15 de abril de 2017

Capítulo oito

Acordei. Só isso já é digno de nota, acho, se levarmos em conta as circunstâncias.
Eu estava na toca dos etéreos, e ao meu redor havia os corpos empilhados de muitos outros. Eles podiam estar mortos, mas era mais provável que tivessem respirado o que restava do mindinho da Mãe Poeira, e o resultado estava emaranhado em um espaguete fedorento de carne de etéreo, roncando e, em sua maioria, inconsciente.
Fiz uma prece em silêncio agradecendo à Mãe Poeira e me perguntei, com alarme crescente, quanto tempo fazia que eu estava ali embaixo. Uma hora? Um dia? O que havia acontecido com todo mundo lá em cima?
Eu precisava ir. Alguns dos etéreos estavam começando a despertar do sono, como eu, mas ainda estavam zonzos. Com grande esforço, fiquei de pé. Aparentemente, meus ferimentos não eram muito graves, meus ossos não estavam tão quebrados. Cambaleei, tonto, então me equilibrei e comecei a caminhar em meio aos etéreos emaranhados.
Chutei um deles na cabeça por acidente. Com um grunhido, ele acordou e abriu os olhos. Eu congelei, achando que se corresse ele iria apenas me perseguir.
O etéreo pareceu me registrar, mas não como ameaça nem refeição em potencial, e tornou a fechar os olhos.
Continuei em frente, posicionando cada pé com cuidado até passar pelo carpete de etéreos e chegar a uma parede. O túnel terminava ali. A saída ficava acima de mim: um poço que subia uns trinta metros até uma grade aberta e aquela sala bagunçada. Havia degraus ao longo do poço, mas estavam espaçados a grande distância, construídos para as línguas acrobáticas de etéreos, não para mãos e pés humanos. Parei, virei-me para o alto e vi ao longe um anel de luz fraca. Tinha esperança de que um rosto amigo surgisse ali, mas não ousei gritar por ajuda.
Eu pulava, desesperado, arranhando a parede dura, tentando chegar ao primeiro degrau. De algum modo eu o alcancei e comecei a subir. De repente, estava mais de três metros acima do chão. (Como eu tinha feito isso?) Tornei a saltar e alcancei o degrau seguinte e assim por diante. Eu estava subindo pelo poço, minhas pernas me projetando cada vez mais alto e meus braços alcançando mais longe do que eu sabia ser possível — isso é loucura —, até que cheguei ao topo, botei a cabeça para fora e saí para o salão.
Eu não estava nem respirando com dificuldade.
Olhei ao redor, vi a luz da chama de Emma e corri em sua direção pelo chão atulhado. Tentei chamar por ela, mas não conseguia dizer as palavras. Não importava, lá estava ela no escritório, do outro lado da porta de vidro aberta. Warren estava deste lado, amarrado à cadeira onde antes estava a srta. Swallow, e quando eu me aproximei ele gemeu de medo e derrubou a si mesmo.
Então os rostos surgiram na porta: Emma, a srta. Peregrine e Horace, e atrás deles outras ymbrynes e amigos, também. Todos ali, vivos, lindos. Eles tinham sido libertados das celas só para serem aprisionados outra vez ali, trancados atrás da porta de bunker à prova de bombas de Caul. Protegidos de etéreos (por enquanto), mas presos.
Pareciam temerosos, e quanto mais eu me aproximava da porta de vidro mais aterrorizados ficavam. Sou eu, tentei dizer, mas as palavras não saíram direito, e meus amigos pularam para trás.
Sou eu, Jacob!
O que saiu foi um rosnado rouco e três línguas compridas e gordas que se agitavam no ar à minha frente, cuspidas de minha própria boca em minha tentativa de falar. Então ouvi um dos meus amigos — Enoch, foi Enoch — dizer a coisa terrível da qual eu acabara de me dar conta:
— É um etéreo!
Não, tentei dizer, não, mas todas as provas diziam o contrário. Eu, de algum modo, tinha me tornado um deles, sido mordido e me transformado como um vampiro, ou morrido, sido reciclado e reencarnado. Meu Deus meu Deus meu Deus não pode ser...
Tentei estender as mãos, fazer algum sinal que pudesse ser reconhecido como humano agora que minha boca me havia falhado, mas foram minhas línguas que se estenderam.
Desculpa. Desculpa. Eu não sei dirigir essa coisa.
Emma golpeou com a mão às cegas em minha direção e acertou. De repente, uma dor lancinante me atravessou.
Então acordei.
Outra vez.
Ou melhor, sacudido por uma dor repentina, acordei outra vez em meu corpo, mas no meu corpo humano e ferido, ainda caído e no escuro, entre as mandíbulas imóveis de um etéreo adormecido. Mas eu também era o etéreo lá em cima, recolhendo minha língua na boca e cambaleando para longe da porta.
Estava simultaneamente presente tanto em minha mente quanto na do etéreo, e então descobri que podia controlar as duas, podia levantar meu próprio braço e o do etéreo, virar minha própria cabeça e a do etéreo, e fazer tudo isso sem falar, apenas pensando.
Sem me dar conta, sem tentar conscientemente, eu tinha dominado o etéreo a tal ponto (via através de seus olhos, sentia através de sua pele) que era como se eu fosse o etéreo. Mas agora uma distinção estava ficando nítida. Eu era aquele garoto falho e de corpo alquebrado, no fundo de um buraco e cercado de monstros grogues. Eles estavam acordando, todos menos aquele que me levara até lá embaixo em suas mandíbulas (ele tinha tanta poeira em seu organismo que poderia dormir por anos), e agora estavam começando a se erguer, sacudindo a dormência de seus membros.
Mas eles não pareciam interessados em me matar. Estavam me observando, em silêncio e atentos. Formavam um semicírculo à minha volta, como crianças bem-comportadas na hora da história. À espera de instruções.
Rolei para fora das mandíbulas do etéreo até o chão. Consegui me sentar, mas estava machucado demais para ficar de pé. Só que eles podiam se levantar.
De pé.
Eu não disse isso, sequer pensei, na verdade. Foi mais como fazer, só que não fui eu quem fez. Foram eles, onze etéreos, todos ficaram de pé à minha frente em sincronia perfeita. Aquilo era incrível, claro, mas ainda assim senti uma calma profunda se espalhar por mim. Eu estava relaxando nas profundezas mais puras de minha habilidade. Algo como uma reinicialização coletiva, em que todas as mentes foram desligadas ao mesmo tempo, conectadas e religadas em seguida, levara a uma espécie de harmonia, me permitindo penetrar no núcleo inconsciente do meu poder, assim como na mente dos etéreos no exato momento em que suas defesas estavam baixas.
E agora eles eram meus. Marionetes que eu podia controlar com fios invisíveis. Mas por quanto tempo? Quais eram os limites? Quantos eu podia controlar ao mesmo tempo, separadamente?
Para descobrir, comecei a brincar.
No salão acima, deitei o etéreo.
Ele se deitou.
(Eu havia decidido que todos eram eles, mesmo sem saber de que sexo eram.)
Fiz aqueles que estavam na minha frente pular.
Eles pularam.
Agora havia dois grupos distintos, o solitário acima e os que estavam na minha frente. Tentei controlar cada um individualmente, fazendo um deles levantar a mão sem que o resto o fizesse. Era difícil, mas não impossível, como querer mexer apenas um dos dedos do pé, e em pouco tempo peguei o jeito da coisa. Quanto menos consciente eu estivesse ao tentar, mais fácil se tornava. O controle vinha mais naturalmente quando eu apenas imaginava uma ação ser desempenhada.
Eu os mandei até as pilhas de ossos nos fundos do túnel, em seguida fiz com que pegassem ossos com as línguas e jogassem uns nos outros: primeiro, um de cada vez, depois dois, depois três e quatro, acumulando ação sobre ação até chegar a seis. Só quando fiz o etéreo lá em cima ficar de pé e fazer polichinelos os arremessadores de ossos começaram a deixar alguns caírem.
Não acho que estaria me gabando se dissesse que estava indo muito bem. Tinha mesmo um dom natural. Eu podia dizer que, com mais tempo de treino, poderia me tornar um mestre. Eu poderia jogar os dois lados de uma partida de basquete só de etéreos. Poderia fazê-los dançar todos os números de O lago dos cisnes. Mas não havia mais tempo para treinar; aquilo teria que bastar. Por isso eu os reuni à minha volta, fiz com que o mais forte me erguesse enrolado por sua língua e me pusesse montado em suas costas, e, um por um, meu exército monstruoso subiu pelo poço e foi para o salão.

* * *

As luzes no teto tinham sido acendidas no ambiente atulhado, e na crueza do brilho eu podia ver que os únicos corpos restantes eram manequins e modelos, pois todas as ymbrynes haviam sido retiradas. A porta de vidro que dava para a sala de observação de Caul estava fechada. Fiz os etéreos esperarem enquanto eu me aproximei dela sozinho, exceto pelo etéreo em que estava montado, então gritei para meus amigos, dessa vez com minha própria voz:
— Sou eu! Jacob!
Eles correram até a porta, o rosto de Emma cercado pelos outros.
— Jacob! — A voz dela estava abafada por trás do vidro. — Você está vivo!
Mas, enquanto ela me olhava, seu rosto ficou estranho, como se ela não conseguisse entender o que estava vendo. Percebi que, como estava nas costas do etéreo, eu passava para Emma a impressão de estar flutuando.
— Está tudo bem — falei. — Estou montado em um etéreo! — Dei um tapa no ombro dele para provar que havia algo sólido e de carne embaixo de mim. — Ele está sob meu controle, e esses outros também.
Fiz com que os onze etéreos se adiantassem, batendo os pés para se anunciarem. As bocas de meus amigos estavam ovais de assombro.
— É você mesmo, Jacob? — perguntou Olive.
— O que você quer dizer com “está sob meu controle”? — perguntou Enoch.
— Tem sangue na sua camisa! — exclamou Bronwyn.
Eles abriram a porta de vidro o suficiente apenas para falar através dela. Eu expliquei como caíra no poço dos etéreos e quase fora cortado ao meio por uma mordida, fora entorpecido e posto para dormir e acordara com uma dúzia deles sob meu controle. Como outra demonstração, fiz com que os etéreos pegassem Warren, com a cadeira em que estava amarrado e tudo, e o jogassem de um lado para outro algumas vezes, a cadeira virando de cabeça para baixo até que as crianças começaram a aplaudir e Warren a gemer como se fosse passar mal.
Por fim, fiz com que o pusessem no chão.
— Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos, nunca teria acreditado — disse Enoch. — Nem em um milhão de anos!
— Você é fantástico! — ouvi uma voz pequenina dizer, e lá estava Claire.
— Deixe eu dar uma olhada em você! — falei, mas quando me aproximei da porta aberta, ela se encolheu.
Por mais impressionados que estivessem com minhas habilidades, superar o medo natural de um peculiar por etéreos não era coisa fácil, e o cheiro provavelmente também não ajudava.
— É seguro — falei. — Garanto.
Olive foi direto até a porta.
— Eu não estou com medo.
— Nem eu — disse Emma. — Eu vou primeiro.
Ela passou pela porta e foi até mim. Fiz o etéreo se abaixar, desci dele e consegui, meio sem jeito, abraçar Emma.
— Desculpe, não consigo ficar de pé sozinho direito — falei, encostando o rosto no dela, meus olhos fechados tocando seu cabelo macio. Não era suficiente, mas por ora teria que bastar.
— Você está ferido. — Ela se afastou para me olhar. — Você tem cortes por toda parte, cortes profundos.
— Não estou sentindo nada. Estou coberto de poeira...
— Isso pode significar que você está dormente, não curado.
— Vou me preocupar com isso depois. Quanto tempo eu fiquei lá embaixo?
— Horas — sussurrou ela. — Achamos que você tivesse morrido.
Toquei sua testa com a minha.
— Eu fiz uma promessa a você, lembra?
— Preciso que me faça uma promessa nova. Pare de me matar de susto.
— Vou fazer o possível.
— Não. Prometa.
— Quando isto acabar, vou fazer qualquer promessa que você quiser.
— Vou me lembrar disso — disse ela.
A srta. Peregrine surgiu na porta.
— É melhor vocês dois virem aqui. E deixem essa fera aí fora, por favor!
— Srta. Peregrine, a senhorita está de pé! — falei.
— Sim, estou me recuperando — respondeu ela. — Fui poupada por minha chegada tardia aqui e por certo nepotismo por parte de meu irmão. Nem todas as minhas irmãs ymbrynes tiveram a mesma sorte.
— Eu não a estava poupando, irmã — disse Caul outra vez pelo sistema de som, uma voz trovejante vinda do alto. — Estava apenas deixando o prato mais saboroso para o fim!
— Cale a boca! — gritou Emma. — Quando a gente encontrar você, os etéreos de Jacob vão acabar contigo!
Caul riu.
— Duvido — disse ele. — Você é mais poderoso do que eu imaginava, rapaz, mas não se engane. Você está cercado e sem saída. Apenas adiou o inevitável. Mas se desistir agora, posso considerar poupar alguns de vocês...
Com um movimento rápido das línguas, fiz os etéreos arrancarem os alto-falantes do teto e os destroçarem no chão. A voz de Caul morreu quando peças e fios se espalharam por toda parte.
— Quando o encontrarmos, quero arrancar as unhas dele antes de o matarmos — disse Enoch. — Alguém se opõe?
— Desde que antes eu possa mandar um esquadrão de abelhas por dentro do nariz dele — disse Hugh.
— Não fazemos as coisas assim — disse a srta. Peregrine. — Quando isso tudo terminar, ele vai ser condenado pelas leis das ymbrynes e apodrecer em uma fenda de punição pelo resto de sua vida anormal.
— Qual a diversão nisso? — disse Enoch.
A srta. Peregrine lhe lançou um olhar paralisante.
Fiz com que o etéreo me soltasse e, com a ajuda de Emma, manquejei pela porta e fui até a sala de observação. Todos os meus amigos estavam lá, menos Fiona. Vi rostos assustados me observando, deitados junto das paredes e descansando em cadeiras de escritório. As ymbrynes.
Mas antes que eu pudesse ir até elas, meus amigos bloquearam meu caminho. Jogaram os braços ao meu redor, segurando meu corpo cambaleante com seus abraços. Eu me entreguei. Não sentia algo tão carinhoso fazia muito tempo. Aí Addison chegou trotando de maneira tão nobre quanto podia com duas patas machucadas, e eu me soltei para cumprimentá-lo.
— É a segunda vez que você me salva — falei, botando a mão em sua cabeça peluda. — Não sei como vou conseguir lhe pagar.
— Pode começar nos tirando desta maldita fenda — rosnou ele. — Eu me arrependo muito de ter atravessado aquela ponte!
Os que o ouviram riram. Talvez fosse sua natureza canina, mas Addison não tinha filtro, sempre dizia o que pensava.
— A proeza que você fez com aquele veículo foi uma das coisas mais corajosas que eu já vi — falei.
— Fui capturado no minuto em que entrei no complexo. Infelizmente, decepcionei vocês.
De repente, ouvimos um estrondo do outro lado da pesada porta. A sala estremeceu. Pequenos objetos caíram de prateleiras.
— Os acólitos estão tentando explodir a porta — explicou a srta. Peregrine. — Eles estão nisso há algum tempo.
— Vamos cuidar deles — falei. — Mas primeiro quero saber quem está faltando. As coisas vão sair de controle quando abrirmos aquela porta, por isso, se há peculiares em outro lugar deste complexo que precisem ser resgatados, quero me lembrar deles quando formos para a batalha.
Estava tão escuro e cheio de gente que resolvi fazer uma chamada. Chamei os nomes de nossos amigos duas vezes, só para ter plena certeza de que estavam todos ali. Em seguida, perguntei pelos peculiares que haviam sido levados da casa de gelo da srta. Wren junto conosco: o palhaço (jogado no abismo, contou-nos Olive entre soluços entrecortados, por se recusar a obedecer a ordens dos acólitos), o homem dobrável (deixado no metrô em estado grave), a telecinética Melina (no andar de cima e inconsciente, após ter parte de sua alma drenada) e os irmãos pálidos (idem). E havia as crianças que a srta. Wren resgatara: o garoto de aparência comum de chapéu mole e a garota encantadora de serpentes de cabelo crespo. Bronwyn disse que os vira ser levados para outra parte do complexo, onde mais peculiares estavam detidos.
Por fim, contamos as ymbrynes. Havia a srta. Peregrine, é claro, de cujo lado as crianças não saíam desde que foram reunidas. Havia muita coisa que eu queria conversar com ela. Tudo que tinha acontecido conosco desde a última vez que a víramos. Tudo que acontecera com ela. Apesar de não haver tempo para dizer nada disso algo passou entre nós, nos momentos breves em que nossos olhares se cruzavam. Ela olhava para Emma e para mim com certo orgulho e admiração. Confio em vocês, diziam seus olhos.
Mas a srta. Peregrine, por mais felizes que estivéssemos em vê-la, não era a única ymbryne com a qual tínhamos que nos preocupar. Havia doze no total. Ela nos apresentou a suas amigas: a srta. Wren, que Emma baixara do teto, estava ferida, mas lúcida. A srta. Swallow ainda tinha o olhar vidrado, vago e apático. A mais velha, a srta. Avocet, que não era vista desde que ela e a srta. Peregrine foram raptadas juntas em Cairnholm, ocupava uma cadeira perto da porta. A srta. Bunting, a srta. Treecreeper* e várias outras cuidavam dela, colocando cobertores em seus ombros.
Quase todas pareciam assustadas, o que era atípico para as ymbrynes. Elas deveriam ser nossas mentoras e nossas líderes, mas estavam ali presas havia semanas, e tinham visto e feito coisas que as deixaram em estado de choque. (Elas também não tinham a confiança de meus amigos em minha habilidade de controlar uma dúzia de etéreos e se mantinham o mais longe de minhas criaturas que as dimensões da sala permitiam).
Ao fim daquilo, ainda havia uma pessoa entre nós que não tinha sido chamada: um homem barbado de pequena estatura que estava parado em silêncio junto das ymbrynes, nos observando através de óculos escuros.
— E quem é esse? — perguntei. — Um acólito?
O homem ficou irado.
— Não! — Ele tirou os óculos para nos mostrar seus olhos, que estavam seriamente furiosos. — Eu sou ele! — disse, com forte sotaque italiano.
Havia um livro grande com capa revestida de couro em uma mesa a seu lado. Ele apontou para o livro, como se aquilo de algum modo explicasse sua identidade.


* Em português, “trigueirão” e “trepadeira-do-bosque”, respectivamente. (N. do T.)


Senti uma mão em meu braço. Era Millard, invisível depois de tirar o uniforme listrado.
— Permita-me apresentar o cartógrafo temporal mais famoso da história — disse ele, com grandiloquência. — Jacob, este é Perplexus Anomalous.
Buongiorno — disse Perplexus. — É um prazer.
— É uma honra conhecê-lo — falei.
— Sim — disse ele, empinando o nariz. — É mesmo.
— O que ele está fazendo aqui? E como ainda está vivo? — sussurrei para Millard.
— Caul o encontrou em uma fenda do século XIV em Veneza que ninguém sabia existir. Mas ele está aqui há dois dias, o que significa que pode envelhecer muito rápido.
Pelo que eu havia aprendido daquelas coisas, Perplexus corria o risco de envelhecer porque a fenda em que vivia era consideravelmente mais antiga que aquela em que estávamos naquele instante, e a diferença entre as duas épocas ia acabar por alcançá-lo.
— Sou seu maior fã! — disse Millard para Perplexus. — Tenho todos os seus mapas...
— Sim, você já me contou isso — disse Perplexus. — Grazie.
— Nada disso explica o que ele está fazendo aqui — disse Emma.
— Perplexus escreveu sobre a busca da Biblioteca de Almas em seu diário — disse Millard. — Por isso Caul o localizou, raptou e o obrigou a contar onde ficava.
— Fiz um juramento de sangue de nunca dizer nada — disse Perplexus com extrema tristeza. — Agora estou amaldiçoado para sempre!
— Quero levar Perplexus de volta a sua fenda antes que ele envelheça — disse Millard. — Não vou ser responsável pela perda do maior tesouro vivo do mundo peculiar!
Do outro lado da porta veio outro estrondo, ainda maior e mais alto que o anterior. O salão estremeceu, e pequenos fragmentos de rocha choveram do céu.
— Vamos fazer o possível, querido — disse a srta. Peregrine. — Mas temos que resolver outras coisas primeiro.

* * *

Elaboramos rapidamente um plano de ação, que era o seguinte: abrir a porta e usar meus etéreos para abrir caminho. Eles eram dispensáveis, pareciam em boas condições e minha conexão com eles só estava ficando mais forte. Em relação ao que poderia dar errado, eu sequer ousava imaginar. Nós íamos encontrar Caul, se pudéssemos, mas nossa prioridade era escapar vivos do complexo.
Levei os etéreos para a sala menor. Todos deram a eles um espaço amplo, apertando as costas contra a parede com as mãos no nariz enquanto as criaturas passavam lentamente e se reuniam em torno da porta pesada. O maior deles se ajoelhou e eu o montei mais uma vez, o que me deixou tão alto que precisei me abaixar para evitar que a cabeça tocasse o teto.
Ouvíamos as vozes dos acólitos lá fora no corredor. Sem dúvida eles estavam planejando lançar outra bomba. Resolvemos esperar até que eles a detonassem antes de sair, por isso ficamos ali esperando, um silêncio tenso enchendo a sala.
Por fim, Bronwyn rompeu a tensão:
— Acho que o sr. Jacob devia dizer alguma coisa para todos nós.
— Como assim? — perguntei, fazendo meu etéreo virar para que eu ficasse de frente para todos.
— Bem, você está prestes a nos liderar em uma batalha — disse Bronwyn. — Alguma coisa que um líder diria.
— Algo inspirador — completou Hugh.
— Algo que nos deixe menos aterrorizados — acrescentou Horace.
— É muita pressão — falei, sentindo-me um pouco envergonhado. — Não sei se isso vai deixar alguém menos aterrorizado, mas é algo em que eu andei pensando. Conheço vocês há apenas algumas semanas, mas parece muito mais que isso. Vocês são os melhores amigos que já tive. E é estranho pensar que há apenas alguns meses eu estava em minha casa e nem sabia que vocês eram reais. E ainda tinha meu avô.
Houve ruídos lá fora no corredor, vozes abafadas, a batida de algo de metal caindo no chão.
Continuei, mais alto:
— Sinto saudade de meu avô todos os dias, mas um amigo muito inteligente uma vez me disse que tudo acontece por uma razão. Se eu não o tivesse perdido, bem, eu nunca teria conhecido vocês. Então acho que tive que perder uma parte da minha família para encontrar outra. Enfim, é assim que me sinto com vocês. Como família. Como um de vocês.
— Você é um de nós — disse Emma. — Você é nossa família.
— Nós amamos você, Jacob — disse Olive.
— Foi uma honra conhecê-lo, sr. Portman — disse a srta. Peregrine. — Você teria deixado seu avô muito orgulhoso.
— Obrigado — falei, ficando emocionado e um pouco envergonhado.
— Jacob? — disse Horace. — Posso lhe dar uma coisa?
— É claro.
Os outros, sentindo que algo particular estava se desenrolando entre nós, começaram a sussurrar entre si.
Horace se aproximou o máximo do etéreo que conseguiu e, tremendo um pouco, estendeu um pedaço quadrado de tecido. Eu o peguei, baixando a mão de meu lugar elevado nas costas do etéreo.
— É um cachecol — disse Horace. — A srta. Peregrine conseguiu me contrabandear um par de agulhas, e eu tricotei na cela. Acredito que isso evitou que eu enlouquecesse lá.
Eu agradeci e o desdobrei. O cachecol era simples e cinza, com franjas amarradas nas extremidades, mas era bem-feito e tinha até um monograma com minhas iniciais. JP.
— Uau, Horace, é...
— Não é uma grande obra de arte. Se eu tivesse meu livro de moldes, teria feito melhor.
— É maravilhoso — falei. — Mas como você sabia que ia tornar a me ver?
— Eu tive um sonho — disse ele, com um sorriso tímido. — Você vai usá-lo. Sei que não está frio, mas... para dar sorte?
— É claro — falei, e o enrolei desajeitadamente no pescoço.
— Não, assim nunca vai ficar. Desse jeito.
Ele me mostrou como dobrá-lo ao meio no comprimento, depois enrolá-lo no pescoço e fazer a volta por dentro para dar um nó perfeito, com as extremidades soltas pendendo harmoniosas sobre minha camisa. Não era exatamente um traje de combate, mas mal não faria.
Emma foi lentamente até nós.
— Você sonhou com mais alguma coisa além de moda masculina? — disse ela para Horace. — Tipo onde Caul pode estar escondido?
Horace sacudiu a cabeça e começou a responder:
— Não, mas eu tive um sonho fascinante sobre selos de cartas.
Antes que ele pudesse nos contar mais, surgiu um barulho no corredor que pareceu um caminhão de carga batendo em uma parede, um impacto sônico que nos abalou até a medula. A grande porta no fim da sala explodiu e abriu, lançando dobradiças e estilhaços nas paredes em frente. (Felizmente, todos estávamos longe dela.) Seguiu-se um momento de calma durante o qual a fumaça baixou e todo mundo lentamente se ergueu. Depois, em meio ao zunido de meus ouvidos, ouvi uma voz amplificada dizer:
— Mandem o garoto sozinho e ninguém vai se machucar!
— Não sei por quê, mas não confio neles — disse Emma.
— Não mesmo — disse Horace.
— Nem pense nisso, sr. Portman — disse a srta. Peregrine.
— Eu não pensei — respondi. — Todo mundo pronto?
Murmúrios de aprovação. Conduzi os etéreos para os dois lados da porta, suas mandíbulas articuladas abertas, as línguas prontas. Eu estava prestes a lançar meu ataque surpresa quando ouvi a voz de Caul por um sistema de som no corredor:
— Eles têm o controle dos etéreos! Para trás, homens! Posições defensivas!
— Desgraçado! — exclamou Emma.
O som de botas recuando encheu o corredor. Nosso ataque surpresa tinha sido estragado.
— Não importa! — falei. — Quando você tem doze etéreos, não precisa do fator surpresa.
Era hora de usar minha arma secreta. Em vez da tensão que aumentara antes do ataque, senti o contrário, um relaxamento de minha personalidade completa e atual à medida que minha consciência se acalmava e se dividia entre os etéreos. Então, enquanto eu e meus amigos recuávamos, as criaturas começaram a se lançar para o corredor pela abertura irregular da porta explodida, correndo, rosnando, as mandíbulas abertas, seus corpos invisíveis escavando túneis na fumaça da bomba. Os acólitos atiraram neles, os canos de suas armas reluziram, e eles recuaram. Balas zuniram através da porta aberta no interior da sala onde eu e os outros estávamos nos protegendo, estourando nas paredes às nossas costas.
— Diga quando! — gritou Emma. — Vamos quando você disser!
Com a mente em doze lugares ao mesmo tempo, mal consegui formar uma palavra em inglês em resposta. Eu era eles, aqueles etéreos no corredor, minha própria carne sofrendo em sintonia com cada tiro que rasgava a deles.
Nossas línguas os alcançaram primeiro: os acólitos que não tinham corrido rápido o suficiente e os corajosos mas tolos que haviam ficado para lutar. Nós os golpeamos e batemos suas cabeças na parede, e um pequeno número parou para — aqui eu tentei desconectar meus próprios sentidos — afundar os dentes neles, engolindo suas armas, silenciando seus gritos, deixando-os feridos e boquiabertos.
Afunilados na escada no fim do corredor, os guardas voltaram a atirar. Uma segunda saraivada de balas nos atravessou, profunda e dolorosa, mas continuamos correndo, agitando as línguas.
Alguns acólitos escaparam pelo alçapão. Outros não tiveram tanta sorte, e, quando pararam de gritar, os jogamos longe. Senti a morte de dois de meus etéreos, seus sinais se apagando de minha mente, a conexão perdida. Aí o corredor ficou limpo.
— Agora! — falei para Emma, o que no momento foi a frase mais complexa que consegui articular.
— Agora! — gritou Emma, virando-se para o resto do grupo. — Por aqui!
Levei meu etéreo para o corredor, agarrado a seu pescoço para não ser arremessado de suas costas. Emma foi atrás de mim com os outros, usando as mãos em chamas como sinais na fumaça. Atacamos juntos pelo corredor, com meu batalhão de monstros à minha frente, meu exército de peculiares atrás. Os mais fortes e mais corajosos lideravam: Emma, Bronwyn e Hugh, depois as ymbrynes e o mal-humorado Perplexus, que insistiu em levar seu pesado Mapa dos dias. Por último vinham as crianças menores, os tímidos, os feridos.
O corredor cheirava a pólvora e sangue.
— Não olhem! — ouvi Bronwyn dizer quando começamos a passar pelos corpos de acólitos mortos.
Contei enquanto corríamos: havia cinco, seis, sete deles para meus dois etéreos caídos. Eram números encorajadores, mas quantos acólitos havia no total? Quarenta? Cinquenta? Meu medo era haver uma quantidade deles impossível de matar, enquanto nós éramos muitos para proteger, e que em campo aberto fôssemos superados com facilidade, cercados e confundidos. Eu tinha que matar o maior número possível de acólitos antes que eles saíssem do complexo e aquela luta se tornasse uma derrota inevitável.
Minha consciência voltou a se concentrar nos etéreos. Subindo a escada em caracol, o primeiro saiu pelo alçapão, e sobreveio uma dor lancinante, então um vazio.
Ele tinha sido emboscado ao sair.
Fiz com que o próximo a sair pela portinhola pegasse o corpo do morto para usar como escudo. Ele recebeu uma rajada de tiros e avançou pela sala enquanto outros etéreos saltavam pelo alçapão atrás dele. Eu tinha que pressionar os acólitos rápido, afastá-los dos peculiares deitados em camas de hospital por todo lado. Com alguns golpes de nossas línguas, os mais próximos foram derrubados e o restante fugiu.
Mandei meus etéreos atrás deles. Agora éramos tantos, tantas mãos, que desconectar nossos amigos presos ao leito de seus drenos de almas parecia impossível. Nós nos espalhamos e agimos rápido. Em relação ao louco acorrentado e ao garoto que puséramos em um armário, eles estavam mais seguros ali do que conosco. Nós íamos voltar.
Enquanto isso, meus etéreos restantes perseguiam os acólitos na direção da saída do prédio. Os acólitos disparavam descontroladamente para trás enquanto fugiam. Atacando-os com nossas línguas, conseguimos derrubar dois ou três, que encontraram um fim rápido mas pavoroso quando meus etéreos os alcançaram.
Um acólito tinha se escondido atrás de uma bancada, onde estava armando uma bomba. Um etéreo o puxou, depois se embolou com ele em uma sala lateral. A bomba explodiu instantes depois. Outro etéreo se apagou de minha consciência.
Os acólitos haviam se espalhado, e mais da metade escapou, saltando por janelas e saindo por portas laterais. Nós os estávamos perdendo. Tínhamos terminado de soltar os peculiares presos à cama e quase alcançáramos meus etéreos, que agora eram sete, além daquele em que eu estava montado.
Estávamos perto da saída, na sala dos instrumentos horríveis, e tínhamos uma escolha. Perguntei aos que estavam mais perto de mim: Emma, a srta. Peregrine, Enoch e Bronwyn:
— Usamos os etéreos como cobertura e corremos para a torre? — Minha língua se recuperava conforme diminuíam os etéreos que eu tinha que controlar. — Ou continuamos a lutar?
Surpreendentemente, todos eles concordaram.
— Não podemos parar agora, pessoal — disse Enoch, limpando sangue das mãos.
— Se fizermos isso, eles vão continuar a nos perseguir para sempre — disse Bronwyn.
— Não, não vamos! — disse um acólito ferido, que estava perto, encolhido de medo no chão. — Vamos assinar um tratado de paz.
— Tentamos isso em 1945 — disse a srta. Peregrine. — Não valeu o papel higiênico em que foi escrito. Temos que continuar lutando, crianças. Talvez não tenhamos outra oportunidade como esta de novo.
Emma ergueu a mão em chamas.
— Vamos queimar este lugar inteiro.

* * *

Mandei meus etéreos correndo do prédio do laboratório para o pátio, atrás dos acólitos restantes. Os etéreos foram novamente emboscados, e mais um foi morto, apagado de minha mente ao morrer. Tirando aquele em que eu estava montado, àquela altura todos tinham recebido ao menos uma bala cada, mas a maioria ainda estava forte. Etéreos, como eu aprendera várias vezes, da pior maneira, eram criaturas resistentes.
Os acólitos, por outro lado, pareciam estar ficando assustados, mas isso não significava que eu podia descartá-los. Não saber ao certo onde eles estavam só os tornava mais perigosos.
Tentei manter meus amigos no interior do prédio enquanto mandava os etéreos em reconhecimento, mas os peculiares estavam com raiva e atacaram, ansiosos para entrar na luta.
— Saiam do caminho! — disse Hugh, tentando afastar a mim e a Emma, que estávamos bloqueando a porta.
— Não é justo que Jacob faça tudo! — disse Olive. — Você já matou metade dos acólitos, mas eu odeio eles tanto quanto você! E odeio há mais tempo, há quase cem anos! Então, vamos lá!
Era verdade: aqueles garotos tinham um século de ódio pelos acólitos para expelir, e eu estava levando toda a glória. Aquela era a luta deles também, e não cabia a mim mantê-los de fora.
— Se vocês querem mesmo ajudar, eis o que podem fazer... — falei para Olive.
Trinta segundos depois, tínhamos saído no pátio aberto, e Horace e Hugh estavam soltando Olive no ar presa por uma corda em torno de sua cintura. Ela se transformou imediatamente em nosso olho valioso no céu, gritando informações que meus etéreos presos ao chão jamais poderiam ter reunido.
— Tem dois à direita, depois do barraco branco pequeno! E outro no telhado! E alguns correndo na direção da muralha grande!
Eles não tinham se espalhado aos quatro ventos, mas estavam, em sua maioria, fora do pátio. Com alguma sorte, ainda poderiam ser pegos. Chamei meus seis etéreos remanescentes de volta para nós. Espalhei quatro deles em uma falange que iria marchar à nossa frente, e dois às nossas costas como guarda contra ataques pela retaguarda. Isso permitia que eu e meus amigos varrêssemos o espaço entre nós e enfrentássemos os acólitos que pudessem romper nossa barreira de etéreos.
Começamos a marchar, na direção da extremidade do pátio. Montado em meu etéreo pessoal, me sentia como um general a cavalo comandando suas tropas. Emma estava ao meu lado, e os outros peculiares vinham logo atrás: Bronwyn recolhendo tijolos soltos para arremessar, Horace e Hugh segurando a corda de Olive, Millard grudado a Perplexus, que proferia uma torrente constante de impropérios em italiano enquanto se protegia com seu Mapa dos dias. No fim, as ymbrynes assoviavam e emitiam cantos altos de ave em uma tentativa de recrutar amigos alados para nossa causa, mas o Recanto do Demônio era uma zona tão morta que havia pouquíssimas aves selvagens para ser encontradas. A srta. Peregrine assumira o cuidado da velha srta. Avocet e das poucas ymbrynes em estado de choque. Não havia onde as deixar; elas teriam que nos acompanhar na batalha.
Depois do pátio havia uma faixa de terreno aberto com cerca de cinquenta metros de comprimento. Em todo aquele espaço, erguia-se apenas uma edificação pequena, tudo o que existia entre nós e a muralha externa. Era uma estrutura muito curiosa, com telhado de pagode e portas altas ornamentadas, para onde vi alguns acólitos fugirem. Segundo Olive, quase todos os acólitos restantes tinham assumido posições no interior da pequena construção. De um jeito ou de outro, precisávamos expulsá-los de lá.
Um silêncio havia baixado sobre o complexo. Não havia acólitos visíveis em lugar nenhum. Paramos atrás de um muro protetor para discutir nosso movimento seguinte.
— O que eles estão fazendo ali dentro?
— Tentando nos atrair para campo aberto — disse Emma.
— Sem problema. Vou mandar os etéreos.
— Isso não vai nos deixar desprotegidos?
— Não sei se temos escolha. Olive contou pelo menos vinte acólitos lá dentro. Preciso mandar todos os etéreos, senão eles vão ser massacrados.
Respirei fundo. Examinei os rostos tensos e à espera ao meu redor. Mandei os etéreos avançarem um a um pelo terreno aberto na ponta dos pés, na esperança de que assim cercassem o prédio sem serem notados.
Pareceu funcionar: o prédio tinha três portas, e consegui colocar dois etéreos em cada uma sem que um único acólito mostrasse a cara. Os etéreos ficaram de guarda diante das portas enquanto eu escutava por meio de seus ouvidos. Lá dentro, alguém falava com voz aguda, embora eu não conseguisse identificar as palavras. Aí uma ave trinou. Meu sangue gelou.
Havia ymbrynes lá dentro. Outros mais que não sabíamos estarem lá.
Reféns.
Mas, se isso fosse verdade, por que os acólitos não estavam tentando negociar um resgate?
Meu plano original era arrombar todas as portas ao mesmo tempo e atacar. Mas, se havia reféns, especialmente ymbrynes, eu não podia arriscar uma ação tão imprudente.
Decidi fazer com que um dos etéreos desse uma olhada lá dentro. Todas as janelas, porém, estavam bloqueadas por persianas; eu teria que mandá-lo por uma porta.
Escolhi o menor etéreo. Estendi sua língua dominante. Ela lambeu e agarrou a maçaneta.
— Vou mandar um deles entrar — falei. — Só um, para dar uma olhada.
Lentamente, o etéreo girou a maçaneta. Quando contei em silêncio até três, o etéreo abriu a porta.
Ele se inclinou para a frente e encostou o olho negro na fresta.
— Estou olhando lá dentro.
Com seus olhos, vi uma faixa de parede com gaiolas enfileiradas, gaiolas de passarinho pesadas e negras de vários tamanhos e formas.
O etéreo abriu mais a porta. Vi mais gaiolas, e agora aves também, dentro e fora da gaiola, acorrentadas a poleiros.
Mas nenhum acólito.
— O que você está vendo? — perguntou Emma.


Não havia tempo para explicar, só para agir. Fiz com que meus etéreos abrissem as portas ao mesmo tempo e entrassem rapidamente.
Havia aves por toda parte, assustadas e piando.
— Aves! — falei. — A sala está cheia de ymbrynes!
— O quê? — disse Emma. — Onde estão os acólitos?
— Não sei.
Os etéreos estavam farejando o ar, procurando por todos os cantos.
— Não pode ser! — disse a srta. Peregrine. — Todas as ymbrynes sequestradas estão bem aqui.
— Então o que são essas aves? — falei.
Aí, em uma voz rouca de papagaio, ouvi um deles cantar:
— Corra, coelho, corra! Corra, coelho, corra!
E percebi: não eram ymbrynes. Eram papagaios. E estavam fazendo tique-taque.
— PARA O CHÃO! — gritei, e todos mergulhamos para o chão atrás do muro do pátio, o etéreo se jogando para trás e me levando com ele.
Mandei meus etéreos na direção das portas, mas as bombas-papagaio estouraram antes que pudessem passar por elas, dez de uma vez, destruindo o prédio e os etéreos em um estrondo terrível. Enquanto terra, tijolos e fragmentos do prédio voavam pelo pátio e choviam sobre nós, senti os sinais dos etéreos morrerem juntos, todos menos um se apagando de minha mente.
Uma nuvem de fumaça e penas se elevou além do muro. Os peculiares e as ymbrynes estavam cobertos de terra, tossindo, verificando uns aos outros à procura de buracos. Eu estava em choque, ou algo assim, meu olhar preso em uma faixa respingada no chão onde tinha caído um pedaço esmagado e trêmulo de etéreo. Minha mente passara uma hora se expandindo para acomodar doze deles, e sua morte repentina criou um vácuo desorientador, me deixando atordoado e estranhamente desolado. Mas a crise tem um modo de concentrar a mente, e o que aconteceu em seguida fez com que eu e meu etéreo nos sentássemos eretos rapidamente.
De trás do muro veio o som de muitas vozes gritando juntas, um grito de batalha potente que crescia, e, por baixo, o trovejar de botas. Todo mundo congelou e olhou para mim, o medo vincando seus rostos.
— O que é isso? — disse Emma.
— Vou ver — falei, e desci do etéreo e rastejei para olhar do outro lado do muro.
Uma horda de acólitos avançava em nossa direção cruzando o terreno enfumaçado. Vinte deles em um grupo cerrado, correndo com rifles e pistolas erguidos, os olhos e dentes brancos brilhando. Eles não haviam sido atingidos pela explosão, tendo escapado, supus, para algum abrigo subterrâneo. Tínhamos sido atraídos para uma armadilha, da qual as bombas-papagaio eram apenas o primeiro componente. Agora que nossa melhor arma tinha sido arrancada de nós, os acólitos estavam fazendo seu ataque final.
Houve uma confusão de pânico enquanto os outros olhavam pelo outro lado do muro e viam por si mesmos o ataque da horda.
— O que vamos fazer? — exclamou Horace.
— Lutar! — disse Bronwyn. — Vamos mostrar a eles tudo o que temos!
— Não, temos que fugir enquanto podemos! — disse a srta. Avocet, cujas costas curvadas e cujo rosto com rugas profundas tornavam difícil imaginá-la fugindo. — Não podemos nos dar ao luxo de perder mais peculiares!
— Desculpe, mas eu estava perguntando a Jacob — disse Horace. — Afinal de contas, foi ele que nos trouxe até aqui...
Instintivamente, olhei para a srta. Peregrine, que eu considerava a maior autoridade em questão de autoridade. Ela retribuiu meu olhar e assentiu.
— Sim. Acho que o sr. Portman devia decidir. E rápido, senão os acólitos vão tomar a decisão por você — disse ela.
Eu quase protestei. Todos os meus etéreos estavam mortos, com exceção de um, mas imaginei que aquela fosse a maneira de a srta. Peregrine dizer que acreditava em mim, com ou sem etéreos. Enfim, o que deveríamos fazer parecia óbvio. Em cem anos, os peculiares jamais estiveram tão perto de destruir a ameaça dos acólitos, e se fugíssemos naquele momento, eu sabia que essa chance podia nunca mais voltar. Meus amigos estavam assustados, mas determinados. Prontos, pensei, para arriscar a vida por uma chance de finalmente erradicar a praga dos acólitos.
— Vamos lutar — falei. — Chegamos longe demais para desistir agora.
Se havia alguém entre nós que preferisse ter fugido, ficou quieto. Nem as ymbrynes, que tinham feito votos de nos manter em segurança, discutiram. Elas sabiam que tipo de destino nos aguardava se fôssemos recapturados.
— Só precisa dar a ordem — disse Emma.
Ergui a cabeça para olhar acima do muro. Os acólitos estavam se aproximando depressa, menos de trinta metros agora. Mas eu os queria ainda mais perto, para que pudéssemos derrubar com facilidade as armas em suas mãos.
Tiros espocaram. Um grito penetrante veio do alto.
— Olive! Eles estão atirando em Olive! — alertou Emma.
Tínhamos deixado a pobre menina lá no alto. Os acólitos estavam atirando, enquanto ela gritava e debatia os membros como uma estrela do mar. Não havia tempo para puxá-la de volta, mas não podíamos simplesmente deixá-la para prática de tiro ao alvo.
— Vamos dar a eles algo melhor em que atirar — falei. — Prontos?
A resposta deles foi enfática e afirmativa. Subi em meu etéreo, que estava abaixado.
— VAMOS LÁ! — gritei.
O etéreo ficou de pé em um salto, quase me derrubando, e se lançou para a frente como um cavalo de corrida no tiro de largada. Irrompemos de trás do muro, eu e o etéreo liderando o ataque, meus amigos e as ymbrynes logo atrás.
Soltei um grito de guerra alto, não tanto para assustar os acólitos quanto para acabar com o medo que cravava suas garras em mim, e meus amigos fizeram o mesmo. Os acólitos hesitaram, e por um instante pareceram não conseguir decidir se continuavam o ataque ou paravam e atiravam em nós. Isso deu a mim e ao etéreo tempo suficiente para cobrir grande parte do terreno aberto que nos separava.
Não demorou muito para que os acólitos se decidissem. Eles pararam, apontaram suas armas para nós como um pelotão de fuzilamento e dispararam uma saraivada de balas. Elas passaram zunindo à minha volta, perfurando o chão, acendendo meus receptores de dor ao atingirem o etéreo. Rezando para que ele não tivesse sido atingido em nenhum ponto vital, eu me abaixei bem para me proteger atrás de seu corpo e o conduzi para a frente, mais rápido, usando suas línguas como pernas extras para aumentar nossa velocidade. O etéreo e eu cruzamos o trecho restante em apenas alguns segundos, com meus amigos logo atrás. Então estávamos em meio a eles, lutando corpo a corpo, e a vantagem era nossa. Enquanto eu me concentrava em derrubar as armas das mãos dos acólitos, meus amigos faziam bom uso de seus talentos peculiares. Emma agitava as mãos como porretes de fogo, cortando através de uma fileira de acólitos. Bronwyn jogou os tijolos que reunira, depois socou e bateu nos acólitos com as mãos nuas. A abelha solitária de Hugh tinha feito amigas, e, enquanto ele as instigava a atacar (“Direto nos olhos, irmãs!”), elas sobrevoavam e mergulhavam sobre nosso inimigo sempre que podiam. O mesmo faziam as ymbrynes, que tinham se transformado em aves depois dos primeiros tiros. A srta. Peregrine era a mais temível, seu bico e suas garras grandes botando acólitos para correr, mas até a pequena e colorida srta. Bunting se mostrou útil, puxando o cabelo de um acólito e bicando sua cabeça com força suficiente para fazê-lo errar o tiro, o que permitiu que Claire saltasse e o mordesse no ombro com a boca grande e de dentes pontiagudos da nuca. Enoch também fez sua parte, revelando de baixo da camisa três homens de barro com garfos como pernas e facas como braços, que ele mandou atacar os tornozelos dos acólitos. Enquanto isso, Olive gritava alertas para nós.
— Atrás de você, Emma! Ele vai pegar a arma, Hugh!
Entretanto, apesar de toda a nossa engenhosidade peculiar, estávamos em desvantagem numérica, e os acólitos estavam lutando como se suas vidas dependessem disso, o que provavelmente era verdade.
A coronha de uma arma atingiu minha cabeça, e eu pendi sem forças do pescoço do etéreo por um instante, o mundo girando. A srta. Bunting foi pega e jogada no chão. Estava um caos, um caos horrível, e os acólitos aproveitaram o momento, nos forçando a recuar.
E então, de trás de mim, ouvi um rugido familiar. Meus sentidos voltaram, e vi Bentham galopando na direção da luta montado nas costas de seu urxinim preto. Os dois estavam encharcados, depois de atravessar pelo Polifendador do mesmo modo que eu e Emma fizéramos.
— Olá, meu jovem! — chamou ele, montando ao meu lado. — Precisando de ajuda?
Antes que eu pudesse responder, meu etéreo foi atingido outra vez, a bala passou pelo lado de seu pescoço e raspou minha coxa, pintando uma linha sangrenta através de minha calça rasgada.
— Sim, por favor! — gritei.
— PT, você escutou o garoto! MATE! — ordenou Bentham.
O urxinim entrou na luta, agitando as patas gigantes e derrubando acólitos para o lado como se fossem pinos de boliche. Um se aproximou correndo e atirou em PT à queima-roupa, no peito, com uma arma pequena. Parecendo meramente incomodado, o urxinim pegou o acólito e o jogou para longe. Logo, com meu etéreo e o urxinim de Bentham trabalhando juntos, nós pusemos os acólitos na defensiva. Quando ficou claro que os deixamos em inferioridade numérica, com suas fileiras reduzidas a não mais que dez, eles fugiram.
— Não deixem que eles escapem! — gritou Emma.
Partimos atrás dos acólitos a pé, voando, nas costas de um urxinim e de um etéreo. Nós os perseguimos pelas ruínas fumegantes da casa dos papagaios, atravessamos o terreno pontilhado de roedores catapultados pela insurreição de Sharon na direção de um portão em arco construído na grande muralha exterior.
A srta. Peregrine gritou do alto, mergulhando sobre os acólitos em fuga. Ela desequilibrou um deles puxando-o pela nuca, mas isso, e mais ataques das abelhas de Hugh, só fizeram com que os nove restantes corressem ainda mais depressa. A vantagem que tinham estava crescendo, e meu etéreo estava começando a enfraquecer, fluido negro escorrendo de meia dúzia de feridas.
Os acólitos corriam às cegas, e a ponte levadiça do portão de ferro se ergueu quando se aproximaram.
— Detenham-nos! — gritei, na esperança de que, do outro lado do portão, Sharon e sua multidão indisciplinada ouvissem.
Então eu percebi: a ponte! Ainda restava outro etéreo, o que estava no interior da ponte. Se eu conseguisse assumir o controle dele a tempo, talvez pudesse impedir que os acólitos escapassem.
Mas não. Eles já tinham atravessado o portão, estavam correndo pela ponte, e eu estava muito para trás. Quando passei pelo portão, o etéreo da ponte já tinha pegado e lançado cinco deles até o outro lado, na Rua da Fumaça, onde havia apenas um pequeno grupo de homens, aparentemente viciados em ambro, o que não era suficiente para detê-los. Os quatro acólitos que ainda não tinham atravessado estavam presos no vão da ponte, esperando sua vez de serem lançados.
Quando meu etéreo e eu começamos a subir a ponte correndo, senti o etéreo no interior da ponte se conectar. Ele estava pegando três dos quatro acólitos e os levando para o outro lado.
Pare, falei alto, em etéreo.
Ou pelo menos foi o que eu achei ter dito, embora algo possa ter se perdido na tradução, e talvez pare se pareça muito com largue em língua de etéreo.
Porque, em vez de parar em pleno ar e trazer os três acólitos que se debatiam apavorados para nosso lado da ponte, o etéreo simplesmente os soltou. (Que estranho!)
Todos os peculiares de nosso lado do abismo e os viciados do outro lado se aproximaram da beira para vê-los despencar, gritando e se agitando durante toda a queda através da névoa verde sulfúrica até — ploft! — mergulharem no rio fervente e desaparecerem.
Um viva se ergueu dos dois lados, e uma voz rouca que reconheci disse:
— Bem-feito para eles. Eles davam péssima gorjeta, mesmo!
Era uma das duas cabeças de ponte que ainda estavam em suas lanças.
— Sua mãe nunca lhe disse para não nadar de estômago cheio? — disse a outra. — ESPERE VINTE MINUTOS!
O acólito solitário que restava de nosso lado largou a arma e ergueu as mãos em rendição, enquanto os cinco que conseguiram atravessar estavam desaparecendo rapidamente na nuvem de cinzas erguida pelo vento.
Nós paramos e os observamos ir. Não havia como pegá-los, agora.
— É muito azar — disse Bentham. — Mesmo aquele pequeno número de acólitos pode causar o caos por anos à frente.
— Concordo, irmão, embora honestamente não tivesse percebido que você se importa com o que acontece com o resto de nós.
Nós nos viramos para ver a srta. Peregrine caminhando entre nós, de volta à forma humana, com um xale ajustado discretamente em torno dos ombros. Seus olhos estavam fixos em Bentham; sua expressão, amarga e hostil.
— Olá, Alma! É fantástico rever você! — disse ele, com alegria exagerada. — E é claro que eu me importo... — Ele limpou a garganta de modo esquisito. — Ora, é graças a mim que vocês não estão em uma cela de prisão! Vão em frente, crianças, contem a eles!
— O sr. Bentham nos ajudou muito — admiti, embora na verdade não quisesse me meter em uma briga de irmãos.
— Nesse caso, fico agradecida — disse friamente a srta. Peregrine. — Vou me assegurar de que o Conselho de Ymbrynes tome conhecimento do papel que você teve aqui. Talvez elas achem apropriado reduzir sua sentença.
— Sentença? — disse Emma, olhando rispidamente para Bentham. — Que sentença?
Os lábios dele se retorceram.
— Banimento. Vocês não acham que eu viveria neste buraco se fosse aceito em qualquer outro lugar, acham? Fui incriminado injustamente, acusado de...
— Conspiração — disse a srta. Peregrine. — Colaboração com o inimigo. Traição após traição.
— Eu estava atuando como agente duplo, Alma, tentando obter informações de nosso irmão. Já expliquei isso a você! — Ele estava choramingando, as palmas das mãos estendidas como um pedinte. — Você sabe que tenho todos os motivos para odiar Jack!
A srta. Peregrine ergueu a mão para interrompê-lo. Ela já ouvira aquela história antes e não queria escutar outra vez.
— Quando ele traiu seu avô — disse ela para mim. — Essa foi a gota d’água.
— Aquilo foi um acidente — disse Bentham, se afastando ofendido.
— Então o que aconteceu com a alma que você extraiu dele? — disse a srta. Peregrine.
— Ela foi injetada em cobaias!
A srta. Peregrine sacudiu a cabeça.
— Fizemos engenharia reversa com seu experimento. Eles receberam almas de animais domésticos, o que só pode significar que você ficou com a de Abe para si mesmo.
— Que alegação absurda! — exclamou ele. — Foi isso o que você disse ao Conselho? É por isso que eu ainda estou apodrecendo aqui, não é? — Eu não soube dizer se ele estava realmente surpreso ou apenas representando. — Sabia que você se sentia ameaçada por meu intelecto e capacidade de liderança superiores. Mas que você chegaria a tais mentiras para me manter fora de seu caminho... Sabe quantos anos eu passei lutando para erradicar o flagelo do uso da ambrosia? Que diabos eu poderia querer com a alma daquele pobre homem?
— A mesma coisa que seu irmão quer com o jovem sr. Portman — disse a srta. Peregrine.
— Não vou nem responder a tal acusação. Só gostaria que essa nuvem de parcialidade se dissipasse para que você enxergasse a verdade: eu estou do seu lado, Alma, sempre estive.
— Você está do lado que servir aos seus interesses no momento.
Bentham deu um suspiro e lançou um olhar derrotado para Emma e para mim.
— Adeus, crianças. Foi um grande prazer conhecer vocês. Vou voltar para casa, agora; salvar todas as suas vidas cobrou um preço e tanto ao corpo deste velho. Mas espero que, um dia, quando sua diretora cair em si, nos encontremos outra vez.
Ele tocou o chapéu, e seu urxinim começou a ir embora em meio à aglomeração de pessoas, de volta para a torre através do complexo.
— Como é melodramático — murmurei, apesar de me sentir um pouco mal por ele.
Ymbrynes! — chamou a srta. Peregrine. — Vigiem-no!
— Ele roubou mesmo a alma de Abe? — perguntou Emma.
— Sem prova, não podemos ter certeza — respondeu a srta. Peregrine. — Mas o resto de seus crimes juntos já lhe valeriam um exílio perpétuo. — Observando Bentham se retirar, sua expressão severa aos poucos se derreteu. — Meu irmão me ensinou uma dura lição. Ninguém nos machuca tanto quanto as pessoas que amamos.

* * *

O vento mudou, lançando sobre nós a nuvem de cinzas que ajudara na fuga dos acólitos. Foi tão rápido que mal pudemos esboçar uma reação. O ar cortante à nossa volta uivava e a luz do dia se apagava. Ouvimos um adejar rápido quando as ymbrynes mudaram de forma e sobrevoaram a tempestade.
Meu etéreo caiu de joelhos, baixou a cabeça e protegeu o rosto com as duas línguas livres. Ele estava acostumado a tempestades de cinzas, mas nossos amigos não. Estavam entrando em pânico no escuro.
— Fiquem onde estão! Vai passar! — gritei.
— Pessoal, respire através da camisa! — disse Emma.
Quando a tempestade começou a diminuir, ouvi algo do outro lado da ponte que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Eram três vozes de barítono unidas em uma canção, os versos pontuados por pancadas e gemidos.
— Escutem o bater dos martelos...
Twack!
— Escutem as batidas nos pregos!
— Ahh, minhas pernas!
— Como é divertido construir forcas...
— Me soltem, me soltem!
— A cura de todos os males!
— Por favor, chega! Eu desisto!
Então, quando a cinza começou a rarear, surgiram Sharon e seus três primos musculosos, cada um deles carregando um acólito dominado.
— Bom dia para todos! — gritou Sharon. — Perderam alguma coisa?
Esfregando cinza dos olhos, nossos amigos viram o que eles tinham feito e começaram a vibrar.
— Sharon, você é brilhante! — gritou Emma.
Por toda a nossa volta, as ymbrynes estavam pousando e retornando à forma humana. Enquanto vestiam rapidamente as roupas que haviam largado, mantivemos respeitosamente os olhos nos acólitos.
De repente, um deles escapou e saiu correndo. Em vez de persegui-lo, o construtor de forcas escolheu rapidamente um martelo pequeno de seu cinto de ferramentas, firmou os pés e o arremessou. O martelo foi girando direto até a cabeça do acólito, mas o que teria sido um golpe perfeito foi estragado quando o monstro se abaixou. Ele disparou na direção do caos de detritos na beira da rua.
Quando estava prestes a desaparecer entre dois barracos, abriu-se uma rachadura no chão, e o acólito foi engolfado em um jato de chamas amarelas.
Embora tenha sido uma visão pavorosa, todo mundo vibrou e aplaudiu.
— Viram?! — disse Sharon. — O próprio Recanto quer se livrar deles.
— Isso é maravilhoso — falei. — Mas e Caul?
— Concordo — disse Emma. — Nenhuma dessas vitórias vai importar se não conseguirmos pegá-lo. Certo, srta. Peregrine?
Olhei ao redor, mas não a vi. Emma procurou também, seus olhos examinando o grupo.
— Srta. Peregrine? — chamou ela, o pânico tomando sua voz.
Fiz com que meu etéreo se levantasse totalmente para que eu pudesse ter uma visão melhor.
— Alguém está vendo a srta. Peregrine? — gritei.
Agora todo mundo estava olhando, conferindo o céu caso ela ainda estivesse em voo, e o chão, caso tivesse aterrissado mas ainda não tivesse se transformado em humana.
Então, às nossas costas, um grito alegre interrompeu nossa conversa:
— Não procurem mais, crianças! — Por um momento, eu não consegui identificar a voz. Ela veio outra vez: — Façam o que eu digo e nenhum mal vai acontecer a ela!
Então vi emergir, de sob os galhos de uma pequena árvore enegrecida logo no interior do portão dos acólitos, uma figura familiar.
Caul. Um homem frágil, sem armas na mão nem guardas ao lado. O rosto pálido e retorcido em um sorriso afetado, os olhos cobertos por óculos de sol volumosos, insetiformes. Ele estava bem-vestido, com capa, casaco, fileiras de joias de ouro e uma gravata de seda bufante. Parecia exuberantemente insano, como algum médico louco da ficção gótica que tivesse feito operações demais em si mesmo. E foi sua evidente loucura, eu acho, além do fato de todos sabermos que ele era capaz de verdadeira maldade, que impediu que corrêssemos e o despedaçássemos. Um homem como Caul nunca estava tão indefeso quanto parecia.


— Onde está a srta. Peregrine? — gritei, inspirando um coral de perguntas similares das ymbrynes e dos peculiares atrás de mim.
— Exatamente onde é o lugar dela — disse Caul. — Com sua família.
O que restava da nuvem de cinzas foi soprado do complexo atrás dele, revelando Bentham e a srta. Peregrine, esta última em forma humana, prisioneira nos braços do urxinim de Bentham. Embora seus olhos faiscassem de raiva, ela sabia que não adiantava lutar contra um urxinim mal-humorado de garras afiadas.
Parecia um pesadelo recorrente que estávamos condenados a sonhar repetidas vezes: a srta. Peregrine raptada, dessa vez por Bentham. Ele estava logo atrás do urxinim, com olhos baixos, como se estivesse com vergonha de nos encarar.
Peculiares e ymbrynes soltaram gritos de surpresa e raiva.
— Bentham! Solte ela! — gritei.
— Seu canalha traidor! — gritou Emma.
Bentham ergueu a cabeça para olhar para nós.
— Tão pouco tempo, dez minutos atrás. Vocês tinham minha lealdade — disse ele, em tom agudo e arrogante. — Eu podia ter traído vocês para meu irmão dias atrás, mas não fiz isso. — Ele semicerrou os olhos. — Eu escolhi você, Alma, porque acreditava, ingenuamente, parece, que se eu ajudasse você e seus protegidos, talvez você visse como havia me julgado com injustiça e superasse os problemas do passado e deixasse nossas diferenças para trás.
— Você vai ser mandado para o Deserto Impiedoso por isso! — gritou a srta. Peregrine.
— Não tenho mais medo de seu pequeno Conselho! — disse Bentham. — Vocês não vão mais me reprimir! — Ele bateu com a bengala no chão. — PT, mordaça!
O urxinim pôs a pata no rosto da srta. Peregrine.
Caul foi na direção do irmão e da irmã, abrindo os braços e o sorriso.
— Benny escolheu defender os próprios interesses, e eu, de minha parte, o parabenizo! Não há nada como uma reunião familiar!
De repente, Bentham foi puxado para trás por uma força invisível. Uma faca brilhou em seu pescoço.
— Faça com que o urxinim solte a srta. Peregrine, ou assuma as consequências! — gritou uma voz familiar.
— Millard! — exclamou alguém, uma das muitas exclamações que percorreram nosso grupo.
Era Millard, sem roupa e invisível. Bentham pareceu aterrorizado, mas Caul pareceu meramente irritado. Ele sacou uma antiga arma de canos múltiplos de um dos profundos bolsos da capa e a apontou para a cabeça de Bentham.
— Se soltá-la, eu mato você, irmão.
— Nós fizemos um pacto! — protestou Bentham.
— E você, cedendo às exigências de um garoto pelado com uma faca sem gume, estaria quebrando esse pacto. — Caul engatilhou a arma e a levou à frente até pressioná-la contra a têmpora de Bentham, e se dirigiu a Millard: — Se você me fizer matar meu único irmão, considere sua ymbryne morta também.
Millard hesitou por um instante, depois largou a faca e correu. Caul tentou agarrá-lo, mas não conseguiu, e as pegadas de Millard fizeram uma curva e desapareceram em uma trilha de buracos no chão.
Bentham se recompôs e ajeitou a camisa desarrumada. Caul, depois de perder o bom humor, apontou a arma para a srta. Peregrine.
— Agora me escutem! — gritou. — Vocês aí, do outro lado da ponte! Soltem esses guardas!
Só lhes restava obedecer. Sharon e seus primos soltaram os acólitos que seguravam pela gola e recuaram, e o acólito que estava parado do nosso lado da ponte baixou as mãos e pegou sua arma no chão. Em segundos, o equilíbrio de forças tinha mudado completamente, e havia quatro armas apontadas para nosso grupo e uma para a srta. Peregrine. Caul podia fazer o que quisesse.
— Garoto! — disse ele, apontando para mim. — Jogue aquele etéreo no abismo! — Sua voz aguda atingiu meus tímpanos como uma agulha.
Levei meu etéreo até a beira do abismo.
— Agora faça ele saltar.
Parecia que eu não tinha escolha. Era um desperdício terrível, mas talvez fosse melhor assim: o etéreo agora estava sofrendo muito, de seus ferimentos escorria sangue negro, caindo em torno de seus pés. Ele não teria sobrevivido.
Desenrolei sua língua de minha cintura e desci. Minha força tinha retornado o suficiente para que eu ficasse de pé sozinho, mas o etéreo estava morrendo depressa. Assim que saí de suas costas, ele deu um berro delicado, sugou as línguas de volta para o interior da boca e caiu de joelhos, um sacrifício voluntário.
— Obrigado, quem quer que você seja — falei. — Tenho certeza de que, se um dia você se tornasse um acólito, nunca seria completamente mau.
Pus o pé em suas costas e empurrei. O etéreo caiu para a frente e mergulhou em silêncio no vazio misterioso. Depois de alguns segundos, senti sua consciência desaparecer de minha mente.
Os acólitos do outro lado da ponte saltaram até nosso lado nas línguas do etéreo, a vida da srta. Peregrine novamente ameaçada se eu interferisse. Olive foi puxada do céu. Os guardas começaram a nos conduzir em um grupo compacto e facilmente controlável. Aí Caul gritou por mim, e um dos guardas levou a mão ao interior do grupo e me arrastou para fora.
— Ele é o único que precisa estar vivo — disse Caul para seus guardas. — Se precisarem atirar nele, atirem nos joelhos. Quanto ao resto... — Caul girou a arma na direção do grupo bem compacto e atirou. As pessoas se revoltaram e gritaram. — Atirem no ponto que acharem melhor!
Ele riu e girou com os braços posicionados como uma bailarina em um plié.
Eu estava prestes a correr em sua direção, pronto para arrancar seus olhos com as mãos nuas sem pensar nas consequências, quando um revólver de cano longo surgiu bem no meio de meu campo de visão.
— Não — grunhiu meu guarda monossilábico, um acólito de ombros largos e careca reluzente.
Caul disparou a própria arma no ar e gritou por silêncio, e todas as vozes se calaram.
— Não chorem, tenho uma surpresa para vocês! — disse ele, se dirigindo ao grupo. — Este é um dia histórico. Meu irmão e eu estamos prestes a chegar ao ápice de uma vida inteira de luta e inovação que vai nos tornar os reis gêmeos do mundo peculiar. E o que seria de uma coroação sem testemunhas? Então vamos levá-los junto. Desde que se comportem, vocês vão ver algo que ninguém jamais testemunhou em mil anos: a dominação e expropriação da Biblioteca de Almas.
— Você tem que prometer uma coisa, ou não vou ajudá-lo — falei para Caul. Eu não tinha muito poder de negociação, mas ele acreditava que precisava de mim, e isso representava alguma coisa. — Prometa que, depois de conseguir o que quer, vai soltar a srta. Peregrine.
— Infelizmente isso não vai ser possível — disse Caul. — Mas vou deixá-la viver. O mundo peculiar vai ser muito mais divertido de governar com minha irmã nele. Depois que eu cortar suas asas, vou mantê-la como minha escrava pessoal. Alma, o que acha disso?
Ela tentou responder, mas suas palavras se perderam sob a pata carnuda do urxinim.
Caul levou a mão em concha à orelha e riu.
— O que foi isso? Não consigo escutar você!
Então ele se virou e começou a caminhar na direção da torre.
— Vamos! — gritou o guarda, e logo estávamos todos cambaleando atrás dele.

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