10 de abril de 2017

Capítulo quatro


Addison caminhava sobre as quatro patas e com o focinho empinado, enquanto a fera humana chamada Grunt corria à nossa volta como um filhote doido. De trás de moitas e de cabanas aqui e acolá, víamos rostos de todos os tamanhos e formatos nos espiando — a maioria peluda. Quando chegamos ao meio do platô, o cão se ergueu sobre as patas traseiras e anunciou bem alto:
— Não tenham medo, camaradas! Venham conhecer as crianças que eliminaram nosso visitante indesejado!
Um a um, os animais bizarros se aventuraram em um desfile em campo aberto. Addison os apresentou conforme se aproximavam. A primeira criatura parecia a metade superior de uma minigirafa costurada à metade inferior de um jumento. Andava de um jeito esquisito, apoiada nas duas patas traseiras, que na verdade eram seus únicos membros.
— Esta é Deirdre — declarou Addison. — Ela é uma jumirafa, mistura de jumento com girafa, só que com menos patas e bastante rabugenta. Não sabe perder em jogos de cartas — acrescentou, em um sussurro. — Nunca jogue cartas com uma jumirafa. Diga olá, Deirdre!
— Adeus! — disse Deirdre, com os grandes lábios de cavalo repuxados em um sorriso dentuço. — Que dia horrível! É um desprazer enorme conhecer vocês! — Ela então riu, em um misto de zurro e relincho agudo, e completou: — Brincadeira!
— Deirdre se acha muito engraçada — explicou Addison.
— Se você tem a parte de cima de girafa e a de baixo de jumento, por que não se chama de “giramento”? — perguntou Olive.
Deirdre franziu o cenho e respondeu:
— Mas que nome horrível! “Jumirafa” desliza pela língua, não acha?
Ela pôs para fora uma língua gorda e rosada com quase um metro de comprimento e, com a pontinha, empurrou a tiara de Olive. A menina deu um gritinho e correu para se esconder atrás de Bronwyn, dando uma risadinha.
— Todos os animais daqui falam? — perguntei.
— Só eu e a Deirdre — respondeu Addison. — O que é ótimo. As galinhas não conseguem ficar quietas um minuto, mesmo sem conseguir pronunciar uma única palavra! — Justo nesse momento, galinhas cacarejantes saíram de um galinheiro queimado e abandonado e foram correndo até nós, um bando muito atrapalhado. — Ah! Lá vêm elas.
— O que aconteceu com o galinheiro? — perguntou Emma.
— Sempre que tentamos consertá-los, elas queimam tudo de novo — respondeu o cão. — É um aborrecimento. — Addison virou o rosto e apontou com a cabeça na direção oposta. — Talvez seja melhor vocês irem um pouco para trás. Quando elas ficam agitadas...
BANG! Um barulho parecido com o da explosão de dinamite fez todos nós pularmos de susto, e as últimas tábuas que restavam do galinheiro se despedaçaram e voaram pelos ares.
— ... os ovos explodem — concluiu o cão.
A fumaça baixou, mas vimos que as galinhas ainda iam na nossa direção, ilesas e aparentemente indiferentes à explosão. Uma pequena nuvem de penas flutuava ao redor delas como flocos de neve gordos.
Enoch ficou de queixo caído.
— Quer dizer que essas galinhas botam ovos explosivos?! — indagou.
— Só quando estão agitadas — explicou Addison. — A maioria dos ovos não oferece perigo algum. E são deliciosos! Mas foram os explosivos o que rendeu a elas um nome um tanto indelicado: galinhas do Armagedom.
— Fiquem longe! — gritou Emma para as galinhas que se aproximavam. — Vocês vão explodir a gente!
Addison riu.
— Elas são meigas e inofensivas, eu garanto, e só botam ovos se estiverem dentro do galinheiro. — As galinhas cacarejavam, felizes, ao redor dos nossos pés. — Viram? — completou o cão. — Elas gostaram de vocês!
— Isso aqui parece um hospício! — exclamou Horace.
Deirdre riu.
— Calma, meu pombinho. A fauna é sempre assim.
Em seguida, Addison nos apresentou a alguns animais cujas peculiaridades eram mais sutis, entre eles uma coruja silenciosa mas muito atenta, que nos observava de um galho, e um grupo de camundongos que desapareciam e reapareceriam sem que percebêssemos, como se passassem metade do tempo em uma realidade paralela. Havia também um bode com chifres compridos e olhos negros e profundos, órfão de um rebanho de uma espécie de bodes peculiares que antigamente habitavam a floresta próxima.
Quando todos os animais estavam reunidos, Addison gritou:
— Três vivas para os matadores de etéreos!
Deirdre zurrou, o bode bateu com as patas no chão, a coruja piou, as galinhas cacarejaram e Grunt grunhiu de satisfação. Enquanto tudo isso se passava, Bronwyn e Emma não paravam de trocar olhares. A mais forte olhou para baixo, para seu casaco, onde a srta. Peregrine estava escondida, e depois ergueu as sobrancelhas para Emma, como se perguntando: Agora? Emma balançou a cabeça em resposta: Não, ainda não.
Bronwyn deixou Claire deitada em uma faixa de grama à sombra de uma árvore. A menina suava, tremia e já perdera a consciência várias vezes.
— Já vi a srta. Wren preparar um elixir especial para tratar de febre — sugeriu Addison. — O gosto é horrível, mas funciona.
— Minha mãe sempre fazia canja de galinha quando eu estava doente — comentei.
As galinhas cacarejaram, assustadas, e Addison lançou um olhar zangado para mim.
— Ele falou de brincadeira! — exclamou. — Foi só brincadeira. Que piada absurda, há há há! É invenção, isso de canja de galinha!
Com a ajuda de Grunt, que tinha polegares opositores, Addison e a jumirafa foram preparar o elixir. Voltaram em pouco tempo com uma tigela cheia de um líquido que parecia água suja. Depois que Claire bebeu tudo e voltou a dormir, os animais nos ofereceram um pequeno banquete: cestas de pão fresco e maçãs e ovos cozidos — os não explosivos! —, tudo servido direto em nossas mãos, pois não tinham pratos nem talheres. Eu não havia me dado conta de como estava com fome até devorar três ovos e um pão inteiro em menos de cinco minutos.
Quando terminei, arrotei, limpei a boca e ergui os olhos, notando que todos os animais nos observavam com muito interesse, o rosto tão vivo e inteligente que fiquei um pouco tonto e tive que lutar contra uma sensação avassaladora de que estava sonhando.
Eu me virei para Millard, que comia ao meu lado, e perguntei:
— Você já tinha ouvido falar em animais peculiares?
— Só em histórias infantis — respondeu ele, com a boca cheia de pão. — É muito estranho ter sido justamente uma dessas histórias que nos trouxe até eles.



Apenas Olive não parecia perturbada com aquilo tudo, talvez porque ainda fosse muito nova (de certa forma, pelo menos). Assim, a distância entre as histórias e a realidade provavelmente não parecia tão grande.
— Onde estão os outros bichos? — perguntou Olive a Addison. — Na história de Cuthbert, tinha urxinins pernaltas e linces de duas cabeças.
O humor exultante dos animais perdeu o vigor na mesma hora. Grunt escondeu o rosto nas mãos grandes, e Deirdre soltou um gemido relinchado.
— Não perguntem, não perguntem — disse ela, baixando a cabeça.
Mas era tarde demais.
— Essas crianças nos ajudaram — interveio Addison. — Elas merecem ouvir nossa história triste, se quiserem.
— Se vocês não se incomodarem de nos contar... — disse Emma.
— Adoro histórias tristes — declarou Enoch. — Principalmente aquelas em que a princesa é devorada pelo dragão e todo mundo morre no final.
Addison pigarreou.
— Nosso caso está mais para o dragão ter sido devorado pela princesa — explicou. — Os últimos anos têm sido difíceis para criaturas como nós, e antes disso já tínhamos passado por alguns séculos difíceis. — O cachorro começou a andar de um lado para o outro e sua voz assumiu o tom solene de um pregador religioso. — Muito tempo atrás, este mundo era cheio de animais peculiares. Na era Aldinn, havia na Terra mais animais peculiares do que pessoas peculiares. E de todas as formas e tamanhos que se pode imaginar: baleias que voavam como pássaros, minhocas grandes como casas e até cães duas vezes mais inteligentes que eu, se é que dá para acreditar nisso. Alguns tinham reinos inteiros governados por líderes animais. — Uma centelha brilhou no fundo dos olhos do cão, quase imperceptível, como se ele tivesse idade suficiente para se lembrar do mundo que descrevia. Então ele deu um suspiro profundo, a fagulha se apagando, e prosseguiu: — Hoje, nossos números não são nem uma fração do que eram. Estamos praticamente extintos. Algum de vocês sabe o que aconteceu com os animais peculiares que já andaram pela Terra?
Mastigamos em silêncio, envergonhados por não saber.
— Muito bem — continuou ele. — Venham comigo e vou lhes mostrar.
O cão saiu trotando sob o sol. Instantes depois, olhou para trás, esperando que o seguíssemos.
— Por favor, Addie — interveio a jumirafa. — Agora não. Nossos convidados estão comendo!
— Eles pediram, então eu vou contar — retrucou Addison. — O pão vai estar no mesmo lugar daqui a alguns minutos!
Relutantes, abandonamos a comida e o seguimos. Fiona ficou para trás, cuidando de Claire, que ainda dormia, mas Grunt e a jumirafa foram trotando atrás de nós. Atravessamos o platô até o pequeno bosque que crescia na outra extremidade. Seguimos, com passos ruidosos, por uma trilha sinuosa de cascalho que avançava por entre as árvores, rumo a uma clareira. Pouco antes de chegarmos lá, Addison disse:
— Permitam-me apresentá-los aos mais distintos animais peculiares que já existiram!
As árvores davam espaço a um pequeno cemitério cheio de fileiras organizadas de lápides brancas.


— Ah, não! — ouvi Bronwyn dizer.
— Aqui deve haver mais animais peculiares enterrados do que os que hoje habitam toda a Europa — comentou Addison, passando entre os túmulos até chegar a uma determinada lápide, na qual se apoiou com as patas dianteiras. — O nome desta era Pompey. Uma bela cadela capaz de curar feridas com algumas lambidas. Uma maravilha de se ver! Apesar disso, foi assim que a trataram. — Addison estalou a língua e Grunt correu até ele carregando um livrinho nas mãos, que o cão me entregou. Era um álbum aberto na foto de um cão preso a uma pequena carroça como se fosse uma mula ou um cavalo. — Ela foi escravizada por gente do circo — explicou Addison. — Obrigada a puxar crianças gordas e mimadas como uma besta de carga comum, e até era açoitada com chicotes de montaria! — Os olhos dele brilhavam de raiva. — Quando a srta. Wren a resgatou, Pompey parecia prestes a morrer de depressão. Depois que chegou, resistiu por apenas algumas semanas. Foi enterrada aqui.
Passei o livro para os outros. Todos que viram a foto suspiraram e balançaram a cabeça em desalento ou murmuraram palavras amargas para si mesmos.


Addison foi até outro túmulo.
— Ca’ab Magda foi ainda mais espetacular — comentou. — Uma gnu com dezoito chifres que percorria as fendas temporais da Mongólia Exterior. Era assustadora! O chão trovejava sob seus cascos quando ela corria! Dizem que marchou com Aníbal quando ele cruzou os Alpes, em 218 a.C. Alguns anos atrás, um caçador a acertou.


Grunt nos mostrou a foto de uma mulher mais velha que parecia ter acabado de sair de um safári na África. Estava sentada em uma cadeira bizarra enfeitada com chifres.
— Não entendi — disse Emma, examinando a foto. — Onde está Ca’ab Magda?
— Essa senhora está sentada em cima dela — explicou Addison. — O caçador transformou os chifres de Magda em uma cadeira.
Emma quase deixou o álbum cair.
— Que coisa horrível!
— Se essa cadeira é ela — começou Enoch, dando um tapinha na foto —, o que está enterrado aqui?
— A cadeira — respondeu Addison. — Um desperdício lamentável de uma vida peculiar.
— Este cemitério está cheio de histórias como a de Magda — prosseguiu o cão. — A srta. Wren queria que o lugar onde vivemos fosse uma arca, um refúgio, mas aos poucos se transformou em um túmulo.
— Como todas as outras fendas temporais — retrucou Enoch. — Como a própria peculiaridade. Um experimento fracassado.
— “Este lugar está morrendo”, dizia a srta. Wren. — Addison afinou a voz, imitando-a: — “E eu não passo de uma supervisora desse extenso funeral!” — Os olhos de Addison brilharam ao se lembrar da ymbryne, mas logo o brilho se foi. — Ela era muito teatral.
— Por favor, não se refira a nossa ymbryne no passado — pediu Deirdre.
— É — respondeu ele. — Desculpe. Ela é muito teatral.
— Eles caçaram vocês — comentou Emma, a voz vacilante devido à emoção. — Empalharam seus corpos e os colocaram em zoológicos.
— Igualzinho ao que os caçadores fizeram na história de Cuthbert — completou Olive.
— É — respondeu Addison. — Algumas verdades soam melhor em forma de mito.
— Mas não existiu nenhum Cuthbert — continuou Olive, começando a entender. — Nenhum gigante. Só uma ave.
— Uma ave muito especial — completou Deirdre.
— E vocês estão preocupados com ela — falei.
— É claro que estamos — retrucou Addison. — Pelo que sei, a srta. Wren é a única ymbryne que ainda não foi capturada. Quando ela soube que as irmãs sequestradas tinham sido levadas para Londres em segredo, saiu voando para ajudá-las, sem nem pensar na própria segurança.
— Nem na nossa — murmurou Deirdre.
— Londres? — indagou Emma. — Tem certeza de que foi para lá que levaram as ymbrynes sequestradas?
— Absoluta — respondeu o cão. — A srta. Wren tem espiões na cidade, um bando de pombas peculiares que observam tudo e contam para ela. Recentemente, várias vieram até aqui em estado de extrema aflição. Tinham informações seguras de que as ymbrynes estavam, como ainda estão, presas em fendas de punição.
Várias crianças se assustaram, mas eu não fazia ideia do que era aquilo.
— O que é uma fenda de punição? — perguntei.
— São fendas temporais criadas para prender acólitos capturados, criminosos irrecuperáveis e loucos perigosos — explicou Millard. — Não têm nada a ver com as fendas que conhecemos. São lugares horríveis, horríveis.
— E elas agora estão sob o controle dos acólitos e, sem dúvida, de seus etéreos — completou Addison.
— Meu Deus! — exclamou Horace. — Então é pior do que imaginávamos!
— Isso é piada, não é? — perguntou Enoch. — É exatamente o tipo de coisa que eu temia.
— Seja qual for o objetivo nefasto dos acólitos — interveio Addison —, está claro que eles precisam de todas as ymbrynes para realizá-lo. Agora só resta a srta. Wren... a corajosa e imprudente srta. Wren... sabe-se lá até quando!
Então ele soltou um ganido, como fazem alguns cães durante tempestades com trovões, jogando as orelhas para trás e abaixando a cabeça.

* * *

Voltamos para a sombra da árvore e terminamos de comer. Quando estávamos cheios e não aguentávamos dar mais nem uma mordida, Bronwyn se virou para Addison:
— Sabe, sr. Cão, nem tudo é tão desesperador quanto você diz.
A menina olhou para Emma e ergueu as sobrancelhas. Dessa vez, Emma assentiu.
— É mesmo? — retrucou Addison.
— É. Na verdade, tenho algo aqui que talvez possa animá-los.
— Duvido muito disso — murmurou o cão, mas mesmo assim levantou a cabeça para ver o que era.
Bronwyn abriu o casaco.
— Gostaria de apresentar a penúltima ymbryne não capturada, a srta. Alma Peregrine.
A ave pôs a cabeça para fora, banhando-a de sol, e piscou.
Foi a vez de os animais ficarem pasmos. Deirdre levou um susto, Grunt guinchou e bateu palmas, e as galinhas bateram as asas inúteis.
— Mas soubemos que a fenda de vocês tinha sido atacada! — exclamou Addison. — Que a ymbryne foi raptada!
— E foi — respondeu Emma, orgulhosa. — Mas nós a recuperamos!
— Nesse caso — disse Addison, fazendo uma reverência para a srta. Peregrine —, é um prazer extraordinário, madame. Estou a seu dispor. Se precisar de um lugar onde se transformar, terei o maior prazer em conduzi-la aos aposentos particulares da srta. Wren.
— Ela não pode se transformar — explicou Bronwyn.
— Como assim? — indagou Addison. — Ela é tímida?
— Não — respondeu Bronwyn. — Está presa.
O cachimbo caiu da boca de Addison.
— Ah, não — murmurou ele. — Vocês têm certeza?
— Está assim há dois dias — respondeu Emma. — Acho que já teria se transformado, se pudesse.
Addison sacudiu a cabeça para tirar os óculos do rosto e examinou a ave com olhos arregalados de preocupação.
— Posso examiná-la? — perguntou.
— Ele é um dr. Dolittle bem razoável — explicou a jumirafa. — Addie cuida de todos nós quando estamos doentes.
Bronwyn tirou a srta. Peregrine do casaco e a pôs no chão.
— Só tome cuidado com a asa machucada — disse ela.
— É claro — respondeu Addison, e começou a andar em círculos ao redor da ave, devagar, observando-a de todos os ângulos. Depois, cheirou a cabeça e as asas da srta. Peregrine com o focinho grande e molhado. — Me contem o que aconteceu com ela — pediu, por fim. — Quero saber quando e como. Contem tudo.
Emma contou toda a história: como a srta. Peregrine fora sequestrada por Golan, como quase se afogara na gaiola, no mar, e como a havíamos resgatado de um submarino pilotado por acólitos. Os animais escutaram tudo fascinados.
No fim, o cão parou para organizar os pensamentos e deu seu diagnóstico:
— Ela foi envenenada. Tenho certeza. Está afetada por alguma coisa que a mantém artificialmente na forma de ave.
— Sério? — indagou Emma. — Como é que você sabe?
— Raptar e transportar ymbrynes é um negócio perigoso quando elas estão na forma humana e podem fazer seus truques de parar o tempo. Entretanto, seus poderes são muito limitados na forma de ave. Assim, a tutora fica compacta, mais fácil de esconder... uma ameaça muito menor. — Ele olhou para a srta. Peregrine. — O acólito que a pegou borrifou algo na senhora? — perguntou. — Algum líquido ou gás?
Como resposta, a srta. Peregrine mexeu a cabeça de uma forma que parecia uma confirmação.
Bronwyn levou um susto.
— Ah, senhora, eu sinto tanto! Não fazíamos a menor ideia.
Senti uma pontada de culpa. Eu levara os acólitos até a ilha. Era por minha causa que aquilo tinha acontecido com a srta. Peregrine. Eu fizera com que as crianças peculiares perdessem seu lar; pelo menos em parte. A vergonha se alojou na minha garganta como uma pedra.
— Mas ela vai melhorar, não vai? — perguntei. — Ela vai voltar ao normal?
— A asa vai ficar boa — respondeu Addison —, mas, sem ajuda, não vai voltar à forma humana.
— De que tipo de ajuda ela precisa? — perguntou Emma. — Você pode ajudá-la?
— Apenas outra ymbryne pode ajudá-la. E o tempo está acabando.
Fiquei tenso. Isso era novidade.
— Como assim? — indagou Emma.
— Detesto dar más notícias — começou Addison —, mas dois dias é um período muito longo para uma ymbryne ficar presa desse jeito. Quanto mais tempo ela passar como ave, mais sua parte humana vai se perder: a memória, a fala, tudo o que a fazia ser quem era. Até que, por fim, ela não será mais uma ymbryne. Será apenas uma ave, para todo o sempre.
Imaginei a srta. Peregrine deitada em uma maca em um pronto-socorro, cercada por médicos, em parada respiratória. Cada segundo que passava provocava mais um dano irreversível em seu cérebro.
— Quanto tempo? — perguntou Millard. — Quanto tempo ela tem?
Addison semicerrou os olhos e balançou a cabeça.
— Dois dias, se ela for forte.
Sussurros e exclamações de espanto percorreram o grupo. Todos nós empalidecemos.
— Tem certeza? — indagou Emma. — Certeza total e absoluta?
— Já vi isso acontecer. — Addison foi até a corujinha empoleirada em um galho próximo. — Olivia era uma ymbryne jovem que sofreu um acidente gravíssimo durante o treinamento. Eles a trouxeram para cá cinco dias depois. A srta. Wren e eu fizemos todo o possível para transformá-la de volta, mas já não havia mais jeito. Isso foi há dez anos. Ela está assim desde então.
A coruja nos observava em silêncio. Não havia mais vida nela além da de um animal. Era possível ver isso na passividade de seus olhos.
Emma se levantou. Parecia prestes a dizer algo. Torci para que fosse um comentário animador, um discurso inspirador para nos pôr em movimento, mas ela parecia não conseguir colocar as palavras para fora. Contendo um soluço, saiu andando e se afastou de nós.
Eu a chamei, mas Emma não parou. Os outros apenas a observaram se afastar, atordoados pela terrível notícia. Também estavam atônitos por notar um sinal de fraqueza ou indecisão em Emma, por menor que fosse. Ela mantivera a força diante de tudo aquilo por tanto tempo que passamos a achar normal, mas não era à prova de balas. Podia ser peculiar, mas também era humana.
— É melhor ir atrás dela, sr. Jacob — disse Bronwyn. — Não podemos ficar aqui por muito tempo.

* * *

Quando alcancei Emma, ela estava parada à beira do planalto, olhando para a paisagem silvestre abaixo, para as suaves colinas verdes que desciam até uma planície distante. Ela me ouviu chegar, mas não se virou.
Eu me aproximei e tentei pensar em algo reconfortante para dizer.
— Sei que você está com medo e... e três dias não parecem muito tempo, mas...
Dois dias — corrigiu ela. — Dois dias, talvez. — O lábio de Emma tremeu. — E isso nem é o pior.
Não entendi.
— Como as coisas poderiam estar piores?
Ela estava travando uma batalha contra as lágrimas, mas naquele instante, depois de um golpe repentino, fora derrotada. Emma se jogou no chão e chorou, arrasada por um turbilhão. Eu me ajoelhei, a abracei e fiquei ali com ela.
— Me desculpe — pediu Emma, e repetiu isso mais três vezes, com a voz fraca, apenas um fiapo do que era. — Você não deveria ter ficado. Eu não deveria ter deixado. Mas fui egoísta... tão egoísta!
— Não diga isso. Eu estou aqui. Estou aqui e não vou a lugar nenhum.
Isso só a fez chorar ainda mais. Aproximei os lábios de sua testa e a beijei até que a tempestade que se abatia sobre ela começou a passar, e seu choro foi se reduzindo a lamúrias.
— Por favor, fale comigo — pedi. — Me diga qual é o problema.
Um minuto depois, Emma se sentou, esfregou os olhos e tentou se recompor.
— Eu esperava nunca ter que lhe dizer isso — explicou. — Que não importaria. Lembra quando eu lhe disse, na noite em que você decidiu vir com a gente, que talvez você nunca mais conseguisse voltar para casa?
— Claro que lembro.
— Eu não sabia até agora como isso era verdade. Acho que condenei você, Jacob, meu doce amigo, a uma vida curta, aprisionado em um mundo que está morrendo. — Trêmula, ela tomou fôlego e prosseguiu: — Você chegou até nós pela fenda da srta. Peregrine, e isso significa que só ela ou a fenda dela pode mandá-lo de volta. Mas aquela fenda não existe mais, ou pelo menos vai deixar de existir em breve. Agora, a própria srta. Peregrine seria seu único meio de voltar para casa. Só que, se ela nunca mais voltar à forma humana...
Engoli em seco, sentindo um nó na garganta.
— Então vou ficar preso no passado.
— Isso. E a única forma de voltar para a época que você conhecia como sua é esperar, dia após dia, ano após ano.
Setenta anos. Meus pais e todo mundo que eu conhecia e de quem gostava estariam mortos, e, para todos eles, eu já estaria morto há muito tempo. É claro que, desde que eu sobrevivesse a quaisquer tribulações que estivéssemos prestes a encarar, poderia ir encontrar meus pais dali a algumas décadas, assim que eles nascessem... mas para quê? Eles seriam crianças, seriam estranhos para mim.
Eu me perguntei quando os pais que eu conheci desistiriam de me encontrar com vida. Que história contariam a si mesmos para explicar meu desaparecimento? Diriam que fugi? Que enlouqueci? Que me joguei de um penhasco?
Será que fariam um funeral para mim? Comprariam um caixão? Escreveriam meu nome em uma lápide?
Eu me tornaria um mistério que eles jamais resolveriam. Uma ferida nunca cicatrizada.
— Me desculpe — repetiu Emma. — Se eu soubesse que a situação da srta. Peregrine era tão séria, juro que nunca teria pedido para você ficar. O presente não significa nada para nós. Acabaríamos mortos se ficássemos lá tempo demais! Mas você... você ainda tem família, uma vida...
— Não! — gritei, dando um tapa no chão para espantar a sensação de autocomiseração que começara a turvar minha mente. — Não vamos discutir isso. Eu escolhi ficar.
Emma pôs a mão na minha e disse, com brandura:
— Se o que os animais disseram é verdade e todas as ymbrynes foram sequestradas, em breve não teremos mais onde ficar. — Ela pegou um pouco de terra na mão e espalhou ao vento. — Sem ymbrynes para mantê-las, as fendas temporais vão se desmantelar. Os acólitos vão usar as ymbrynes para recriar aquela maldita experiência, e 1908 vai se repetir mais uma vez. Ou eles fracassam e transformam toda a criação em uma cratera fumegante, ou são bem-sucedidos e se tornam imortais, e aí seremos governados por aqueles monstros. De qualquer forma, em pouco tempo estaremos mais extintos que os animais peculiares! E fui eu que arrastei você para essa confusão sem saída... e para quê?
— Tudo acontece por uma razão — respondi.
Eu não conseguia acreditar que essas palavras tinham saído da minha boca, mas, assim que as pronunciei, senti a verdade delas ressoar em meu corpo como um sino.
Eu estava ali por um motivo. Havia algo que eu precisava fazer, não apenas ser; e não era fugir ou me esconder, muito menos desistir no instante em que as coisas começassem a parecer aterrorizantes e impossíveis.
— Achei que você não acreditasse em destino — comentou Emma, cética, testando minha vontade.
Eu não acreditava, não exatamente, mas não sabia explicar no que eu acreditava. Eu me lembrei das histórias que meu avô contava. Eram cheias de maravilhas e aventuras, mas havia também algo mais profundo, um sentimento perene de gratidão. Quando criança, eu me concentrava nas descrições que vovô fazia de uma ilha que parecia mágica e de crianças peculiares com poderes fantásticos, mas, no fundo, suas histórias eram sobre a srta. Peregrine e sobre como, em uma época de grande necessidade, ela o ajudara. Quando chegou ao País de Gales, meu avô era um garoto assustado que não falava a língua local, um garoto assombrado por dois tipos de monstro: o que acabaria matando a maior parte de sua família, e outro, grotesco como um monstro de desenho animado e invisível para todos exceto para ele, que devia parecer saído diretamente de seus pesadelos. Diante de tudo isso, a srta. Peregrine o escondera, oferecendo-lhe um lar e ajudando-o a descobrir quem ele realmente era — aquela ymbryne salvara sua vida, possibilitando, assim, a vida de meu pai e, por extensão, a minha. Meus pais me tiveram, me criaram e me amaram, e por isso eu tinha uma dívida para com eles. Só que eu sequer teria nascido não fosse a bondade altruísta que a srta. Peregrine demonstrara para com meu avô. Eu estava começando a acreditar que fora enviado até ali para pagar aquela dívida: a minha, a de meu pai e a de meu avô.
Fiz o possível para explicar:
— Não tem a ver com destino. Acho que existe um equilíbrio no mundo, e às vezes forças que não compreendemos intervêm, botando mais peso no lado certo da balança. A srta. Peregrine salvou meu avô, e eu estou aqui para ajudar a salvá-la.
Emma assentiu lentamente. Eu não sabia se ela concordava comigo ou se estava pensando em uma forma educada de dizer que eu estava louco.
Então ela me abraçou.
Eu não precisava explicar mais nada. Emma entendia.
Também devia a vida à srta. Peregrine.
— Temos três dias — falei. — Vamos para Londres. Lá, a gente liberta uma das ymbrynes e cura a srta. Peregrine. Não é um caso perdido. Vamos salvá-la, Emma, ou vamos morrer tentando. — As palavras soaram tão corajosas e decididas que por um instante eu duvidei que tivessem saído da minha boca.
Emma me surpreendeu com uma risada, como se aquilo tivesse soado engraçado, depois desviou o olhar por um instante. Quando voltou a me encarar, seu rosto estava firme e seus olhos brilhavam. Sua confiança estava voltando.
— Às vezes não sei se você é completamente louco ou uma espécie de milagre — declarou ela. — Estou começando a acreditar na segunda opção.
Emma me abraçou novamente, e ficamos unidos assim por um bom tempo. Com a cabeça dela apoiada em meu ombro, eu sentia seu hálito quente no meu pescoço, e de repente não queria mais nada além de eliminar a distância entre nossos corpos e nos unir em apenas um ser. Mas ela se afastou, beijou minha testa e foi andando de volta em direção aos outros. Eu estava atônito demais para segui-la naquele momento, porque algo novo estava acontecendo. Uma espécie de roda dentro de meu coração, algo que eu nunca percebera que existia, estava girando tão depressa que me deixava tonto. Quanto mais Emma se afastava, mais depressa a roda girava, como se houvesse um cordão invisível se desenrolando, esticando-se entre nós dois; e como se, caso Emma avançasse rápido demais, esse cordão fosse se arrebentar — o que me mataria.
Fiquei me perguntando se aquela dor estranha e doce era amor.

* * *

Os outros estavam amontoados à sombra da árvore, crianças e animais juntos. Emma e eu fomos na direção deles. Tive o impulso de segurar a mão dela e quase o fiz, mas me ocorreu algo que me fez mudar de ideia. De repente, percebi — quando Enoch se virou para nos encarar com aquela desconfiança que sempre reservava para mim, mas que estava cada vez mais voltada para nós dois — que Emma e eu estávamos nos tornando uma unidade separada dos outros, uma aliança particular, com nossos próprios segredos e promessas.
Bronwyn se levantou quando nos aproximamos.
— Você está bem, srta. Bloom?
— Estou, estou — respondeu ela, mais do que depressa. — Só entrou um cisco no meu olho. Bem, todo mundo precisa pegar suas coisas. Temos que ir para Londres agora mesmo para resolver como fazer a srta. Peregrine voltar ao normal!
— Estamos muito empolgados por vocês concordarem com isso — comentou Enoch, revirando os olhos. — Chegamos à mesma conclusão há vários minutos, enquanto os dois estavam lá cochichando no canto.
Emma corou, mas se recusou a cair na provocação. Nossas preocupações eram mais graves do que aqueles pequenos conflitos. Por exemplo, os muitos perigos exóticos da jornada que estávamos prestes a iniciar.
— Tenho certeza de que todos têm consciência de como este plano é ruim, em quase todos os aspectos, e com poucas chances de sucesso — declarou Emma.
Ela expôs alguns dos motivos. Em primeiro lugar, Londres ficava longe; talvez não pelos padrões atuais, quando podemos usar um GPS para encontrar a estação de trem mais próxima e pegar um expresso que nos deixaria no centro da cidade em poucas horas, mas em 1940, em uma Grã-Bretanha conturbada pela guerra, Londres ficava a um mundo de distância. As estradas e trens podiam estar lotados de refugiados, arruinados por bombas ou monopolizados por comboios militares, e qualquer uma dessas perturbações poderia nos custar um tempo precioso para a srta. Peregrine. Pior: seríamos caçados ainda mais ferrenhamente do que antes, agora que quase todas as outras ymbrynes haviam sido capturadas.
— Esqueçam a viagem! — retrucou Addison. — Essa é a menor das suas preocupações! Talvez eu não tenha sido dissuasivo o suficiente quando discutimos o assunto hoje mais cedo. Talvez vocês não tenham entendido bem as circunstâncias do encarceramento das ymbrynes. — Ele pronunciava cada sílaba como se tivéssemos problemas auditivos. — Nenhum de vocês leu sobre as fendas de punição nos livros de história dos peculiares?
— Claro que já — respondeu Emma.
— Então sabem que tentar invadi-las é suicídio. São armadilhas mortais, todas elas, que contêm os episódios mais sangrentos da história de Londres: o Grande Incêndio de 1666; o letal cerco viking de 842; o auge pestilento da Grande Peste! Não se publicam mapas temporais desses lugares por motivos óbvios. Portanto, a menos que um de vocês tenha conhecimento prático das partes mais secretas do mundo peculiar...
— Sou um estudioso das fendas obscuras e desagradáveis — interveio Millard. — É um hobby que tenho há anos e que muito estimo.
— Que ótimo para você — retrucou Addison. — Então imagino que tenham um meio de passar pela horda de etéreos guardando as entradas das fendas!
De repente, parecia que os olhos de todos estavam sobre mim. Engoli em seco e, de cabeça erguida, respondi:
— É, na verdade, temos.
— É melhor mesmo — resmungou Enoch.
Então Bronwyn declarou:
— Eu acredito em você, Jacob. Não o conheço há muito tempo, mas sinto que conheço seu coração, e ele é forte e verdadeiro: um coração peculiar. Eu confio em você. — Ela se encostou em mim e passou o braço por cima do meu ombro.
Senti a garganta apertar.
— Obrigado — respondi, me sentindo pequeno e incapaz diante da grande emoção de Bronwyn.
O cão estalou a língua.
— Isso é loucura. Vocês, crianças, não têm o menor instinto de autopreservação. É um milagre que ainda estejam respirando.
Emma entrou na frente de Addison e tentou fazê-lo se calar.
— É, um milagre — retrucou. — Obrigada por nos iluminar com sua opinião. Agora, deixando de lado as previsões catastróficas, preciso perguntar ao restante do grupo: alguma objeção ao que estamos sugerindo? Não quero que ninguém vá só por se sentir pressionado.
Devagar e timidamente, Horace levantou a mão.
— Se Londres é onde estão todos os acólitos, ir para lá não é o mesmo que caminhar direto para as mãos deles? Isso é mesmo uma boa ideia?
— É uma ideia genial — respondeu Enoch, irritado. — Os acólitos estão convencidos de que nós, crianças peculiares, somos dóceis e fracas. Irmos atrás deles deve ser a última coisa que estão esperando.
— E se nosso plano der errado? — indagou Horace. — Teremos entregado a srta. Peregrine nas mãos deles!
— Nós não sabemos disso — disse Hugh. — Não temos certeza se Londres está nas mãos deles.
Enoch escarneceu:
— Não tente melhorar as coisas. Se eles conseguiram abrir as fendas de prisão e as estão usando para encarcerar as ymbrynes, pode apostar que já tomaram o restante da cidade. O lugar vai estar repleto deles, escutem o que eu digo. Se não fosse assim, os acólitos nunca teriam se dado ao trabalho de vir atrás de nós na pequena e velha Cairnholm. É estratégia militar básica. Na batalha, não se ataca primeiro o dedo mindinho do inimigo, é preciso apunhalar direto no coração!
— Por favor — gemeu Horace —, chega dessa conversa de destruir fendas e apunhalar corações. Você vai assustar os mais novos!
— Eu não estou com medo — interveio Olive.
Horace se encolheu. Alguém murmurou a palavra covarde.
— Nada disso! — disse Emma. — Não há nada errado em ter medo. Significa que a pessoa está levando tudo isso muito a sério. Porque, sim, vai ser perigoso. Sim, as chances de sucesso são mínimas. E apenas chegar a Londres não é garantia de que conseguiremos sequer encontrar as ymbrynes, muito menos resgatar alguma delas. É totalmente provável que a gente acabe apodrecendo em uma cela dos acólitos ou se dissolvendo no estômago de um etéreo. Todo mundo entendeu isso?
Todos assentiram gravemente.
— Estou sendo bem realista, certo, Enoch?
O menino assentiu.
— Se tentarmos — prosseguiu Emma —, podemos até perder a srta. Peregrine, isso é incontestável, mas se não tentarmos, se não formos até lá, com certeza vamos perdê-la, e os acólitos muito provavelmente vão nos pegar de qualquer jeito! Dito isso, se algum de vocês achar que não tem coragem nem força para nos acompanhar nessa empreitada, pode ficar para trás. — Ela estava se referindo a Horace, todos sabíamos disso. O menino olhava fixamente para um ponto no chão. — Pode ficar num lugar seguro e viremos buscá-lo depois, quando não tiver mais problemas. Não há vergonha alguma nisso.
— Meu ventrículo esquerdo! — exclamou Horace. — Eu nunca poderia ficar de fora dessa!
Até Claire se recusou a ser deixada para trás.
— Acabei de viver oitenta anos de dias agradavelmente entediantes — declarou, apoiando-se em um cotovelo, na área sombreada onde dormia. — Ficar aqui enquanto vocês saem em uma aventura? Sem chance!
Mas, ao tentar se levantar, viu que não conseguia e se deitou de novo, tossindo e se sentindo zonza. Apesar de o líquido de aspecto sujo que bebera ter baixado um pouco a febre, Claire não tinha condições de fazer a viagem para Londres; nem naquele dia ou no seguinte, certamente não a tempo de ajudar a srta. Peregrine. Alguém teria que ficar com ela enquanto se recuperava.
Emma pediu um voluntário para essa tarefa. Olive levantou a mão, mas Bronwyn a dispensou: era nova demais. Bronwyn ia se oferecer, mas mudou de ideia. Estava dividida, explicou, entre a vontade de proteger Claire e seu senso de dever para com a srta. Peregrine.
Enoch cutucou Horace com o cotovelo.
— Qual é o seu problema? — provocou. — Essa é sua grande chance de ficar para trás!
— Eu quero ir nessa aventura, quero mesmo. Mas também gostaria de chegar a meu centésimo quinto aniversário, se fosse possível. Vocês prometem que não vamos tentar salvar a droga do mundo inteiro?
— Só queremos salvar a srta. Peregrine — respondeu Emma. — Mas não posso garantir o aniversário de ninguém.
Aparentemente se dando por satisfeito, Horace manteve as mãos junto às laterais do corpo.
— Mais alguém? — indagou Emma, olhando ao redor.
— Não tem problema, eu posso ficar sozinha — disse Claire.
— Isso está fora de questão — retrucou Emma. — Os peculiares ajudam uns aos outros.
Fiona ergueu o braço. Estava tão quieta que eu quase havia esquecido sua presença ali conosco.
— Fi, você não pode! — disse Hugh.
Ele parecia magoado, como se, ao se oferecer para ficar, ela o estivesse rejeitando. Fiona o encarou com grandes olhos tristes, mas sua mão permaneceu erguida.
— Obrigada, Fiona — disse Emma. — Se tivermos sorte, veremos as duas de novo daqui a alguns dias.
— Se as aves quiserem — disse Bronwyn.
— Se as aves quiserem — repetiram os outros.

* * *

A tarde dava lugar à noite. Em uma hora estaria escuro na fenda temporal dos animais e seria muito mais perigoso descer a montanha. Enquanto nos preparávamos para partir, os bichos fizeram a gentileza de nos fornecer alimentos frescos e suéteres tecidos com a lã de carneiros peculiares. Deirdre jurou que os suéteres tinham alguma propriedade peculiar, embora não lembrasse exatamente qual.
— Acho que são resistentes ao fogo... ou à água. Isso: nunca afundam na água, são como coletes salva-vidas fofos. Ou talvez... Ah, não sei, mas são quentinhos!
Agradecemos e os guardamos no baú de Bronwyn. Depois, Grunt foi até a frente trotando, segurando um pacote embrulhado em papel e barbante.
— Um presente das galinhas — explicou Deirdre, dando uma piscadela quando Grunt entregou o pacote em minhas mãos. — Não deixe cair.
Uma pessoa mais esperta teria pensado duas vezes antes de levar explosivos na viagem, mas estávamos nos sentindo vulneráveis, e tanto o cão quanto a jumirafa juraram que os ovos não explodiriam se carregados com cuidado.
Então os acomodamos entre os suéteres, no baú de Bronwyn. Pelo menos não estaríamos desarmados ao enfrentar homens com armas.
Estávamos quase prontos, exceto por um problema: quando saíssemos da fenda temporal dos animais, voltaríamos a ficar tão perdidos quanto estávamos ao entrar. Precisávamos de orientação.
— Posso mostrar o caminho para sair da floresta — disse Addison. — Me encontrem no alto da torre da srta. Wren.
O espaço lá em cima era tão pequeno que só cabiam dois de cada vez, por isso fui com Emma, subindo pelos dormentes ferroviários como se fossem os degraus de uma escada gigante. Subindo como um macaco, Grunt levou metade do tempo que nós, mesmo carregando Addison embaixo do braço.
A vista lá do alto era maravilhosa. Na direção leste, colinas cobertas de bosques se estendiam até uma extensa planície aberta. Para o oeste, era possível ver até o oceano, onde um barco de aparência antiquada, equipado com intrincadas velas gigantes, deslizava ao longo da costa. Não cheguei a perguntar que ano era ali (1492? 1750?), mas acho que isso pouco importava para os animais. Aquele era um lugar seguro, afastado do mundo das pessoas, e só no mundo dos humanos é que os anos faziam alguma diferença.
— Vocês vão seguir para o norte — explicou Addison, apontando o cachimbo na direção de uma estrada praticamente invisível que seguia entre as árvores abaixo, como uma linha tênue traçada a lápis. — Ao fim daquela estrada vocês vão encontrar uma cidade, e nessa cidade, pelo menos na época de vocês, há uma estação de trem. Seu ponto médio de viagem entre fendas é que época? 1940?
— Isso mesmo — confirmou Emma.
Apesar de eu entender apenas vagamente o que eles estavam falando, nunca tive medo de fazer perguntas estúpidas.
— Por que não podemos simplesmente sair neste mundo? — perguntei. — Viajar para Londres no ano em que estamos aqui?
— O único jeito é a cavalo e carruagem — explicou Addison —, o que leva vários dias e causa muito aborrecimento, e digo isso por experiência própria. Infelizmente, vocês não têm tanto tempo a perder. — Ele se virou e, com o focinho, abriu a porta da pequena cabana da torre. — Por aqui. Tem mais uma coisa que eu gostaria de lhes mostrar.
Ele entrou, e nós o seguimos. A cabana era bem pequena e modesta, muito diferente da residência palaciana da srta. Peregrine. A mobília se resumia a uma cama pequena, um guarda-roupa e uma escrivaninha de tampo retrátil. Havia um telescópio apontado para fora da janela, montado em um tripé: o ponto de observação da srta. Wren, de onde ela vigiava os problemas e as idas e vindas de suas pombas espiãs.
Addison foi até a escrivaninha.
— Se tiverem alguma dificuldade em encontrar a estrada, aqui tem um mapa da floresta — disse.
Emma abriu a escrivaninha e encontrou o mapa, um rolo de papel velho e amarelado. Embaixo havia uma foto toda amarrotada, que mostrava uma mulher com um xale negro de cetim e cabelo com mechas grisalhas preso em um penteado estiloso no alto da cabeça. Ela estava parada ao lado de uma galinha. Se olhássemos depressa, pensaríamos que a foto tinha sido descartada, tirada em um momento errado em que a mulher estava de rosto virado e olhos fechados, mas havia também algo de certo na imagem: o modo como o cabelo e as roupas dela combinavam com as manchas pretas e brancas das penas da galinha, como se a mulher e a ave estivessem olhando em direções opostas, indicando alguma estranha conexão entre as duas, como se estivessem conversando sem palavras, sonhando uma para a outra.


Aquela, sem dúvida, era a srta. Wren.
Addison pareceu atordoado ao ver a foto. Dava para ver que ele estava preocupado com sua ymbryne muito mais do que queria admitir.
— Por favor, não tomem isto como uma aprovação de seus planos suicidas — declarou ele —, mas, caso obtenham sucesso nessa busca insana... e caso encontrem a srta. Wren pelo caminho... considerem... quer dizer, peço que considerem...
— Vamos mandá-la de volta para casa — completou Emma, e acariciou a cabeça do cão.
Era algo perfeitamente normal de se fazer com animais de estimação, mas parecia estranho de se fazer com um cachorro falante.
— Que os cães a abençoem — disse Addison.
Tentei fazer um afago também, mas ele se ergueu nas patas traseiras e disse:
— Por favor, senhor, mantenha suas mãos longe!
— Desculpe — murmurei, e, no momento desconfortável que se seguiu, ficou óbvio que era hora de partir.
Descemos a torre, nos juntamos a nossos amigos e nos despedimos, chorosos, de Claire e Fiona, que estavam sob a sombra da grande árvore. Àquela altura, haviam trazido uma almofada e um cobertor para Claire se deitar em cima, e ela nos recebeu um a um. Parecia uma princesa em uma cama improvisada no chão, arrancando promessas enquanto nos ajoelhávamos a seu lado.
— Prometa que vai voltar — pediu ela quando foi minha vez. — E que vai salvar a srta. Peregrine.
— Vou fazer o possível — respondi.
— Não é o bastante! — retrucou a menina, muito séria.
— Eu vou voltar — falei. — Prometo.
— E vai salvar a srta. Peregrine!
— E vou salvar a srta. Peregrine — repeti, apesar de as palavras soarem vazias. Quanto mais confiança eu tentava aparentar, menos a sentia.
— Agora sim — respondeu ela, assentindo em aprovação. — Foi ótimo conhecer você, Jacob, e fico feliz em saber que veio para ficar.
— Eu também.
Então me levantei depressa, porque aquele rosto alegre e emoldurado de cabelo louro parecia tão determinado e franco que doía só de olhar. Claire acreditava, sem a menor sombra de dúvida, em tudo o que lhe dizíamos: que ela e Fiona ficariam bem ali, em meio àqueles animais estranhos, em uma fenda temporal abandonada pela ymbryne que a criara; que voltaríamos para buscá-las. Eu torcia, de todo o coração, para que fosse mais que fingimento, mais que uma mera peça de teatro montada para dar a impressão de que aquela nossa tarefa era possível.
Hugh e Fiona ficaram afastados em um canto, de mãos dadas, as testas se tocando, despedindo-se à maneira calada dos dois. Por fim, o restante do grupo terminou de dizer adeus a Claire e estava pronto para partir, mas ninguém queria incomodar o casal, por isso ficamos parados vendo Fiona se afastar de Hugh, sacudir algumas sementes do emaranhado de cabelo e fazer crescer uma roseira carregada de flores vermelhas bem ali onde eles estavam. As abelhas de Hugh se apressaram em polinizá-la, e, enquanto elas estavam ocupadas — como se Fiona tivesse feito aquilo só para que os dois pudessem ter um momento a sós —, a jovem o abraçou e sussurrou algo em seu ouvido. Hugh assentiu e sussurrou algo de volta. Quando eles enfim se viraram e viram que estávamos olhando, Fiona enrubesceu. Então Hugh foi até nós com as mãos nos bolsos, seguido por suas abelhas, e resmungou:
— Vamos. O show acabou.
Iniciamos a caminhada montanha abaixo no instante em que começava a anoitecer. Os animais nos acompanharam até o muro íngreme de pedra.
Olive se virou para eles e perguntou:
— Vocês não vêm com a gente?
A jumirafa bufou.
— Não duraríamos nem cinco minutos lá fora! Vocês, pelo menos, têm uma chance de se passarem por pessoas normais, mas olhem só para mim... — Ela sacudiu o corpo sem braços. — Eu seria morta, empalhada e pendurada em alguma parede.
O cachorro se aproximou de Emma e perguntou:
— Será que posso pedir uma última coisa a vocês?
— Você foi tão bom para nós... — respondeu ela. — Peça o que quiser.
— Se importa de acender meu cachimbo? Não temos fósforos por aqui, e eu não fumo de verdade há anos.
Emma fez o que ele pediu, tocando o fornilho do cachimbo com o dedo em brasa. Após uma baforada longa e satisfeita, o cachorro disse:
— Desejo toda a sorte a vocês, crianças peculiares.

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Boa leitura :)