10 de abril de 2017

Capítulo nove

Onde deveria estar um caixão, havia uma escada que descia em meio à escuridão. Espiamos o interior do túmulo.
— Não vou descer aí de jeito nenhum! — declarou Horace.
Então, um trio de bombas abalou o prédio, provocando uma chuva de lascas de concreto sobre nossas cabeças, e de repente Horace começou a me empurrar para abrir passagem e chegar logo à escada.
— Com licença, saia do caminho, os mais bem-vestidos primeiro!
Emma o segurou pela manga do paletó.
— Eu tenho a luz, então eu vou primeiro. Depois Jacob, caso haja... coisas lá embaixo.
Dei um sorriso amarelo, sentindo os joelhos meio moles com a ideia.
— Coisas além de ratos, cólera e qualquer tipo de bicho doido morando em uma cripta? — indagou Enoch.
— Não importa o que tenha lá embaixo — disse Millard, aborrecido. — Vamos ter que enfrentar, e ponto final.
— Está bem — respondeu Enoch. — Mas é melhor que a srta. Wren esteja lá embaixo também, porque mordidas de rato não curam depressa.
— Muito menos de etéreos — completou Emma, pisando no primeiro degrau da escada.
— Cuidado — falei. — Estou bem atrás, aqui em cima.
Ela me saudou com a mão em chamas.
— Vamos mergulhar outra vez no desconhecido — comentou, e começou a descer.
Então veio a minha vez.
— Sabe quando está tendo um bombardeio e você vai em uma tumba aberta, aí percebe que seria melhor não ter nem se levantado da cama? — perguntei.
Enoch chutou meu sapato.
— Pare de enrolar.
Agarrei a beira da tumba e apoiei o pé na escada. Pensei brevemente em todas as coisas agradáveis e entediantes que poderia estar fazendo com meu verão, caso minha vida tivesse tomado um rumo diferente. Acampamento de tênis. Aulas de navegação em barco a vela. Arrumar prateleiras. Então, movido por um esforço hercúleo de força de vontade, comecei a descer.
A escada levava a um túnel, que acabava em uma parede de um lado e, do outro, desaparecia na escuridão. O ar era frio, carregado com um odor estranho como o de roupas apodrecendo em um porão inundado. Um líquido de origem misteriosa gotejava e escorria pelas ásperas paredes de pedra.
Enquanto Emma e eu aguardávamos que todos descessem, aos poucos fui tomado pelo frio. Os outros também sentiram. Quando Bronwyn chegou lá embaixo, abriu o baú e distribuiu os suéteres de lã de carneiros peculiares que ganhamos na montanha dos bichos. Vesti um. Caía tão bem quanto um saco, as mangas ultrapassando os dedos e a barra indo até os joelhos, mas pelo menos era quente.
Agora que o baú estava vazio, Bronwyn o deixou para trás. A srta. Peregrine viajava no casaco da menina, onde praticamente fizera um ninho. Millard insistiu em levar os Contos nos braços, mesmo sendo pesados e volumosos, porque podia precisar procurar alguma informação a qualquer momento. Acho que os Contos haviam se transformado em seu amuleto da sorte, um livro de feitiços que só ele sabia ler.
Éramos um grupo estranho.
Fui na frente, devagar, tentando detectar a presença de etéreos no escuro.
Dessa vez, senti um tipo diferente de pontada no estômago. Era muito suave, como se um etéreo tivesse passado por ali e ido embora e eu estivesse sentindo seu resíduo. Não comentei isso com o grupo. Não havia motivo para deixar todos alarmados.
Caminhamos. O som de nossos passos sobre os tijolos molhados ecoava de um lado para o outro do túnel. Não havia como fugir do que quer que estivesse esperando por nós.
De vez em quando, de algum lugar à frente, ouvíamos um bater de asas ou um arrulhar de pomba, então apertávamos um pouco o passo. Tive a incômoda sensação de que estávamos nos encaminhando para uma surpresa desagradável.
Havia placas de pedra cravadas nas paredes como as que tínhamos visto na cripta, porém mais velhas, com o texto quase todo gasto. Em seguida, passamos por um caixão sem túmulo deixado no chão, depois por uma pilha deles, apoiada contra uma parede, como caixas velhas de mudança.
— Que lugar é este? — murmurou Hugh.
— O cemitério às vezes fica superlotado — explicou Enoch. — Quando precisam de mais espaço para novos clientes, desenterram os mais antigos e os enfiam aqui.
— Que entrada de fenda horrível — comentei. — Imagine só andar por aqui toda vez que precisar entrar ou sair!
— Não é tão diferente do nosso túnel na ilha — retrucou Millard. — Entradas de fendas desagradáveis têm lá sua utilidade... como os normais tendem a evitá-las, ficam só para nós.
Tão racional. Tão sábio. E eu só conseguia pensar: Tem gente morta por todo lado, os cadáveres estão podres, são só ossos e... Ah, meu Deus...
— Ops — murmurou Emma, e parou de repente, me fazendo correr em sua direção. Todos os outros se agruparam atrás de mim.
Ela chegou a chama para um lado, revelando uma porta curva na parede.
Estava entreaberta, mas, pela fresta, só se via escuridão.
Ficamos ouvindo. Por um bom tempo não houve qualquer som além de nossa respiração e de um gotejar distante. Depois, ouvimos um ruído, mas não do tipo que esperávamos — não era um bater de asas ou o arranhar de patas de aves; era algo humano.
Alguém chorando bem baixinho.
— Olá? — chamou Emma. — Quem está aí?
— Por favor, não me machuque — respondeu a voz, ecoando.
Ou seriam duas vozes?
Emma aumentou a intensidade da chama. Bronwyn se adiantou e empurrou a porta com o pé. A porta se abriu, expondo uma pequena câmara cheia de ossos. Fêmures, maxilares, crânios... fósseis desmembrados de muitas centenas de pessoas, empilhados sem qualquer ordem aparente.
Cambaleei para trás, tonto de surpresa.
— Olá? — chamou Emma. — Quem disse isso? Apareça!
A princípio, não dava para ver nada lá dentro além de ossos, mas então ouvi uma fungada. Segui o som até o topo da pilha, onde dois pares de olhos piscaram para nós, das sombras dos fundos da câmara.
— Não tem ninguém aqui — anunciou uma vozinha.
— Vão embora — disse outra. — Estamos mortos.
— Não estão, não — retrucou Enoch. — Eu saberia!
— Venham aqui fora — pediu Emma, com delicadeza. — Não vamos machucar vocês.
As duas vozes perguntaram ao mesmo tempo:
— Prometem?
— Prometemos — respondeu Emma.
Os ossos começaram a se mexer. Um crânio se deslocou da pilha e caiu com um barulho seco e alto, depois rolou até parar aos meus pés, olhando para mim.
Olá, futuro, pensei.
Dois menininhos desceram engatinhando da pilha de ossos até a luz. A pele deles era de uma palidez mortal, e os dois nos espiavam com olhos que viravam de um lado a outro nas órbitas circuladas por olheiras profundas.
— Eu sou Emma, esse é Jacob, e esses são nossos amigos — apresentou Emma. — Somos peculiares, não vamos machucar vocês.
Os meninos se encolheram como animais assustados, sem dizer uma só palavra, os olhos dando voltas como se olhasse para todos os lugares e lugar nenhum.
— Qual é o problema deles? — sussurrou Olive.
Bronwyn fez com que ela se calasse:
— Não seja mal-educada.
— Como vocês se chamam? — indagou Emma, com voz doce e persuasiva.
— Eu sou Joel e Peter — respondeu o menino maior.
— Quem é você? — perguntou Emma. — Joel ou Peter?
— Eu sou Peter e Joel — respondeu o menor.
— Não temos tempo para brincadeiras — reclamou Enoch. — Tem alguma ave aqui com vocês? Viram alguma passar voando por aqui?
— As pombas gostam de se esconder — respondeu o maior.
— No sótão — explicou o menor.
— Que sótão? — indagou Emma. — Onde?
— Na nossa casa — responderam os dois, em uníssono, e, levantando os braços, apontaram para uma passagem escura.
Eles pareciam precisar da ajuda um do outro para falar. Se uma frase tivesse mais que algumas palavras, um começava e o outro terminava, sem qualquer pausa detectável. Também percebi que, sempre que um estava falando e o outro não, o que estava em silêncio imitava os movimentos das palavras com a boca em perfeita sincronia, como se os dois dividissem a mesma mente.


— Vocês podem, por favor, nos mostrar o caminho até a casa de vocês? — perguntou Emma. — Podem nos levar até o sótão?
Joel-e-Peter fizeram que não com a cabeça e se encolheram, voltando para a escuridão.
— Qual é o problema? — indagou Bronwyn. — Por que vocês não querem ir?
— Morte e sangue! — exclamou um menino.
— Sangue e gritos! — completou o outro.
— Gritos, sangue e sombras que mordem! — exclamaram os dois.
— Ah, que beleza! — exclamou Horace, dando a volta. — Olha, eu vejo vocês lá na cripta. Espero não ser esmagado por uma bomba!
Emma segurou Horace pela manga.
— Ah, não, não vai, não! Você é o único que conseguiu pegar pelo menos uma dessas malditas pombas.
— Mas você não ouviu esses dois? Essa fenda está cheia de sombras que mordem! O que só pode significar uma coisa: etéreos!
Estava cheia deles — respondi. — Isso pode ter sido há dias.
— Quando foi a última vez que vocês entraram em casa? — perguntou Emma.
Daquele jeito estranho e entrecortado, os dois explicaram que a fenda em que viviam tinha sido atacada, mas que eles conseguiram fugir para as catacumbas e se esconder entre os ossos. Não sabiam quanto tempo fazia. Dois dias? Três?
Tinham perdido a noção do tempo, ali no escuro.
— Ah, pobrezinhos — comentou Bronwyn. — Por que horrores os dois não devem ter passado!
— Vocês não podem ficar aqui para sempre — disse Emma. — Vão envelhecer depressa se não encontrarem outra fenda. Podemos ajudar os dois, mas primeiro precisamos de uma pomba.
Os meninos se entreolharam com aqueles olhos que não paravam de girar e pareceram conversar entre si sem pronunciar uma só palavra. Então disseram, em uníssono:
— Sigam a gente.
Eles desceram pela pilha de ossos e entraram na passagem.
Nós os seguimos. Eu não conseguia tirar meus olhos dos dois. Os meninos eram fascinantemente esquisitos. Ficavam o tempo todo de braços dados e estalavam a língua a cada poucos passos.
— O que eles estão fazendo? — murmurei.


— Acho que eles veem assim — respondeu Millard. — É igual a como os morcegos enxergam no escuro. Os sons que fazem rebatem nas coisas e voltam para eles, o que forma uma imagem mental.
— Somos ecolocalizadores — explicaram Joel-e-Peter.
E, pelo visto, também tinham uma audição excelente.
O túnel se dividia, depois se dividia outra vez. Em determinado ponto, senti uma pressão repentina nos ouvidos e precisei sacudir a cabeça para liberá-la. Foi quando soube que havíamos deixado 1940 e entrado em uma fenda temporal.
Finalmente, chegamos a uma parede com degraus verticais recortados. Joel-e-Peter ficaram na base e apontaram para um pontinho de luz acima.
— Nossa casa... — disse o mais velho.
— ... fica lá em cima — completou o mais novo.
E, com isso, eles voltaram para as sombras.

* * *

Os degraus estavam cobertos de musgo, o que os deixava escorregadios e difíceis de subir, então eu precisava ir devagar para não cair. Eles iam parede acima até uma porta circular no teto do tamanho de uma pessoa, através da qual brilhava um único raio de luz. Enfiei os dedos na fresta e dei um empurrão para o lado. As portas se abriram deslizando, como o obturador de uma câmera, revelando um tubo feito de tijolos que se erguia por cerca de dez metros até um círculo de céu. Eu estava no fundo falso de um poço falso.
Me alcei para dentro do poço e comecei a escalar. Na metade do caminho, precisei parar para descansar, apoiando as costas no lado oposto do tubo. Quando a dor nos bíceps diminuiu, subi o restante do caminho, me icei pela borda do poço e caí em um gramado.
Estava no quintal de uma casa de aspecto malcuidado. O céu era de um tom doentio de amarelo, mas não havia fumaça nem som de motores. Estávamos em uma época mais antiga, anterior à guerra e até mesmo aos carros. O ar estava um pouco frio e alguns flocos de neve caíam, derretendo ao tocar o solo.
Emma foi a próxima a sair do poço, seguida de Horace. Ela decidira que apenas três de nós explorariam a casa. Não sabíamos o que encontraríamos lá em cima, e, se precisássemos fugir depressa, era melhor estarmos em um grupo pequeno, que pudesse correr bem rápido. Ninguém que ficou lá embaixo reclamou, pois o alerta de Joel-e-Peter, que haviam falado sobre sangue e sombras, os assustara. Só Horace ficou chateado. Ele resmungava baixinho, declarando que queria não ter pegado aquela pomba na praça.


Bronwyn acenou para nós lá de baixo e fechou a porta circular. A parte de cima estava pintada para parecer uma superfície de água — uma água escura e suja na qual ninguém iria querer jogar um balde e pegar um pouco para beber.
Bem inteligente.
Nós três nos agachamos juntos e olhamos ao redor. O quintal e a casa pareciam bastante abandonados. O mato ao redor crescia em moitas tão grandes que em alguns pontos eram mais altas que as janelas do primeiro andar. Uma casinha de cachorro apodrecida parecia estar desmoronando em um canto, e, perto dela, um varal parecia estar sendo engolido por arbustos pouco a pouco.
Ficamos de pé e esperamos, de ouvidos atentos à procura de pombas. De trás das paredes da casa, dava para ouvir as batidas de cascos de cavalos no calçamento. Não, com certeza aquela não era Londres de 1940.
Então, em uma das janelas do andar de cima, vi uma cortina se abrir.
— Lá em cima! — sussurrei, apontando.
Não sabia se o movimento fora feito por uma ave ou uma pessoa, mas valia a pena conferir. Fui até a porta da casa, chamando os outros para que me seguissem, então tropecei em algo. Era um corpo jogado no chão, coberto por uma lona preta dos pés à cabeça. Um par de sapatos gastos se projetava de uma das extremidades, apontando para o céu. Um cartão branco fora enfiado em um furo de uma das solas. Nele, dava para ler, em uma caligrafia elegante:

Sr. A. F. Carcoma
Recém-chegado das províncias
Preferiu o envelhecimento acelerado a ser levado com vida
Solicita, encarecidamente, que seus restos mortais sejam depositados no Tâmisa

— Que sujeito azarado — murmurou Horace. — Veio do interior, provavelmente depois que a própria fenda temporal foi atacada, e o local onde se refugiou também foi invadido.
— Mas por que deixariam o pobre sr. Carcoma aqui fora desse jeito? — murmurou Emma.
— Porque precisaram ir embora correndo — respondi.


Emma se abaixou e pegou a ponta da lona que cobria o sr. Carcoma. Eu não queria ver, mas não pude evitar. Virei um pouco para o lado, mas não resisti e espiei através de dedos entreabertos. Esperava encontrar um cadáver ressequido, mas o sr. Carcoma parecia perfeitamente intacto e surpreendentemente jovem, talvez com quarenta ou cinquenta anos, o cabelo negro grisalho apenas nas têmporas. Os olhos estavam fechados e tranquilos, como se só estivesse dormindo. Será que ele realmente passara pelo envelhecimento acelerado, como a maçã ressequida que peguei na fenda temporal da srta. Peregrine?
— Oi, o senhor está morto ou dormindo? — indagou Emma.
Ela cutucou a orelha do homem com a bota. A lateral da cabeça afundou e se desfez em pó.
Emma levou um susto e soltou a lona. O sr. Carcoma se tornara um molde oco e seco de si mesmo, tão frágil que até um vento um pouco mais forte poderia destruí-lo.
Deixamos para trás o pobre sr. Carcoma se despedaçando e seguimos para a porta. Girei a maçaneta. A porta se abriu e entramos em uma lavanderia. O varal parecia cheio de roupas limpas, e uma tábua de lavar estava pendurada com muito cuidado acima do tanque. Aquele lugar não fora abandonado havia muito.
A Sensação era mais forte ali, mas ainda apenas residual. Abrimos outra porta e entramos em uma sala de estar. Senti um aperto no coração. Havia indícios claros de luta: móveis derrubados e espalhados, retratos caídos da lareira, trechos do papel de parede rasgados em tiras.
Ah, não — murmurou Horace.
Segui seu olhar para o teto, até uma mancha escura que cobria uma área circular. Algo terrível acontecera lá em cima.
Emma apertou bem os olhos.
— Apenas escutem — disse. — Tentem ouvir as aves e não pensem mais nada.
Fechamos os olhos e escutamos. Um minuto se passou. Então, finalmente, ouvimos o arrulhar e o agitar de asas de um pombo. Abri os olhos para ver de onde tinha vindo.
Da escada.
Subimos com cautela, tentando evitar que os degraus rangessem. Dava para sentir as batidas do meu coração na garganta e nas têmporas. Eu conseguia lidar com cadáveres antigos e quebradiços, mas não sabia se suportaria ver uma cena de assassinato.
O corredor do segundo andar estava cheio de entulho. Uma porta arrancada das dobradiças jazia no chão, despedaçada. Pelo vão, dava para ver uma torre de baús e cômodas caídos: um bloqueio fracassado.
No cômodo seguinte, o carpete branco estava ensopado de sangue — a mancha que víramos no teto vazara do chão até lá embaixo. Mas quem quer que tivesse perdido aquilo tudo já não estava ali havia muito.
A última porta do corredor não mostrava sinais de arrombamento. Eu abri com cautela. Observei o local: havia um guarda-roupa, uma cômoda com bibelôs arrumados com esmero e cortinas de renda esvoaçando na janela. O carpete parecia limpo. Tudo estava intacto.
Meus olhos se dirigiram para a cama, para o que havia ali, e recuei aos tropeções até o batente da porta. Aninhados sob cobertas brancas e limpas, dois homens pareciam dormir — e, entre eles, dois esqueletos.
— Envelhecimento acelerado — comentou Horace, com as mãos trêmulas no pescoço. — Dois deles eram consideravelmente mais velhos.
Os homens que pareciam adormecidos estavam tão mortos quanto o sr. Carcoma lá embaixo, explicou Horace, e, se os tocássemos, se desintegrariam da mesma maneira.


— Eles desistiram — murmurou Emma. — Ficaram cansados de fugir e desistiram. — Ela os encarava com um misto de raiva e pena.
Emma achava que haviam sido fracos e covardes, que tinham escolhido a saída mais fácil. Eu não podia evitar me perguntar se não era o caso de aqueles peculiares simplesmente saberem mais do que nós sobre o que os acólitos faziam com os prisioneiros. Talvez, se tivéssemos mais informações, nós também preferíssemos a morte.
Voltamos para o corredor. Eu me sentia tonto e enjoado. Queria sair daquela casa, mas ainda não podíamos fazer isso. Havia uma última escada a subir.
No alto, encontramos um cenário danificado pela fumaça. Imaginei que os peculiares que haviam resistido ao ataque inicial tinham se reunido ali para uma última resistência. Talvez tivessem tentado enfrentar os corrompidos com fogo, ou talvez os corrompidos tivessem tentado expulsá-los dali com a fumaça. Fosse o que fosse, parecia que tinham quase incendiado a casa.
Nós nos abaixamos para passar por uma portinha e entramos em um sótão de paredes inclinadas. Tudo ali estava negro e queimado. As chamas haviam aberto buracos no telhado.
Emma cutucou Horace.
— Está em algum lugar por aqui — murmurou. — Faça sua mágica, apanhador de passarinhos.
Horace foi até o meio do sótão na ponta dos pés e chamou, em uma voz ritmada:
— Aquiiiiiiii, pomba, pomba, pomba...
Então ouvimos, de trás de nós, um bater de asas e um pio estranho. Nós nos viramos, mas não vimos uma pomba, e sim uma garota de vestido preto, parcialmente oculta nas sombras.
— Vocês estão atrás disso? — indagou a menina, erguendo um dos braços para um raio de luz.
A pomba se remexeu em sua mão, tentando se libertar.
— É! — respondeu Emma. — Graças a Deus você a pegou!
Ela foi na direção da menina com as mãos estendidas para a pomba, mas a garota deu um grito.
— Pare aí mesmo!
Ela estalou os dedos. Um tapetinho chamuscado saiu voando de sob os pés de Emma, derrubando-a no chão.
Corri até ela.
— Você está bem?
— Ajoelhem! — gritou a garota. — Ponham as mãos na cabeça!
— Estou bem — respondeu Emma. — Faça o que ela diz. Ela é telecinética, e dá para ver que está instável.
Eu me ajoelhei ao lado dela e entrelacei os dedos atrás da cabeça. Emma fez o mesmo. Horace, trêmulo, ainda em silêncio, jogou-se no chão, sentado, exausto, e apoiou as mãos nas tábuas chamuscadas.
— Não queremos fazer mal a você — disse Emma. — Só estamos atrás da pomba.
— Ah, eu sei muito bem do que vocês estão atrás — retrucou a menina, com escárnio. — Sua espécie nunca desiste, não é?
— Nossa espécie? — indaguei.
— Larguem as armas e joguem para cá! — ordenou a menina.
— Não temos nenhuma arma — respondeu Emma, muito calma, fazendo o possível para não deixar a menina ainda mais nervosa.
— Isso vai ser mais fácil se vocês não acharem que sou burra! — gritou a garota. — Vocês são fracos e não têm poderes próprios, por isso usam revólveres e coisas do tipo. Agora joguem tudo no chão!
Emma virou a cabeça para nós.
— Ela acha que somos acólitos — murmurou ela.
Quase soltei uma gargalhada.
— Não somos acólitos. Somos peculiares!
— Vocês não são as primeiras criaturas de olhos brancos que vêm aqui atrás de pombos — retrucou ela. — Nem as primeiras que tentam se passar por crianças peculiares. E não seriam as primeiras que eu mataria! Agora ponham as armas no chão antes que eu quebre o pescoço dessa pomba... e depois o de vocês!
— Não somos acólitos! — insisti. — Venha olhar nossas pupilas, se não acredita!
— Seus olhos não significam nada! — retrucou a menina. — Lentes falsas são o truque mais velho que existe... E, podem acreditar, eu conheço todos eles.
A garota deu um passo em nossa direção e foi iluminada pela luz. Seus olhos eram puro ódio. Fora o vestido, ela parecia meio masculina, com cabelo curto e queixo quadrado. Tinha o olhar vidrado de alguém que não dormia havia dias, que naquele momento estava à base de instinto e adrenalina. Uma pessoa naquela situação não seria boa ou paciente conosco.
— Nós somos peculiares, eu juro! — exclamou Emma. — Veja... vou mostrar!
Ela tirou uma das mãos da cabeça e estava prestes a acender uma chama quando tive uma intuição repentina e segurei seu pulso.
— Se tiver algum etéreo por perto, eles vão sentir — disse. — Acho que eles podem nos sentir do mesmo modo que eu posso senti-los, mas é muito mais fácil para eles quando usamos nossos poderes. É como disparar um alarme.
— Mas você está usando o seu poder — disse ela, irritada. — E ela está usando o dela!
— O meu é passivo — retruquei. — Não posso desligá-lo, por isso ele não deixa um rastro muito marcante. Quanto a ela... talvez já saibam que ela está aqui. Talvez não seja ela que eles queiram.
— Que conveniente! — exclamou a menina. — E esse supostamente é o seu poder? Sentir a presença das criaturas de sombras?
— Ele também consegue vê-las — respondeu Emma. — E matá-las.
— Você precisa inventar mentiras melhores — disse a garota. — Ninguém com meio cérebro acreditaria nisso.
Enquanto estávamos conversando, a Sensação brotou dolorosamente dentro de mim. Não era mais o resíduo deixado por um etéreo, e sim a presença ativa de um.


— Tem um por aqui — falei para Emma. — Precisamos sair.
— Não sem a ave — murmurou ela.
A menina foi correndo em nossa direção.
— É hora de resolver isso de uma vez — disse. — Já dei chances mais que suficientes de vocês provarem quem são. Além do mais, estou começando a gostar de matar criaturas como vocês. Depois do que fizeram com meus amigos, parece que nunca é o suficiente!
Ela parou a pouco mais de um metro de nós e ergueu a mão livre — estava prestes a derrubar o que restava do telhado na nossa cabeça. Se fôssemos fazer alguma coisa, a hora era aquela.
Pulei, joguei os braços para a frente e colidi com a menina, derrubando-a no chão. Ela gritou de surpresa e raiva. Prendi a palma de sua mão livre com o punho, para que ela não pudesse estalar os dedos de novo. A menina soltou a ave, e Emma a agarrou.
Em seguida, Emma e eu nos levantamos e saímos correndo para a porta aberta. Horace ainda estava no chão, zonzo.
— Levante-se e corra! — gritou Emma para ele.
Eu estava puxando Horace pelos braços quando a porta bateu na minha cara e uma cômoda queimada se ergueu do canto e voou pelo sótão. A quina do móvel acertou minha cabeça. Saí rolando, levando Emma comigo para o chão.
A menina estava furiosa, aos berros. Eu estava certo de que tínhamos apenas alguns segundos de vida. Então Horace se levantou e gritou, com toda a força:
Melina Manon!
A garota congelou.
— O que você disse?
— Seu nome é Melina Manon — respondeu. — Nasceu em Luxemburgo, em 1899. Veio morar com a srta. Thrush quando tinha dezesseis anos e está aqui desde então.
Horace a pegara desprevenida. A garota franziu o cenho, depois fez um movimento em arco com a mão, e a cômoda que quase me deixara inconsciente flutuou pelo ar e parou, pairando bem acima de Horace. Se ela a deixasse cair, ia esmagá-lo.
— Você fez o dever de casa — retrucou. — Mas qualquer acólito poderia saber meu nome e onde nasci. Infelizmente para você, não consigo mais achar suas mentiras interessantes.
No entanto, ela não parecia prestes a matá-lo.
— Seu pai era bancário — continuou Horace, falando bem depressa. — Sua mãe era muito bonita, mas tinha um cheiro muito forte de cebola, um problema que a acompanhou a vida inteira. Nada do que ela tentava curava isso.
A cômoda se balançou acima de Horace. A menina o encarou, franzindo o cenho, a mão ainda no ar.
— Quando você tinha sete anos, queria muito um cavalo árabe — prosseguiu Horace. — Seus pais não tinham dinheiro para um animal tão extravagante, então compraram um burrico. Você o chamou de Habib, que significa amado. E o amava de verdade.
A garota ficou boquiaberta.
Horace continuou:
— Você tinha treze anos quando percebeu que podia manipular objetos usando apenas o poder da mente. Começou com objetos pequenos, como moedas e clipes de papel, mas foi passando para coisas cada vez maiores. Só não conseguia mover Habib com a mente, já que sua habilidade não atinge criaturas vivas. Quando sua família se mudou, você achou que a habilidade tivesse desaparecido, porque não conseguia mover mais nada. Mas foi só porque ainda não conhecia a casa nova. Quando se familiarizou com o lugar, mapeou-o na mente e voltou a mover os objetos entre as paredes.
— Como você sabe isso tudo? — indagou Melina, olhando para ele de queixo caído.
— Porque sonhei com você — respondeu Horace. — Esse é o meu poder.
— Meu Deus! — exclamou a menina. — Vocês são mesmo peculiares.
A cômoda desceu suavemente até o chão.

* * *

Eu me levantei, meio tonto, a cabeça latejando onde a cômoda me acertara.
— Você está sangrando! — apontou Emma, apressando-se para examinar o corte.
— Estou bem, estou bem — respondi, evitando-a.
A Sensação estava mudando, e ser tocado enquanto isso acontecia a tornava mais difícil de interpretar — de algum modo, interrompia seu desenvolvimento.
— Desculpe pelo machucado na cabeça — disse Melina Manon. — Achei que eu fosse a única peculiar que restava!
— Tem um grupo lá no fundo do poço, no túnel da catacumba — comentou Emma.
— É mesmo? — A expressão de Melina se iluminou. — Então ainda há esperança!
— Havia, na verdade — respondeu Horace. — Mas ela saiu voando pelo buraco no teto.
— O quê? Está falando da Winnifred?
Melina pôs dois dedos na boca e assoviou. No instante seguinte, a pomba reapareceu. Veio voando pelo buraco no teto e pousou no ombro dela.
— Fantástico! — exclamou Horace, batendo palmas. — Como você fez isso?
— Winnie é minha amiga — explicou Melina. — É mansa como um gato.
Limpei um pouco do sangue da testa com as costas da mão e decidi ignorar a dor. Não havia tempo para tratar ferimentos. Eu me virei para a garota.
— Você falou que os acólitos estiveram aqui, caçando pombas.
Melina confirmou.
— Eles e os monstros de sombra vieram há três noites. Cercaram o lugar, levaram a srta. Thrush e metade dos internos, depois incendiaram a casa. Eu me escondi no telhado. Desde então, os acólitos voltam todos os dias. Vêm em pequenos grupos, caçando Winnifred e suas amigas.
— E você os matou? — perguntou Emma.
Melina olhou para baixo.
— Foi o que eu disse, não foi?
Ela era orgulhosa demais para admitir que mentira. Não importava.
— Então nós não somos os únicos à procura da srta. Wren — comentou Emma.
— Isso significa que ela ainda está livre — retruquei.
— Talvez — concordou Emma. — Talvez.
— A gente acha que a pomba pode nos ajudar — expliquei. — Precisamos encontrar a srta. Wren, e temos a impressão de que as aves sabem como.
— Nunca ouvi falar em uma srta. Wren — respondeu Melina. — Eu só alimento a Winnie, quando ela aparece no quintal. Nós duas somos amigas. Não somos, Winnie?
A ave arrulhou alto em seu ombro.
Emma se aproximou de Melina e se dirigiu à pomba.
— Você conhece a srta. Wren? — indagou, falando alto. — Pode nos ajudar a encontrá-la? Srta. Wren?
A pomba levantou voo do ombro de Melina e atravessou o sótão até a porta. Ela arrulhava e agitava as asas, depois voava de volta.
Por aqui, parecia dizer.
Para mim, era prova suficiente.
— Precisamos levar a ave com a gente — declarei.
— Não sem mim — retrucou Melina. — Se Winnie sabe como achar essa ymbryne, então eu também vou.
— Não é uma boa ideia — disse Horace. — Estamos em uma missão perigosa, sabe...
Emma o interrompeu:
— Nos dê a ave. Voltaremos para buscar você. Eu prometo.
Uma pontada repentina de dor me fez gemer e me dobrar ao meio.
Emma correu para o meu lado.
— Jacob! Você está bem?
Eu não conseguia falar. Cambaleei até a janela, me obriguei a ficar de pé e projetei a Sensação na direção da cúpula da catedral, visível acima dos telhados, a apenas algumas quadras de distância. Depois a voltei para a rua, onde carroças puxadas a cavalo passavam chacoalhando.
Sim. Ali. Eu podia senti-los se aproximando por uma rua secundária não muito distante.
Senti-los. Não era só um etéreo, eram dois.
— Precisamos ir — declarei. — Agora.
— Por favor — implorou Horace à garota. — Nós precisamos dessa pomba!
Melina estalou os dedos e a cômoda que quase me matara se ergueu do chão outra vez.
— Não posso permitir isso — respondeu, indicando a cômoda com o olhar, só para ter certeza de que estávamos entendendo. — Se me levarem com vocês, Winnie vai junto. Se não...
A cômoda fez uma pirueta sobre uma perna de madeira, depois tombou para um lado e se espatifou.
— Está bem — concordou Emma, falando entre dentes. — Mas se você nos atrasar, vamos ficar com a ave e deixar você para trás.
Melina sorriu, e, com um gesto de sua mão, a porta se abriu.
— Como quiser.

* * *

Descemos as escadas correndo, tão rápido que nossos pés mal pareciam tocar o chão. Em vinte segundos, estávamos outra vez no quintal, saltando o cadáver do sr. Carcoma e mergulhando no poço seco. Desci primeiro e chutei a porta espelhada no fundo, em vez de perder tempo deslizando-a para o lado.
Arranquei-a das dobradiças e ela de se desfez em pedaços.
— Cuidado aí embaixo! — avisei, então escorreguei nos degraus de pedra molhados. Caí, completamente desequilibrado, tropeçando no escuro.
Um par de braços fortes me segurou. Era Bronwyn, que pôs meus pés no chão. Eu agradeci, sentindo o coração acelerado.
— O que aconteceu lá em cima? — perguntou ela. — Vocês pegaram a pomba?
— Pegamos — respondi, enquanto Emma e Horace chegavam ao fundo.
Nossos amigos vibraram.
— Esta é Melina — apresentei, apontando para a menina, e esse foi todo o tempo que tivemos para apresentações.
Ela ainda estava no alto da escada, mexendo com alguma coisa.
— Vamos logo! — gritei. — O que você está fazendo?
— Ganhando tempo! — gritou ela em resposta, então puxou, fechou e trancou uma tampa de madeira, que cobriu o poço, obscurecendo os últimos raios de luz.
Enquanto ela descia a escada na escuridão, expliquei sobre os etéreos que estavam atrás da gente. Em meu estado de pânico, a mensagem saiu como: “VAMOS AGORA! CORRAM! ETÉREOS! AGORA!” O que foi eficiente, apesar de não muito bem-articulado, e deixou todo mundo histérico.
— Como vamos correr sem enxergar?! — gritou Enoch. — Acenda uma chama, Emma.
Ela estava evitando fazer isso por causa do alerta que eu dera lá no sótão.
Aquele momento parecia uma boa hora para reforçar o que eu tinha descoberto, então segurei o braço dela.
— Não! Eles vão conseguir nos localizar com muito mais facilidade!
Nossa melhor chance, pensei, era despistá-los naquele labirinto de túneis cheios de desvios e bifurcações.
— Mas não podemos correr às cegas! — retrucou Emma.
— É claro... — começou o ecolocalizador mais novo.
— ... que podemos — completou o mais velho.
Melina cambaleou na direção das vozes.
— Meninos! Vocês estão vivos! Sou eu... Melina!
Joel-e-Peter responderam:
— Achamos que vocês tivessem...
— ... morrido.
— Todo mundo dê as mãos! — mandou Melina. — Deixem que os garotos mostrem o caminho!
Então segurei a mão de Melina no escuro e Emma segurou a minha, depois procurou a de Bronwyn e por aí foi, até formarmos uma corrente humana com os irmãos cegos à frente. Em seguida, Emma deu a ordem, e os meninos partiram em uma corrida leve, mergulhando-nos na escuridão.
Viramos para a esquerda. Chapinhamos em poças de água parada. Então, do túnel às nossas costas, ouvimos o eco de um estrondo que só poderia significar uma coisa: os etéreos tinham arrebentado a tampa do poço.
— Eles entraram! — gritei.
Eu quase podia senti-los estreitando os corpos, descendo pelo poço em movimentos sinuosos. Quando chegassem ao nível do solo e pudessem correr, nos alcançariam muito depressa. Só tínhamos passado por uma bifurcação dos túneis, não era o bastante para despistá-los. Nem de longe.
Foi por isso que o que Millard disse em seguida me chocou: parecia loucura.
— Parem! Parem!
Os meninos cegos deram ouvidos. Nós nos amontoamos atrás deles, tropeçando e escorregando até pararmos.
— Qual é o seu problema?! — gritei. — Corra!
— Sinto muito — disse Millard. — É que acabei de me lembrar de uma coisa. Um de nós precisa passar pela saída da fenda antes dos ecolocalizadores ou da garota, senão eles vão parar no presente, enquanto nós acabaremos em 1940, e aí vamos nos separar. Para que eles consigam viajar para 1940 conosco, um de nós precisa ir primeiro para abrir caminho.
— Vocês não vieram do presente? — indagou Melina, confusa.
— De 1940, como ele disse — respondeu Emma. — Lá está chovendo bombas. Talvez vocês queiram ficar por aqui.
— Boa tentativa — retrucou Melina. — Mas vocês não vão se livrar de mim assim tão fácil. Deve ser pior no presente, com acólitos por toda parte! É por isso que eu nunca saí da fenda temporal da srta. Thrush.
Emma deu um passo à frente e me puxou.
— Está bem, nós vamos primeiro!
Estendi o braço livre, tateando cegamente a escuridão.
— Não consigo ver nada!
O ecolocalizador mais velho disse:
— São apenas vinte passos adiante, vocês...
— ... não têm como errar — completou o mais novo.
Caminhamos lentamente, agitando as mãos à nossa frente. Chutei algo e tropecei. Meu ombro esquerdo raspou na parede.
— Ande reto! — ralhou Emma, me puxando para a direita.
Meu estômago se revirou. Eu senti: os etéreos tinham descido o poço. Naquele momento, mesmo que não conseguissem nos sentir, havia cinquenta por cento de chance de escolherem o túnel certo e nos encontrarem mesmo assim.
A hora de se esconder havia passado. Precisávamos correr.
— Que se dane — falei. — Emma, acenda uma luz!
— Com prazer! — Ela soltou minha mão e produziu uma chama tão grande que senti uma mecha de cabelo do lado direito da minha cabeça chamuscar.
Vi o ponto de transição na mesma hora. Estava bem à frente, marcado por uma linha vertical pintada na parede do túnel. Saímos juntos, correndo em sua direção.
No momento em que passamos por ele, senti uma pressão nos ouvidos.
Estávamos de volta a 1940.
Saímos correndo pelas catacumbas. O fogo de Emma projetava sombras alucinadas nas paredes. Os meninos cegos estalavam as línguas bem alto e gritavam “esquerda” ou “direita” quando chegávamos a uma bifurcação. Passamos pela pilha de caixões e pelo amontoado de ossos. Finalmente, chegamos ao beco sem saída onde ficava a escada que levava à cripta. Empurrei Horace para cima, à minha frente, depois Enoch, então Olive tirou os sapatos e subiu flutuando.
— Estamos demorando demais! — gritei.
Eu podia senti-los se aproximando pelo fim da passagem. Podia sentir suas línguas pisando o chão de pedra, impulsionando-os para a frente. Podia visualizar as mandíbulas começando a gotejar baba negra, ansiosos por uma matança.
Então os vi. Um borrão de movimento escuro ao longe.
Vão! — gritei.
Então pulei na escada, o último a subir. Quando estava quase chegando ao topo, Bronwyn estendeu o braço e me puxou pelos últimos degraus, então cheguei à cripta junto com os outros.
Com um grunhido alto, Bronwyn pegou a tampa de pedra que tampava o túmulo de Christopher Wren e a colocou de volta no lugar. Menos de dois segundos depois, algo bateu violentamente contra o lado de baixo, fazendo a pedra pesada dar um salto. A tampa não seguraria os etéreos por muito tempo — não dois deles.
Eles estavam muito perto. Alarmes soavam dentro de mim e meu estômago doía como se eu tivesse tomado ácido. Subimos correndo a escada em caracol e chegamos à nave. A catedral estava às escuras. A única iluminação era um brilho laranja estranho que entrava pelas janelas sujas. Por um momento pensei que fossem os últimos raios de sol, mas então, conforme corríamos na direção da saída mais próxima, tive um vislumbre do céu pelo telhado destruído.
Anoitecera. As bombas ainda caíam, produzindo estrondos abafados como batidas irregulares de um coração.
Corremos para a rua.

2 comentários:

  1. amo essa coleção... maravilhosa.

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  2. Meu Deus.... eu ainda vou ter um ataque cardíaco lendo esses livros 😱

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Boa leitura :)