10 de abril de 2017

Capítulo doze

Eu sou Balenciaga Wren.
Ouvir essas palavras foi como tirar a rolha de uma garrafa de champanhe.
Primeiro veio o alívio — expressões de surpresa e risos. Depois, explodimos de alegria. Emma e eu pulamos e nos abraçamos; Horace caiu de joelhos e jogou os braços para o alto, murmurando “aleluia!”. Olive estava tão animada que flutuou mesmo com os sapatos pesados, gaguejando:
— N-n-nós... achamos que nunca... nunca mais veríamos uma ymbryne!
Era a srta. Wren... finalmente! Alguns dias antes, ela não passava de uma ymbryne desconhecida de uma fenda temporal obscura, mas desde então adquirira um status mítico: pelo que sabíamos, ela era a última ymbryne livre e inteira, um símbolo vivo de esperança, e esperança era algo de que precisávamos desesperadamente. Agora, lá estava a srta. Wren, bem à nossa frente, tão humana e frágil. Eu a reconheci pela foto de Addison, só que não havia qualquer resquício de cor em seu cabelo prateado. Profundas rugas de preocupação marcavam sua testa e pareciam deixar a boca entre parênteses, e os ombros estavam curvados, como se ela não fosse apenas velha, mas também estivesse carregando um fardo monumental. Aquela ymbryne levava nos ombros o peso de todas as nossas esperanças desesperadas.
A srta. Wren baixou o capuz e disse:
— É um grande prazer conhecê-los, queridos, mas vocês precisam entrar agora mesmo. Não é seguro aqui fora.
Ela se virou e foi mancando pela passagem. Formamos uma fila e a seguimos a passos curtos pelo túnel de gelo, como uma fileira de patinhos atrás da mãe, nossos pés se arrastando, os braços estendidos em poses estranhas para mantermos o equilíbrio. Esse era o poder de uma ymbryne sobre crianças peculiares: a simples presença de uma, mesmo que houvéssemos acabado de conhecê-la, teve um efeito pacificador imediato sobre nós.
O chão ia se inclinando em aclive. Passamos por fornalhas silenciosas cobertas de gelo e entramos em um salão todo congelado, do chão ao teto e de parede a parede, com exceção do túnel em que estávamos, que fora escavado bem no centro. O gelo era grosso, mas transparente, e em alguns pontos dava para ver uns dez metros dentro da parede de água congelada, com apenas uma leve ondulação de distorção no cenário. O salão parecia uma área de recepção, com fileiras de cadeiras de espaldar reto diante de uma mesa enorme e alguns arquivos, todos aprisionados por toneladas de gelo. A luz do dia chegava até ali meio azul, vinda de janelas inalcançáveis do outro lado das grossas paredes de gelo. Depois delas havia a rua, uma mancha cinza indistinta.
Cem etéreos poderiam passar uma semana tentando destruir aquele gelo sem nos alcançar. Não fosse pela entrada do túnel, aquele lugar seria uma fortaleza perfeita. Ou uma prisão perfeita.
Vimos dúzias de relógios pendurados nas paredes, os ponteiros imóveis apontando para todos os lados. (Talvez para saber a hora em outras fendas?)
Acima deles, placas de sinalização apontavam o caminho de determinados escritórios:

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← CONSERVAÇÃO DE REGISTROS GRÁFICOS
QUESTÕES URGENTES NÃO ESPECÍFICAS →
DEP. DE OFUSCAÇÃO E ADIAMENTO →

Através da porta para a sala de Assuntos Temporais, vi um homem preso no gelo. Ele congelara meio inclinado para a frente, como se estivesse tentando soltar os pés enquanto o gelo cobria o restante do corpo. Estava ali havia muito tempo. Estremeci e olhei para o outro lado.
O túnel terminava em uma escada elegante com balaustrada, toda livre de gelo, mas coberta de papéis espalhados. Uma garota estava de pé em um dos primeiros degraus. Ela nos observava sem entusiasmo enquanto nos aproximávamos, deslizando hesitantes. Tinha cabelo comprido até a cintura, repartido exatamente no meio. Usava óculos redondos e pequenos que não parava de ajeitar e tinha lábios finos que pareciam nunca ter se curvado em um sorriso.
— Althea! — ralhou a srta. Wren. — Você não pode andar por aí enquanto a passagem está aberta. Qualquer coisa pode entrar!
— Está bem, senhora — respondeu a menina, e então ergueu um pouco a cabeça. — Quem são eles, senhora?
— São os protegidos da srta. Peregrine. Já lhe contei sobre eles.
— Eles trouxeram comida? Ou remédios? Ou qualquer coisa que possa ser útil? — A garota falava com uma lentidão torturante, e a voz era tão insípida quanto sua expressão.
— Nada de perguntas até terminar de fechar — ordenou a srta. Wren. — Depressa!
— Sim, senhora — respondeu a garota, e, sem a menor pressa, avançou pelo túnel arrastando as mãos pelas paredes.
— Me desculpem por isso — disse a srta. Wren. — Althea não tem a intenção de soar tão casmurra, é o jeito dela. Mas graças a ela evitamos o pior, portanto nos é muito necessária. Vamos esperá-la aqui.
A srta. Wren se sentou no primeiro degrau. Enquanto ela se abaixava, quase deu para ouvir seus ossos velhos estalarem. Não entendi o que ela quis dizer com evitamos o pior, mas havia muitas outras perguntas a fazer, então essa teria que esperar.
— Srta. Wren, como sabia quem éramos? — indagou Emma. — Nós não chegamos a nos apresentar.
— Saber disso é a função de uma ymbryne. Coloquei observadores nas árvores daqui até o Mar da Irlanda. Além disso, vocês são famosos! Só os tutelados de uma ymbryne conseguiram escapar das garras dos corrompidos, e são os da srta. Peregrine. Mas não tenho ideia de como vocês chegaram até aqui sem serem capturados ou de como me encontraram no mundo peculiar!
— Um menino no circo nos indicou este lugar — comentou Enoch. Ele ergueu a mão na altura do queixo. — Mais ou menos desse tamanho. Com um chapéu engraçado.
— Um dos nossos vigias — explicou a srta. Wren, assentindo. — Mas como vocês chegaram até ele?
— Capturamos uma de suas pombas — respondeu Emma, orgulhosa. — Ela nos conduziu até esta fenda.
Emma omitiu o fato de que a srta. Peregrine a matara.
— Minhas pombas! — exclamou a srta. Wren. — Mas como vocês as descobriram? E mais: como conseguiram pegar uma?


Millard se adiantou. Para não congelar, ele pegara emprestado o casaco de Horace, da sala de disfarces, e, apesar de a srta. Wren não parecer surpresa em ver um casaco flutuando, ficou atônita quando o garoto invisível disse:
— Deduzi a localização das aves a partir dos Contos peculiares, mas ouvimos falar nelas pela primeira vez na fenda dos bichos, no alto da montanha. Quem nos contou foi um cachorro meio pretensioso.
— Mas ninguém sabe o local da minha montanha para bichos!
A srta. Wren estava tão pasma que mal conseguia falar. Como cada resposta que dávamos a ela levava a novas perguntas, contamos toda a nossa história o mais depressa possível, começando pela fuga da ilha, naqueles barquinhos.
— Quase afundamos! — comentou Olive.
— E quase fomos baleados, bombardeados e devorados por etéreos — acrescentou Bronwyn.
— E atropelados por um trem — completou Enoch.
— E esmagados por uma cômoda — interveio Horace, fazendo cara feia para a menina telecinética.
— Fizemos uma longa viagem por uma região muito perigosa — disse Emma. — Tudo para encontrar alguém que pudesse ajudar a srta. Peregrine. Tínhamos muita esperança de que essa pessoa fosse a senhora, srta. Wren.
— Na verdade, estamos contando com isso — corrigiu Millard.
A srta. Wren precisou de alguns instantes para recuperar a fala. Quando conseguiu, as palavras saíram carregadas de emoção.
— Que crianças corajosas e maravilhosas. Vocês são milagres, cada um de vocês, e qualquer ymbryne se orgulharia de poder chamá-los de pupilos. — Ela enxugou uma lágrima com a manga da capa. — Fiquei muito triste ao saber o que aconteceu com a srta. Peregrine. Eu não a conhecia bem, pois sou muito reclusa, mas prometo uma coisa a vocês: vamos resgatá-la. Ela e todas as nossas irmãs!
Resgatá-la?
Foi então que me dei conta de que a srta. Peregrine ainda estava escondida na bolsa de lona que Horace carregava. A srta. Wren ainda não a vira!
— Ora, ela está bem aqui! — respondeu Horace, colocando a bolsa no chão e a desamarrando.
No instante seguinte, a srta. Peregrine saiu saltando da bolsa, meio zonza depois de ter passado tanto tempo no escuro.
— Pelos Anciões! — exclamou a srta. Wren. — Mas... eu tive notícias de que ela tinha sido levada pelos acólitos!
— Ela foi levada — respondeu Emma. — Mas nós a recuperamos!
A srta. Wren estava tão empolgada que se levantou sem a bengala, e tive que segurá-la pelo cotovelo para evitar que caísse.
— Alma, é você mesmo? — murmurou a srta. Wren, e, depois de recuperar o equilíbrio, correu para pegar a srta. Peregrine. — Olá, Alma. É você aí dentro?
— É ela! — respondeu Emma. — Esta é a srta. Peregrine!
A srta. Wren estendeu o braço que segurava a ave e a virou de um lado para o outro enquanto a srta. Peregrine se remexia.
— Hum, hum, hum... — murmurou a srta. Wren, estreitando os olhos e apertando bem os lábios. — Tem alguma coisa errada com a sua tutora.
— Ela se machucou — disse Olive. — Se machucou por dentro.
— Ela não consegue mais voltar à forma humana — explicou Emma.
A srta. Wren balançou a cabeça com uma expressão preocupada, como se já tivesse percebido isso.
— E isso faz quanto tempo?
— Três dias — respondeu Emma. — Desde que a resgatamos dos acólitos.
— Seu cão falou que se a srta. Peregrine não se transformasse de volta logo, nunca mais poderia fazer isso — falei.
— É. Addison estava totalmente certo.
— Ele também disse que o tipo de ajuda de que ela precisava era algo que apenas outra ymbryne poderia dar — acrescentou Emma.
— Isso também é verdade.
— Ela está mudada — comentou Bronwyn. — Não é mais a mesma. Precisamos da velha srta. P. de volta!
— Não podemos deixar que isso aconteça com ela! — exclamou Horace.
— E então? — indagou Olive. — A senhora pode fazê-la voltar a ser humana logo, por favor?
Tínhamos cercado a srta. Wren e a estávamos pressionando. Nosso desespero era evidente.
A srta. Wren ergueu as mãos para pedir silêncio.
— Quem dera fosse assim tão simples — disse ela. — Ou tão imediato. Quando uma ymbryne permanece na forma de ave por tempo demais, torna-se rígida, como um músculo frio. Se tentarmos forçá-la de volta muito rápido, ela pode quebrar. A ymbryne precisa ser massageada delicadamente até voltar à forma verdadeira. Tem que ser trabalhada com calma, como barro. Se eu passar a noite inteira com ela, talvez consiga terminar pela manhã.
— Se ela tiver todo esse tempo — comentou Emma.
— Reze para que ela tenha — respondeu a srta. Wren.
A garota de cabelo comprido voltou e foi lentamente em nossa direção, arrastando as mãos pelas paredes do túnel. Sob seu toque surgiam mais camadas de gelo novo. O túnel atrás dela já havia se estreitado para menos de um metro de largura. Logo estaria completamente fechado, nos prendendo lá dentro.
A srta. Wren acenou para que a garota se aproximasse.
— Althea! Corra lá na frente e peça à enfermeira que prepare uma sala de exames. Vou precisar de todos os meus preparos medicinais!
— Quando a senhora fala em preparo, quer dizer soluções, infusões ou suspensões?
— Tudo! — gritou a srta. Wren. — E depressa... É uma emergência!
Vi que a garota notou a presença da srta. Peregrine, pois seus olhos se arregalaram um pouquinho — a maior reação que eu observei nela até então.
Althea começou a subir as escadas.
Dessa vez, estava correndo.

* * *

Segurei o braço da srta. Wren, ajudando-a a se equilibrar enquanto subíamos as escadas. O prédio tinha quatro andares. Estávamos indo para o último, que, fora as escadas, era a única parte ainda acessível. Os outros andares estavam totalmente congelados, as paredes de gelo ocupando os corredores e aposentos.
Subíamos pelo centro oco de um gigantesco cubo de gelo.
Olhei para o interior de alguns cômodos enquanto passávamos correndo. Línguas de gelo protuberantes haviam arrancado as portas das dobradiças. Através dos batentes lascados, dava para ver indícios de um ataque: móveis derrubados, gavetas abertas e caídas, montes de papel no chão. Uma metralhadora estava apoiada em uma escrivaninha, o dono, congelado enquanto fugia. Havia um peculiar jogado em um canto, sob uma linha de buracos de bala. Pareciam as vítimas de Pompeia — só que presas no gelo, e não nas cinzas.
Era difícil acreditar que uma única menina podia ser responsável por aquilo tudo. Tirando as ymbrynes, Althea devia ser uma das peculiares mais poderosas que já conheci. Olhei para cima bem a tempo de vê-la desaparecer no andar superior, as madeixas infinitas seguindo-a como um rastro borrado.
Arranquei um pingente de gelo da parede.
— Ela fez isso tudo? — indaguei, girando o pingente na mão.
— Sim — respondeu a srta. Wren, arfando ao meu lado. — Ela é, ou era, aprendiz do ministro de Ofuscação e Adiamento. Estava aqui desempenhando suas funções no dia em que os corrompidos atacaram o prédio. Na época, Althea não conhecia bem o próprio poder. Só tinha noção de que suas mãos irradiavam um frio que não era natural. Pelo que a ouvi dizer, sua habilidade era útil nos dias quentes de verão, mas ela nunca pensara que podia ser usada como arma de defesa, até que dois etéreos começaram a devorar o ministro diante de seus olhos. Apavorada, ela conjurou uma fonte de poder que até então desconhecia e congelou o aposento com os etéreos dentro. Depois fez o mesmo com o prédio inteiro, tudo em apenas alguns minutos.
— Minutos! — exclamou Emma. — Não acredito.
— Como eu queria estar aqui para ter visto... — comentou a srta. Wren. — Mas provavelmente eu teria sido raptada junto com as outras ymbrynes que estavam presentes: a srta. Nightjar, a srta. Finch e a srta. Crow.
— O gelo dela não deteve os acólitos? — perguntei.
— Deteve muitos deles — respondeu a srta. Wren. — Imagino que vários ainda estejam aqui, congelados nos nichos do prédio. Apesar das perdas, os acólitos conseguiram o que vieram buscar. Antes que o prédio inteiro congelasse, levaram as ymbrynes pelo telhado. — A srta. Wren balançou a cabeça com amargura. — Juro pela minha vida que um dia vou escoltar pessoalmente até o inferno todos aqueles que machucaram as minhas irmãs.
— Então todo esse poder dela não adiantou nada — comentou Enoch.
— Althea não conseguiu salvar as ymbrynes, mas criou este lugar, o que já é uma bênção. Do contrário, não teríamos refúgio nenhum. Tenho usado o local como nossa base de operações, trazendo sobreviventes de fendas invadidas quando os encontro. Esta é a nossa fortaleza, o único lugar seguro para peculiares em toda a Londres.
— E quanto às suas tentativas, senhora? — inquiriu Millard. — O cão disse que a senhora veio a Londres para ajudar suas irmãs. Teve alguma sorte?
— Não — respondeu a ymbryne, em voz baixa. — Meus esforços não foram bem-sucedidos.
— Talvez Jacob possa ajudá-la, srta. Wren — disse Olive. — Ele é muito especial.
A srta. Wren me olhou de soslaio.
— É mesmo? E qual é o seu talento, meu jovem?
— Eu consigo ver os etéreos — respondi, um pouco envergonhado. — E sentir a presença deles.
— E, às vezes, matá-los — acrescentou Bronwyn. — Se não tivéssemos encontrado a senhora, srta. Wren, Jacob ia nos ajudar a passar pelos etéreos que guardam as fendas de punição, para que pudéssemos resgatar uma das ymbrynes presas lá. Na verdade, talvez ele possa ajudá-la...
— É muita bondade sua — respondeu a srta. Wren —, mas minhas irmãs não estão sendo mantidas nessas fendas, nem em qualquer lugar perto de Londres. Tenho certeza disso.
— Não? — indaguei.
— Não, e nunca estiveram. Essa história das fendas de punição foi um plano criado para atrair as ymbrynes que os corrompidos não tinham conseguido capturar. Ou seja, eu. E quase funcionou. Fui tão burra, voei direto para a armadilha: as fendas de punição, afinal de contas, são prisões! Tenho sorte de ter escapado com apenas alguns arranhões.
— Então para onde foram levadas as ymbrynes raptadas? — perguntou Emma.
— Eu não contaria nem se soubesse, porque isso não é da conta de vocês — respondeu a srta. Wren. — Não é dever de crianças peculiares se preocupar com o bem-estar das ymbrynes; é nosso dever nos preocupar com o de vocês.
— Mas, srta. Wren, isso não é justo — começou Millard, mas foi interrompido na mesma hora.
— Não quero mais ouvir falar nisso!
O assunto estava encerrado.
Fiquei chocado com a interrupção, ainda mais porque, se não tivéssemos nos preocupado com o bem-estar da Sra. Peregrine e arriscado nossa vida para chegar até ali, ela estaria condenada a passar o resto de seus dias aprisionada no corpo de uma ave. Então parecia que nossa obrigação era nos preocupar, já que as ymbrynes claramente não haviam conseguido evitar que as fendas temporais fossem invadidas. Eu não gostava de ser menosprezado daquele jeito, e, a julgar pelo cenho franzido de Emma, ela sentia o mesmo. Mas dizer isso seria extremamente grosseiro, então terminamos de subir em um silêncio desconfortável.
Chegamos ao topo da escada. Apenas algumas portas daquele andar estavam cobertas de gelo. A srta. Wren pegou a srta. Peregrine das mãos de Horace e disse:
— Venha, Alma, vamos ver o que podemos fazer por você.
Althea apareceu em uma porta aberta, arfante e com o rosto corado.
— A sala está pronta, srta. Wren. Com tudo o que a senhora pediu.
— Ótimo, ótimo — respondeu a ymbryne.
— Se houver algo que possamos fazer para ajudá-la... — disse Bronwyn. — Qualquer coisa que seja...
— Só preciso de tempo e sossego — respondeu a srta. Wren. — Vou salvar sua ymbryne, meus jovens. Juro pela minha vida.
Ela se virou e levou a srta. Peregrine para o quarto com Althea.
Sem saber o que fazer, nós a seguimos e nos reunimos ao redor da porta, que fora deixada entreaberta. Então nos revezávamos para espiar lá dentro. Era um ambiente aconchegante, com iluminação fraca provida por lampiões a óleo, e a srta. Wren estava sentada em uma cadeira de balanço, com a srta. Peregrine no colo. Althea estava de pé, misturando líquidos sobre uma bancada de laboratório. De vez em quando a menina erguia um frasco e o agitava, depois ia até a srta. Peregrine e o passava sob seu bico, igualzinho à forma como passam sais embaixo do nariz de uma pessoa desmaiada. A srta. Wren não parava de se balançar na cadeira e de acariciar as penas da srta. Peregrine, cantando uma doce e carinhosa canção de ninar.
— Eft kaa vangan soorken, eft ka vangan soorken, malaaya...
— É a língua dos antigos peculiares — sussurrou Millard. — “Volte para casa, volte para casa... lembre-se de quem você é”... algo assim.
A srta. Wren o ouviu, olhou para nós e gesticulou para que nos afastássemos. Althea fechou a porta.
— Bem... — começou Enoch. — Vejo que não nos querem aqui.
Depois de três dias em que a diretora dependera de nós para tudo, de repente tínhamos nos tornado desnecessários. Apesar de estarmos gratos à srta. Wren, ela nos fez sentir um pouco como crianças obrigadas a ir dormir.
— A srta. Wren saber o que faz — disse uma voz com forte sotaque russo às nossas costas. — É melhor deixar resolver problema.
Nós nos viramos e vimos o homem magro e dobrável como vara que tínhamos encontrado no circo. Estava parado, os braços ossudos cruzados.
— Você! — exclamou Emma.
— Nos encontramos de novo — disse o homem dobrável, a voz grave como uma fossa oceânica. — Sou Sergei Andropov, capitão do exército de resistência peculiar. Venham, eu mostrar vocês o local.

* * *

— Eu sabia que ele era peculiar — disse Olive.
— Não sabia, não — retrucou Enoch. — Você só achava.
— Eu soube que vocês ser peculiares no instante que os vi — comentou o homem dobrável. — Como não ser capturados?
— Porque temos cérebro — respondeu Hugh.
— Ele quer dizer que temos sorte — intervim.
— Mas o que temos mesmo é fome — intrometeu-se Enoch. — Tem comida por aqui? Eu comeria uma jumirafa inteira.
À mera menção de comida, meu estômago rugiu como um animal selvagem.
Nenhum de nós comera nada desde a viagem de trem para Londres, o que parecia ter sido séculos antes.
— É claro — respondeu o homem dobrável. — Por aqui.
Nós o seguimos pelo corredor.
— Então, conte sobre esse seu exército peculiar — pediu Emma. — Vamos acabar com os acólitos e recuperar o que é nosso. Vamos punir todos por raptar nossas ymbrynes.
Ele abriu uma porta no corredor e nos conduziu por um escritório destroçado, onde pessoas dormiam no chão e embaixo de mesas. Enquanto desviávamos de todos, reconheci alguns rostos do circo: o menino de aparência normal e a menina de cabelo crespo que encantava cobras.
— Eles são peculiares? — perguntei.
O homem dobrável assentiu.
— Resgatados de outras fendas — explicou, segurando a porta aberta para nós.
— E você? — indagou Millard. — De onde veio?
O homem dobrável nos conduziu a um vestíbulo onde poderíamos conversar sem perturbar os que estavam dormindo. A entrada era uma enorme porta dupla em arco, enfeitada com dúzias de brasões de aves.
— Eu ser da terra do deserto gelado, além das geleiras inóspitas — respondeu ele, com sotaque bem forte. — Séculos atrás, quando primeiros etéreos nascer, atacar minha casa. Destruíram tudo. Toda a aldeia morta. Idosos. Bebês. Todos. — Ele fingiu cortar o ar com a mão. — Eu me esconder na batedeira de manteiga, respirando por canudos, e meu irmão estar morto na mesma casa. Depois, vir para Londres escapar dos etéreos. Mas eles vir também.
— Que horror! — exclamou Bronwyn. — Sinto muito.
— Um dia nos vingaremos — retrucou o homem, com uma expressão sombria no rosto.
— Por falar nisso, quantos tem no seu exército? — indagou Enoch.
— Agora, no momento, seis — respondeu o sujeito, apontando para o aposento pelo qual acabáramos de passar.
— Seis pessoas?! — inquiriu Emma. — Você quer dizer... eles?
Eu não sabia se ria ou se chorava.
— Com vocês, dezessete. Crescer rápido.
— Ei, ei, ei — protestei. — Não viemos aqui para nos juntar ao exército.
Ele me lançou um olhar capaz de congelar o inferno, depois se virou e abriu as portas duplas.
Nós o seguimos e entramos em um salão ocupado por uma mesa maciça, com a madeira tão lustrada que brilhava como um espelho.
— Aqui onde se reunir o Conselho de Ymbrynes — apresentou o homem dobrável.
Por toda a volta havia retratos de antigos peculiares famosos. Não estavam em molduras, tinham sido pintados nas paredes, a óleo, carvão e pastel. O mais próximo de mim era um rosto com os olhos arregalados e a boca aberta. Onde deveria estar o desenho da boca, havia uma fonte de água em pleno funcionamento. Em volta da boca havia uma frase em holandês, que Millard, ao meu lado, traduziu:
— “Das bocas de nossos anciões vem uma fonte de sabedoria.”
Perto de nós havia outra, em latim.
— Ardet nec consomitur — disse Melina. — “Queimado, mas não destruído.”
— Bem apropriado — comentou Enoch.
— Não consigo acreditar que estou mesmo aqui — comentou Melina. — Estudei este lugar, sonhei com ele por muitos anos.
— É só um salão — retrucou Enoch.
— Talvez seja, para você. Para mim, é o coração de todo o mundo peculiar.
— Um coração arrancado — comentou uma voz nova, e me virei. Um palhaço ia em nossa direção. O mesmo palhaço que nos seguira lá no circo. — A srta. Jackdaw* estava parada bem onde vocês estão quando foi levada. Encontramos uma pilha enorme de penas no chão. — O sotaque dele era americano. O homem parou a cerca de um metro de nós, mastigando, com a mão na estrutura. — São eles? — perguntou ao homem dobrável, apontando para nós com uma coxa de peru. — Precisamos de soldados, não de criancinhas.


— Eu tenho cento e doze anos! — retrucou Melina.
— É, é, já ouvi isso antes — disse o palhaço. — Por falar nisso, notei que vocês eram peculiares do outro lado do circo. São o grupo de peculiares mais obviamente peculiar que já vi.
— Eu disse a mesma coisa — comentou o homem dobrável.
— Não sei como conseguiram chegar do País de Gales até aqui sem serem capturados — acrescentou o palhaço. — Na verdade, chega a ser suspeito. Têm certeza de que nenhum de vocês é acólito?
— Que absurdo! — exclamou Emma.
— Nós fomos capturados, mas os acólitos que nos pegaram não viveram para contar a história — retrucou Hugh, orgulhoso.
— Aham, e eu sou o rei da Bolívia — respondeu o palhaço.
— É verdade! — vociferou Hugh, ficando vermelho.
O palhaço ergueu os braços.
— Está bem, está bem, calma, garoto! Tenho certeza de que Wren não teria deixado vocês entrarem se não fossem legítimos. Venham, vamos ser amigos, comam uma coxa de peru.
Ele não precisou oferecer duas vezes. Estávamos famintos demais para ficarmos ofendidos por muito tempo.
O palhaço nos mostrou uma mesa cheia de comida — as mesmas castanhas torradas e carnes assadas que tinham chamado nossa atenção no circo. Nos amontoamos à mesa e começamos a nos empanturrar sem cerimônia. O homem dobrável comeu cinco cerejas e um pedacinho de pão, em seguida declarou que nunca estivera tão cheio na vida. Bronwyn andava de um lado para o outro junto à parede, roendo as unhas, preocupada demais para conseguir comer.
Quando terminamos, a mesa era um campo de batalha de ossos descarnados e manchas de gordura. O palhaço se recostou na cadeira e perguntou:
— Então, crianças peculiares, qual é a história de vocês? Por que vieram do País de Gales até aqui?
Emma limpou a boca.
— Para ajudar nossa ymbryne. — respondeu ela.
— E depois que ela receber ajuda? — indagou o palhaço. — O que vão fazer?
Eu estava ocupado raspando o resto do molho do peru com o que sobrara de pão, mas olhei para meus amigos. Ele falou de um jeito tão direto, tão simples, tão óbvio, que eu não podia acreditar que não tivéssemos nos perguntado isso antes.
— Não fale assim — disse Horace. — Vai nos dar azar.
— Wren é capaz de fazer milagres — respondeu o palhaço. — Não há nada com que se preocupar.
— Espero que tenha razão — comentou Emma.
— É claro que tenho. Então, qual é o plano? Vão ficar e nos ajudar a lutar, obviamente, mas onde vão dormir? Não comigo. Meu quarto é só para uma pessoa. Com raras exceções. — Ele olhou para Emma e ergueu a sobrancelha. — Raras, repito.
De repente, todos desviaram o olhar para as pinturas nas paredes ou começaram a ajeitar a gola das roupas. Todos menos Emma, cujo rosto adquiriu um tom meio verde. Talvez fôssemos naturalmente pessimistas e nossas chances de sucesso parecessem tão pequenas que nem havíamos nos dado ao trabalho de pensar no que faríamos caso conseguíssemos curar a srta. Peregrine. Ou talvez as crises dos últimos dias tivessem sido tão frequentes e urgentes que não houvera oportunidade de pensar nisso. De qualquer modo, a pergunta do palhaço nos pegara de surpresa.
E se toda a empreitada realmente desse certo? O que faríamos se a srta. Peregrine entrasse no salão naquele exato momento, em sua antiga forma?
Foi Millard quem finalmente respondeu:
— Acho que vamos voltar para nossa terra. A srta. Peregrine poderia fazer outra fenda para nós. Onde nunca seríamos encontrados.
— É isso? — indagou o palhaço. — Vocês vão se esconder? E as outras ymbrynes, as que não tiveram a mesma sorte? E a minha?
— Não é nossa obrigação salvar o mundo inteiro — retrucou Horace.
— Não estamos tentando salvar o mundo inteiro. Só o mundo peculiar.
— Bem, isso também não é nossa obrigação. — A voz de Horace soou fraca e na defensiva. Ele parecia envergonhado por ser levado a dizer uma coisa daquelas.
O palhaço se inclinou para a frente e nos encarou.
— Então de quem é a obrigação?
— Deve haver outras pessoas — respondeu Enoch. — Gente mais bem equipada, treinada para esse tipo de coisa...
— A primeira coisa que os corrompidos fizeram, três semanas atrás, foi atacar a Guarda Nacional Peculiar. Em menos de um dia a Guarda foi espalhada pelos quatro ventos. Com o fim desse grupo e, agora, de nossas ymbrynes, sobre quem recai a defesa do mundo peculiar, hein? Sobre pessoas como eu e vocês. — O palhaço jogou fora a coxa de peru. — Vocês, covardes, me enojam.
Acabei de perder o apetite.
— Eles estar cansados, fizeram longa viagem — interveio o homem dobrável. — Dê um tempo a eles.
O palhaço agitou o indicador no ar como uma professora dando bronca.
— Nada disso. Não damos almoço de graça. Não importa se vão ficar uma hora ou um mês. Enquanto estiverem aqui, têm que estar dispostos a lutar. Vocês todos são esqueléticos, mas são peculiares, então sabemos que têm talentos ocultos. Mostrem o que podem fazer!
Ele se levantou e avançou até Enoch estendendo o braço, como se fosse revistar os bolsos dele em busca de sua habilidade peculiar.
— Você aí, faça o que sabe fazer! — ordenou.
— Vou precisar de uma pessoa morta para demonstrar — retrucou Enoch. — Pode ser você, se ousar encostar um dedo em mim.
O palhaço mudou de direção e foi até Emma.
— E você, querida — disse ele. Emma ergueu um dedo muito bem escolhido e fez uma chama dançar na ponta, como se fosse uma vela de aniversário. O palhaço deu risada e exclamou: — Senso de humor! Gosto disso!
Então seguiu para os irmãos cegos.
— Eles têm as mentes conectadas — explicou Melina, colocando-se entre o palhaço e os dois meninos. — Podem ver com os ouvidos e sempre sabem o que o outro está pensando.
O palhaço bateu palmas.
— Finalmente uma coisa útil! Vão ser nossos vigias. Vamos deixar um no circo e o outro aqui. Se algo der errado por lá, saberemos imediatamente!
Ele afastou Melina do caminho, e os irmãos recuaram.
— Você não pode separá-los! — exclamou Melina. — Joel-e-Peter não gostam de ficar separados.
— E eu não gosto de ser caçado por cadáveres ferozes e invisíveis — retrucou o palhaço, e começou a separar o irmão mais velho do mais novo.
Os meninos deram os braços e gemeram alto, estalando a língua e girando os olhos. Eu estava prestes a intervir quando os irmãos se separaram e soltaram um grito uníssono, tão alto e penetrante que achei que minha cabeça fosse rachar. Os pratos em cima da mesa se espatifaram, todo mundo se abaixou e pôs as mãos nos ouvidos e pensei ter ouvido o ruído de rachaduras se formando no gelo dos andares de baixo.
Quando o eco terminou, Joel-e-Peter se agarraram um ao outro no chão, tremendo.
— Viu só o que você fez? — gritou Melina para o palhaço.
— Meu Deus, isso é impressionante! — comentou o palhaço.
Bronwyn o agarrou pelo pescoço e o levantou com uma das mãos.
— Se continuar a nos perturbar — anunciou, muito calma —, vou enfiar sua cabeça na parede.
— Me... desculpem... — disse o palhaço, com dificuldade. — Pode... me... botar... no chão?
— Pode colocar, Wyn — disse Olive. — Ele pediu desculpas.
Relutante, Bronwyn o pôs no chão. O palhaço tossiu e ajeitou a fantasia.
— Parece que julguei vocês mal — comentou. — Serão belos acréscimos ao nosso exército.
— Eu falei que não vamos nos juntar ao seu exército idiota — retruquei.
— E por que lutar, afinal? — perguntou Emma. — Vocês nem sabem onde as ymbrynes estão.
O homem dobrável se desdobrou da cadeira e se levantou.
— Lutamos porque, se os corrompidos pegarem o restante das ymbrynes, vai ser impossível detê-los — explicou.
— Parece que já é impossível detê-los — respondi.
— Se você acha que é impossível detê-los agora, é porque ainda não viu nada — retrucou o palhaço. — Se acha que com sua ymbryne livre eles vão parar de persegui-los, então é mais burro do que parece.
Horace se levantou e pigarreou.
— Você acabou de nos dizer o que pode acontecer na pior das hipóteses — disse ele. — Ultimamente, eu só ouço me dizerem o que pode acontecer na pior das hipóteses. Não ouvi ninguém dizer o que pode acontecer na melhor.
— Ah, essa vai ser boa — comentou o palhaço. — Vá em frente, garoto elegante. Estamos ouvindo.
Horace respirou fundo, tomando coragem.
— Os acólitos queriam as ymbrynes e agora estão com elas. Ou, pelo menos, com a maioria. Vamos supor que, na prática, os acólitos não precisem de mais nada e agora podem prosseguir com seus planos malignos. E prosseguem: viram superacólitos, semideuses, ou seja lá o que estão querendo virar. Daí não vão precisar mais das ymbrynes e nem das crianças peculiares ou das fendas temporais. E vão embora viver como semideuses em algum lugar e nos deixam em paz. As coisas não só voltam ao normal, elas ficam melhores do que antes, porque não terá mais ninguém tentando nos devorar ou raptar nossas ymbrynes. Aí, talvez pela primeira vez em muito tempo, poderemos tirar umas férias no exterior como costumávamos fazer, poderemos ver um pouco do mundo e enfiar os pés na areia em algum lugar que não seja frio e cinza durante trezentos dias do ano. Nesse caso, qual é o sentido de ficar e lutar? Só iríamos nos atirar sobre as espadas deles, quando na verdade tudo poderia acabar bem sem a nossa intervenção.
Por um momento, ninguém disse nada. Então o palhaço começou a rir. Ele riu, riu muito. Sua gargalhada ecoava e era ampliada pelas paredes. Até que ele acabou caindo da cadeira.
Enoch se pronunciou:
— Eu simplesmente não sei o que dizer. Espere... Sei, sim! Horace, esse é o desejo mais covarde e mais surpreendentemente ingênuo que eu já ouvi.
— Mas é uma possibilidade — insistiu Horace.
— É. Também é possível que a Lua seja feita de queijo. Só não é muito provável.
— Posso acabar com essa discussão agora mesmo — anunciou o homem dobrável. — Querem saber o que os acólitos vão fazer com nós quando tiverem a liberdade de fazer o que eles quer? Venham... eu mostrar.
— É só para quem tem estômago forte — disse o palhaço, olhando para Olive.
— Se eles aguentam, eu também aguento — retrucou a menina.
— Eu avisei. — O palhaço deu de ombros. — Venham.
— Eu não seguiria esse cara nem para sair de um barco afundando — resmungou Melina, que estava ajudando os irmãos cegos, ainda trêmulos, a se levantar.
— Então fique aí — retrucou o palhaço. — Quem preferir não afundar com o navio pode vir com a gente.

* * *

Os feridos estavam em diversas camas desparelhadas em uma enfermaria improvisada, sendo cuidados por uma enfermeira com um olho de vidro saltado.
Havia três pacientes, se é que era possível chamá-los assim: um homem e duas mulheres. O homem estava deitado de lado, meio catatônico, sussurrando e babando. Uma das mulheres encarava o teto com o olhar vazio, enquanto a outra se contorcia sob os lençóis, gemendo baixinho, sofrendo com algum pesadelo.
Algumas crianças observavam do lado de fora, mantendo distância caso o que aquelas pessoas tivessem fosse contagioso.
— Como eles estão? — perguntou o homem dobrável à enfermeira.
— Piorando — respondeu a mulher, indo de cama em cama. — Agora eu os mantenho sedados o tempo todo. Senão eles não param de gritar.
Eles não tinham ferimentos aparentes. Não havia ataduras ensanguentadas, nenhum braço engessado, nenhuma bacia cheia até a borda de um líquido avermelhado. O quarto parecia mais a enfermaria improvisada de uma ala psiquiátrica do que um hospital.
— O que aconteceu com eles? — perguntei. — Foram feridos no ataque?
— Não. Foram trazidos para cá pela srta. Wren — respondeu a enfermeira.
— Ela os encontrou abandonados em um hospital que os acólitos converteram em uma espécie de laboratório. Essas pobres criaturas foram usadas como cobaias em experiências indizíveis. O que vocês estão vendo aqui é o resultado.
— Encontramos os prontuários antigos — explicou o palhaço. — Eles foram raptados há anos. Foram considerados mortos há muito tempo.
A enfermeira pegou uma prancheta na parede junto à cama do homem que murmurava.
— Esse sujeito, Benteret, supostamente era fluente em cem línguas, mas agora só diz uma palavra, que repete o tempo todo.
Eu me aproximei, observando os lábios dele. Chamar, chamar, chamar, articulava o homem. Chamar, chamar, chamar.
Não fazia sentido. Ele não tinha mais mente.
— Sobre aquela ali — continuou a enfermeira, apontando a prancheta para a garota que gemia —, o prontuário diz que ela pode voar, mas nunca a vi levantar daquela cama um centímetro que fosse. Quanto à outra, parece que ela era invisível. Mas dá para vê-la tão bem quanto qualquer outra coisa.


— Eles foram torturados? — perguntou Emma.
— É óbvio... foram torturados até ficarem loucos! — respondeu o palhaço. — Torturados até esquecerem que eram peculiares!
— Mesmo que eu fosse torturado o dia inteiro — interveio Millard —, nunca esqueceria como ficar invisível.
— Mostre as cicatrizes — pediu o palhaço à enfermeira.
A enfermeira foi até a mulher imóvel e puxou as cobertas. Finas cicatrizes vermelhas marcavam a barriga, a lateral do pescoço e sob o queixo, cada uma mais ou menos do tamanho de um cigarro.
— Eu não chamaria isso de prova de tortura — comentou Millard.
— Então do que você chamaria? — perguntou a enfermeira, irritada.
Millard ignorou a pergunta.
— Há mais cicatrizes, ou só essas?
— Claro que tem outras — retrucou a enfermeira, e puxou mais as cobertas para expor as pernas da mulher, e apontou para cicatrizes atrás dos joelhos, na parte interna da coxa e na planta do pé.
Millard se abaixou para examinar o pé.
— É um lugar estranho, não acham?
— Aonde você quer chegar, Mill? — indagou Emma.
— Shhh — fez Enoch. — Deixa ele brincar de Sherlock. Até que eu estou gostando.
— Por que não fazemos cortes no corpo dele? — sugeriu o palhaço. — Aí vamos ver se não acha que é tortura!
Millard atravessou o quarto até a cama do homem que murmurava.
— Posso examiná-lo?
— Tenho certeza de que ele não vai se opor — disse a enfermeira.
Millard ergueu as cobertas que cobriam as pernas do homem. Na planta do pé dele via-se uma cicatriz idêntica à da mulher imóvel.
A enfermeira fez um gesto na direção da mulher que se retorcia.
— Ela também tem uma, se é isso o que você quer saber.
— Chega — disse o homem dobrável. — Se isso não ser tortura, ser o quê?
— Exploração — explicou Millard. — Essas incisões são precisas e cirúrgicas. Não foram feitas para infligir dor, provavelmente foram feitas até sob anestesia. Os acólitos estavam procurando alguma coisa.
— Procurando o quê? — perguntou Emma, apesar de parecer temer a resposta.
— Tem um velho ditado sobre o pé de um peculiar — disse Millard. — Ninguém lembra?
Horace respondeu:
— A sola do pé é a porta da alma de um peculiar. Mas isso é só uma coisa que dizemos às crianças para que não vão brincar descalças fora de casa.
— Talvez sim, talvez não — retrucou Millard.
— Não seja ridículo! Você acha que estavam procurando...
— As almas deles. E encontraram.
O palhaço riu alto.
— Que bobagem. Só porque eles perderam as habilidades você acha que suas segundas almas foram removidas?
— Em parte. Sabemos que os acólitos estão interessados na segunda alma há anos.
Então me lembrei da conversa que tivera com Millard no trem.
— Mas você me falou que a alma peculiar é o que nos permite entrar nas fendas temporais. Se essas pessoas não têm essa alma, como estão aqui?
— Bem, elas não estão aqui realmente, não é mesmo? — disse Millard. — Quer dizer, a mente delas com certeza está em outro lugar.
— Agora você está apelando — comentou Emma. — Acho que foi longe demais, Millard.
— Vamos continuar nessa linha de pensamento só mais um pouco — pediu o menino. Ele andava de um lado para o outro, empolgado. — Acho que vocês já ouviram falar da vez em que um normal entrou em uma fenda, não ouviram?
— Não. Todo mundo sabe que isso é impossível — retrucou Enoch.
— Praticamente impossível — corrigiu Millard. — Não é fácil e nem bonito, mas já aconteceu uma vez. Uma experiência ilegal realizada pelo irmão da srta. Peregrine, acho, anos antes de ele enlouquecer e formar o grupo de dissidentes que viriam a se tornar os acólitos.
— E por que eu nunca ouvi falar nisso? — indagou Enoch.
— Porque foi extremamente polêmico, e os resultados foram encobertos para que ninguém tentasse repeti-los. Enfim: na verdade, é possível levar um normal para o interior de uma fenda temporal, mas eles têm que ser forçados a entrar. E só alguém com o poder de uma ymbryne consegue fazer isso. No entanto, como os normais não têm uma segunda alma, não conseguem lidar com os paradoxos inerentes a uma fenda, e seus cérebros viram papa. Eles viram vegetais catatônicos e babões no momento em que entram. Como essas pobres pessoas que estamos vendo.
Houve um momento de silêncio enquanto as palavras de Millard eram registradas. Então Emma levou as mãos à boca e murmurou:
— Ah, droga. Ele tem razão.
— Bem — interveio o palhaço —, nesse caso, as coisas estão ainda piores do que pensávamos.
Tive a sensação de que o cômodo inteiro se esvaziou.
— Não sei se entendi — disse Horace.
— Ele disse que os monstros roubaram as almas deles! — gritou Olive, que saiu correndo na direção de Bronwyn e enterrou o rosto no casaco da mais velha.
— Esses peculiares não perderam suas habilidades — explicou Millard. — Elas foram roubadas... extraídas junto com suas almas, que foram usadas para alimentar etéreos. Isso permitiu que os etéreos evoluíssem o suficiente para entrar nas fendas, um desenvolvimento que permitiu o ataque recente ao mundo peculiar e rendeu a eles novos peculiares dos quais extrair almas para evoluir mais etéreos e assim por diante, em um círculo vicioso.
— Então eles não querem só as ymbrynes — concluiu Emma. — Eles também querem a gente... as nossas almas.
Hugh ficou parado ao pé da cama do homem que murmurava, sua última abelha zumbindo irritada ao redor dele.
— Todas as crianças peculiares que eles raptaram ao longo dos anos... era isso que estavam fazendo com elas? Eu achava que só viravam comida para etéreo. Mas isso... isso é muito mais maligno.
— Quem disse que eles não pretendem extrair as almas das ymbrynes também? — indagou Enoch.
Isso fez com que todos fôssemos tomados por um calafrio ainda maior. O palhaço se virou para Horace e perguntou:
— Como fica sua melhor das hipóteses agora, camarada?
— Não me provoque — respondeu Horace. — Eu mordo.
— Todo mundo para fora! — ordenou a enfermeira. — Com alma ou sem alma, essas pessoas estão doentes. Aqui não é lugar para discussões.
Saímos para o corredor, taciturnos.
— Tudo bem, vocês nos mostraram o show de horrores — disse Emma para o palhaço e para o homem dobrável. — Ficamos devidamente horrorizados. Agora digam o que querem.
— Simples — respondeu o homem dobrável. — Queremos que vocês ficar e lutar ao nosso lado.
— Só achamos que tínhamos a obrigação de mostrar que é do interesse de vocês fazer isso — explicou o palhaço, dando tapinhas nas costas de Millard. — Mas seu amigo aqui se mostrou melhor do que esperávamos.
— Ficar aqui e lutar pelo quê? — indagou Enoch. — As ymbrynes não estão nem em Londres... A srta. Wren já nos disse isso.
— Esqueçam Londres! Londres está acabada! — retrucou o palhaço. — A batalha aqui terminou. Nós perdemos. Assim que Wren salvar o último peculiar que conseguir encontrar nessas fendas em ruínas, vamos nos reunir e viajar... para outras terras, outras fendas. Deve haver mais sobreviventes por aí, peculiares como nós, com o desejo de lutar ainda aceso dentro de si.
— Vamos montar um exército — explicou o homem dobrável. — Um exército de verdade.
— E quanto a descobrir o paradeiro das ymbrynes, não tem problema — completou o palhaço. — Vamos capturar um acólito e torturá-lo até ele nos dizer. Vamos obrigá-lo a nos mostrar no Mapa dos dias.
— Vocês têm um exemplar do Mapa dos dias? — indagou Millard.
— Temos dois. Os arquivos peculiares ficam lá embaixo, sabe.
— Isso é mesmo uma boa notícia — comentou Millard, a voz carregada de empolgação.
— É mais fácil falar do que fazer, quando o assunto é pegar um acólito — disse Emma. — E eles mentem, é claro. Mentir é o que fazem melhor.
— Então pegamos dois e comparamos as mentiras — retrucou o palhaço. — Eles vêm farejar por aqui com muita frequência. Da próxima vez que virmos um... bam! Vamos pegá-lo.
— Não precisamos esperar — respondeu Enoch. — A srta. Wren não disse que tem acólitos dentro deste prédio?
— Claro — respondeu o palhaço. — Mas estão congelados. Mortinhos da silva.
— O que não significa que não possam ser interrogados — retrucou Enoch, com um sorriso.
O palhaço se virou para o homem dobrável.
— Estou começando a gostar desses malucos.
— Então vocês estar do nosso lado? — perguntou o homem dobrável. — Vão lutar com a gente?
— Eu não disse isso — retrucou Emma. — Precisamos de um minuto para discutir.
— Mas o que há para discutir? — indagou o palhaço.
— Claro, claro, vocês levar o tempo que quer — interveio o homem dobrável, puxando o palhaço para o corredor. — Venha, eu fazer um café.
— Está bem — concordou o palhaço, relutante.
Nós nos agrupamos, como tínhamos feito tantas vezes desde que nossos problemas haviam começado, só que dessa vez, em vez de competirmos para ver quem gritava mais alto, todos esperaram sua vez de falar. A seriedade da situação nos deixara solenes.
— Acho que devemos lutar — declarou Hugh. — Agora que descobrimos o que os acólitos estão fazendo, eu não conseguiria ficar em paz sabendo que simplesmente voltamos a viver como antes, fingindo que nada disso está acontecendo. Lutar é a única coisa honrosa a fazer.
— Também há honra na sobrevivência — retrucou Millard. — Nossa espécie sobreviveu ao século XX se escondendo, e não lutando, então talvez a gente só precise de um jeito melhor de se esconder.
Bronwyn se virou para Emma e disse:
— Quero saber o que você acha.
— É, quero saber o que Emma acha — concordou Olive.
— Eu também — disse Enoch, o que me pegou de surpresa.
Emma inspirou fundo e se pronunciou:
— Eu me sinto muito mal pelas outras ymbrynes. É um crime o que aconteceu com elas, e o futuro de nossa espécie pode depender de seu resgate. Mas, no fundo, minha fidelidade não é para com essas outras ymbrynes nem para com as outras crianças peculiares. É para com a mulher a quem devo minha vida: a srta. Peregrine, e apenas ela. — Emma fez uma pausa e balançou a cabeça, como se estivesse testando a sensatez de suas palavras, antes de prosseguir: — Queira a ave que ela se transforme outra vez, e, quando isso acontecer, vou fazer o que ela precisar que eu faça. Se ela quiser que eu lute, vou lutar. Se quiser nos esconder em uma fenda em algum lugar, vou concordar com isso também. Seja como for, continuo acreditando no de sempre: a srta. Peregrine sabe o que é o melhor.
Os outros refletiram sobre isso. Por fim, Millard disse:
— Uma colocação muito sábia, srta. Bloom.
— A srta. Peregrine sabe o que é o melhor! — concordou Olive, vibrando.
— A srta. Peregrine sabe o que é o certo! — repetiu Hugh.
— Não me importa a opinião da srta. Peregrine — retrucou Horace. — Eu vou lutar.
Enoch segurou o riso.
— Você?
— Todo mundo acha que sou um covarde. Esta é minha chance de provar que estão todos errados.
— Não jogue sua vida fora por causa de umas piadas — disse Hugh. — Quem liga para o que os outros pensam?
— Não é só isso — disse Horace. — Vocês se lembram da visão que tive lá em Cairnholm? Foi um vislumbre de onde estão as ymbrynes. Eu não poderia mostrar em um mapa, mas tenho certeza de uma coisa: vou saber quando vir. — Ele tocou a testa com o indicador. — O que tenho aqui dentro pode poupar muito trabalho a esses sujeitos. E salvar as outras ymbrynes também.
— Se alguns lutarem e outros ficarem para trás — disse Bronwyn —, vou proteger quem ficar. Proteger sempre foi minha vocação.
Hugh se virou para mim.
— E você, Jacob?
Fiquei com a boca seca.
— É — concordou Enoch. — E você?
— Bem... Eu...
— Vamos dar uma volta — disse Emma, pegando meu braço. — Você e eu temos que conversar.


* Em português, “gralha”. (N. do T.)

* * *

Descemos a escada bem devagar, sem trocar uma palavra até chegarmos ao primeiro andar, diante da parede de gelo curva com que Althea lacrara o túnel de saída. Sentamos juntos e ficamos assim por um bom tempo, olhando para o interior do gelo, para as formas capturadas ali, borradas e distorcidas na luz cada vez mais fraca, suspensas como ovos em âmbar azul. Ficamos sentados, e o silêncio que se acumulava entre nós era prova de que aquela seria uma conversa difícil, uma conversa que nenhum de nós dois desejava iniciar.
Por fim, Emma se pronunciou:
— E então?
— Eu concordo com os outros: quero saber o que você acha — respondi.
Ela deu aquela risada de quando a pessoa não acha a coisa engraçada, e sim estranha.
— Não tenho tanta certeza disso — respondeu Emma.
E ela tinha razão, mas insisti para ouvir mesmo assim.
— Diga.
Emma pôs a mão no meu joelho, mas logo depois a retirou. Estava inquieta.
Senti um aperto no peito.
— Acho que está na hora de você voltar para casa — disse ela, por fim.
Levei um momento para me convencer de que Emma tinha mesmo dito aquilo.
— Não estou entendendo — balbuciei.
— Você falou que tinha sido mandado aqui por uma razão — explicou ela, falando depressa, olhando para as próprias pernas. — E era para ajudar a srta. Peregrine. Agora parece que ela pode ser salva. Se você tinha alguma dívida com ela, está paga. Você nos ajudou mais do que poder imaginar. Agora é hora de voltar para o seu mundo. — As palavras de Emma saíram em uma torrente.
Parecia um pensamento doloroso que ela vinha carregando havia muito tempo, como se fosse um alívio finalmente se livrar daquilo.
— Este é o meu mundo — respondi.
— Não, não é — insistiu Emma, dessa vez olhando para mim. — O mundo peculiar está morrendo, Jacob. É um sonho perdido. Mesmo que a gente decida se armar contra os corrompidos e de algum modo, por algum milagre, consiga vencê-los, vamos nos tornar uma sombra do que fomos: teremos um mundo em ruínas. Você tem uma casa, que não está em ruínas. Você tem pais que estão vivos, que amam você, à sua própria maneira.
— Eu já falei. Não quero essas coisas. Eu escolhi isto aqui.
— Você fez uma promessa e a cumpriu. Agora acabou. É hora de ir para casa.
— Pare de dizer isso! — gritei. — Por que está me mandando embora?
— Porque você tem uma casa e uma família de verdade. Se acha que algum de nós teria escolhido este mundo em vez dessas outras coisas, que qualquer um que está aqui não teria desistido das fendas temporais, da longevidade e dos poderes peculiares há muito tempo só por um gostinho do que você tem, então está vivendo em um mundo de fantasia. Fico muito mal pensando que você pode estar jogando isso tudo fora... e por quê?
— Por você, sua idiota! Eu amo você!
Eu não conseguia acreditar que tinha dito aquilo. Nem Emma. Ela ficou boquiaberta.
— Não — respondeu, balançando a cabeça como se pudesse apagar minhas palavras. — Não, isso não vai ajudar em nada.
— Mas é verdade! — insisti. — Por que acha que fiquei, em vez de ir para casa? Não foi por causa do meu avô ou de algum sentimento idiota de dever... não mesmo. Nem porque eu odiasse meus pais, ou porque não gostasse da minha casa ou de todas as coisas legais que eu tinha. Eu fiquei por você!
Emma ficou calada por um tempo, só balançou a cabeça, virou o rosto e passou a mão no cabelo, revelando uma mecha branca de poeira de concreto que eu não percebera antes, o que a fez parecer repentinamente mais velha.
— É culpa minha — disse, por fim. — Eu nunca devia ter beijado você. Talvez eu o tenha feito acreditar em algo que não era verdade.
Aquilo doeu. Recuei instintivamente, como que para me proteger.
— Não diga isso se não for verdade — pedi. — Posso não ter muita experiência com garotas, mas não me trate como um idiota que fica sem ação diante de uma menina bonita. Você não me fez ficar. Eu fiquei porque quis, porque o que sinto por você é mais real do que qualquer coisa que já senti. — Deixei a frase no ar por um instante, sentindo a verdade daquilo tudo. — E você sente o mesmo. Eu sei.
— Me desculpe — disse ela. — Me desculpe. Foi crueldade, eu não devia ter dito isso. — Ela secou os olhos úmidos. Emma tentara parecer feita de pedra, mas a fachada estava desmoronando. — Você tem razão. Eu gosto muito de você. É por isso que não consigo ver você desperdiçando sua vida.
— Eu não estou desperdiçando minha vida!
— Droga, Jacob, está sim! — Ela estava com tanta raiva que sem querer acendeu uma chama na mão, que por sorte afastara de meu joelho. Apagou a chama batendo a mão na palma da outra e se levantou. Então apontou para o gelo e perguntou: — Está vendo aquela planta no vaso, sobre a mesa?
Eu assenti.
— Ela está verde, preservada pelo gelo, mas por dentro está morta. No instante em que o gelo derreter, vai ficar marrom, murchar e virar uma papa. — Emma me encarou. — Eu sou como essa planta.
— Não é, não — respondi. — Você é... perfeita.
Seu rosto se retesou em uma expressão de paciência forçada, como se estivesse explicando algo para uma criança burra. Ela se sentou de novo, pegou minha mão e a levou até seu rosto macio.
— Isso aqui é uma mentira — disse ela. — Não sou eu de verdade. Se você pudesse ver como realmente sou, não iria me querer mais.
— Eu não ligo para essas coisas...
— Eu sou uma velha! — exclamou ela. — Você acha que somos iguais, mas não somos. Essa pessoa que você diz amar é na verdade uma velha, uma velha encarquilhada dentro de um corpo de menina. Você é um garoto, um menino, um bebê, se comparado comigo. Você nunca poderia entender como é estar tão perto da morte o tempo todo. E nem devia. Eu não quero isso para você. Você tem a vida toda pela frente, Jacob. Eu já vivi a minha. Um dia, talvez em breve, vou morrer e voltar ao pó.
Emma disse isso com uma determinação fria, e soube que ela acreditava mesmo naquilo. Ela sofria ao dizer essas coisas, como eu sofria ao ouvi-las, mas eu entendia. A seu modo, Emma estava tentando me salvar.
Mas doía mesmo assim, em parte porque eu sabia que ela estava certa. Se a srta. Peregrine se recuperasse, eu teria feito o que decidira fazer: resolver o mistério do meu avô; pagar a dívida da minha família com a srta. Peregrine; e viver a vida extraordinária com a qual eu sempre sonhara; ao menos em parte.
Nesse ponto, a única obrigação que me restava era com meus pais. Quanto a Emma... eu não me importava que ela fosse mais velha ou muito diferente de mim, mas ela decidira que eu deveria me importar, e parecia que não havia  como convencê-la do contrário.
— Talvez, quando tudo isso terminar — disse ela —, eu escreva uma carta para você, e você me escreva de volta. E talvez um dia você venha me ver outra vez.
Uma carta. Pensei na caixa empoeirada e cheia de correspondências que eu encontrara no quarto dela, lembranças do meu avô. Será que aquilo era tudo o que eu me tornaria para ela? Um velho do outro lado do oceano? Uma lembrança? Então percebi que estava prestes a seguir os passos de meu avô, e de um modo que nunca imaginara ser possível. Em vários aspectos, eu estava vivendo a vida dele. E provavelmente um dia eu baixaria a guarda, envelheceria, ficaria lento e distraído e morreria como ele. E Emma seguiria em frente sem mim, sem nenhum de nós. E um dia talvez alguém encontrasse as minhas cartas no armário dela, em uma caixa ao lado das de meu avô, e se perguntaria quem tínhamos sido para ela.
— E se vocês precisarem de mim? — perguntei. — E se os etéreos voltarem?
Lágrimas brilharam nos olhos de Emma.
— Daremos um jeito — respondeu ela. — Olha, não posso mais falar sobre isso. Sinceramente, acho que meu coração não aguenta. Vamos subir e comunicar sua decisão aos outros?
Cerrei os dentes, de repente irritado por ela estar me forçando daquela maneira.
— Ainda não decidi nada — respondi. — Você é que decidiu.
— Jacob, eu acabei de dizer...
— Certo, você disse. Mas eu ainda não tomei minha decisão.
Emma cruzou os braços.
— Então eu posso esperar.
— Não — retruquei, me levantando. — Preciso ficar sozinho por um tempo.
Subi as escadas sem ela.

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