15 de abril de 2017

Capítulo dois

Antes de embarcar, Sharon montou um grande espetáculo ao tirar de seu barco seis ratos ziguezagueantes, como se uma viagem sem peste fosse um luxo propiciado apenas a peculiares VIPs. Em seguida, ofereceu o braço a Emma e a ajudou a descer da doca. Estávamos sentados os três lado a lado em um banco simples de madeira. Enquanto Sharon desatava as amarras de atracação, eu me perguntei se confiar nele era apenas imprudente ou se cruzava a linha da irresponsabilidade, como tirar um cochilo no meio de uma estrada.
O problema com o limite entre a imprudência e a burrice extrema é que você normalmente não sabe de que lado está até ser tarde demais. Quando a poeira assenta o suficiente para você refletir, o botão já foi apertado, o avião já decolou ou, em nosso caso, o barco já deixou a doca. Enquanto eu observava Sharon nos empurrar para longe dela com o pé descalço, percebi que seu pé, de dedos longos como pequenas salsichas e unhas amareladas e grossas que se curvavam como garras, não tinha um aspecto exatamente humano, então descobri, com uma certeza profunda, de que lado da linha estávamos, e também que era tarde demais para fazer muita coisa em relação a isso.
Sharon puxou o cordão de ignição de um motor de popa muito pequeno, que despertou tossindo uma nuvem de fumaça azulada. Dobrando as pernas de tamanho considerável, ele se abaixou sobre a poça de tecido negro formada por sua capa. Acelerou o motor preguiçoso, em seguida nos conduziu para fora do cais inferior, em direção à luz quente do sol através de pilares altos de madeira que mais pareciam uma floresta. Entramos em um canal, um afluente artificial do Tâmisa, emparedado dos dois lados por prédios de vidro e que se agitava com mais barcos do que uma banheira de criança na hora do banho: rebocadores de um vermelho intenso, barcaças largas e achatadas, barcos de turismo com deques superiores repletos de turistas aproveitando o ar livre. Estranhamente, nenhum deles apontou sua câmera nem sequer pareceu perceber o barco estranho que passou gorgolejando por eles, com um anjo da morte no leme, duas crianças sujas de sangue no banco e um cachorro de óculos espiando pela borda.
O que seria esperado. Será que Sharon tinha posto algum feitiço sobre seu barco para que pudesse ser visto apenas por peculiares? Resolvi acreditar que fosse isso, porque não havia lugar nenhum onde se esconder nele caso fosse necessário.
Examinando-o em plena luz do dia, percebi que o bote era extremamente simples, com exceção de uma figura de proa intricadamente entalhada. Tinha a forma de uma serpente gorda e escamosa que se curvava para cima em um S delicado, mas, onde deveria estar a cabeça, havia um globo ocular gigante, sem pálpebras e grande como um melão, encarando fixamente um ponto adiante.
— O que é isso? — perguntei, passando a mão sobre sua superfície polida.
— Teixo — exclamou Sharon, mais alto que o ronco do motor.
— Deixo o quê?
— É disso que é feito.
— Mas para que serve?
— Para ver com ele! — respondeu Sharon, com impaciência.
Ele acelerou mais o motor, possivelmente apenas para abafar minhas perguntas, e, à medida que nossa velocidade aumentou, a proa se ergueu levemente da água. Respirei fundo, saboreando o sol e o vento em meu rosto, e Addison deixou a língua pendurada para fora enquanto se debruçava com as patas na borda, com a expressão mais feliz que eu já vira nele.
Que belo dia para ir ao inferno.
— Então, andei pensando sobre como você chegou aqui — disse Emma. — Como voltou ao presente.
— Certo — falei. — O que você acha?
— Só tem uma explicação que faz algum sentido, embora não muito. Quando estávamos nos túneis subterrâneos com todos aqueles acólitos e atravessamos para o presente, a razão de você ter vindo conosco em vez de ter continuado em mil oitocentos e sei lá quanto, sozinho de repente, é que, de algum modo, a srta. Peregrine estava lá por perto e o ajudou a atravessar sem que ninguém soubesse.
— Não sei, Emma, isso parece… — Hesitei, sem querer ser rude. — Você acha que ela estava escondida no túnel?
— Estou dizendo que é possível. Não temos ideia de onde ela estava.
— Os acólitos estão com ela. Caul admitiu isso!
— Desde quando você acredita em alguma coisa que os acólitos dizem?
— Aí você me pegou — falei. — Mas, como Caul estava se gabando de estar com ela, achei que estivesse dizendo a verdade.
— Pode ser… ou ele disse isso para nos deixar arrasados e nos dar vontade de desistir. Ele estava tentando convencer a gente a se render a seus soldados, lembra?
— Verdade — falei, franzindo o cenho. Meu cérebro estava começando a se embaralhar com todas as possiblidades. — Está bem. Digamos que a srta. P. estava conosco no túnel. Por que ela teria se dado ao trabalho de me mandar de volta ao presente como prisioneiro dos acólitos? Nós estávamos a caminho de ter nossa segunda alma sugada. Eu estaria melhor se tivesse ficado preso naquela fenda.
Por um instante, Emma pareceu realmente aturdida. Então seu rosto se iluminou.
— A menos que você e eu devamos resgatar todos os outros. Talvez tudo tenha sido parte do plano dela.
— Mas como ela podia saber que a gente ia conseguir escapar dos acólitos?
Emma olhou de esguelha para Addison.
— Talvez ela tenha tido ajuda — murmurou.
— Hum, essa sequência de eventos inventada está ficando realmente improvável. — Respirei fundo e escolhi as palavras com cuidado. — Sei que você quer acreditar que a srta. Peregrine está por aí em algum lugar, livre, olhando por nós. Eu quero, também…
— Quero tanto que chega a doer… — disse ela.
— Mas se ela estivesse livre, não teria entrado em contato de algum jeito? E se ele estivesse envolvido — falei em voz baixa, apontando com a cabeça na direção de Addison —, já teria mencionado isso a essa altura, não acha?
— Não se ele tivesse jurado segredo. Talvez seja perigoso demais contar a qualquer pessoa, mesmo a nós. Se soubéssemos do paradeiro da srta. Peregrine e alguém soubesse que sabemos, poderíamos revelar sob tortura…
— E ele não? — falei, um pouco alto demais, e o cachorro olhou para nós, suas bochechas inflando e a língua se agitando de modo ridículo quando atingidas pelo vento.
— Ei! — exclamou ele. — Já contei cinquenta e seis peixes, mas acho que um ou dois podem ser pedaços de lixo que ainda não afundaram. O que vocês estão cochichando?
— Ah, nada — disse Emma.
— Não sei por que não acredito — murmurou ele. Mas sua desconfiança foi rapidamente superada por seus instintos. — Peixe! — E sua atenção se voltou imediatamente para a água. — Peixe… peixe… lixo… peixe…
Emma deu um riso sinistro.
— É uma ideia completamente maluca, eu sei. Mas meu cérebro é uma máquina de produzir esperança.
— Que bom — falei. — O meu só cria as piores situações possíveis.
— Então precisamos um do outro.
— É. Mas acho que já sabíamos disso.
A ondulação regular do barco nos juntava e afastava, juntava e afastava.
— Vocês têm certeza de que não preferem fazer o passeio romântico? — perguntou Sharon. — Não é tarde demais.
— Certeza absoluta — falei. — Estamos em uma missão.
— Então sugiro que abram a caixa na qual estão sentados. Vocês vão precisar do que está aí dentro quando atravessarmos.
Abrimos o tampo articulado do banco e encontramos ali dentro uma grande lona.
— Para que serve isso?
— Para se esconder — respondeu Sharon, e ele virou em um canal ainda mais estreito, margeado por prédios residenciais de aspecto luxuoso. — Consegui manter vocês fora de vista até agora, mas a proteção que posso oferecer não funciona no interior do Recanto, e tipos repulsivos costumam ficar à procura de presas fáceis logo na entrada. E vocês são, sem a menor dúvida, presas fáceis.
— Eu sabia que você estava armando alguma coisa — falei. — Nem um único turista sequer olhou para nós.
— É mais seguro observar atrocidades históricas serem cometidas quando os participantes não conseguem enxergar vocês — disse ele. — Não posso permitir que meus clientes sejam levados por invasores vikings, posso? Imagine como vão avaliar o serviço!
Estávamos nos aproximando depressa de um túnel com cerca de trinta metros de comprimento, uma espécie de extensão do canal sob uma ponte, acima da qual se avolumava um prédio que lembrava um armazém ou uma fábrica antiga. Na outra ponta do túnel brilhava um semicírculo de céu azul e água cintilante. Entre onde estávamos e aquele ponto, havia apenas escuridão.
Assim como todas as entradas de fenda que eu já tinha visto, parecia um lugar qualquer.
Puxamos a enorme lona, que ocupou metade do barco. Rastejamos para debaixo dela, Emma deitada ao meu lado, e puxamos a borda até o queixo como se fossem lençóis. Conforme o barco flutuava sob a ponte para o interior das sombras, Sharon desligou o motor e o escondeu embaixo de uma lona menor.
Então ele ficou de pé e estendeu uma vara dobrável, enfiou-a na água até tocar o fundo e começou a nos impulsionar para a frente em movimentos longos e silenciosos.
— Por falar nisso, estamos nos escondendo de que tipos repulsivos? Acólitos? — perguntou Emma.
— Há mais maldade no mundo peculiar do que apenas seus odiados acólitos — disse Sharon, sua voz ecoando pelo túnel de pedra. — Um oportunista disfarçado de amigo pode ser tão perigoso quanto um inimigo declarado.
Emma deu um suspiro.
— Você precisa ser sempre tão vago?
— Suas cabeças! — repreendeu ele. — Você também, cachorro.
Addison farejou e entrou embaixo da lona, então puxamos a borda por cima de nossos rostos. Estava escuro e quente embaixo do tecido, e havia um cheiro muito forte de óleo de motor.
— Estão com medo? — sussurrou Addison no escuro.
— Nada fora do normal — disse Emma. — Você está, Jacob?
— A ponto de vomitar. Addison?
— Claro que não — disse o cão. — O medo não é uma característica de minha raça.
Mas então ele se aninhou entre mim e Emma, e senti todo o seu corpo tremendo.

* * *

Algumas travessias são tão rápidas e suaves como autoestradas, mas aquela foi como descer por uma tábua de lavar roupa toda esburacada, fazer uma curva fechada de repente, depois despencar de um precipício, tudo em completa escuridão. Quando finalmente terminou, eu estava tonto e com a cabeça latejando. Eu me perguntei que mecanismo invisível tornava algumas travessias mais difíceis que outras. Talvez a viagem fosse apenas tão brutal quanto o destino, e aquela tenha parecido uma aventura por uma região selvagem porque foi exatamente o que fizemos.
— Chegamos — anunciou Sharon.
— Está todo mundo bem? — perguntei, tateando à procura da mão de Emma.
— Precisamos voltar — gemeu Addison. — Deixei meus rins do outro lado.
— Fiquem quietos até que eu encontre algum lugar discreto para vocês desembarcarem — disse Sharon.
É impressionante como sua audição se torna mais aguçada no instante em que você não pode mais usar os olhos. Enquanto eu jazia em silêncio sob a lona, fiquei hipnotizado pelos sons de uma era perdida florescendo ao nosso redor. No início, havia apenas o chapinhar da vara de Sharon na água, mas logo vieram outros barulhos, todos se misturando para pintar uma cena elaborada em minha mente. A batida regular de madeira contra água pertencia, imaginei, aos remos de um barco que passava repleto de peixes. Ouvi mulheres gritarem entre si e as visualizei debruçadas nas janelas, em casas de frente umas para as outras, trocando fofocas por sobre o canal enquanto estendiam roupa na corda. Mais à frente, crianças gargalhavam enquanto um cachorro latia, e identifiquei, ao longe, vozes cantando ao ritmo de martelos: “Escutem o bater dos martelos, escutem as batidas nos pregos!”
Em pouco tempo eu estava imaginando limpadores de chaminés incansáveis usando cartolas e descendo pelas ruas cheios de um charme rústico, e pessoas se reunindo para superar os fardos da vida com um brilho nos olhos e uma canção. Não pude evitar. Tudo o que eu sabia sobre cortiços vitorianos eu aprendera da versão musical extravagante de Oliver Twist. Quando eu tinha doze anos, participei de uma montagem no teatro comunitário. Fui o Órfão Número Cinco, se querem saber, e fiquei com tanto medo do público na noite do espetáculo que fingi ter intoxicação alimentar e assisti a tudo das coxias, de figurino, com um balde entre as pernas para vomitar.
Enfim, essa era a cena na minha cabeça quando percebi que a lona tinha um buraquinho perto do meu ombro (roído por ratos, sem dúvida) e, me movendo um pouco, descobri que podia espiar através dele. Em segundos, a paisagem feliz inspirada no musical que eu imaginara derreteu como uma pintura de Salvador Dalí. O primeiro horror a me saudar foram as casas que margeavam o canal — se bem que chamar aquilo de casas era generosidade. Em toda a sua arquitetura desconjuntada e apodrecida, era impossível encontrar uma única linha reta. Pareciam curvadas como uma fileira de soldados exaustos que pegaram no sono em posição de sentido; davam a impressão de que a única coisa que as impedia de cair direto na água era o fato de estarem apoiadas umas sobre as outras de um jeito muito apertado — isso e a argamassa de imundície preta e verde que sujava a parte de baixo com camadas grossas e lamacentas.
Ao lado de cada uma de suas entradas frágeis havia uma caixa semelhante a um caixão, mas só percebi o que eram quando ouvi um grunhido alto sair de uma delas e vi algo cair na água por baixo, então me dei conta de que os sons de batidas na água que eu ouvira não vinham de remos, mas de latrinas, que contribuíam para a própria imundície que mantinha tudo aquilo de pé.
As mulheres que gritavam entre si de lados opostos do canal estavam debruçadas em janelas frente a frente, tal como eu imaginara, mas não estavam pendurando roupa e sem dúvida não estavam fofocando, pelo menos não mais; agora estavam trocando insultos e proferindo ameaças. Uma brandia uma garrafa quebrada e ria bêbada enquanto a outra bradava epítetos que eu mal conseguia compreender (“Você não passa de uma rameira fedida que deitava até com o diabo por um tostão!”) — o que era irônico, se eu entendi o significado corretamente, porque ela mesma estava nua até a cintura e não parecia se importar que a vissem. As duas pararam para assoviar para Sharon quando passamos, mas ele as ignorou.
Ansioso para apagar aquela imagem da cabeça, consegui substituí-la por algo ainda pior: à nossa frente havia um bando de garotos balançando as pernas no alto de uma passarela frágil sobre o canal. Eles balançavam um cachorro acima da água por uma corda amarrada às patas traseiras, afundando a pobre criatura na vala e gargalhando quando seus latidos desesperados se transformavam em bolhas. Resisti à vontade de chutar a lona para longe e gritar com eles. Pelo menos Addison não conseguiu ver. Se tivesse visto, nenhuma argumentação o teria impedido de ir atrás deles com os dentes à mostra, acabando com nosso esconderijo.
— Estou vendo o que você está fazendo — murmurou Sharon para mim. — Se quer dar uma olhada ao redor, só espere um pouco, porque logo o pior disso vai ficar para trás.
— Você está espiando? — sussurrou Emma, me cutucando.
— Talvez — falei, ainda olhando.
O barqueiro mandou a gente calar a boca. Retirando a vara da água, ele desembainhou o cabo e expôs uma lâmina curta, estendendo-a em seguida para cortar a corda quando passamos pelos meninos. O cachorro caiu na água e nadou agradecido para longe, e, berrando de raiva, os garotos começaram a catar coisas para arremessar em nós. Sharon seguiu em frente, ignorando-os como fizera com as mulheres, até um talo voador de maçã errar sua cabeça por centímetros. Então ele deu um suspiro, se virou e, calmamente, puxou para trás o capuz da capa, apenas o suficiente para que os garotos pudessem vê-lo, mas eu não.
Seja lá o que tenham visto, quase os matou de susto, porque todos saíram correndo da ponte, um deles com tal rapidez que tropeçou e caiu na água fétida.
Rindo sozinho, Sharon ajeitou o capuz antes de voltar a olhar para a frente.
— O que aconteceu? — perguntou Emma, alarmada. — O que foi isso?
— Uma recepção do Recanto do Demônio — respondeu Sharon. — Agora, se quiserem ver onde estamos, podem descobrir um pouco o rosto, e vou tentar proporcionar a vocês um passeio guiado digno de suas moedas com o tempo que nos resta.
Puxamos a beira da lona até o queixo, e tanto Emma quanto Addison engoliram em seco: ela, acho, pela visão; ele, a julgar por seu focinho franzido, pelo fedor. Era surreal, como um ensopado de esgoto cozinhando em fogo lento por toda a nossa volta.
— Você se acostuma — disse Sharon, lendo minha expressão retorcida.
Emma agarrou minha mão e gemeu:
— Ah, é horrível…
E era. Agora que eu podia ver com os dois olhos, o lugar parecia ainda mais infernal. As fundações de todas as casas estavam virando gosma. Uma confusão de passarelas de madeira, algumas tão estreitas quanto uma tábua e emaranhadas sobre o canal como cama de gato. Suas margens fedorentas estavam abarrotadas de lixo, e nelas rastejavam formas espectrais que chafurdavam no rio. As únicas cores eram preto, amarelo e verde, a bandeira da imundície e podridão, mas principalmente preto. O preto sujava todas as superfícies, manchava todos os rostos, riscava o ar em colunas que se erguiam de chaminés por toda a nossa volta e, de forma mais sinistra, de grandes dutos de fábricas ao longe, que se anunciavam a todo minuto com os estrondos industriais, profundos e primitivos como tambores de guerra, tão poderosos que abalavam todas as janelas ainda não quebradas.
— Isso, amigos, é o Recanto do Demônio — começou Sharon, com uma voz escorregadia e alta o suficiente para que apenas nós escutássemos. — População atual de sete mil duzentos e seis, população oficial, zero. Os pais da cidade, em sua sabedoria, se recusam sequer a reconhecer sua existência. Esse corpo charmoso de água em cuja corrente estamos deslizando atualmente chama-se Valão da Febre, e os dejetos industriais, excrementos e carcaças de animais que fluem permanentemente em seu interior são fonte não só de seu odor encantador, mas também de epidemias tão regulares que você poderia acertar seu relógio por eles, e tão espetaculares que toda esta área foi apelidada de “a Capital do Cólera”. Apesar disso — ele ergueu um braço drapejado de preto na direção de uma moça que levava um balde até a água —, para muitas dessas almas desgraçadas, ela serve tanto como esgoto quanto fonte.
— Ela não vai beber isso! — disse Emma, horrorizada.
— Em poucos dias, depois que as partículas pesadas forem para o fundo, ela vai retirar o líquido mais claro do alto.
Emma se encolheu.
— Não…
— Sim. Uma vergonha, terrível — disse Sharon, com naturalidade, e em seguida continuou a declamar fatos como se os recitasse de um livro: — As principais ocupações dos cidadãos são coletar lixo e atrair estranhos para o Recanto para acertá-los na cabeça e roubá-los. Por diversão, ingerem quaisquer líquidos inflamáveis à disposição e cantam mal a plenos pulmões. Os principais produtos de exportação da área são rejeitos de ferro fundido, farinha de osso e miséria. Entre os pontos turísticos importantes estão…
— Não é engraçado — interrompeu Emma.
— Perdão?
— Eu disse que não é engraçado! Essas pessoas estão sofrendo e você está fazendo piada com isso!
— Não estou fazendo piada — respondeu Sharon altivamente. — Estou fornecendo a vocês informações preciosas que podem salvar suas vidas. Mas se preferem mergulhar nessa selva envoltos em ignorância…
— Não preferimos — falei. — Ela sente muito. Por favor, continue.
Emma me lançou um olhar de reprovação, ao que eu respondi com a mesma censura. Aquela não era hora de defender o politicamente correto, mesmo que Sharon parecesse um pouco insensível.
— Falem baixo, pelo Hades — disse Sharon, irritado. — Agora, como eu dizia… Entre os principais destaques estão a Prisão Infantil de St. Rutledge, uma instituição de pensamento avançado que prende órfãos antes que tenham a oportunidade de cometer qualquer crime, poupando a sociedade de grandes custos e problemas; o Asilo de Lunáticos, Vigaristas e Criminalmente Perversos de St. Barnabus, que funciona como ambulatório para pacientes que se voluntariam a ser atendidos, e está quase sempre vazio; e a Rua da Fumaça, que está em chamas há oitenta e sete anos devido a um incêndio subterrâneo que ninguém se deu ao trabalho de apagar. Ah — disse ele, apontando para um espaço aberto enegrecido entre casas na margem. — Aqui fica uma das extremidades, que, como podem ver, está totalmente queimada.
Vários homens trabalhavam na área aberta, martelando pregos em uma armação de madeira para o que supus ser a reconstrução de uma das casas incendiadas, e, quando nos viram passar, pararam para gritar alô para Sharon, que respondeu apenas com um breve aceno, como se estivesse levemente envergonhado.
— Amigos seus? — perguntei.
— Parentes distantes — murmurou ele. — Construir forcas é nosso ofício de família.
— Construir o quê? — perguntou Emma.
Antes que ele pudesse responder, os homens tinham retomado o trabalho, cantando alto enquanto batiam seus martelos.
— Escutem o bater dos martelos, escutem as batidas nos pregos! Como é divertido construir forcas, a cura de todos os males!
Se eu não estivesse tão horrorizado, talvez tivesse começado a rir.

* * *

Seguimos em frente pelo Valão da Febre. Como mãos se fechando à nossa volta, o canal parecia se estreitar a cada impulso da vara de Sharon, às vezes de maneira tão drástica que as passarelas que o cruzavam se tornavam desnecessárias; você podia praticamente cruzar o canal saltando de um telhado para outro, o céu cinzento não passava de uma fresta entre eles, sufocando tudo abaixo em sombras. Durante todo o tempo, Sharon tagarelou informações, como um livro didático que tivesse ganhado vida. Em apenas alguns minutos, ele conseguira cobrir as tendências de moda do Recanto do Demônio (perucas roubadas penduradas na cintura eram populares), seu produto interno bruto (firmemente no negativo) e a história de seu povoamento (pelo empreendimento de fazendeiros criadores de vermes no início do século XII).
Ele estava começando a falar dos destaques de sua arquitetura quando Addison, que passou o tempo todo se contorcendo junto a mim, finalmente o interrompeu:
— Você parece saber até o mínimo detalhe sobre esse buraco dos infernos, com exceção de tudo o que poderia ser remotamente útil para nós.
— Tal como? — disse Sharon, perdendo a paciência.
— Em quem podemos confiar, aqui?
— Em absolutamente ninguém.
— Como podemos encontrar os peculiares que vivem nesta fenda? — perguntou Emma.
— Vocês não querem fazer isso.
— Onde estão os acólitos que raptaram nossos amigos? — perguntei.
— É ruim para os negócios saber coisas como essa — retrucou Sharon, sem alterar a voz.
— Então nos deixe sair deste maldito barco e vamos andar por aí e descobrir por conta própria! — disse Addison. — Estamos perdendo um tempo precioso, e seus monólogos intermináveis estão me dando sono. Contratamos um barqueiro, não uma professora!
Sharon pigarreou.
— Eu devia jogar vocês no Valão por serem tão rudes, mas, se fizesse isso, nunca receberia as moedas de ouro que me devem.
— Moedas de ouro! — disse Emma, chegando a cuspir de nojo. — E o bem-estar de seus companheiros peculiares? E sua lealdade?
Sharon riu.
— Se eu me preocupasse com coisas assim, estaria morto há muito tempo.
— E todos nós estaríamos muito felizes com isso — murmurou Emma, e virou o rosto.
Enquanto conversávamos, tentáculos de neblina tinham começado a dar uma volta no barco. Não era nada como a névoa cinza de Cairnholm; aquela era pegajosa e marrom-amarelada, a cor e a consistência de sopa de abóbora. Seu aparecimento repentino pareceu deixar Sharon desconfortável, e, à medida que a visão do horizonte se reduzia, sua cabeça virava rapidamente de um lado para outro, como se ele estivesse atento a problemas, ou à procura de um local para nos deixar.
— Tsc, tsc, tsc. Isso é mau sinal — reclamou o barqueiro.
— É só neblina — disse Emma. — A gente não tem medo de neblina.
— Nem eu — disse Sharon. — Mas isto não é neblina. É turvação, e é feita pelo homem. Coisas feias acontecem na turvação, e precisamos sair dela o mais rápido possível.
Ele ordenou que nos cobríssemos, e obedecemos. Voltei a espiar pelo furo.
Momentos depois, um barco surgiu da turvação e passou perto, seguindo na direção oposta. Havia um homem nos remos e uma mulher sentada no assento, e, apesar de Sharon ter desejado um bom dia, eles apenas olharam de volta, e continuaram olhando até estarem bem longe de nós, outra vez engolidos pela turvação. Resmungando baixo, Sharon nos manobrou na direção da margem esquerda e de uma doca pequena que eu mal conseguia ver. Mas, quando ouvimos passos nas tábuas de madeira e um murmúrio baixo de vozes, Sharon se apoiou em sua vara para nos desviar bruscamente para outro lado.
Andamos em ziguezague de margem para margem à procura de um lugar para desembarcar, mas cada vez que nos aproximávamos, Sharon via algo de que não gostava e se afastava outra vez.
— Abutres — murmurava. — Abutres por toda parte…
Eu mesmo não vi nada até passarmos por baixo de uma passarela caindo aos pedaços que um homem atravessava. Enquanto deslizávamos abaixo dele, o homem parou e olhou para baixo. Ele abriu a boca e respirou fundo, prestes a gritar por ajuda, pensei, mas, em vez de uma voz, o que saiu de sua boca foi um jato de fumaça amarela densa que se lançou em nossa direção como água de uma mangueira de incêndio.
Entrei em pânico e prendi a respiração. E se fosse gás venenoso? Mas Sharon não estava cobrindo o rosto nem pegando nenhuma máscara, estava apenas murmurando “tsc, tsc, tsc” enquanto o hálito do homem girava à nossa volta, se misturando com a turvação e reduzindo nossa visibilidade a nada. Em poucos segundos, o homem, a passarela sobre a qual ele estava e as duas margens foram apagadas.
Descobri a cabeça (ninguém podia nos ver agora, afinal) e falei baixinho:
— Quando você disse que essa coisa era feita pelo homem, achei que estivesse falando de chaminés, não literalmente…
— Oh, uau — disse Emma, se descobrindo. — Para que serve isso?
— Os abutres turvam uma área para encobrir suas atividades — disse Sharon. — E para cegar suas presas. Para sorte de vocês, eu não sou uma presa fácil.
Ele retirou sua vara comprida da água, passou-a sobre nossas cabeças e a usou para tocar o globo ocular na proa de seu barco. O globo ocular começou a brilhar como um farol de neblina, penetrando a turvação à nossa frente. Em seguida, ele retornou a vara à água e, se apoiando com força sobre ela, girou o barco em círculo lentamente, varrendo a água à nossa volta com sua luz.
— Mas se eles estão fazendo isto, eles são peculiares, não são? — supôs Emma. — E, se são peculiares, talvez sejam amigáveis.
— Os puros de coração não acabam como piratas do valão — disse Sharon, e depois parou de girar o barco quando nossa luz se fixou sobre outro barco que se aproximava. — E por falar no diabo…
Nós os vimos com bastante nitidez, mas tudo o que eles podiam ver de nós era uma florescência brilhante. Não era grande vantagem, mas pelo menos nos permitia saber quem eram antes de termos que nos recolher embaixo da lona.
Eram dois homens em um barco cerca de duas vezes maior que o nosso. O primeiro operava um motor de popa quase silencioso, e o segundo levava um porrete.
— Se eles são tão perigosos — sussurrei —, por que estamos simplesmente esperando por eles?
— Já entramos muito fundo no Recanto para conseguir escapar deles agora, e muito provavelmente consigo tirar a gente dessa só na conversa.
— E se não conseguir?
— Talvez vocês precisem nadar para escapar.
Emma olhou para a água negra e oleosa e disse:
— Eu prefiro morrer.
— A escolha é sua. Agora, recomendo que desapareçam, crianças, e não movam um músculo aí embaixo.
Puxamos outra vez a lona sobre nossas cabeças. No instante seguinte, uma voz forte chamou:
— Olá, barqueiro!
— Olá — respondeu Sharon.
Ouvi remos chapinharem na água, e então senti um solavanco quando o outro barco bateu contra o nosso.
— A que vem por aqui?
— Apenas para um passeio de barco — disse Sharon, despreocupadamente.
— E que belo dia para isso! — respondeu o homem, rindo.
O segundo homem não estava para brincadeira.
— O que tem embaixo do pano? — resmungou ele, com um sotaque quase incompreensível.
— O que eu levo no meu barco é assunto meu.
— Qualquer coisa que passe pelo Valão da Febre é assunto nosso.
— Cordas velhas e quinquilharias, se querem saber — disse Sharon. — Nada interessante.
— Então não vai se importar se dermos uma olhada — disse o primeiro homem.
— E nosso trato? Já não paguei vocês este mês?
— Não tem mais trato nenhum — disse o segundo. — Acólitos pagam cinco vezes mais as taxas normais por alimentadores rechonchudos. E quem deixar qualquer alimentador escapar… vai para o poço, ou pior.
— O que poderia ser pior que o poço? — disse o primeiro.
— Nem quero descobrir.
— Agora, cavalheiro, seja razoável — disse Sharon. — Talvez seja hora de renegociar. Posso oferecer termos competitivos com qualquer um…
Alimentadores. Senti um calafrio, apesar do calor abafado que aumentava sob a lona devido ao rápido aquecimento das mãos de Emma. Torci para que ela não precisasse usar seus poderes, mas os homens não estavam cedendo, e temi que o barqueiro não conseguisse levá-los na lábia por muito tempo. Uma luta, porém, seria um desastre. Mesmo que pudéssemos enfrentar os homens no barco, os abutres, como Sharon os chamara, estavam por toda parte. Imaginei uma multidão se formando, vindo atrás de nós em barcos, atirando das margens, saltando das passarelas, e comecei a congelar de medo. Eu realmente não queria descobrir o que significava alimentadores.
Mas aí ouvi um som esperançoso, o tilintar de moedas sendo trocadas, e o segundo homem dizendo:
— Nossa, ele está forrado! Eu poderia me aposentar na Espanha com ess…
Mas quando minhas esperanças começavam a crescer, senti um nó no estômago. Uma sensação familiar surgiu em minha barriga, e percebi que estivera se formando, lenta e gradualmente, havia algum tempo. Começou como uma coceira, depois, uma dor entorpecida, e agora essa dor estava maior, a pontada que denunciava a proximidade de um etéreo.
Mas não qualquer etéreo. Meu etéreo.
A palavra surgiu em minha cabeça sem alerta ou precedente. Meu. Ou talvez fosse o contrário. Talvez eu pertencesse a ele.
Nenhuma das opções era garantia de segurança. Eu imaginava que ele quisesse me matar tanto quanto qualquer outro etéreo, só que algo havia contido essa vontade temporariamente. Era a mesma força magnética misteriosa que levara o etéreo até mim e girara a agulha da bússola dentro de mim na direção dele, e era essa agulha que me dizia que o etéreo agora estava perto.
Logo seríamos capturados, ou assassinados por aqueles homens, ou talvez fôssemos assassinados pelo próprio etéreo. Decidi, então, que se a gente conseguisse chegar à margem em segurança, a primeira coisa que eu faria seria me livrar dele de uma vez por todas.
Mas onde estava ele? Se estava tão perto quanto parecia, estaria nadando em nossa direção no Valão, e eu sem dúvida teria ouvido uma criatura com sete membros dando braçadas de peito. Aí a agulha girou e mergulhou, e eu soube, praticamente vi, que ele estava embaixo d’água. Etéreos, aparentemente, não precisavam respirar com frequência. No instante seguinte, ouvi um baque surdo quando ele se grudou ao fundo de nosso barco. Todo mundo levou um susto com o barulho, mas só eu sabia o que era. Desejei poder avisar meus amigos, mas tive que permanecer imóvel, seu corpo a apenas centímetros de distância, do outro lado das tábuas de madeira sobre as quais estávamos deitados.
— O que foi isso? — ouvi o primeiro homem dizer.
— Não escutei nada — mentiu Sharon.
Solte, falei, movimentando os lábios em silêncio, na esperança de que o etéreo ouvisse. Vá embora e nos deixe em paz. Mas, em vez disso, ele começou a fazer um som triturante contra a madeira; eu o visualizei arranhando o fundo do barco com seus dentes compridos.
— Eu ouvi, tão claro quanto o dia — disse o segundo homem. — O barqueiro está tentando fazer a gente de otário, Reg!
— Acho que está, sim — disse o primeiro.
— Garanto a vocês, nada poderia estar mais longe da verdade — disse Sharon. — É essa droga de barco quebrado. Já passou da hora de uma revisão.
— Esqueça. Acabou o trato. Mostre o que você tem aí.
— Ou vocês podem permitir que eu aumente minha oferta — disse Sharon. — Vamos considerar isso um brinde pela gentileza de vocês.
Os homens discutiram em voz baixa.
— Se a gente deixar ele ir e outra pessoa pegar ele com alimentadores, vamos para o poço.
— Ou pior.
Vá embora, vá embora, vá EMBORA, implorei para o etéreo.
Bam, bam, BAM, respondeu ele, batendo no casco.
— Puxe esse pano! — exigiu o primeiro homem.
— Senhor, se esperar apenas um instante…
Mas os homens estavam determinados. Nosso barco balançou como se alguém estivesse subindo. Houve gritos, e em seguida ouvi passos perto de nossas cabeças quando a briga começou.
Não faz sentido se esconder agora, pensei, e os outros pareceram concordar.
Vi os dedos brilhantes de Emma pegarem a borda da lona.
— Quando eu contar três — sussurrou ela. — Prontos?
— Na ponta das patas — rosnou Addison.
— Espere — falei. — Primeiro, vocês precisam saber… Embaixo do barco tem…
Então a lona foi arrancada, e eu nunca terminei a frase.

* * *

Foi tudo muito rápido. Addison mordeu o braço que puxara a lona e Emma atacou o homem, esfolando seu rosto com dedos escaldantes. Ele cambaleou para trás gritando e caiu na água. Sharon tinha sido derrubado na disputa, e o segundo homem estava de pé acima dele com o porrete erguido. Addison saltou sobre ele e abocanhou sua perna. O homem se virou para se livrar do cão, o que deu a Sharon tempo para se levantar e acertá-lo no estômago. O homem se dobrou ao meio, e Sharon o desarmou com um giro traiçoeiro da vara.
O homem resolveu desistir enquanto podia e saltou de volta para seu barco.
Sharon arrancou a lona que cobria o motor de popa, puxou o cabo de ignição, e nosso barco ligou no momento em que um terceiro acelerou para nosso lado em meio à turvação. Dentro dele havia mais três homens, um deles com um revólver apontado direto para Emma.
Gritei para que ela se abaixasse e saltei sobre seu corpo no momento do disparo, que provocou uma nuvem de fumaça branca. Aí o homem a apontou para Sharon, que largou o acelerador e levantou os braços. E esse teria sido nosso fim, acho, se uma torrente de palavras estranhas não tivesse começado a brotar e jorrar de mim, altas e firmes e estrangeiras a meus ouvidos.
Afunde o barco deles! Use suas línguas para afundar o barco deles!
Na fração de segundo que levou para todo mundo se virar e olhar para mim, o etéreo saiu do fundo do casco e lançou suas línguas sobre o outro barco. Elas dispararam de dentro da água, se enrolaram na extremidade da popa e viraram o barco de ponta-cabeça em um mortal invertido que jogou os três homens para fora.
O barco caiu de cabeça para baixo sobre dois deles.
Sharon poderia ter aproveitado a oportunidade para acelerar e nos tirar dali, mas permaneceu congelado, em choque, com os braços ainda no ar.
O que não era problema. Eu ainda não tinha acabado.
Aquele, falei, olhando para o homem do revólver se debatendo na água.
Aparentemente, o etéreo podia me ouvir embaixo d’água, porque momentos depois que eu disse isso o homem gritou, olhou para baixo e foi sugado para o fundo. Desapareceu assim, e imediatamente a água onde estivera floresceu vermelha.
— Eu não falei para comê-lo! — falei em inglês.
— O que você está esperando? — gritou Emma para Sharon. — Vamos!
— Está bem, está bem — gaguejou o barqueiro.
Ele se sacudiu para voltar a si, baixou a mão e acelerou forte. O motor zuniu, e Sharon virou o leme e nos girou em curva fechada, derrubando Emma, Addison e a mim. O barco empinou e seguiu em frente, e então começamos a navegar por espirais de turvação, voltando pelo caminho por onde viéramos.
Emma olhou para mim, eu a olhei de volta e, apesar de estar alto demais para escutar qualquer coisa acima do motor e da circulação do sangue em nossos ouvidos, tive a impressão de ver ao mesmo tempo em seu rosto medo e euforia, uma expressão que dizia: Você, Jacob Portman, é maravilhoso e assustador. Mas, quando ela finalmente falou, só consegui entender uma palavra: Onde?
Pois é, onde? Eu esperava que a gente conseguisse escapar do etéreo enquanto ele estivesse acabando com o pirata do valão, mas agora, interpretando meu estômago, eu soube que ele ainda estava perto, seguindo logo atrás, muito provavelmente usando uma de suas línguas como cabo de reboque.
Perto, articulei com os lábios.
Seus olhos brilharam, e ela assentiu uma vez, bruscamente: Bom.
Sacudi a cabeça. Ela não estava com medo? Por que ela não conseguia ver como aquilo era perigoso? O etéreo tinha provado sangue e acabara de deixar para trás uma refeição inacabada. Quem podia saber que tipo de maldade ainda tinha dentro dele? Mas a forma como ela olhava para mim... Só aquela leve ponta de sorriso já me energizava, e eu sentia que podia fazer qualquer coisa.
Estávamos nos aproximando rápido da ponte e do peculiar que produzia a turvação. Ele estava à nossa espera, agachado com um rifle apoiado na grade da passarela, o qual estava apontado em nossa direção.
Nós nos agachamos. Ouvi dois tiros. Ao erguer os olhos outra vez, vi que ninguém tinha sido atingido.
Estávamos passando embaixo da ponte. Em um instante estaríamos do outro lado, e ele poderia atirar outra vez. Eu não podia deixar que fizesse isso.
Eu me virei e gritei Ponte! em língua de etéreo, e a criatura pareceu entender exatamente o que eu queria dizer. As duas línguas que não estavam segurando nosso barco se lançaram para cima e, com uma chicotada úmida, cada uma delas envolveu os suportes frágeis da ponte. Todas as três línguas se desenrolaram e se esticaram como elástico estendido ao limite. O etéreo emergiu da água com o formato de uma estrela do mar, devido às línguas que seguravam ao mesmo tempo o barco e a ponte.
O barco desacelerou tão depressa que foi como se alguém tivesse puxado o freio de emergência; todos fomos jogados para a frente, sobre o piso da embarcação. A passarela gemeu e balançou, e o peculiar que apontava para nós tropeçou e deixou cair a arma. Ou a passarela ou o etéreo iam ceder. Ele estava gemendo como um porco ferido, como se fosse se rasgar ao meio, mas quando o peculiar se abaixou para pegar a arma, pareceu que a ponte ia aguentar, o que significava que eu tinha trocado toda a nossa velocidade e o nosso impulso por nada. Agora éramos alvos que nem se moviam.
Solte!, gritei para o etéreo.
Ele não soltou; jamais ia me largar por vontade própria. Por isso, corri para a parte de trás do barco e me debrucei sobre a popa. Uma de suas línguas estava enrolada no leme. Ao lembrar como o toque de Emma uma vez fizera a língua de um etéreo soltar seu tornozelo, eu a puxei até lá e disse a ela que queimasse o leme. Ela fez isso e quase caiu pela borda para alcançar, então o etéreo gritou e soltou.
Foi como soltar um estilingue. O etéreo voou e bateu na ponte com um estrondo; toda a estrutura cambaleante cedeu e desmoronou no valão. Ao mesmo tempo, a parte de trás de nosso barco voltou a tocar a água, e o motor, outra vez submerso, nos impulsionou para a frente. A aceleração repentina nos derrubou como pinos de boliche. Sharon conseguiu se segurar ao leme, se firmou e nos desviou bruscamente de uma rota de colisão com o muro do canal.
Voamos pelo centro do valão, deixando um V negro em nosso rastro na água.
Nós nos agachamos caso mais balas voassem. Parecíamos estar fora de perigo imediato. Os abutres estavam em algum lugar atrás de nós, e eu não podia imaginar como eles iriam nos alcançar.
Arfando, Addison perguntou:
— Foi a mesma criatura que encontramos no metrô, não foi?
Percebi que estava prendendo o fôlego, então soltei o ar e, em seguida, assenti. Emma olhou para mim, esperando por mais, mas eu ainda estava processando a informação, todos os meus nervos vibrando com a estranheza do que acabara de acontecer. Uma coisa eu sabia: dessa vez eu quase o pegara. Era como se, a cada encontro, eu mergulhasse um pouco mais fundo no centro nervoso do etéreo. As palavras saíam com mais facilidade, pareciam menos estrangeiras à minha língua, encontravam menos resistência do etéreo. Ainda assim, era como um tigre no qual eu conseguira botar uma coleira de cachorro.
A qualquer momento ele podia decidir se voltar e me dar uma mordida, ou em qualquer um de nós. E mesmo assim, por razões além de minha compreensão, ele não fez isso.
Talvez, pensei, com mais uma ou duas tentativas, eu conseguisse controlar aquilo. E então… Meu Deus.
Então seríamos imbatíveis.
Olhei para trás, para o fantasma da ponte, poeira e restos de madeira subindo em turbilhão pelo ar no lugar onde momentos antes se erguia a estrutura. Nos destroços abaixo, conferi se algum membro irrompia na superfície, mas havia apenas um redemoinho de lixo sem vida. Tentei sentir, mas meu estômago agora era inútil, torcido e vazio. Aí a névoa cor de lama se fechou às nossas costas e encobriu a vista.
Logo quando eu precisava de um monstro, ele tinha se matado.

* * *

A turvação diminuía lentamente, e o barco balançou quando Sharon reduziu a velocidade e desviou para a direita em direção a uma quadra de cortiços medonhos. Ficavam à beira do canal, formando uma parede longa e ininterrupta que não se parecia com casas, mas com os limites externos de um labirinto, uma fortaleza, ameaçador e com poucos pontos de entrada. Deixamos a correnteza nos arrastar lentamente, à procura de um lugar para entrar. Foi Emma quem finalmente viu um, apesar de precisar estreitar os olhos para identificar algo mais que um truque das sombras.
Chamar aquilo de beco seria um exagero. Era um desfiladeiro estreito como a lâmina de uma faca, cuja distância de parede a parede era da largura dos ombros e cinquenta vezes isso de altura, com a entrada marcada por uma escada coberta de musgo aparafusada bem apertado. Eu só podia ver um pouco adiante antes que a passagem se ocultasse, fazendo uma curva para a escuridão sem sol.
— Para onde ela vai? — perguntei.
— Para onde os anjos temem passar — respondeu Sharon. — Este não é o ponto de desembarque que eu teria escolhido para vocês, mas suas escolhas, agora, são limitadas. Vocês têm certeza de que não preferem ir logo embora do Retiro? Ainda há tempo.
Absoluta — disseram Emma e Addison simultaneamente.
Quanto a mim, eu adoraria debater a questão, mas agora era tarde demais para desistir. Trazê-los de volta ou morrer tentando era algo que eu dissera nos últimos dias. Era hora de avançar.
— Nesse caso, terra à vista — disse Sharon secamente. Ele pegou a amarra de atracação embaixo de seu assento, jogou-a sobre a escada e nos puxou na direção da margem. — Todo mundo para fora, por favor. Olhem onde pisam. Esperem, deixem-me ajudar.
Sharon subiu a escada escorregadia com a agilidade de quem já havia feito aquilo muitas vezes. Quando estava no alto, se ajoelhou na margem e estendeu a mão para nos ajudar a subir, um de cada vez. Emma foi primeiro, depois entreguei um Addison nervoso e agitado, e então, como eu era orgulhoso e tolo, subi a escada sem pegar a mão de Sharon; quase escorreguei.
Quando estávamos todos seguros em terra, o barqueiro desceu de volta pela escada. Ele deixara o motor em ponto morto.
— Espere um minuto — disse Emma. — Aonde você vai?
— Embora daqui! — respondeu Sharon, saltando da escada para o barco. — Vocês poderiam jogar a corda?
— Eu, não! Você primeiro precisa nos mostrar aonde ir. Não temos ideia de onde estamos.
— Não faço passeios em terra. Sou estritamente um guia de barcos.
Nós nos entreolhamos sem acreditar.
— Pelo menos nos dê indicações! — implorei.
— Ou melhor ainda, um mapa — disse Addison.
— Um mapa! — exclamou Sharon, como se aquilo fosse a coisa mais tola que ele já tivesse ouvido. — Há mais passagens de ladrões, túneis de assassinos e covis ilegais no Recanto do Demônio do que em qualquer outro lugar do mundo. É impossível mapear este lugar! Agora deixem de ser infantis e me passem minha corda.
— Não até que você nos conte algo útil! — disse Emma. — O nome de alguém que possa nos ajudar, que não vá tentar nos vender para os acólitos!
Sharon deu uma gargalhada.
Emma assumiu uma postura desafiadora.
— Deve haver um.
Sharon fez uma reverência.
— Você está falando com ele! — Em seguida subiu a escada até a metade e pegou a corda das mãos de Emma. — Chega disso. Adeus, crianças. Tenho quase certeza de que nunca mais verei vocês de novo.
E com isso ele entrou no barco, enfiando a vara em uma poça de água até o tornozelo. Sharon soltou um gritinho agudo e se abaixou para olhar. Parecia que os tiros que erraram nossas cabeças tinham aberto alguns furos no casco, provocando vazamentos.
— Vejam o que vocês fizeram! Meu barco foi esburacado por balas!
Os olhos de Emma brilharam.
— O que nós fizemos?
Sharon fez uma inspeção rápida e concluiu que os danos eram graves.
— Estou ilhado! — anunciou ele dramaticamente, depois desligou o motor, retraiu sua vara até ficar do tamanho de uma bengala e subiu a escada outra vez. — Vou encontrar um artesão qualificado para consertar meu bote — disse ele, passando apressado por nós. — E não quero vocês me seguindo.
Nós o seguimos em fila indiana pela passagem estreita.
— E por que não? — berrou Emma.
— Por que vocês estão amaldiçoados! Azar! — Sharon agitou os braços para trás como se espantasse moscas. — Chispa daqui!
— O que quer dizer com “chispa”? — Ela correu alguns passos e segurou o braço de Sharon, coberto pela capa.
Ele girou rapidamente para trás e se soltou com um puxão, e pensei por um instante que fosse bater em Emma. Fiquei tenso, pronto para saltar sobre ele, mas sua mão apenas ficou ali parada, um alerta.
— Já perdi a conta de quantas vezes percorri esta rota e nunca fui atacado por piratas do Valão. Nunca fui forçado a deixar minha proteção e a usar meu motor a gasolina. E nunca, nunca, meu barco foi avariado. Vocês são problema demais, não valem a pena, simples assim, e não quero ter mais nada a ver com vocês.
Enquanto ele falava, olhei para a passagem mais adiante, atrás dele. Meus olhos ainda estavam se adaptando à escuridão, mas o que vi foi aterrorizante: sinuosa e intricada como um labirinto, ela era margeada por soleiras sem portas, mais parecendo uma boca desdentada, e estava viva, com ruídos sinistros — murmúrios, arranhões, passos rápidos. Mesmo naquele momento, eu podia sentir olhos famintos a nos observar, facas sendo sacadas.
Não podíamos ser deixados ali sozinhos. Só nos restava implorar.
— Vamos pagar o dobro do que prometemos — falei.
— E consertamos seu barco — interveio Addison.
— Não me interessa o maldito trocado de seus bolsos! — disse Sharon. — Não veem que estou arruinado? Como posso voltar ao Recanto do Demônio? Acham que os abutres vão me deixar em paz, agora que meus clientes mataram dois deles?
— O que você queria que a gente fizesse? — disse Emma. — A gente teve que lutar para se defender!
— Não seja tolinha. Eles jamais teriam forçado a questão se não fosse por… por aquilo… — Sharon olhou para mim, sua voz se reduzindo a um murmúrio. — Você podia ter mencionado mais cedo que estava em conluio com criaturas da noite!
— Hã… eu não diria exatamente “em conluio com”…
— Não tenho medo de muita coisa neste mundo, mas, como regra geral, mantenho distância de monstros sugadores de almas, e aparentemente tem um seguindo vocês como um cachorro. Imagino que ele vá aparecer a qualquer minuto.
— Improvável — disse Addison. — Não se lembra de alguns momentos atrás, quando uma passarela caiu na cabeça dele?
— Só uma passarelinha pequena — disse Sharon. — Agora, se me dão licença, preciso ver um homem para tratar a respeito do meu barco.
E, com isso, foi embora apressado.
Antes que pudéssemos alcançá-lo, Sharon virou uma esquina e, quando chegamos até lá, ele havia sumido, talvez desaparecido em um daqueles túneis que mencionara. Andamos em círculos, confusos e com medo.
— Não acredito que ele tenha simplesmente nos abandonado desse jeito! — falei.
— Nem eu — disse Addison. — Na verdade, não acho que ele tenha feito isso, acho que está negociando. — O cachorro limpou a garganta, sentou sobre as patas traseiras e se dirigiu aos telhados com uma voz trovejante: — Bom senhor! Pretendemos resgatar nossos amigos e nossas ymbrynes, e escreva o que eu digo, nós vamos resgatá-los, e quando fizermos isso, e eles souberem como você nos ajudou, vão ficar muito agradecidos.
Ele deixou que isso ecoasse por algum tempo, depois prosseguiu:
— Não importa a compaixão. Que se dane a lealdade! Se for uma pessoa tão inteligente e ambiciosa quanto acho que é, vai reconhecer uma oportunidade extraordinária de progresso ao ver uma. Já estamos em dívida com você, mas tomar moedas de crianças e animais é um modo de vida terrivelmente modesto em comparação com o que poderia significar ter várias ymbrynes em débito com você. Talvez aprecie a ideia de ter uma fenda só para você, seu próprio parque de diversões sem outros peculiares para estragar! Em qualquer época e lugar que quisesse: uma ilha tropical exuberante em uma era de paz permanente, algum local discreto em época de praga. O que preferisse.
— Elas poderiam realmente fazer isso? — sussurrei para Emma.
Ela deu de ombros.
— Imagine as possibilidades! — entusiasmou-se Addison.
Sua voz ecoou longe. Esperamos, atentos.
Em algum lugar, duas pessoas discutiam.
Uma tosse seca. Algo pesado foi arrastado escada abaixo.
— Bem, foi um belo discurso — disse Emma, com um suspiro.
— Agora esquece ele — falei, espiando no interior das passagens que se ramificavam para a esquerda, para a direita e em frente. — Por onde?
Escolhemos uma passagem qualquer, logo em frente. Tínhamos dado apenas dez passos quando ouvimos uma voz:
— Eu não iria por esse caminho, se fosse vocês. Esse é o Beco dos Canibais, e não se trata apenas de um apelido engraçadinho.
Lá estava Sharon atrás de nós, as mãos na cintura como um professor de educação física.
— Meu coração deve estar ficando mole com a velhice — disse ele. — Ou isso, ou minha cabeça.
— Isso significa que você vai nos ajudar? — perguntou Emma.
Uma chuva fraca começara a cair. Sharon olhou para cima, deixando que um pouco respingasse em seu rosto escondido.
— Conheço um advogado aqui. Primeiro quero que vocês assinem um contrato determinando o que me devem.
— Certo, certo — disse Emma. — Mas você vai nos ajudar?
— Eu precisaria consertar meu barco.
— E depois?
— Depois eu ajudo vocês. Embora não possa prometer resultado nenhum; e quero deixar logo claro que acho vocês uns tolos.
Não conseguimos nos forçar a agradecer, considerando o que ele nos fizera passar.
— Agora, fiquem por perto e sigam todas as minhas instruções ao pé da letra. Vocês mataram dois abutres hoje, e eles vão estar à sua caça, escrevam o que eu digo.
Concordamos imediatamente.
— Se forem pegos, vocês não me conhecem. Nunca me viram.
Fizemos que sim, balançando a cabeça como bonequinhos de mola.
— E, aconteça o que acontecer, nunca, nunca toquem sequer em uma gota de ambrosia, ou juro por meus olhos que vocês jamais vão sair deste lugar.
— Não sei o que é isso — falei, e notei que Emma e Addison também não faziam ideia.
— Vocês vão descobrir — disse Sharon de modo sinistro, e, com um movimento de sua capa, ele se virou e mergulhou no labirinto.

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