5 de abril de 2017

Capítulo onze

Marchamos pela trilha íngreme e descemos a encosta do outro lado da colina como uma companhia de veteranos de guerra exaustos, em fila indiana e com a cabeça baixa. Bronwyn carregava Millard nos braços e a srta. Peregrine se acomodara na coroa que lembrava um ninho nos cabelos de Fiona. A paisagem estava marcada por crateras fumegantes e terra revirada espalhada por todo lado, como se um cachorro gigante tivesse passado por ali e cavado loucamente.
Todos nós nos perguntávamos o que nos aguardava na casa, mas ninguém ousava falar nada.
Tivemos nossa resposta antes mesmo de sair da floresta. Enoch chutou algo e se abaixou para ver o que era: um tijolo meio chamuscado.
O pânico foi imediato, e as crianças saíram correndo pela trilha. Quando chegaram ao jardim, seus piores temores se confirmaram: a bomba não tinha parado sobre o dedo de Adam como costumava fazer. Ela continuou a cair, cortou-o ao meio e explodiu. Um dos cantos da parte de trás da casa estava reduzido a ruínas, uma pilha fumegante de destroços. Pequenos focos de incêndio queimavam na casca chamuscada que restara de dois quartos. Onde ficava Adam, havia uma grosseira cratera profunda o bastante para enterrar uma pessoa de pé em seu interior. Agora era fácil visualizar em que esse lugar ia se transformar um dia: a paisagem decrépita que eu descobrira algumas semanas antes. A casa do pesadelo.
A srta. Peregrine saltou dos cabelos de Fiona e começou a correr sem rumo pela grama queimada, piando e gritando alarmada.
— Diretora, o que foi? — disse Olive. — Por que a transformação não aconteceu?
A srta. Peregrine só conseguia piar em resposta. Ela parecia tão perdida e assustada quanto o resto de nós.
— Por favor, volte ao que era antes! — implorou Claire, ajoelhando-se diante dela. — Por favor, ajude-nos!
A srta. Peregrine agitou as asas, pulou e pareceu estar fazendo esforço, mas ainda permanecia uma ave. As crianças se reuniram ao seu redor, preocupadas.
— Tem alguma coisa errada — disse Emma. — Se ela pudesse virar humana, já teria feito isso a essa hora.
— Talvez seja essa a razão da falha na fenda de tempo — sugeriu Enoch. — Lembram daquela história antiga sobre a senhorita Kestrel,3 de quando andava de bicicleta e foi atropelada? Ela bateu com a cabeça e permaneceu na forma de ave por uma semana inteira. Foi quando a fenda de tempo dela falhou.
— O que isso tem a ver com a senhorita Peregrine?
Enoch deu um suspiro.
— Talvez ela tenha só machucado a cabeça e temos apenas que esperar uma semana até ela recuperar os sentidos.
— Um caminhão correndo é uma coisa — disse Emma. — Sofrer na mão de acólitos é completamente diferente. Não temos como saber o que o filho da mãe fez com a senhorita Peregrine antes que a gente chegasse lá.
— Acólitos? No plural?
— Foram acólitos que levaram a senhorita Avocet — disse eu.
— Como sabe disso? — perguntou Enoch.
— Eles estavam trabalhando com Golan, não estavam? Eu vi os olhos de um que atirou em nós. Não há dúvida.
— Ela já era — disse Hugh. — Com certeza vão matá-la.
— Talvez não — retruquei. — Pelo menos não imediatamente.
— Se tem uma coisa que eu sei sobre acólitos — disse Enoch —, é que eles matam peculiares. É a natureza deles. É o que fazem.
— Não, Jacob tem razão — disse Emma. — Antes de morrer, o acólito nos contou por que estavam sequestrando tantas ymbrynes. Eles vão obrigá-las a recriar a reação que originalmente criou os etéreos, só que maior. Muito maior.
Todos ficaram em silêncio quando compreenderam o que aquilo significava. Alguém começou a chorar. Olhei ao redor à procura da srta. Peregrine e a vi empoleirada, triste e desamparada, à beira da cratera de Adam.
— Precisamos detê-los — disse Hugh. — Temos de descobrir para onde estão levando as ymbrynes.
— Como? — perguntou Enoch. — Seguindo um submarino?
Alguém atrás de mim pigarreou com força para chamar atenção e nos viramos para ver Horace sentado no chão de pernas cruzadas.
— Eu sei para onde eles estão indo — disse em voz baixa.
— Como assim, você sabe?
— Não interessa como ele sabe, ele sabe — disse Emma. — Para onde a estão levando, Horace?
Ele sacudiu a cabeça.
— Não sei o nome — respondeu ele —, mas eu já vi o lugar.
— Então faça um desenho — falei.
Ele pensou por um instante, levantou-se e parou. Com o aspecto de um pastor pobre naquele terno preto em farrapos, ele se arrastou até uma pilha de cinzas que caíra do buraco na casa e se abaixou para apanhar um punhado de fuligem. Então, sob a suave luz da lua, começou a pintar sobre uma parede destruída, com largas pinceladas de cinza.
Nós nos juntamos em volta dele para ver. Ele fez uma fileira de listras encimadas por espirais estreitas, como cercas de arame farpado. De um lado, havia a mancha de uma floresta escura. Havia neve no chão desenhado em negro. E era tudo.
Quando ele terminou, afastou-se e sentou na grama dura com uma expressão vazia e distante nos olhos. Emma o segurou gentilmente pelo ombro e disse:
— Horace, o que mais você sabe sobre esse lugar?
— É um lugar frio.
Bronwyn se aproximou para estudar os traços feitos por Horace. Ela segurava Olive nos braços, e a cabeça da garotinha descansava de modo terno em seu ombro.
— Para mim parece uma prisão — disse Bronwyn.
Olive levantou a cabeça.


3 Espécie de gavião. (N. T.)


— E então? — disse com sua vozinha de criança. — Quando partiremos?
— Para onde? — disse Enoch, jogando os braços para cima. — Isso não passa de um monte de rabiscos!
— É em algum lugar — disse Emma, virando-se para encará-lo.
— Não podemos simplesmente ir a um lugar onde tenha neve e procurar uma prisão.
— E também não podemos ficar aqui.
— Por que não?
— Olhe para o estado deste lugar. Olhe para a diretora. Passamos uma época muito boa aqui, mas acabou.
Enoch e Emma ficaram indecisos por um tempo. As pessoas tomaram partido. Enoch argumentava que estavam havia tempo demais fora do mundo, que seriam mortas na guerra ou apanhadas por acólitos, e que era melhor arriscar a sorte ali mesmo, onde pelo menos conheciam o território. Os outros insistiam que a guerra e os etéreos tinham vindo atrás deles agora, e que não havia opção: os acólitos e os etéreos iam voltar atrás da srta. Peregrine, em número muito maior. E havia a própria srta. Peregrine para ser levada em conta.
— Vamos encontrar outra ymbryne — sugeriu Emma. — Se alguém pode saber como ajudar a diretora, é uma de suas amigas.
— Mas e se todas as outras fendas tiverem sido fechadas também? — disse Hugh. — E se todas as ymbrynes já tiverem sido sequestradas?
— A gente não pode pensar assim. Deve ter sobrado alguma.
— Emma tem razão — disse Millard, deitado no chão com um pedaço arrancado da parede da casa como travesseiro. — Se a alternativa é ficar sentado e só torcer para que não apareçam mais etéreos e a diretora melhore, eu digo que não temos alternativa.
Os dissidentes finalmente ficaram constrangidos e concordaram. A casa seria abandonada. Íamos empacotar nossos pertences. Precisaríamos requisitar alguns barcos na baía para nos transportar e de manhã todos partiriam.
Perguntei a Emma como eles iam se orientar. Afinal, nenhuma das crianças tinha saído da ilha em quase oitenta anos, e a srta. Peregrine não podia falar, nem mesmo voar.
— Existe um mapa — ela me contou, e virou a cabeça devagar para olhar a casa fumegante. — Quero dizer, se não foi queimado.
Eu me ofereci para ajudá-la a encontrá-lo. Enrolamos roupas molhadas sobre o rosto e nos aventuramos no interior da casa, entrando pela parede demolida. As janelas estavam estilhaçadas, o ar cheio de fumaça, mas com a luz brilhante da chama na mão de Emma conseguimos chegar à biblioteca. Todas as prateleiras tinham caído umas sobre as outras como dominós, mas nós as empurramos para o lado e procuramos entre os livros espalhados pelo chão, bem agachados para evitar o pior da fumaça. Tivemos muita sorte. Foi fácil achar o livro. Era o maior da biblioteca. Emma soltou um grito de alegria e o ergueu no ar.
Na saída, encontramos álcool, láudano e ataduras apropriadas para Millard.
Assim que acabamos de limpar e fazer um curativo no ferimento, sentamos para examinar o livro. Era mais um atlas do que um mapa, encadernado em couro forrado e tingido de vinho-escuro, cada página cuidadosamente ilustrada à mão sobre o que parecia pergaminho. Era muito bonito e muito antigo, e grande o suficiente para cobrir as pernas de Emma.
— Chama-se o Mapa dos Dias — disse Emma. — Ele mostra todas as fendas cuja existência é conhecida.
A página à nossa frente parecia ser um mapa da Turquia, apesar de não haver a indicação de estradas nem fronteiras desenhadas. Em vez disso, o mapa  tinha pequenas espirais espalhadas por ele, que percebi serem a localização das fendas de tempo. No centro de cada uma havia um símbolo único que correspondia a uma legenda no pé da página, onde os símbolos reapareciam ao lado de uma lista de números separados por travessões. Apontei para um onde se lia 29-3-316/?-?-399 e disse:
— O que é isso, algum tipo de código?
Emma passou o dedo sobre o local da fenda.
— Esta fenda era o dia 29 de março do ano 316 d.C. — explicou. — Ela existiu até algum momento no ano 399, apesar de a data certa ser desconhecida.
— O que aconteceu em 399?
Ela deu de ombros.
— Não diz.
Estiquei o braço por cima do livro e virei a página. Era um mapa da Grécia, ainda mais cheio de espirais e números.
— Mas qual o sentido de registrar todas elas? — perguntei. — Como vocês poderiam chegar a essas fendas antigas?
— Saltando entre as fendas — respondeu Millard. — É uma coisa muito difícil e perigosa de se fazer, mas, quando saltamos de uma fenda para outra, para um dia há cinquenta anos, por exemplo, você vê que tem acesso a todas as fendas extintas nos últimos cinquenta anos, se tiver os meios necessários para fazê-lo. Dentro delas, há outras fendas, e isso segue se multiplicando.
— Isso é viajar no tempo — disse eu, assombrado. — Viajar no tempo de verdade.
— Acho que é, sim.
— Então esse lugar... — disse eu, apontando para a pintura feita por Horace com cinzas na parede. — Não basta descobrir onde fica, mas também temos de saber quando?
— Infelizmente, sim, e se a senhorita Avocet está mesmo nas mãos dos acólitos, que são conhecidos praticantes do salto entre fendas, então é extremamente provável que o lugar para onde ela e as outras ymbrynes foram levadas seja em algum ponto do passado. Assim seria muito mais difícil encontrar nossos inimigos, e ainda mais perigoso chegar lá. A localização dessas fendas históricas é bem conhecida deles, que costumam ficar à espreita perto da entrada delas.
— Ora, ainda bem então que vou com vocês — disse eu.
Emma virou-se e olhou para mim.
— Isso é maravilhoso! — ela exclamou, e me abraçou. — Tem certeza?
Disse a ela que sim. Mesmo cansadas como estavam, as crianças assobiaram e aplaudiram. Algumas vieram me abraçar. Até Enoch apertou minha mão. Mas, quando olhei outra vez para Emma, seu sorriso tinha sumido.
— Qual o problema? — perguntei.
Ela mudou de posição, incomodada.
— Há algo que deve saber — disse ela —, e temo que isso o fará desistir de ir conosco.
— Não fará — assegurei.
— Quando sairmos daqui, essa fenda vai se fechar atrás de nós. É possível que você nunca mais consiga voltar à época de onde veio, pelo menos não com facilidade.
— Não tem nada que me prenda lá — respondi rápido. — Mesmo que eu pudesse voltar, não estou certo de se gostaria.
— Você diz isso agora. Preciso que esteja bem seguro disso.
Assenti e me levantei.
— Aonde você vai? — ela perguntou.
— Dar uma caminhada.
Não fui longe, só fiz a volta no perímetro do jardim bem cuidado, a passos arrastados e lentos, observando o céu, que agora estava limpo, com um bilhão de estrelas espalhadas por toda a sua vastidão. As estrelas também eram viajantes do tempo. Quantos daqueles pontos de luz antigos eram ecos de sóis atualmente mortos? Quantas tinham nascido, mas sua luz ainda não chegara tão longe? Se todos os sóis menos o nosso fossem destruídos hoje, quantas gerações se passariam até que percebêssemos estar sozinhos? Sempre soube que o céu era cheio de mistérios, mas só naquela noite eu me dei conta da quantidade deles que havia na Terra também.
Cheguei ao ponto onde a trilha saía da floresta. Em uma direção ficava minha casa e tudo o que eu conhecia, sem mistérios, comum e relativamente seguro.
Só que não era assim. Não totalmente, não mais. Os monstros mataram vovô Portman e tinham vindo atrás de mim. Cedo ou tarde, iam voltar. Será que um dia eu ia chegar em casa para encontrar meu pai sangrando até a morte no chão? Minha mãe?
Na outra direção, enquanto isso, as crianças se reuniam em pequenos grupos, tramando e fazendo planos para o futuro, pela primeira vez que qualquer uma delas pudesse se lembrar.
Voltei até onde estava Emma, ainda debruçada sobre o livro. A srta. Peregrine estava pousada ao lado dela, indicando com o bico diferentes pontos no mapa. Emma ergueu os olhos quando me aproximei.
Disse a ela que tinha certeza e ela abriu um sorriso.
— Estou contente.
— Só tenho de fazer uma coisa antes de ir.

* * *

Cheguei de volta à cidade pouco antes do amanhecer. A chuva tinha finalmente diminuído e o início de um dia de céu azul anunciava-se no horizonte.
A trilha principal parecia um braço com as veias arrancadas, com valas compridas onde a enxurrada lavara o cascalho.
Atravessei o bar vazio e subi até nossos quartos. As persianas estavam abaixadas e a porta de meu pai, fechada, o que era um alívio, porque eu ainda não tinha ideia de como contar o que precisava contar para ele em voz alta. Em vez disso, sentei-me com bloco e caneta e lhe escrevi uma carta.
Tentei explicar tudo. Escrevi sobre as crianças peculiares e os etéreos, e como todas as histórias do vovô Portman tinham se revelado ser verdadeiras. Contei a ele o que tinha acontecido com a srta. Peregrine e a srta. Avocet e tentei fazê-lo entender por que eu tinha de ir. Implorei que não se preocupasse.
Então parei, reli o que tinha escrito, amassei o papel e o joguei no lixo. Ele nunca acreditaria. Ia achar que eu tinha enlouquecido de vez como o vovô, ou que eu tinha fugido ou sido sequestrado, ou pulado de algum penhasco. De qualquer jeito, eu estava prestes a acabar com a vida dele.
— Jacob?
Eu me virei na cadeira. Meu pai estava apoiado no batente da porta de seu quarto, com olhos baços, os cabelos despenteados após o sono, vestido com jeans e uma camisa suja de lama.
— Oi, pai.
— Vou fazer a você uma pergunta simples e direta, e gostaria de uma resposta simples e direta. Onde você esteve a noite passada?
Eu podia ver que ele estava se esforçando para manter a compostura.
Resolvi que não ia mais mentir.
— Com meus amigos — respondi.
Foi como se eu tivesse puxado o pino de uma granada.
— SEUS AMIGOS SÃO IMAGINÁRIOS! — gritou ele. Veio em minha direção, o rosto se encolerizando. — Queria que sua mãe e eu nunca tivéssemos nos deixado convencer por aquele terapeuta maluco a trazer você aqui, porque isso tem sido um completo desastre! Você mentiu para mim pela última vez! Agora vá para o seu quarto e comece a fazer as malas. Vamos embora na primeira barca!
— Pai?
— E quando chegarmos você só vai sair de casa quando acharmos um psiquiatra que não seja um imbecil completo!
— Pai!
Por um instante pensei que talvez tivesse de fugir dele correndo. Visualizei meu pai me segurando no chão e gritando por ajuda, e, em seguida, me enfiando na barca preso numa camisa de força.
— Eu não vou com você.
Ele apertou os olhos e inclinou a cabeça, como se não tivesse ouvido direito.
Eu ia começar a repetir quando alguém bateu à porta.
— Vá embora! — gritou meu pai.
Ouvimos outra batida, dessa vez mais insistente. Ele correu até lá e a abriu, e ali, no alto das escadas, estava Emma, com uma pequena bola de chama azul dançando acima da mão, e Olive.
— Olá — disse Olive. — Viemos aqui falar com Jacob.
Ele ficou atônito, olhando fixamente para as duas.
— O que é isso...
As garotas passaram por ele e entraram.
— O que vocês estão fazendo aqui? — chiei com elas.
— Só queríamos nos apresentar — respondeu Emma, abrindo um largo sorriso para meu pai. — Nós conhecemos seu filho e temos nos visto muito ultimamente, por isso achamos que seria apropriado fazer uma visita amigável.
— Tudo bem — disse meu pai, seu olhar movendo-se sem parar entre as duas.
— Ele é mesmo um rapaz e tanto — disse Olive. — Tão corajoso!
— E bonito! — acrescentou Emma, piscando para mim. Ela começou a girar a chama entre as mãos como se fosse um brinquedo. Meu pai não conseguia desviar os olhos, hipnotizado.
— É, s-sim. Ele é mesmo — balbuciou.
— Importa-se que eu tire os sapatos? — perguntou Olive, e sem esperar pela resposta ela os tirou e logo flutuou até o teto, onde se sentou de cabeça para baixo e ficou olhando para a gente. — Obrigada. Assim é muito mais confortável.
— Essas são minhas amigas, pai, de quem eu estava falando. Esta é Emma e essa no teto é Olive.
Ele cambaleou para trás.
— Ainda estou dormindo — disse de modo vago. — Estou tão cansado...
Uma cadeira saiu do chão e flutuou até ele, seguida por uma atadura amarrada com habilidade que oscilava no ar.
— Não quer se sentar? — disse Millard.
— Está bem — respondeu meu pai, e sentou.
— O que veio fazer aqui? — murmurei para Millard. — Você não devia estar descansando?
— Eu estava por perto. — Ele me mostrou um vidro de comprimidos de aparência moderna. — Tenho de reconhecer que fazem pílulas maravilhosas contra a dor no futuro!
— Pai, este é Millard. Você não pode vê-lo porque ele é invisível.
— É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu — disse Millard.
Fui até meu pai e me ajoelhei ao lado de sua cadeira. A cabeça dele balançava levemente.
— Eu vou embora, pai. Você pode ficar um bom tempo sem me ver.
— Ah é? Para onde você vai?
— Viajar.
— Uma viagem — ele repetiu. — Quando vai voltar?
— Não sei, na verdade.
Ele balançou a cabeça.
— Exatamente como seu avô.
Millard colocou água da torneira em um copo e trouxe para ele. Meu pai estendeu a mão e o pegou, como se copos flutuantes não fossem nada incomuns. Acho que ele realmente pensou que estivesse sonhando.
— Bem, boa-noite. — disse ele, e se levantou, apoiando-se na cadeira, voltando cambaleante para o quarto. Parou na porta, virando-se para me encarar. — Jake?
— Sim, pai.
— Tome cuidado, está bem?
Assenti. Ele fechou a porta. No momento seguinte eu o ouvi cair na cama.
Eu me sentei e esfreguei o rosto. Não sabia o que sentir.
— Nós ajudamos? — perguntou Olive, ainda empoleirada no teto.
— Não tenho certeza — respondi —, mas acho que não. Ele vai acordar mais tarde achando que sonhou com todos vocês.
— Você podia escrever uma carta — sugeriu Millard. — Diga o que quiser, ele não será capaz de nos seguir.
— Eu cheguei a escrever uma carta, mas isso não é prova.
— Ah, sim — retrucou ele —, entendo seu problema.
— Um belo problema para se ter — disse Olive. — Eu queria que minha mãe me amasse o bastante para se preocupar quando fui embora de casa.
Emma levantou o braço e apertou a mão dela, depois disse:
— Talvez eu tenha uma prova.
Ela tirou uma carteira pequena da cinta do vestido, e, de seu interior, uma foto, que entregou a mim. Era um retrato de Emma e meu avô quando ele ainda era jovem. Toda a atenção dela se concentrava nele, que parecia estar com a cabeça em outro lugar. Era triste e bonito, e parecia resumir o que eu sabia de sua relação.
— Foi tirada pouco antes de Abe partir para a guerra — disse Emma. — Seu pai vai me reconhecer nela, não vai?
Sorri para ela.
— Você não parece ter envelhecido nem um dia — disse eu.
— Maravilha! — disse Millard. — Aí está sua prova.
— Sempre a leva com você? — perguntei, devolvendo-a.
— Levo, mas não preciso mais dela. — Ela foi até a mesa, pegou minha caneta e começou a escrever no verso da foto. — Como se chama o seu pai?
— Franklin.
Quando terminou de escrever, ela me deu a foto. Olhei nos dois lados, então pesquei minha carta no lixo, desamassei-a e a deixei sobre a mesa embaixo da fotografia.
— Prontos para partir? — perguntei.
Meus amigos estavam na porta à minha espera.
— Só depende de você — respondeu Emma.



Partimos na direção da colina. No ponto perto do cume onde eu sempre parava para olhar para trás e ver a distância já percorrida, dessa vez não parei.
Acho que estava com medo de fazê-lo.
Quando chegamos ao cairn, Olive deu tapinhas nas pedras como se fossem um bichinho de estimação.
— Adeus, velha fenda — disse ela. — Você foi uma fenda muito boa e vamos sentir muito sua falta.
Emma apertou seu ombro, e as duas se agacharam e entraram.
Na última câmara, Emma aproximou sua chama da parede e me mostrou algo que eu não vira antes. Havia uma longa lista de datas e iniciais riscadas na rocha.
— São todas as outras vezes que as pessoas usaram esta fenda — explicou ela. — Todos os outros dias em que a fenda foi aberta.
Olhei com atenção e identifiquei um P.M. 3-2-1853 e um J.R.R. 1-4-1797, além de um quase ilegível X.J. 1580. Perto do chão havia alguns sinais que não consegui decifrar.
— Inscrições rúnicas — disse Emma. — Me disseram que são muito antigas.
Millard tateou o chão de cascalho até encontrar uma pedra pontuda, e usando outra pedra como martelo talhou na pedra sua própria inscrição embaixo das outras. Ela dizia A.P. 3-9-1940.
— Quem é A.P.? — perguntou Olive.
— Alma Peregrine — disse Millard, e em seguida deu um suspiro. — Era ela quem devia estar escrevendo isso, não eu.
Olive passou a mão pelas marcas grosseiras.
— Acha que outra ymbryne virá aqui um dia criar uma fenda?
— Espero que sim — disse ele. — Espero muito que sim.

* * *

Enterramos Victor. Bronwyn levantou a cama inteira e a levou para fora com Victor ainda nela, e com todas as crianças reunidas no gramado ela puxou os lençóis e o cobriu, com um último beijo de despedida em sua fronte. Nós, rapazes, pegamos os cantos da cama como se carregássemos um caixão e o levamos até a cratera aberta pela bomba, então todos saímos lá de dentro, menos Enoch, que tirou do bolso um homenzinho de barro e o colocou com cuidado sobre o peito do garoto.
— Este é o meu melhor homenzinho — falou. — Para lhe fazer companhia.
A figura de barro se sentou e Enoch a empurrou com o polegar para que voltasse a se deitar, e o homenzinho virou de lado com um braço sob a cabeça, aparentemente pronto para dormir.
Quando a cratera estava cheia, Fiona jogou alguns arbustos e trepadeiras sobre a terra revirada e começou a fazê-los crescer. Quando o resto de nós tinha terminado de empacotar o que precisaríamos para a viagem, Adam estava de volta em seu lugar de sempre outra vez, só que agora marcava a sepultura de Victor.
Depois que as crianças se despediram da casa, algumas levando lascas de tijolos ou flores do jardim como lembrança, cruzamos a ilha pela última vez.
Passamos pela floresta queimada e ainda fumegante e pela charneca plana marcada por buracos de bomba, subimos a colina, descemos do outro lado e atravessamos o vilarejo impregnado de fumaça de turfa, onde os moradores descansavam nas varandas e soleiras, tão cansados e atordoados com o choque que mal pareciam notar o pequeno desfile de crianças de aspecto peculiar que passava.
Estávamos em silêncio, mas animados. As crianças não tinham dormido, mas não dava para perceber só de olhar para elas. Era 4 de setembro, e pela primeira vez em muito tempo os dias estavam avançando de novo. Alguns disseram sentir a diferença; o ar em seus pulmões mais pleno, o fluxo de sangue nas veias mais rápido. Eles se sentiam mais vivos, mais reais.
E eu também.

* * *

Eu costumava sonhar em fugir da minha vida comum, mas minha vida nunca havia sido comum. Simplesmente não conseguira notar como ela era extraordinária. Da mesma forma, nunca imaginei que minha casa poderia ser algo de que eu sentisse falta, mas, quando estávamos carregando nossos barcos ao amanhecer, à beira de um grande abismo de Antes e Depois, pensei em tudo o que estava prestes a deixar para trás: meus pais, minha cidade, meu antigo, melhor e único amigo. E percebi que partir não seria como eu havia imaginado, como me livrar de um fardo. A lembrança deles era algo tangível e pesado, e eu a levaria sempre comigo.
Mas era impossível voltar para minha antiga vida da mesma forma que para a casa bombardeada dos garotos. A porta de nossas gaiolas havia explodido.
Agora estávamos juntos naquele abismo.
Dez crianças peculiares e uma ave peculiar conseguiram se arrumar em apenas três grandes barcos a remo, deixando muita coisa para trás no cais.
Quando terminamos, Emma sugeriu que um de nós dissesse algo, que fizesse um discurso para marcar a jornada que tínhamos pela frente, mas, quando ninguém pareceu pronto para essas palavras, Enoch levantou a gaiola da srta. Peregrine, e ela emitiu um piado alto e agudo. Respondemos com nossos próprios gritos, um brado de vitória e, ao mesmo tempo, um lamento, por tudo o que fora perdido e que ainda seria ganho.
Hugh e eu remamos no primeiro barco. Enoch nos observava sentado na proa, pronto para quando chegasse sua vez, enquanto Emma, com um chapéu, estudava a ilha que se afastava, com o Mapa dos Dias pronto no colo. O mar era uma ondulante lâmina de vidro verde que se estendia sem fim à nossa frente. O dia estava quente, mas soprava uma brisa fresca vinda da água, e eu poderia ter remado por horas alegremente. Não entendia como aquela calma sagrada podia existir em um mundo em guerra.
No outro barco vi Bronwyn acenar e levar a câmera da srta. Peregrine aos olhos. Sorri para ela. Não tínhamos trazido nenhum dos velhos álbuns de retratos; talvez essa fosse a primeira foto para um novo. Era estranho pensar que um dia eu talvez tivesse minha própria pilha de fotos amareladas para mostrar a crianças céticas, e minhas próprias histórias fantásticas também.
Então Bronwyn baixou a câmera e levantou o braço, apontando para algo à nossa frente. Eu me virei e vi uma procissão silenciosa de navios de guerra pontilhando o horizonte, negros e fúnebres contra o sol nascente.
Começamos a remar mais rápido.


2 comentários:

  1. Ameeei o livro! PRECISO ler o próximo!<3

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  2. História fascinante!
    Eu não sei se teria coragem para deixar minha vida para trás e embarcar em uma vida em outra época. Adoro uma aventura, mas mexer com o tempo é algo muito perigoso e uma decisão dessas pode gerar consequências irreparáveis.

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Boa leitura :)