raivosa se formar nos dedos de Emma, que ela apagou em seu chá.
— Com o tempo, só piorou — disse Bentham. — Jack conseguiu canalizar e explorar a mesma inveja venenosa latente em alguns de nossos irmãos peculiares. Ele organizou reuniões e fez discursos, arregimentando descontentes para sua causa. O Recanto do Demônio era terreno fértil, pois muitos dos peculiares daqui eram exilados, alienados pelo matriarcado das ymbrynes e hostis a ele.
— Os Asas de Terracota — disse Emma. — Antes de os acólitos se tornarem acólitos, era assim que chamavam a si mesmos. A srta. Peregrine nos ensinou um pouco sobre eles.
— “Não precisamos das asas delas!”, Jack costumava pregar. “Vamos criar nossas próprias asas!” Ele dizia isso metaforicamente, é claro, mas eles costumavam desfilar usando asas falsas como símbolo de seu movimento. — Bentham se levantou e nos conduziu às estantes de livros. — Olhem aqui. Ainda tenho uma ou duas fotos dessa época. Algumas ele não conseguiu destruir. — Ele pegou um álbum na estante e abriu na foto de uma grande multidão ouvindo um homem falar. — Ah, aqui está Jack fazendo um de seus discursos de ódio.
A multidão, quase exclusivamente homens, usava grandes chapéus duros e estava aglomerada em grande número, se equilibrando sobre caixas e se agarrando no alto de cercas para ouvir o que Caul tinha a dizer.
Bentham virou a página e nos mostrou outra foto: dois rapazes saudáveis de terno e chapéu, um com sorriso franco, o outro, inexpressivo.
— Esse à esquerda sou eu, e Jack é o da direita — disse Bentham. — Jack sorria apenas quando estava tentando conseguir alguma coisa de alguém.
Por fim, ele virou na foto de um garoto com um par de asas parecendo de coruja que se estendiam de seus ombros. O garoto estava sentado em um pedestal e olhava para a câmera com um desprezo silencioso, um olho oculto por trás de seu chapéu inclinado. No pé estava escrito Não precisamos das asas delas.
— Um dos cartazes de recrutamento de Jack — explicou Bentham.
Bentham aproximou a segunda foto e observou o rosto do irmão.
— Sempre houve algo sombrio nele. Algo que eu me recusava a ver. A visão de Alma era mais aguçada, e ela afastou Jack mais cedo. Jack e eu éramos próximos em idade e mentalidade, ou pelo menos era o que eu pensava. Éramos parceiros, cúmplices. Mas ele ocultava a verdadeira personalidade de mim. Eu não o via como era até o dia em que disse: “Jack, você tem que parar com isso.” Então ele me espancou e me jogou em um buraco escuro para morrer. Mas era tarde demais.




Bentham ergueu o rosto. Seus olhos refletiam o brilho do fogo.
— É um grande impacto perceber que você não significa nada para o próprio irmão.
Ele ficou em silêncio por um instante, a mente imersa naquela lembrança horrenda.
— Mas o senhor não morreu — disse Emma. — O senhor os transformou em etéreos.
— Sim.
— Como?
— Eu os enganei.
— Para que se transformassem em monstros horríveis?
— Eu nunca quis transformá-los em monstros. Só queria me livrar deles. — Ele voltou rígido para o sofá e se instalou nas almofadas. — Eu estava faminto, quase morto, quando tive a ideia: a história perfeita com a qual enganar meu irmão. Uma mentira tão antiga quanto a própria humanidade. A fonte da juventude. Com o dedo, eu a desenhei na terra do chão de minha cela: os passos de uma técnica obscura de manipulação de fendas que podia reverter, e eliminar para sempre, os riscos do envelhecimento rápido. Ou era o que parecia. Na verdade, isso era apenas um efeito colateral do que os passos realmente descreviam, que era um procedimento arcano e praticamente esquecido para demolir fendas, rápida e permanentemente, em uma emergência.
Eu visualizei o botão de “autodestruição” de um clichê de ficção científica.
Uma supernova em miniatura; estrelas piscando e se apagando.
— Nunca esperei que meu truque funcionasse tão bem — disse Bentham. — Um membro do movimento cuja simpatia eu conquistara espalhou minha técnica como se fosse sua, e Jack acreditou nela. Ele levou seus seguidores a uma fenda distante para realizar os procedimentos, e lá, eu esperava, eles iriam fechar a porta atrás de si para sempre.
— Mas não foi isso o que aconteceu — disse Emma.
— Foi quando metade da Sibéria explodiu? — perguntei.
— A reação foi tão forte que durou um dia e uma noite — disse Bentham. — Há fotos disso, e das consequências...
Ele apontou para o álbum no chão com a cabeça e esperou enquanto encontrávamos as fotos. Uma delas, tirada à noite em algum matagal nebuloso, tinha uma faixa de fogo na vertical, um jato enorme e distante de energia luminescente que brilhava no céu noturno como uma chuva de prata do tamanho de um arranha-céu. A outra era um vilarejo em ruínas feito de entulho, casas destroçadas e árvores descascadas. Só de olhar para aquilo, eu quase podia ouvir o uivo de um vento solitário; o silêncio palpável de um lugar cuja vida fora repentinamente roubada.



Bentham sacudiu a cabeça.
— Nunca em meus devaneios mais loucos eu imaginei o que sairia rastejando daquela fenda demolida — disse ele. — Por um breve período, as coisas permaneceram quietas. Liberado do confinamento, comecei a me recuperar. Recuperei o controle da minha máquina. Parecia que a idade das trevas do meu irmão tinha chegado a um fim, mas era apenas o começo.
— Foi o início da Guerra dos Etéreos — disse Emma.
— Logo começamos a ouvir histórias sobre criaturas feitas de sombras. Elas estavam emergindo das florestas destruídas para se alimentar de peculiares, e de normais, e de animais, e de qualquer coisa que passasse entre suas mandíbulas.
— Já vi um comer um carro — disse Nim.
— Um carro? — perguntei.
— Eu estava dentro — respondeu ele.
Esperamos que ele explicasse.
— E? — disse Emma.
— Eu escapei — disse ele, dando de ombros. — A barra de direção ficou presa na garganta do etéreo.
— Posso continuar? — disse Bentham.
— É claro, senhor, minhas desculpas.
— Como eu estava dizendo, não havia muita coisa que pudesse deter essas novas abominações, com exceção da velha barra de direção e entradas de fendas. Por sorte, tínhamos muitas dessas. Então lidamos com o problema dos etéreos ficando quietos em nossas fendas, saindo apenas quando não havia opção. Os etéreos não acabaram com nossas vidas, mas as tornaram extremamente mais difíceis, isoladas e perigosas.
— E os acólitos? — perguntei.
— Imagino que ele esteja chegando a isso — disse Emma.
— Estou. Cinco anos depois de encontrar meu primeiro etéreo, encontrei meu primeiro acólito. Bateram em minha porta depois da meia-noite. Eu estava em casa, em segurança no interior da minha fenda, ou ao menos era o que pensava. Quando abri a porta, lá estava meu irmão Jack, um pouco abatido, mas com a mesma aparência de sempre, com exceção dos olhos mortos, que estavam vazios como papel em branco.
Emma e eu, de pernas cruzadas, nos inclinamos na direção de Bentham, atentos a cada palavra. Ele mirou fixamente em um ponto acima de nossas cabeças com olhos assombrados.
— Ele havia consumido peculiares suficientes para encher sua alma de etéreo e se transformar em algo que lembrava meu irmão, mas não era exatamente. O pouco de humanidade ao qual ele se agarrara ao longo dos anos havia desaparecido completamente, se esvaído com a cor de seus olhos. Em relação a um peculiar, um acólito é como a cópia da cópia da cópia do original. Perde-se detalhe, cor...
— E a memória? — perguntei.
— Jack preservou a dele. Uma pena. Do contrário, poderia ter se esquecido de tudo sobre Abaton e a Biblioteca de Almas. E o que eu tinha feito com ele.
— Como ele descobriu que foi você? — perguntou Emma.
— Resultado de intuição de irmão. Por fim, um dia, quando não tinha nada melhor para fazer, ele me torturou até que confessei. — Bentham apontou para as pernas com a cabeça. — Nunca consegui me recuperar completamente, como vocês podem ver.
— Mas ele não matou o senhor — falei.
— Acólitos são criaturas pragmáticas, e vingança não é um grande motivador — disse Bentham. — Jack estava mais obcecado que nunca em encontrar Abaton, mas, para fazer isso, precisava da minha máquina, e de mim, para operá-la. Eu me tornei seu prisioneiro e seu escravo, e o Recanto do Demônio, o quartel-general secreto de um contingente pequeno mas influente de acólitos dedicados a encontrar e abrir a entrada da Biblioteca de Almas. Que é, vocês devem ter percebido a essa altura, o grande objetivo deles.
— Achei que eles quisessem recriar a reação que os transformou em etéreos — falei. — Só que maior e melhor. “Fazer certo dessa vez” — falei, fazendo aspas no ar.
Bentham franziu o cenho.
— Onde você ouviu isso?
— Um acólito nos disse pouco antes de morrer — disse Emma. — Ele disse que era por isso que precisavam de todas as ymbrynes. Para tornar a reação mais poderosa.
— Isso não faz nenhum sentido — disse Bentham. — Provavelmente apenas uma história falsa para colocar vocês na pista errada. Embora seja possível que o acólito que contou essa mentira acreditasse nela. Só o círculo mais íntimo de Jack sabe da busca por Abaton.
— Mas se eles não precisam das ymbrynes para sua reação, por que se dar ao trabalho de raptá-las? — perguntei.
— Porque a fenda perdida de Abaton não está apenas perdida — disse Bentham. — Segundo a lenda, antes de se perder, ela também foi trancada por ymbrynes. Doze delas, para ser exato, que se reuniram de doze cantos distantes do mundo peculiar. Para tornar a abrir Abaton, se você conseguir encontrá-la, seriam necessárias as mesmas doze ymbrynes, ou suas sucessoras. Então não é surpresa que meu irmão tenha sequestrado exatamente doze ymbrynes, que ele passou muitos anos caçando e localizando.
— Eu sabia — falei. — Tinha que ser algo mais que apenas recriar a reação que os transformou em etéreos.
— Então ele encontrou — disse Emma. — Caul não teria entrado em ação e raptado as ymbrynes se não soubesse onde fica Abaton.
— Achei que você tivesse dito que era uma lenda — falei. — Agora está falando como se fosse real. Qual das duas opções?
— A posição oficial do Conselho de Ymbrynes é que a Biblioteca de Almas não passa de uma história — disse Bentham.
— Não ligo para o que diz o Conselho — disse Emma. — O que você diz?
— Minhas opiniões são muito pessoais — respondeu ele evasivamente. — Mas se a Biblioteca for real e Jack conseguir abri-la, ele ainda não vai conseguir roubar suas almas. Ele não sabe, mas precisa de um terceiro elemento, uma terceira chave.
— E qual é? — perguntei.
— Ninguém pode pegar os vasos de almas. Para quase todo mundo, eles seriam invisíveis e intangíveis. Nem as ymbrynes podem tocá-los. Nas histórias, só adeptos especiais, chamados bibliotecários, conseguem vê-los e manuseá-los, e há mil anos não nasce um bibliotecário. Se a Biblioteca existe, Jack vai encontrar apenas estantes vazias.
— Bom, isso é um alívio — falei.
— Sim e não — disse Emma. — O que ele vai fazer quando descobrir que as ymbrynes, que passou tanto tempo caçando, não lhe servem de nada? Vai ficar furioso!
— É isso o que mais me preocupa — disse Bentham. — Jack tem um gênio ruim, e quando o sonho que ele acalenta há tanto tempo morrer...
Tentei imaginar o que isso representava (todas as torturas de que um homem como Caul seria capaz), mas minha mente afastou a ideia. Aparentemente, os mesmos horrores tinham sido transmitidos a Emma, porque o que ela disse em seguida foi duro e carregado de raiva:
— Nós vamos resgatá-las.
— Temos um objetivo em comum — disse Bentham. — Destruir meu irmão e seus semelhantes, e salvar minha irmã e as dela. Juntos, creio que podemos fazer os dois.
Naquele momento, ele pareceu tão pequeno, afundado no sofá enorme com a bengala apoiada nas pernas raquíticas, que eu quase ri.
— Como? — perguntei, incrédulo. — Precisaríamos de um exército.
— Incorreto — retrucou ele. — Os acólitos poderiam repelir com facilidade um exército. Por sorte, temos algo ainda melhor do que isso. — Ele olhou para Emma e para mim, os lábios se curvando em um sorriso. — Temos vocês dois. E, para sua sorte, vocês têm a mim. — Bentham se apoiou na bengala e se levantou devagar. — Precisamos botar vocês dois dentro da fortaleza.
— Ela parece bem impenetrável — falei.
— Porque é, dentro dos padrões normais — respondeu Bentham. — Nos anos em que o Recanto do Demônio era uma fenda de prisão, ela foi projetada para deter o pior do pior. Depois que os acólitos voltaram para cá, eles a adotaram como lar, e o que tinha sido uma prisão à prova de fugas se tornou sua fortaleza impenetrável.
— Mas o senhor sabe como entrar — sugeriu Emma.
— Talvez, se vocês puderem me ajudar — disse Bentham. — Quando Jack e seus acólitos vieram, eles roubaram o coração do Polifendador. Eles me forçaram a quebrar minha própria máquina, copiar suas fendas e recriá-las no interior de sua fortaleza para que pudessem continuar seu trabalho em um local mais protegido.
— Então existe... outro Polifendador? — falei.
Bentham assentiu.
— O meu é o original, e o deles é a cópia. Os dois estão ligados e há portais em ambos que levam um ao outro.
Emma se endireitou no assento.
— Quer dizer que podemos usar sua máquina para entrar na deles?
— Correto.
— Então por que o senhor não fez isso? — indaguei. — Por que não fez isso há anos?
— Jack quebrou minha máquina de maneira tão definitiva que eu achei que ela jamais poderia ser consertada — disse Bentham. — Por anos, apenas um quarto permaneceu funcional: o que leva à Sibéria. Mas, apesar de termos buscado com insistência, não encontramos uma passagem por lá para a máquina de Jack.
Lembrei-me do homem que víramos observando o interior da fenda na geleira, à procura, aparentemente, de uma porta afundada na neve.
— Precisamos abrir outras portas, outros quartos — disse Bentham. — Mas, para fazer isso, preciso de uma reposição adequada para a peça que Jack roubou, o dínamo no coração do meu Polifendador. Desconfiava fazia muito tempo de que haveria algo que talvez funcione, uma coisa muito poderosa e perigosa que, apesar de existir bem aqui no Recanto do Demônio, nunca me tinha sido possível obter. Até agora.
Ele se virou para mim.
— Meu garoto, eu preciso que você me traga um etéreo.

* * *

Concordei, é claro. Naquele momento, eu teria dito sim a qualquer coisa se achasse que pudesse ajudar a libertar nossos amigos. Entretanto, só depois de dizer isso e de Bentham ter fechado a mão em torno da minha é que me ocorreu que eu não tinha ideia de onde conseguir um etéreo. Eu tinha certeza de que havia muitos no interior da fortaleza dos acólitos, mas já havíamos determinado que não havia como entrar lá. Foi quando Sharon saiu das sombras que estavam crescendo nos cantos da sala e nos deu uma boa notícia.
— Lembram-se de seu amigo que foi esmagado por uma ponte que caiu? Na verdade, ele não está totalmente morto. Eles o tiraram do Valão há algumas horas.
— Eles? — falei.
— Os piratas. Eles o acorrentaram e o puseram em uma jaula no fim da Rua do Lodo. Soube que está provocando um tumulto e tanto.
— É isso, então — disse Emma, ficando tensa de tão empolgada. — Vamos roubar o etéreo e trazê-lo para cá, reiniciar a máquina do sr. Bentham, abrir uma porta para dentro da fortaleza dos acólitos e trazer nossos amigos de volta.
— Simples! — disse Sharon, e deu uma risada. — Exceto pela última parte.
— E a primeira — falei.
Emma parou perto de mim.
— Desculpe, amor. Eu ofereci seus serviços sem perguntar. Você acha que consegue lidar com esse etéreo?
Eu não tinha certeza. Era verdade que eu conseguira fazê-lo executar alguns movimentos espetaculares no Valão da Febre, mas controlá-lo como se fosse um filhote e conduzi-lo por todo o caminho até a casa de Bentham era pedir muito de minhas habilidades rudimentares. Minha confiança, também, estava baixa como nunca depois de meu último encontro desastroso. Mas tudo dependia de eu ser capaz de fazer isso.
— Claro que consigo — demorei demais para dizer. — Quando podemos ir?
Bentham bateu palmas.
— É esse o espírito!
O olhar de Emma permaneceu em meu rosto. Ela percebia que eu estava fingindo.
— Podem partir assim que estiver pronto — disse Bentham. — Sharon vai ser seu guia.
— Não podemos esperar — disse Sharon. — Depois que os locais se divertirem com aquele etéreo, acho que vão matá-lo.
Emma ergueu a frente do vestido de babados.
— Nesse caso, acho que devíamos trocar de roupa.
— É claro — disse ele, e mandou que Nim fosse nos buscar roupas mais adequadas para nossa tarefa.
Ele retornou um minuto depois, trazendo botas de solado grosso e calças e jaquetas de trabalho modernas: pretas, impermeáveis e com tecido meio elástico.
Fomos para quartos separados nos trocar e em seguida nos encontramos no corredor, apenas Emma e eu em nossas roupas de aventura. Grosseiras e sem forma, elas deixavam Emma com aparência levemente masculinizada (apesar de não de um jeito ruim), mas ela não reclamou. Apenas amarrou o cabelo para trás, ergueu a cabeça em posição de sentido e me fez continência.
— Sargento Bloom se apresentando para o serviço.
— O soldado mais bonito que eu já vi — falei, fazendo uma imitação terrível de Jon Wayne.
Havia uma correlação direta entre meu nível de nervosismo e a quantidade de piadas idiotas que eu fazia. E naquele momento eu estava praticamente tremendo, meu estômago uma torneira vazando e pingando ácido por todas as minhas entranhas.
— Acha mesmo que podemos fazer isso? — falei.
— Acho.
— Você nunca duvida, não é?
Emma sacudiu a cabeça.
— A dúvida é como um furo de alfinete em um bote de borracha.
Ela se aproximou, e nos abraçamos. Senti seu corpo tremendo muito de leve. Ela não era à prova de balas. Eu sabia que minha fé vacilante em mim mesmo estava começando a abrir um buraco na dela, e a confiança de Emma era o que mantinha tudo unido. Era o bote salva-vidas.
Eu passara a ver sua confiança em mim como algo irresponsável. Para ela, parecia que era só eu estalar os dedos para fazer etéreos dançarem. Como se eu estivesse permitindo alguma fraqueza interna bloquear minha habilidade. Parte de mim se ressentia disso, e parte de mim se perguntava se talvez ela estivesse certa.
A única maneira de descobrir era se aproximar do etéreo com uma crença inabalável de que eu podia dominá-lo.
— Eu gostaria de me ver como você vê — sussurrei.
Ela me abraçou mais apertado, e eu decidi tentar.
Sharon e Bentham chegaram ao corredor.
— Prontos? — perguntou Sharon.
Nós nos soltamos.
— Prontos — falei.
Bentham apertou minha mão, depois a de Emma.
— Estou muito feliz que estejam aqui — disse ele. — É prova, acho, de que as estrelas estão começando a se alinhar a nosso favor.
— Espero — disse Emma.
Estávamos prestes a sair quando me veio à mente uma pergunta que eu queria fazer o tempo todo, e me ocorreu que, no pior dos casos, aquela poderia ser minha última chance de perguntar.
— Sr. Bentham, não conversamos sobre meu avô. Como o senhor o conheceu? Por que estava procurando por ele?
As sobrancelhas de Bentham se ergueram abruptamente e ele deu um sorriso rápido, como se quisesse encobrir o momento de surpresa.
— Estava com saudade dele, só isso — disse. — Éramos velhos amigos, e esperava tornar a vê-lo um dia.
Eu sabia que essa não era toda a verdade e via que Emma também sabia disso, mas não havia tempo para investigar mais a fundo. Naquele momento, o futuro era uma preocupação muito maior que o passado.
Bentham ergueu a mão para se despedir.
— Cuidado lá fora — disse ele. — Estarei aqui, preparando meu Polifendador para o retorno triunfante da missão. — Em seguida, voltou mancando até sua biblioteca, e o ouvimos gritar para o urxinim: — PT, levante-se! Temos trabalho a fazer!
Sharon nos conduziu por um corredor comprido, balançando o cajado de madeira e batendo os pés enormes e descalços no chão de pedra. Quando chegamos à porta que dava para a rua, ele parou, abaixou-se para ficar de nossa altura e expôs suas regras básicas.
— É perigoso aonde vamos. Restam pouquíssimas crianças peculiares sem dono no Recanto do Demônio, por isso as pessoas vão notar vocês. Não falem a menos que se dirijam a vocês. Não olhem ninguém nos olhos. Sigam-me a uma pequena distância, mas nunca me percam de vista. Vamos fingir que vocês são meus escravos.
— O quê? — disse Emma. — Não vamos, não.
— É o mais seguro a fazer — disse Sharon.
— É humilhante!
— É, mas vai levantar menos suspeitas.
— Como fazemos isso? — perguntei.
— Façam apenas o que eu disser, imediatamente e sem questionar. E mantenham uma expressão levemente vidrada.
— Sim, mestre — falei roboticamente.
— Não assim — disse Emma. — Ele quer que a gente imite as crianças daquele lugar horrível da Rua da Depravação.
Relaxei o rosto e disse com voz inexpressiva:
— Olá, somos todos muito felizes aqui.
Emma estremeceu e virou o rosto.
— Muito bom — disse Sharon, e depois olhou para Emma. — Agora, você.
— Se somos obrigados a isso — disse ela —, vou fingir ser muda.
Isso bastava para Sharon. Ele abriu a porta e nos botou para fora no fim de tarde.

Um comentário:

  1. Esse livro é demais .sempre me surpreendo ,me alegro e me desespero

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Boa leitura :)