10 de abril de 2017

Capítulo oito

Emma me cutucou.
— E aí?
— Só mais um minuto — respondi.
Eu estava de pé em cima do baú, com a cabeça acima da multidão, observando a superfície do mar revolto de rostos. A extensa plataforma estava cheia de crianças, que se remexiam como amebas em um microscópio, fileira atrás de fileira desaparecendo em uma nuvem de fumaça. Trens negros sibilantes se assomavam dos dois lados, ansiosos para engoli-las.
Eu sentia os olhares de meus amigos fixos em minhas costas, me observando enquanto eu examinava a multidão. Eu deveria descobrir se em algum lugar daquela massa enorme e turbulenta havia monstros querendo nos matar. Eu deveria saber só de olhar, interpretando alguma sensação indefinida no estômago. Em geral, era doloroso e óbvio quando havia um etéreo por perto, mas, em um espaço gigante como aquele, em meio a centenas de pessoas, o alerta poderia ser apenas um sussurro, uma leve pontada, que poderia passar despercebida facilmente.
— Os acólitos sabem que estamos vindo? — perguntou Bronwyn, falando baixo por medo de ser ouvida por um normal, ou pior: por um acólito. Eles tinham ouvidos em todos os lugares na cidade, ou pelo menos era o que tínhamos sido levados a acreditar.
— Matamos todos os que podiam saber para onde estávamos indo — disse Hugh, com orgulho. — Ou melhor, eu matei.
— O que significa que vão procurar ainda mais por nós — retrucou Millard. — E agora vão querer mais ainda que a ave... Vão querer vingança.
— É por isso que não podemos ficar mais tempo aqui — interveio Emma, e me deu um tapinha na perna. — Você está acabando?
Perdi a concentração. Me distraí na multidão. Comecei de novo.
— Só mais um minuto — respondi.
Pessoalmente, não eram os acólitos o que mais me preocupava, mas os etéreos. Àquela altura, eu matara dois deles, e cada encontro quase fora meu fim. Minha sorte, se é que era isso que me mantivera vivo até então, devia estar acabando. Por isso, eu estava determinado a nunca mais ser surpreendido por um deles. Faria tudo o que estivesse ao meu alcance para senti-los à distância e evitar contato. Havia menos glória em fugir de uma briga, claro, mas eu não me importava com isso. Só queria sobreviver.
Sendo assim, o verdadeiro perigo não eram as pessoas na plataforma, mas as sombras entre elas e atrás delas, a escuridão à margem. Era nessas partes que eu concentrava a atenção. Projetar meu sentido sobre uma multidão dessa forma me dava uma sensação extracorpórea. Eu estava procurando vestígios de perigo em cantos distantes, algo que não poderia ter feito alguns dias antes. Essa habilidade para direcionar a Sensação como um facho de luz era novidade para mim.
O que mais falta descobrir sobre mim mesmo?, eu me perguntei.
— Está tudo bem — anunciei, descendo do baú. — Nada de etéreos.
— Até eu podia ter dito isso — resmungou Enoch. — Se tivesse algum, já teria nos devorado!
Emma me puxou para o lado.
— Se queremos uma chance de vitória, você precisa ser mais rápido.
Aquilo era como chamar alguém que acabara de aprender a nadar para competir nas Olimpíadas.
— Estou fazendo o melhor que posso — respondi.
Emma assentiu.
— Eu sei. — Ela se virou para os outros e estalou os dedos, pedindo atenção. — Vamos na direção daquela cabine telefônica — disse, apontando para uma cabine alta e vermelha do outro lado da plataforma, não muito visível por causa da multidão em movimento.
— Para quem vamos ligar? — perguntou Hugh.
— O cão peculiar disse que todas as fendas de Londres foram atacadas e que as ymbrynes foram sequestradas — explicou Emma. — Mas não podemos achar que tudo o que ele disse é verdade, não é mesmo?
— Dá para ligar para uma fenda temporal? — perguntei, completamente atônito. — Pelo telefone?
Millard explicou que o Conselho de Ymbrynes mantinha um serviço telefônico, embora só pudesse ser usado nos limites da cidade.
— É muito engenhoso o modo como funciona, considerando as diferenças de tempo — disse ele. — Só porque vivemos em fendas temporais não significa que estamos condenados à Idade da Pedra!
Emma me deu a mão e pediu que os outros fizessem o mesmo.
— Ficarmos juntos é fundamental — explicou. — Londres é imensa, e aqui não há achados e perdidos de crianças peculiares.
Abrimos caminho de mãos dadas pela multidão. Nossa fila ia formando uma parábola sobre a qual Olive flutuava, como uma astronauta caminhando na Lua.
— Você está emagrecendo? — perguntou Bronwyn a ela. — Precisa de sapatos mais pesados, codorninha.
— Fico muito leve quando não como direito — explicou Olive.
— Comer direito? Acabamos de comer como reis!
— Eu não — retrucou Olive. — Não tinha bolo de carne.
— Você é muito exigente para uma refugiada — reclamou Enoch. — Enfim: como Horace desperdiçou todo o nosso dinheiro, o único jeito de conseguirmos mais comida é se roubarmos ou encontrarmos uma ymbryne que não tenha sido raptada, para ela cozinhar.
— Ainda temos dinheiro — respondeu Horace, na defensiva, fazendo as moedas em seu bolso tilintarem. — Talvez não o suficiente para bolo de carne. Quem sabe dê para comprar uma batata assada.
— Se eu comer mais uma batata assada, vou virar uma batata — reclamou Olive.
— Isso é impossível, querida — disse Bronwyn.
— Por quê? A srta. Peregrine se transforma em ave!
Um garoto pelo qual passamos se virou para nos encarar. Bronwyn, irritada, fez um barulho para que Olive se calasse. Contar nossos segredos na frente de normais era terminantemente proibido, mesmo que soassem tão fantásticos que ninguém acreditasse.
Forçamos caminho pela última aglomeração de crianças e chegamos à cabine telefônica. Só cabiam três pessoas, então Emma, Millard e Horace se apertaram lá dentro, enquanto nos aglomerávamos perto da porta. Emma pegou o telefone, Horace pescou as últimas moedas do bolso, e Millard folheou uma lista telefônica grossa, presa em uma corrente.
— Vocês estão de brincadeira... — comentei, me recostando na cabine. — As ymbrynes estão no catálogo telefônico?
— Os endereços são falsos — respondeu Millard. — E as ligações só são completadas se você assoviar o código certo. — Ele arrancou uma folha e entregou-a para Emma. — Tente esta: Millicent Thrush.*
Horace enfiou uma moeda no telefone e Emma discou o número. Millard pegou o telefone, assoviou um canto de pássaro e o devolveu a Emma, que escutou por um instante e franziu o cenho.
— Só chama — disse ela. — Ninguém atende.
— Não importa! — exclamou Millard. — Era um de muitos. Vou encontrar outro...
Fora da cabine, a multidão que circulava ao nosso redor começou a diminuir a velocidade até parar, presa em um gargalo em algum lugar fora de nosso campo de visão. A plataforma estava chegando ao limite de capacidade. Havia crianças normais por todos os lados, conversando umas com as outras, gritando, empurrando. Uma delas, que estava ao lado de Olive, chorava amargamente. Ela estava de maria-chiquinha, com os olhos vermelhos e inchados, e levava um cobertor em uma das mãos e uma mala de papelão surrada na outra. Em sua blusa havia uma etiqueta presa com um alfinete com palavras e números impressos em estêncil, em letras bem grandes:

115-201
Londres Sheffield

Olive ficou vendo a menina chorar até os próprios olhos começarem a se encher de lágrimas. Por fim, não aguentou e perguntou a ela qual era o problema. A menina afastou o olhar, fingindo não ter escutado.
Olive insistiu:
— O que houve? Está chorando porque foi vendida? — Ela apontou para a etiqueta na blusa da menina. — Esse foi o preço?
A menina tentou se afastar, mas foi bloqueada por uma barreira de pessoas.
— Eu compraria você e depois libertaria — continuou Olive. — Mas, infelizmente, gastamos todo o nosso dinheiro em passagens de trem e não temos o suficiente nem para um bolo de carne, muito menos uma escrava. Sinto muito mesmo.
A menina se virou para Olive.
— Eu não estou à venda! — exclamou, batendo o pé.
— Tem certeza?
— Tenho! — gritou a menina, e, em frustração, arrancou a etiqueta e a jogou fora. — Eu só não quero ir morar na droga do campo, só isso.
— Eu também não queria ir embora de casa, mas fomos obrigados — respondeu Olive. — Nossa casa foi destruída por uma bomba.
A menina relaxou.
— A minha também. — Ela pôs a mala no chão e estendeu a mão. — Me desculpe por ter sido rude. Meu nome é Jessica.
— Olive.
As duas apertaram as mãos como cavalheiros.
— Gostei da sua blusa — comentou Olive.
— Obrigada — respondeu Jessica. — E eu gostei do seu... do... dessa coisa na sua cabeça.
— Minha tiara! — Olive levantou a mão para tocá-la. — Mas não é de prata de verdade.
— Não importa. É bonita.
Olive abriu o maior sorriso que eu já vira, e, em seguida, um apito alto soou e uma voz grave ecoou por um alto-falante.
— Todas as crianças nos trens! — anunciou a voz. — Com calma e em ordem, agora!
A multidão se pôs em movimento de novo. Em alguns pontos, adultos organizavam o movimento das crianças. Ouvi um deles dizer:
— Não se preocupem, logo vocês verão seus pais!
Só então entendi por que havia tantas crianças ali. Elas estavam sendo evacuadas. De todas as muitas centenas de crianças na estação naquela manhã, meus amigos e eu éramos as únicas chegando. As outras estavam partindo, sendo despachadas para fora da cidade para sua própria segurança. E, pelos casacos de inverno e as malas abarrotadas, provavelmente ficariam fora por um bom tempo.
— Preciso ir — disse Jessica, e Olive mal começara a dizer adeus quando sua nova amiga foi arrastada pela multidão em direção ao trem que estava à sua espera. Rápido assim, Olive fez e perdeu a única amiga normal que teve na vida.
Jessica olhou para trás enquanto embarcava. Sua expressão grave parecia perguntar: O que vai ser de mim?
Ficamos olhando enquanto ela partia e nos perguntamos a mesma coisa.



* Em português, “melro”. (N. do T.)

* * *

Dentro da cabine telefônica, Emma fazia cara feia para o aparelho.
— Ninguém atende — reclamou. — Todos os números só chamam sem parar.
— Este é o último — anunciou Millard, entregando mais uma página arrancada para Emma. — Cruzem os dedos.
Eu me concentrei em Emma, que discava, mas de repente um alvoroço começou atrás de mim. Quando me virei, vi um homem de rosto vermelho gesticulando com um guarda-chuva em nossa direção.
— Por que estão demorando tanto? — perguntou. — Liberem a cabine e embarquem agora mesmo!
— Mas acabamos de chegar — explicou Hugh. — Não vamos embarcar de novo!
— E o que fizeram com as etiquetas numeradas? — gritou o homem, perdigotos voando de seus lábios. — Mostrem-nas agora mesmo ou, juro por Deus, vou mandá-los para lugares muito menos agradáveis que o País de Gales!
— Vá embora — retrucou Enoch. — Ou vamos embarcar você direto para o inferno!
O rosto do homem ficou tão roxo que achei que uma veia em seu pescoço fosse explodir. Ele certamente não estava acostumado a ter crianças lhe tratando daquela forma.
— Eu mandei sair dessa cabine telefônica! — rosnou o homem, e, erguendo o guarda-chuva como o machado de um carrasco, golpeou o fio que ia do topo da cabine até a parede, partindo-o em dois com um estalido.
O telefone ficou mudo. Emma ergueu os olhos do aparelho, fervendo de raiva.
— Se ele quer tanto usar o telefone — disse ela —, vamos deixar.
Enquanto ela, Millard e Horace se espremiam para sair da cabine, Bronwyn agarrou as mãos do sujeito e as prendeu às costas dele.
— Pare! — gritou o homem. — Me solte!
— Ah, eu vou soltar você — respondeu Bronwyn.
Então o levantou, enfiou-o de cabeça na cabine e usou o guarda-chuva para trancar a porta por fora. O homem gritava e batia no vidro, pulando como uma mosca gorda presa em uma garrafa. Teria sido divertido ficar lá para rir dele, mas o homem chamara muita atenção, e adultos começaram a se aproximar, vindos de todos os lados da estação. Era hora de irmos.
Nos demos as mãos e saímos correndo em direção às catracas, deixando um rastro de normais caídos ou tentando se equilibrar. Um trem apitou, e o barulho ecoou dentro do baú de Bronwyn, onde a srta. Peregrine estava sendo jogada de um lado para o outro como roupa na máquina de lavar. Leve demais para correr com os próprios pés, Olive se agarrava ao pescoço de Bronwyn e era arrastada como um balão meio inflado preso por um barbante.
Havia alguns adultos mais perto da saída do que nós. Em vez de fazermos a volta, tentamos forçar a passagem.
Não funcionou.
A primeira a nos interceptar foi uma mulher grandalhona que acertou Enoch na cabeça com a bolsa e o agarrou. Quando Emma tentou soltá-lo, dois homens a seguraram pelos braços e a imobilizaram no chão. Eu estava prestes a avançar para ajudá-la quando um terceiro agarrou os meus braços.
— Alguém faça alguma coisa! — gritou Bronwyn.
Todos sabíamos o que ela queria dizer, mas não estava claro qual de nós tinha liberdade para agir. Então uma abelha zuniu diante do nariz de Enoch e enterrou o ferrão no traseiro da mulher sentada em cima dele. Ela deu um grito e se levantou de um pulo.
— Isso! — gritou Enoch. — Mais abelhas!
— Elas estão cansadas! — gritou Hugh em resposta. — Precisam dormir depois de terem salvado vocês!
Mas ele sabia que não havia outra saída: os braços de Emma estavam presos, Bronwyn parecia ocupada protegendo o baú e Olive de um trio de condutores irritados, e havia muitos outros adultos a caminho, então Hugh começou a bater no peito, como se quisesse soltar um pedaço de comida entalado. No momento seguinte, soltou um arroto muito alto, e umas dez abelhas saíram de sua boca.
Voaram em círculos acima da cabeça dele algumas vezes, depois foram fazer o que deveriam e começaram a picar todos os adultos à vista.
Os homens que seguravam Emma a largaram e saíram correndo. O que estava me segurando foi ferroado bem na ponta do nariz e começou a gritar e a agitar os braços como se estivesse possuído por demônios. Logo todos os adultos estavam fugindo, dançando em movimentos espasmódicos para tentar se defender dos minúsculos agressores com ferrões, para a diversão de todas as crianças que ainda estavam na plataforma — elas riam, gritavam, aplaudiam e jogavam os braços para o ar, imitando os adultos ridículos.
Enquanto todos estavam distraídos, nos levantamos, disparamos para as catracas e saímos correndo para a agitada tarde londrina.

* * *

Nos perdemos no caos das ruas. Parecia que tínhamos mergulhado em uma jarra de líquido agitado com um turbilhão de partículas: cavalheiros, senhoras, trabalhadores, soldados, meninos de rua e mendigos — todos correndo em todas as direções, desviando de carros pequenos que aceleravam pelas ruas; vendedores anunciando mercadorias em carrocinhas; músicos de rua tocando corneta e ônibus buzinando e parando nos pontos para despejar mais gente nas calçadas já cheias. Aquilo tudo era contido por um desfiladeiro de prédios com fachadas de colunas, estendendo-se até desaparecer em uma rua meio sombreada, com o sol da tarde baixo e amortecido, reduzido a um brilho sombrio pelas fumaças de Londres, uma lanterna piscando através da neblina.
Tonto com tudo aquilo, semicerrei os olhos e deixei que Emma me conduzisse enquanto, com a mão livre, eu mexia no bolso para sentir o vidro frio do celular. Aquilo teve um efeito estranhamente calmante. Meu telefone era uma relíquia inútil do futuro, mas mesmo assim continha algum poder — o de um filamento longo e fino que conectava aquele mundo confuso ao mundo são e familiar ao qual eu já pertencera; algo que me dizia, enquanto eu o tocava: Você está aqui e isto é real, você não está sonhando, você ainda é você. E, de algum modo, isso fazia tudo ao meu redor vibrar em uma velocidade um pouco menor.
Enoch passara seus anos de formação em Londres e dizia ainda conhecer as ruas, por isso ia na frente. Seguíamos por becos e ruas secundárias, o que fazia com que, à primeira vista, a cidade parecesse um labirinto de paredes cinzentas e calhas, sua grandeza revelada apenas em vislumbres quando passávamos correndo por amplos bulevares antes de voltar para a segurança das sombras.
Fazíamos disso um jogo, rindo, apostando corrida uns com os outros entre os becos. Horace fingiu tropeçar em um canteiro, mas logo se levantou com agilidade e fez uma mesura como um dançarino para a plateia, erguendo a cartola. Rimos feito loucos. Estávamos estranhamente risonhos, quase sem acreditar que tínhamos chegado tão longe — atravessáramos água, floresta, etéreos raivosos e esquadrões de acólitos até chegar a Londres.
Já tínhamos nos distanciado bastante da estação, então paramos em um beco para recuperar o fôlego, perto de algumas latas de lixo. Bronwyn depositou o baú no chão e pegou a srta. Peregrine, que andou meio cambaleante pela rua pavimentada de pedras. Horace e Millard caíram na risada.
— Qual é a graça? — perguntou Bronwyn. — Não é culpa da srta. P. Ela está tonta.
Horace abriu os braços o máximo que pôde.
— Bem-vindos à bela Londres! — exclamou. — É muito mais maravilhosa do que você falou, Enoch. E, ah, como você falou dela! Durante setenta e cinco anos: Londres, Londres, Londres! A maior cidade do mundo!
Millard pegou a tampa de uma lata de lixo.
— Londres! Onde o lixo mais elegante do mundo pode ser encontrado em qualquer canto!
Horace tirou o chapéu.
— Londres! Onde até os ratos usam cartola!
— Ah, eu não falei tanto assim — resmungou Enoch.
— Falou, sim! — retrucou Olive. — Você vivia dizendo: “Não é bem assim que fazem as coisas em Londres.” Ou: “Em Londres, a comida é muito mais requintada!”
— Não estamos fazendo um passeio turístico pela cidade! — exclamou Enoch, na defensiva. — Vocês preferem andar pelos becos ou serem vistos pelos acólitos?
Horace o ignorou:
— Londres: onde todo dia é feriado... para o lixeiro!
Ele caiu na gargalhada, o que foi contagiante. Em pouco tempo, quase todos estávamos rindo, até Enoch.
— Acho que fiz tudo parecer um pouquinho melhor — admitiu.
— Não vejo nada divertido em Londres — comentou Olive, franzindo o cenho. — É suja, fedorenta e cheia de gente má e cruel que faz crianças chorarem, e eu odeio isso! — Ela fechou a cara e acrescentou: — E estou ficando com fome!
Isso nos fez rir ainda mais.
— Aquelas pessoas na estação eram mesmo más — concordou Millard. — Mas tiveram o que mereceram! Nunca vou me esquecer da cara daquele homem quando Bronwyn o enfiou na cabine telefônica.
— Nem daquela mulher horrível quando foi picada por uma abelha no traseiro! — completou Enoch. — Eu pagaria para rever aquela cena.
Olhei para Hugh, esperando que ele entrasse na conversa, mas ele estava de costas para nós, com os ombros tremendo.
— Hugh? — chamei. — Você está bem?
— Ninguém dá a mínima — disse ele, se afastando. — Ninguém quer saber como está o velho Hugh, ele só está aí para salvar todos sem ouvir sequer uma palavra de agradecimento!
Envergonhados, oferecemos nossos agradecimentos e pedimos desculpas.
— Desculpe, Hugh.
— Obrigado de novo, Hugh.
— Você é nosso salvador nas adversidades, Hugh.
Ele se virou para nos encarar.
— Eles eram meus amigos, sabiam?
— Mas nós ainda somos! — respondeu Olive.
— Não vocês... minhas abelhas! Elas só podem picar uma vez, depois acabou, vão para a grande colmeia no céu. Agora só me resta Henry, que não sabe voar porque não tem uma asa. — Hugh estendeu a mão e abriu os dedos devagar. Lá estava Henry, agitando a única asa para nós. — Vamos lá, camarada — sussurrou Hugh. — Hora de ir para casa. — Ele pôs a língua para fora, colocou a abelha sobre ela e fechou a boca.
Enoch deu um tapinha no ombro do menino.
— Eu as traria de volta à vida, mas não sei bem se funcionaria em criaturas tão pequenas.
— Obrigado mesmo assim — respondeu Hugh, então pigarreou e esfregou o rosto com força, como se estivesse incomodado com as lágrimas que o tinham exposto.
— Vamos encontrar mais abelhas para você assim que dermos um jeito na srta. P. — disse Bronwyn.
— Por falar nela, você conseguiu entrar em contato com alguma ymbryne pelo telefone? — perguntou Enoch para Emma.
— Nenhuma — respondeu ela, depois se sentou sobre uma lata de lixo virada, com os ombros curvados. — Eu tinha esperanças de que teríamos um pouco de sorte pelo menos uma vez. Mas não.
— Então parece que o cachorro estava certo — comentou Horace. — As grandes fendas temporais de Londres caíram nas mãos dos inimigos. — Ele inclinou a cabeça solenemente. — Aconteceu o pior. Todas as ymbrynes foram raptadas.
Baixamos a cabeça. A animação acabara.
— Nesse caso, Millard — interveio Enoch —, é melhor você nos contar tudo o que sabe sobre as fendas de punição. Se as ymbrynes estão lá, então temos que planejar um resgate.
— Não — respondeu Millard. — Não, não, não.
— Como assim não? — inquiriu Emma.
Millard fez um ruído entrecortado e começou a respirar de um jeito meio esquisito.
— Quer dizer... não podemos...
Ele parecia não conseguir dizer as palavras.
— Qual é o problema dele? — perguntou Bronwyn. — Mill, tem alguma coisa errada?
— É melhor explicar esse “não” agora mesmo — insistiu Emma, em um tom de voz ameaçador.
— Porque vamos morrer, é por isso! — respondeu Millard, com a voz entrecortada.
— Mas você deu a impressão de que era fácil, quando estávamos lá com os bichos! — intervim. — Como se pudéssemos entrar em uma fenda de punição com as mãos nas costas...
Millard estava histérico... e isso me assustou. Bronwyn encontrou um saco de papel amassado e o mandou usá-lo para ajudar a respirar. Quando ele se recuperou um pouco, respondeu:
— Entrar é fácil — explicou, falando devagar, esforçando-se para controlar a respiração. — Sair é que é complicado. Sair vivo, eu diria. Fendas de punição são tudo o que aquele cão disse e ainda piores. Rios de fogo... vikings sedentos por sangue... um ar pestilento tão denso que é impossível respirar... e, como se não bastasse tudo isso, como em uma sopa infernal, sabem lá as aves quantos acólitos e etéreos!
— Puxa, que maravilha! — exclamou Horace, jogando as mãos para o alto. — Você podia ter nos contado isso antes, sabe, quando estávamos com os bichos planejando isso tudo!
— Teria feito alguma diferença, Horace? — Ele respirou mais algumas vezes no saco. — Se eu fizesse com que parecesse mais assustador, você teria escolhido deixar a humanidade da srta. Peregrine exalar o último suspiro?
— É claro que não — retrucou Horace. — Mas você devia ter contado a verdade.
Millard largou o saco. Estava recuperando as forças e a convicção.
— Admito que minimizei os perigos das fendas de punição, mas nunca achei que fôssemos precisar entrar nelas! Apesar de todas as coisas sinistras que o cão disse sobre a situação de Londres, eu tinha certeza de que encontraríamos pelo menos uma fenda que ainda não tivesse sido atacada, com a ymbryne ainda presente e operante. E, pelo que sabemos, ainda pode haver uma! Como podemos ter certeza de que todas foram sequestradas? Vimos todas as fendas atacadas com nossos próprios olhos? E se os telefones das ymbrynes foram simplesmente... desligados?
— Todos eles? — escarneceu Enoch.
Até Olive, eternamente otimista, tinha uma expressão de derrota.
— Então o que você sugere, Millard? — indagou Emma. — Que façamos um tour pelas fendas de Londres, torcendo para encontrar alguém em casa? E quais você diria que são as probabilidades de as criaturas corruptas que estão à nossa procura terem deixado as fendas sem vigilância?
— Acho que temos mais chances de sobreviver se passarmos a noite jogando roleta-russa — comentou Enoch.
— O que quero dizer — explicou Millard — é que não temos provas...
— De que outras provas você precisa? — inquiriu Emma. — Poças de sangue? Uma pilha de penas de ymbrynes? A srta. Avocet nos disse que o ataque das criaturas começou há semanas. A srta. Wren não tinha dúvida de que todas as ymbrynes de Londres tinham sido capturadas. Você acha que sabe mais que a srta. Wren, que é uma ymbryne? Agora estamos aqui, e ninguém em nenhuma das fendas está atendendo ao telefone. Então, por favor, me diga por que ir de fenda em fenda seria mais do que uma perda de tempo perigosamente suicida.
— Esperem um pouco... é isso! — exclamou Millard. — E a srta. Wren?
— O que tem ela? — indagou Emma.
— Não se lembra do que o cachorro nos contou? A srta. Wren veio para Londres há alguns dias, quando soube que suas irmãs haviam sido raptadas.
— E daí?
— E se ela ainda estiver aqui?
— A essa altura, ela provavelmente já foi capturada! — retrucou Enoch.
— E se não tiver sido? — A voz de Millard estava animada, esperançosa. — Ela pode ajudar a srta. Peregrine, e então não teríamos de passar nem perto das fendas de punição!
— E como sugere que a encontremos? — inquiriu Enoch, com a voz estridente. — Gritando o nome dela do alto dos telhados? Isso aqui não é Cairnholm. É uma cidade com milhões de pessoas!
— As pombas — respondeu Millard.
— Como assim?
— Foram as pombas peculiares da srta. Wren que contaram a ela para onde as ymbrynes tinham sido levadas. Se elas sabiam para onde todas as outras ymbrynes foram, então também devem saber onde está a srta. Wren. Afinal, pertencem a ela.
— Há! — exclamou Enoch. — A única coisa que mais se encontra em Londres do que senhoras de meia-idade insossas são bandos de pombas. E você quer procurar um bando em especial por Londres inteira?
— Parece uma ideia meio doida — comentou Emma. — Desculpe, Mill. Eu não vejo como isso pode funcionar.
— Então vocês têm sorte por eu ter passado a viagem de trem estudando, em vez de ficar de papo furado. Alguém me passe os Contos!
Bronwyn pescou o livro de dentro do baú e o entregou a ele. Millard começou a folhear as páginas.
— Muitas respostas podem ser encontradas aqui — explicou. — Basta saber o que procurar. — Ele parou em determinada página e indicou o topo com o dedo. — Arrá! — exclamou, virando o livro para nos mostrar o que descobrira.
O título da história era: “As pombas de St. Paul”.
— Minha nossa! — exclamou Bronwyn. — Será que essas são as mesmas pombas das quais estamos falando?
— Se escreveram sobre elas nos Contos, são quase com certeza pombas peculiares — respondeu Millard. — E quantos bandos de pombas peculiares devem existir?
Olive bateu palmas.
— Millard, você é brilhante! — exclamou ela.
— Obrigado, eu sei.
— Esperem aí, não estou entendendo — interrompi, confuso. — O que é St. Paul?
— Até eu sei isso — respondeu Olive. — A catedral!
Ela foi até o fim do beco e apontou para uma cúpula gigantesca que se erguia ao longe.
— É a maior e mais magnífica catedral de Londres — explicou Millard. — Se minha intuição estiver correta, também é o local onde vivem as pombas da srta. Wren.
— Vamos torcer para que elas estejam em casa — comentou Emma. — E que tenham boas notícias. Andam em falta.

* * *

Enquanto navegávamos pelo labirinto de ruas estreitas na direção da catedral, um silêncio pensativo se abateu sobre o grupo. Por longos períodos de tempo, ninguém se pronunciou, restando apenas o som de nossos sapatos no calçamento e os ruídos da cidade: aviões, o barulho constante e onipresente do trânsito, sirenes gorjeantes cujo tom se elevava e diminuía ao nosso redor.
Quanto mais nos afastávamos da estação, mais provas encontrávamos das bombas que choviam sobre Londres. Fachadas de prédios sarapintadas de estilhaços. Janelas quebradas. Ruas cintilando com geadas de vidro em pó. O céu pontilhado por balões inflados prateados, presos ao solo por longas teias de cabos.
— Balões de barragem — explicou Emma quando me viu esticar o pescoço para olhar um deles. — Os bombardeiros alemães ficam presos nos cabos, à noite, e caem.
Então chegamos a uma cena de destruição tão bizarra que tive que parar e olhar, boquiaberto. Não por um instinto voyeurístico mórbido, e sim porque meu cérebro achava impossível processar o que via. Uma cratera feita por uma bomba se estendia por toda a rua como uma boca monstruosa, o asfalto quebrado como dentes. Em um dos lados, a explosão arrancara a parede dianteira de um prédio, mas deixara praticamente intacto o que estava dentro. Parecia uma casa de boneca, com todos os aposentos expostos para a rua: a sala de jantar com a mesa ainda posta; fotos de família penduradas no corredor (tortas, mas ainda na parede); um rolo de papel higiênico desenrolado balançando ao sabor da brisa, tremulando como uma bandeira branca e extensa.
— Será que eles esqueceram de terminar de construir? — perguntou Olive.
— Não, sua boba — retrucou Enoch. — O prédio foi atingido por uma bomba.
Por um instante, Olive pareceu prestes a chorar, mas seu semblante endureceu e ela sacudiu o punho para os céus e berrou:
— Hitler, seu malvado! Pare com essa guerra horrível agora mesmo, de uma vez por todas!
Bronwyn deu um tapinha em seu braço.
— Shhh. Ele não pode ouvir você, meu bem.
— Isso não é justo! — exclamou Olive. — Estou cansada de aviões, de bombas e de guerra!
— Todos estamos — retrucou Enoch. — Até eu.
Então ouvi Horace gritar; quando me virei, o vi apontando para alguma coisa na rua. Corri para ver o que era e então parei, congelado. Meu cérebro gritava Corra!, mas minhas pernas se recusavam a ouvir.
Era uma pirâmide de cabeças. Estavam afundadas e enegrecidas, com as bocas escancaradas e os olhos queimados, derretidos e reunidos em uma poça na sarjeta, como uma hidra horrenda. Emma se aproximou para ver, levou um susto e virou o rosto; Bronwyn chegou perto e começou a gemer; Hugh gaguejou e cobriu os olhos com as mãos. Por fim, Enoch, que não parecia nem um pouco perturbado, cutucou uma das cabeças com o sapato e notou que eram apenas manequins de cera que tinham caído da vitrine de uma loja de perucas bombardeada. Todos nos sentimos um pouco ridículos, porque, apesar de as cabeças serem falsas, representavam algo real, que estava escondido sob os destroços à nossa volta.
— Vamos embora — disse Emma. — Esse lugar não passa de um cemitério.
Continuamos a andar. Tentei manter o olhar fixo no chão, mas não havia como me proteger de todas as coisas assustadoras pelas quais passávamos. Uma ruína chamuscada expelia fumaça, com o único bombeiro enviado para apagar o incêndio parecendo derrotado, abatido, cheio de bolhas e exausto, a mangueira seca. Mesmo assim, ele continuava lá, olhando a casa como se, tendo acabado a água, seu trabalho fosse apenas testemunhar a destruição.
Um bebê chorava em um carrinho de brinquedo abandonado na rua.
Bronwyn reduziu o passo, arrasada.
— Será que não podemos ajudá-los?
— Não faria diferença — respondeu Millard. — Essas pessoas pertencem ao passado, e o passado não pode ser mudado.
Bronwyn assentiu, com um ar de tristeza. Ela sabia que era verdade, mas precisava ouvir alguém dizer isso. Era como se mal estivéssemos ali, insignificantes como fantasmas.




Uma nuvem de cinzas se ergueu, encobrindo o bombeiro e a criança.
Continuamos andando, sufocando em um turbilhão de poeira de desabamentos e concreto em pó, que deixou nossas roupas e rostos brancos como ossos.

* * *

Passamos pelos quarteirões em ruínas o mais rápido possível, depois nos maravilhamos quando as ruas voltaram a fervilhar à nossa volta. A uma curta caminhada do inferno, as pessoas cuidavam de suas vidas, andavam pelas calçadas, moravam em prédios que ainda tinham eletricidade, janelas e paredes.
Então viramos uma esquina e vimos a cúpula da catedral, imponente apesar de faixas de pedra enegrecidas pelo fogo e de alguns arcos desmoronados. Assim como o espírito da cidade, seria preciso mais do que algumas bombas para derrubar a Catedral de St. Paul.
Nossa busca começou em uma praça ali perto, onde velhos alimentavam pássaros, sentados nos bancos. No início, foi uma confusão: tentamos agarrar as pombas, que saíram voando. Os velhos resmungaram, e nós nos retiramos para aguardar a volta das aves. Quando elas voltaram, nos revezamos para circular despreocupadamente em meio ao bando e tentar pegá-las de surpresa, nos abaixando para agarrá-las. Pensei que Olive, pequena e rápida, ou Hugh, com sua conexão peculiar com outro tipo de criatura alada, pudessem ter alguma sorte, mas os dois foram humilhados. Millard não se saiu melhor, e elas sequer podiam vê-lo. Quando chegou minha vez, as pombas deviam estar cansadas de serem perturbadas, porque levantaram voo, todas juntas, no instante em que comecei a andar pela praça, lançando simultaneamente uma grande bomba de caca, que me fez correr até uma fonte para lavar a cabeça.
No fim, quem pegou uma foi Horace. Ele se sentou ao lado dos velhos e ficou jogando sementes até ser cercado pelas aves. Então, se inclinou para a frente, esticou o braço e, com toda a calma do mundo, segurou uma pelos pés.
— Peguei você! — exclamou.
A ave bateu asas e tentou fugir, mas Horace a segurou firme. Ele a levou até nós.
— Como saberemos se é peculiar? — indagou, virando a ave de cabeça para baixo para examinar a parte inferior, como se esperasse encontrar uma etiqueta.
— Mostre-a à srta. Peregrine — respondeu Emma. — Ela vai saber.


Então abrimos o baú de Bronwyn, jogamos a pomba lá dentro com a srta. Peregrine e fechamos a tampa. A pomba piava como se estivesse sendo rasgada ao meio.
Fiz uma careta e gritei:
— Devagar, srta. P.!
Quando Bronwyn abriu o baú outra vez, uma nuvem de penas de pomba se elevou, mas não víamos a pomba em lugar algum.
— Ah, não... ela a comeu! — exclamou Bronwyn.
— Não comeu, não — respondeu Emma. — Olhe embaixo dela!
A srta. Peregrine se ergueu e se afastou para o lado, então vimos a pomba embaixo dela — viva mas em estado de choque.
— E então? — indagou Enoch. — É ou não é uma das pombas da srta. Wren?
A srta. Peregrine cutucou a ave com o bico, e ela saiu voando. Depois, saiu do baú, claudicou um pouco até a praça e, com um pio alto, espantou o restante do bando. A mensagem era clara: além de a pomba de Horace não ser peculiar, nenhuma das outras era. Tínhamos que continuar a busca.
A srta. Peregrine foi na direção da catedral andando com dificuldade e agitando a asa com impaciência. Nós a alcançamos nas escadarias. A construção se assomava sobre nós, as enormes torres de sino emoldurando a cúpula gigante.
Um exército de anjos sujos de fuligem nos olhava lá de cima, dos relevos de mármore.
— Como conseguiremos procurar nesse lugar? — pensei alto.
— Um cômodo por vez — respondeu Emma.
Um barulho estranho nos deteve quando chegamos à porta. Parecia um alarme de carro ao longe, um tom que variava em arcos longos e lentos. Mas não havia alarmes de carro em 1940, é claro. Era uma sirene que anunciava um ataque aéreo.
Horace se encolheu de medo.
— Os alemães estão chegando! — gritou. — Morte nos céus!
— Nós não sabemos o que isso significa — disse Emma. — Pode ser um alarme falso ou um teste.
Mas as ruas e a praça estavam esvaziando depressa, e os velhos começaram a dobrar seus jornais e deixar os bancos.
— Eles não parecem achar que é um teste — retrucou Horace.
— Desde quando temos medo de algumas bombas? — indagou Enoch. — Pare de falar como um normalzinho!
— Preciso lembrá-lo de que essas bombas não são do tipo ao qual estamos acostumados? — perguntou Millard. — São diferentes daquelas que jogam em Cairnholm; não sabemos onde essas vão cair!
— Mais um motivo para encontrarmos logo o que viemos buscar — disse Emma, e nos conduziu para dentro.

* * *

O interior da catedral era imenso — embora seja impossível, parecia maior do que vista de fora —, e, apesar de danificada, alguns fiéis estavam ajoelhados ali, rezando em silêncio. Uma pilha de destroços soterrava o altar. No local onde uma bomba perfurara o telhado, a luz do sol penetrava em faixas largas. Sentado sobre uma coluna caída, um único soldado olhava para o céu através do telhado destruído.
Andamos com os pescoços espichados, esmigalhando pedaços de concreto e lajotas quebradas sob os pés.
— Não estou vendo nada — reclamou Horace. — Há espaço suficiente para esconder dez mil pombas aqui!
— Não olhe — disse Hugh. — Escute.
Paramos, tentando ouvir o arrulhar característico de pombas, mas havia apenas o som incessante das sirenes que avisavam dos ataques aéreos e, por baixo daquele som estridente, uma série de explosões abafadas, como trovões.
Disse a mim mesmo para ficar calmo, mas meu coração batia como um bumbo. Bombas estavam caindo.
— Precisamos ir — falei, sufocado pelo pânico. — Deve haver algum abrigo aqui por perto. Algum lugar seguro onde possamos nos esconder.
— Mas estamos tão perto! — exclamou Bronwyn. — Não podemos desistir agora!
Houve outro estrondo, dessa vez mais perto, e os outros também começaram a ficar nervosos.
— Talvez Jacob tenha razão — disse Horace. — Vamos achar um lugar seguro para nos esconder até terminar o bombardeio. Podemos voltar a procurar depois que acabar.
— Não existe um lugar totalmente seguro — retrucou Enoch. — Essas bombas podem atingir até os abrigos mais profundos.


— Elas não podem penetrar em uma fenda temporal — disse Emma. — Se existe um conto sobre esta catedral, deve haver uma entrada de fenda por aqui.
— Pode ser — concordou Millard. — Pode ser, pode ser. Me passe o livro que vou investigar.
Bronwyn abriu o baú e entregou o livro a Millard.
— Deixe-me ver... — disse ele, virando as páginas até encontrar “As pombas de St. Paul”.
Bombas caindo, e a gente aqui lendo histórias, pensei. Entrei nos domínios da loucura.
— Escutem! — exclamou Millard, chamando a atenção de todos. — Se há uma entrada de fenda aqui por perto, esta história pode nos dizer como encontrá-la. Por sorte, é das curtas.
Uma bomba caiu lá fora. O chão tremeu, fazendo chover gesso do teto. Cerrei os dentes e tentei me concentrar na respiração.
Sem se abalar, Millard pigarreou.
— “As pombas de St. Paul”! — começou, lendo em voz alta e grave.
— Já sabemos o título! — reclamou Enoch.
— Leia mais rápido, por favor! — apressou Bronwyn.
— Se não pararem de me interromper, vamos ficar aqui a noite inteira — retrucou Millard, e então prosseguiu: — “Certa vez, em uma época peculiar, muito antes que houvesse torres, campanários ou qualquer edifício alto na cidade de Londres, um bando de pombas decidiu que queria um lugar bom e alto para descansar, acima do movimento e do burburinho da sociedade humana. Elas também sabiam exatamente como fazê-lo, porque pombas são construtoras por natureza, além de muito mais inteligentes do que pensamos. Mas as pessoas da antiga Londres não estavam interessadas em construções altas, então, certa noite, as pombas entraram no quarto do humano mais empreendedor que conseguiram encontrar e sussurraram em seu ouvido os planos para uma torre magnífica.
“De manhã, o homem despertou bastante empolgado. Sonhara — pelo menos foi o que pensou — com uma igreja magnífica, com uma torre enorme que se ergueria sobre o morro mais alto da cidade. Alguns anos mais tarde, com um grande custo para os humanos, ela foi construída. Era uma igreja com uma torre muito especial, com todo tipo de esconderijo em seu interior, onde as pombas podiam se acomodar. E elas ficaram muito satisfeitas consigo mesmas.
“Então, um dia, os vikings saquearam a cidade e incendiaram a torre, de forma que as pombas tiveram que procurar outro arquiteto, sussurrar em seu ouvido e esperar pacientemente que construíssem uma nova torre. E ela foi construída: era grandiosa e muito alta. Mas também pegou fogo.
“As coisas continuaram assim por séculos: as torres pegando fogo e as pombas sussurrando, para as gerações de arquitetos que recebiam inspiração noturna, planos de torres ainda mais altas e grandiosas. Apesar de esses arquitetos nunca se darem conta da dívida que tinham para com as aves, ainda as tratavam com carinho e permitiam que circulassem por onde bem entendessem, nas naves e nos campanários, como as mascotes e guardiãs que elas realmente eram.’”
— Isso não está ajudando — disse Enoch. — Chegue logo à parte da entrada da fenda!
— Eu vou chegar lá quando essa parte chegar! — retrucou Millard. — “Com o tempo, depois de tantas torres de igreja serem erguidas e queimadas, os planos das pombas ficaram tão ambiciosos que demorou muito para encontrarem um humano inteligente o suficiente para levá-los a cabo. Quando finalmente conseguiram, o homem resistiu, acreditando que a colina estava amaldiçoada, já que todas as igrejas ali erguidas haviam pegado fogo. Apesar de tentar tirar a ideia da cabeça, as pombas voltavam toda noite para sussurrar o plano em seu ouvido, mas mesmo assim o homem não começava a obra. Então elas o procuraram durante o dia, coisa que nunca tinham feito antes, e lhe disseram, em sua língua estranha e risonha, que ele era o único homem capaz de construir a torre e que ele tinha a obrigação de fazê-lo. Mas o homem se recusou e as expulsou de sua casa, gritando: ‘Xô, vão embora daqui, criaturas imundas!’
“As pombas, insultadas e vingativas, perseguiram o homem até quase deixá-lo louco. Seguiam-no aonde quer que ele fosse, bicavam suas roupas, puxavam seu cabelo, estragavam sua comida com as penas traseiras, batiam em sua janela à noite para não deixá-lo dormir... Até que, um dia, ele caiu de joelhos e gritou: ‘Ah, pombas! Eu vou construir o que vocês quiserem, mas vocês vão ter que cuidar do lugar e protegê-lo do fogo!’
“As pombas ficaram intrigadas com aquilo. Conversaram entre si e chegaram à conclusão de que poderiam ter sido guardiãs melhores das torres do passado, se não tivessem gostado tanto de construí-las. Então juraram fazer todo o possível para proteger a construção futura. Dessa forma, o homem construiu uma enorme catedral com duas torres e uma cúpula. Era muito grande, e tanto o homem quanto as pombas ficaram tão satisfeitos com o que tinham criado que se tornaram grandes amigos. O homem nunca foi a lugar algum sem uma pomba por perto para aconselhá-lo. Mesmo depois que morreu, em idade feliz e avançada, as aves ainda iam visitá-lo de vez em quando, embaixo da terra. E até hoje é possível ver a catedral que eles construíram, no morro mais alto de Londres, sob o cuidado de seu bando de pombas.’”
Millard fechou o livro.
— Fim.
Emma fez um ruído exasperado.
— Certo, mas elas ficam vigiando de onde?
— Isso não podia ter ajudado menos, na atual situação... — comentou Enoch. — Nem se fosse uma história sobre cães e gatos na Lua.
— Eu não consigo interpretar nada dessa história — disse Bronwyn. — Alguém consegue?
Eu quase conseguia... Sentia que havia alguma coisa significativa no trecho que dizia “embaixo da terra”, mas tudo o que conseguia pensar era: As pombas estão no inferno?
Então caiu outra bomba, sacudindo o prédio todo, e lá do alto veio um bater de asas repentino. Olhamos para cima e vimos três pombas assustadas saírem voando de algum lugar escondido entre as vigas. A srta. Peregrine piou, agitada, como se dissesse: São elas! Então Bronwyn a pegou e saímos correndo atrás das aves. Elas voaram por toda a nave, viraram bruscamente e entraram por uma porta.
Chegamos à soleira alguns segundos depois. Para meu alívio, não levava para fora, onde não teríamos chance de pegá-las, e sim para uma escadaria que descia em caracol.
— Arrá! — exclamou Enoch, batendo as mãos gorduchas. — Elas estão perdidas! Ficaram presas no porão!
Descemos as escadas correndo. Por fim, chegamos a um salão grande e mal iluminado, com chão de pedra. Era frio, úmido e quase completamente escuro, pois a eletricidade fora cortada. Então Emma acendeu uma chama e iluminou ao redor, até que a natureza do local ficou clara. Abaixo de nossos pés, estendendo-se de parede a parede, havia placas de mármore com letras gravadas. A que estava embaixo de mim dizia:

BISPO ELDRIDGE THORNBRUSH † 1721

— Isso aqui não é um porão — comentou Emma. — É uma cripta.
Um leve calafrio percorreu meu corpo. Me aproximei da luz e do calor da chama de Emma.
— Quer dizer que tem gente enterrada aqui? — indagou Olive, a voz vacilando.
— E daí? — retrucou Enoch. — Vamos pegar essas malditas pombas antes que uma delas nos enterre aqui.
Emma girou, iluminando as paredes.
— Elas devem estar aqui em algum lugar. Não tem outra saída além daquelas escadas.
Então ouvimos mais sons de asas. Fiquei tenso. Emma fez a chama ficar mais brilhante e a apontou na direção do som. A luz tremeluzente caiu sobre uma tumba lisa que se erguia cerca de um metro do chão. Entre a tumba e a parede havia um vão dentro do qual não podíamos ver: um esconderijo perfeito para uma ave.
Emma levou um dedo aos lábios e gesticulou para que a seguíssemos.
Atravessamos a cripta em silêncio. Perto do túmulo, nos espalhamos, cercando os três lados expostos.
Prontos?, perguntou Emma, sem emitir som.
Os outros assentiram. Fiz sinal de positivo. Emma avançou na ponta dos pés para espiar por trás do túmulo, então fez cara de decepção.
— Nada! — reclamou, chutando o chão de frustração.
— Eu não entendo! — disse Enoch. — Elas estavam bem aqui!
Nós nos aproximamos para examinar. Então Millard disse:
— Emma, ilumine esse túmulo, por favor!
Ela o fez, e Millard leu a inscrição em voz alta:

AQUI JAZ SIR CHRISTOPHER WREN
CONSTRUTOR DESTA CATEDRAL

— Wren! — exclamou Emma. — Que coincidência estranha!
— Duvido muito que seja coincidência — retrucou Millard. — Ele deve ser parente da srta. Wren. Talvez seja pai dela!
— Isso tudo é muito interessante, mas como nos ajuda a encontrá-la ou a encontrar as pombas? — questionou Enoch.
— É o que estou tentando descobrir — murmurou Millard, então andou um pouco de um lado para outro e recitou uma frase do conto: “As aves ainda iam visitá-lo de vez em quando, embaixo da terra.”
Então pensei ter ouvido um arrulho de pombo.
— Shh! — fiz, para que todos prestassem atenção.
O som se repetiu alguns segundos depois, no canto de trás da tumba. Dei a volta e me ajoelhei, então percebi um pequeno buraco no chão, na base do túmulo. Tinha o tamanho certinho para uma ave entrar.
— Aqui!
— Ora, ora, quem diria! — disse Emma, levando a chama para perto do buraco. — Talvez isso seja o “embaixo da terra”.
— Mas o buraco é muito pequeno — comentou Olive. — Como vamos tirar as aves daí?
— Podemos esperar que elas saiam — sugeriu Horace, mas então uma bomba caiu tão perto que meus olhos se turvaram e meus dentes bateram.
— Não precisamos fazer isso! — exclamou Millard. — Bronwyn, por favor, abra a tumba de Sir Wren.
— Não! — exclamou Olive. — Não quero ver ossos apodrecidos!
— Não se preocupe, meu bem — respondeu Bronwyn. — Millard sabe o que está fazendo.
Ela apoiou as mãos na beira da tampa da tumba e começou a empurrar. A pedra deslizou, abrindo-se com um ronco lento e arrastado.
O cheiro que saiu contrariou o que eu esperava: não era de morte, e sim de mofo e terra velha. Nos aglomeramos para olhar lá dentro.
— E mais essa, agora — comentou Emma.

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