10 de abril de 2017

Capítulo dois

Os cascos unidos dos barcos foram raspando nos baixios de pedra até parar. Nos reunimos na beira da água bem no momento em que o sol começava a descer atrás de quilômetros de nuvens cinza, talvez uma hora antes de anoitecer.
Estávamos em uma península pedregosa cheia de dejetos deixados pela maré baixa, mas para mim era linda, mais bonita do que qualquer praia turística do meu país, com suas areias claras como champanhe. Se estávamos ali, queria dizer que tínhamos conseguido. Era difícil imaginar o que isso significava para os outros, já que a maioria passara toda a vida sem sair de Cairnholm. Naquele momento, eles olhavam pasmos ao redor, maravilhados por ainda estarem vivos, perguntando-se o que fazer dali em diante.
Descemos trôpegos dos barcos, as pernas como que de borracha. Fiona, com as mãos em concha, pegou um punhado de seixos cobertos de musgo, os enfiou na boca e os rolou pela língua, como se precisasse dos cinco sentidos para se convencer de que não estava sonhando — exatamente como eu me senti na primeira vez que entrei na fenda temporal da srta. Peregrine. Em toda a minha vida, eu nunca desconfiara tanto dos meus próprios olhos. Bronwyn gemeu e se deixou desabar no chão, indescritivelmente exausta. Estava cercada, sendo paparicada e coberta de agradecimentos por tudo o que havia feito, mas era uma sensação esquisita; nossa dívida com ela era grande demais, e a palavra obrigado, pequena demais. Bronwyn tentava dispensar os agradecimentos com gestos, mas o esgotamento mal lhe permitia erguer as mãos. Enquanto isso, Emma e os garotos puxavam Olive das nuvens.
— Você está mesmo azul! — exclamou Emma ao vê-la surgir através da névoa, e pulou para abraçá-la.
Olive estava encharcada e congelada, batendo os dentes. Sem cobertores ou qualquer roupa seca para cobri-la, Emma afagou o corpo de Olive com sua mão quente até sentir que os tremores tinham diminuído, depois mandou Fiona e Horace arranjar lenha para acendermos uma fogueira. Enquanto aguardávamos o retorno dos dois, nos reunimos ao redor dos barcos para avaliar o que havíamos perdido no mar. Foi um inventário triste. Quase tudo o que tínhamos levado conosco era, agora, lixo no fundo do oceano.
Sobravam apenas as roupas do corpo, uma pequena quantidade de comida em latas enferrujadas e o gigantesco baú de viagem de Bronwyn, indestrutível e aparentemente inafundável, além de tão absurdamente pesado que ninguém que não a própria Bronwyn sonharia carregá-lo. Arrebentamos os trincos de metal, ansiosos por encontrar algo útil ou, ainda melhor, comestível, mas continha apenas uma coleção de três volumes de histórias chamada Contos peculiares, as páginas inchadas pela água do mar, além de um estranho tapete de banheiro bordado com as letras ALP: as iniciais da srta. Peregrine.
— Ah, graças a Deus alguém lembrou de trazer o tapete de banheiro — comentou Enoch, sem emoção na voz. — Estamos salvos.
Tínhamos perdido todo o resto, incluindo os dois mapas: o pequeno, que Emma usara para nos conduzir pelo canal, e o enorme atlas das fendas encadernado em couro, o bem mais valioso de Millard, o Mapa dos dias. Quando percebeu isso, ele começou a passar mal de nervosismo.
— Aquele era um dos cinco exemplares que existem no mundo! — gemeu ele. — De valor inestimável! Sem falar dos anos de anotações pessoais!
— Pelo menos ainda temos os Contos peculiares — retrucou Claire, espremendo os cachos louros para tirar o excesso de água do mar. — Não consigo dormir sem ouvir um deles.
— De que adiantam contos de fadas se não conseguirmos encontrar o caminho? — perguntou Millard.
Caminho para onde?, eu me perguntei. Percebi que, na pressa para fugir da ilha, eu só tinha ouvido as crianças discutirem sobre como chegar ao continente, mas nunca tinham conversado sobre o que faríamos quando chegássemos. Era como se a ideia de sobreviver à jornada naqueles barquinhos fosse tão absurda, tão cômica e otimista que fazer planos para depois seria perda de tempo. Me voltei para Emma em busca de conforto, como sempre fazia. Ela contemplava a praia com um olhar sombrio. A faixa de areia pedregosa descia em dunas baixas, onde o capim ondulava. Mais ao longe havia uma floresta: uma barreira verde de aparência impenetrável que avançava para os dois lados até onde a vista alcançava. Emma, baseando-se no mapa agora perdido, vinha nos direcionando para certa cidadezinha portuária, mas, depois da tempestade, só queríamos chegar a terra firme, qualquer que fosse. Não dava para saber quanto havíamos nos afastado de nosso curso. Eu não via estradas, placas de sinalização nem mesmo pegadas. Só a floresta.
Mas é claro que, na verdade, não precisávamos de mapa, placas nem nada. Precisávamos da srta. Peregrine — inteira e curada. Ela saberia exatamente para onde ir e como chegar a salvo. Empoleirada em um afloramento rochoso à nossa frente, agitando as penas para secá-las, a srta. Peregrine estava tão inválida quanto a asa machucada, que pendia em um assustador formato em V. Era nítido que as crianças sofriam por vê-la daquele jeito. A srta. Peregrine era a mãe, a protetora delas; tinha sido a rainha do pequeno mundo que habitavam naquela ilhota, mas agora não podia falar, não podia parar o tempo, não podia sequer voar. Quando a viram, as crianças pareceram se encolher de dor ligeiramente e então desviaram o olhar.
A srta. Peregrine mantinha o olhar fixo no mar cinza como ardósia. Um olhar duro e negro, que continha um pesar indizível.
Parecia dizer: Eu falhei com vocês.

* * *

Horace e Fiona deram a volta pela praia rochosa até nós, o vento levantando o cabelo desgrenhado de Fiona como uma nuvem de tempestade, Horace dando pulinhos, as mãos agarradas às abas laterais da cartola para mantê-la na cabeça. Não sei como ele conseguira não perdê-la durante aquele quase desastre no mar, mas agora estava vergada para o lado, como um cano de escapamento. Mesmo assim, ele se recusava a tirá-la. Dizia que era a única coisa que combinava com seu elegante terno encharcado e enlameado.
Eles vinham de mãos vazias.
— Não tem madeira por aqui! — exclamou Horace quando os dois nos alcançaram.
— Vocês procuraram na floresta? — indagou Emma, apontando para a linha escura de árvores atrás das dunas.
— É muito assustador — respondeu Horace. — Ouvimos uma coruja piando.
— Desde quando você tem medo de aves?
Horace deu de ombros e baixou o olhar. Mas Fiona o cutucou com o cotovelo, e ele pareceu se lembrar de algo.
— Mas encontramos outra coisa.
— Abrigo? — perguntou Emma.
— Uma estrada? — perguntou Millard.
— Um ganso para o jantar? — perguntou Claire.
— Não — respondeu Horace. — Balões.
Houve um breve silêncio de curiosidade.
— Como assim balões? — indagou Emma.
— Grandes, no céu, com homens dentro.
Emma fechou a cara.
— Mostre para a gente.
Seguimos os dois por onde tinham chegado, fazendo uma curva na praia e subindo uma encosta baixa. Eu me perguntava como era possível que tivéssemos deixado de notar algo tão óbvio como balões de ar quente, até que chegamos ao topo de um morro e os vi. Não eram aquelas coisas grandes e coloridas em forma de gota que vemos em calendários de parede e em cartazes motivacionais (O céu é o limite!), mas um par de zepelins em miniatura: bolsas ovaladas de tecido negro cheias de gás. Levavam gaiolas esqueléticas presas abaixo, cada uma acomodando um único piloto. Os dirigíveis eram pequenos e voavam baixo, inclinando-se para a frente e para trás em zigue-zagues preguiçosos, e o ruído das ondas abafara o leve zumbido das hélices. Emma nos conduziu até o aglomerado de capim alto, e nos abaixamos para não sermos vistos.
— São caçadores de submarinos — explicou Enoch, respondendo à pergunta antes mesmo de qualquer um fazê-la em voz alta.
Millard podia ser a autoridade quando se tratava de mapas e livros, mas Enoch era o especialista em qualquer assunto militar. Ele concluiu:
— A melhor maneira de reconhecer submarinos inimigos é do alto.
— Então por que estão voando tão perto do chão? — perguntei. — E por que não estão longe, em mar aberto?
— Isso eu não sei.
— Você acha que eles podem estar procurando por... nós? — arriscou Horace.
— Quer saber se os pilotos são acólitos? Claro que não. Os acólitos estão do lado dos alemães. Estão naquele submarino alemão.
— Os acólitos se aliam a qualquer um que sirva a seus propósitos — retrucou Millard. — Não temos como saber se eles não se infiltraram em organizações dos dois lados da guerra.
Eu não conseguia tirar os olhos daquelas engenhocas esquisitas. Não pareciam naturais; eram como insetos mecânicos inchados, com um tumor em forma de ovo nas costas.
— Não gosto do jeito como eles estão voando — comentou Enoch, os olhos aguçados indicando que o cérebro estava a mil. — Estão fazendo uma busca na costa, não no mar.
— Uma busca? Estão procurando o quê? — perguntou Bronwyn, mas a resposta era óbvia e assustadora, e ninguém queria dizê-la.
Estavam procurando por nós.
O grupo se apertou mais no capinzal, e senti o corpo de Emma tenso junto ao meu.
— Corram quando eu disser para correr — sussurrou ela. — Vamos esconder os barcos e depois procuramos esconderijo para nós mesmos.
Ficamos esperando os dirigíveis mudarem de direção e só então saímos do capinzal, torcendo para que estivéssemos longe demais para sermos localizados.
Enquanto corríamos, me peguei desejando a neblina que tanto nos atormentara em alto-mar, para nos esconder. Muito provavelmente, ela já nos tinha salvado uma vez: sem a névoa, aqueles balões teriam nos avistado horas antes, quando ainda estávamos nos barcos e não tínhamos para onde fugir. Pensando dessa forma, tinha sido o último gesto da ilha na tentativa de salvar suas crianças peculiares.


* * *

Arrastamos os barcos pela praia em direção a uma caverna marinha. A entrada era uma fenda escura em meio a um aglomerado de rochas. Bronwyn esgotara suas forças remando e mal conseguia arrastar a si mesma adiante, muito menos os barcos, então tivemos que dar um jeito, gemendo e empurrando os cascos, que insistiam em enterrar as pontas na areia molhada. A meio caminho da praia, a srta. Peregrine soltou um pio de aviso, e os dois zepelins surgiram em nosso campo de visão, acima das dunas. Corremos em disparada, movidos pela adrenalina, empurrando os barcos para a gruta como se estivessem sobre trilhos, enquanto a srta. Peregrine pulava de modo desajeitado ao nosso lado, arrastando pela areia a asa quebrada.
Quando finalmente estávamos fora de vista, soltamos os barcos e caímos sobre os cascos virados, nossa respiração sôfrega ecoando na escuridão úmida e gotejante.
— Por favor, por favor, que eles não tenham nos visto — pediu Emma.
— Ah, pelas aves! Nossos rastros! — gritou Millard.
Ele tirou o sobretudo e saiu correndo da caverna para cobrir as marcas deixadas pelos barcos ao serem arrastados. Do céu, pareceriam setas apontando para nosso esconderijo. Só conseguimos ficar olhando enquanto os passos dele se afastavam. Se qualquer outra pessoa que não Millard tivesse saído, com certeza seria vista.
Ele voltou logo, trêmulo e coberto de areia, uma mancha vermelha delineando o peito.
— Eles estão chegando perto — anunciou, ofegante. — Fiz o melhor que pude.
— Você está sangrando de novo! — exclamou Bronwyn, preocupada. Millard tinha levado um tiro de raspão durante a luta no farol, na noite anterior, e, apesar de estar se recuperando com uma rapidez impressionante, ainda faltava muito para a ferida cicatrizar. — O que você fez com as ataduras?
— Joguei fora. Estavam presas de um jeito tão complicado que não consegui tirá-las depressa. Um invisível precisa estar sempre pronto para se despir em um segundo, senão nosso poder é inútil!
— É ainda mais inútil com você morto, sua mula teimosa — retrucou Emma. — Agora fique quieto e não reclame. Isso vai doer.
Ela apertou dois dedos na palma da outra mão e se concentrou. Quando os afastou, brilhavam em um vermelho intenso como brasas.
Millard se encolheu.
— Ah, Emma, eu preferiria que você não...
Ela apertou os dois dedos sobre o ferimento. Millard conteve um grito de dor. Ouvimos um som de carne queimando e vimos uma espiral de fumaça se erguer de sua pele invisível. Em um instante o sangramento parou.
— Vou ficar com uma cicatriz! — queixou-se Millard.
— É? E quem vai ver?
Ele não respondeu, emburrado.
O ruído dos motores dos zepelins ficou mais alto, depois mais ainda, amplificado pelas paredes de pedra da caverna. Eu os imaginava planando acima de nosso esconderijo, analisando nossas pegadas, preparando o ataque.
Emma apoiou o ombro no meu. Os mais novos correram para Bronwyn e afundaram o rosto no colo dela, ganhando um abraço. Apesar dos poderes peculiares, estávamos nos sentindo completamente impotentes. Só nos restava ficarmos sentados, encolhidos, olhando uns para os outros à pálida meia-luz, o nariz escorrendo por causa do frio, e torcer para que nossos inimigos fossem embora.
Finalmente, o barulho do giro dos motores começou a diminuir, e, quando conseguimos voltar a ouvir nossas vozes outra vez, Claire balbuciou no colo de Bronwyn:
— Conte uma história para a gente, Wyn. Estou com medo e não gosto nem um pouco daqui e acho que quero ouvir uma história.
— É! Conta uma — implorou Olive. — Uma das histórias dos Contos, por favor. São minhas preferidas!
A mais maternal das peculiares, Bronwyn era vista pelos mais novos como uma mãe, mais até do que a srta. Peregrine. Era Bronwyn quem os cobria antes de dormir, quem lia histórias para eles e lhes dava beijo na testa. Seus braços fortes pareciam feitos para abraços quentes; seus ombros largos, perfeitos para carregá-los no colo. No entanto, aquela não era hora para histórias, e foi exatamente isso que Bronwyn disse.
— É claro que é hora! — retrucou Enoch, com sarcasmo. — Mas vamos pular os Contos. Conte a história de como os protegidos da srta. Peregrine se salvaram sem mapa nem comida e não foram comidos por etéreos até chegarem a um lugar seguro! Estou morrendo de curiosidade para saber como essa história termina.
— Se a srta. Peregrine pudesse contar... — choramingou Claire, lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela se desvencilhou de Bronwyn e foi até a ave, que nos observava, empoleirada na quilha de um dos barcos virados. — O que fazer, diretora? Por favor, volte a ser humana. Por favor, acorde!
A srta. Peregrine piou e acariciou o cabelo de Claire com a asa. Depois, Olive se aproximou delas, o rosto coberto de lágrimas.
— Srta. Peregrine, precisamos de você! Estamos perdidos, em perigo e cada vez mais famintos. Não temos mais casa nem amigos além de uns aos outros. Precisamos de você!
Os olhos negros da srta. Peregrine brilharam. Ela virou a cabeça, inacessível.
Bronwyn se ajoelhou ao lado das meninas.
— Ela não pode se transformar agora, queridas. Mas vamos curá-la, eu juro.
— Como? — inquiriu Olive.
A pergunta reverberou pelas paredes da caverna e o eco a repetiu várias vezes.
Emma se levantou.
— Vou dizer como. — Todos se voltaram para ela. — Vamos andar. — Emma disse isso com tamanha convicção que senti um calafrio. — Vamos andar e andar até chegarmos a alguma cidade.
— E se não tiver nenhuma cidade em cinquenta quilômetros? — questionou Enoch.
— Então vamos andar cinquenta e um quilômetros. Mas sei que não saímos tanto assim do curso.
— E se os acólitos nos virem lá do céu? — perguntou Hugh.
— Eles não vão nos ver. Vamos tomar cuidado.
— E se estiverem esperando por nós na cidade? — indagou Horace.
— Vamos fingir ser normais. Conseguimos nos disfarçar.
— Eu nunca fui muito bom nisso — retrucou Millard, rindo.
— Você nem vai ser visto, Mill. Vai ser nosso batedor e vai procurar coisas que possam ser necessárias.
— Até que eu sou um ladrão bem talentoso mesmo — comentou ele, com um toque de orgulho. — Um verdadeiro mestre das artes dos cinco dedos.
— E depois? — murmurou Enoch, amargurado. — Talvez a gente consiga encher a barriga e arranjar um lugar para dormir, mas ainda vamos estar em campo aberto, expostos, vulneráveis, fora de uma fenda temporal... e a srta. Peregrine está... ainda está...
— Vamos dar um jeito de encontrar uma fenda — respondeu Emma. — Existem marcos e placas indicativas para quem sabe o que procurar. Se não encontrarmos nenhum, vamos achar alguém como nós, um peculiar que possa nos mostrar onde fica a fenda mais próxima. E lá vai ter uma ymbryne, e ela vai poder ajudar a srta. Peregrine.
Eu nunca tinha conhecido alguém com tanta confiança quanto Emma. Tudo nela exalava isso: a postura, com os ombros jogados para trás; os dentes cerrados quando ela tomava alguma decisão; o modo como terminava cada frase com um ponto final, nunca com um ponto de interrogação. Era contagiante, e eu adorava. Tive que conter uma vontade súbita de beijá-la, bem ali, na frente de todo mundo.
Hugh pigarreou. Abelhas saíram de sua boca, formando um ponto de interrogação que vibrava no ar.
— Como é que você pode ter tanta certeza? — perguntou.
— Tendo. Simples assim. — Ela esfregou as mãos como se o assunto estivesse encerrado.
— Você fez um belo discurso motivacional, e eu odeio ter que estragá-lo — comentou Millard —, mas, pelo que sabemos, a srta. Peregrine é a única ymbryne que não foi capturada. Lembre-se do que a srta. Avocet nos contou: fazia semanas que os acólitos estavam atacando as fendas e raptando as ymbrynes. Ou seja, mesmo que a gente consiga encontrar uma fenda, não dá para saber se a ymbryne ainda estará lá ou se o lugar foi ocupado pelos nossos inimigos. Não podemos simplesmente sair batendo na porta das fendas e torcer para que não estejam cheias de acólitos.
— Ou cercadas de etéreos famintos — completou Enoch.
— Não precisamos torcer — retrucou Emma, e sorriu para mim. — Jacob vai nos dizer.
Meu corpo inteiro gelou.
— Eu?
— Você consegue sentir a presença de etéreos de longe, não consegue? — perguntou Emma. — Além de vê-los.
— Quando estão perto, sinto como se eu fosse vomitar — admiti.
— A que distância? — perguntou Millard. — Se forem só alguns metros, ainda poderemos ser devorados. Precisamos que você sinta a presença deles a uma distância bem maior.
— Bem, eu nunca testei isso — respondi. — É tudo muito novo para mim.
Eu só tinha sido exposto ao etéreo do dr. Golan, Malthus, a criatura que matara meu avô e depois quase me afogara no pântano de Cairnholm. A que distância ele estava quando eu o sentira pela primeira vez atrás de mim, à espreita do lado de fora da minha casa, em Englewood? Era impossível saber.
— Isso não importa, seu talento pode ser desenvolvido — explicou Millard. — Peculiaridades são um pouco como músculos: quanto mais você as exercita, maiores ficam.
— Isso é loucura! — exclamou Enoch. — Vocês estão tão desesperados que apostariam tudo nele? Ele é só um menino, um garoto normal e fraco que não sabe quase nada do nosso mundo!
— Jacob não é normal — retrucou Emma, fazendo cara feia, como se aquele fosse o pior dos insultos. — É um de nós!
— Que baboseira! — berrou Enoch. — Ter um traço de sangue peculiar nas veias não faz dele meu irmão. E com certeza não faz dele meu protetor! Não sabemos do que ele é capaz... Se ele sentisse alguma coisa, provavelmente não saberia se são gases ou se é a presença de um etéreo a cinquenta metros!
— Ele matou um deles, não matou? — interveio Bronwyn. — Apunhalou o maldito nos olhos! Quando foi a última vez que você ouviu falar de um peculiar tão novo fazendo algo do tipo?
— Desde Abe — respondeu Hugh, e, à menção do nome dele, um silêncio reverente baixou sobre nós.
— Eu soube que uma vez ele matou um só com as mãos — comentou Bronwyn.
— Eu ouvi dizer que ele matou um com uma agulha de tricô e um pedaço de corda — completou Horace. — Quer dizer, eu sonhei isso, então tenho certeza de que aconteceu.
— Metade dessas histórias é exagero, e elas ficam cada vez mais exageradas a cada ano que passa — retrucou Enoch. — O Abraham Portman que eu conheci nunca moveu um dedo para nos ajudar.
— Ele era um grande peculiar! — exclamou Bronwyn. — Lutou bravamente e matou muitos etéreos pela nossa causa!
— Depois fugiu e nos deixou escondidos naquela casa como refugiados enquanto saía pela América em busca de prazeres, bancando o herói.
— Você não sabe do que está falando — interveio Emma, vermelha de raiva. — A história vai muito além disso.
Enoch deu de ombros.
— Enfim. Essa não é a questão — continuou. — Não importa a opinião de vocês sobre Abe, esse garoto não é ele.
Naquele momento, odiei Enoch, mas não podia culpá-lo por suas dúvidas em relação a mim. Como os outros, tão seguros e experientes em suas habilidades, poderiam depositar tanta fé na minha habilidade, em algo que eu só estava começando a compreender e que descobrira ser capaz de fazer havia apenas alguns dias? Parecia irrelevante quem era meu avô. Eu não sabia mesmo o que estava fazendo.
— Você tem razão, eu não sou meu avô. Sou só um garoto da Flórida. Devo ter matado aquele etéreo por pura sorte.
— Bobagem — retrucou Emma. — Um dia você vai ser tão bom em matar etéreos quanto Abe.
— Espero que esse dia chegue logo — comentou Hugh.
— É seu destino — concordou Horace. O modo como disse isso me fez achar que ele sabia de alguma coisa.
— E mesmo que não seja — completou Hugh, dando um tapinha nas minhas costas —, você é nossa única opção, parceiro.
— Se isso é verdade, que a ave ajude a todos nós — comentou Enoch.
Minha cabeça estava girando. O peso das expectativas deles ameaçava me esmagar. Fiquei de pé, zonzo, e fui até a saída da gruta.
— Preciso de ar — falei, afastando Enoch do meu caminho.
— Jacob! Espere! — chamou Emma. — Os balões!
Mas eles já tinham ido embora havia muito tempo.
— Deixa ele — resmungou Enoch. — De repente a gente dá sorte e ele volta nadando para os Estados Unidos.

* * *

Enquanto eu caminhava até a beira da água, tentei me ver pelos olhos de meus novos amigos — ou pelo menos da forma como eles queriam me enxergar: não como Jacob, o garoto que uma vez quebrou o tornozelo correndo atrás de um carrinho de sorvete ou que, a contragosto, por insistência do pai, tentou entrar para a equipe de atletismo da escola (e fracassou três vezes), e sim como o Jacob inspetor de sombras, intérprete milagroso de sensações ruins no estômago, vidente e matador de monstros reais e verdadeiros, além de tudo o mais que pudesse ameaçar a vida de nosso alegre bando de peculiares.
Como eu poderia ficar à altura do legado de meu avô?
Subi em uma pilha de rochas na beira da água e fiquei ali de pé, torcendo para que a brisa incessante secasse minhas roupas. À luz fraca do entardecer, observei o mar, uma tela de tons de cinza em movimento, misturando-se e escurecendo.
Volta e meia, uma luz cintilava ao longe. Era o farol de Cairnholm, brilhando um olá e um último adeus.
Deixei a mente vagar. Comecei a sonhar acordado.
Vejo um homem. De meia-idade, coberto por uma lama de excrementos, rastejando lentamente pela borda de um precipício, o cabelo ralo todo despenteado e molhado caindo no rosto. O vento açoita seu paletó, fino como uma vela de navio. Ele para e se apoia nos cotovelos. Então os encaixa em buracos que fez semanas atrás, quando estava explorando aqueles abrigos em busca de andorinhas-do-mar em processo de acasalamento ou de ninhos de petréis. O homem leva um par de binóculos aos olhos, mas os aponta para abaixo dos ninhos, para uma pequena praia estreita em forma de meia-lua onde a maré cheia começa a depositar entulhos: pedaços de madeira e algas, restos de barcos destroçados — e às vezes, segundo os moradores locais, cadáveres.
O homem é meu pai. Ele está procurando algo que deseja desesperadamente não encontrar.
Está procurando o corpo do filho.


Senti alguém encostar no meu sapato e abri os olhos, assustado, saindo do devaneio. Já estava quase escuro, e percebi que tinha me sentado nas pedras, os joelhos junto ao peito. De repente, Emma apareceu, de pé ao meu lado, a brisa soprando seu cabelo.
— Como você está? — perguntou ela.
Era uma pergunta que exigiria matemática de nível universitário e cerca de uma hora de discussão para responder. Eu sentia cem emoções conflitantes, e a maior parte perdia para o frio e o cansaço e a falta de vontade de conversar. Por isso, respondi apenas:
— Estou bem, só tentando me secar. — E sacudi a frente do suéter ensopado, para ilustrar.
— Posso ajudar você com isso. — Emma subiu as pedras e se sentou ao meu lado. — Me dê o seu braço.
Obedeci. Emma pousou meu braço sobre os joelhos dela, levou à boca as mãos em concha e aproximou a cabeça do meu pulso. Depois, respirando fundo, expirou o ar lentamente através das mãos. Um calor incrível e agradável subiu pelo meu braço; uma sensação que estava no limite da dor.
— Foi forte demais? — perguntou ela.
Eu me retesei, sentindo um tremor percorrer meu corpo, mas balancei a cabeça em negativa.
— Que bom. — Ela se aproximou da parte superior do meu braço para expirar outra vez. Mais uma pulsação de calor agradável. Entre respirações, ela continuou: — Espero que não esteja incomodado pelo que Enoch anda dizendo. Todos os outros acreditam em você, Jacob. Enoch às vezes age como um velho implicante e insensível, ainda mais quando está com ciúmes.
— Acho que ele tem razão — retruquei.
— Você não pode estar falando sério.
Tudo saiu de uma vez só:
— Não tenho a menor ideia do que eu estou fazendo. Como qualquer um de vocês pode depender de mim? Se eu sou mesmo peculiar, devo ser só um pouquinho. Mais ou menos um quarto peculiar, enquanto vocês são de sangue puro.
— Não é assim que funciona — respondeu Emma, rindo.
— Mas meu avô era mais peculiar que eu. Só pode. Ele era tão forte...
— Não, Jacob — retrucou ela, semicerrando os olhos. — É impressionante. Você é igual a ele de muitas maneiras. E também é diferente, claro: mais gentil, mais doce... Mas tudo o que você está dizendo... Você parece o Abe logo que chegou para ficar com a gente.
— Pareço?
— Sim. Ele também ficava confuso. Nunca tinha conhecido outro peculiar. Não entendia o poder que tinha, nem como funcionava ou o que era capaz de fazer. Nem nós, para falar a verdade. O que você pode fazer é muito raro. Muito raro. Mas seu avô aprendeu a usar o poder.
— Como? — perguntei. — Onde?
— Na guerra. Ele fazia parte de uma célula secreta do Exército britânico, só de peculiares. Combatiam alemães e etéreos ao mesmo tempo. Ninguém distribui medalhas pelo tipo de coisas que eles faziam, mas todos eram heróis para nós, principalmente o seu avô. O sacrifício deles retardou em décadas o avanço dos corrompidos e salvou a vida de inúmeros peculiares.
E mesmo assim, pensei, ele não conseguiu salvar os próprios pais. Que coisa estranhamente trágica.
— E posso garantir uma coisa: você é tão peculiar quanto ele... e também tão corajoso quanto.
— Rá. Você só está tentando fazer com que eu me sinta melhor.
— Não — respondeu ela, me encarando. — Não estou. Você vai ver, Jacob. Um dia, vai ser um matador de etéreos ainda melhor do que ele.
— É. É o que todo mundo anda dizendo. Como você pode ter tanta certeza?
— É uma coisa que eu sinto lá no fundo — explicou Emma. — Acho que é o que você deve ser. Da mesma forma que ir a Cairnholm era o que devia fazer.
— Não acredito nessas coisas. Sina. As estrelas. Destino.
— Eu não falei em destino.
— É o mesmo que esse “deve ser” — expliquei. — Destino é para personagens de livros sobre espadas mágicas. Uma grande bobagem. Estou aqui porque meu avô murmurou alguma coisa sobre a ilha nos dez segundos que esteve comigo antes de morrer, só por isso. Foi por acaso. Fico feliz que ele tenha feito isso, mas meu avô estava delirando. Podia muito bem ter me passado uma lista de compras.
— Mas não foi o que ele fez.
Suspirei, exasperado.
— E se sairmos à procura de fendas temporais achando que eu posso salvá-los de monstros, mas, em vez disso, eu acabar levando todos à morte? Isso também seria destino?
Ela franziu o cenho e pôs meu braço de volta em meu colo.
— Eu não falei em destino. Em minha visão, quando se trata das coisas realmente importantes da vida não existem acidentes. Tudo acontece por uma razão. Você está aqui por um motivo, e não é para cair e morrer.
Eu não tinha disposição para continuar discutindo.
— Está bem — respondi. — Não acho que você esteja certa, mas espero que esteja.
Eu já estava me sentindo mal por responder com grosseria antes, mas estava com frio, com medo e na defensiva. Eu tinha bons e maus momentos, pensamentos aterrorizados e confiantes. Naquela hora, no entanto, a proporção terror/confiança estava muito ruim, em mais ou menos três para um — e, nos momentos de terror, parecia que eu estava sendo forçado a assumir um papel que nunca quis: me apresentar voluntariamente na linha de frente de uma guerra cuja dimensão total nenhum de nós conhecia. “Destino” soava como uma obrigação, e, se eu ia ser lançado em uma batalha contra uma legião de criaturas saídas diretamente de um pesadelo, isso tinha que partir de uma decisão minha.
Se bem que, em certo sentido, a decisão foi tomada quando concordei em embarcar rumo ao desconhecido com aquelas crianças peculiares. E não era verdade — se eu fosse procurar nos recônditos empoeirados da mente — que eu nunca quisera aquilo. Eu sonhava com aquele tipo de aventura desde pequeno. Na época, eu acreditava em destino, acreditava plenamente, com cada fibra de meu pequenino coração infantil. Sentia algo parecido com uma coceira no peito quando ouvia as histórias extraordinárias de meu avô. Um dia vai ser a minha vez.
O que naquele momento parecia uma obrigação tinha sido, durante a minha infância, uma promessa: um dia eu escaparia da cidadezinha onde nascera para viver uma vida extraordinária, como meu avô. E um dia, também como meu avô, eu faria algo importante. Ele dizia: “Você vai ser grande, Yakob. Grande mesmo.” E eu perguntava: “Como você?” Ao que ele respondia: “Melhor que eu.”
Eu acreditava nele na época, e ainda queria acreditar. No entanto, quanto mais eu descobria a respeito de meu avô, maior ele se tornava aos meus olhos, e parecia cada vez mais impossível que eu conseguisse fazer algo tão importante quanto as coisas que ele fizera. Talvez só tentar já fosse suicídio. Quando eu me imaginava tentando, era invadido por pensamentos sobre meu pai, meu pobre pai, prestes a ficar arrasado. E, antes que eu conseguisse afastar da mente esses pensamentos, me perguntei como um grande homem podia fazer algo tão horrível com alguém que o amava.
Comecei a tremer.
— Você está gelado — disse Emma. — Vou terminar o que comecei.
Ela pegou meu outro braço e o beijou inteiro com seu hálito quente. Era quase mais do que eu podia suportar. Quando chegou ao meu ombro, em vez de pôr o braço em meu colo, Emma o passou em torno do pescoço. Ergui o outro braço para juntar os dois, e ela também me abraçou. Nossas testas se tocaram.
Falando muito baixo, Emma disse:
— Espero que não se arrependa da sua escolha. Fico muito feliz por você estar aqui com a gente. Não sei o que faria se você fosse embora. Acho que eu não ia ficar nada bem.
Pensei em voltar. Por um instante, tentei me visualizar fazendo isso: como seria se eu pudesse pegar um dos barcos, ir remando até a ilha e, de lá, voltar para casa.
Mas eu não poderia. Não conseguia sequer imaginar.
Sussurrei:
— Como eu poderia fazer isso?
— Quando a srta. Peregrine virar humana outra vez, ela vai poder mandar você de volta. Se você quiser.
Minha pergunta não tinha sido sobre logística. Eu simplesmente quis dizer: Como eu poderia deixar você? Mas essas palavras eram impronunciáveis, não conseguiam sair da minha garganta. Por isso eu as segurei dentro de mim e, em vez de dizê-las, beijei Emma.
Dessa vez, ela é que foi tomada de surpresa. Suas mãos se ergueram para tocar meu rosto, mas ela se deteve pouco antes de fazer contato. As palmas irradiavam ondas de calor.
— Me toque — pedi.
— Não quero queimar você — respondeu Emma, mas uma chuva de centelhas repentina dentro de meu peito anunciava: Eu não me importo.
Peguei seus dedos e os passei pelo rosto, e nós dois levamos um susto. Estava quente, mas não os afastei. Não ousei, com medo de que ela parasse de me tocar.
Então nossos lábios se encontraram outra vez e nos beijamos de novo, e fui tomado por seu calor extraordinário.
Meus olhos se fecharam. O mundo desapareceu.
Mal dava para sentir se meu corpo estava frio por causa da névoa noturna. Mal dava para ouvir se o mar rugia à minha volta. Mal dava para perceber se a rocha em que eu estava sentado era afiada e irregular. Tudo além de nós dois era uma distração.
Então, de repente, um estrondo ecoou no ar, mas não dei importância — eu não conseguia me desconectar de Emma — até que o som se repetiu, mais alto, com um horrível rangido de metal se juntando a ele, e uma luz cegante passou sobre nós. Finalmente, não consegui mais me desligar do mundo.
O farol, pensei. O farol está caindo no mar. Mas o farol era um pontinho ao longe, não uma luz brilhante como o sol. E sua luz só incidia em uma direção, não ia de um lado para o outro, procurando.
Não era o farol. Era um holofote de busca — e vinha da água, bem perto da orla.
Era o holofote de busca de um submarino.

* * *

Houve um breve segundo de terror, em que meu cérebro e minhas pernas pareceram desconectados. Meus olhos registraram o submarino não muito longe da orla: um monstro de metal erguendo-se do mar, água escorrendo pelas laterais, homens saindo para o convés por escotilhas abertas, gritando e apontando canhões de luz na nossa direção. Então o estímulo alcançou minhas pernas e nós dois pulamos, caímos, saímos das rochas e corremos como loucos.
O holofote projetou nossas sombras que disparavam na praia, alongadas, com quase três metros. Balas pontilhavam a areia e zuniam pelo ar.
Uma voz ecoou de um alto-falante:
— PAREM! NÃO CORRAM!
Entramos correndo na caverna. Eles estão chegando, estão aqui, levantem-se, levantem-se! Mas as crianças já tinham ouvido a barulheira e estavam de pé, menos Bronwyn, que, de tão cansada por conta da aventura no mar, caíra no sono apoiada na parede da caverna, e ninguém conseguia despertá-la. Sacudimos sua cabeça e gritamos em seu ouvido, mas ela só gemeu e nos afastou com o braço. Por fim, tivemos que levantá-la pela cintura, o que era como levantar uma torre de tijolos. Assim que os pés de Bronwyn tocaram o chão, suas pálpebras avermelhadas se abriram e ela sustentou o próprio peso.
Reunimos nossas coisas, aliviados por serem tão pequenas e tão poucas. Emma pegou a srta. Peregrine nos braços e saímos depressa dali. Enquanto corríamos para as dunas, vi atrás de nós silhuetas de homens avançando os últimos metros de água até a areia. Levavam armas nas mãos, estendidas acima da cabeça para mantê-las secas.
Corremos por uma fileira de árvores que balançavam ao vento e entramos na floresta sem trilhas. A escuridão nos envolveu. As árvores bloqueavam o pouco de luar que ainda não estava oculto pelas nuvens, os galhos reduzindo a luz pálida a nada. Não houve tempo para que nossos olhos se adaptassem, para examinarmos o caminho que percorríamos ou para fazer nada além de correr em bando aos tropeções, arfando e com os braços estendidos à frente do corpo para evitar troncos que pareciam surgir do nada a poucos centímetros de nós.
Paramos depois de alguns minutos, sem fôlego, para avaliar nossa situação. Ainda ouvíamos as vozes atrás de nós, só que outro som surgira: o latido de cães.
Voltamos a correr.

7 comentários:

  1. Que vontade de entrar no livro e mandar o Enoch calar a boca e dar uns safanões nele.
    Só eu tive vontade de fazer isso?

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    Respostas
    1. Nao também tive vontade de fazer isso !

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    2. Entrar no livro e dar um soco na cara dele!

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  2. obrigada. Li o livro 1.E agora que descobri que posso ler os demais é bom demais

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  3. Só eu que agora to pensando no mapa que mostra todas as fendas, e que eles devem ter achado?

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  4. MDSSS ESSE LIVRO É MINHA PAIXÃO

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Boa leitura :)