5 de abril de 2017

Capítulo quatro

Eu rastejava, tropeçava e caía pelo caminho. Parecia um cego no meio daquela floresta e da neblina. Então emergi outra vez no mundo de sol e luz e me surpreendi ao ver o sol se pondo e a luz se avermelhando. De algum modo, todo o dia tinha escapado de mim.
Meu pai estava à minha espera no pub, com uma cerveja preta como a noite e o laptop aberto na mesa à sua frente. Eu me sentei e peguei sua cerveja antes que ele tivesse a oportunidade de tirar os olhos do que estava digitando.
— Ai, meu Deus! — reclamei, engolindo um gole grande. — O que é isso, óleo de motor fermentado?
— Quase — disse ele, rindo, e a tomou de volta. — Não é igual às cervejas americanas. Não que você saiba como é o gosto delas, certo?
— Claro que não — disse eu com uma piscadela, apesar de ser verdade.
Meu pai gostava de acreditar que eu era popular e aventureiro tal como ele era na minha idade, um mito que sempre me pareceu mais fácil apenas perpetuar.
Fui submetido a um breve interrogatório sobre como eu tinha chegado até a casa e quem me levara até lá, mas, como o tipo mais fácil de mentira é aquela em que você pode omitir coisas em vez de inventá-las, eu passei no teste com louvor. Só esqueci, convenientemente, de mencionar que Verme e Dylan me enrolaram e me fizeram chafurdar em excremento de ovelhas e depois tiraram o corpo fora a um quilômetro do nosso destino. Meu pai pareceu satisfeito por eu já ter conhecido alguns garotos da minha idade. Acho que também deixei de mencionar o fato de que eles me odiavam.
— E aí, como estava a casa? — perguntou.
— Em ruínas.
Ele pareceu chateado.
— Acho que faz tempo demais que seu avô morou lá, hein?
— É — respondi. — Ele, e qualquer outra pessoa.
Ele fechou o laptop, um sinal incontestável de que eu estava prestes a receber toda a sua atenção.
— Vejo que ficou desapontado — disse ele.
— Bem, não viajei milhares de quilômetros atrás de uma casa assustadora em ruínas.
— E o que vai fazer?
— Procurar pessoas para conversar. Alguém vai saber o que aconteceu com as crianças que viviam ali. Imagino que alguns deles ainda estejam vivos, se não aqui, no continente. Em um asilo, ou algo assim.
— Claro. É uma ideia — disse ele. Mas não parecia muito convencido. Ele fez uma pausa estranha e depois prosseguiu: — Você acha que está começando a compreender melhor quem era seu avô, depois de chegar aqui?
Pensei um pouco.
— Não sei. Acho que sim. É só uma ilha, sabe?
Ele assentiu.
— Exatamente.
— E você?
— Eu? — Ele deu de ombros. — Desisti de tentar entendê-lo há muito tempo.
— Isso é triste. Não estava interessado?
— Claro que estava. Mas, depois de algum tempo, perdi o interesse.
— Por quê?
— Quando alguém não o deixa entrar, você acaba parando de bater. Entende o que quero dizer?
Ele raramente falava assim. Talvez fosse a cerveja, ou por estarmos tão longe de casa, ou talvez ele tivesse decidido que finalmente eu tinha idade o bastante para escutar essas coisas. Fosse o que fosse, eu não queria que ele parasse; continuei a incitá-lo.
— Mas ele era seu pai. Como pôde desistir?
— Não fui eu que desisti! — disse ele, levantando um pouco a voz, depois baixou o olhar, envergonhado, enquanto girava a cerveja no copo. — É só que... na verdade, acho que seu avô não sabia ser pai, mas sentia que tinha de sê-lo de qualquer jeito, porque nenhum de seus irmãos sobreviveu à guerra. Então ele lidava com isso se ausentando muito, em viagens de pescaria, de negócios, o que fosse. E, mesmo quando ele estava por perto, era como se não estivesse.
— Isso tem a ver com aquele Halloween? — perguntei.
— Do que está falando?
— Você sabe... da foto.
Era uma história antiga, mais ou menos assim: era Halloween. Meu pai tinha quatro ou cinco anos e nunca tinha saído para pedir doces, e vovô Portman prometera levá-lo quando saísse do trabalho. Minha avó havia comprado uma fantasia incrível de coelho rosa para meu pai, e ele a vestiu, sentou-se na entrada da garagem e esperou meu avô das cinco da tarde até o anoitecer. Minha avó ficou com tanta raiva que tirou uma foto do meu pai chorando na rua para mostrar a meu avô que grande babaca ele era. É desnecessário dizer que a foto desde então virou um objeto lendário entre os membros da família, e uma grande vergonha para meu pai.
— Foi muito mais que apenas um Halloween — disse meu pai com amargura. Começava a ficar emotivo. — Sério, Jake, você foi mais próximo dele do que eu jamais fui. Não sei, simplesmente havia alguma coisa não dita entre nós, sabe?
Não sabia como responder. Será que ele estava com ciúme de mim?
— Por que está me contando isso? — perguntei.
— Porque você é meu filho e não quero que se machuque.
— Me machucar como?
Ele demorou alguns segundos para responder. Lá fora as nuvens se moviam e os últimos raios de luz do dia projetavam nossas sombras contra a parede. Senti um nó no estômago, como quando seus pais estão prestes a lhe contar que vão se separar, mas você já sabe antes que eles abram a boca.
— Nunca procurei saber muito mais coisas com seu avô porque tinha medo do que poderia descobrir — disse ele por fim.
— Está falando da guerra?
— Não... seu avô mantinha esses segredos porque eram dolorosos. Eu entendia isso. Estou falando das viagens, de ele ficar sozinho o tempo todo. O que ele estava realmente fazendo? Acho, eu e sua tia achávamos, que havia outra mulher. Talvez mais de uma.


Deixei aquela informação pairar sobre nós por um instante. Meu rosto começou a formigar de modo estranho.
— De que você está falando? — perguntei.
— Certa vez encontramos uma carta — prosseguiu ele. — Era de uma mulher cujo nome não conhecíamos, endereçada ao papai: Amo você, sinto sua falta, quando vai voltar?, esse tipo de coisa. Clichês, no estilo batom no colarinho. Nunca vou me esquecer disso.
Senti uma pontada quente de vergonha, como se, de algum modo, ele estivesse descrevendo um crime meu. E ainda assim não conseguia acreditar completamente. Não vindo do vovô Portman.
— Rasgamos a carta e a jogamos na privada. Nunca mais encontramos outra. Acho que depois disso ele ficou mais cuidadoso.
Eu não sabia o que dizer. Não conseguia encarar meu pai.
— Desculpe, Jake. Deve ser duro ouvir isso. Sei quanto você o idolatrava. — Ele estendeu o braço para apertar meu ombro, mas eu me esquivei, afastei a cadeira e me levantei.
— Eu não idolatro ninguém.
— Está bem. Eu só... não queria que você se surpreendesse, só isso.
Peguei meu casaco e o joguei por cima do ombro.
— O que está fazendo? — perguntou ele. — O jantar já está chegando.
— Você está enganado em relação a ele — disse eu. — E vou provar isso.
Ele deu um suspiro. Um suspiro do tipo deixa pra lá.
— Tudo bem. Espero que você consiga.
Saí do Buraco do Padre batendo a porta e caminhei sem nenhum rumo particular em mente. Às vezes tudo o que você precisa fazer é cruzar uma porta. Era verdade, claro, o que meu pai dissera: eu idolatrava meu avô. Havia coisas sobre ele que eu precisava que fossem verdadeiras, e o fato de ele ser adúltero não era uma delas. Quando eu era pequeno, as histórias fantásticas do vovô Portman significavam que era possível viver uma vida mágica. E, mesmo depois que parei de acreditar nele, ainda havia algo mágico sobre meu avô: ter superado todos os horrores que ele superou, ter visto o pior da humanidade e ter a vida desfigurada por causa disso, e sair de toda essa situação como a pessoa honrada e boa e corajosa que eu sabia que ele tinha sido — isso era mágico. Por isso eu não podia acreditar que ele fosse um mentiroso, um traidor e mau pai, porque, se vovô Portman não fosse bom e honrado, eu tinha certeza de que ninguém mais poderia sê-lo.

* * *

As portas do museu estavam abertas e suas luzes acesas, mas não parecia haver ninguém lá dentro. Eu tinha ido até lá em busca do curador, supondo que ele soubesse alguma coisa sobre a história da ilha e de seu povo, na esperança de que pudesse lançar alguma luz sobre a casa vazia e a localização de seus antigos moradores. Achei que ele tivesse saído apenas por um minuto — não havia exatamente uma multidão aglomerada na porta —, por isso entrei e comecei a andar pelo santuário, conferindo a exposição do museu para matar tempo.
Os objetos em exibição estavam arrumados em armários grandes e abertos na frente, alinhados contra as paredes no espaço antes ocupado por bancos de igreja. A maioria era completamente entediante: tudo sobre a vida em uma vila de pescadores tradicional e os mistérios ancestrais da criação de animais, mas uma das seções se destacava do resto. Estava em lugar de honra na frente da sala, em um mostruário elegante localizado sobre o que antes tinha sido o altar.
Ficava atrás de uma corda que pulei e de um pequeno aviso que não me dei ao trabalho de ler. Como o mostruário tinha laterais de madeira envernizada e tampa de acrílico, só era possível vê-lo de cima.
Olhei o interior e acho que engasguei de verdade — e por um segundo de pânico pensei: monstro! —, porque de repente e sem esperar eu tinha me deparado cara a cara com um cadáver. Seu corpo encolhido tinha uma semelhança inacreditável com as criaturas que assombravam meus sonhos, assim como a cor da carne, que parecia algo que fora assado num espeto até ficar negro e reluzente. Mas, quando o cadáver não ganhou vida nem marcou para sempre minha mente quebrando o vidro e tentando alcançar minha jugular, meu pânico inicial esmoreceu. Era apenas uma peça de museu, apesar de ser uma peça excessivamente mórbida.
— Vejo que você conheceu o nosso velho! — chamou uma voz atrás de mim. Virei-me para ver o curador caminhando em minha direção. — Você reagiu muito bem. Já vi homens crescidos desmaiarem no ato! — Ele sorriu e estendeu o braço para apertar minha mão. — Martin Pagett. Acho que não me lembro do seu nome daquele outro dia.
— Jacob Portman — respondi. — Então é isso, a vítima de assassinato mais famosa do País de Gales?
— Hah! Bem, ele também poderia ser isso, apesar de nunca ter pensado nele dessa forma. É o nosso morador mais antigo, mais conhecido nos círculos arqueológicos como o Homem de Cairnholm, apesar de ser apenas O Velho para nós. Tem mais de 2.700 anos, para ser exato, mas tinha apenas dezesseis ao morrer. Na verdade, ele é um velho bem jovem.
— Dois mil e setecentos? — disse eu, observando os traços estranhamente delicados do rosto do rapaz morto, de algum modo perfeitamente preservados. — Mas ele parece tão...
— É isso que acontece quando você passa seus anos dourados em um lugar onde não há oxigênio nem bactérias, como os pântanos de nossas charnecas. Lá embaixo é uma fonte de juventude permanente, desde que você já esteja morto, é claro.
— Foi lá que o encontrou, na charneca?
Ele riu.
— Eu, não! Cortadores de turfa o encontraram perto do cairn, o grande marco de pedras lá na charneca, nos anos 1970. Ele tinha o aspecto tão fresco que acharam que talvez houvesse um assassino à solta em Cairnholm, até que os policiais viram o arco da Idade da Pedra em sua mão e o laço de corda de cabelo humano em torno de seu pescoço. Não se fazem mais coisas assim.
— Então ele foi... um sacrifício humano?
— Exatamente isso. Uma combinação de estrangulamento, afogamento, estripação e um golpe na cabeça. Um tanto exagerado, não?
— Acho que sim.
Martin soltou uma gargalhada.
— Ele acha que sim!
— Está bem, é mesmo exagero.
— Claro que é. Mas a coisa mais fascinante, pelo menos para nós, homens modernos, é que ele encarou sua morte de boa vontade, até com avidez. Seu povo acreditava que as charnecas pantanosas, e nossas charnecas em particular, eram entradas para o mundo dos deuses e por isso o lugar perfeito para oferecer seu presente mais precioso. Eles mesmos.
— Isso é loucura — disse eu.
— Acredito que sim. Apesar de achar que estamos nos matando agora de tantas maneiras, que tudo vai parecer loucura também para as pessoas no futuro. E, em relação a portas para o outro mundo, a charneca não é uma escolha ruim. Não é exatamente água nem exatamente terra; é um lugar intermediário. — Ele se debruçou sobre o mostruário estudando a figura lá dentro. — Não é bonito?
Olhei para o corpo novamente, estrangulado, dilacerado e afogado e, de algum modo, transformado em algo imortal no processo.
— Eu não acho — respondi.
Martin ergueu-se e começou a falar em tom grandiloquente:
— Venha e contemple o homem alcatrão! Negro, ele repousa, o rosto suave da cor da fuligem, os membros como veios de carvão, pés que são tocos de árvores ornados com uvas esmagadas! — Ele estendeu os braços abertos como um ator de teatro canastrão e começou a andar em volta do mostruário. — Venha e testemunhe a arte cruel dos ferimentos dele! Linhas decorativas e sinuosas desenhadas à faca; cérebro e ossos expostos por ferimentos de pedras; a corda ainda escavando seu pescoço. Primeiro fruto cortado e descartado... buscador do Paraíso... um velho preso na juventude... chego a amar você!
Ele fez uma reverência teatral e eu aplaudi.
— Uau! — disse eu. — Você escreveu isso?
— Você me pegou! — respondeu ele, com um sorriso tímido. — Brinco com um ou outro verso de vez em quando, mas é só um passatempo. De qualquer modo, obrigado pela gentileza.
Eu me perguntava o que aquele homem estranho e bem-educado estaria fazendo em Cairnholm, com suas calças de pregas e seus poemas amadores, parecendo mais um gerente de banco do que alguém que vivia em uma ilha desoladora com apenas um telefone e sem ruas asfaltadas.
— Agora eu adoraria lhe mostrar o resto da minha coleção — disse ele, acompanhando-me até a porta —, mas infelizmente é hora de fechar. Se quiser voltar de manhã...
— Na verdade, eu tinha esperança de que você pudesse me ajudar — eu falei, detendo-o antes que ele me enxotasse. — É sobre a casa que mencionei esta manhã. Eu fui vê-la.
— Ora — exclamou ele. — Achei que tinha assustado você. Como anda nossa mansão assombrada atualmente? Ainda de pé?
Assegurei-lhe que sim, depois fui direto ao ponto.
— As pessoas que moravam lá... Sabe o que aconteceu com elas?
— Todas mortas — respondeu. — Aconteceu há muito tempo.
Eu estava surpreso — embora provavelmente não devesse estar. A srta. Peregrine era velha. Pessoas velhas morrem. Mas aquilo não significava que minha busca tivesse acabado.
— Estou à procura de alguém que possa ter vivido lá quando criança também, não só a diretora.
— Todos mortos — repetiu ele. — Ninguém vive lá desde a guerra.
Precisei de um momento para processar isso.
— O que quer dizer? Que guerra?
— Quando falamos em “guerra” por aqui, garoto, só podemos estar falando de uma delas, a segunda. Se não me engano, eles foram atingidos por um ataque aéreo alemão.
— Não — disse eu. — Não pode ser verdade.
— Havia uma bateria antiaérea posicionada na extremidade mais distante da ilha, depois da floresta onde fica a casa. Por isso, naqueles dias, Cairnholm era um alvo militar legítimo. Não que de algum modo ser legítimo significasse muito para os alemães, você sabe. Enfim, uma das bombas errou seu alvo e, bem... — Ele sacudiu a cabeça. — Muito azar.
— Não pode ser verdade — insisti, começando a ter dúvidas.
— Por que você não se senta e me deixa preparar um pouco de chá? — disse ele. — Parece um pouco perturbado.
— Só estou me sentindo um pouco desorientado.
Ele me conduziu até uma cadeira em seu escritório e foi preparar uma xícara de chá para mim. Tentei organizar meus pensamentos. Bombardeada. Isso certamente explicava aqueles quartos sem paredes. Mas e a carta da srta. Peregrine, com carimbo de Cairnholm, enviada havia apenas quinze anos? Não fazia nenhum sentido.
Martin voltou e me entregou uma caneca.
— Tem um pouquinho de Penderyn aí dentro — disse ele. — Sabe, receita secreta. Vai fazer você melhorar bem rápido.
Agradeci e tomei um gole, percebendo tarde demais que o ingrediente secreto era uísque fortíssimo. Senti como se fosse napalm descendo pelo meu esôfago.
— É mesmo estimulante — admiti, o rosto ficando vermelho.
Ele franziu o cenho.
— Acho que eu devia chamar seu pai — disse ele.
— Não, não, vou ficar bem. Mas, se há mais alguma coisa que possa me contar sobre o ataque, eu ficaria agradecido.
Martin sentou-se em uma cadeira à minha frente.
— Quando você me perguntou aquilo, fiquei curioso... Você diz que seu avô viveu aqui. Ele nunca mencionou isso?
— Também fiquei intrigado com essa história — respondi. — Acho que deve ter sido depois da época dele. Isso aconteceu no início ou no fim da guerra?
— Tenho vergonha de admitir que também não sei. Mas, se estiver muito interessado, posso apresentá-lo a alguém que sabe: meu tio Oggie. Ele tem 83 anos e morou aqui a vida inteira. Ainda está totalmente lúcido. — Martin olhou de relance para seu relógio. — Se conseguirmos pegá-lo antes que comece Father Ted, seu programa de TV favorito, tenho certeza de que ele vai adorar contar a você tudo o que queira saber.

* * *

Dez minutos mais tarde, Martin e eu nos acomodamos num sofá entre pilhas de roupas e de revistas na sala de Oggie, que tinha montes de livros, caixas de sapatos velhas e lâmpadas suficientes para iluminar as Cavernas de Carlsbad — todas, à exceção de uma, queimadas. Viver em uma ilha remota, eu começava a me dar conta, transformava as pessoas em catadores de lixo. Oggie sentou-se de frente para nós, usando um blazer puído com calças de pijama, como se esperasse companhia, mas uma companhia que não merecia vê-lo com calças, e, enquanto falava, balançava-se sem parar em uma poltrona estofada coberta por um plástico. Ele parecia feliz só por ter uma plateia, e, depois de falar bastante sobre o clima e a política do País de Gales e da situação lamentável da juventude de hoje, Martin finalmente conseguiu conduzi-lo ao ataque e às crianças do orfanato.
— Claro que me lembro deles. Um grupo bem estranho de pessoas. Nós os víamos na cidade de vez em quando, as crianças e, às vezes, a mulher que cuidava delas, comprando leite, remédios e outras coisas. Você dizia bom-dia e eles desviavam o olhar. Eram muito retraídos, eram sim, os daquela casa grande. E, embora ninguém soubesse ao certo, havia muitos comentários sobre o que acontecia por lá.
— Que tipo de comentários? — provoquei.
— Um monte de bobagem. Como eu disse, ninguém sabia. Só posso dizer que não era o tipo habitual de crianças órfãs, não como as do Orfanato Barnardo, que você vê quando aparecem na cidade para desfiles e coisas assim, e sempre têm tempo para conversar. Não, essa turma era diferente. Alguns não sabiam nem falar inglês direito. Ou, para ser bem honesto, não falavam inglês de maneira nenhuma.
— Porque na verdade não eram órfãos — disse eu. — Eram refugiados de outros países. Polônia, Áustria, Tchecoslováquia...
— Agora é isso o que eles eram? — disse Oggie, erguendo uma sobrancelha para mim. — Engraçado, nunca tinha ouvido isso. — Ele pareceu ofendido, como se eu o houvesse insultado fingindo saber mais sobre sua ilha do que ele. O balanço da poltrona se acelerou, ficando mais agressivo. Se fosse esse o tipo de recepção que meu avô e as outras crianças tinham recebido em Cairnholm, pensei, não era surpresa que tivessem se mantido reservados.
Martin pigarreou.
— E então, como foi o bombardeio?
— Ah, calma, calma. Sim, sim, os malditos alemães, quem poderia esquecê-los?
Ele mergulhou em uma longa descrição de como era a vida na ilha sob a ameaça de ataques aéreos alemães: o grito das sirenes; as pessoas correndo de repente em busca de abrigo; o fiscal de ataques aéreos que ia de casa em casa à noite para garantir que as venezianas estivessem fechadas e as luzes das ruas, apagadas, e assim eliminar alvos fáceis para os pilotos. Isso se tornou rotina — a sirene, a correria, as pessoas encolhidas em casas escuras —, mas, após meses de aviões passando por ali rumo a alvos no continente, os moradores da ilha começaram a achar que estavam imunes. E então foram atingidos.
— O barulho das bombas era terrível — disse Oggie. — Era como se gigantes andassem pela ilha, e parecia não terminar nunca. Eles nos arrasaram, apesar de ninguém na cidade ter sido morto, graças a Deus. Não posso dizer o mesmo dos rapazes nos canhões, apesar de eles terem feito tudo o que podiam, nem das pobres almas do orfanato. Uma única bomba foi o bastante. Deram suas vidas pela Grã-Bretanha, todos eles. De onde quer que fossem, que Deus os abençoe por isso.
— O senhor se lembra de quando aconteceu? — perguntei. — No início da guerra ou no fim?
— Posso lhe dizer o dia exato. Foi em 3 de setembro de 1940.
O ar pareceu escapar da sala. Eu me lembrei do rosto pálido de meu avô, seus lábios mal se movendo, murmurando exatamente essas palavras. Três de setembro de 1940.
— O senhor tem certeza disso? — gaguejei. — Que foi nesse dia?
— Eu não cheguei a lutar — disse ele. — Novo demais; fiquei por um ano. Aquela noite foi toda a minha guerra. Por isso, sim, tenho certeza.
Eu me senti paralisado, como se estivesse longe dali. Era estranho demais.
Será que alguém estava brincando comigo? Uma piada esquisita e sem graça?
— E não houve nenhum sobrevivente? — Martin perguntou.
O velho pensou por um instante, o olhar fixo no teto. Depois, assentiu com a cabeça.
— Agora que você falou nisso, eu acho que houve. Só um. Um rapaz, não muito mais velho do que você. — Ele parou de se balançar enquanto se recordava daquilo. — Chegou andando à cidade na manhã seguinte, sem nem um arranhão. Não parecia nem um pouco perturbado, considerando que tinha acabado de ver todos os seus amigos terem um destino que não mereciam. Foi uma coisa muito estranha.
— Provavelmente estava em choque.
— Não seria surpresa nenhuma — retrucou Oggie. — Ele só abriu a boca para perguntar a meu pai quando saía o próximo barco para o continente. Disse que queria ir direto se alistar e matar os malditos monstros que tinham aniquilado seu povo.
A história de Oggie era tão maluca quanto as que vovô Portman costumava contar, e mesmo assim não havia razão para duvidar dele.
— Eu o conhecia — disse eu por fim. O homem olhou para mim. — Era meu avô.
— Benza Deus! — disse Oggie.
Eu me desculpei e me levantei. Martin, percebendo meu mal-estar, se ofereceu para me acompanhar até o pub, mas recusei. Precisava ficar sozinho com meus pensamentos.
— Então venha me ver assim que puder — disse ele, e prometi que iria.
Peguei o caminho mais longo de volta, o que passava pelas luzes tremeluzentes da baía e seu ar salgado e pesado com a fumaça das chaminés de uma centena de lareiras. Caminhei até a extremidade de um cais e observei a lua se erguer acima da água, imaginando meu avô naquela manhã terrível, parado exatamente onde eu estava, paralisado pelo choque, à espera de um barco que o levasse para longe de todas as mortes que presenciara, rumo à guerra e mais morte. Porque não havia como escapar dos monstros, nem mesmo nessa ilha, que no mapa não era maior que um grão de areia, protegida por montanhas enevoadas, rochas escarpadas e marés violentas. Em lugar nenhum. Essa era a terrível verdade da qual meu avô tentara me proteger.
Então ouvi, a distância, os geradores engasgarem e pararem de funcionar.
De repente, todas as luzes à margem da baía e nas janelas das casas atrás de mim brilharam com mais força antes de se apagarem, como supernovas em miniatura.

* * *

Caminhei de volta sob a luz do luar. Encontrei meu pai no pub, na mesma mesa, com um prato de carne com molho pela metade congelando-se em gordura à sua frente.
— Olhe quem está de volta — disse ele, enquanto eu sentava. — Guardei o jantar pra você.
— Estou sem fome — disse eu, e contei o que tinha descoberto sobre vovô Portman.
Ele pareceu mais nervoso do que surpreso.
— Não acredito que ele nunca tenha mencionado isso — disse meu pai. — Nem uma vez.
Podia entender a raiva dele. Uma coisa era um avô omitir algo assim de um neto, outra bem diferente era um pai escondê-la do filho, e por tanto tempo.
Tentei conduzir as coisas em uma direção mais positiva para meu avô.
— É incrível, não é? Todas as coisas por que ele passou...
Meu pai assentiu.
— Acho que nunca vamos saber toda a verdade sobre isso.
— Vovô Portman sabia mesmo guardar um segredo, não é?
— Você deve estar brincando. O homem parecia guardar suas emoções numa caixa-forte!
— Eu me pergunto, porém, se isso não explica muita coisa — arrisquei. — Por que agia de modo tão distante quando você era pequeno... — Meu pai me lançou um olhar sério e eu soube que tinha pouco tempo para explicar o que queria dizer, ou corria o risco de ultrapassar meus limites. — Ele já havia perdido a família duas vezes — disse eu. — Uma vez na Polônia, e a outra, aqui, sua família adotiva. Então, quando você e tia Susie chegaram...
— Uma vez bombardeado, duas vezes mais reservado?
— Estou falando sério. Não acha que isso pode significar que, no fim das contas, ele não estava traindo a vovó?
— Não sei, Jake. Acho que não acredito que as coisas sejam assim tão simples. — Ele deu um suspiro e seu hálito embaçou o interior do copo de cerveja. — Só sei o que tudo isso realmente explica: por que você e o vovô eram tão chegados.
— Como assim?
— Demorou cinquenta anos para ele superar seu medo de ter uma família. Você chegou na hora certa.
Eu não soube o que responder. Como dizer para o próprio pai: Sinto muito por seu pai não tê-lo amado o suficiente? Resolvi dizer apenas boa-noite e fui para a cama.

* * *

Passei quase a noite inteira me revirando na cama. Não conseguia parar de pensar nas cartas, naquela que meu pai e minha tia Susie encontraram quando eram crianças, dessa “outra mulher”, e na outra, que eu tinha encontrado um mês atrás, enviada por uma tal de srta. Peregrine. A ideia que não me deixava dormir era esta: e se elas fossem a mesma mulher?
O carimbo postal da carta da srta. Peregrine tinha quinze anos, mas tudo o que eu descobrira indicava que ela tinha sido pulverizada na estratosfera em 1940. Na minha cabeça, isso deixava duas explicações possíveis para a carta que eu encontrara: ou meu avô tinha se correspondido com uma pessoa morta — o que parecia bastante improvável — ou a pessoa que escrevera a carta não era, na verdade, a srta. Peregrine, mas alguém que usava a identidade dela para esconder a própria.
Por que você disfarçaria sua identidade em uma carta? Porque tem algo a esconder. Porque você é a outra.
E se a única coisa que eu descobriria sobre meu avô nessa viagem fosse o fato de ele ter sido um adúltero mentiroso? Será que em seu último suspiro ele havia tentado me contar sobre a morte de sua família adotiva, ou admitir um simples caso extraconjugal que durara décadas? Talvez as duas coisas, e a verdade era que, quando jovem, ele e sua família se separaram tantas vezes que ele não sabia mais como manter uma, ou lhe ser fiel.
Mas eram apenas suposições. Eu não sabia a verdade, e não havia ninguém a quem perguntar. Qualquer um que pudesse ter a resposta estava morto havia muito tempo. Em menos de 24 horas toda a viagem perdeu o sentido.
Caí em um sono agitado. Então, ao amanhecer, despertei com o barulho de alguma coisa em meu quarto. Quando rolei para ver o que era, levantei-me rapidamente da cama. Havia uma ave enorme pousada na cômoda, encarando-me.
Tinha uma cabeça reluzente, coberta de penas cinza, e garras que faziam barulho sobre o tampo de madeira da cômoda enquanto ela andava de um lado para o outro na beirada, como se quisesse me ver melhor. Eu a encarei com um olhar duro em resposta, perguntando-me se aquilo podia ser um sonho.
Chamei meu pai e, ao som de minha voz, a ave se lançou da cômoda.
Joguei meu braço sobre o rosto, rolei para o lado, e, quando olhei outra vez, ela tinha desaparecido pela minha janela aberta.
Meu pai entrou cambaleante, os olhos embaçados.
— O que está acontecendo?
Mostrei a ele as marcas de garras na cômoda e uma pena que aterrissara no chão.
— Meu Deus, que estranho — disse ele, examinando-a na mão. — Peregrinos raramente chegam tão perto de humanos.
Achei que talvez não tivesse ouvido bem o que ele dissera.
— Você disse peregrinos?
Ele levantou a pena.
— Um falcão-peregrino — disse ele. — São criaturas maravilhosas... as aves mais velozes da Terra. São criaturas que mudam de forma, tornando o corpo aerodinâmico no ar.
O nome era apenas uma coincidência esquisita, claro, mas me deixou com uma sensação estranha e misteriosa, da qual não conseguia me livrar, como se algo muito bizarro estivesse acontecendo.
Durante o café da manhã, comecei a me perguntar se não tinha desistido com muita facilidade. Embora fosse verdade que não havia ninguém vivo com quem eu pudesse conversar sobre meu avô, ainda havia a casa, e grande parte dela estava inexplorada. Eu poderia passar semanas examinando todo o lixo que havia lá. Se as respostas sobre meu avô, um dia, tivessem estado ali, na forma de mais cartas, talvez, ou de um álbum de retratos, ou ainda um diário, elas provavelmente tinham se queimado ou apodrecido décadas atrás.
Provavelmente. Mas, se eu deixasse a ilha sem ter certeza, nunca iria me perdoar.
E foi assim que alguém extremamente suscetível a pesadelos, terrores noturnos, arrepios, ataques de pânico e a ver coisas que na verdade não estão ali se convenceu a fazer uma última excursão à casa abandonada onde uma dúzia ou mais de crianças tinham encontrado seu derradeiro fim.

3 comentários:

  1. Nossa esse é o tipo de livro que nos deixa mais do que curiosos

    ~Juuh Evellark~

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  2. Estou amando o livro!!!!
    Parabéns a criadora desse site. Muito bom poder ler dessa forma. :*

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Boa leitura :)