15 de abril de 2017

Capítulo onze

Sharon nos deixou no mesmo cais escuro e infestado de ratos onde o conhecemos. Ao descer do barco, senti uma pontada agridoce de saudade.
Apesar de ter ficado aterrorizado e imundo e ter sofrido várias maneiras desconhecidas de dor nos últimos dias, provavelmente eu nunca teria uma aventura como aquela outra vez. Sentiria falta. Não tanto das provações, mas da pessoa que eu tinha sido enquanto me submetia a elas. Havia uma determinação férrea em meu interior, eu agora sabia disso, e esperava me agarrar a ela mesmo enquanto minha vida seguisse mais calma.
— Adeus — disse Sharon. — Foi um prazer conhecê-lo, apesar dos infinitos problemas que você me causou.
— É, eu também. — Apertamos as mãos. — Foi interessante.
— Espere aqui por nós — disse a srta. Peregrine. — A srta. Bloom e eu voltaremos dentro de uma ou duas horas.
Encontrar meus pais foi fácil. Teria sido ainda mais fácil se eu ainda tivesse meu celular, mas, naquela situação, só precisamos nos apresentar em uma delegacia policial. Eu era uma pessoa desaparecida conhecida, e em menos de meia hora após dar a um policial meu nome e sentar em um banco para esperar, meus pais chegaram. Eles estavam usando roupas amarrotadas com as quais tinham claramente dormido, a maquiagem normalmente perfeita de minha mãe estava horrível, meu pai tinha uma barba de três dias e os dois estavam carregando pilhas de cartazes de DESAPARECIDO com meu rosto. Eu me senti instantânea e compreensivelmente péssimo pelo que os fizera passar. Mas, enquanto tentava me desculpar, eles largaram os cartazes e me envolveram em um grande abraço duplo, e minhas palavras se perderam nas dobras do suéter de meu pai.
— Jake, Jake, ah, meu Deus, meu pequeno Jake... — chorava minha mãe.
— É ele, é ele mesmo — disse meu pai. — Estávamos tão preocupados, tão preocupados...
Por quanto tempo eu tinha desaparecido? Uma semana? Algo assim, embora parecesse uma eternidade.
— Por onde você andou? — perguntou minha mãe. — O que você estava fazendo?
O abraço terminou, mas eu ainda não conseguia dizer uma palavra.
— Por que você fugiu desse jeito? — perguntou meu pai. — O que você estava pensando, Jacob?
— Você me deixou de cabelo branco! — disse minha mãe, me abraçando uma segunda vez.
Meu pai olhou para mim.
— Onde estão suas roupas? O que é isso que você está vestindo?
Eu ainda estava com minha roupa preta da aventura. Ops. No entanto, seriam mais fáceis de explicar do que roupas do século XIX, e felizmente a Mãe Poeira curara todos os cortes em meu rosto...
— Jacob, diga alguma coisa! — exigiu meu pai.
— Eu sinto muito, muito mesmo — falei. — Eu nunca os teria feito passar por isso se pudesse evitar, mas agora está tudo bem. As coisas vão ficar bem. Vocês não vão entender, e isso também não tem problema. Eu amo vocês.
— Você tem razão sobre uma coisa — disse meu pai. — Não entendemos. Mesmo.
— Mas tem problema, sim — disse minha mãe. — Você vai nos dar uma explicação.
— Também vamos precisar — disse um policial que estava ali parado. — E um teste de drogas.
As coisas estavam saindo de meu controle. Era hora de puxar a corda do paraquedas.
— Eu vou contar tudo — falei. — Mas primeiro gostaria que vocês conhecessem uma amiga minha. Mamãe, papai, esta é a srta. Peregrine.
Vi os olhos de meu pai se dirigirem à srta. Peregrine, depois para Emma. Ele deve tê-la reconhecido, porque pareceu ter visto um fantasma. Mas tudo bem, pois logo ia esquecer.
— É um prazer conhecê-los — disse a srta. Peregrine, apertando a mão de meus pais. — Vocês têm um filho fantástico, um menino de primeira. Jacob não só é um cavalheiro perfeito, mas é ainda mais talentoso que o avô.
— O avô? — repetiu meu pai. — Como a senhorita...
— Quem é essa mulher bizarra? — disse minha mãe. — Como a senhorita conhece nosso filho?
A srta. Peregrine apertou a mão deles e olhou no fundo dos seus olhos.
— Alma Peregrine. Alma LeFay Peregrine. Agora, eu entendo que vocês tenham passado um período horrível aqui nas Ilhas Britânicas. Uma viagem terrível. Acho que seria melhor para todos os envolvidos se simplesmente esquecessem que isso aconteceu. Não concordam?
— Sim — disse minha mãe, com um olhar distante.
— Concordo — disse meu pai, parecendo levemente hipnotizado.
A srta. Peregrine tinha pausado o cérebro deles.
— Fantástico, maravilhoso — disse ela. — Agora olhem para isto, por favor. — Ela soltou a mão deles e pegou no bolso uma pena de falcão longa e com manchas azuis. Então uma onda quente de culpa passou por mim, e eu a detive.
— Espere — falei. — No fim das contas, acho que não quero que a senhorita faça isso.
— Tem certeza? — Ela pareceu um pouco decepcionada. — As coisas podem ficar muito complicadas para você.
— Parece trapaça — falei.
— Então, o que você vai dizer a eles? — perguntou Emma.
— Ainda não sei. Mas não acho certo simplesmente... apagar a memória deles.
Contar a verdade era egoísmo, mas simplesmente apagar a necessidade de explicação seria muito mais. E a polícia? O restante de meus familiares? Os amigos de meus pais? Com certeza todos eles sabiam o que tinha acontecido...
Seria uma confusão.
— Isso é com você — disse a srta. Peregrine. — Mas acho que seria sábio me deixar apagar os últimos dois ou três minutos, para que eles se esqueçam da srta. Bloom e de mim.
— Bom... está certo — falei. — Desde que eles não percam o domínio da fala com isso.
— Eu sou muito precisa — disse a srta. Peregrine.
— Que história é essa de apagar cérebros? — perguntou o policial. — Quem é a senhora?
— Alma Peregrine. Alma LeFay Peregrine.
O oficial baixou a cabeça e de repente se viu fascinado com um ponto no chão.
— Posso pensar em alguns acólitos com quem a senhorita poderia ter feito isso — disse Emma.
— Infelizmente, só funciona com as mentes maleáveis dos normais — disse a srta. Peregrine. — Aliás... — Ela ergueu a pena.
— Espere — falei. — Antes que faça isso. — Estendi a mão para cumprimentá-la. — Obrigado por tudo. Vou sentir mesmo muita saudade, srta. Peregrine.
A srta. Peregrine ignorou minha mão e me abraçou.
— O sentimento é recíproco, sr. Portman. E sou eu quem deve agradecer. Não fosse pelo seu heroísmo e o da srta. Bloom...
— Bom, se a senhora não tivesse salvado meu avô tantos anos atrás...
Ela sorriu.
— Estamos quites.
Restava uma despedida. A mais difícil. Abracei Emma, que me apertou de volta ferozmente.
— Podemos nos escrever? — disse ela.
— Tem certeza de que quer isso?
— Claro. Amigos mantêm contato.
— Está bem — falei, aliviado. Pelo menos poderíamos...
Então ela me beijou. Um grande beijo na boca que deixou minha cabeça girando.
— Achei que fôssemos apenas amigos! — falei, surpreso.
— Hum, sim — disse ela timidamente. — Agora somos. Eu só precisava de um beijo para me lembrar de nós.
Começamos a rir, nossos corações ao mesmo tempo leves e partidos.
— Crianças, parem com isso! — chiou a srta. Peregrine.
— Frank, quem é essa menina que Jake está beijando?
— Não faço a menor ideia — murmurou meu pai.
— Jacob, quem é essa garota e por que você a está beijando? — perguntou minha mãe.
— Hã, esta é minha... amiga Emma. Estamos só nos despedindo.
Emma acenou com timidez.
— Vocês não vão se lembrar de mim, mas... olá!
— Bem, pare de beijar garotas desconhecidas e venha — disse minha mãe.
— Está bem — falei para a srta. Peregrine. — Acho que é melhor irmos em frente com isso.
— Não pense que isso é um adeus — disse a srta. Peregrine. — Você agora é um dos nossos. Não vai se livrar de nós assim tão fácil.
— Espero que não — falei, sorrindo apesar da tristeza que sentia.
— Vou escrever para você — disse Emma, tentando sorrir, sua voz se esganiçando. — Boa sorte com... com seja lá o que as pessoas normais façam.
— Adeus, Emma. Vou sentir saudade.
Parecia uma coisa tão inadequada de se dizer, mas, em momentos como aquele, as próprias palavras eram inadequadas.
A srta. Peregrine se virou para terminar seu trabalho. Ela ergueu a pena de falcão e fez cócegas sob o nariz de meus pais.
— Com licença! — disse minha mãe. — O que a senhorita acha que está faaaAAAAAAAA-TCHIMM!
Então, tanto ela quanto meu pai tiveram um acesso de espirros, e, enquanto estavam espirrando, a srta. Peregrine fez cócegas no nariz do policial, que também teve um acesso de espirros. Quando todos acabaram e estavam de nariz escorrendo e rosto vermelho, a srta. Peregrine e Emma tinham saído pela porta e ido embora.
— Como eu ia dizendo — recomeçou meu pai, como se os últimos minutos não tivessem acontecido. — Esperem... O que eu ia dizendo?
— Que podíamos simplesmente ir para casa e conversar sobre isso mais tarde? — falei, esperançoso.
— Não antes que você responda a algumas perguntas — disse o policial.
Passamos alguns minutos conversando com a polícia. Mantive as respostas vagas, enfeitava toda frase com uma desculpa e jurei de pés juntos que não tinha sido sequestrado, abusado nem drogado (graças ao apagamento de memória da srta. Peregrine, o policial se esquecera de fazer o teste de drogas).
Quando meus pais explicaram sobre a morte de meu avô e os “problemas” que eu sofrera com isso, o policial pareceu satisfeito em concluir que eu era apenas um tipo comum de fugitivo que tinha se esquecido de tomar seus remédios. Ele nos fez assinar alguns formulários e nos mandou embora.
— Sim, sim, por favor, vamos para casa — disse minha mãe. — Mas nós iremos conversar sobre isso, rapazinho, a fundo.
Casa. A palavra se tornara estranha para mim. Alguma terra distante que eu mal podia imaginar.
— Se corrermos, talvez a gente consiga pegar um voo noturno — disse meu pai.
Ele tinha cimentado o braço em torno do meu ombro, como se temesse que eu fugisse no momento em que me soltasse. Minha mãe não conseguia parar de olhar para mim, os olhos arregalados e agradecidos, segurando as lágrimas.
— Eu estou bem — falei. — Juro.
Eu sabia que eles não acreditavam em mim, o que duraria um bom tempo.
Saímos para chamar um táxi. Quando um estava parando, vi dois rostos familiares me observando de um parque do outro lado da rua. Ocupando a sombra salpicada de um carvalho estavam Emma e a srta. Peregrine. Ergui a mão para me despedir, com uma dor no peito.
— Jake? — Meu pai estava segurando a porta do táxi aberta para mim. — Qual o problema?
Transformei meu aceno em uma coçadinha de cabeça.
— Nada, pai.
Entrei no táxi. Meu pai se virou para o parque. Quando olhei pela janela, tudo que vi sob o carvalho foi um pássaro e algumas folhas voando.

* * *

Minha volta para casa não foi nem triunfante nem fácil. Eu tinha acabado com a confiança de meus pais, e reconstruí-la seria um trabalho lento e meticuloso. Considerado risco de fuga, eu era vigiado o tempo inteiro. Não ia a lugar nenhum sem supervisão, nem para dar uma volta no quarteirão. Um sistema de segurança complicado foi instalado na casa, não para impedir a entrada de ladrões e sim para que eu não escapasse. Mandaram-me direto de volta à terapia, fui submetido a inúmeras avaliações psicológicas e me receitaram remédios mais fortes (que eu escondia sob a língua e mais tarde cuspia). Mas eu tinha passado por privações muito maiores naquele verão, e se uma perda temporária de liberdade fosse o preço a pagar pelos amigos que fizera, as experiências que tivera e a vida extraordinária que eu agora sabia ser minha, isso parecia uma pechincha. Valia cada conversa esquisita com meus pais, cada noite solitária sonhando com Emma e meus amigos peculiares, toda visita a minha nova psiquiatra.
A dra. Spanger era uma senhora imperturbável, e eu passava quatro manhãs por semana sob o brilho do sorriso permanente produzido por plásticas. Ela me perguntava incessantemente por que eu tinha fugido da ilha e como passara os dias seguintes, o sorriso sem nunca vacilar (seus olhos, para registro, eram castanho-claros, pupilas normais, sem lentes de contato.) A história que criei foi um declaração de insanidade temporária temperada com uma pitada de perda de memória, com detalhes impossíveis de serem verificados. Era assim: assustado pelo que parecia ser um maníaco assassino de ovelhas à solta em Cairnholm, eu surtei, embarquei como clandestino em um barco para o País de Gales, esqueci quem era e fui de carona para Londres. Dormi em parques, não falei com ninguém, não conheci ninguém, não consumi substâncias que alteravam o humor ou a mente e passei dias perambulando pela cidade, perdido e desorientado. Em relação à ligação para meu pai na qual eu admitia ser “peculiar”... hum, que ligação? Eu não me lembrava de nenhuma.
Por fim, a dra. Spanger identificou tudo como resultado de um episódio de insanidade, caracterizado por alucinações, induzido por estresse, pesar e questões não resolvidas com o avô. Em outras palavras: eu tinha ficado meio louco, mas provavelmente era uma coisa passageira, e eu agora estava me sentindo muito melhor, obrigado. Mesmo assim, meus pais viviam sob tensão. Achavam que a qualquer momento eu ia fazer alguma loucura, fugir outra vez, mas eu estava me comportando muito bem. Interpretei o papel do bom garoto e filho penitente como se quisesse ganhar um Oscar. Oferecia ajuda pela casa, me levantava bem antes do meio-dia e ficava em plena vista de meus pais vigilantes. Assistia à TV com eles e ficava à mesa depois das refeições para participar das discussões vazias que eles gostavam de ter — sobre reforma no banheiro, políticas da associação de moradores, dietas da moda, aves (nunca houve mais que uma leve alusão a meu avô, à ilha ou ao meu “episódio”). Eu era agradável, simpático, paciente e, de mil maneiras, não exatamente o mesmo filho de que eles se lembravam. Devem ter achado que eu havia sido abduzido por alienígenas e substituído por um clone, ou algo assim — mas não estavam reclamando. Depois de algumas semanas, foi considerado seguro receber a família, e um tio aqui e uma tia ali apareciam para um cafezinho e uma conversa forçada, e assim eu podia demonstrar em pessoa como estava equilibrado.
Estranhamente, meu pai nunca mencionou a carta deixada para ele na ilha por Emma, nem a foto dela com Abe. Talvez fosse demais para ele, ou talvez tivesse medo de que falar sobre aquilo causasse uma recaída. Qualquer que fosse a razão, foi como se nunca tivesse acontecido. Em relação a ter realmente encontrado Emma, Millard e Olive, tenho certeza de que muito tempo antes ele já descartara isso como um sonho bizarro.
Depois de algumas semanas, meus pais começaram a relaxar. Eles acreditaram em minha história e nas explicações da dra. Spanger para meu comportamento. Provavelmente, eles podiam ter investigado mais a fundo, feito mais perguntas, ouvido uma segunda ou terceira opinião de outros psiquiatras, mas na verdade queriam acreditar que eu estava melhorando. Que os remédios estavam fazendo sua mágica. Mais que qualquer coisa, eles queriam que nossa vida voltasse ao normal, e quanto mais tempo eu ficava em casa, mais isso parecia estar acontecendo.
Em particular, porém, eu estava tendo dificuldades para me ajustar. Estava entediado e solitário. Os dias se arrastavam. Eu achava que, depois das atribulações das semanas anteriores, os confortos do lar seriam mais agradáveis, mas até os lençóis limpos e a comida chinesa perderam o brilho muito rápido.
Minha cama era macia demais. Minha comida, gostosa demais. Havia demais de tudo, e isso me fez sentir culpado e decadente. Às vezes, resolvendo alguma coisa com meus pais pelos corredores do shopping, pensava nas pessoas que tinha visto às margens do Recanto do Demônio e ficava com raiva. Por que eles tinham menos do que precisavam para permanecer vivos, enquanto nós nem sabíamos o que fazer com a grande quantidade de coisas que possuíamos?
Eu tinha dificuldade para dormir. Acordava em horários estranhos, minha mente relembrando cenas do tempo passado com os peculiares. Apesar de ter dado a Emma meu endereço e de conferir a caixa de correspondência várias vezes por dia, nenhuma carta dela chegou, nem dos outros. Quanto mais tempo eu passava sem notícias deles — duas semanas, depois três —, mais abstrata e irreal começava a parecer a experiência. Aquilo tinha mesmo acontecido? Será que tudo tinha sido uma alucinação? Em momentos sombrios, eu me perguntava: e se eu fosse louco?
Então, foi um grande de alívio quando, um mês após voltar para casa, chegou finalmente uma carta de Emma. Era curta e alegre, apenas me informando sobre o processo de reconstrução e me perguntando como estavam as coisas. O endereço do remetente era uma caixa postal em Londres que, explicou Emma, ficava bem perto da entrada da fenda do Recanto do Demônio, e ela podia escapar para o presente com certa frequência para verificá-la. Escrevi em resposta no mesmo dia, e logo estávamos trocando duas ou três cartas por semana. À medida que minha casa ia ficando mais sufocante, essas cartas se transformaram em uma tábua de salvação.
Eu não podia arriscar que meus pais descobrissem nenhuma, por isso todo dia espreitava o carteiro e saía correndo para encontrá-lo assim que ele aparecia na entrada de carros de nossa casa. Sugeri para Emma que trocássemos e-mails em vez de cartas, o que teria sido mais rápido e seguro, e enchi várias páginas tentando explicar o que era a internet e como ela podia encontrar uma lan house e criar um endereço de e-mail, mas não ia adiantar nada; ela nunca havia usado nem um teclado. As cartas, porém, valiam o risco, e eu passei a gostar de me comunicar escrevendo à mão. Havia algo doce em segurar uma coisa tangível que tinha sido tocada e marcada por alguém que eu amava.
Em uma carta, ela incluiu algumas fotos e escreveu:

Querido Jacob,
As coisas por aqui estão finalmente ficando interessantes outra vez. Você se lembra das pessoas em exposição no porão, as que Bentham disse serem bonecos de cera? Bem, era mentira. Ele as raptou de fendas diferentes e estava usando o pó da Mãe Poeira para mantê-los em animação suspensa.
Achamos que ele estava tentando acionar o Polifendador usando diferentes tipos de peculiares como bateria, mas nada funcionou até nosso etéreo. Enfim, a Mãe Poeira confessou saber disso, o que explica o fato de ela ter agido de modo tão estranho. Acho que Bentham a estava chantageando, ou ameaçando machucar Reynaldo se ela não cooperasse. Enfim, ela está nos ajudando a despertar todos e a devolver cada um a sua fenda. Muito louco, né?
Também temos usado o Polifendador para explorar todos os tipos de lugar e conhecer gente nova. A srta. Peregrine disse que é bom para vermos como outros peculiares vivem ao redor do mundo. Encontrei uma câmera na casa e a levei em nossa última excursão, e incluí nesta carta algumas fotos que tirei. Bronwyn diz que eu já estou ficando boa!
Sinto uma saudade absurda de você. Sei que não deveria falar assim... só torna as coisas mais difíceis. Mas às vezes não consigo evitar. Será que você pode nos visitar em breve? Eu ia gostar muito. Ou talvez

Ela cortou o ou talvez e escreveu:

Opa, ouvi Sharon chamar meu nome. Ele está partindo agora, e quero garantir que esta carta vá para o correio hoje. Escreva logo! Com amor, Emma.

Eu me perguntei o que seria aquele “ou talvez”.
Olhei as fotos que ela incluíra. Algumas linhas de descrição tinham sido anotadas no verso de cada uma. A primeira era uma foto de duas mulheres vitorianas paradas diante de uma tenda listrada sob uma placa que dizia CURIOSIDADES. No verso, Emma escrevera: A srta. Bobolink e a srta. Loon* começaram uma nova exposição itinerante usando alguns dos artefatos antigos de Bentham. Agora que os peculiares têm mais liberdade de viajar, elas têm feito um bom negócio. Ainda sabemos pouco sobre nossa história...
A foto seguinte era de vários adultos descendo uma escadaria estreita até uma praia e um bote a remo. Há uma fenda muito agradável às margens do mar Cáspio, escreveu Emma. Semana passada, Nim e algumas ymbrynes foram fazer um passeio de barco por lá. Hugh, Horace e eu fomos juntos, mas ficamos na praia. Todos já tivemos mais que o suficiente de barcos a remo, obrigada.
A última foto era de garotas gêmeas xifópagas usando um laço branco gigante no cabelo preto como corvo. Estavam sentadas uma ao lado da outra, as mãos puxando uma ponta do vestido para revelar uma parte do tronco compartilhado.
Carlotta e Carlita são xifópagas, dizia no verso. Mas isso não é o mais peculiar nelas. Seus corpos produzem uma cola adesiva que quando seca é mais forte que concreto. Enoch sentou em um pouco e ficou com o traseiro preso a uma cadeira por dois dias inteiros! Ele ficou com tanta raiva que achei que sua cabeça fosse estourar. Como eu gostaria que você tivesse presenciado...


* Em português, “triste-pia” e “mobelha”, respectivamente. (N. do T.)




Respondi imediatamente: O que você quis dizer com “ou talvez”?
Dez dias se passaram sem notícias dela. Fiquei com medo que Emma tivesse achado que tinha se excedido na carta, que violara nosso acordo de apenas amigos e estava recuando. Eu me perguntei até se ela iria assinar a carta seguinte com Com amor, Emma, três palavrinhas com as quais eu passei a contar. Depois de duas semanas, comecei a me perguntar se sequer receberia outra carta.
Aí a correspondência parou de chegar. Eu vigiava o carteiro obsessivamente, e quando ele passou dias sem aparecer, soube que havia algo errado. Meus pais sempre recebiam toneladas de catálogos e contas. Mencionei, o mais despreocupadamente possível, que parecia estranho não termos recebido cartas recentemente. Meu pai murmurou algo sobre um feriado nacional e mudou de assunto. Aí eu comecei mesmo a me preocupar.
O mistério foi resolvido durante a sessão da manhã seguinte com a dra. Spanger, à qual, excepcionalmente, meus pais foram convidados a comparecer.
Eles estavam tensos e com o rosto pálido, se esforçando até mesmo para conversar amenidades quando nos sentamos. Spanger começou com as perguntas fáceis de sempre. Como eu estava me sentindo? Algum sonho interessante? Eu sabia que ela estava querendo chegar a algum lugar, e finalmente não aguentei o suspense.
— Por que meus pais estão aqui? — perguntei. — E por que eles parecem ter vindo de um enterro?
Pela primeira vez, o sorriso permanente da dra. Spanger desapareceu. Ela sacou do interior de uma pasta em sua mesa três envelopes.
Eram cartas de Emma. Todas tinham sido abertas.
— Precisamos falar sobre isso — disse ela.
— Concordamos que não haveria nenhum segredo — disse meu pai. — Isso é ruim, Jake. Muito ruim.
Minhas mãos começaram a tremer.
— Isso é particular — falei, lutando para controlar a voz. — Elas estão endereçadas a mim. Vocês não deviam ter lido.
O que havia naquelas cartas? O que meus pais tinham visto? Era um desastre, um desastre completo.
— Quem é Emma? — perguntou a dra. Spanger. — Quem é Peregrine?
— Isso não é justo! — gritei. — Vocês roubaram minhas cartas particulares, e agora as estão usando para me emboscar!
— Baixe o tom! — disse meu pai. — Todo mundo agora já sabe, por isso seja apenas honesto, e isso vai ser mais fácil para todos nós.
A dra. Spanger ergueu uma foto, que Emma devia ter incluído nas cartas.
— Quem são essas pessoas?
Debrucei-me para a frente para vê-la. Era uma foto de duas senhoras em uma cadeira de balanço, uma segurando a outra no colo como se fosse um bebê.
— Não tenho ideia — falei laconicamente.
— Tem um texto no verso. “Estamos descobrindo novas maneiras de ajudar aqueles que tiveram partes da alma removidas. O contato íntimo parece fazer milagres. Depois de apenas algumas horas, a srta. Hornbill** parecia uma ymbryne nova.”


** Em português, “calau”. (N. do T.)


Ela pronunciou aim-braine.
— É im-brin — corrigi. — Os “y” se pronunciam como “i”.
— Entendo. — A dra. Spanger pousou a foto e juntou os dedos das duas mãos apontando para cima sob o queixo. — E o que é uma... im-brin?
Em retrospecto, isso talvez tenha sido tolice, mas na hora eu me senti acuado, como se não tivesse escolha além de dizer a verdade. Eles tinham cartas, tinham fotos, e todas as minhas histórias frágeis haviam sido sopradas pelo vento.
— Elas nos protegem — falei.
A dra. Spanger olhou para meus pais.
— Todos nós?
— Não. Apenas crianças peculiares.
— Crianças peculiares — repetiu, devagar, a dra. Spanger. — E você acredita ser uma delas?
Estendi a mão.
— Eu gostaria de ter minhas cartas, agora.
— Você vai tê-las. Mas primeiro precisamos conversar, está bem?
Recolhi a mão e cruzei os braços. Ela estava conversando comigo como se eu tivesse um QI baixo.
— Agora, o que faz você pensar que é peculiar?
— Posso ver coisas que outras pessoas não conseguem.
Pelo canto do olho, vi meus pais ficarem cada vez mais pálidos. Eles não estavam encarando aquilo bem.
— Nas cartas você menciona algo chamado... Polifendador? O que pode me dizer sobre isso?
— Não fui eu que escrevi as cartas. Foi Emma — esclareci.
— Claro, então vamos mudar de assunto. Conte-me sobre Emma.
— Doutora, eu não acho uma boa ideia encorajar... — interrompeu minha mãe.
— Por favor, sra. Portman. — A dra. Spanger ergueu a mão. — Jake, conte-me sobre Emma. Ela é sua namorada?
Vi as sobrancelhas de meu pai se erguerem. Eu nunca tive uma namorada antes. Nem sequer tivera um encontro.
— Era, eu acho. Mas agora estamos meio que... dando um tempo.
A dra. Spanger anotou alguma coisa, depois bateu com a caneta no queixo.
— E quando você a imagina, como ela é?
Eu me encolhi na poltrona.
— O que a senhora quer dizer com “quando você a imagina”?
— Ah. — A dra. Spanger estreitou os lábios. Ela sabia que tinha falado besteira. — O que quero dizer é...
— Está bem, isso já foi longe demais — disse meu pai. — Sabemos que você escreveu essas cartas, Jake.
Eu quase pulei da cadeira.
— Você acha que eu fiz o quê? Essa nem é minha letra!
Meu pai pegou uma carta do bolso, a que Emma deixara para ele.
— Você escreveu esta, não foi? É a mesma letra.
— Essa foi Emma, também! Olhe, o nome dela está bem aí! — Tentei pegar a carta, mas meu pai a afastou.
— Às vezes queremos tanto uma coisa que a imaginamos como real — disse a dra. Spanger.
— Você acha que eu sou louco?! — gritei.
— Não usamos esta palavra neste consultório — disse a dra. Spanger. — Por favor, se acalme, Jake.
— E os carimbos postais nos envelopes? — falei, apontando para as cartas na mesa da dra. Spanger. — Elas vieram de Londres.
Meu pai deu um suspiro.
— Você teve aulas de Photoshop no último ano, Jakey. Posso ser velho, mas sei como é fácil falsificar esse tipo de coisa.
— E as fotos? Eu falsifiquei também?
— São do seu avô. Tenho certeza de já tê-las visto antes.
Agora minha cabeça estava girando. Eu me sentia exposto, traído e extremamente envergonhado. Então parei de falar, porque tudo o que eu dizia parecia apenas deixá-los mais convictos de que eu tinha perdido o juízo.
Fiquei ali sentado, furioso, enquanto eles falavam de mim como se eu não estivesse na sala. O novo diagnóstico da dra. Spanger era que eu tinha sofrido uma “ruptura radical da realidade” e que os tais “peculiares” faziam parte de um universo elaborado de alucinações que eu construíra para mim mesmo, completado por uma namorada inventada. Como eu era inteligente, por semanas eu conseguira ludibriar todo mundo a pensar que estava são, mas as cartas provavam que eu estava longe da cura, e podia ser até mesmo um perigo para mim mesmo. Ela recomendou que eu fosse internado em uma clínica para “reabilitação e monitoramento” com urgência, o que me pareceu o termo que os psiquiatras usam no lugar de “hospício”.
Eles tinham planejado tudo.
— Vai ser só por uma ou duas semanas — disse meu pai. — É um lugar muito agradável, de alto nível. Pense nisso como pequenas férias.
— Quero minhas cartas.
A dra. Spanger as guardou na pasta.
— Desculpe, Jake — disse ela. — Acreditamos que é melhor ficarmos com elas.
— Vocês mentiram para mim! — falei, e saltei sobre a mesa para tentar pegá-las, mas a dra. Spanger foi mais rápida e recuou com a pasta nas mãos.
Meu pai deu um grito e me agarrou, e, um segundo depois, dois de meus tios entraram pela porta. Eles estavam aquele tempo todo aguardando na sala de espera. Guarda-costas, caso eu tentasse fugir.
Eles me acompanharam pelo estacionamento até o carro. Meus tios iam morar conosco por alguns dias, explicou nervosamente minha mãe, até que vagasse um quarto para mim na clínica.
Eles estavam com medo de ficar sozinhos comigo. Meus próprios pais. Aí eles iam me mandar para um lugar onde eu seria problema de outra pessoa. A clínica. Como se eu fosse enfaixar um cotovelo machucado. Melhor chamar as coisas pelo verdadeiro nome: era um hospício, por mais caro que fosse. Não um lugar onde eu pudesse fingir engolir os remédios. Não um lugar onde eu pudesse fazer os médicos acreditarem em minhas histórias sobre estados dissociativos e perda de memória. Iam me dopar com antipsicóticos e soros da verdade até que eu lhes contasse tudo sobre o mundo peculiar, e, tendo isso como prova de que eu era incuravelmente louco, não teriam escolha senão me trancar em uma cela acolchoada e jogar a chave fora.
Eu estava muito ferrado.

* * *

Durante os dias seguintes, fui vigiado como um criminoso; sempre havia um tio ou outro parente a no máximo um aposento de distância. Todo mundo estava aguardando uma ligação da clínica. Era um lugar conhecido, eu acho, mas eu seria mandado para lá no minuto em que houvesse uma vaga, a qualquer momento.
— Vamos visitar você todo dia — garantiu minha mãe. — É só por algumas semanas, Jakey, eu prometo.
Só algumas semanas. Sei.
Tentei argumentar, implorei que contratassem um especialista em caligrafia, para que eu provasse que as cartas não eram minhas. Quando isso não deu certo, eu inverti completamente meu posicionamento. Admiti ter escrito as cartas (quando, é claro, eu não tinha feito isso), dizendo que, agora, eu percebia ter inventado tudo — não havia crianças peculiares, nem ymbrynes, nem Emma. Isso os agradou, mas não os fez mudar de ideia. Mais tarde, eu os ouvi sussurrando um com o outro e soube que, para assegurar uma vaga na lista de espera, eles tiveram que pagar antecipadamente pela primeira semana de clínica — que era muito cara. Não havia como voltar atrás.
Pensei em fugir. Roubar as chaves do carro e tentar escapar. Mas eu com certeza seria impedido, e as coisas ficariam ainda piores para mim.
Fantasiei com Emma vindo em meu resgate. Cheguei a escrever uma carta dizendo a ela o que havia acontecido, mas não tinha como enviá-la. Mesmo que eu pudesse ter escapado até a caixa de correio sem ser visto, o carteiro não ia mais à nossa casa. E se eu a alcançasse, que diferença faria? Eu estava preso no presente, longe de uma fenda. Ela não teria como me ajudar.
Na terceira noite, em desespero, roubei o telefone de meu pai (não me permitiam mais ter um) e o usei para mandar um e-mail para Emma. Antes de me dar conta de que ela não tinha o menor jeito com computadores, eu criara um endereço eletrônico para ela — garotadefogo1901@gmail.com —, mas ela era tão firmemente desinteressada que eu nunca escrevera para esse endereço.
Nem mesmo, lembrei, me dera ao trabalho de lhe contar a senha. Uma mensagem numa garrafa jogada no mar teria mais chances de alcançá-la, mas era a única opção que me restava.
A ligação aconteceu na noite seguinte: havia um quarto vago para mim.
Minhas malas estavam feitas. Não importava que fossem nove da noite, nem que aquela fosse uma viagem de duas horas de carro até a clínica: iríamos imediatamente.
Nós nos empilhamos na van. Meus pais foram na frente, e eu fui atrás esmagado entre meus tios, como se eles achassem que eu podia tentar saltar de um carro em movimento. Na verdade, talvez eu tivesse feito isso. Mas quando a porta da garagem se abriu com um barulhão e meu pai ligou o carro, a pouca esperança que eu ainda acalentava começou a definhar. Não havia mesmo como escapar daquilo. Eu não conseguiria convencê-los do contrário, nem fugir — a menos que eu conseguisse correr para Londres, o que teria exigido passaportes e dinheiro e todo tipo de coisas impossíveis. Não, eu teria que suportar aquilo. Mas peculiares tinham suportado coisas bem piores.
Saímos de ré da garagem. Meu pai acendeu os faróis; depois, ligou o rádio. A fala suave de um locutor enchia o carro. A lua nascia por trás das palmeiras que margeavam o jardim. Baixei a cabeça e fechei os olhos, tentando engolir o medo que estava me tomando. Talvez eu conseguisse me transportar para outro lugar. Talvez conseguisse desaparecer.
Começamos a andar, as conchas quebradas que pavimentavam nossa entrada de carros esfarelado sob as rodas. Meus tios falavam por cima de mim, alguma coisa sobre esportes, em uma tentativa de aliviar o clima. Eu me desliguei de suas vozes.
Não estou aqui.
Ainda estávamos na entrada de automóveis quando o carro parou de repente.
— Mas que droga é essa? — ouvi meu pai dizer.
Ele apertou a buzina e meus olhos se abriram de repente, e o que vi me convenceu de que eu conseguira ser transportado para um sonho. Ali, parados em frente a nosso carro, estavam todos os meus amigos peculiares. Emma, Horace, Enoch, Olive, Claire, Hugh e até Millard, e, à frente deles, com um casaco de viagem sobre os ombros e uma antiga bolsa de viagem de pano na mão, a srta. Peregrine.
— Mas que diabos está acontecendo? — perguntou um dos meus tios.
— É, Frank, o que é isso? — disse o outro.
— Não sei — respondeu meu pai, e baixou a janela. — Saiam da frente! — gritou.
A srta. Peregrine marchou até a porta dele.
— Não vamos, não. Saia do veículo, por favor.
— Quem diabos é você? — perguntou meu pai.
— Alma LeFay Peregrine, líder provisória do Conselho de Ymbrynes e mentora dessas crianças peculiares. Já nos encontramos antes, embora eu não espere que você se lembre. Crianças, digam olá.
Enquanto o queixo de meu pai caía e minha mãe começava a hiperventilar, as crianças acenaram, Olive levitou, Claire abriu a boca de trás, Millard fez uma volta (um traje sem corpo) e Emma acendeu uma chama na mão enquanto caminhava na direção da janela aberta de meu pai.
— Olá, Frank! — disse ela. — Meu nome é Emma. Sou uma grande amiga de seu filho.
— Viram? — falei. — Eu disse que eles eram reais!
— Frank, tire-nos daqui — gritou minha mãe, e lhe deu um tapa no ombro.
Até aquele momento, ele parecia congelado, mas aí apertou a buzina e enfiou o pé no acelerador, e conchas foram cuspidas pelos pneus traseiros, e o carro arrancou.
— PARE! — gritei enquanto corríamos na direção de meus amigos.
Eles saltaram para fora do caminho, todos menos Bronwyn, que simplesmente plantou os pés, estendeu os braços e segurou a frente do carro.
Paramos de súbito, as rodas girando inutilmente enquanto minha mãe e meus tios gritavam de terror.
O carro morreu. Os faróis se apagaram e o motor silenciou. Enquanto meus amigos cercavam o automóvel, tentei tranquilizar minha família.
— Está tudo bem, eles são meus amigos, não vão machucar vocês.
Meus tios desmaiaram, suas cabeças caíram sobre meus ombros, e os gritos de minha mãe aos poucos se reduziram a gemidos. Meu pai estava nervoso e de olhos arregalados.
— Isso é loucura, isso é loucura, isso é uma loucura completa — não parava de murmurar.
— Fiquem no carro — falei, e estendi o braço por cima de um tio inconsciente, abri a porta, rastejei por cima dele e saí.
Emma e eu nos unimos com força em um abraço atordoante. Eu mal conseguia falar.
— O que você está... como vocês...
Todo o meu corpo formigava. Com certeza ainda estava sonhando.
— Recebi sua carta elétrica! — disse ela.
— Meu... e-mail?
— Isso, seja lá como você chame! Quando não tive notícias suas, fiquei preocupada, aí me lembrei da caixa postal mecânica que você disse ter feito para mim. Horace conseguiu adivinhar a senha e...
— Viemos assim que soubemos — disse a srta. Peregrine, sacudindo a cabeça para meus pais, em reprovação. — Muito decepcionante, mas não de todo surpreendente.
— Viemos salvá-lo! — exclamou Olive. — Como você nos salvou!
— Estou muito feliz em ver vocês! — falei. — Mas vocês não precisam ir? Vão começar a envelhecer!
— Você não leu minhas duas últimas cartas? — perguntou Emma. — Eu expliquei tudo...
— Meus pais as pegaram. Foi por isso que eles surtaram.
— O quê? Que horror! — Ela olhou para meus pais. — Isso é roubo, sabiam?! Bem, não precisa se preocupar. Fizemos uma descoberta um tanto animadora!
— Você quer dizer que eu fiz uma descoberta excitante — ouvi Millard dizer. — Agradeçam a Perplexus. Levei dias para descobrir como levá-lo de volta para sua fenda usando a máquina complicada de Bentham. Durante esse tempo, Perplexus devia ter envelhecido. Mas não envelheceu. E mais: seu cabelo grisalho até ficou preto outra vez! Foi aí que percebi que algo havia acontecido com ele quando estava em Abaton conosco: sua idade verdadeira tinha sido reiniciada. Quando as ymbrynes desmoronaram a fenda, ela voltou o relógio dele, digamos assim, de modo que seu corpo ficou exatamente tão velho quanto parecia, em vez de sua idade real, de quinhentos e setenta e um anos.
— E não foi apenas o relógio de Perplexus que foi zerado — disse Emma, empolgada. — Mas o de todos nós! Todo mundo que estava em Abaton naquele dia!
— Aparentemente, é efeito colateral da destruição da fenda — disse a srta. Peregrine. — Uma fonte da juventude extremamente perigosa.
— Então isso quer dizer que vocês não vão envelhecer? Nunca?
— Bom, não mais rápido que você! — disse Emma, e eu ri. — Um dia de cada vez.
— Isso é... incrível! — falei, radiante, mas me esforçando para absorver tudo. — Você tem certeza de que eu não estou sonhando?
— Absoluta — disse a srta. Peregrine.
— Podemos ficar um pouco, Jacob? — pediu Claire, se aproximando de mim. — Você disse que podíamos vir a qualquer momento.
— Achei que podíamos tirar uns dias de férias para fazer isso — disse a srta. Peregrine antes que eu pudesse responder. — As crianças não sabem praticamente nada sobre o século XXI, e esta casa parece muito mais confortável que aquela ratoeira cheia de correntes de ar de Bentham. Quantos quartos tem?
— Hum... cinco, eu acho?
— Ah, vai servir. Vai servir muito bem.
— Mas e meus pais? E meus tios?
Ela olhou para o carro e acenou com a mão.
— Seus tios podem ter a memória apagada com facilidade. Em relação a seus pais, acredito que o copo já transbordou, como se diz. Eles terão que ser observados de perto por algum tempo, mantidos em rédea curta. Mas se há dois normais que podem ser convencidos de nosso modo de pensar, são os pais do grande Jacob Portman.
— E o filho e a nora do grande Abraham Portman — completou Emma.
— Vocês... vocês conheceram meu pai? — perguntou timidamente meu pai, olhando para nós pela janela do carro.
— Eu o amava como a um filho — disse a srta. Peregrine. — Assim como amo Jacob.
Papai piscou, em seguida balançou a cabeça lentamente, mas não achei que ele tivesse entendido.
— Eles vão ficar conosco por um tempo — falei. — Tudo bem?
Ele arregalou os olhos.
— É... hum... Acho melhor você perguntar a sua mãe.
Ela estava encolhida no banco do passageiro, as mãos cobrindo os olhos.
— Mãe? — chamei.
— Vão embora — disse ela. — Vão embora, todos vocês!
A srta. Peregrine se abaixou.
— Sra. Portman, olhe para mim, por favor.
Mamãe espiou entre os dedos.
— Você não está realmente aqui. Eu bebi vinho demais no jantar, só isso.
— Nós somos bem reais, garanto a você. E pode ser difícil acreditar nisso, agora, mas seremos amigas.
Minha mãe virou o rosto.
— Frank, mude de canal. Não gostei desse programa.
— Está bem, querida — disse meu pai. — Filho, acho que eu devia, hum... hã... — Então ele fechou os olhos, sacudiu a cabeça e subiu o vidro da janela.
— Tem certeza de que isso não vai derreter o cérebro deles? — perguntei à srta. Peregrine.
— Eles vão acabar entendendo — respondeu ela. — Alguns levam mais tempo que outros.

* * *

Voltamos a pé para casa, a lua nascendo brilhante, a noite quente e viva com vento e cigarras. Bronwyn empurrou o carro morto atrás de nós, com minha família ainda dentro. Caminhei de mãos dadas com Emma, minha mente girando com tudo o que havia acontecido.
— Uma coisa que não entendo — falei. — Como vocês chegaram aqui? E tão rápido?
Tentei visualizar uma menina com a boca na nuca e um menino com abelhas zumbindo ao seu redor passando pela segurança de um aeroporto. E Millard: será que o tinham escondido em um avião? Como eles sequer conseguiram passaportes?
— Tivemos sorte — disse Emma. — Um dos quartos de Bentham nos levou a uma fenda a apenas cento e cinquenta quilômetros daqui.
— Um pântano horroroso — disse a srta. Peregrine. — Crocodilos e água suja até os joelhos. Não sei o que meu irmão queria com aquele lugar. Enfim, de lá conseguimos efetuar nossa saída no presente, e aí foi só pegar dois ônibus e caminhar cinco quilômetros. A viagem inteira levou menos de um dia. Nem preciso dizer que estamos cansados e morrendo de sede.
Tínhamos chegado à varanda da frente. A srta. Peregrine me olhou com expectativa.
— Certo! Tem refrigerantes na geladeira, eu acho...
Enfiei a chave na porta e a abri.
— Hospitalidade, sr. Portman, hospitalidade! — disse a srta. Peregrine, passando por mim e entrando na casa. — Deixem os sapatos do lado de fora, crianças, não estamos mais no Recanto do Demônio!
Fiquei segurando a porta enquanto eles entravam atropeladamente, com sapatos enlameados e tudo.
— Sim, vai servir muito bem! — ouvi a srta. Peregrine dizer. — Onde é a cozinha?
— O que devo fazer com o carro? — perguntou Bronwyn, ainda parada junto do para-choque traseiro. — E com, hum... os normais?
— Pode botá-los na garagem — falei. — E talvez ficar de olho neles por um ou dois minutos.
Ela olhou para Emma e para mim, então sorriu.
— É claro.
Encontrei o controle para abrir a porta da garagem e apertei o botão.
Bronwyn empurrou para dentro o carro e meus pais atônitos, então Emma e eu fomos deixados sozinhos na varanda.
— Tem certeza de que podemos ficar? — disse Emma.
— Vai ser complicado, mas a srta. P. parece confiante.
— Quero saber se está bem com você. O modo como deixamos as coisas foi...
— Está brincando? Estou tão feliz em ver você que mal consigo falar.
— Então tudo bem. Você está sorrindo, por isso acho que acredito em você.
Sorrindo? Eu estava rindo como um bobo.
Emma deu um passo em minha direção. Passei os braços a seu redor. Nós nos abraçamos, meu rosto colado em sua testa.
— Eu nunca quis perder você — sussurrou ela. — Mas eu não via saída. Um rompimento parecia mais fácil que perder você em câmera lenta.
— Não precisa explicar. Eu entendo.
— Enfim, talvez, agora, não tenhamos que fazer isso. Ser só amigos. Se você não quiser.
— Talvez seja uma boa ideia. Só por um tempo.
— Ah — disse ela rapidamente, desapontada. — Claro...
— Não, o que quero dizer é... — Eu me afastei com delicadeza, olhando para ela. — Agora que temos tempo, podemos ir devagar. Posso convidar você para ir ao cinema... Podemos sair para passear... Você sabe, como pessoas normais.
Ela deu de ombros.
— Não sei muito sobre o que as pessoas normais fazem.
— Não é complicado — falei. — Você me ensinou a ser peculiar. Talvez agora eu possa ensinar você a ser normal. Quer dizer, tão normal quanto eu sei ser.
Ela ficou em silêncio por um instante. Então riu.
— Claro, Jacob. Isso parece bom. — Ela pegou minha mão, inclinou-se em minha direção e me deu um beijo no rosto. — Agora que temos tempo.
E me ocorreu, ali parado, só respirando com ela, o silêncio caindo à nossa volta, que aquelas podiam ser as duas palavras mais lindas do mundo.
Temos tempo.

24 comentários:

  1. luamara (_peculiar_)17 de abril de 2017 09:09

    Só uma palavra:PERFEITO

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  2. Queria saber o que aconteceu com o Linguarudo?

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    1. princesa de jade2 de maio de 2017 15:49

      pois é. acho que ele será uma bateria enquanto estiver vivo

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  3. princesa de jade2 de maio de 2017 15:47

    já acabou? cara, eu vou morrer, esse cara podia lançar mais um volume meu Deus

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  4. princesa de jade2 de maio de 2017 15:48

    gente que graça... passei esse cap inteiro quase chorando, cara per favore eu estou no colegio. imagina a cena kkkk

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    1. Somos duas kkkk
      Eu fiquei o tempo todo segurando o choro porque estou na faculdade e... começar a chorar seria meio estranho
      Por um minuto achei que o Jake iria mesmo ser internado 0.0

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  5. aaaaaa que fofinho

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  6. Será q ja conta como desafio do mês? Kkkkkk Fiquei com uma dúvida pra onde vão as almas dos peculiares agora?

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    1. Leu o livro todo em maio, Liv? Assim não vale, né! Kkkkk
      Bem, suponho que ela agora se dirperse pelo mundo, sei lá

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    2. Eu li os 3 livros em duas semanas karina kkk

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    3. Alguém sabe se vai ter uma continuação??? Por favor me responda se tiver..

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  7. Podia tanto ter a parte do Jacob conversando com seus pais depois disso, e logo todos reunidos juntos

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  8. Grifinoriana Maria Luisa16 de julho de 2017 19:55

    Fiquei triste pq acabou, ameiiiii o livro, queria uma continuaçao! Karynna te amo aqui na cidade de Natal RN você e os livros são o assunto das conversas na sala de aula: quem leu tal livro no blog de karynna? Qual é o proximo q vai ler? Obrigado karynna por nos possibilitar viajar a outros mundos sem sair do lugar! Vc e a nossa ymbryne ❤

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    1. Ownt, que lindo ❤ obrigada! *o*
      É ótimo saber que o blog é útil a vocês, e que tanta gente por aí leia! Muitas vezes é complicado encontrar gente que tenha o mesmo gosto literário que nós, então é uma sorte que você tenha amigos com quem conversar :3

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  9. é ingraçado como eu consegui ler os tres livros em uma semana

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  10. Lindoooooooo!!!!! Amei cada página 😍😍

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  11. Amei o livro!!! estava ma escola me segurando pra nao chorar quando o Jacob ia pro ospicio e quando os peculiares apareceram na frente do carro nao aguentei, berrei tanto que meus colegas acharam que tinha ficado maluca. Obrigada por isso Karina, quase nao tenho cindicoes de comprar um livro e amo ler voce tem me salvado a cada dia.

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  12. Peculiar que não está em uma fenda9 de setembro de 2017 23:23

    Pelo amor de tudo o que é peculiar! Amei! Mas podia ter uma continuação...

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  13. Deus do céu kkkkkk
    Eu li o cap de madrugada, sozinha, todo mundo dormindo, minha pessoa chorando q nem uma retardada...

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Boa leitura :)