5 de abril de 2017

Capítulo oito

Na tentativa de evitar um novo sermão, eu me levantei cedo e saí antes que meu pai acordasse. Deixei um bilhete embaixo de sua porta e então fui pegar a maçã de Emma para comer no caminho, mas ela não estava na mesa de cabeceira onde eu a deixara. Uma busca cuidadosa pelo chão revelou uma grossa camada de poeira e uma coisa dura e ressecada que parecia esterco, do tamanho de uma bola de golfe. Estava começando a me perguntar se alguém tinha roubado minha maçã, quando me dei conta de que aquele pedaço de esterco era a maçã, e que em algum momento durante a noite ela tinha se estragado muito, apodrecendo como nunca vi um pedaço de fruta apodrecer.
Parecia que tinha passado um ano trancada num desidratador de alimentos.
Tentei pegá-las, e ela se desfez em pedaços na minha mão como um torrão de terra seca.
Intrigado e com o estômago roncando, joguei fora o que restara dela e deixei para trás a chuva que caía em troca do confiável sol da fenda. Dessa vez, porém, não havia garotas bonitas à minha espera do outro lado do cairn — nem qualquer outra pessoa, para dizer a verdade. Tentei não ficar muito desapontado, mas estava, um pouco.
Quando cheguei à casa, imediatamente comecei a procurar por Emma, mas a srta. Peregrine me interceptou antes que eu passasse pelo saguão de entrada.
— Uma palavra com você, senhor Portman — disse ela, e me conduziu para a privacidade de sua cozinha, ainda impregnada dos cheiros deliciosos do café da manhã que eu tinha perdido. Eu me senti como se tivesse sido chamado ao gabinete do diretor.
A srta. Peregrine se acomodou contra o fogão gigante, um equipamento formidável que podia muito facilmente ter cem anos, quando a fenda no tempo ainda era nova.
— Está gostando dessa temporada aqui conosco? — ela perguntou.
Respondi que estava, muito. Meu estômago roncou.
— Que bom — retrucou ela, e então seu sorriso desapareceu. — Soube que passou uma tarde agradável com alguns de meus tutelados ontem. E que também tiveram uma conversa bem interessante.
— Foi ótimo — disse eu. — Eles são todos muito simpáticos. — Tentava manter a leveza daquela conversa, mas sabia que ela estava me preparando alguma.
— Diga-me, como descreveria a natureza de sua conversa?
Tentei me lembrar.
— Não sei... conversamos sobre várias coisas. Como as coisas são aqui. Como elas são de onde eu venho.
— De onde você vem.
— Isso.
— E você acha inteligente discutir eventos do futuro com crianças do passado?
— Crianças? É isso mesmo que a senhora pensa deles? — Eu me arrependi de dizer isso antes mesmo de terminar de pronunciar as palavras.
— É como eles também veem a si mesmos — disse ela com irritação. — Do que mais você poderia chamá-los?
Levando em conta seu humor, essa não era uma sutileza que eu estava preparado para discutir.
— Crianças, acho...
— Isso mesmo. Agora, como eu dizia — prosseguiu ela, enfatizando as palavras com pancadas dadas com a lateral da mão no fogão —, você acha inteligente discutir o futuro com crianças do passado?
Decidi me fazer de bobo.
— Não?
— Ah, mas parece que acha, sim! Sei disso porque ontem à noite, no jantar, Hugh nos presenteou com um relato fantástico sobre as maravilhas das tecnologias de telecomunicações do século XXI. — A voz dela estava impregnada de sarcasmo. — Você sabia que quando envia uma carta no século XXI ela pode ser recebida quase instantaneamente?
— Acho que a senhora está falando sobre e-mails.
— Bem, Hugh sabia tudo sobre isso.
— Não entendo. Isso é um problema? — perguntei.
Ela se empertigou, afastou-se do fogão e deu um passo claudicante em minha direção. Apesar de ser uns bons trinta centímetros mais baixa que eu, ainda assim ela conseguia ser intimidadora.
— Como uma ymbryne, é meu dever, sob juramento, manter essas crianças em segurança — começou ela. — E acima de tudo isso significa mantê-las aqui, dentro da fenda, nesta ilha.
— Está bem.
— Elas nunca poderão fazer parte de seu mundo, senhor Portman, então de que adianta encher a cabeça delas com grandes discursos sobre as maravilhas exóticas do futuro? Agora metade das crianças está implorando por uma viagem de avião aos Estados Unidos, e a outra metade sonhando com o dia em que poderão ter um computador-telefone pessoal, como o seu.
— Desculpe-me. Eu não tinha ideia...
— Este é o lar delas. Tento fazer daqui o melhor lugar que posso. Mas a verdade nua e crua é que elas não podem sair, e eu agradeceria se você não as deixasse com vontade de fazer isso.
— Mas por que elas não podem? — perguntei.
Ela me olhou por um instante com os olhos apertados, então sacudiu a cabeça.
— Perdoe-me. Continuo a subestimar o tamanho de sua ignorância. — A srta. Peregrine, que parecia ser essencialmente incapaz de qualquer instante de ócio, pegou uma frigideira de cima do fogão e começou a esfregá-la com uma escova de aço. Eu me perguntei se ela estava ignorando minha pergunta ou simplesmente estudando como simplificar a resposta.
Quando a frigideira já estava limpa, ela a colocou de volta sobre o fogão e disse:
— Elas não podem permanecer no seu mundo, senhor Portman, porque em pouco tempo iriam envelhecer e morrer.
— O que quer dizer com morrer?
— Não sei como eu poderia ser mais direta. Eles morrem, Jacob — respondeu de modo direto, como se desejasse superar esse assunto o mais rapidamente possível. — Você pode achar que encontramos uma forma de enganar a morte, mas é uma ilusão. Se as crianças ficarem por tempo demais do seu lado da fenda, todos os muitos anos dos quais se abstiveram cairão de uma vez sobre elas, em questão de horas.
Comecei a imaginar uma pessoa se encolhendo e se desfazendo em poeira.
— Isso é horrível — falei, com um tremor.
— As poucas ocasiões em que tive o desprazer de testemunhar algo assim estão entre as piores memórias da minha vida. E posso garantir a você que já vivi tempo bastante para ver coisas realmente horrorosas.
— Então já aconteceu antes.
— A uma moça sob meus cuidados, infelizmente, muitos anos atrás. O nome dela era Charlotte. Foi a primeira e última vez que fiz uma viagem para visitar uma de minhas irmãs ymbrynes. Nesse breve período, Charlotte conseguiu escapar das crianças mais velhas que cuidavam dela e saiu da fenda. Foi em 1985, 1986, eu acho. Charlotte estava vagando sozinha pelo vilarejo quando foi descoberta por um policial. Quando ela não soube explicar quem era ou de onde tinha vindo – pelo menos não de forma que o satisfizesse – a coitada da menina foi mandada para o juizado de menores no continente. Demorei dois dias para encontrá-la e, quando isso aconteceu, ela tinha envelhecido 35 anos.
— Acho que vi uma foto dela. Uma mulher adulta em roupas de criança — disse eu.
A srta. Peregrine assentiu com ar severo e preocupado.
— Ela nunca mais foi a mesma depois disso. Ficou ruim da cabeça.
— O que aconteceu com ela?
— Atualmente ela vive com a senhorita Nightjar. A senhorita Nightjar e a senhorita Thrush cuidam de todos os casos difíceis.
— Mas as crianças não estão confinadas na ilha, não é? — perguntei. — Elas não poderiam deixá-la agora, ainda em 1940?
— Sim, e começar a envelhecer de novo, como pessoas normais. Mas com que objetivo? Serem pegas no meio de uma guerra feroz? Encontrar pessoas que as temem e não as compreendem? E há outros perigos também. Por isso é melhor ficarem aqui.


— Que outros perigos?
O rosto dela se fechou, como se estivesse arrependida de ter levantado o assunto.
— Nada com que você deva se preocupar — disse a srta. Peregrine. — Pelo menos, não agora.
Com isso ela me enxotou da casa. Perguntei outra vez o que ela queria dizer com “outros perigos”, mas ela fechou a porta de tela na minha cara.
— Aproveite a manhã! — exclamou, forçando um sorriso. — Vá procurar a senhorita Bloom. Tenho certeza de que ela está louca para vê-lo.
Caminhei até o jardim me perguntando como fazer para tirar da cabeça a imagem daquela maçã ressecada. Mas em pouco tempo consegui. Não a esqueci, ela só parou de me incomodar. Foi algo bem estranho.
Retomando minha missão original de encontrar Emma, soube por meio de Hugh que ela tinha ido fazer compras no vilarejo, então me sentei à sombra de uma árvore para esperá-la. Em menos de cinco minutos estava quase dormindo sobre a grama, sorrindo como um idiota, perguntando-me com serenidade qual poderia ser o cardápio do almoço. Era como se estar ali tivesse alguma espécie de efeito narcótico sobre mim; como se a própria fenda fosse a droga — ao mesmo tempo um estimulante e um sedativo —, e, se eu ficasse lá tempo demais, nunca mais ia querer sair.
Se isso fosse verdade, porém, podia explicar muitas coisas, como por que as pessoas podiam ficar ali por décadas sem enlouquecer. Sim, o lugar era belo e a vida, boa, mas, se todos os dias eram exatamente iguais, e se as crianças não podiam partir, como dissera a srta. Peregrine, aquele lugar não era apenas um paraíso, e sim uma espécie de prisão. Era tão agradavelmente hipnotizante que podia levar anos para uma pessoa perceber, e então seria tarde demais: sair dali seria muito perigoso.
Por isso, na verdade, não chega a haver possibilidade de uma decisão. Você fica. Só mais tarde — anos e anos mais tarde — você começa a se perguntar o que teria acontecido se tivesse feito o contrário.

* * *

Devo ter cochilado, porque acordei no meio da manhã com alguém cutucando meu pé. Entreabri um olho para descobrir um soldadinho tentando se esconder dentro de meu sapato, mas ele se prendeu nos cadarços. Tinha as pernas juntas e rígidas, e era meio estranho, com uns vinte centímetros de altura e usando trajes militares. Observei-o tentar se livrar por um instante e depois ficar rígido — um brinquedo mecânico cuja corda terminara.
Desamarrei o sapato para soltar o soldado, então o virei de costas em busca
da chave para lhe dar corda outra vez. Não encontrei nenhuma. Olhando de perto, era algo estranho, de aspecto tosco, que tinha uma bola de barro como cabeça e uma marca de dedo para assinalar sua face.
— Traga-o aqui! — Ouvi alguém gritar do outro lado do jardim. Havia um garoto sentado sobre um toco de árvore, à beira da floresta, acenando para mim.
Sem qualquer outro compromisso importante, peguei o soldado de barro e saí andando. Havia outros dispostos em torno do garoto — toda uma coleção de soldadinhos de corda, cambaleando de um lado para o outro, como robôs defeituosos. Quando me aproximei, o que estava em minha mão começou a se contorcer, quase como se tentasse escapar. A corda dele não tinha acabado, afinal de contas. Coloquei-o junto dos outros e limpei a sujeira de barro das minhas calças.
— Eu sou Enoch — disse o garoto. — Você deve ser “ele”.
— Acho que sou — respondi.
— Desculpe se ele o perturbou — Enoch disse, conduzindo o soldado que eu devolvera até os outros. — Sabe, eles têm ideias próprias. Ainda não estão bem treinados. Eu só os fiz na semana passada. — Ele falava com um leve sotaque londrino. Círculos negros cadavéricos circundavam seus olhos como os de um guaxinim, e seu macacão, o mesmo que usava nas fotos que eu vira, como um uniforme que nunca tirasse, tinha marcas de lama e terra. Não fosse seu rosto rechonchudo, ele poderia ser um limpador de chaminés tirado de Oliver Twist, mas nenhuma dessas crianças jamais precisava implorar por seu mingau ou por uma segunda porção de nada.
— Você que os fez? — perguntei, impressionado. — Como?
— São homunculi — respondeu. — Às vezes ponho cabeças de bonecas neles, mas dessa vez estava com pressa e não me dei ao trabalho.
— O que é um homunculi?
— Mais de um homunculus — respondeu, como se fosse algo que qualquer imbecil soubesse. — Algumas pessoas acham que o certo é homúnculos, mas acho que isso soa bem idiota, não acha?
— Com certeza.
O homem de barro que eu devolvera a ele saiu andando outra vez, então Enoch o jogou de qualquer jeito junto com os outros. Eles pareciam totalmente confusos, batendo uns nos outros como se estivessem muito nervosos.
— Lutem, seus frescos! — ele ordenou aos homens de barro errantes, e nesse momento eu me dei conta de que os outros não estavam apenas se esbarrando, mas se socando e se chutando. O homem de barro que tinha fugido, porém, não estava interessado em lutar e, quando ele começou a se afastar outra vez, Enoch o agarrou e arrancou suas pernas.
— É isso o que acontece com desertores do meu exército! — gritou, e jogou o aleijado na grama, onde ficou se contorcendo de modo grotesco enquanto os outros caíam sobre ele.
— Você trata todos os seus brinquedos assim?
— Por quê? Está com pena deles?
— Não sei. Devia estar?
— Não. Eles não estariam vivos se não fosse por mim.
Ri, e Enoch me olhou com expressão séria.
— Qual é a graça?
— Você fez uma piada.
— Você é meio estúpido, hein? Veja aqui. — Ele pegou um dos soldados e tirou suas roupas, então o quebrou ao meio e removeu do interior pegajoso de seu peito um coraçãozinho pulsante. O soldado ficou imediatamente imóvel. Enoch segurou o coração entre o polegar e o indicador para que eu o visse.
— É de um rato — explicou. — É isso o que posso fazer: tomar a vida de uma coisa e dá-la a outra, mesmo que seja de barro como esta, ou que já tenha estado viva mas não esteja mais. — Ele guardou o coração gosmento no macacão. — Em breve, quando eu descobrir um modo de treiná-los adequadamente, farei um exército inteiro deles. Só que serão enormes. — Levantou o braço acima da cabeça para me mostrar o tamanho. — O que você sabe fazer? — perguntou ele.


— Eu? Nada. Quero dizer, nada especial como você.
— É uma pena — respondeu. — Mas você vem morar com a gente mesmo assim? — Ele não disse isso como se desejasse mesmo que eu o fizesse. Só parecia curioso.
— Não sei — respondi. — Não pensei nisso. — Era mentira, claro, eu pensava nisso, mas mais como numa espécie de sonho acordado.
Ele me olhou desconfiado.
— Mas você não quer?
— Ainda não sei.
Ele apertou os olhos sem parar de me encarar e começou a balançar lentamente a cabeça, como se tivesse acabado de me entender. Então se inclinou para perto de mim e disse em voz baixa:
— Emma contou a você sobre o Ataque ao Vilarejo, não contou?
— Ataque ao quê?
Ele desviou o olhar.
— Ah, não é nada, só uma brincadeira que alguns de nós fazemos.
Tive a clara sensação de que estavam me aprontando alguma.
— Ela não me contou — disse eu.
Enoch veio apressado até o tronco de árvore cortado onde eu estava.
Aposto que não. Tem muitas coisas neste lugar que ela não gostaria que você soubesse.
— Ah, é? Por quê?
— Porque aí você veria que não é tão bom quanto todo mundo quer que você pense que é e não ficaria aqui.
— Que tipo de coisas? — perguntei.
— Não posso contar — respondeu, lançando-me um sorriso diabólico. — Eu teria sérios problemas.
— Deixa pra lá — retruquei. — Foi você que tocou no assunto.
Eu me levantei para ir embora.
— Espere! — exclamou, segurando a manga da minha camisa.
— Por que esperar se você não vai me contar nada?
Ele esfregou o queixo, avaliando a situação.
— É verdade, não tenho permissão de dizer nada... mas acho que não posso impedi-lo de ir lá em cima e dar uma olhada no quarto no fim do corredor.
— Por quê? O que tem lá? — perguntei.
— Meu amigo Victor — respondeu. — Ele quer conhecer você. Vá lá em cima conversar com ele.
— Está bem, eu vou.
Saí andando na direção da casa, então ouvi o assobio de Enoch. Ele imitou o gesto de tatear a parte de cima de uma porta com a mão. A chave, disse com os lábios, sem emitir nenhum som.
— Para que preciso de chave se tem alguém lá dentro?
Ele se virou, fingindo não ter ouvido.

* * *

Entrei na casa, fui até as escadas e subi ao andar de cima como se tivesse algo importante a fazer ali e não me importasse em ser visto. Cheguei ao segundo andar despercebido, então andei em silêncio até o quarto no fim do corredor e tentei abrir a porta. Estava fechada. Bati, mas ninguém respondeu. Olhando para trás, por cima do ombro, para me assegurar de que ninguém me observava, corri a mão pelo alto do portal e, claro, encontrei uma chave.
Destranquei a porta e entrei. Era igual aos outros quartos da casa — tinha uma cômoda, um guarda-roupa, um vaso de flores e uma mesa de cabeceira. O sol do fim da manhã entrava através de cortinas fechadas cor de mostarda, lançando uma luz amarela por toda parte, de modo que todo o quarto parecia envolto em âmbar. Só depois de ver tudo isso percebi o jovem deitado na cama, de olhos fechados e boca entreaberta, semioculto atrás de uma cortina de renda.
Fiquei imóvel, com medo de acordá-lo. Reconheci-o do álbum da srta. Peregrine — apesar de não tê-lo visto nas refeições e de não termos sido apresentados —, e na foto ele estava dormindo na cama, do mesmo modo que naquele momento. Será que ele estava ali em quarentena, contaminado por alguma doença do sono? Será que Enoch queria que eu pegasse a doença também?
— Oi? — sussurrei. — Está acordado?
Ele não se mexeu. Levei a mão a seu braço e o sacudi levemente. Sua cabeça rolou para o lado.
Então algo terrível me ocorreu, e para testar uma teoria levei a mão aberta até sua boca. Não conseguia sentir sua respiração. Meu dedo roçou em seus lábios, que estavam frios como gelo. Afastei a mão assustado.
Depois ouvi passos e me virei para ver Bronwyn à porta.
— Você não devia estar aqui! — disse em voz baixa.
— Ele está morto — falei, ainda em choque.
Os olhos de Bronwyn foram até o rapaz, e o rosto dela ficou tenso.
— Esse é Victor — disse ela.
De repente me lembrei onde tinha visto aquele rosto antes. Ele era o garoto que levantava uma rocha nas fotos de meu avô. Victor era irmão de Bronwyn.
Não era possível dizer há quanto tempo estava morto. Enquanto a fenda estivesse aberta, podiam ser cinquenta anos e parecer apenas um dia.
— O que aconteceu a ele? — perguntei.
— Talvez eu acorde o velho Victor — disse uma voz às nossas costas. — E você mesmo pode perguntar a ele. — Era Enoch. Ele entrou atrás de Bronwyn e fechou a porta.
Bronwyn olhou para ele através de uma torrente de lágrimas.
— Você o faria despertar? Ah, por favor, Enoch!
— Mas eu não devia — respondeu ele. — No momento, estou com poucos corações; são necessários muitos deles para levantar um ser humano, mesmo que por apenas um minuto.
Bronwyn caminhou até o garoto morto e começou a acariciar seus cabelos com os dedos.
— Por favor — implorou ela. — Faz muito tempo que não falo com Victor.
— Bem, tenho alguns corações de vaca guardados em conserva, em vidros no porão — disse ele, fingindo pensar seriamente na possibilidade. — Mas odeio usar ingredientes inferiores. Os frescos são sempre melhores!
Bronwyn começou a chorar. Uma de suas lágrimas caiu sobre o paletó do garoto e ela se apressou a limpá-la com sua manga.
— Não precisa chorar desse jeito — disse Enoch. — Você sabe que não suporto isso. De qualquer modo, acordar Victor é uma crueldade, ele gosta do lugar onde está.


— E onde é isso? — perguntei.
— Quem sabe? Mas, sempre que o despertamos para bater um papo, ele parece muito apressado para voltar.
— Crueldade é você brincar com ela desse jeito e me enganar — disse eu. — E, se Victor está morto, por que simplesmente não o enterram?
Bronwyn me lançou um olhar de completo desprezo.
— Porque assim não poderíamos vê-lo nunca mais — disse ela.
— Isso é um problema, meu chapa — disse Enoch, fingindo uma expressão derrotada. — Só falei para subir até aqui porque queria que você soubesse de todos os fatos. Estou do seu lado.
— É? Então quais são os fatos? Como Victor morreu?
Bronwyn ergueu os olhos.
— Ele foi morto por um... aiiiiii! — gritou ela ao receber um beliscão de Enoch no braço.
— Quieta! — exclamou ele. — Você não deve contar!
— Isso é ridículo! — bradei. — Se nenhum de vocês vai me contar, vou perguntar à senhorita Peregrine.
Enoch rapidamente se aproximou de mim com os olhos arregalados.
— Ah, não, você não pode fazer isso.
— É? Por que não?
— A Ave não gosta que falemos sobre Victor — respondeu ele. — É por isso que ela veste preto o tempo todo, sabia? Enfim, ela não pode saber que estivemos aqui. Ela vai nos pendurar pelo dedinho do pé!
Como se fosse uma deixa, ouvimos o som inconfundível da srta. Peregrine subindo as escadas. Bronwyn ficou branca e saiu correndo pela porta, mas, antes que Enoch conseguisse escapar, bloqueei seu caminho.
— Saia da frente! — rosnou ele.
— Me conte o que aconteceu com Victor!
Não posso!
— Então me conte sobre o Ataque ao Vilarejo.
— Também não posso falar sobre isso! — Ele me empurrou para tentar passar, mas, quando percebeu que não ia conseguir, desistiu. — Está bem. Feche a porta que eu conto baixinho para você.
Fechei a porta no momento em que a srta. Peregrine chegou ao segundo andar. Ficamos parados em silêncio com os ouvidos encostados na porta por um momento, tentando escutar algum sinal de que tínhamos sido apanhados. Os passos da diretora vieram em direção a nós e depois pararam. Uma porta abriu e depois fechou.
— Ela foi para o quarto — Enoch sussurrou.
— Certo — disse eu. — O Ataque ao Vilarejo.
Ele parecia arrependido de ter levantado o assunto, mas me conduziu para longe da porta. Eu o segui, agachado, para que ele pudesse sussurrar em meu ouvido.
— Como eu disse, é uma brincadeira nossa. Funciona exatamente como diz o nome.
— Você quer dizer atacar o vilarejo de verdade?
— Quebrar tudo, perseguir gente, pegar o que der vontade, incendiar as coisas. É uma grande diversão.
— Mas isso é terrível!
— Temos de praticar nossas habilidades de alguma forma, não é? No caso de um dia precisarmos nos defender. De outro modo, ficaríamos muito enferrujados. Além do mais, há regras. Não podemos matar ninguém. Só assustá-los um pouco, sabe? E se alguém se machucar, bem, estará novinho em folha no dia seguinte e não vai se lembrar de nada.
— Emma também participa?
— Não. Ela é como você. Diz que é maldade.
— E é mesmo.
Ele revirou os olhos.
— Vocês dois se merecem.
— O que quer dizer com isso?
Ele se levantou, em todo o seu um metro e sessenta, e meteu um dedo no meu peito.
— Quero dizer que é melhor você não ficar com raiva e se meter a valentão comigo, parceiro, porque, se não atacássemos o maldito vilarejo de vez em quando, a maior parte desse grupo teria enlouquecido há muito tempo, inclusive sua amiguinha. — Ele caminhou para a porta, levou a mão à maçaneta e virou-se para me encarar. — E, se você acha que somos malvados, espere só até conhecer os outros.
— Os outros quem? De quem diabos está falando?
Ele ergueu um dedo para que eu fizesse silêncio, depois saiu do quarto.
Fiquei sozinho de novo. Meus olhos foram atraídos para o garoto na cama. O que aconteceu com você, Victor?
Talvez ele tenha enlouquecido e se matado, tenha ficado tão cheio dessa eternidade alegre mas sem futuro que tomou veneno de rato ou pulou de um despenhadeiro de paraquedas. Ou talvez tivessem sido eles, os outros “perigos” mencionados de modo tão misterioso pela srta. Peregrine.
Saí do quarto e, no corredor, quando começava a me encaminhar para a escada, ouvi a voz da srta. Peregrine por trás de uma porta entreaberta. Entrei no quarto mais próximo e me escondi atrás da porta; cinco segundos depois ela passou mancando por mim no corredor. Fiquei escondido até que ela terminasse de descer a escada. Enquanto estava ali agachado, meus olhos examinaram o quarto. Havia duas camas muito bem-arrumadas encostadas à parede, uma em frente à outra. Ao pé de uma delas havia um par de botas de couro. Eu as reconheci imediatamente: eram de Emma. Aquele era o quarto dela.
Eu me arrisquei e saí de onde estava para olhar melhor. Havia uma arca com gavetas e um espelho grudados a uma parede, e uma escrivaninha com uma cadeira colada a outra. Era o quarto de uma garota organizada sem nada a esconder, ou pelo menos era o que parecia, até que encontrei uma caixa de sapatos dentro do armário. Ela estava amarrada com barbante e havia as seguintes palavras escritas com giz de cera:


Sentei-me com a caixa no colo e desamarrei o barbante. Estava bem cheia, com cem ou mais cartas, e todas, todas elas do meu avô. Meu coração se acelerou. Era exatamente o tipo de mina de ouro que eu esperava encontrar na velha casa em ruínas. Eu me senti mal por estar bisbilhotando, mas, se as pessoas ali insistiam em esconder as coisas de mim, bem, eu precisava encontrar tudo por conta própria.
Queria ler todas, mas tinha medo de ser descoberto por alguém, por isso eu as folheei rapidamente para ter uma visão geral. Muitas cartas eram do início dos anos 1940, durante o período em que vovô Portman esteve no exército. Uma amostra aleatória revelou que eram cartas longas e sentimentais, cheias de declarações de amor dele e estranhas descrições da beleza de Emma no inglês capenga do meu avô na época. (“Você, bela como flor, tem bom perfume também; posso colhê-la?”) Em outra ele incluiu uma foto dele posando sentado como um jóquei sobre uma bomba, com um cigarro pendurado nos lábios.
Com o tempo, as cartas dele foram ficando mais curtas e menos frequentes.
Da década de 1950, havia mais ou menos uma por ano. A última era datada de abril de 1963 e não havia sequer uma carta no envelope, apenas algumas fotos.
Duas eram de Emma, fotos que ela mesma enviara a ele ao longo dos anos. Ele as tinha devolvido. A primeira era bem antiga, uma foto que fazia uma brincadeira com a que ele enviara, dela descascando batatas enquanto fingia fumar um dos cachimbos da srta. Peregrine. A segunda também era com pose, mas mais triste, e imaginei que ela a enviara depois de meu avô passar muito tempo sem escrever. A última foto, na verdade a última coisa que ele enviou a ela, era de meu avô na meia-idade, com uma garotinha no colo.
Precisei olhar por um ou dois minutos para a última foto para perceber quem era a garotinha — minha tia Susie, talvez com quatro anos na época.
Depois disso, as cartas terminaram. Eu me perguntei por quanto tempo mais a coitada da Emma tinha continuado a escrever para meu avô sem receber resposta — e o que ele fizera com as cartas dela. Tinha jogado fora? Escondido em algum lugar, sem respondê-las? Sem dúvida tinha sido uma dessas cartas — sentimentais, saudosas e transbordantes de um amor desesperado e carente — que meu pai e minha tia encontraram quando crianças, uma carta que os fizera achar que seu pai era mentiroso e adúltero. Como estavam errados.







Então escutei alguém pigarrear atrás de mim, olhei para trás e deparei com Emma me olhando da porta. Tentei apressadamente arrumar as cartas, com o rosto vermelho, mas era tarde demais: eu tinha sido pego.
— Desculpe. Eu não devia estar aqui.
— Eu sei muito bem disso — disse ela. — Mas, por favor, não quero de jeito nenhum interromper sua leitura. — Ela caminhou com passos largos até a cômoda, puxou uma gaveta e a jogou no chão, fazendo um tremendo barulho.
— Já que está aqui, por que não espia minhas calcinhas também?
— Sinto muito, mesmo — repeti. — Eu nunca faço coisas assim.
— Ah, isso não é surpresa. Você deve estar sempre ocupado demais espiando pelas janelas das mulheres, imagino!
Ela parou acima de mim, trêmula de raiva, enquanto eu lutava para colocar todas as cartas de volta naquela caixa atulhada.
— Isso tem um sistema, sabia? Me dê aqui, você está bagunçando tudo! — Sentou-se e me afastou para o lado, então esvaziou a caixa no chão e começou de novo, organizando as cartas em pilhas com a velocidade e a prática de um funcionário dos correios. Achei melhor ficar com a boca fechada por um tempo e observar docilmente enquanto ela trabalhava.
Depois de algum tempo, quando tinha se acalmado um pouco, ela disse:
— Você quer saber sobre Abe e mim, é isso? Você podia simplesmente ter perguntado.
— Jamais quis me intrometer.
— Isso agora é um detalhe irrelevante, não?
— Acho que sim.
— Então, o que você quer saber?
Pensei no assunto. Não tinha muita certeza de por onde começar.
— Só... o que aconteceu?
— Está bem, vamos deixar os detalhes para lá e ir direto ao ponto. Na verdade, é simples: ele foi embora. Disse que me amava e prometeu voltar um dia. Mas nunca voltou.
— Mas ele tinha de ir, não? Para lutar?
Tinha? Não sei. Acho que tinha. Ele disse que não ia conseguir viver consigo mesmo se ficasse sentado durante a guerra enquanto seu povo era caçado e assassinado. Disse que era seu dever. Acho que o dever significava mais para ele do que eu. Mas mesmo assim eu esperei. Esperei preocupada durante toda aquela maldita guerra, imaginando que cada carta que chegava trazia a notícia de sua morte. Então, quando a guerra finalmente terminou, ele disse que não tinha como regressar. Disse que enlouqueceria. Contou que tinha aprendido a se defender no exército e não precisava mais de uma babá como a Ave para cuidar dele, por isso ia para os Estados Unidos montar uma casa para a gente e depois mandaria me buscar. Então esperei mais. Esperei por tanto tempo que, se fosse realmente ficar com ele, eu teria quarenta anos de idade. E nessa época ele já estava casado com uma comum, e isso, como dizem por aí, foi o fim.
— Sinto muito. Eu não fazia ideia.
— É uma história antiga. Já não ligo muito para ela.
— Você o culpa por ter ficado presa aqui?
Ela me lançou um olhar penetrante.
— Quem disse que estou presa? — Ela deu um suspiro. — Não. Na verdade, não. Só sinto falta dele, é tudo.
— Ainda?
— Todo dia.
Ela terminou de arrumar as cartas.
— Pronto — disse ela, fechando a tampa da caixa sobre a correspondência. — Toda a história da minha vida amorosa em uma caixa empoeirada dentro de um armário. — Ela respirou fundo, fechou os olhos e apertou a ponta do nariz, e por um instante eu quase consegui ver a mulher velha escondida por trás de seus traços suaves. Meu avô tinha pisado em seu pobre coração comprometido e a ferida ainda era recente, mesmo tantos anos depois.
Pensei em passar o braço em torno dela, mas algo me deteve. Lá estava aquela garota bonita, divertida e fascinante — e, o milagre dos milagres mais intrigantes, ela parecia mesmo gostar de mim —, mas agora eu tinha entendido que não era de mim que ela gostava. Estava desesperada e sofrendo de ciúme de outra pessoa, de quem eu era um mero e pálido substituto: meu avô. Isso é o bastante para fazer uma pessoa recuar. Não importa quanto esteja entusiasmado.
Conheço caras que não gostam nem de sair com a ex de um amigo. Segundo esse padrão, sair com a ex de seu avô seria praticamente incesto.
Quando percebi, a mão de Emma estava em meu braço. Então ela pousou a cabeça em meu ombro e senti seu queixo se aproximar lentamente do meu rosto.
Isso significava “beije-me” em linguagem corporal, se é que essa linguagem já existiu. Em um minuto nossos rostos estariam no mesmo nível e eu teria de escolher entre beijá-la ou afastá-la, ofendendo-a seriamente neste último caso, algo que eu já havia feito uma vez. Não é que eu não quisesse — mais que tudo, eu queria, Deus é testemunha —, mas a ideia de beijá-la a meio metro de uma caixa com cartas de amor de meu avô obsessivamente preservadas fazia com que eu me sentisse estranho e nervoso.
Seu rosto se encostou no meu, e eu sabia que tinha de apertar o botão de emergência. Era agora ou nunca. Resolvi dizer a primeira coisa que me veio à cabeça para quebrar o clima.
— Tem algo rolando entre você e Enoch?
Ela se afastou no ato, olhando-me como se eu sugerisse que comêssemos filhotinhos de cachorro no jantar.
— O quê? Não! De onde você tirou uma ideia maluca como essa?
— Dele mesmo. Ele parece um pouco amargo quando fala de você, e eu tive a clara sensação de que ele não me quer por aqui, como se eu estivesse me intrometendo na área dele ou algo assim.
Os olhos dela ficavam cada vez mais arregalados.
— Antes de mais nada, ele não tem área nenhuma na qual você possa se intrometer, isso eu garanto. Ele é um bobo, ciumento e mentiroso.
— É mesmo?
— É o quê?
— Mentiroso.
Ela apertou os olhos.
— Por quê? Com que tipo de besteira ele andou enchendo sua cabeça?
— Emma, o que aconteceu com Victor?
Ela ficou pálida, sacudiu a cabeça e murmurou:
— Garoto egoísta, desgraçado!
— Tem alguma coisa aqui que ninguém quer me contar, e eu quero saber o que é.
— Eu não posso — disse ela.
— É só isso o que eu escuto! Não posso falar do futuro. Vocês não podem falar do passado. A senhorita Peregrine tem todos nós sob seu controle, e isso é ridículo. O último desejo de meu avô foi que eu viesse aqui para descobrir a verdade. Será que isso não significa nada?
Ela segurou minha mão, levou-a até o colo e baixou o olhar para ela.
Parecia estar à procura das palavras certas.
— Você tem razão — disse finalmente. — Há uma coisa.
— Conte-me.
— Aqui não — sussurrou ela. — Esta noite.
Combinamos de nos encontrar mais tarde naquela noite, quando meu pai e a srta. Peregrine estivessem dormindo. Emma insistiu que era a única maneira de aquilo acontecer, porque “as paredes têm ouvidos” e era impossível que os dois escapassem juntos de dia sem levantar suspeitas. Para completar a ilusão de que não tínhamos nada a esconder, passamos o resto da tarde no jardim, à vista de todos, e quando o sol começou a se pôr fui embora sozinho na direção da charneca.

* * *

Era outra noite chuvosa no século XXI, e quando cheguei ao pub estava grato por entrar em um lugar seco. Encontrei meu pai sozinho a uma mesa diante de uma cerveja, puxei uma cadeira e comecei a contar histórias inventadas sobre meu dia enquanto secava o rosto com guardanapos. (Começava a descobrir uma coisa sobre mentir: quanto mais eu mentia, mais fácil ficava.)
Mas ele mal me escutava.
— Hum — dizia. — Interessante. — E então seu olhar se perdia e ele tomava outro gole da cerveja e suspirava amargurado.
— O que aconteceu com você? Ainda está com raiva de mim? — perguntei.
— Não, nada disso. — Ele estava prestes a me explicar, mas mudou de assunto com um aceno de mão. — Ah, é bobagem.
— Pai, pode me contar.
— É só... esse cara que apareceu há uns dias. Outro observador de aves.
— Alguém que você conhece?
Ele sacudiu a cabeça.
— Nunca o vi antes. No início, achei que fosse apenas um amador apaixonado que fizesse isso por hobby, mas ele sempre retorna aos mesmos locais, às mesmas áreas de nidificação, sempre tomando notas. Não há dúvida de que ele sabe o que está fazendo. E hoje eu o vi com um alçapão e um par de Predators, por isso sei que é profissional.
— Predators?
— Binóculos profissionais. E dos bons. — Ele tinha dobrado as bordas da bolacha de chope e as arrumou três vezes, num tique nervoso. — É só que eu achava que fosse o único a estudar essa população de aves, sabe? Queria muito que este livro fosse algo especial.
— E então esse babaca aparece.
— Jacob.
— Quero dizer, esse filho da puta do mal.
Ele riu.
— Obrigado, filho, já basta.
— Ele vai ser especial — falei.
Ele deu de ombros.
— Não sei. Espero que sim. — Mas ele não parecia muito seguro de si.
Eu sabia exatamente o que estava prestes a acontecer. Era parte desse ciclo patético pelo qual meu pai sempre passava. Ele ficava completamente apaixonado por um projeto, falava sobre isso sem parar por meses. Então, inevitavelmente, algum pequeno problema aparecia e jogava areia em tudo, mas em vez de lidar com isso ele ficava completamente devastado. Depois, a primeira coisa que qualquer pessoa ouvia sobre o assunto era que o projeto seria abandonado e que ele embarcaria em outro, e o ciclo recomeçava. Ele ficava desestimulado com muita facilidade. Era por isso que tinha uma dúzia de manuscritos inacabados trancados em sua escrivaninha, e também o motivo de a loja de pássaros que tentou abrir com tia Susie nunca ter tido para a frente, e também por isso que era formado em línguas asiáticas e nunca fora à Ásia. Ele tinha 46 anos e ainda tentava se encontrar; ainda tentava provar que não precisava do dinheiro da minha mãe.
Ele precisava de palavras de estímulo que eu não me sentia qualificado para lhe dizer. Em vez disso, tentei mudar de assunto.
— Onde esse intrometido está hospedado? — perguntei. — Achei que estávamos nos únicos quartos da cidade.
— Suponho que esteja acampado — respondeu meu pai.
— Com esse tempo?
— É uma espécie de ornitologia radical praticada por nerds. Quanto mais difícil sua situação, mais perto de seu objeto de pesquisa você chega, física e psicologicamente.
Ri e disse:
— Então por que você não está lá fora? — E imediatamente desejei não ter dito isso.
— Pelo mesmo motivo que meu livro provavelmente não vai sair — disse ele de modo melancólico. — Sempre há alguém mais dedicado que eu.
Eu me mexi na cadeira com desconforto.
— Eu não quis dizer isso. O que quis dizer foi que...
— Sshhh! — Meu pai se retesou inteiro e lançou um olhar furtivo para a porta. — Olhe rápido, mas não dê bandeira. Ele acabou de entrar.
Escondi o rosto com o cardápio e espiei por cima dele. Um sujeito de barba e aparência desmazelada estava parado à porta. De óculos escuros, ele usava chapéu para chuva e o que pareciam ser vários casacos sobrepostos, fazendo-o parecer ao mesmo tempo gordo e vagamente um andarilho.
— Adoro esse ar de Papai Noel sem-teto que ele tem — sussurrei para meu pai. — Não é fácil se vestir assim. Vai ser moda na próxima estação.
Ele me ignorou. O homem foi até o bar, e as conversas ao seu redor baixaram de tom um ou dois pontos. Kev perguntou o que ele desejava, o homem disse algo e Kev desapareceu na cozinha. Ele olhava direto para a frente enquanto esperava, e um minuto mais tarde Kev voltou e entregou a ele uma embalagem de viagem. Ele a pegou, jogou algumas notas no balcão e se dirigiu para a porta. Antes de sair, porém, virou-se lentamente para examinar o salão.
Então, depois de um longo instante, ele partiu.
— O que ele pediu? — gritou meu pai quando a porta se fechou.
— Uns bifes — respondeu Kev. — Disse que não se importava como eles estivessem, então ele os levou muito, muito malpassados. Sem reclamações.
As pessoas começaram a murmurar e a especular, e o volume das conversas começou a subir outra vez.
— Bife cru — disse eu para meu pai. — Você tem de reconhecer que, mesmo para um ornitólogo, isso é estranho.
— Talvez seja um desses adeptos de comidas cruas — retrucou meu pai.
— Pode ser. Ou talvez tenha cansado de se banquetear com o sangue de ovelhas.
Meu pai revirou os olhos.
— É óbvio que o homem tem um fogareiro de acampamento. Provavelmente só prefere cozinhar ao ar livre.
— Embaixo de chuva? E, mesmo assim, por que você o está defendendo? Achei que ele fosse seu arquirrival.
— Não espero que você entenda, mas seria melhor se não zombasse de mim — disse ele. Depois se levantou e foi até o bar.

* * *

Algumas horas mais tarde meu pai subiu cambaleante as escadas, fedendo a álcool, e caiu na cama. Ele apagou instantaneamente, emitindo roncos monstruosos. Peguei um casaco e saí para me encontrar com Emma, sem ter de fazer isso escondido.
As ruas estavam desertas e tão silenciosas que era possível ouvir o sereno caindo. Nuvens se esticavam finas pelo céu, deixando passar luz da lua suficiente apenas para iluminar meu caminho. Quando cheguei ao alto da colina, fui tomado por uma sensação estranha. Parei para olhar ao redor e vi um homem me observando do alto de um afloramento rochoso ao longe. Suas mãos estavam sobre o rosto, e os cotovelos, abertos como se estivesse observando através de binóculos, e a primeira coisa que pensei foi Droga, me pegaram!, supondo que fosse um dos criadores de ovelhas em vigília noturna, brincando de detetive. Mas então por que ele não se aproximava para me confrontar? Em vez disso, apenas ficou parado me olhando enquanto eu também o observava.
Finalmente cheguei à conclusão de que, se fui pego, já era, porque, se eu voltasse agora ou continuasse em frente, a história chegaria a meu pai de qualquer jeito. Por isso ergui o braço, fiz uma saudação com o dedo médio e desci, entrando no nevoeiro frio do outro lado do morro.
Quando saí do cairn, parecia que as nuvens tinham sido arrancadas e a lua pulsava como uma roda grande e reluzente, tão brilhante que eu quase tive de semicerrar os olhos. Alguns minutos mais tarde, Emma chegou, caminhando com dificuldade pela charneca, desculpando-se e falando a cem quilômetros por hora.
— Desculpa pelo atraso. Levou horas para que todos fossem para a cama! Daí, quando eu estava de saída, esbarrei com Hugh e Fiona se beijando no jardim, mas não se preocupe: eles prometeram ficar quietos se eu também não dissesse nada!
Ela jogou os braços em torno do meu pescoço.
— Senti sua falta — disse ela. — Desculpe por hoje cedo.
— Eu também — disse eu, dando tapinhas em suas costas sem me sentir à vontade. — Bom... vamos conversar.
Ela saiu andando.
— Aqui não. Há um lugar melhor para ir. Um lugar especial — disse ela.
— Não sei...
Ela tomou minha mão.
— Não fique assim. Você vai adorar, prometo. E quando chegarmos lá vou lhe contar tudo.
Eu estava quase certo de que aquele era um plano nada sutil para que eu a beijasse, e se eu fosse um pouco mais velho ou mais sábio, ou um desses caras para quem ficar com as garotas fosse algo tão frequente que se tornava um ato inconsequente, poderia ter tido força emocional suficiente para exigir que ela parasse com aquilo e me contasse tudo ali mesmo e naquela hora. Mas eu não era nenhuma dessas coisas — e, além disso, havia o modo como me olhava, toda sorrisos, e a forma como um simples gesto recatado, como ajeitar o cabelo, me fazia desejar segui-la, ajudá-la, fazer qualquer coisa que ela pedisse —, e em pouquíssimo tempo estava irremediavelmente derrotado.
Eu vou, mas não vou beijá-la, disse para mim mesmo. Repeti isso como um mantra enquanto ela me conduzia pela charneca pantanosa. A namorada do vovô, a namorada do vovô, não a beije!
Seguimos em direção à cidade, pegamos o rumo da praia rochosa que dava para o farol e descemos pela trilha íngreme até a areia.
Ao chegar à beira da água, ela disse:
— Espere aqui. — E saiu correndo para buscar algo.
Fiquei parado observando o facho de luz do farol girar e passar por cima de tudo — um milhão de aves marinhas adormecidas nos penhascos cheios de buracos; rochas gigantescas expostas pela maré baixa, reluzindo como ovos molhados; um bote apodrecido se afundando na areia. Quando Emma voltou, vestia sua roupa de baixo e segurava um par de máscaras de mergulho com snorkel.
— Ah, não — disse eu. — Sem chance.
— Você pode ficar só com a roupa de baixo — disse ela, olhando desconfiada para meus jeans e meu casaco. — Seu traje não é nada apropriado para nadar.
— É porque eu não vou nadar! Concordei em dar uma escapada para me encontrar com você no meio da noite, tudo bem, mas só para conversar, não para...
— Nós vamos conversar — insistiu ela.
— Embaixo d’água. E eu de cuecas.
Ela chutou areia em mim e começou a se afastar, mas depois se virou.
— Não vou atacar você, se é isso o que o está deixando tão preocupado. Não seja tão convencido.
— Não sou.
— Genial, então pare de enrolar e tire logo essas malditas calças! — Ela me atacou, me derrubou no chão e lutou para arrancar meu cinto com uma das mãos enquanto esfregava areia na minha cara com a outra.
— Argh! — exclamei, cuspindo areia. — Você joga sujo, você joga sujo!
Eu não tinha escolha além de devolver o favor com um punhado de areia também, e em pouco tempo as coisas tomaram as proporções de uma guerra de areia descontrolada e sem limites. Quando terminou, nós dois estávamos rindo e tentando sem sucesso tirar toda a areia dos cabelos.
— Bem, agora você precisa de um banho, então entre logo nessa droga de água, por favor.
— Certo, eu vou.
Caminhamos dentro d’água para além das rochas com suas piscinas cheias de vida se movendo nos esconderijos rasos entre elas, e subimos em uma canoa que ela havia escondido numa pequena angra isolada. Emma me entregou um remo e me mandou remar, e seguimos rumo ao farol. A noite estava quente e o mar, calmo, e por alguns minutos eu me perdi completamente no ritmo agradável de nossos remos batendo na água e na brisa da noite. Então, a uns cem metros do farol, Emma parou de remar e desceu do barco para a água.
Entretanto, para minha surpresa, não afundou nas ondas, mas ficou de pé, com água apenas até os joelhos.
— É tão raso assim? — disse eu.
— Não — respondeu, então pegou uma âncora dentro da canoa e a jogou na água. Ela afundou cerca de um metro e parou de repente com um clang metálico. No momento seguinte o facho de luz do farol passou por nós e eu pude ver o casco de um navio que se estendia para todos os lados a nossa volta.
— Um naufrágio! — exclamei. — Era isso que você queria me mostrar?
— Quase — respondeu, ainda toda misteriosa. — Vamos, estamos quase lá, e traga sua máscara. — E saiu andando pelo casco do navio afundado.
Saí da canoa com cuidado e fui atrás dela. Para qualquer um que nos visse da margem pareceria que estávamos caminhando sobre a água. Andamos até a canoa ficar bem pequena às nossas costas.
— Mas, afinal, de que tamanho é essa coisa? — perguntei.
— Enorme. É um navio de guerra aliado. Acertou uma mina amiga e afundou bem aqui.
Ela parou.
— Pare de olhar para o farol por um minuto — disse ela. — Deixe que seus olhos se acostumem à escuridão.
Então ficamos parados olhando para a orla e esperamos que as pupilas se dilatassem, com marolas batendo nas coxas. Depois de algum tempo, ela disse:
— Tudo bem, agora me siga e respire bem fundo. — Em seguida, ela andou até um buraco escuro no casco do navio (pela aparência, uma porta), sentou-se em sua borda, jogou as pernas para dentro e mergulhou.
Isso é loucura!, pensei. Mas coloquei a máscara que ela tinha me dado e a segui.
A água se fechou sobre minha cabeça. Olhei para a escuridão envolvente entre meus pés e vi Emma se afastar e descer cada vez mais por uma escada.
Agarrei os primeiros degraus e a segui, descendo lentamente até parar em uma superfície de metal, onde ela me esperava. Parecíamos ter descido até uma espécie de compartimento de carga, apesar de estar escuro demais para dizer mais do que isso.
Toquei seu cotovelo e apontei para minha boca. Preciso respirar, idiota. Ela deu um tapinha condescendente em meu braço, esticou a mão e pegou um tubo plástico que estava pendurado ali perto, ligado a um cano que subia juntamente com a escada até a superfície. Ela pôs o tubo na boca e respirou por ele, soltando bolhas pelo nariz ao expirar, depois o passou para mim. Botei os lábios em torno do tubo e enchi os pulmões de ar com a maior das alegrias. Estávamos a uns sete metros de profundidade, dentro de um velho navio de guerra, e respirávamos.
Emma apontou uma porta a nossa frente, pouco mais que um buraco negro.
Sacudi a cabeça. Não quero. Mas ela me pegou pela mão, como se faz com uma criança pequena assustada, e me arrastou naquela direção, levando com a gente o tubo comprido.
Passamos pela porta e entramos na escuridão profunda. Por algum tempo apenas ficamos ali, passando o tubo de respiração um para o outro, e não havia nenhum som além das bolhas de nossa respiração subindo e ruídos abafados obscuros de peças quebradas do navio se chocando por causa da corrente. Não poderia estar mais escuro, mesmo que eu fechasse os olhos. Éramos astronautas flutuando em um universo sem estrelas.
Mas então algo intrigante e magnífico aconteceu. Uma a uma, surgiram as estrelas, lampejos verdes no escuro, aqui e ali. Sem dúvida eu estava tendo alucinações. Só que mais estrelas se acenderam, e depois mais, até haver toda uma constelação se agitando à nossa volta como um milhão de estrelas verdes piscando, iluminando nossos corpos, refletindo em nossas máscaras. Emma esticou a mão e moveu o pulso, mas, como seu fogo não se acendia embaixo d’água, a mão brilhou com um halo azul cintilante em torno do qual as estrelas verdes se aglutinaram, brilhando e girando, seguindo seus movimentos como um cardume de peixes. Só aí me dei conta de que elas eram exatamente isso.
Perdi completamente a noção do tempo. Ficamos ali pelo que pareceram horas, enfeitiçados, apesar de provavelmente terem se passado apenas alguns minutos. Em determinado momento, Emma me cutucou, voltamos pela porta e subimos a escada. Quando surgimos outra vez na superfície, a primeira coisa que vi foi a grande faixa larga da Via Láctea pintada no céu acima de nós, e imaginei que, juntos, os peixes e as estrelas formavam um sistema completo, partes coincidentes de algum todo antigo e misterioso.
Subimos de novo no casco e tiramos as máscaras. Por algum tempo, ficamos apenas sentados ali, semissubmersos, as pernas encostadas e sem falar.
Finalmente eu disse:
— O que era aquilo?
— Nós os chamamos de peixes-lanterna.
— Nunca tinha visto um desses antes.
— A maioria das pessoas nunca vê — disse ela. — Porque eles se escondem.
— Eles são lindos.
— São.
— E muito peculiares.
Emma abriu um sorriso.
— Também são isso, sim.
Nesse momento, a mão dela deslizou até o meu joelho. Deixei que ficasse ali, porque seu toque era quente e agradável na água fria, e tentei ouvir a voz em minha cabeça que tinha passado a noite inteira me dizendo para não beijá-la, mas ela estava em silêncio.
Então nos beijamos. A magnitude do fato de nossos lábios se tocarem, de nossas línguas se comprimirem uma contra a outra e de minha mão envolver seu rosto branco e perfeito repelia quaisquer pensamentos de certo ou errado, ou de devo ou não devo, ou qualquer memória do motivo que me fizera, para começar, segui-la até ali. Nós nos beijamos, nos beijamos, e de repente terminou. Quando ela afastou o rosto, eu o segui com o meu. Ela pôs a mão em meu peito, um gesto ao mesmo tempo gentil e firme.
— Preciso respirar — disse ela, rindo.
— Está bem.
Ela pegou minhas mãos e mirou-me nos olhos, e eu a encarei em resposta.
Apenas olhar era quase tão intenso quanto os beijos. Então ela disse:
— Você devia ficar.
— Ficar — repeti.
— Aqui. Com a gente.
Aos poucos comecei a compreender a realidade do que ela estava dizendo, e a magia pulsante do que transpirara entre nós dois foi se esmaecendo.
— Eu tenho vontade — respondi. — Mas acho que não posso.
— Por que não?
Pensei no assunto. O sol, as festas, os amigos que eu teria — e a mesmice, os dias perfeitamente idênticos. Mas você pode enjoar de qualquer coisa se tiver doses demais, como todos os luxos insignificantes que minha mãe comprava e dos quais se cansava.
Mas Emma. Havia Emma. Talvez não fosse tão estranho o que nós podíamos ter. Talvez eu pudesse ficar apenas por um período e amá-la, e depois voltar para casa. Mas não; quando eu resolvesse voltar seria tarde demais. Ela era uma isca convidativa, uma sereia. Eu tinha de ser forte.
— É a ele que você quer, não a mim. Não posso ser para você quem não sou.
Ela afastou os olhos, sentida.
— Não é por isso que você deve ficar — disse ela. — Você pertence a este lugar, Jacob.
— Não pertenço. Não sou como vocês.
— É, sim — insistiu ela.
— Não sou. Sou comum, como era o meu avô.
Emma sacudiu a cabeça.
— É isso mesmo o que você pensa?
— Se eu pudesse fazer algo espetacular como você, não acha que eu já teria percebido?
— Eu não devia lhe contar isso — disse ela. — Mas pessoas comuns não podem passar pelas fendas de tempo.
Refleti sobre aquilo por um instante, mas não fazia o menor sentido.
— Não há nada peculiar em mim. Sou a pessoa mais comum que você vai conhecer.
— Duvido muito disso — retrucou ela. — Abe tinha um talento muito raro e peculiar, algo que quase mais ninguém podia fazer.
Ela me olhou nos olhos e completou:
— Ele podia ver os monstros.

4 comentários:

  1. GRITO.

    BERRO.

    AAH.

    Essa gente é estranha mesmo.

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  2. CARAI BORRACHA, O VELHO NÃO ERA LOUCO UHUUUUUUU

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  3. "Caraí borracha" kkkk boa

    Gente que capítulo em!...bom todos os capítulos tão bom

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  4. só é decepcionante saber que o filme e o livro não são iguais...

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Boa leitura :)