10 de abril de 2017

Capítulo onze

A situação chegara ao ponto em que tudo dependia de uma pomba. Se terminaríamos a noite na segurança uterina dos cuidados de uma ymbryne ou parcialmente mastigados nas entranhas negras de um etéreo; se a srta. Peregrine seria salva ou se ficaríamos perdidos naquela paisagem infernal até que o tempo dela acabasse; se eu voltaria ou não a ver meus pais e minha casa... Tudo dependia de uma pomba magricela peculiar.
Fui até a frente do grupo, tentando sentir a presença de etéreos, mas era a pomba que nos conduzia, puxando a guia como um cão de caça seguindo um rastro. Obedientes como cordeirinhos, virávamos à esquerda e à direita quando ela tomava cada uma dessas direções, mesmo que isso significasse avançar aos tropeços por ruas cheias de crateras capazes de quebrar um tornozelo ou repletas dos esqueletos de prédios desmembrados — as barras de ferro irregulares à espreita, apontadas para nosso pescoço no escuro iluminado pelo brilho tremeluzente de incêndios.
Depois dos acontecimentos aterrorizantes daquela noite, eu chegara a um nível ainda maior de exaustão. Sentia pontadas estranhas na cabeça. Meus pés se arrastavam. O estrondo das bombas silenciara e as sirenes finalmente haviam sido desligadas. Será que todo aquele barulho apocalíptico era o que me mantinha acordado? O ar enfumaçado continuava agitado, mas com sons mais sutis: água vazando de tubulações rompidas, ganidos de um cachorro preso, vozes roucas gemendo pedidos de socorro. Às vezes, outros pedestres se materializavam do escuro, figuras fantasmagóricas fugidas de algum mundo inferior, os olhos reluzentes de medo e desconfiança, carregando nos braços objetos aleatórios: rádios, prata saqueada, uma caixa folheada a ouro, uma urna funerária. Mortos carregando mortos.
Chegamos a uma rua perpendicular, e a pomba parou, sem saber se ia para a esquerda ou para a direita. A menina murmurava palavras de estímulo:
— Vamos lá, Winnie. Você é uma boa pomba. Mostre o caminho.
Enoch se inclinou para perto da ave e murmurou:
— Se você não encontrar a srta. Wren, vai acabar assada em um espeto.
A ave levantou voo, puxando para a esquerda.
Melina olhou feio para Enoch.
— Você é um idiota.
— Eu obtenho resultados — retrucou ele.
Por fim, chegamos a uma estação de metrô. A ave nos conduziu pela entrada em arco até um saguão onde havia uma bilheteria, e eu estava prestes a comentar: “Ora, vamos de metrô, que ave esperta!” Então percebi que o local estava deserto, e a bilheteria, fechada. Seguimos em frente, apesar de parecer que não passaria qualquer trem naquela estação por um bom tempo. Passamos por um portão destrancado e seguimos por um corredor coberto de cartazes e lajotas lascadas, até uma escadaria em caracol. Ela descia e descia até as entranhas da cidade, movimentadas e iluminadas a eletricidade.
A cada patamar da escada, tínhamos que desviar de pessoas dormindo enroladas em cobertores: primeiro estavam sozinhas, depois encontramos grupos deitados como palitos de fósforo espalhados, e, em seguida, quando chegamos ao fundo, um mar de gente cobria toda a plataforma do metrô. Havia centenas de pessoas apertadas entre a parede e os trilhos, encolhidas no chão, jogadas nos bancos, afundadas em cadeiras dobráveis. Aqueles que não estavam dormindo ninavam bebês, liam, jogavam cartas, rezavam. Não estavam esperando um trem. Não havia trens vindo. Eram refugiados das bombas, e aquele lugar era seu abrigo.
Tentei sentir a presença de etéreos, mas havia rostos demais, sombras demais. A sorte, se ainda nos tivesse sobrado alguma, teria que nos proteger por um tempo.
Para que lado vamos agora?
Precisávamos de instruções da pomba, mas ela pareceu um pouco confusa — assim como eu, devia estar surpresa com a multidão —, então paramos e esperamos, ouvindo a respiração, os roncos e os resmungos das pessoas que murmuravam misteriosamente ao nosso redor.
Um instante depois, a pomba se aprumou e voou na direção dos trilhos, então chegou ao fim da coleira e voltou direto para as mãos de Melina, como um ioiô.
Fizemos a volta para passar pelas pessoas, andando na ponta dos pés até a beira da plataforma, depois pulamos no fosso onde ficavam os trilhos. Eles desapareciam no interior de um túnel que se abria nos dois lados da estação.
Fiquei muito apreensivo ao sentir que nosso futuro estava em algum lugar no interior de uma daquelas duas grandes bocas e escancaradas.
— Ah, espero que a gente não tenha que ir andando por ali — resmungou Olive.
— É claro que temos — retrucou Enoch. — Não podemos realmente chamar de férias enquanto não examinarmos todo o esgoto da cidade.
A pomba deu uma guinada para a direita. Seguimos pelos trilhos.
Saltei uma poça de óleo, e uma legião de ratos saiu correndo para longe de meus pés, o que fez Olive pular nos braços de Bronwyn com um gritinho. O túnel se abria à frente, escuro e ameaçador. Ocorreu-me que aquele seria um lugar muito ruim para encontrar um etéreo. Não havia paredes para escalar, casas onde se esconder ou tampas de tumba para fechar na cara deles. Era comprido e sem curvas, iluminado apenas por algumas lâmpadas vermelhas e fracas, dispostas em grandes intervalos.
Apertei o passo.
A escuridão se fechou à nossa volta.

* * *

Quando eu era pequeno, brincava muito de esconde-esconde com meu pai.
Era sempre eu quem me escondia, e ele procurava. Eu era muito bom nisso — basicamente porque, ao contrário da maioria das crianças de quatro ou cinco anos, tinha a habilidade peculiar de ficar extremamente quieto por longos períodos de tempo, além de também não sofrer de qualquer traço de qualquer coisa remotamente parecida com claustrofobia: conseguia me enfiar no menor espaço atrás de algum móvel e ficar lá por vinte ou trinta minutos sem fazer barulho, me divertindo horrores.
Por isso, era de se esperar que eu não tivesse problema com toda aquela escuridão e o espaço fechado. Ou, pelo menos, dava para supor que um túnel onde havia apenas trens e trilhos — e mais nada — seria mais fácil de lidar do que um que parecia uma cova, com todo tipo de monstruosidade surgindo ao longo do caminho. Mesmo assim, quanto mais avançávamos pelo túnel, mais eu era tomado por um medo desagradável e cada vez maior, uma sensação completamente diferente da provocada pelos etéreos. Era simplesmente um pressentimento ruim. Por isso, apressei a todos, indo o mais rápido que o mais lento de nós conseguia, pressionando Melina até ela gritar para que eu me afastasse. O fluxo permanente de adrenalina era o que mantinha minha profunda exaustão em suspenso.
Depois de uma longa caminhada e várias bifurcações, a pomba nos levou a uma seção de trilhos não utilizada, onde os dormentes estavam podres e deformados e o chão parecia coberto de poças de água parada. Os trens que passavam por túneis distantes geravam correntes de ar, como a respiração na garganta de uma criatura enorme.
Então, bem à nossa frente, surgiu um pontinho de luz. Era pequeno, mas crescia depressa.
— Trem! — gritou Emma.
Nós nos espalhamos, nos encostando nas paredes. Cobri os ouvidos, me preparando para o barulho ensurdecedor de uma locomotiva passando bem perto, mas não ouvi coisa alguma, só um ganido baixo e agudo, que eu tinha quase certeza de que vinha da minha cabeça. Quando a luz encheu o túnel e o brilho branco nos cercou, senti uma pressão repentina nos ouvidos, e a luz sumiu.
Nós nos afastamos da parede, tontos. Os trilhos e os dormentes pareciam novos, como se tivessem acabado de ser instalados. O túnel cheirava um pouco menos a urina. As luzes ao longo das paredes estavam mais claras, mas, em vez de fornecerem uma iluminação firme, tremeluziam — não eram lâmpadas elétricas, e sim lampiões a gás.
— O que aconteceu? — indaguei.
— Entramos em uma fenda temporal — explicou Emma. — Mas o que era aquela luz? Nunca vi nada igual.
— Toda entrada de fenda tem características únicas — interveio Millard.
— Alguém sabe onde estamos? — perguntei.
— Acho que na segunda metade do século XIX — respondeu Millard. — Antes de 1863 não havia metrô em Londres.
Atrás de nós surgiu outra luz, dessa vez acompanhada por uma lufada de vento e um ronco trovejante.
Trem! — gritou Emma mais uma vez, e era mesmo.
Nós nos jogamos contra as paredes quando ele passou, soltando fumaça em um turbilhão de barulho e luz. Parecia mais uma miniatura de locomotiva do que o metrô moderno. Tinha até um vagão para os funcionários — de onde um homem de barba negra e comprida, segurando um lampião, olhou para nós, surpreso, enquanto o trem desaparecia ao virar a curva seguinte.
O chapéu de Hugh fora arrancado da cabeça e esmagado. Ele foi apanhá-lo, mas viu que estava todo rasgado e o jogou no chão, irritado.
— Não gostei desta fenda — resmungou. — Estamos aqui há menos de dez segundos e ela já está tentando nos matar. Vamos fazer o que viemos fazer e ir embora.
— Eu não poderia estar mais de acordo — respondeu Enoch.
A pomba continuou a nos guiar pelos trilhos. Depois de mais ou menos dez minutos, ela parou, inclinando o corpo na direção do que parecia uma parede nua. Não conseguíamos entender por quê, até que olhei para cima e percebi uma porta parcialmente camuflada bem no local onde a parede tocava o teto, a quase dez metros de altura. Como não parecia haver outro meio de chegar lá, Olive tirou os sapatos e subiu flutuando até a porta para examiná-la de perto.
— Tem um cadeado — disse. — Um cadeado com senha.
Também havia um buraco enferrujado do tamanho de um pombo, no canto inferior da porta, mas aquilo não iria nos ajudar. Precisávamos saber a combinação.
— Alguém tem ideia de qual pode ser? — perguntou Emma.
Em resposta, apenas indiferença e olhares vazios.
— Nenhuma — disse Millard.
— Vamos ter que adivinhar — concluiu ela.
— Talvez seja o dia do meu aniversário — sugeriu Enoch. — Tente três-doze-noventa e dois.
— Por que alguém saberia o dia do seu aniversário? — indagou Hugh.
Enoch franziu o cenho.
— Apenas tente, por favor.
Olive girou os numerais do cadeado e tentou abri-lo.
— Sinto muito, Enoch.
— E o dia da fenda? — sugeriu Horace. — Nove-três-quarenta.
Essa também não funcionou.
— Não vai ser algo tão fácil de adivinhar, como uma data — comentou Millard. — Isso seria contrário ao objetivo de botar um cadeado.
Olive começou a tentar combinações aleatórias. Ficamos ali observando, mais ansiosos a cada tentativa frustrada. Enquanto isso, a srta. Peregrine saiu discretamente do casaco de Bronwyn e foi pulando até a pomba, que andava em círculos no limite da coleira, ciscando o chão. Quando a ave notou a srta. Peregrine, tentou fugir, mas a diretora a seguiu, emitindo um ruído baixo e vagamente ameaçador com a garganta.
A pomba bateu asas e voou até o ombro de Melina, fora do alcance da srta. Peregrine. A diretora ficou parada aos pés da menina, piando. Isso pareceu deixar a pomba extremamente nervosa.
— Srta. P., o que está aprontando? — indagou Emma.
— Acho que ela quer algo com a sua ave — falei para Melina.
— Se a pomba sabe o caminho, talvez saiba também a combinação — sugeriu Millard.
A srta. Peregrine se virou para ele e piou alto, depois olhou de volta para a pomba e piou ainda mais alto. A ave tentou se esconder atrás do pescoço de Melina.
— Talvez a pomba saiba a combinação, mas não como nos dizer — sugeriu Bronwyn. — Mas pode contar à srta. Peregrine, porque as duas falam a língua das aves, e aí a srta. Peregrine pode nos passar os números.
— Faça sua ave falar com a nossa — mandou Enoch.
— Sua ave é duas vezes o tamanho da Winnie, tem garras e um bico afiado — retrucou Melina, recuando. — Ela está com medo, e não é à toa.
— Não há motivo para ter medo — disse Emma. — A srta. P. nunca faria mal a outra ave. É contra o código das ymbrynes.
Os olhos de Melina se arregalaram, depois se estreitaram.
— Essa ave é uma ymbryne?
— Ela é nossa diretora! — exclamou Bronwyn. — Alma LeFay Peregrine.
— Vocês são cheios de surpresas, hein? — comentou Melina, então deu uma risada não muito amigável. — Se vocês têm uma ymbryne, por que precisam encontrar outra?
— É uma longa história — respondeu Millard. — Basta dizer que a nossa ymbryne precisa da ajuda que só outra ymbryne pode dar.
— Ponha logo a maldita pomba no chão, para que a srta. P. possa falar com ela! — mandou Enoch.
Finalmente, embora ainda relutante, Melina concordou.
— Vamos lá, Winnie, você é uma boa menina.
Ela tirou a pomba do ombro e a pousou delicadamente à sua frente, depois prendeu a corda com o pé, para que a ave não saísse voando.
Fizemos um círculo ao redor das aves para observar enquanto a srta. Peregrine ia na direção da pomba. A pobrezinha tentou correr, mas foi impedida pela coleira. A srta. Peregrine ficou cara a cara com a pomba, piando e chilreando. Foi como assistir a um interrogatório. A interrogada enfiou a cabeça embaixo da asa e começou a tremer.
Então a srta. Peregrine a bicou na cabeça.
— Ei! — ralhou Melina. — Pare com isso!
A pomba manteve a cabeça escondida e não reagiu, por isso a srta. Peregrine a bicou de novo, dessa vez com mais força.
— Já chega! — exclamou Melina.
Ela tirou o pé de cima da guia e se abaixou para pegar a pomba. No entanto, a srta. Peregrine cortou a corda que servia de coleira com um golpe rápido das garras, prendeu um dos pés da pomba com o bico e saiu andando, enquanto a pomba piava alto e se debatia.
Melina surtou.
— Volte aqui! — gritou, furiosa, prestes a correr atrás das aves, quando Bronwyn a segurou pelos braços.
— Espere! Tenho certeza de que a srta. P. sabe o que está fazendo...
A srta. Peregrine parou um pouco mais à frente, bem longe do alcance de qualquer um. A pomba se debatia, tentando escapar, e Melina se debatia para fugir de Bronwyn, as duas se esforçando em vão. A srta. Peregrine parecia esperar que a pomba se cansasse e desistisse, mas então ficou impaciente e começou a balançá-la no ar pela perna.
— Por favor, srta. P.! — gritou Olive. — A senhora vai matá-la!
Até eu estava quase correndo para acabar com aquilo, mas as aves eram um borrão de garras e bicos e ninguém conseguia chegar perto o bastante para separá-las. Gritamos e imploramos para que a srta. Peregrine parasse.
Finalmente, ela parou. A pomba escapou de seu bico e se levantou, cambaleante, tonta demais para voar. A srta. Peregrine piou com ela da mesma forma que fizera antes, e dessa vez a pomba arrulhou em resposta. Então a srta. Peregrine bateu com o bico no chão três vezes, depois dez, depois cinco.
Três-dez-cinco. Olive tentou a combinação. O cadeado se destrancou, a porta se abriu para dentro e uma escada de corda se desenrolou até o chão.
O interrogatório da srta. Peregrine funcionara. Ela fizera o necessário para ajudar a todos. Considerando isso, poderíamos perdoar seu comportamento — não fosse pelo que aconteceu em seguida. Ela pegou a pomba tonta pela perna outra vez e, aparentemente apenas por raiva, golpeou-a com força contra a parede.
Reagimos com uma expressão coletiva de horror. Fiquei tão chocado que perdi a fala.
Melina conseguiu escapar de Bronwyn e correu para pegar sua ave. A pomba estava imóvel, com o pescoço quebrado.
— Aves do céu, ela matou a pomba! — exclamou Bronwyn.
— Depois de tudo pelo que passamos para pegar essa coisa... — reclamou Hugh. — Vejam só.
— Vou pisar na cabeça da sua ymbryne! — gritou Melina, louca de raiva.
Bronwyn a segurou pelos braços outra vez.
— Não, não vai, não! Pare com isso!
— Sua ymbryne é uma selvagem! Se é assim que ela age, estamos em melhor situação com os acólitos!
— Retire o que disse! — gritou Hugh.
— Não! — retrucou Melina.
Os dois trocaram mais palavras duras. Quase caíram no tapa. Bronwyn segurava Melina, enquanto Emma e eu segurávamos Hugh, até que eles perderam as forças — mas não a raiva.
Ninguém conseguia acreditar no que a srta. Peregrine tinha feito.
— Qual é o problema? — indagou Enoch. — Era só uma pomba idiota.
— Não, não era — respondeu Emma, repreendendo a srta. Peregrine. — Aquela ave era uma amiga da srta. Wren. Tinha séculos de idade. Escreveram sobre ela nos Contos. Agora, está morta.
— Foi assassinada! — completou Melina, e cuspiu no chão. — É essa a palavra que usamos quando alguém mata alguma criatura sem motivo.
A srta. Peregrine bicava um parasita sob a asa, indiferente, como se não tivesse ouvido.
— Ela parece afetada por algo ruim — comentou Olive. — A nossa srta. Peregrine não é assim.
— Ela está mudando — explicou Hugh. — Está se tornando mais animal.
— Espero que ainda haja algo humano nela que possa ser resgatado — comentou Millard, sombriamente.
Todos pensamos o mesmo.
Deixamos o túnel pela escada, cada um perdido nos próprios pensamentos ansiosos.

* * *

Depois da porta havia uma passagem que levava a um lance de escadas, que, por sua vez, levava a outra passagem e a outra porta, que se abria para uma sala cheia de luz do dia e atulhada de roupas: araras, cabideiros e guarda-roupas cheios. Também havia dois biombos de madeira, atrás dos quais era possível se trocar, além de alguns espelhos de chão e uma bancada de trabalho sobre a qual estavam dispostas várias máquinas de costura e pedaços de tecido. Era meio butique, meio oficina. Um paraíso para Horace, que circulava pelo lugar exclamando:
— É o paraíso!
Melina observava ao fundo, emburrada, sem falar com ninguém.
— Que lugar é este? — perguntei.
— Uma sala de disfarces — respondeu Millard. — São lugares feitos para ajudar peculiares de visita a se misturarem com os normais desta fenda. — Ele apontou para uma ilustração emoldurada que mostrava como se usavam as roupas da época.
— Quando em Roma... — comentou Horace, avançando para uma arara de roupas.
Emma pediu a todos que se trocassem. Além de nos fazer passar por crianças comuns, roupas novas poderiam ajudar a despistar algum acólito que estivesse nos seguindo.
— Mas continuem usando os suéteres por baixo, para o caso de surgir mais algum problema.
Bronwyn e Olive experimentaram vestidos simples atrás do biombo. Troquei meu casaco coberto de cinzas, a calça manchada de suor e a jaqueta por um terno que, embora não combinasse com nada, pelo menos estava relativamente limpo. Na mesma hora me senti desconfortável, me perguntando como as pessoas passavam o tempo todo com roupas tão rígidas e formais e por tantos séculos.
Millard escolheu um conjunto elegante e se sentou em frente a um espelho.
— Como estou? — perguntou.
— Parece um garoto invisível de roupas — respondeu Horace.
Millard suspirou e ficou um pouco mais em frente ao espelho, para depois tirar a roupa e voltar a desaparecer.
A empolgação inicial de Horace já se esvaíra.


— A seleção é lamentável — reclamou. — As roupas que não estão carcomidas por traças foram remendadas com tecidos que não combinam! Já estou cansado de andar como um mendigo.
— Mendigos não chamam atenção — retrucou Emma, detrás do biombo. — Jovens cavalheiros de cartola, sim. — Ela surgiu com sapatos vermelhos sem salto e um vestido de mangas curtas que ia até pouco abaixo do joelho. — O que acham? — perguntou, girando para fazer o vestido rodar.
Parecia a Dorothy de O Mágico de Oz, só que mais bonita. Sem saber como dizer isso na frente de todo mundo, dei um sorriso constrangido e fiz sinal de positivo.
Emma riu.
— Gostou? Que pena — comentou, com um sorriso tímido. — Eu chamaria atenção demais com essa roupa.
Uma expressão de dor cruzou seu rosto, como se ela se sentisse culpada pela risada, por ter tido um momento de alegria considerando tudo o que acontecera conosco e tudo o que ainda precisava ser resolvido. Então, voltou para trás do biombo.
Eu também sentia: o medo, o peso dos horrores que tínhamos visto se repetindo infinitamente como em uma desagradável fenda temporal toda em minha mente. Mas não dá para se sentir mal o tempo todo, quis dizer. Rir não piora as coisas, assim como chorar não as melhora. Não significa que você não se importe ou que tenha esquecido. Só quer dizer que você é humana — mas eu também não sabia como dizer isso.
Quando reapareceu, ela estava com uma blusa que parecia um saco, com mangas rasgadas e uma saia reta e comprida que chegava aos pés. (Muito mais parecida com uma mendiga.) Mas não havia tirado os sapatos vermelhos. Emma nunca resistia a um toque de brilho, por menor que fosse.
— E isso? — indagou Horace, agitando uma peruca laranja e volumosa que encontrara. — Como isso vai ajudar alguém a “passar por normal”?
— Porque parece que o lugar para onde vamos é um circo — explicou Hugh, olhando para um cartaz na parede.
— Esperem um pouco! — exclamou Horace, juntando-se a Hugh abaixo do cartaz. — Eu já ouvi falar desse lugar! É uma antiga fenda turística.
— O que é uma fenda turística? — perguntei.
— Antigamente havia muitas delas, em todo o mundo peculiar — explicou Millard. — Tinham localizações estratégicas, em lugares e épocas de importância histórica. Havia uma espécie de excursão que era considerada parte essencial da criação de todo peculiar bem-educado. Isso foi há muitos anos, é claro, quando ainda era relativamente seguro viajar para o exterior. Eu não sabia que tinha sobrado alguma.
Então ele ficou quieto, perdido em lembranças de tempos melhores.
Quando terminamos de nos trocar, deixamos as roupas do século XX em uma pilha, seguimos Emma através de outra porta e saímos em um beco com pilhas de lixo e caixotes vazios. Reconheci os sons de um circo ao longe: o silvo arrítmico de um órgão de tubos, os gritos abafados de uma multidão. Mesmo com o nervosismo e a exaustão, senti uma pontada de entusiasmo. Aquele já tinha sido um local que recebia peculiares de todos os lugares. Meus pais nunca sequer tinham me levado à Disney.
Emma deu as instruções habituais:
— Fiquem juntos. Prestem atenção em mim e em Jacob, para ver se damos algum sinal. Não falem com ninguém e não olhem ninguém nos olhos.
— Como vamos saber para onde ir? — perguntou Olive.
— Teremos que pensar como ymbrynes — respondeu Emma. — Se você fosse a srta. Wren, onde se esconderia?
— Em qualquer lugar menos Londres? — sugeriu Enoch.
— Se alguém não tivesse simplesmente assassinado a pomba... — comentou Bronwyn, olhando irritada para a srta. Peregrine.
A diretora estava parada sobre as pedras arredondadas do calçamento, olhando para nós, mas ninguém queria tocá-la. Entretanto, precisávamos mantê-la fora de vista, por isso Horace voltou à sala de disfarces e pegou uma bolsa de brim. A srta. Peregrine não ficou muito animada com a ideia, mas, quando ficou claro que ninguém ia carregá-la — principalmente Bronwyn, que parecia revoltada com a diretora —, ela entrou sozinha e deixou que Horace fechasse a bolsa com uma tira de couro.

* * *

Seguimos o som inebriante do circo por um emaranhado de ruas lotadas, onde vendedores com carrocinhas de madeira anunciavam verduras, sacas de grãos empoeiradas e coelhos recém-abatidos; onde crianças e gatos magros ficavam à espreita, com olhos cheios de fome; e onde mulheres com rostos sujos e orgulhosos descascavam batatas agachadas na sarjeta, formando montinhos com as cascas. Apesar de nos esforçarmos muito para passarmos despercebidos, todos pareciam se virar para nos encarar: vendedores, crianças, mulheres, gatos e até mesmo os coelhos mortos de olhos leitosos que ficavam pendurados pelas pernas.
Mesmo usando as roupas novas e adequadas para a época, eu me sentia deslocado. Percebi que se misturar dependia tanto da performance quanto da roupa, e eu e meus amigos não andávamos com os ombros curvados nem mantínhamos o olhar baixo e furtivo como aquelas pessoas. Se eu quisesse me disfarçar com a mesma eficiência que os acólitos, teria que aperfeiçoar meus talentos de ator.
O barulho do circo foi ficando mais alto, e os cheiros, mais acentuados: carne bem-passada, castanhas torradas, fezes de cavalo, fezes humanas e fumaça de carvão, tudo misturado de forma tão nauseabunda e doce que até o ar parecia denso. Por fim, chegamos à grande praça onde o circo estava instalado — cheio de animação e movimento, repleto de pessoas e de tendas multicoloridas, com mais atividade do que meus olhos conseguiam captar de uma só vez. A cena inteira era um ataque a meus sentidos. Havia acrobatas, equilibristas, atiradores de facas, engolidores de fogo e artistas de rua de todo tipo. Um médico fajuto anunciava remédios patenteados, na traseira de uma carroça:
— Um tônico raro para fortificar as entranhas contra parasitas infecciosos, umidades insalubres e eflúvios malignos!
Em um palco adjacente, um apresentador vestido de casaca competia por atenção aos gritos, exibindo uma criatura de aspecto pré-histórico cuja pele cinza e toda enrugada pendia dos ossos. Precisei dos cerca de dez segundos que levamos para abrir caminho pela multidão diante do palco para reconhecer que era um urso. Seus pelos tinham sido raspados e ele fora amarrado a uma cadeira e vestido com roupas de mulher. Os olhos do animal estavam saltados. O apresentador sorria e fingia servir chá para ele, gritando:
— Senhoras e senhores! Apresento a moça mais bonita de todo o País de Gales!
Isso lhe valeu uma grande gargalhada da multidão. Eu meio que torcia para que o urso rompesse as correntes e o devorasse bem ali, na frente de todo mundo.
Para combater o efeito estonteante de toda aquela maluquice que parecia saída de um sonho, enfiei a mão no bolso e toquei o vidro liso de meu celular, fechando os olhos por um instante e murmurando para mim mesmo:
— Eu viajei no tempo. Isso é real. Eu, Jacob Portman, estou viajando no tempo.
Só isso já era bem surpreendente, mas talvez o mais surpreendente fosse o fato de que viajar no tempo não tinha destruído meu cérebro — que, por algum milagre, eu ainda não tinha ficado completamente louco e começado a discursar pelas esquinas. A psique humana era muito mais flexível do que eu imaginava, capaz de se expandir para conter todos os tipos de contradições e aparentes impossibilidades. Sorte minha.
— Olive! — gritou Bronwyn. — Saia já daí! — Virei-me e vi que ela puxava Olive para longe de um palhaço que se abaixara para conversar com a menina. — Já cansei de falar: nunca converse com normais!
Nosso grupo era bem grande, então mantê-lo unido podia ser um desafio, ainda mais em um lugar como aquele, cheio de distrações criadas justamente para fascinar crianças. Bronwyn agia como supervisora, voltando a juntar o grupo sempre que um de nós se desviava para examinar melhor uma barraquinha com cata-ventos ou balas fumegantes. Olive era a que se distraía com mais facilidade, quase sempre esquecendo que estávamos em perigo. Só era possível manter tantas crianças na linha porque, na verdade, elas não eram crianças — havia uma natureza mais velha em seu interior, combatendo e equilibrando os impulsos infantis. Com crianças de verdade, tenho certeza de que seria impossível.
Andamos sem rumo por um tempo, procurando qualquer um que se parecesse com a srta. Wren ou qualquer lugar onde parecesse possível haver peculiares escondidos. No entanto, tudo ali parecia peculiar — tudo naquela fenda temporal, com sua estranheza caótica, era a camuflagem perfeita para peculiares. Mesmo assim, porém, chamávamos a atenção das pessoas, que viravam a cabeça sutilmente quando passávamos. Comecei a ficar paranoico. Quantos ali à nossa volta eram espiões dos acólitos, ou mesmo acólitos? Eu estava ainda mais desconfiado do palhaço do qual Bronwyn afastara Olive. Ele não parava de surgir em meu campo de visão. Devíamos ter passado por ele cinco vezes em cinco minutos — o vimos parado na entrada de um beco, nos observando do alto de uma janela, vigiando nosso grupo de uma cabine fotográfica e até diante de uma pintura de uma paisagem rural bucólica, um contraste bizarro com seu cabelo bagunçado e a maquiagem malfeita. Ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo.
— Não é bom ficar em campo aberto desse jeito — falei para Emma. — Não podemos ficar andando em círculos. As pessoas estão começando a notar nossa presença. Palhaços.
— Palhaços? — indagou ela. — Bom, concordo com você, mas é difícil saber por onde começar, no meio de toda essa loucura.
— Deveríamos começar pelo que é sempre a parte mais peculiar de qualquer circo — sugeriu Enoch, enfiando-se entre nós. — Os shows paralelos. — Ele apontou para uma fachada alta e estreita na extremidade da praça. — Peculiares combinam muito bem com esses shows menores. É como leite e biscoitos. Ou etéreos e acólitos.
— Em geral, isso é verdade — respondeu Emma —, mas os acólitos também sabem disso. Tenho certeza de que não é se escondendo em lugares tão óbvios que a srta. Wren continua livre há tanto tempo.
— Você tem alguma ideia melhor? — indagou Enoch.
Não tínhamos, então mudamos de direção e rumamos para o espetáculo paralelo. Olhei para trás em busca do palhaço inconveniente, mas ele desaparecera na multidão.
No show secundário, um apresentador de circo mal-ajambrado gritava em um megafone, prometendo vislumbres dos “erros da natureza mais chocantes que a lei permitia exibir” por um preço módico. Era chamado de Congresso de Bizarrices Humanas.
— Parece alguns jantares aos quais fui convidado — comentou Horace.
— Algumas dessas “bizarrices” podem ser peculiares — sugeriu Millard. — Nesse caso, podem saber alguma coisa sobre a srta. Wren. Acho que vale o preço do ingresso.
— Mas não temos dinheiro — disse Horace, puxando do bolso uma moeda meio gasta.
— Desde quando pagamos para entrar nesse tipo de show? — indagou Enoch.
Seguimos Enoch até os fundos da atração paralela, onde a fachada que imitava uma parede dava lugar a uma tenda grande e surrada. Estávamos procurando aberturas para entrar quando uma ponta se abriu e um homem e uma mulher bem-vestidos saíram, o homem segurando a dama, que se abanava.
— Afastem-se! — gritou ele. — Essa mulher precisa de ar!
Um letreiro acima da abertura dizia: ENTRADA EXCLUSIVA PARA ARTISTAS.
Entramos por ali e fomos parados na mesma hora. Um garoto de aparência comum estava sentado em um banco estofado perto da entrada, aparentemente com alguma função oficial.
— Vocês são artistas? — indagou. — Não podem entrar se não forem.


Fazendo-se de ofendida, Emma respondeu:
— É claro que somos artistas.
Para provar, ela produziu uma pequena chama na ponta do dedo e a apagou no olho.
O menino deu de ombros, sem se impressionar.
— Então entrem.
Passamos por ele, piscando enquanto nossos olhos se ajustavam ao ambiente escuro. O show paralelo era um labirinto de lona de teto baixo — um único corredor, com iluminação dramática provida por tochas, que ia fazendo curvas bruscas a cada dez metros, de modo que a cada curva éramos confrontados com uma nova “abominação da natureza”. Um grupo de espectadores — alguns rindo, outros lívidos e trêmulos — passou por nós e seguiu na direção oposta.
As primeiras aberrações eram atrações padrão desses espetáculos paralelos, mas não exatamente peculiares: um homem “ilustrado”, coberto de tatuagens; uma mulher barbada que ria enquanto acariciava os longos fios que nasciam em seu queixo; um homem que furava o rosto com agulhas e enfiava pregos nas narinas com um martelo. Embora eu achasse isso bem impressionante, meus amigos — alguns dos quais já tinham viajado pela Europa em um espetáculo circense com a srta. Peregrine — mal continham os bocejos.
Sob uma faixa em que se lia O INCRÍVEL HOMEM FÓSFORO, um cavalheiro com centenas de lixas de caixas de fósforo coladas à roupa se batia contra um homem com a roupa coberta de palitos de fósforo, e chamas irrompiam sobre o peito do segundo homem, que balançava os braços fingindo pavor.
— Amadores — murmurou Emma, enquanto nos puxava para a atração seguinte.
As aberrações iam ficando progressivamente mais estranhas. Havia uma garota com um vestido longo e cheio de franjas que levava uma cobra gigante enrolada no corpo. O animal se mexia e dançava ao seu comando. Emma concordou que aquilo era ao menos ligeiramente peculiar, já que a habilidade de encantar serpentes era exclusiva dos syndrigasti. Contudo, quando ela mencionou a srta. Wren, a garota nos encarou indiferente, e a cobra sibilou e mostrou as presas, então seguimos em frente.
— Isso é perda de tempo — reclamou Enoch. — O tempo da srta. Peregrine está se esgotando e estamos aqui passeando pelo circo! Por que não comprar uns doces, para completar o dia?





Só havia mais uma aberração a ser vista, então seguimos em frente. O último palco estava quase vazio: tinha apenas um fundo liso, flores sobre uma mesinha e um letreiro montado sobre um cavalete que dizia: O MUNDIALMENTE FAMOSO HOMEM DOBRÁVEL.
Um assistente de palco surgiu, arrastando uma mala. Ele a deixou no chão e saiu do palco.
Uma multidão se reuniu. A mala permanecia ali, no meio do palco. As pessoas começaram a gritar: “Já está na hora!” e “Cadê a aberração?”.
A mala estremeceu, depois começou a se sacudir, balançando-se de um lado para o outro até cair de lado. O público se apertou perto do palco, atento. Os trincos se abriram, e, muito lentamente, a mala começou a se abrir. Dois olhos brancos espiaram a plateia lá de dentro. Então a mala se abriu um pouco mais e revelou um rosto: o rosto de um homem com bigode bem-aparado e pequenos óculos redondos, um homem que de algum modo se dobrara dentro de uma mala mais ou menos do tamanho do meu tronco.
O público irrompeu em aplausos, que aumentaram quando a aberração começou a se desdobrar, membro por membro, e saiu da mala impossivelmente pequena. Ele era alto e magro como um poste — tão assustadoramente magro que seus ossos pareciam prestes a romper a pele. Era um ponto de exclamação humano, mas se portava com tamanha dignidade que eu não conseguia rir dele.
O homem examinou a plateia barulhenta com gravidade, antes de fazer uma reverência profunda.
Ele então levou um minuto para demonstrar como seus membros podiam se dobrar de várias maneiras exóticas. O joelho se dobrava até a ponta do pé tocar a pelve, a bacia se dobrava de modo que o joelho tocasse o peito. Depois de mais aplausos e reverências, o show terminou.
Ficamos por ali enquanto o público ia embora. O homem dobrável estava deixando o palco quando Emma se virou para ele e perguntou:
— O senhor é peculiar, não é?
O homem parou e se virou lentamente para encará-la, com ar de aborrecimento altivo.
— Perdão? — indagou, com forte sotaque russo.
— Desculpe por ser tão direta, mas precisamos encontrar a srta. Wren — explicou Emma. — Sabemos que ela está aqui em algum lugar.
! — exclamou o homem, dispensando-a com algo que soava a meio caminho de um riso e um escarro.
— É uma emergência! — suplicou Bronwyn.
O homem dobrável cruzou os braços em um X ossudo e declarou:
— Não saber do que estão falando.
Então deixou o palco.


— E agora? — perguntou Bronwyn.
— Vamos continuar procurando — respondeu Emma.
— E se não encontrarmos a srta. Wren? — indagou Enoch.
Vamos continuar procurando — respondeu Emma, entre dentes. — Todo mundo entendeu?
Todo mundo tinha entendido muito bem. Estávamos sem opções. Se aquilo não funcionasse, se a srta. Wren não estivesse ali ou se não conseguíssemos encontrá-la logo, todo o nosso esforço teria sido em vão. A srta. Peregrine estaria tão perdida quanto se nunca tivéssemos sequer chegado a Londres.
Saímos do local dos shows por onde havíamos entrado, passando desanimados e cabisbaixos pelos palcos vazios e pelo menino de aparência comum, e mergulhamos na luz do dia. Estávamos parados em frente à saída, sem saber ao certo o que fazer, quando o garoto de aparência ordinária surgiu de trás de uma lona.
— Qual é o problema? — perguntou. — Não gostaram do show?
— Foi... bom — respondi, dispensando-o.
— Não foi peculiar o bastante para vocês? — perguntou o menino.
Isso chamou nossa atenção.
— O que você disse? — perguntou Emma.
— Wakeling com Rookery — disse o garoto, apontando para o outro lado da praça atrás de nós. — É lá que fica o verdadeiro espetáculo.
Então deu uma piscadela e voltou para dentro da tenda.
— Isso foi misterioso — comentou Hugh.
— Ele disse peculiar? — perguntou Bronwyn.
— O que é Wakeling e Rookery? — indaguei.
— Um lugar — respondeu Horace. — Deve ser um lugar nesta fenda.
— Pode ser o cruzamento de duas ruas — sugeriu Emma, e puxou a ponta da lona para confirmar com o menino, mas ele sumira.
Saímos pela multidão na direção da extremidade da praça para onde ele apontara, nosso último fio de esperança preso a duas ruas de nome estranho que sequer tínhamos certeza de que existiam.

* * *

Em determinado local, algumas quadras depois da praça, o barulho da multidão diminuía e o cheiro forte de carne assando e fezes de animais tinha sido substituído por um fedor muito pior e inominável. Depois de cruzar um rio de lama escura com as margens muradas, entramos em um bairro de fábricas e oficinas, onde chaminés expeliam fumaça negra no céu. Foi lá que encontramos a rua Wakeling. Escolhemos uma direção e a seguimos, procurando a rua Rookery, até que o caminho terminou em um grande esgoto a céu aberto, que Enoch disse ser o rio Fleet. Então fizemos a volta e caminhamos no sentido oposto. Depois de passarmos o ponto onde havíamos começado, a rua ficou sinuosa e cheia de curvas, com fábricas e oficinas encolhidas, transformadas em escritórios baixos e prédios discretos, de fachadas simples e sem letreiros, como uma área que tivesse sido criada deliberadamente para o anonimato.
A sensação ruim que eu acalentava piorou. E se tivessem armado uma emboscada, enviando-nos para aquela parte deserta da cidade para sermos pegos fora de vista?
A rua fez uma curva e virou reta outra vez. Ao dobrá-la, eu me choquei contra Emma, que ia caminhando na minha frente mas parara de repente.
— Qual é o problema? — indaguei.
Em vez de responder, ela só apontou. Havia uma multidão mais adiante, em um entroncamento com uma rua perpendicular. Apesar de estar extremamente quente lá atrás, no circo, muitas pessoas usavam casacos e cachecóis, reunidas ao redor de um prédio, olhando para cima pasmas e maravilhadas — exatamente como estávamos. O prédio em si não tinha nada de diferente: quatro andares, os três mais altos apenas fileiras de pequenas janelas arredondadas, como um velho prédio comercial. Na verdade, era quase idêntico a todos os outros prédios à volta, mas com uma exceção: estava totalmente coberto de gelo, que revestia as janelas e portas. Pingentes de gelo pendiam como presas de todos os batentes de janela ou saliências na parede. Jorrava neve das portas, amontoando-se em pilhas gigantescas na calçada. Parecia que o local fora atingido por uma nevasca — uma nevasca que viera de dentro.
Examinei uma placa de rua parcialmente coberta pela neve: ...UA R...KERY.
— Eu conheço esse lugar — declarou Melina. — É o arquivo de peculiares, onde ficam nossos registros oficiais.
— Como você sabe disso? — indagou Emma.
— A srta. Thrush estava me preparando para ser a segunda assistente da ouvidoria daqui. Mas as provas são muito difíceis. Estou estudando há vinte e um anos.
— Mas o prédio é assim mesmo, coberto de gelo? — perguntou Bronwyn.
— Não que eu saiba — respondeu Melina.
— Também é onde o Conselho de Ymbrynes se reúne para a tarefa anual de esmiuçar os regulamentos — acrescentou Millard.
— O Conselho de Ymbrynes se reúne aqui? — inquiriu Horace. — É um lugar bem simplório. Eu esperava um castelo ou algo do tipo.
— A ideia é não chamar atenção — explicou Melina. — Ninguém deveria nem reparar no prédio.
— Então estão se saindo muito mal nisso — declarou Enoch.
— Como eu disse, o lugar em geral não fica coberto de gelo.
— O que acha que aconteceu aqui? — perguntei.
— Nada de bom — respondeu Millard. — Nada de bom, mesmo.
Não havia dúvidas de que tínhamos que nos aproximar e explorar, mas isso não significava que precisávamos ir correndo. Esperamos, observando à distância. As pessoas passavam de um lado para o outro. Alguém tentou abrir a porta, mas estava fechada e congelada. A multidão foi diminuindo.
— Tique-taque, tique-taque, tique-taque — murmurou Enoch. — Estamos perdendo tempo.
Abrimos caminho pelo que restava da multidão e subimos na calçada congelada. O prédio emanava frio. Tremendo, enfiamos as mãos nos bolsos para nos proteger da temperatura baixa. Bronwyn usou sua força para abrir a porta, que se soltou do portal, as dobradiças voando para longe. Entretanto, o saguão para o qual ela abria estava completamente obstruído pelo gelo, que o cobria de parede a parede, do chão ao teto, penetrando no prédio em um borrão azul indistinto. O mesmo ocorria com as janelas: limpei o gelo de um dos painéis de vidro, depois de outro, e reparei que só dava para ver gelo através de ambos. Era como se uma geleira estivesse nascendo em algum ponto no centro daquele prédio e suas línguas congeladas estivessem se espremendo e se projetando para onde quer que houvesse uma abertura.
Tentamos tudo o que conseguimos pensar em fazer para entrar. Demos a volta no prédio em busca de uma porta ou janela que não estivesse bloqueada, mas todas as entradas em potencial estavam cheias de gelo. Pegamos pedras e tijolos soltos e tentamos quebrar a parede de água congelada, mas era de uma dureza quase sobrenatural. Nem mesmo Bronwyn conseguiu escavar mais do que alguns centímetros. Millard consultou os Contos em busca de alguma menção ao prédio, mas não havia; não havia segredo para ser desvendado.


Por fim, resolvemos assumir um risco calculado. Formamos um semicírculo ao redor de Emma, para que ninguém a visse, então ela aqueceu as mãos e as apoiou na parede de gelo que enchia o saguão. Um instante depois, as mãos de Emma começaram a afundar no gelo e a água derretida começou a escorrer e formar uma poça ao redor de nossos pés. No entanto, o progresso era terrivelmente lento: depois de cinco minutos, o buraco tinha apenas a profundidade de seus cotovelos.
— Nesse ritmo, levaremos o restante da semana só para entrar no prédio — comentou ela, baixando as mãos.
— Você realmente acha que a srta. Wren está aí dentro? — indagou Bronwyn.
— Ela tem que estar — respondeu Emma, com firmeza.
— Acho esse otimismo contagiante simplesmente surpreendente — reclamou Enoch. — Se a srta. Wren estiver aí dentro, está congelada e sólida como uma pedra de gelo.
Emma explodiu com ele.
— O profeta da desgraça! O que traz ruína e destruição! Acho que você ficaria feliz se o mundo acabasse amanhã, só para poder dizer “Eu avisei”!
Enoch olhou para ela, surpreso, então respondeu, com toda a calma:
— Você pode viver em um mundo de fantasia se quiser, minha querida. Eu sou realista.
— Se pelo menos uma vez o que saísse da sua boca não fossem críticas — retrucou Emma —, se pelo menos uma vez você nos desse uma sugestão útil durante uma crise, em vez de dar de ombros diante da perspectiva de fracasso e morte, talvez eu fosse capaz de tolerar seu mau humor permanente! Mas do jeito que as coisas estão...
— Já tentamos de tudo! — exclamou Enoch. — O que eu poderia sugerir?
— Tem uma coisa que ainda não tentamos — interveio Olive, falando baixinho atrás de todos nós.
— E o que é? — inquiriu Emma.
Olive resolveu mostrar, em vez de dizer. Ela saiu da calçada, juntou-se à multidão e se virou para encarar o prédio. Então chamou, gritando com toda a força:
Srta. Wren, se estiver aí, por favor, saia! Precisamos de...
Antes que ela conseguisse terminar, Bronwyn a agarrou. O restante da frase foi dito para a axila da garota mais velha.
— Ficou maluca? — indagou Bronwyn, trazendo Olive de volta até nós embaixo do braço. — Desse jeito você vai expor todos nós!
Ela deixou Olive na calçada e estava prestes a repreendê-la ainda mais quando as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto da garotinha.
— E daí se formos descobertos? — indagou Olive. — Se não conseguirmos achar a srta. Wren e não pudermos salvar a srta. Peregrine, que diferença faz se todo o exército dos acólitos vier atrás da gente?
Uma senhora se afastou da multidão e se aproximou de nosso grupo. Era bem velha, com as costas curvadas pela idade e o rosto parcialmente encoberto pelo capuz de uma capa.
— Ela está bem? — perguntou a senhora.
— Está sim, obrigada — respondeu Emma, dispensando a mulher.
— Não estou, não! — exclamou Olive. — Nada está bem! Só queríamos viver em paz na nossa ilha, mas as coisas ruins vieram e machucaram nossa diretora. Agora só queremos ajudá-la, mas não conseguimos fazer nem isso!
Olive baixou a cabeça e começou a chorar de um jeito que dava pena.
— Bem, então é muito bom que vocês tenham vindo me ver — respondeu a mulher.
Olive ergueu os olhos, fungou e disse:
— Por quê?
A velha desapareceu.
Assim, de repente.
Ela desapareceu, deixando as roupas. A capa, de repente vazia, caiu na calçada com um ruído surdo. Estávamos surpresos demais para falar — até que um passarinho saiu pulando de sob as dobras da capa.
Congelei, sem saber se deveria tentar pegá-lo.
— Alguém sabe que tipo de passarinho é esse? — perguntou Horace.
— Eu acho que é uma cambaxirra — respondeu Millard.
O passarinho bateu asas, saiu voando, fez a volta no prédio e desapareceu.
— Não a percam de vista! — gritou Emma.
Todos nós saímos correndo atrás do pássaro, deslizando e escorregando pelo gelo, virando a esquina e entrando no beco cheio de neve que havia entre o prédio congelado e o outro ao lado.
A ave desaparecera.
— Droga! — exclamou Emma. — Aonde ela pode ter ido?
Ouvimos uma série de sons estranhos vindos do chão sob nós: um clangor metálico, vozes e um ruído que lembrava a descarga de um vaso sanitário.
Afastamos a neve com os pés e encontramos duas portas de madeira entre os tijolos. Parecia a entrada de um depósito de carvão.
As portas não estavam trancadas, e nós as abrimos. Lá dentro, encontramos uma escadaria que mergulhava na escuridão. Os degraus estavam cobertos de um gelo que derretia depressa, e a água escoava ruidosamente por um ralo invisível.
Emma se agachou e gritou para a escuridão:
— Oi? Tem alguém aí?
— Se vocês forem vir — respondeu uma voz ao longe —, é melhor virem depressa!
Emma se levantou, surpresa, e gritou:
— Quem é você?
Esperamos uma resposta. Nada.
— O que estamos esperando? — indagou Olive. — É a srta. Wren!
— Não temos certeza disso — retrucou Millard. — Não sabemos o que aconteceu aqui.
— Bem, eu vou descobrir — declarou Olive, e, antes que alguém pudesse detê-la, foi até as portas, pulou lá para dentro e flutuou suavemente até o fundo. — Ainda estou viva! — provocou, a voz vindo da escuridão.
Envergonhados, fomos forçados a segui-la. Descemos os degraus até encontrar uma passagem em túnel através do gelo. Pingos de água congelante caíam do teto e escorriam pelas paredes. Não era completamente escuro, afinal: uma luz diáfana brilhava do outro lado de uma curva, na passagem à frente.
Ouvimos passos se aproximando. Uma sombra se elevou na parede à nossa frente. Em seguida, uma figura encapuzada surgiu na curva da passagem, formando uma silhueta contra a luz.
— Olá, crianças — disse a figura encapuzada. — Eu sou Balenciaga Wren. Estou muito contente que estejam aqui.

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Boa leitura :)