15 de abril de 2017

Capítulo nove

Fomos conduzidos à torre alva em ritmo brutal, os acólitos encorajando os retardatários com empurrões e chutes. Sem meu etéreo, eu estava mancando, um caco: tinha ferimentos feios de mordidas no tronco e o efeito da poeira — de anestesia à dor — começou a se dissipar. Eu me esforcei para seguir adiante mesmo assim, tentando pensar em maneiras de nos salvarmos, uma mais implausível que a outra. Sem meus etéreos, todos os nossos poderes peculiares eram superados pelos acólitos e suas armas.
Passamos aos tropeções pelo prédio em ruínas onde meus etéreos tinham morrido, por cima de tijolos cobertos com o sangue de papagaios e acólitos. Marchamos pelo pátio cercado por muros, entramos na torre e subimos o corredor em espiral, passando por um borrão de portas negras idênticas. Caul desfilava à nossa frente como um maestro de banda perturbado, com passos largos e agitando os braços em um momento para em seguida se virar e lançar insultos profanos sobre nós. Atrás dele, o urxinim acompanhava, carregando Bentham em um dos braços e a srta. Peregrine jogada sobre o ombro.
Ela implorou que os irmãos reconsiderassem seus planos.
— Lembrem-se das histórias antigas de Abaton, do fim humilhante que teve todo peculiar que roubou a Biblioteca de Almas! É um poder amaldiçoado!
— Eu não sou mais criança, Alma, não me assusto mais com essas histórias de ymbrynes — escarneceu Caul. — Agora segure essa língua, se não quiser perdê-la!
Ela desistiu de tentar convencê-lo e olhou para nós por cima do ombro do urxinim, seu olhar projetando força. Não fiquem com medo, ela parecia telegrafar. Vamos sobreviver a isto também.
Minha preocupação era que nem todos nós sobrevivêssemos à viagem até o alto da torre. Eu me virei para trás, tentando ver quem tinha sido baleado. Em meio ao grupo apertado às minhas costas, Bronwyn carregava alguém inerte nos braços: a srta. Avocet, eu acho. Uma mão carnuda me deu um tapa na cabeça.
— Olhe para a frente, ou vai perder uma rótula — rosnou o guarda que me conduzia.
Por fim, chegamos ao alto da torre e sua última porta. No corredor à frente, a luz pálida do dia brilhava sobre a parede curva. Havia um deque aberto acima de nós, fato que arquivei para referência futura.
Caul parou radiante em frente à porta.
— Perplexus! — chamou. — Signor Anomalous, sim, aí no final da fila! Como devo esta descoberta em parte a suas expedições e seu trabalho árduo, vou dar o crédito a quem merece! Acho que o senhor devia fazer as honras e abrir a porta.
— Vamos logo, não tenho tempo para cerimônias — disse Bentham. — Deixamos seu complexo sem guardas.
— Não seja tão infantil — disse Caul. — Só vai levar um instante.
Um dos guardas arrastou Perplexus para longe da multidão e o conduziu até a porta. Desde a última vez que eu o vira, seu cabelo e sua barba tinham ficado brancos como alabastro, sua coluna tinha se curvado e rugas profundas sulcavam seu rosto. Ele tinha passado tempo demais longe de sua fenda, e agora sua verdadeira idade estava começando a alcançá-lo. Perplexus parecia prestes a abrir a porta quando foi tomado por um acesso de tosse. Depois de recuperar o fôlego, ele encarou Caul, inspirou fundo e cuspiu uma placa reluzente de catarro na capa dele.
— Seu porco ignorante! — exclamou Perplexus.
Caul ergueu a arma e a levou à cabeça de Perplexus e puxou o gatilho.
Houve gritos.
— Jack, não! — berrou Bentham.
Perplexus jogou as mãos para o alto e se virou, mas o único som que a arma fez foi um clique seco.
Caul abriu a arma, olhou no interior da câmara e deu de ombros.
— É uma antiguidade, como você — disse ele para Perplexus, e usou o cano da arma para limpar a capa. — Suponho que o destino tenha agido em seu favor. Melhor assim, pois eu prefiro ver você se transformar em pó do que sangrar até a morte.
Ele gesticulou para que os guardas o levassem embora. Perplexus, murmurando para Caul xingamentos em italiano, foi arrastado de volta ao grupo.
Caul se virou para a porta.
— Ah, para o inferno com isso — murmurou, e a abriu. — Entrem aí, todos vocês.
Lá dentro havia o mesmo quarto familiar, de paredes cinzentas, só que dessa vez a quarta parede ausente se estendia em um corredor longo e escuro. Com alguns empurrões dos guardas, seguimos rápido por ali. As paredes lisas ficaram ásperas e irregulares, até que se abriram em um aposento primitivo iluminado pela luz do dia. O local, feito de pedra e argila, poderia ser chamado de caverna não fosse a porta mais ou menos retangular e duas janelas. Alguém as havia entalhado, e também aquele salão, usando ferramentas para escavá-las na rocha macia.
Fomos conduzidos para fora como um rebanho, para um dia quente e seco.
Uma vista estonteante surgiu. Estávamos num lugar alto, cercados por uma paisagem que podia ser um mundo alienígena: elevações e colunas de uma estranha pedra avermelhada assomavam de um lado e, do outro, se descortinavam pela distância, todas perfuradas com portas e janelas rústicas, semelhantes a colmeias. Por elas soprava um vento constante, produzindo um gemido quase humano que parecia emanar da própria terra. Embora o sol não estivesse nem perto de se pôr, o céu tinha um brilho laranja, como se o fim do mundo estivesse fermentando logo além do horizonte. E, apesar das evidências ali de uma civilização, não havia ninguém à vista. Tive uma forte sensação de estar sendo observado, como se estivéssemos invadindo um local proibido.
Bentham desceu de seu urso e removeu o chapéu, estupefato.
— Então, este é o lugar — disse ele, olhando para as colinas.
Caul passou um dos braços sobre os ombros do irmão, de modo fraternal.
— Eu falei que este dia ia chegar. Nós com certeza fizemos um ao outro passar o diabo para chegar aqui, não foi?
— Fizemos — concordou Bentham.
— Mas eu digo que tudo está bem quando acaba bem, porque agora vou poder fazer isto. — Caul se virou para nos encarar. — Amigos! Ymbrynes! Crianças peculiares! — Ele deixou que sua voz ecoasse pelos estranhos desfiladeiros lamentosos. — O dia de hoje vai entrar para a história. Bem-vindos a Abaton!
Ele fez uma pausa, esperando aplausos que não vieram.
— Vocês agora se encontram sobre a cidade antiga que protegia a Biblioteca de Almas eras atrás. Ela não era vista em mais de quatrocentos anos, nem conquistada em mil, até que eu a redescobri recentemente! Agora, com vocês como testemunhas...
Ele parou, olhou para baixo por um instante e riu.


— Por que estou desperdiçando minha saliva? Vocês, filisteus, nunca vão apreciar a importância da minha realização. Olhem só para vocês, como jumentos contemplando a Capela Sistina! — Ele deu um tapinha no braço de Bentham. — Vamos, irmão. Vamos lá tomar o que é nosso.
— E nosso também! — disse uma voz atrás de mim. Um dos guardas. — O senhor não vai se esquecer de nós, vai?
— Claro que não — disse Caul, tentando sorrir, mas sem sucesso. Ele não conseguia disfarçar a irritação por ter sido desafiado diante de todos. — A lealdade de vocês vai ser recompensada em dez vezes.
Ele se virou com Bentham e seguiu por uma trilha, com os guardas nos empurrando.

* * *

O caminho calcinado pelo sol se dividia mais e mais, em uma profusão de ramificações e afluentes em direção às montanhas pontiagudas. Seguindo uma rota que ele sem dúvida forçara Perplexus a revelar e que percorrera várias vezes nos últimos dias, Caul nos conduziu com segurança por passagens obscuras e tomadas por arbustos, cada passo seu exalando a arrogância de um colonizador. A sensação que eu tinha de ser observado só crescia, como se as aberturas rústicas na rocha fossem uma colônia de olhos semicerrados, alguma inteligência antiga enclausurada em pedra despertando lentamente de um sono de mil anos.
Eu estava fervilhando de ansiedade, meus pensamentos se atropelando. O que ia acontecer em seguida dependeria de mim. Os acólitos precisavam de mim, afinal de contas. E se eu me recusasse a obedecer? E se eu descobrisse uma maneira de enganá-los?
Eu sabia o que ia acontecer. Caul mataria a srta. Peregrine. Em seguida, começaria a matar as outras ymbrynes, uma depois da outra, até que eu lhe desse o que queria. E se eu não desse, ele mataria Emma.
Eu não era forte o suficiente. Eu sabia que faria qualquer coisa para impedir que ele a machucasse, até mesmo dar a Caul as chaves de um poder sem precedentes.
Então pensei uma coisa que me deixou muito assustado: e se eu não conseguisse fazer aquilo? E se Caul estivesse errado, e eu não conseguisse ver os vasos de almas, ou se conseguisse ver mas não tocar? Ele não ia acreditar em mim. Ia achar que eu estava mentindo. Ia começar a assassinar meus amigos. E mesmo que, de algum modo, eu o convencesse de que era verdade que eu não conseguia, ele talvez ficasse tão enfurecido que mataria todo mundo do mesmo jeito.
Rezei em silêncio para meu avô (não sei se é possível rezar para pessoas mortas, mas eu fiz isso) e pedi, se ele estivesse me olhando, que me ajudasse naquilo, me fizesse tão forte e poderoso quanto ele fora antes. Vovô Portman, orei. Sei que isso parece loucura, mas Emma e meus amigos significam tudo para mim, o mundo inteiro, e eu daria com prazer cada pedacinho disso para Caul em troca de suas vidas. Isso me torna mau? Não sei, mas achei que você talvez entendesse. Por isso, por favor me ajude.
Ao erguer os olhos, me surpreendi ao ver a srta. Peregrine me observando do alto das costas do urso. Assim que seus olhos encontraram os meus, ela afastou o rosto, e vi lágrimas escorrendo por cima da sujeira em sua face pálida. Como se de algum modo ela tivesse me ouvido.
Nossa rota serpenteava por um labirinto antigo de trilhas sinuosas e escadarias recortadas nas montanhas, com degraus desgastados em meias-luas. Em alguns lugares, a trilha praticamente desaparecia, engolida pelo mato. Ouvi Perplexus reclamar que ele levara anos para desvendar o caminho para a Biblioteca de Almas, e que ter aquele ladrão ingrato pisando sobre ela, agora, sem nenhum respeito, era um insulto terrível!
Então ouvi Olive dizer:
— Por que ninguém nunca nos contou que a Biblioteca era real?
— Porque, minha querida, não era permitido — respondeu uma ymbryne. — Era mais seguro dizer... — ela fez uma pausa para recobrar o fôlego — ... que era apenas uma história.
Apenas uma história. Mas nunca era apenas uma história. Isso tinha se tornado uma das verdades definidoras da minha vida, pois por mais que eu tentasse manter as histórias aplanadas, bidimensionais, presas em papel e tinta, sempre haveria aquelas que se recusavam a ficar restritas ao interior dos livros.
Eu sabia: uma história tinha engolido toda a minha vida.
Estávamos caminhando havia vários minutos ao longo um muro de aspecto simples, o gemido assustador do vento subindo e descendo, quando Caul ergueu a mão e gritou para que todos parassem.
— Fomos longe demais? — perguntou ele. — Eu podia jurar que a gruta era por aqui em algum lugar. Onde está o cartógrafo?
Perplexus foi puxado para a frente do grupo.
— Você não está aliviado por não ter atirado nele? — murmurou Bentham.
Caul o ignorou.
— Onde é a gruta? — perguntou, se aproximando do rosto de Perplexus.
— Ah, talvez ela tenha se escondido de você — provocou Perplexus.
— Não me teste — respondeu Caul. — Vou queimar todas as cópias do seu Mapa dos dias. Seu nome estará esquecido em dois segundos.
Perplexus entrelaçou os dedos e deu um suspiro.
— Ali — disse ele, apontando para um ponto atrás de nós.
Tínhamos passado direto.
Caul seguiu até um local no muro encoberto por trepadeiras, uma abertura tão simples e escondida que qualquer um poderia ter passado sem ver. Era mais um buraco que uma porta. Ele afastou as trepadeiras e enfiou a cabeça pela abertura.
— Sim! — disse ele, com a cabeça de novo para fora, e começou a dar ordens. — Só pessoas essenciais têm permissão de passar deste ponto. Meu irmão, minha irmã. — Ele apontou para Bentham e para a srta. Peregrine. — O garoto. — Ele apontou para mim. — Dois guardas e... — Ele procurou na multidão. — Está escuro aqui, vamos precisar de uma lanterna. Você, menina. — Ele apontou para Emma.
Meu estômago deu um nó quando Emma foi trazida.
— Se os outros causarem problemas, vocês sabem o que fazer — disse Caul para os guardas.
Ele apontou a arma para a multidão. Todos gritaram e abaixaram a cabeça, e Caul deu uma gargalhada.
O guarda de Emma a empurrou pelo buraco. O urxinim de Bentham nunca passaria, por isso a srta. Peregrine foi solta, e meu acólito recebeu a tarefa dupla de cuidar tanto dela quanto de mim.
As crianças mais novas começaram a chorar. Quem podia saber se eles iriam tornar a vê-la?
— Coragem, crianças! Eu vou voltar! — gritou a srta. Peregrine para elas.
— Isso mesmo, crianças! Escutem sua diretora! As ymbrynes sabem o que é melhor! — cantarolou Caul com escárnio.
A srta. Peregrine e eu fomos empurrados juntos pela abertura, e houve um momento em que, emaranhado nas trepadeiras, consegui sussurrar para ela sem ser notado:
— O que devo fazer quando estivermos aí dentro?
— Tudo o que ele pedir — sussurrou ela em resposta. — Se não o enfurecermos, talvez a gente sobreviva.
Sobreviver, sim, mas a que custo?
Então afastamos as trepadeiras e entramos aos tropeções em um espaço novo: um salão de pedra aberto para o céu. Por um instante meu fôlego me abandonou, de tão chocado que fiquei com o rosto gigante e disforme que nos encarava da parede oposta. Uma parede, era apenas isso, mas uma parede com uma boca aberta como porta e dois olhos tortos como janelas, dois buracos como narinas, e capim comprido semelhante a cabelo e uma barba desgrenhada. Ali, o vento gemia mais alto que nunca, como se a porta em forma de boca estivesse tentando nos alertar para manter distância, em alguma língua antiga na qual as vogais eram pronunciadas por uma semana inteira.
Caul indicou a porta.
— A Biblioteca está à espera.
Bentham retirou o chapéu.
— Extraordinário — disse ele, em voz baixa e reverente. — Ela parece estar cantando para nós. Como se todas as almas em repouso aí dentro estivessem despertando para nos dar boas-vindas.
— Boas-vindas — disse Emma. — Eu duvido disso.
Os guardas nos empurraram na direção da porta. Nós nos encolhemos sob a abertura baixa e entramos em outro salão com aspecto de caverna. Como os outros que víramos em Abaton, havia sido escavado à mão na rocha macia, incontáveis eras antes. Tinha teto baixo e era simples e vazio, com exceção de um pouco de palha e cacos quebrados de cerâmica. Sua característica mais distinta eram as paredes, nas quais haviam sido escavadas dezenas de pequenos nichos. Eles tinham o topo ovalado e a base chata, grandes o suficiente para abrigar uma garrafa ou vela. Nos fundos do salão, várias portas se abriam para a escuridão.
— E então, menino? — disse Caul. — Você consegue ver algum?
Olhei ao redor.
— Algum o quê?
— Não brinque comigo. Algum vaso. — Ele se aproximou de uma parede e passou a mão no interior de um dos nichos. — Vá, pegue um.
Eu me virei lentamente, examinando as paredes. Todos os nichos pareciam vazios.


— Não estou vendo nada — falei. — Talvez não haja nenhum.
— Você está mentindo.
Caul gesticulou com a cabeça para meu guarda, que me deu um soco na barriga.
Emma e a srta. Peregrine gritaram quando caí de joelhos, gemendo. Olhei para mim mesmo e vi sangue escorrendo pela minha camisa, não do soco, mas da mordida do etéreo.
— Por favor, Jack! — gritou a srta. Peregrine. — Ele é só um menino!
— Só um menino, só um menino! — disse Caul com escárnio. — Esta é a verdadeira essência do problema! Você precisa castigá-los como homens, regá-los com um pouco de sangue, para a muda começar a brotar; a planta, a crescer. — Ele se aproximou enquanto girava o cano de sua arma estranha e antiga. — Estiquem a perna dele. Quero dar um tiro limpo no joelho.
O guarda me empurrou para o chão e agarrou minha canela. Meu rosto se afundou na terra, apontado para a parede.
Ouvi o cão da arma ser puxado. Então, enquanto as mulheres imploravam a Caul por piedade, vi algo em um dos nichos da parede. Uma forma que eu não havia percebido antes...
— Espere! — gritei. — Estou vendo algo!
O guarda me virou de frente.
— Pensou melhor, hein? — Caul estava de pé ao meu lado, olhando para baixo. — O que você vê?
Tornei a olhar, piscando. Eu me forcei a me acalmar, e minha visão, a se focalizar.
Ali na parede, surgindo gradualmente à vista como uma foto Polaroid, havia a imagem esmaecida de um vaso de pedra. Um objeto simples, sem adornos, cilíndrica, com um gargalo afunilado e uma rolha de cortiça, sua pedra da mesma cor avermelhada que as estranhas colinas de Abaton.
— É um vaso — falei. — Só um. Está tombado, por isso não percebi logo.
— Levante-se — disse Caul. — Quero ver você pegá-lo.
Aproximei os joelhos do peito, cambaleei para a frente e me levantei, a dor convulsionando em meu tronco. Atravessei o salão com dificuldade e cheguei lentamente ao nicho. Quando passei os dedos no vaso, levei um choque.
— O que foi? — perguntou Caul.
— Está congelante — respondi. — Eu não esperava por isso.


— Fascinante — murmurou Bentham.
Ele estava perto da porta, como se reconsiderasse todo aquele empreendimento, mas naquele momento deu um passo adiante.
Enfiei outra vez a mão no nicho, dessa vez preparado para o frio, e peguei o vaso.
— Isso é errado — disse a srta. Peregrine. — Tem a alma de um peculiar aí dentro, e ela deve ser tratada com respeito.
— Ser devorada por mim é o maior respeito que se pode prestar a uma alma — disse Caul. Ele se aproximou e parou ao meu lado. — Descreva o vaso.
— É muito simples. Feito de pedra.
O vaso estava começando a congelar minha mão direita, por isso o passei para a esquerda. Só então vi escrito, com letras altas e floreadas, uma palavra.
Aswindan.
Eu não ia mencionar isso, mas Caul, que estava me observando como um falcão, percebeu.
— O que foi? — perguntou ele. — Estou avisando, não me esconda nada!
— É uma palavra — falei. — Aswindan.
— Soletre.
— A-s-w-i-n-d-a-n.
— Aswindan — repetiu Caul, franzindo o cenho. — Isso é peculiar antigo, não é?
— É óbvio — disse Bentham. — Você não se lembra das aulas?
— Claro que lembro! Eu era um aluno melhor que você, esqueceu? Aswindan. A raiz é wind, que denota velocidade!
— Não tenho tanta certeza disso, irmão.
— Ah, não tem — disse Caul, com sarcasmo. — Acho que você quer isso para si mesmo!
Caul tentou tomar o vaso de mim. Ele conseguiu envolvê-lo com os dedos, mas assim que o vaso deixou minha mão, seus dedos se fecharam sobre si mesmos, como se, de repente, não houvesse nada entre eles, e o vaso caiu no chão e se espatifou.
Caul xingou e olhou para baixo, atônito, enquanto um líquido azul com brilho forte se empoçava a nossos pés.
— Agora estou vendo! — exclamou ele, empolgado, apontando para a poça azul. — Isso eu posso ver!
— Sim... sim, eu também — disse Bentham, e os guardas concordaram.
Todos viam o líquido, mas não os vasos que o continham e protegiam.
Um dos guardas se abaixou para tocar o líquido azul. No momento em que fez isso, soltou um grito e deu um pulo para trás, agitando as mãos para se livrar. Se o vaso estava congelante, eu só podia imaginar quanto aquela coisa azul era fria.
— Que desperdício — disse Caul. — Eu teria gostado de combinar isso com algumas outras almas selecionadas.
— Aswindan — citou Bentham. — A raiz é swind. Que significa encolher. Ainda bem que você não tomou essa, irmão.
Caul franziu o cenho.
— Não. Não, tenho certeza de que eu estava certo.
— Não está — disse a srta. Peregrine.
O olhar dele se dividia entre os dois, paranoico, como se estivesse avaliando a possibilidade de estarem aliados contra ele. Então pareceu relaxar.
— Esta é apenas a primeira sala — afirmou ele. — As melhores almas estão mais à frente.
— Concordo — disse Bentham. — Quanto mais longe formos, mais antigas serão as almas, e quanto mais antiga a alma, mais poderosa.
— Então devemos investigar até o coração desta montanha — declarou Caul. — E comê-lo.

* * *

Fomos conduzidos por uma das portas negras, com armas contra as costelas.
A sala seguinte era muito parecida com a primeira, com nichos alinhados nas paredes e portas que davam para a escuridão, mas não havia janelas, e apenas uma única lâmina de sol da tarde alcançava o chão coberto de pó. Estávamos deixando para trás a luz do dia.
Caul ordenou que Emma produzisse uma chama. Ordenou que eu contasse o que via nas paredes. Relatei lentamente três vasos, mas minha palavra não era suficiente; ele me fez dar um peteleco em cada um para provar que estavam ali e passar a mão por dezenas de outros nichos para provar que estavam vazios. Em seguida ele me fez lê-los. Heolstor. Unge-sewen. Meaganwundor. As palavras nada significavam para mim e eram insatisfatórias para ele.
— Almas de escravos sem valor — reclamou Caul para o irmão. — Se queremos ser reis, precisamos das almas de reis.
— Adiante, então — disse Bentham.
Mergulhamos em um labirinto de cavernas aparentemente sem fim. A luz do dia era uma lembrança. O chão sempre em declive. O ar ficou mais frio. Passagens se ramificavam no escuro como veias. Caul parecia se orientar por um sexto sentido, virando à esquerda ou à direita com confiança. Ele estava louco, nitidamente louco, e eu tinha certeza de que havia nos deixado tão perdidos que, mesmo que conseguíssemos escapar dele, passaríamos a eternidade presos naquelas cavernas.
Tentei imaginar as batalhas que tinham sido empreendidas por aquelas almas: peculiares antigos, titânicos, em luta em meio às colunas e vales de Abaton. Mas isso era fascinante demais. Eu só conseguia imaginar como seria aterrorizante ficar preso ali embaixo, sem luz.
Quanto mais avançávamos, mais vasos eu via nas paredes, como se, muito tempo antes, saqueadores tivessem atacado as salas mais externas, mas algo os tivesse impedido de chegar tão longe, um saudável instinto de autopreservação, talvez. Caul gritou comigo querendo atualizações, mas tinha parado de exigir provas de que nichos estavam ocupados e quais estavam vazios, e só de vez em quando me fazia ler em voz alta o rótulo de um vaso. Ele estava à caça de uma presa maior e parecia ter decidido que havia pouca coisa que valesse a pena naquela parte da Biblioteca.
Prosseguimos em silêncio. As salas ficaram maiores e mais grandiosas, de seu jeito rústico, os tetos se elevando e as paredes se afastando. Agora tinha vasos por toda parte: enchendo todos os nichos, empilhados em colunas totêmicas nos cantos, enfiados em fendas e rachaduras; o frio que emanava deles refrigerava o ar. Tremendo, abracei meu próprio corpo. Minha respiração se condensava à minha frente e a sensação de ser observado que me assombrara antes retornou.
Aquela biblioteca, assim chamada, era um vasto mundo inferior, uma catacumba e um esconderijo para a segunda alma de todo peculiar que já vivera antes do último milênio, centenas de milhares delas. Esse grande acúmulo de almas tinha começado a exercer uma pressão estranha sobre mim, comprimindo as vias aéreas em minha cabeça e meus pulmões, como se eu estivesse descendo gradualmente em águas profundas.
Eu não era o único. Até os guardas estavam nervosos, se assustando com pequenos ruídos e olhando para trás o tempo todo.
— Você ouviu isso? — perguntou meu guarda.
— As vozes? — disse outro.
— Não, mais como água, água corrente...
Enquanto eles conversavam, dei uma olhada rápida para a srta. Peregrine. Será que ela estava com medo? Não, ela parecia estar aguardando pacientemente, à espera e observando. Isso me confortou um pouco, e também o fato de que ela podia ter assumido a forma de ave e escapado de seus captores muito tempo antes, mas não o fizera. Enquanto eu e Emma fôssemos prisioneiros, ela também seria. Talvez isso fosse mais que seu instinto protetor.
Talvez ela tivesse um plano.
O ar ficou ainda mais frio, um suor fino em meu pescoço se transformando gradualmente em água gelada. Caminhamos com dificuldade por uma câmara tão repleta de vasos que era preciso saltar por cima para não chutar ou derrubar, embora os pés de todos os outros passassem através deles. Eu me sentia sufocado pelos mortos. Ali só havia espaço para ficar de pé, como a plataforma de uma estação de trem na hora do rush, Times Square na noite de ano-novo, todo mundo nos encarando com rosto inexpressivo e aborrecido ao nos ver. (Eu podia sentir isso, se não exatamente ver). Por fim, até Bentham perdeu a coragem.
— Irmão, espere — disse ele sem fôlego, segurando Caul. — Não acha que já fomos longe o bastante?
Caul se virou lentamente para ele, seu rosto igualmente dividido entre sombra e o brilho de fogo.
— Não, não acho.
— Mas tenho certeza de que essas almas aqui são suficientemente...
— Ainda não encontramos.
— Encontramos o quê, senhor? — arriscou meu guarda.
— Eu vou saber quando vir! — repreendeu-o Caul.
Então ele ficou tenso e saiu correndo pela escuridão.
— Senhor! Espere! — gritaram os guardas, nos empurrando atrás dele.
Caul desapareceu brevemente antes de reaparecer na extremidade da câmara, iluminado por um facho de luz azul suave. Ele estava parado meio envolvido em seu interior, enfeitiçado por algo. Quando o alcançamos e fizemos uma curva, vimos o que era: um túnel comprido em que brilhava uma luz azul-celeste.
Uma abertura quadrada na outra extremidade estava incandescente com a mesma luz. Além disso, ouvia-se um ruído vago e constante, como água corrente.
Caul bateu palmas e gritou:
— Estamos perto, por Deus!
Ele avançou apressado pelo corredor, enlouquecido, e fomos forçados a segui-lo, tropeçando ao correr. Quando chegamos ao fim, a luz que nos envolvia estava tão atordoante que todos cambaleamos até parar, cegos demais para ver aonde estávamos indo.
Emma deixou que suas chamas morressem. Não eram necessárias ali.
Protegendo os olhos com os dedos, o espaço lentamente surgiu em minha visão. Banhado em cortinas ondulantes de luz azul diáfana, era a maior caverna que tínhamos visto: um espaço circular enorme, como uma colmeia, com uns trinta metros de largura na base, mas afunilando em um único ponto no topo, vários andares acima. Cristais de gelo reluziam em toda a superfície, em todos os nichos e em cada um dos milhares de vasos, que chegavam a alturas impossíveis, ornamentando as paredes.
Apesar do frio congelante, havia água corrente ali: brotava de uma bica em forma de cabeça de falcão, caía em um canal pequeno que circundava a sala na base das paredes e corria para um tanque raso nos fundos da sala, ladeado por pedra negra lisa na extremidade mais distante. Essa água era a fonte da luz celestial na caverna. Como o material no interior dos vasos de almas, tinha um brilho azul fantasmagórico e bruxuleava em ciclos regulares, mais fraca e mais brilhante, como se respirasse. Tudo isso poderia ser estranhamente tranquilizador, como uma experiência em um spa nórdico, não fosse o nítido som humano que gemia para nós sob o borbulhar agradável da água. Era exatamente como o gemido que tínhamos ouvido do lado de fora, o qual eu considerara vento assoviando pelas portas, mas não havia vento ali, nem qualquer possibilidade de ouvir o vento. Aquilo era outra coisa.
Bentham entrou mancando na caverna atrás de nós, sem fôlego e protegendo os olhos, enquanto Caul seguiu até o centro do salão.
— VITÓRIA! — exclamou ele, parecendo saborear o modo como sua voz ricocheteava entre as paredes altas. — É isso! Nosso baú do tesouro! Nossa sala do trono!
— É magnífico — disse Bentham, sem forças, caminhando com dificuldade para se juntar ao irmão. — Agora entendo por que tantos estavam dispostos a dar a vida lutando por...
— Vocês estão cometendo um erro terrível — disse a srta. Peregrine. — Não podem profanar este lugar sagrado.
Caul deu um suspiro dramático.
— Você tem que estragar todo momento com seu moralismo de diretora escolar? Ou está simplesmente com inveja, choramingando pelo fim de seu reino como a irmã mais dotada? Olhem para mim, posso voar, posso criar fendas no tempo! Daqui a uma geração, ninguém vai se lembrar sequer da existência de uma criatura tola como uma ymbryne!
— Você está errado! — gritou Emma, sem conseguir mais segurar a língua. — Vocês dois é que vão ser esquecidos!
O guarda de Emma avançou para bater nela, mas Caul lhe disse para deixá-la em paz.
— Deixe que ela fale. Pode ser sua última oportunidade.
— Na verdade, você não vai ser esquecido — disse Emma. — Vamos escrever um novo capítulo nos Contos sobre vocês. “Os irmãos gananciosos”, vai ser esse o título. Ou “Os horríveis traidores do mal que receberam o que mereciam”.
— Hum, um pouco sem graça — disse Caul. — Acho que vamos chamá-lo de “Como os irmãos magníficos superaram o preconceito e se tornaram os reis-deuses de direito do mundo peculiar”, ou algo parecido. E você tem sorte por eu estar de ótimo humor agora, garota.
Sua atenção se voltou para mim.
— Garoto! Conte-me sobre os vasos daqui, e não deixe passar nenhum detalhe, por menor que seja.
Ele exigiu uma descrição exaustiva, que eu dei, lendo em voz alta muitas dezenas dos rótulos floreados escritos à mão. Se eu falasse peculiar antigo, pensei, podia ter mentido, talvez induzido Caul a tomar uma alma fraca e tola.
Mas eu era o autômato perfeito: abençoado com habilidade, mas amaldiçoado com ignorância. A única coisa que eu podia fazer era tentar distrair sua atenção dos vasos obviamente mais promissores.
Embora a maioria fosse pequena e simples, alguns eram grandes, ornamentados e pesados, com formatos de ampulheta e alças duplas e asas de cores vivas pintadas em sua superfície; parecia claro que continham as almas de peculiares poderosos e importantes (ou presunçosos). O tamanho maior dos nichos, porém, era revelador, e quando Caul me fez tamborilar neles com os nós dos dedos, eles ecoaram um som alto e profundo.
Não me restava nenhum truque. Caul ia conseguir o que queria, e não havia nada que eu pudesse fazer. Mas então ele fez algo que surpreendeu a todos. Algo que pareceu, no início, bizarramente generoso. Ele se virou para os guardas e disse:
— E agora? Quem gostaria de experimentar primeiro?
Os guardas se entreolharam, confusos.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou Bentham, mancando na direção dele, alarmado. — Não devíamos ser você e eu? Nós trabalhamos por tanto tempo...
— Não seja ganancioso, irmão. Eu não disse a eles que seriam recompensados? — E tornou a olhar para os guardas, sorrindo como um apresentador de programa de prêmios na TV. — Então, qual de vocês vai ser?
Os dois guardas ergueram a mão.
— Eu, senhor, eu!
— Eu quero!
Caul apontou para o acólito que estava me vigiando.
— Você! — disse ele. — Gosto de seu vigor. Venha até aqui!
— Obrigado, senhor, obrigado!
Caul apontou a arma para mim, aliviando meu guarda de seu dever.
— Agora, qual dessas almas parece ser sua preferida? — Ele lembrou onde eu havia identificado certos vasos e começou a apontar para eles. — Yeth-Faru. Algo a ver com água, enchente. Bom, se você já desejou uma vida sob o mar. Wolsenwyrsend. Acredito que seja uma espécie de cavalo, como um centauro, uma criatura semi-humana que controla as nuvens. Bem, parece familiar?
Bentham murmurou algo em resposta, mas Caul mal o ouvia.
Styl-hyde, essa é uma boa. Pele de metal. Pode ser útil em uma luta, embora eu não saiba se você teria que se lubrificar...
— Senhor, espero que não se importe que eu pergunte, mas que tal um dos  vasos maiores? — disse o guarda, de modo submisso.
Caul negou com o dedo.
— Gosto de um homem com ambição, mas esses são para meu irmão e eu.
— É claro, senhor, é claro — disse o guarda. — Então... hum... há algum outro?
— Eu já lhe dei as melhores opções — disse Caul, seu tom de voz apontando na direção de um alerta. — Agora, escolha.
— Sim, sim, desculpe, senhor... — O guarda parecia angustiado. — Eu escolho Yeth-faru.
— Excelente! — disse vigorosamente Caul. — Garoto, apanhe o vaso.
Estendi a mão até o nicho indicado por Caul e peguei o vaso. Era tão gelado que puxei o punho de meu casaco por cima da mão como uma luva, mas mesmo através do tecido parecia que o vaso estava roubando todo o calor que restava em meu corpo.
O guarda encarou minha mão.
— O que eu faço com isso? — perguntou. — Bebo, como ambrosia?
— Não tenho certeza — disse Caul. — O que você acha, irmão?
— Também não tenho certeza — disse Bentham. — Não é mencionado em nenhum dos textos antigos.
Caul coçou o queixo.
— Eu acho... Sim, acho que você devia beber, como ambrosia. — Ele balançou a cabeça afirmativamente, de repente seguro de si. — Sim, é desse jeito. Como ambrosia.
— Tem certeza? — perguntou o guarda.
— Certeza cem por cento absoluta. Não fique nervoso. Você vai entrar para a história por isso. Um pioneiro!
O guarda me olhou nos olhos.
— Sem truques — disse ele.
— Sem truques — falei.
Tirei a rolha, e uma luz azul emanou do vaso. O guarda pôs a mão em torno da minha, conduziu-a com o vaso até a boca e jogou o rosto para trás.
Ele deu um suspiro trêmulo.
— Isso não vai dar certo — murmurou ele, e virou minha mão.
O líquido escorreu do vaso em um fluxo viscoso. No instante em que chegou a seus olhos, sua mão apertou com tanta força a minha que eu achei que meus dedos fossem quebrar. Arranquei a mão e saltei para trás, e o vaso caiu no chão e quebrou.
O rosto do guarda estava soltando fumaça e ficando azul. Ele gritou e caiu de joelhos, com o corpo tremendo, e então tombou para a frente. Quando a cabeça bateu no chão, estilhaçou como vidro. Pedaços de crânio congelado se espalharam em torno de meus pés. Então ele ficou em silêncio e muito, muito morto.
— Ah, meu Deus! — exclamou Bentham.
Caul estalou a língua, como se alguém tivesse derramado uma taça de vinho caro.
— Bom, droga — disse ele. — Acho que não é como tomar ambrosia, afinal de contas. — Seu olhar percorreu a sala. — Bem, agora outra pessoa tem que experimentar...
— Estou muito ocupado, milorde! — exclamou o guarda, com a arma apontada para Emma e a srta. Peregrine.
— Sim, posso ver que você está com as mãos cheias aí, Jones. Talvez, então, um de nossos convidados? — Ele olhou para Emma. — Menina, faça isso para mim, e eu a transformo em minha boba da corte!
— Vá para o inferno! — disse Emma.
— Isso pode ser arranjado — respondeu ele com rispidez.
Então houve um chiado alto e um clarão de luz em uma das extremidades do salão, e todos se viraram para ver. O líquido do vaso quebrado estava escorrendo no canal junto da parede, e onde a água e o líquido azul tinham se misturado estava ocorrendo uma reação. A água borbulhava e se agitava, brilhando mais que nunca.
Caul estava radiante.
— Vejam! — exclamou ele, se agitando na ponta dos pés.
O canal que corria rápido empurrou a água reluzente e borbulhante pelas bordas da sala. Nós nos viramos, observando-a seguir, até que chegou ao tanque raso cercado por pedras na extremidade da sala, e então o próprio tanque começou a se agitar e brilhar, e uma coluna de luz azul forte subiu dele até o teto.
— Eu sei o que é isso! — disse Bentham, com a voz trêmula. — É chamada de piscina de almas. Um meio que se usava antigamente para invocar os mortos e se comunicar com eles.
Havia um vapor branco fantasmagórico pairando acima da superfície do tanque na coluna de luz, e ele estava se aglutinando, lentamente, na forma de um homem.
— Mas se uma pessoa viva entrar na piscina durante a invocação...
— ... absorve o espírito invocado — completou Caul. — Acho que encontramos nossa resposta!
O espírito pairava imóvel. Ele usava uma túnica simples que revelava a pele escamosa e uma barbatana dorsal que se projetava de suas costas. Aquela era a alma do Yeth-faru, o tritão escolhido pelo guarda. A coluna de luz parecia uma espécie de prisão da qual ele não podia escapar.
— E então? — disse Bentham, indicando o tanque. — Você vai?
— Não estou interessado nos restos de outro homem — disse Caul. — Eu quero aquela. — Ele apontou para o vaso em que eu tocara para ele anteriormente, o maior de todos. — Derrame isso na água, garoto. — Ele apontou a arma para minha cabeça. — Agora.
Fiz o que ele mandou. Levei a mão ao nicho enorme, peguei a urna pelas duas alças e a inclinei em minha direção com cuidado, para que não respingasse e destruísse meu rosto.
O líquido azul brilhante escorreu pela parede até o canal. A água ficou louca, fervilhando e borbulhando, e a luz produzida era tão forte que eu tive que semicerrar os olhos. Conforme o líquido da urna corria em torno do salão na direção da piscina de almas, meus olhos se dirigiram à srta. Peregrine e a Emma. Aquela era nossa última chance de deter Caul, e restava apenas um guarda, mas ele não estava desviando nem os olhos nem a arma, e Caul ainda mantinha a arma apontada direto para minha cabeça. Parecia que ainda estávamos à mercê dele.
O líquido do grande vaso chegou à piscina de almas. O tanque espumou e se ergueu como se uma criatura marinha estivesse prestes a emergir na superfície. A coluna de luz que se erguia ficou ainda mais brilhante, e Yeth-faru evaporou.
Um novo vapor começou a se aglutinar, muito maior que o anterior. Se estava tomando a forma de um homem, era um gigante, duas vezes mais alto que qualquer um de nós, o peito duas vezes mais largo. As mãos eram garras e estavam erguidas, as palmas para cima, de maneira que implicava um poder grande e terrível.
Caul olhou para aquilo e sorriu.
— E isso, como dizem, é minha deixa. — Ele levou a mão livre ao interior da capa, sacou um papel e o abriu. — Gostaria apenas de dizer uma ou duas palavras, antes de oficialmente subir de posição na vida.
Bentham manquejou em sua direção.
— Irmão, acho que não devemos esperar mais...
— Não acredito! — gritou Caul. — Será que ninguém vai me permitir um momento de glória em tudo isso?
— Escute! — chiou Bentham.
Nós escutamos. Por um momento, não ouvi nada, mas aí, de longe, veio um som agudo prolongado. Vi Emma ficar tensa e seus olhos se arregalarem.
Caul franziu o cenho.
— Isso é... um cachorro?
Sim! Um cachorro! Era o latido de um cão, distante e perdido nos ecos.
— Os peculiares tinham um cão com eles — disse Bentham. — Se ele estiver seguindo nosso rastro, duvido que esteja sozinho.
O que só podia significar uma coisa: nossos amigos tinham dominado os guardas e, liderados por Addison, estavam indo atrás de nós. Sim, a abençoada cavalaria estava chegando! Mas Caul estava a momentos de assumir poder, e quem sabe a que distância ecos viajavam naquelas cavernas. Eles ainda podiam estar a minutos dali, e então seria tarde demais.
— Bom, então. Imagino que minhas observações terão que esperar.
Ele guardou o papel no bolso. Não parecia ter nenhuma pressa, o que estava levando Bentham à loucura.
— Vá, Jack! Tome seu espírito e depois eu tomo o meu!
Caul deu um suspiro.
— Em relação a isso, eu estive pensando: não sei bem se você consegue lidar com todo esse poder. Você tem a mente fraca, sabe? Com isso não quero dizer que não seja inteligente. Pelo contrário, é mais inteligente que eu! Mas você pensa como uma pessoa fraca. Sua força de vontade é fraca. Não é suficiente ser inteligente, sabia? Você precisa ser cruel!
— Não, irmão! Não faça isso! — implorou Bentham. — Prometo que serei seu número dois, seu confidente leal... Serei qualquer coisa que você precise que eu seja...
Bem-feito, pensei. Continue falando...
— Essa submissão é exatamente o que estou dizendo — disse Caul, sacudindo a cabeça. — É o tipo de coisa que só podia mudar a cabeça de uma pessoa sem força de vontade, como você. Mas eu não sou suscetível a súplicas emocionais.
— Não, isso é vingança — disse Bentham, com amargura. — Como se quebrar minhas pernas e me escravizar por anos não fosse o suficiente.
— Ah, mas foi — disse Caul. — Verdade, eu estava com raiva por você ter transformado todos nós em etéreos, mas ter um exército de monstros à disposição se revelou bastante útil. Para ser honesto, porém, isso nem é por causa do seu caráter fraco. É apenas... é meu próprio fracasso como irmão, suponho. Alma pode falar sobre isso. Eu não gosto de dividir.
— Então faça logo! — exclamou Bentham, com raiva. — Termine logo com isso, atire em mim!
— Eu podia fazer isso — disse Caul. — Mas acho que seria mais eficaz se eu atirasse... nele.
Então ele apontou a arma para meu peito e puxou o gatilho.

* * *

Senti o impacto da bala quase antes de ouvir o estrondo da arma. Foi como ser socado por punhos gigantes e invisíveis. Fui lançado para trás, e tudo ficou abstrato. Eu estava olhando para o teto, minha visão afunilada em um ponto.
Alguém gritava meu nome. Outra arma disparou, depois tornou a disparar.
Mais gritos.
Eu estava vagamente consciente de que meu corpo estava sob uma grande quantidade de dor. Que eu estava morrendo.
Então vi Emma e a srta. Peregrine debruçadas sobre mim, angustiadas, gritando, o guarda fora do quadro. Eu não conseguia entender suas palavras, como se meus ouvidos estivessem submersos. As duas tentavam me mover, me arrastar pelos ombros na direção da porta, mas meu corpo estava inerte e pesado. Aí veio um uivo, como ventos de furacão, da direção da piscina de almas, e apesar da dor insuportável, consegui virar a cabeça e olhar.
Caul estava parado no tanque com água até as canelas, os braços estendidos e a cabeça jogada para trás, em um estado de paralisia conforme o vapor o envolvia e se misturava ao seu corpo. O vapor penetrou por todas as aberturas de seu rosto — tentáculos descendo por sua garganta, cordas se estendendo por seu nariz, nuvens baixando sobre seus olhos e ouvidos. Então, em questão de segundos, acabou; a luz azul que brilhara pela caverna se reduziu, como se Caul tivesse sugado seu poder.
A srta. Peregrine gritou. Emma pegou a arma de um dos guardas e a esvaziou em Caul. Ele não estava longe, e ela tinha boa mira. Deve tê-lo atingido, mas Caul sequer piscou. Em vez de cair, parecia estar fazendo o contrário — ele estava crescendo. Estava crescendo muito rápido, dobrando de altura e largura em segundos. Ele soltou um grito animal enquanto sua pele se abria e se curava, se abria e se curava. Logo ele era uma torre de carne crua e roupas esfarrapadas, seus olhos gigantes de um tom azul-elétrico: uma alma enchera o vazio que ele cultivara por tanto tempo. O pior de tudo eram suas mãos, que tinham ficado enormes e nodosas, grossas e retorcidas como raízes de árvore, dez dedos em cada uma.
Emma e a srta. Peregrine tentaram outra vez me arrastar para a porta, mas agora Caul estava indo atrás de nós. Ele saiu andando da piscina de almas e berrou, com uma voz de estremecer os ossos:
— ALMA, VOLTE AQUI!
Caul ergueu as mãos terríveis. Alguma força invisível arrancou Emma e a srta. Peregrine de perto de mim. Elas foram puxadas no ar e ficaram ali paradas, se debatendo a três metros do chão, até que Caul virou a palma das mãos outra vez para baixo. Rápido como uma bola rebatida, elas caíram com força no chão.
— EU VOU TRITURÁ-LA COM OS DENTES! — uivou Caul, e saiu atrás delas, cada passo provocando um terremoto.
A adrenalina, aparentemente, tinha começado a fazer minha visão e audição entrarem em foco. Eu não podia imaginar sentença de morte mais cruel que aquela: passar meus últimos momentos vendo as mulheres que eu amava serem despedaçadas. Então ouvi um cachorro latir, e algo pior me ocorreu: assistir a meus amigos morrerem, também.
Emma e a srta. Peregrine correram. Elas não tinham escolha. Voltar por mim, agora, era impossível.
Os outros começaram a emergir do corredor. Crianças e ymbrynes, todas juntas. Sharon e os construtores de forca, também. Addison devia tê-los conduzido até ali, como conduzia todos agora, com um lampião pendurado na boca.
Eles não tinham ideia do que iam enfrentar. Eu queria alertá-los (não se deem ao trabalho de lutar, apenas fujam), mas eles não me dariam ouvidos. Eles viram a fera enorme e foram com tudo para cima dela. Os construtores de forca arremessaram seus martelos. Bronwyn lançou um pedaço de parede que estava carregando, inclinando-se para trás e o projetando como em um arremesso de peso. Algumas crianças que tinham armas tomadas dos acólitos dispararam sobre Caul. As ymbrynes se transformaram em aves e atacaram sua cabeça, bicando-o sempre que podiam.
Nada disso o afetou. As balas ricochetearam. Ele desviou o pedaço de parede, pegou os martelos entre os dentes gigantes e os cuspiu. Como um bando de mosquitos, as ymbrynes pareciam apenas irritá-lo. Então ele estendeu os braços e os dedos nodosos, as pequenas raízes que pendiam de seu corpo dançando como fios elétricos, e lentamente juntou as palmas das mãos. Ao fazer isso, todas as ymbrynes que voavam em torno de sua cabeça foram afastadas e todos os peculiares foram jogados em uma pilha.
Ele revirou as mãos repetidas vezes, como se estivesse amassando papel. As ymbrynes e os peculiares se ergueram do chão em um aglomerado esférico de membros e asas. Restava apenas eu, sozinho (com exceção de Bentham... onde estava Bentham?); tentei me levantar, fazer alguma coisa, mas só consegui erguer a cabeça. Meu Deus, eles estavam sendo pulverizados, seus gritos aterrorizados ecoavam pelas paredes — e eu achei que tudo estava acabado, que em um momento o sangue ia jorrar deles como suco de uma fruta espremida, mas então uma das mãos de Caul se ergueu e começou a se agitar diante de seu rosto, espantando alguma coisa.
Eram abelhas. Uma torrente das abelhas de Hugh saíra voando do aglomerado de gente e agora estava nos olhos de Caul, ferroando-o enquanto ele soltava um uivo arrasador. As ymbrynes e os peculiares caíram novamente no chão, a bola que formavam se desfazendo, e corpos se espalharam por toda parte. Eles não tinham sido esmagados, graças a Deus.
A srta. Peregrine, guinchando e batendo asas na forma de ave, puxava as pessoas de pé e as empurrava na direção do corredor. Corram. Corram. Vão!
Então ela saiu voando na direção de Caul. Ele tinha se livrado das abelhas e estava outra vez abrindo os braços, pronto para recolher todo mundo e despedaçá-los contra a parede. Antes que pudesse fazer isso, a srta. Peregrine avançou com suas garras e abriu cortes profundos em seu rosto. Ele girou para lhe dar um golpe pesado, atingindo-a com tanta força que ela voou através do salão, bateu na parede e caiu no chão, onde permaneceu imóvel.
Quando ele se voltou para cuidar dos outros, eles tinham praticamente desaparecido pelo corredor. Caul estendeu a mão na direção deles, fechou-a e puxou-a, mas, aparentemente, eles estavam mais longe do que alcançavam seus poderes telecinéticos. Com um berro de frustração, saiu correndo atrás deles, em seguida se jogou de bruços e tentou rastejar para o interior do corredor em sua perseguição. Ele mal coube lá dentro.
Foi quando eu finalmente vi Bentham. Ele havia rolado para o canal de água para se esconder e agora estava saindo de lá outra vez, encharcado, mas, fora isso, ileso. Estava abaixado, de costas para mim, fazendo alguma coisa que eu não conseguia ver.
Senti como se estivesse voltando à vida. A dor em meu peito estava cedendo. Tentei mexer os braços, um experimento, e descobri que conseguia. Eu os passei pelo corpo e sobre o peito, esperando encontrar alguns buracos e muito sangue.
Mas estava seco. Em vez de buracos, minhas mãos encontraram um pedaço de metal achatado como uma moeda. Fechei as mãos em torno daquilo e o ergui para examiná-lo.
Era uma bala. Não tinha perfurado meu corpo. Eu não estava morrendo. A bala tinha se cravado em meu cachecol.
O cachecol que Horace tricotara para mim.
De algum modo, ele sabia que isso ia acontecer e tinha feito aquele cachecol para mim com lã especial de carneiros peculiares. Graças às aves por Horace... Vi algo brilhar no salão e ergui a cabeça, o que mal conseguia fazer. Avistei Bentham de pé com os olhos incandescentes, cones de luz branca quente se projetando de suas órbitas. Ele deixou cair algo, e ouvi o tilintar de vidro.
Ele tinha tomado ambro.
Usei toda a minha força para me virar de lado, em seguida me encolhi e tentei sentar. Bentham correu ao longo das paredes, observando os vasos. Estava estudando cada um deles com cuidado.
Como se pudesse vê-los.
Então percebi o que ele fizera, o que havia tomado. Ele tinha guardado a alma roubada de meu avô por todos aqueles anos, e agora a havia consumido.
Ele podia ver os vasos. Podia fazer o que eu fazia.
Eu estava de joelhos, as mãos espalmadas no chão. Então, me apoiei em um pé e tomei impulso para me levantar. Estava de volta, renascido dos mortos.
A essa altura, Caul tinha rastejado para o interior do corredor e avançava. Eu podia ouvir as vozes dos meus amigos ecoar da outra extremidade. Eles ainda não tinham escapado. Talvez tivessem se recusado a deixar a srta. Peregrine para trás (ou, possivelmente, a mim). Ainda estavam lutando.
Bentham agora estava correndo, o melhor que podia. Ele avistara o vaso grande e estava correndo direto em sua direção. Dei alguns passos mancando até ele, que alcançou o vaso e o virou. O líquido azul fervilhou no interior do canal e começou a circular na direção da piscina de almas.
Ele se virou e me viu.
Bentham foi mancando na direção da piscina, e eu mancando em sua direção. O líquido do vaso chegou ao tanque. A água começou a se enfurecer, e uma coluna de luz ofuscante se ergueu até o teto.
— QUEM ESTÁ PEGANDO MINHAS ALMAS?! — berrou Caul, furioso, do corredor.
E começou a rastejar de volta para a câmara.
Eu me atirei sobre Bentham, ou caí em cima dele, o que você preferir. Eu estava fraco e tonto, e ele era velho e magro, e éramos bom páreo um para o outro. Lutamos rapidamente, e quando ficou claro que eu o havia imobilizado, ele desistiu.
— Escute — disse ele. — Eu preciso fazer isso. Sou sua única esperança.
— Cale a boca! — falei segurando suas mãos, que ainda estavam se debatendo. — Não vou dar ouvidos a suas mentiras.
— Ele vai matar todos nós se você não me soltar!
— Ficou louco? Se eu soltar você, você vai ajudar seu irmão!
Finalmente consegui agarrar seus pulsos. Ele estava tentando pegar alguma coisa no bolso.
— Não, não vou! — gritou. — Eu cometi erros demais... mas posso compensá-los se você me deixar ajudar.
— Ajudar?
— Olhe em meu bolso! — gritou Bentham. — Tem um papel aí dentro. Um que sempre carrego comigo, só por garantia.
Soltei uma de suas mãos e a enfiei em seu bolso. Encontrei um pequeno pedaço de papel dobrado, que abri.
— O que é isso? — perguntei.
Estava escrito em peculiar antigo. Eu não conseguia ler.
— É uma receita. Mostre isso às ymbrynes. Elas vão saber o que fazer.
Uma mão surgiu às minhas costas e tomou o papel de mim. Me virei para trás e vi a srta. Peregrine, alquebrada, mas humana.
Ela leu o papel. Seus olhos se voltaram para Bentham.
— Você tem certeza de que isso vai funcionar?
— Funcionou uma vez — disse ele. — Não sei por que não funcionaria de novo. E com ainda mais ymbrynes...
— Solte ele — disse ela para mim.
Fiquei chocado.
— O quê? Mas ele vai...
Ela pôs a mão em meu ombro.
— Eu sei.
— Ele roubou a alma do meu avô! Ele a tomou... Está nele, neste momento!
— Eu sei, Jacob. — Ela olhou para mim, o rosto benévolo, mas firme. — Isso tudo é verdade, e pior. Foi bom você ter apanhado ele. Mas agora você deve soltá-lo.
Então larguei a mão de Bentham e fiquei de pé, com ajuda da srta. Peregrine. Em seguida, ele também se levantou, um velho triste com as costas curvadas e as gotas negras e cintilantes da alma de meu avô escorrendo pelo rosto. Por um instante, pensei ter visto um lampejo de Abe em seus olhos, um pouco de seu espírito ali, brilhando de volta para mim.
Bentham se virou e correu na direção da coluna de luz e da piscina de almas. O vapor estava se aglutinando na forma de um gigante quase tão grande quanto Caul, mas com asas. Se Bentham chegasse ao tanque a tempo, Caul teria um desafiante à altura.
Caul, agora, estava quase fora do corredor, louco de raiva.
— O QUE VOCÊ FEZ?! — gritou. — EU VOU MATAR VOCÊ!
A srta. Peregrine me empurrou para o chão e se deitou ao meu ado.
— Não há tempo para se esconder — disse ela. — Finja-se de morto.
Bentham entrou aos tropeções na piscina, e na mesma hora o vapor começou a se afunilar para dentro dele. Caul finalmente rastejou para fora do corredor e se ergueu, em seguida correu na direção de Bentham. Fomos quase esmagados quando um de seus pés enormes pisou com força perto de nossas cabeças, mas Caul chegou à piscina tarde demais para impedir Bentham de se juntar com qualquer alma grandiosa e antiga que estivesse naquele vaso. O irmão mais novo e mais fraco da srta. Peregrine já tinha crescido ao dobro de sua altura original.
A srta. Peregrine e eu ajudamos um ao outro a se levantar. Atrás de nós, Caul e Bentham começaram a lutar, o som irrompendo como bombas. Ninguém precisou me mandar correr.
Estávamos a meio caminho do corredor quando Emma e Bronwyn saíram dali para nos encontrar. Elas nos pegaram pelos braços e nos puxaram para a segurança mais rápido do que nossos corpos fracos e abatidos poderiam ter conseguido sozinhos. Não falamos (não havia tempo para fazer coisa nenhuma além de correr, não havia como gritar alto o suficiente para ser ouvido), mas o rosto de Emma, eletrizado com surpresa e alívio pelo simples fato de eu estar vivo, dizia tudo.
O túnel negro nos envolveu. Tínhamos conseguido. Olhei para trás só uma vez, para captar um vislumbre do conflito que explodia às nossas costas. Através de nuvens de poeira e vapor, vi duas criaturas mais altas que casas tentando assassinar uma a outra: Caul estrangulando Bentham com uma das mãos afiadas, furando seus olhos com a outra. Bentham, com cabeça de inseto e milhares de olhos excedentes, alimentava-se do pescoço de Caul com mandíbulas longas e flexíveis, e o golpeava com a aspereza de suas grandes asas.
Eles dançavam, um emaranhado de membros, batendo juntos contra paredes, o salão desmoronando a seu redor, o conteúdo de inúmeros vasos de alma espatifados voando, uma chuva luminosa.
Com esse retrospecto de meus pesadelos assim concretizado em meu cérebro, deixei que Emma me puxasse para a escuridão.

* * *

Encontramos nossos amigos na câmara seguinte, engolidos pelas trevas, o brilho esmaecido do lampião na boca de Addison como única fonte de luz.
Quando Emma acendeu uma chama e eles nos viram, estropiados mas vivos, soltaram um grande grito de alegria. Eu os vi à luz dela e fiz uma careta. Eles também estavam em péssimas condições, sangrando e machucados por terem sido jogados de um lado para outro por Caul, alguns mancando, com pernas quebradas ou torcidas.
Os estrondos que vinham da caverna deram uma trégua momentânea e Emma finalmente conseguiu me abraçar.
— Eu o vi atirar em você! Mas por que milagre você está vivo?
— Pelo milagre da lã de carneiros peculiares e dos sonhos de Horace! — falei, em seguida beijei Emma e me soltei dela para encontrar Horace no meio do grupo.
Quando fiz isso, eu o abracei com tanta força que seus sapatos de verniz se ergueram do chão.
— Espero um dia poder pagar a você por isso — falei, puxando meu cachecol.
— Estou muito feliz que tenha ajudado! — disse ele, sorrindo para mim.
A destruição recomeçou, o som altíssimo, inacreditável. Fragmentos de rocha rolavam pelo corredor em nossa direção. Mesmo que Caul e Bentham não conseguissem nos alcançar de onde estavam, ainda podiam derrubar o lugar inteiro. Tínhamos que sair logo da Biblioteca e, depois, daquela fenda.
Corremos, tateando e mancando de volta por onde viéramos, metade de nós uma lástima claudicante, os outros agindo como muletas humanas. Addison nos guiou apenas com o focinho, de volta pelo labirinto e saindo por onde viéramos.
O som da batalha de Caul e Bentham parecia nos perseguir, ficando mais alto mesmo enquanto nos afastávamos, como se eles estivessem crescendo. De que tamanho eles poderiam ficar, e com que força? Talvez as almas de todos os vasos que eles haviam quebrado estivessem chovendo na piscina, alimentando-os, tornando-os ainda mais monstruosos.
Será que a Biblioteca de Almas iria enterrá-los? Será que ela seria seu túmulo, sua prisão? Ou ela iria se romper e se abrir como uma casca de ovo, liberando aqueles horrores no mundo?
Chegamos à saída da gruta e corremos outra vez para a luz do dia. O estrondo às nossas costas tinha se tornado constante, um tremor que reverberava pelos morros.
— Precisamos continuar correndo! — gritou a srta. Peregrine. — Para a saída da fenda!
Estávamos a meio caminho de lá, aos tropeções por uma clareira, quando o solo abaixo de nós tremeu com tanta violência que todos fomos jogados no chão. Eu nunca tinha ouvido um vulcão em erupção, mas o som não devia ser mais assustador que o estrondo retumbante que ecoou das colinas baixas às nossas costas. Todos nós nos viramos em choque para ver toneladas de rocha pulverizada voando pelo ar, e aí ouvimos, claros como o dia, os gritos de Bentham e Caul.
Eles, agora, estavam livres da Biblioteca. Haviam arrebentado o teto da caverna e atravessado uma espessura inimaginável de rocha até chegar à luz do dia.
— Não podemos esperar mais! — gritou a srta. Peregrine. Ela se levantou e ergueu o papel amarfanhado de Bentham. — Irmãs, é hora de fechar esta fenda!
Foi quando me dei conta do que ele havia nos dado, e entendi por que a srta. Peregrine o deixara ir. Uma receita, como chamara ele. Funcionou uma vez...
Era o procedimento que ele persuadiu Caul e seus seguidores a realizar tantos anos antes, em 1908. O que havia destruído a fenda em que estavam, em vez de reiniciar seus relógios internos, como eles esperavam. Dessa vez a destruição seria intencional. Havia apenas um problema...
— Isso não vai transformá-los em etéreos? — perguntou a srta. Wren.
— Um etéreo não é problema — falei. — Mas da última vez que uma pessoa destruiu uma fenda assim, isso não provocou uma explosão tão grande que arrasou a Sibéria?
— As ymbrynes que meu irmão coagiu a ajudá-lo eram jovens e inexperientes — disse a srta. Peregrine. — Nós vamos fazer um trabalho melhor.
— É melhor, mesmo — disse a srta. Wren.
Acima da colina, surgiu um rosto rosado, como um segundo sol espiando por cima do horizonte. Era Caul, agora grande como dez casas. Com uma voz terrível que ribombou através das colinas, ele berrou:
— ALMAAAAAAAAAAA!
— Ele está vindo atrás da senhorita! — gritou Olive. — Precisamos encontrar um lugar seguro!
— Em um instante, querida.
A srta. Peregrine enxotou todas nós, crianças peculiares (e também Sharon e os primos), em seguida reuniu as ymbrynes ao seu redor. Elas pareciam uma espécie de sociedade secreta mística pestes a realizar um ritual antigo. O que, eu imagino, era o que estavam fazendo. Lendo o papel, a srta. Peregrine disse:
— Pelo que diz aqui, quando dermos início à reação, vamos ter apenas um minuto para escapar da fenda.
— Vai ser suficiente? — perguntou a srta. Avocet.
— Vai ter que ser — disse a srta. Wren, com expressão carrancuda.
— Talvez seja melhor a gente se aproximar da saída antes de tentar — sugeriu a srta. Swallow, que apenas recentemente recobrara a consciência.
— Não temos tempo — disse a srta. Peregrine. — Precisamos...
O resto de sua frase foi abafado por um grito distante mas trovejante de Caul. As palavras soaram incoerentes, seu cérebro devia estar derretendo devido ao crescimento rápido. Seu hálito nos alcançou alguns segundos depois de sua voz, um vento fétido e amarelado que azedou o ar.
Não se ouvia Bentham havia alguns minutos. Será que ele tinha sido morto?
— Desejem sorte para suas anciãs! — gritou para nós a srta. Peregrine.
— Boa sorte! — berramos todos.
— Não nos explodam! — acrescentou Enoch.
A srta. Peregrine se voltou para as irmãs. As doze ymbrynes formaram um círculo apertado, de mãos dadas, e a srta. Peregrine falou alguma coisa em peculiar antigo. As outras responderam em uníssono, todas as vozes se erguendo em um cântico lúgubre e ritmado. Isso continuou por trinta segundos ou mais, e durante esse tempo Caul começou a sair da caverna, derrubando detritos pelos morros onde suas mãos enormes se agarravam para se apoiar.
— Bom, isto é fascinante — disse Sharon. — Sintam-se à vontade para ficar aqui e assistir, mas acho que meus primos e eu vamos embora. — Ele saiu andando, mas então viu que a trilha à frente se dividia em cinco caminhos e que o solo duro não registrara nenhuma de nossas pegadas. — Hum... Por acaso alguém se lembra do caminho?
— Você vai ter que esperar — rosnou Addison. — Ninguém sai até que as ymbrynes saiam.
Finalmente, elas soltaram as mãos, rompendo o círculo.
— É isso? — perguntou Emma.
— É isso! — respondeu a srta. Peregrine, correndo até nós. — Vamos embora. Este lugar não vai estar muito legal daqui a cinquenta segundos!
Uma rachadura estava se abrindo no chão, no local onde as ymbrynes tinham se reunido, a argila afundando em um sumidouro que rapidamente se alargava e do qual saía um zunido alto, quase mecânico. A destruição havia começado.
Apesar da exaustão, dos corpos alquebrados e dos passos vacilantes, corremos, apressados pelo pânico, pelos ruídos apocalípticos e pela sombra gigante que caiu sobre nosso caminho. Corremos enquanto o chão se abria, descemos escadas antigas que se desfaziam sob nossos pés, para a primeira construção da qual saíramos; engasgamos com poeira vermelha de paredes pulverizadas e finalmente chegamos à passagem que levava de volta à torre de Caul.
A srta. Peregrine nos conduzia pela passagem, que se desintegrava ao nosso redor, e, depois, para o interior da torre. Olhei para trás a fim de ver a passagem desmoronar, um punho gigante arrebentando o teto.
— Onde foi parar a porta? — perguntou a srta. Peregrine, nervosa. — Precisamos fechá-la, ou a demolição pode se espalhar além desta fenda!
— Bronwyn a arrombou! — respondeu Enoch. — Está quebrada!
Bronwyn tinha sido a primeira a alcançá-la, e, para ela, derrubar a porta fora mais fácil que girar a maçaneta.
— Desculpe! Eu condenei a todos nós?
O tremor da fenda começara a se espalhar pela torre, que inclinou, nos jogando para o outro lado do recinto.
— Não se conseguirmos escapar da torre — disse a srta. Peregrine.
— Estamos alto demais! — exclamou a srta. Wren. — Nunca vamos chegar lá embaixo a tempo!
— Tem um terraço aberto logo acima — falei.
Não entendi por que falei isso, pois saltar para a morte não parecia melhor que ser esmagado pelo desabamento de uma torre.
— Sim! — gritou Olive. — Vamos pular!
— Mas é claro que não! — disse a srta. Wren. — Nós, ymbrynes, ficaríamos bem, mas vocês, crianças...
— Eu posso carregar os outros! — disse Olive. — Sou bastante forte.
— De jeito nenhum! — disse Enoch. — Você é pequenininha, e nós somos muitos.
A torre balançava de maneira assustadora. Lajotas do teto despencavam à nossa volta e rachaduras se abriam no chão.
— Então está bem! — disse Olive. — Fiquem para trás!
Ela começou a subir. Levamos apenas um instante, e mais um balanço da torre, para decidir que Olive era nossa única esperança.
Nossa vida estava nas mãos delicadas de nosso menor componente. Que as aves nos ajudassem.
Subimos o corredor íngreme e saímos ao ar livre no que restava do dia. Lá embaixo se descortinava uma vista dominante do Recanto do Demônio: o complexo e suas paredes pálidas, o abismo enevoado e a ponte interrompida com um etéreo no interior, o material inflamável negro da Rua da Fumaça e os cortiços abarrotados mais adiante, e depois o Valão, serpenteando ao longo da borda da fenda como um anel de sujeira. O que quer que acontecesse em seguida, independentemente se íamos viver ou morrer, me deixaria feliz por nunca mais ver aquele lugar.
Nós nos aproximamos do parapeito circular. Emma agarrou minha mão.
— Não olhe para baixo, hein?
Uma a uma, as ymbrynes se transformaram em aves e se empoleiraram no parapeito, prontas para ajudar como pudessem. Olive segurou o parapeito com as duas mãos e tirou os sapatos. Seus pés flutuaram até ela ficar de cabeça para baixo no parapeito, os calcanhares apontados para o céu.
— Bronwyn, pegue meus pés! — disse ela. — Vamos fazer uma corrente: Emma segura as pernas de Bronwyn, Jacob segura as de Emma, e Horace, as de Hugh...
— Minha perna esquerda está ferida! — disse Hugh.
— Então Horace segura a direita — disse Olive.
— Isso é loucura! — disse Sharon. — Vamos ficar pesados demais!
Olive ia discutir, mas um tremor repentino abalou a torre com tanta força que nos agarramos ao parapeito para não cair.
Era do jeito de Olive ou nada.
— Vocês entenderam a ideia! — gritou a srta. Peregrine. — Façam como Olive disse e, o mais importante, não soltem até chegarmos ao chão!
A pequena Olive flexionou os joelhos e jogou um pé na direção de Bronwyn, que o segurou, depois ergueu o braço e pegou o outro. Olive soltou o parapeito e se ergueu nas mãos de Bronwyn, dando impulso para cima como um nadador empurrando a parede de uma piscina.
Bronwyn foi erguida do chão. Emma rapidamente segurou as pernas dela e também foi erguida, enquanto Olive se esforçava para subir mais, cerrando os dentes. Então foi minha vez, mas, aparentemente, Olive estava perdendo poder de flutuação. Ela fazia força e gemia, nadando de cachorrinho na direção do céu, mas estava esgotada. Foi quando a srta. Peregrine se transformou em ave, levantou voo, enganchou as garras nas costas do vestido de Olive e a puxou para cima.
Meus pés saíram do chão. Hugh agarrou minhas pernas, e Horace, as pernas dele, e Enoch as dele e assim por diante, até que mesmo Perplexus, Addison, Sharon e seus primos tinham pegado uma carona. Subimos enfileirados no ar como uma pipa oscilante, com Millard como sua rabiola invisível. As outras ymbrynes menores agarravam nossas roupas aqui e ali e batiam as asas furiosamente, ajudando como podiam.
Tínhamos acabado de deixar a torre quando a coisa toda começou a desmoronar. Olhei para baixo a tempo de vê-la cair. Aconteceu rápido, desabando sobre si mesma, a parte superior parecendo implodir como se tivesse sido sugada pela fenda destruída. Depois disso, o resto simplesmente caiu, com uma parte se inclinando antes de romper no meio e desabar em uma grande nuvem de poeira e entulho, o som como de um milhão de tijolos sendo jogados em uma pedreira. A essa altura, a força da srta. Peregrine estava vacilando e começamos a cair, lentamente, as ymbrynes nos puxando com força para o lado, para uma aterrissagem suave longe dos destroços.
Tocamos o solo no pátio, Millard primeiro e, por fim, Olive, tão exausta que aterrissou de costas e ficou ali, ofegante como se tivesse corrido uma maratona.
Nos reunimos em volta dela, dando vivas e a aplaudindo.
Ela arregalou os olhos e apontou para cima.
— Vejam!
No ar, onde apenas alguns minutos antes estava o topo da torre, girava um pequeno vórtice de prata cintilante, como um furacão em miniatura. Eram os últimos vestígios da fenda desmoronando. Assistimos hipnotizados enquanto ele encolhia, girando cada vez mais rápido. Quando ficou pequeno demais para ser visto, dele saiu um som que parecia um estrondo sônico:
— ALMAAAAAAA...
Então o redemoinho desapareceu, sugando para dentro de si a voz de Caul.

4 comentários:

  1. Uma dúvida, com a biblioteca destruída, os peculiares não ficariam extintos? Porque a alma vai depois que um peculiar morre, e depois volta pra outra pessoa nasce, ou a alma só fica guardada?

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    1. Olha acredito que a biblioteca de almas é uma coisa meio mística e que como ela sumiu uma vez e apareceu em outro lugar, ela também pode se regenerar.

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  2. Ou todas as almas vão escolher um corpo e o contingente de peculiares aumentar muito de uma vez.

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Boa leitura :)