5 de abril de 2017

Capítulo nove

Ele podia ver os monstros. No momento em que ela disse isso, todos os horrores que eu acreditava ter deixado para trás voltaram numa enxurrada. Eles eram reais. Eram reais e tinham matado meu avô.
— Eu também posso vê-los — disse a ela, sussurrando como se fosse um segredo vergonhoso.
Seus olhos se encheram de lágrimas, e ela me abraçou.
— Sabia que havia algo peculiar em você — disse ela. — E digo isso como o maior dos cumprimentos.
Sempre soube que eu era estranho. Nunca sonhei que fosse peculiar. Mas isso explicava por que Ricky não tinha visto nada na mata na noite em que meu avô foi morto. Não, eu não era louco nem tinha alucinações, nem tive uma reação ao estresse; a sensação de pânico no estômago sempre que eles estavam por perto — isso, e ver sua aparência aterradora —, eis o meu dom.
— E você não consegue vê-los de jeito nenhum? — perguntei a ela.
— Só suas sombras, e é por isso que eles caçam principalmente à noite.
— O que os impede de vir aqui e matar todos vocês agora mesmo? — perguntei, e em seguida me corrigi. — Quero dizer, todos nós.
Isso fez com que ela desse um sorriso, mas depois ficou séria.
— Eles não sabem onde nos encontrar — respondeu. — Tem também o fato de eles não poderem entrar nas fendas. Por isso estamos seguros na ilha, mas não podemos sair.
— Mas Victor saiu.
Ela assentiu com tristeza.
— Ele disse que estava enlouquecendo aqui. Disse que não aguentava mais. Coitada da Bronwyn. Meu Abe também partiu, mas pelo menos ele não foi assassinado por etéreos.
Fiz força para olhar para ela.
— Eu sinto muito por ter de lhe contar isso — disse eu.
— O quê? Ah, não...
— Eles me convenceram de que eram animais selvagens. Mas, se o que você está dizendo é verdade, meu avô também foi morto por eles. A primeira e única vez em que vi um desses monstros foi na noite em que ele morreu.
Ela abraçou os joelhos e fechou os olhos, e um minuto se passou até recuperar a fala. Eu a envolvi com o braço, e ela inclinou a cabeça e a apoiou na minha.
— Eu sabia que um dia eles iam pegá-lo — murmurou. — Ele me garantiu que estaria em segurança nos Estados Unidos. Que podia se proteger. Mas nós nunca estamos seguros, nenhum de nós, não de verdade.
Ficamos conversando ali, sentados no casco do navio naufragado, até a lua ficar baixa no céu, a água alcançar nosso pescoço e Emma começar a tremer.
Então demos as mãos e andamos pela água de volta até a canoa. Enquanto remávamos para a praia, ouvimos vozes que chamavam nosso nome. Vimos Hugh e Fiona parados na areia, acenando para nós. Mesmo a distância, estava claro que havia algo errado.
Amarramos a canoa e corremos para encontrá-los. Hugh estava ofegante, e as abelhas voavam ao seu redor em estado de agitação.
— Aconteceu uma coisa! — disse ele. — Vocês precisam voltar conosco!
Não havia tempo para discussões. Emma vestiu as roupas por cima do traje de banho e eu entrei em minha calça, toda cheia de areia. Hugh me olhou desconfiado.
— Ele não. Isso é sério.
— Não, Hugh — disse Emma, entrelaçando seu braço no meu. — A Ave tinha razão, ele é um de nós.
Ele a encarou boquiaberto, depois a mim.
— Você contou a ele?
— Tive de contar. De qualquer modo, ele praticamente descobriu tudo sozinho.
Hugh pareceu surpreso por um instante, mas logo se virou e me deu um aperto de mão decidido.
— Então, bem-vindo à família — disse.
Eu não sabia o que dizer, por isso respondi apenas:
— Obrigado.
A caminho da casa, juntamos pedaços de histórias sem muitos detalhes do que tinha acontecido contadas por Hugh, mas na maior parte do tempo apenas corremos. Quando paramos na floresta para tomar fôlego, ele nos informou:
— É uma das amigas ymbryne da Ave. Ela saiu voando há uma hora num estado lastimável, berrando loucamente e tirando todo mundo da cama, mas, antes que conseguíssemos entender qual era o problema, ela desmaiou e apagou completamente. — Ele apertava as mãos, o que lhe dava um ar de total desespero e impotência. — Ah, simplesmente sei que algo horrível aconteceu.
— Espero que você esteja errado — disse Emma, e voltamos a correr.

* * *

Dentro da casa, no vestíbulo adjacente à porta fechada da sala de estar, as crianças, vestindo pijamas amarrotados, estavam agitadas ao redor de um lampião a querosene e trocavam rumores sobre o que podia ter acontecido.
— Talvez tenham se esquecido de reiniciar a fenda — disse Claire.
— Aposto que foram os etéreos — disse Enoch. — Aposto que comeram um monte deles até as botas!
Claire e Olive choravam e escondiam o rosto com as mãozinhas. Horace se ajoelhou ao lado delas e disse com uma voz reconfortante:
— Calma, calma, não deixem que Enoch encha a cabeça de vocês com bobagens. Todos sabem que os etéreos preferem os mais jovens. É por isso que soltaram a amiga da senhorita Peregrine: ela tem gosto de pó de café velho!
Olive deu uma espiada pela fresta entre seus dedos.
— Qual é o gosto dos mais novos?
— Framboesa silvestre — disse ele muito sério, e as garotas começaram a chorar de novo.
— Deixe-as em paz! — berrou Hugh, e um enxame de suas abelhas expulsou Horace dali aos gritos.
— O que está acontecendo aí fora? — ralhou a senhorita Peregrine da sala de estar. — É a voz do senhor Apiston que estou ouvindo? Onde estão a senhorita Bloom e o senhor Portman?
Emma ficou tensa de medo e lançou um olhar nervoso para Hugh.
— Ela sabe?
— Quando descobriu que vocês não estavam aqui, ela surtou, achou que tinham sido raptados por acólitos ou alguma outra emergência. Desculpe, Emma, eu tive de contar a ela.
Emma sacudiu a cabeça, mas não havia nada que pudéssemos fazer além de entrar lá e enfrentar o que nos esperava. Fiona nos deu um leve aceno, como se para nos desejar sorte, e nós abrimos a porta.
Dentro da sala de estar, a única luz vinha da lareira que projetava nossas sombras trêmulas contra a parede. Enoch e Bronwyn caminhavam ansiosamente em torno de uma senhora de idade que se balançava semiconsciente em uma cadeira, enrolada num cobertor como uma múmia. A srta. Peregrine estava sentada em uma otomana, alimentando-a com colheradas cheias de um líquido escuro.
Emma congelou ao ver o rosto da mulher.
— Oh, meu Deus — sussurrou ela. — É a senhorita Avocet.
Só então eu a reconheci, apesar de não totalmente, da foto que a srta. Peregrine me mostrara dela quando moça. A srta. Avocet aparentava ser tão forte e segura no retrato, mas agora parecia fraca e frágil. Tinha envelhecido terrivelmente.
Enquanto observávamos ali parados, a srta. Peregrine levou um frasco de prata aos lábios da srta. Avocet e o virou, e por um instante a velha ymbryne pareceu reviver, sentando-se ereta, os olhos brilhantes, mas logo depois sua expressão ficou embotada outra vez e ela afundou de novo na poltrona.
— Senhorita Bruntley — disse a srta. Peregrine para Bronwyn —, vá e arrume a chaise longue para a senhorita Avocet, e depois vá buscar uma garrafa de vinho de coca e outra de conhaque.
Bronwyn saiu às pressas, cumprimentando-nos solenemente com um aceno de cabeça ao passar, e a srta. Peregrine se voltou para nós.
— Estou extremamente decepcionada com você, senhorita Bloom. Extremamente — disse ela sem levantar a voz. — E, entre tantas noites, deu sua escapada logo nesta.
— Sinto muito, senhorita Peregrine, mas como eu podia saber que algo ia acontecer?
— Eu devia castigá-la, mas, dadas as circunstâncias, o esforço não parece valer a pena. — Ela ergueu a mão e ajeitou o cabelo branco de sua mentora. — A senhorita Avocet nunca teria deixado seus pupilos para vir até aqui a menos que algo grave tivesse acontecido.
O fogo crepitante fez gotas de suor irromperem em minha testa, mas, em sua poltrona, a srta. Avocet tremia. Será que ela ia morrer? Será que a cena trágica que se desenrolou entre mim e meu avô ia se repetir entre a srta. Peregrine e sua professora? Eu a visualizei: eu com o corpo de meu avô nos braços, apavorado e confuso, sem suspeitar da verdade sobre ele, ou sobre mim.
Essa situação, pensei, nada tinha a ver com o que se passara comigo. A srta. Peregrine sempre soubera quem eu era.
Esse não parecia o momento certo para tocar no assunto, mas eu estava com raiva e não consegui me conter.
— Senhorita Peregrine? — disse eu, e ela olhou para mim. — Quando ia me contar?
Ela estava prestes a perguntar o quê, mas seu olhar se moveu até Emma, no rosto de quem ela pareceu ler a resposta.
— Logo, meu jovem — respondeu ela. — Mas, por favor, entenda, jogar toda a verdade sobre você na primeira vez em que nos encontramos teria sido um choque terrível. Seu comportamento era imprevisível. Poderia ter ido embora, para nunca mais voltar, um risco que eu não podia correr.
— Então, em vez disso, tentou me seduzir com comida e garotas enquanto mantinha em segredo todas as coisas ruins?
Emma quase perdeu o fôlego.
— Seduzir? Por favor, não pense isso de mim, Jacob, eu não poderia suportar.
— Temo que você tenha nos interpretado muito mal — disse a srta. Peregrine. — E, quanto a seduzi-lo, o que viu aqui é como vivemos. Não houve nenhuma mentira, apenas a omissão de alguns detalhes-chave.
— Bem, aqui está um detalhe-chave para vocês — disse eu. — Uma dessas criaturas matou meu avô.
A srta. Peregrine empalideceu por um instante, mas pareceu se recuperar.
— Sinto muito por isso — disse ela.
— Eu vi uma delas com meus próprios olhos, mas, quando contei às pessoas, elas tentaram me convencer de que eu estava louco. Mas eu não estava, nem meu avô. Durante toda a vida ele me contou a verdade, e eu não acreditei nele. — Sentia-me envergonhado. — Se tivesse acreditado, talvez ele ainda estivesse vivo.
A srta. Peregrine percebeu que meus pés hesitavam e que eu estava atordoado, e pediu que me sentasse. Eu me joguei na poltrona em frente à da srta. Avocet.
Emma se agachou ao meu lado.
— Ele devia saber que você era peculiar — disse ela — e devia ter uma boa razão para não contar isso a você.
— Ele sabia, sim — disse a srta. Peregrine. — Ele contou isso em uma carta.
— Não entendo — disse eu. — Se era tudo verdade, todas as histórias dele, e se ele sabia que eu era como ele, por que guardar segredo até o último minuto de sua vida?
A srta. Peregrine deu mais uma colherada de conhaque na boca da srta. Avocet, que gemeu e se ergueu um pouco, antes de se afundar outra vez na poltrona.
— Só posso imaginar que ele quisesse protegê-lo — disse a srta. Peregrine, agora com voz mais tranquila. — Nossas vidas podem ser cheias de provações e privações. A vida de Abe duas vezes mais, porque ele nasceu judeu na pior época possível. Ele encarou um genocídio duplo, dos judeus pelos nazistas e dos peculiares pelos etéreos. Ele vivia atormentado pela ideia de que estava aqui escondido enquanto seu povo, tanto judeus quanto peculiares, estava sendo massacrado.
— Ele costumava contar que tinha ido para a guerra para lutar contra monstros — disse eu.
— E foi mesmo — disse Emma. — Dos dois tipos.
— A guerra acabou com o domínio nazista, mas os etéreos saíram dela mais fortes que nunca — prosseguiu a srta. Peregrine. — Por isso, como muitos peculiares, nós nos mantivemos escondidos. Mas seu avô voltou um homem mudado. Tinha se transformado em um guerreiro e estava determinado a construir para si uma vida fora da fenda. Ele se recusou a se esconder.
— Implorei que ele não fosse para os Estados Unidos — disse Emma. — Todos imploramos.
— Por que os Estados Unidos? — perguntei a eles.
— Havia poucos etéreos por lá naquela época — respondeu a srta. Peregrine. — Depois da guerra houve um pequeno êxodo de peculiares para os Estados Unidos. Durante algum tempo, alguns conseguiram passar por pessoas comuns, como fez seu avô. Seu maior desejo era ser comum, viver uma vida comum. Ele sempre dizia isso em suas cartas. Tenho certeza de que foi por isso que escondeu a verdade de você por tanto tempo: ele queria que você tivesse o que ele nunca poderia ter.
— Ser comum — disse eu.
A srta. Peregrine assentiu.
— Mas ele nunca pôde escapar de sua peculiaridade. Sua habilidade única, aliada ao talento desenvolvido na guerra como caçador de etéreos, tornou-o muito valioso. Ele era sempre forçado a agir; sempre lhe pediam para erradicar bolsões problemáticos de etéreos. Ele tinha uma natureza tal que raramente se recusava.
Pensei sobre as longas viagens de caça que o vovô Portman costumava fazer. Minha família tinha uma foto dele durante uma delas, apesar de eu não saber quem tinha feito a foto, nem quando, já que ele quase sempre ia sozinho, mas sempre achei aquilo a coisa mais engraçada, porque na foto ele vestia um terno. Quem usa terno numa viagem de caça?
Agora eu tinha minha resposta: alguém que está à caça de mais do que apenas animais.
Fiquei comovido com essa nova imagem de meu avô, não um maníaco por armas e paranoico, nem um adúltero mentiroso, tampouco um homem que nunca estava presente para sua família, mas um cavaleiro andante que arriscava a vida pelos outros, vivendo em carros e hotéis baratos, na perseguição de sombras mortais, e que voltava para casa com algumas dúzias de balas a menos e ferimentos que nunca explicou direito, além de pesadelos sobre os quais não podia falar. E, por esses muitos sacrifícios, tudo o que recebia era desprezo e desconfiança daqueles que amava. Acho que por isso ele escreveu tantas cartas para Emma e a srta. Peregrine. Elas compreendiam.
Bronwyn voltou com um decantador de vinho de coca e outra garrafa de conhaque, e a srta. Peregrine misturou os dois em uma xícara. Então dispensou Bronwyn e, depois que ela saiu, começou a dar tapinhas carinhosos no rosto cheio de veias azuis da srta. Avocet.
— Esmerelda — disse ela. — Esmerelda, você precisa se levantar e beber este tônico que preparei.
A srta. Avocet soltou um gemido. A srta. Peregrine ergueu a xícara até seus lábios. A senhora de idade tomou alguns goles e então cuspiu e tossiu, mas a maior parte do líquido arroxeado desapareceu em sua garganta. Por um momento, ficou encarando o nada com olhar vazio, como se estivesse prestes a afundar de volta em seu estupor, mas depois se aprumou na poltrona, a vida voltando a seu rosto.
— Nossa — disse a srta. Avocet, e sua voz era como um arranhão seco. — Eu dormi? Que falta de educação a minha. — Ela olhou para cada um de nós com leve surpresa, como se tivéssemos acabado de surgir do nada. — Alma? É você?
A srta. Peregrine segurou e massageou as mãos ossudas daquela senhora.
— Esmerelda, você veio de muito longe para nos ver no meio da noite. Você deixou a todos nós nervosos e preocupados.
— Deixei? — disse apertando os olhos e franzindo o cenho, e seus olhos pareceram se fixar na parede em frente, viva com sombras tremeluzentes. Então uma expressão de medo tomou seu rosto. — É — disse —, eu vim avisá-la, Alma. Vocês devem ficar em alerta. Não podem se deixar tomar de surpresa, como eu fiz.
A srta. Peregrine parou a massagem.
— Tomar de surpresa pelo quê? — disse ela.
— Só podiam ser acólitos. Dois deles chegaram à noite, disfarçados de membros do conselho. Não há homens no conselho, é claro, mas aquilo enganou meus vigias sonolentos por tempo bastante para que os acólitos os amarrassem e levassem.
A srta. Peregrine perdeu o fôlego.
— Oh, Esmerelda!
— A senhorita Bunting e eu fomos acordadas por seus gritos de pavor — prosseguiu. — Mas estávamos todos presos dentro de casa. Levou algum tempo para forçar as portas e, quando conseguimos, seguimos o fedor dos acólitos até o exterior da fenda, onde havia um bando de bestas-sombras à nossa espera do outro lado. Elas caíram sobre nós, uivando, cobertas de sangue...
Ela parou, esforçando-se para segurar as lágrimas.


— E as crianças?
A srta. Avocet sacudiu a cabeça. Toda a luz pareceu fugir de seus olhos.
— As crianças serviram apenas de isca — disse ela.
Emma deslizou a mão até a minha e a apertou, e vi o rosto da srta. Peregrine reluzindo à luz da lareira.
— Eles queriam mesmo era a mim e à senhorita Bunting. Eu consegui fugir, mas a senhorita Bunting não teve a mesma sorte.
— Ela foi morta?
— Não... raptada. Do mesmo modo como a senhorita Cambaxirra e a senhorita Treecreeper há duas semanas, quando suas fendas de tempo foram invadidas. Eles estão capturando as ymbrynes, Alma. É algum tipo de esforço coordenado. Eu estremeço só de imaginar o propósito disso.
— Então eles vêm atrás de nós também — disse em voz baixa a srta. Peregrine.
— Se puderem encontrá-la — retrucou a srta. Avocet. — Seu esconderijo é melhor do que o da maioria, mas você deve estar preparada, Alma.
A srta. Peregrine assentiu. A srta. Avocet lançou um olhar desconsolado para as próprias mãos. Elas tremiam em seu colo, e a voz saiu com dificuldade.
— Ah, minhas crianças queridas. Elas agora estão todas sozinhas — disse ela, chorando e virando o rosto para escondê-lo de nós.
A srta. Peregrine puxou o cobertor até o pescoço daquela mulher de idade avançada e se levantou. Saímos atrás dela e deixamos a srta. Avocet com sua tristeza.

* * *

Quando saímos, vimos todas as crianças encolhidas em torno da porta da sala de estar. Mesmo que não tivessem ouvido tudo o que fora dito pela srta. Avocet, tinham entendido o mais importante, o que ficara evidente pela expressão em seus rostos pálidos e cansados.
— Coitada da senhorita Avocet! — choramingou Claire, os lábios trêmulos.
— Coitadas das crianças da senhorita Avocet! — disse Olive.
— Elas vêm ficar com a gente agora, senhorita Peregrine? — perguntou Horace.
— Vamos precisar de armas! — gritou Millard.
— Machados de guerra! — disse Enoch.
— Bombas! — disse Hugh.
— Parem com isso! — gritou a srta. Peregrine, levantando a mão para pedir silêncio. — Todos devemos permanecer calmos. Sim, o que aconteceu com a senhorita Avocet foi trágico, extremamente trágico, mas foi uma tragédia que não vai necessariamente se repetir aqui. Entretanto, temos de ficar em alerta. A partir de agora, vocês só podem sair da casa com meu consentimento, e sempre em dupla. Se notarem alguém desconhecido, mesmo que pareça peculiar, venham me informar imediatamente. Vamos discutir estas e outras medidas preventivas de manhã. Até lá, vão todos para a cama! Isso não é hora para uma reunião.
— Mas senhorita Pe... — tentou Enoch.
— Para a cama!
As crianças foram correndo para seus quartos.
— E em relação ao senhor, senhor Portman, não gosto muito da ideia de você voltar sozinho. Acho que talvez seja melhor ficar, pelo menos até as coisas se acalmarem um pouco.
— Não posso simplesmente desaparecer assim. Meu pai ia surtar.
— É claro — disse ela. — Nesse caso, insisto que pelo menos passe a noite aqui.
— Eu fico — falei —, se a senhora me contar tudo o que sabe sobre as criaturas que mataram meu avô.
Ela inclinou a cabeça e ficou me observando, com a expressão de quem quase achava graça.
— Está bem, senhor Portman, não vou desprezar essa sua necessidade de saber. Instale-se no divã para dormir e discutimos isso assim que acordarmos.
— Não — retruquei. Ela me lançou um olhar severo, mas eu tinha esperado dez anos para saber a verdade e não podia esperar mais nem um minuto. — Tem de ser agora.
— Às vezes, meu jovem, você anda numa linha muito tênue entre ser um rapaz interessante de personalidade forte e um cabeça-dura terrível. — Ela se virou para Emma. — Senhorita Bloom, poderia buscar minha garrafa de vinho de coca? Parece que não vou dormir esta noite, então terei de me permitir isso, já que tenho de me manter acordada.

* * *

A biblioteca era perto demais do quarto das crianças para uma conversa na madrugada, então eu e a srta. Peregrine fomos para uma estufa que ficava no limiar da floresta. Sentamos sobre vasos virados de cabeça para baixo em meio a rosas em crescimento, com um lampião a querosene entre nós, antes de o amanhecer romper através das paredes de vidro. A srta. Peregrine pegou um cachimbo do bolso e se inclinou para acendê-lo na chama do lampião. Deu algumas baforadas pensativas, soltando espirais de fumaça azul, e depois começou:
— Em épocas remotas, as pessoas nos tomavam por deuses — começou ela —, mas nós, peculiares, não somos menos mortais que as pessoas comuns. As fendas de tempo apenas retardam o inevitável, e o preço que pagamos por usá-las é considerável: um divórcio irrevogável do presente real. Como você sabe, pessoas que passam muitos anos dentro das fendas podem ficar pouquíssimo tempo no presente, senão murcham e morrem. Essa tem sido a ordem das coisas desde eras imemoriais.
Deu outra baforada e continuou.
— Há alguns anos, por volta da virada do último século, surgiu uma facção dissidente entre nosso povo, um grupo de peculiares descontentes e com ideias perigosas. Eles acreditavam ter descoberto um método pelo qual a função das fendas de tempo podia ser corrompida para conferir ao usuário uma espécie de imortalidade, não apenas a suspensão do envelhecimento, mas sua reversão. Eles falavam de juventude eterna, que seria desfrutada fora dos limites das fendas, de viajar de um lado para o outro entre o presente e o passado impunemente, sem sofrer qualquer efeito colateral, que sempre impediu tamanha irresponsabilidade. Em outras palavras: dominar o tempo sem ser dominado pela morte. Toda a ideia era loucura, um completo absurdo, uma refutação das leis empíricas que tudo governam!
Ela fez uma pausa para se recompor.
— De qualquer modo, meus dois irmãos, tecnicamente brilhantes, mas um pouco sem juízo, foram arrebatados por essa ideia. Tiveram até a coragem de me pedir que os ajudasse a torná-la realidade. “Vocês estão falando em se transformarem em deuses”, eu disse. “Isso não pode ser feito. E, mesmo que pudesse, não deveria ser feito.” Mas nada conseguiria detê-los. Criados entre as ymbrynes em treinamento da senhorita Avocet, eles sabiam um pouco mais sobre nossa arte única do que a maioria dos machos peculiares, mas o suficiente, eu temia, para serem perigosos. Apesar dos avisos e até das ameaças do conselho, no verão de 1908 meus irmãos e centenas de outros membros dessa facção renegada, entre eles muitas ymbrynes poderosas, todos traidores, viajaram para a tundra siberiana para levar a cabo seu experimento odioso. Escolheram uma velha fenda sem nome, que estava havia séculos sem uso. Esperávamos que eles voltassem em menos de uma semana, com o rabo entre as pernas, humilhados pela condição imutável da natureza. Em vez disso, o resultado foi muito mais dramático: houve uma explosão catastrófica que fez estremecer janelas em lugares tão distantes quanto os Açores. Qualquer pessoa num raio de quinhentos quilômetros deve ter pensado que era o fim do mundo. Achamos que todos tinham morrido e que aquele estrondo obsceno, de dimensão planetária, tinha sido seu último discurso coletivo.
— Mas eles sobreviveram — arrisquei.
— De certa forma. Outros podem chamar o estado que eles assumiram em seguida de uma espécie de maldição vivente. Semanas depois começou uma série de ataques a peculiares efetuados por criaturas horrorosas que, exceto por suas sombras, não podiam ser vistas, a não ser por peculiares como você. Foram nossos primeiros conflitos contra os etéreos. Demorou um tempo até percebermos que aquelas abominações com tentáculos na boca eram, na verdade, nossos irmãos rebeldes, que tinham escapado se arrastando da cratera fumegante deixada por seu experimento. Em vez de se tornarem deuses, eles se transformaram em demônios.
— O que deu errado?
— Isso ainda é tema de discussões. Uma teoria é que eles reverteram seu processo de envelhecimento até uma época anterior à própria concepção de suas almas, e por isso eles chamam a si mesmo de etéreos, porque seus corações, suas almas, são vazios. Numa ironia cruel, eles alcançaram a imortalidade que buscavam, no fim das contas: acredita-se que os etéreos podem viver milhares de anos, mas é uma vida de tormentos físicos constantes e fome insaciável pela carne de seus antigos semelhantes, porque nosso sangue é sua única esperança de salvação. Se um etéreo devora um número suficiente de peculiares, ele se torna um acólito.
— Essa palavra de novo. Quando nos conhecemos, Emma me acusou de ser um deles.
— Talvez eu suspeitasse da mesma coisa, se não o tivesse observado antes.
— O que são eles?
— Se ser um etéreo é viver um inferno, e quase certamente é mesmo, ser um acólito seria o correspondente a viver num purgatório. Acólitos são quase comuns. Eles não têm habilidades peculiares, mas, como podem passar por humanos, vivem para servir a seus irmãos etéreos, atuando como batedores, espiões e caçadores de carne. É uma hierarquia de malditos que almeja um dia transformar todos os etéreos em acólitos e todos os peculiares em cadáveres.
— Mas o que os impede de fazer isso? Se eles eram peculiares, eles não conhecem todos os seus esconderijos?
— Eles não parecem guardar nenhuma memória de sua vida passada. E, apesar de os acólitos não serem tão fortes nem terem aparência tão assustadora, eles costumam ser igualmente perigosos. Diferentemente dos etéreos, eles agem mais por instinto e costumam ser capazes de se misturar à população em geral. Pode ser difícil identificá-los entre pessoas comuns, apesar de haver alguns indicadores. Os olhos, por exemplo... Curiosamente, os acólitos não têm pupilas.
Fiquei arrepiado ao lembrar do vizinho de olhos brancos que vi regando a grama alta do jardim, na noite em que meu avô foi morto.
— Eu vi um deles. Tenho quase certeza. Mas pensei que fosse um velho cego — disse eu.
A srta. Peregrine assentiu e tomou um gole de sua garrafinha.
— Os acólitos são adeptos de andar por aí sem ser percebidos. Costumam adotar identidades invisíveis para a sociedade: o homem de terno cinza no metrô; o indigente que mendiga moedas; apenas rostos na multidão, apesar de alguns terem sido conhecidos por se arriscarem à exposição ao se colocar em posições de maior destaque, como médicos, políticos, clérigos, e assim interagir com um número maior de pessoas, ou ter algum poder, para conseguir descobrir com mais facilidade peculiares que possam estar escondidos entre as pessoas comuns, como Abe estava.
A srta. Peregrine pegou um álbum de fotos que trouxera da casa. Enquanto o folheava, ela disse:
— Essas fotos foram reproduzidas e distribuídas a peculiares por toda parte, como cartazes de pessoas procuradas. Veja aqui. Este acólito foi descoberto trabalhando em uma loja de departamentos norte-americana no Natal. Ele foi capaz de interagir com muitas crianças em um período excepcionalmente curto. Tocou-as e interrogou-as em busca de sinais de peculiaridade.
Ela apontou a foto de duas meninas montadas sobre uma rena falsa, com um Papai Noel assustador, de olhos vazios, observando por detrás de seus chifres. E virou a página para revelar a foto de um dentista de aparência sádica.
— Este acólito trabalhava como cirurgião-dentista. Não seria surpresa para mim descobrir que o crânio que aparece na foto pertencia a uma de suas vítimas peculiares.
Ela tornou a virar a página, dessa vez até a foto de uma garotinha toda encolhida diante de uma sombra enorme que se projetava em sua direção.
— Esta é Marcie — disse a srta. Peregrine. — Ela nos deixou há trinta anos para viver com uma família comum no campo. Implorei que ficasse, mas ela estava totalmente decidida. Não muito tempo depois, foi levada por um acólito enquanto esperava pelo ônibus escolar. Encontraram no local uma câmera com filme, que, revelado, mostrou essa foto.
— Quem a tirou?
— O próprio acólito. Eles adoram gestos teatrais e invariavelmente deixam para trás alguma provocação de lembrança.
Estudei as fotos enquanto um temor pequeno e familiar se revirava dentro de mim.
Quando não suportei mais olhar para elas, fechei o álbum.
— Estou contando isso tudo a você porque saber é um direito seu de nascença — disse a srta. Peregrine —, mas também porque preciso de sua ajuda. Você é o único entre nós que pode sair da fenda sem levantar suspeitas. Enquanto estiver conosco e insistir em viajar de um lado para o outro, preciso que observe a chegada de qualquer pessoa na ilha e venha aqui me contar.
— Outro dia chegou alguém — disse eu, pensando no ornitólogo que tinha chateado meu pai.
— Você conseguiu ver os olhos dele? — perguntou ela.




— Na verdade, não — respondi. — Ele estava de óculos escuros.
Com o cenho franzido, a srta. Peregrine mastigou de leve a pele que cobria o nó do dedo.
— Por quê? Acha que poderia ser um deles?
— É impossível ter certeza sem ver os olhos — disse ela —, mas a possibilidade de que você tenha sido seguido até a ilha me preocupa muito.
— O que a senhora quer dizer? Por um acólito? — perguntei.
— Talvez o mesmo que você descreveu ter visto na noite da morte de seu avô. Isso explicaria por que eles resolveram poupar sua vida – para que pudesse conduzi-los a um prêmio muito maior: este lugar.
— Mas como eles sabiam que eu era peculiar? Nem eu sabia!
— Se eles sabiam sobre seu avô, pode ter certeza de que sabiam sobre você também.
Eu me lembrei de todas as vezes que os senti perto de mim nas semanas após aqueles acontecimentos, certo de que havia algo me observando por uma janela escura ou do outro lado de uma rua movimentada. Quantas vezes eles tiveram a oportunidade de me matar? A que distância será que fiquei da morte?
Eu me senti fraco e afundei a cabeça entre os joelhos, estupefato.
— Suponho que não me daria um gole daquele vinho — disse.
— Absolutamente não.
De repente senti meu peito se apertar.
— Eu nunca estarei em segurança, não é verdade?
A srta. Peregrine tocou meu ombro.
— Aqui você está em segurança — disse ela. — E pode viver aqui pelo tempo que quiser.
Tentei falar, mas gaguejei.
— Mas eu não... não... não posso... meus pais...
— Eles podem amá-lo — sussurrou ela —, mas nunca vão entender.

* * *

Quando voltei para a cidade, o sol da manhã projetava as primeiras sombras sobre o telhado das casinhas; os homens que tinham virado a noite bebendo paravam para tomar fôlego em bancos a caminho de casa, algo que faziam com dificuldade; os pescadores desciam para a baía com grandes botas pretas; e meu pai começava a se mexer saindo de um sono profundo. Quando ele rolou para fora da cama, eu estava me deitando na minha. Puxei as cobertas sobre minhas roupas sujas de areia apenas segundos antes que ele abrisse a porta do quarto para ver se estava tudo certo.
— Está se sentindo bem?
Soltei um gemido e virei de costas para ele, que foi embora. Acordei só à tarde e encontrei um bilhete simpático e uma caixa de remédios para gripe na mesinha da sala que dividíamos. Então comecei a me preocupar com ele, andando lá fora por pontais rochosos com seus binóculos e um caderninho, bem possivelmente na companhia de um louco matador de ovelhas.
Esfreguei os olhos para espantar o sono, vesti rapidamente uma capa de chuva, dei a volta por trás da cidade e caminhei por penhascos e praias próximos, na esperança de ver meu pai ou o estranho ornitólogo — e observar seus olhos com atenção —, mas não encontrei nenhum dos dois. Estava quase anoitecendo quando finalmente desisti de procurar e voltei para o Buraco do Padre, onde encontrei meu pai no bar, bebendo uma cerveja com os frequentadores de sempre. A julgar pelo número de garrafas vazias em torno dele, fazia tempo que estava ali.
Eu me sentei ao seu lado e perguntei se ele tinha visto o ornitólogo em algum lugar. Ele disse que não.
— Bem, se o vir, me faça o favor de ficar longe dele, está bem?
Meu pai me olhou de um modo estranho.
— Por quê?
— Eu não fui com a cara dele. E se for um maluco? E se foi ele quem matou aquelas ovelhas, e não Verme?
— De onde tirou essas ideias bizarras?
Eu quis contar a ele. Quis explicar tudo, para que ele dissesse que entendia e me oferecesse um pouquinho de conselho paterno. Quis, naquele momento, que tudo voltasse a ser do jeito que era antes que viéssemos para cá; antes que eu tivesse encontrado aquela carta da srta. Peregrine, quando eu era apenas um tipo normal e bagunceiro de menino rico do subúrbio. Em vez disso, sentei perto do meu pai por algum tempo e falei sobre amenidades, e tentei lembrar da minha vida naquela época incomensuravelmente distante que era quatro semanas, ou imaginar como poderia ser daqui a quatro semanas — mas não consegui. Depois de algum tempo, ficamos sem ter sobre o que falar, pedi licença e subi para ficar sozinho.

12 comentários:

  1. Essas fotos me assustam, sério. 😨

    ResponderExcluir
  2. Com certeza ornitólogo é um etério por isso ele estava observando Jacob

    ResponderExcluir
  3. Tem um furo na história, como existia os peculiares que viam os montros, sendo que esses peculiares ñ tem outro talento alem desse(tipo, como sabiam que eles eram peculiates antes do desastre se esse dom nunca foi necessario)? E pq eles tinham esse dom, sendo que os etéreos n existiam antes?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. pq talvez os que possuem este dom ainda nao existiam amtes do desastre q resultaram nos etereos e que ocorreu muito tempo atras...

      Excluir
    2. e como charles Darwin kkk e a teoria da evolucao...habilidades novas para necessidades novas

      Excluir
    3. Talvez pq eles conseguiam entrar em fendas e tais, no filme q fizeram, a srta peregrine fala q so de olhar uma foto do jake (q o abe tinha enviado) ela conseguiu ver q ele era um peculiar, mas sla

      Excluir
    4. Eles deviam ter a habilidade, mas como não existiam etéreos, eles apenas não sabiam que eram peculiares, deviam viver como humanos.

      E russo, esse seria Lamarck, não?

      Excluir
    5. talvez existam outros monstros, além dos que já existem e eles sejam invisíveis, ou, como o russo falou, teoria da evolução, assim como surgiram os etéros(mesmo que isso não fosse natural), podem surgir novas peculiaridades ao longo dos anos

      Excluir
    6. Talvez eles tivessem pensado que sua habilidade era entrar e sair por uma fenda. Como Emma disse, nenhum normal consegue entrar pelas fendas, então só o fato de terem conseguido já afirmava que eram peculiares. Fora que antes de descobrirem que podiam ver etéreos, eles podiam tentar outras habilidades tipo luta ou algo assim...

      Excluir
  4. Acho que essa peculiaridade surgiu depois que os etéreos surgiram, né?

    ResponderExcluir
  5. Eu acho que eles deviam ter outras habilidades menos importantes... tipo, mas depois dos etéreos aí está ficou sendo sua habilidade principal

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)