5 de abril de 2017

Capítulo dois

Passei os meses seguintes à morte de meu avô entrando e saindo de um purgatório de salas de espera e escritórios bege, onde era analisado e entrevistado, em conversas particulares assentindo quando se dirigiam a mim, repetindo-me as mesmas palavras, objeto de mil olhares piedosos e expressões sérias de preocupação. Meus parentes me tratavam como se eu fosse uma frágil herança de família que pudesse se quebrar. Tinham medo de brigar ou mesmo demonstrar irritação diante de mim, temendo que eu desmoronasse.
Fui tomado por pesadelos que me faziam acordar de noite aos gritos, tão sinistros que cheguei a usar um protetor bucal para que os dentes não rangessem até ficarem em pedacinhos enquanto dormia. Não podia fechar os olhos sem ver aquilo, o horror da boca cheia de tentáculos na floresta. Eu estava convencido de que aquilo havia matado meu avô e logo viria atrás de mim. Às vezes, essa sensação nauseante de pânico me tomava por inteiro, tal como naquela noite, e de repente eu tinha certeza de que perto dali, escondido em um emaranhado escuro de árvores, atrás do carro ao lado num estacionamento, nos fundos da garagem onde eu guardava a bicicleta, ele estava à minha espera.
Minha solução foi parar de sair de casa. Durante semanas não me arrisquei sequer a ir até a entrada da garagem pegar o jornal de manhã. Dormia em uma pilha de cobertores no chão da lavanderia, o único cômodo da casa sem janelas e com uma porta que trancava por dentro. Foi lá que passei o dia do enterro de meu avô, sentado em cima da secadora com meu laptop, tentando me distrair com jogos on-line.
Eu me culpava pelo que havia acontecido. Se tivesse acreditado nele só por um segundo... Repetia essa ladainha o tempo inteiro. Mas eu não tinha acreditado nele, nem qualquer outra pessoa, e agora eu sabia como ele devia ter se sentido, porque ninguém tampouco acreditava em mim. Minha versão dos fatos soava perfeitamente racional até eu ser forçado a dizer as palavras em voz alta, e então tudo parecia loucura, especialmente no dia em que precisei contá-la para o policial que veio à nossa casa. Disse a ele tudo o que tinha acontecido naquela noite, até sobre a criatura, enquanto ele permanecia sentado, balançando a cabeça, do outro lado da mesa da cozinha, sem escrever nada em seu caderno espiral. Quando terminei, tudo o que ele disse foi “Muito bem, obrigado”, e se virou para meus pais perguntando se já havia conversado “com alguém”, como se eu não fosse entender o que aquilo significava. Disse a ele que tinha outra declaração a fazer, mostrei meu dedo médio e fui embora.
Meus pais gritaram comigo pela primeira vez em semanas. Aquele velho e conhecido som. Berrei coisas bem feias em resposta. Que eles estavam felizes com a morte do vovô Portman. Que eu era o único que realmente o amava.
Então o policial e meus pais conversaram na entrada da garagem durante um tempo, e o tira foi embora em sua viatura, só para voltar uma hora depois com um homem que se apresentou como um artista de retratos falados. Ele trouxera um bloco e me pediu que descrevesse novamente a criatura. E enquanto eu fazia isso, ele ia desenhando, parando de vez em quando para esclarecer algum detalhe.
— Você disse quantos olhos?
— Dois.
— Entendi — disse ele, como se monstros fossem algo perfeitamente normal para um artista de retratos falados da polícia desenhar.
Estava bem claro que era uma tentativa de me acalmar, o que ficou explícito quando o artista, ao terminar, tentou me dar o desenho.
— O senhor não vai precisar disso para seus arquivos, ou algo assim? — perguntei.
Ele arregalou os olhos e encarou o policial, que também estava com as sobrancelhas erguidas.
— Claro — disse ele. — Onde estou com a cabeça?
Foi um insulto total.
Mesmo meu melhor e único amigo, Ricky, não acreditava em mim, e ele tinha estado lá, pelo amor de Deus. Ele jurou de pés juntos não ter visto criatura nenhuma na mata naquela noite — apesar de eu ter apontado minha lanterna direto para ela —, e foi exatamente isso o que contou aos tiras. Mas ele tinha ouvido latidos. Nós dois tínhamos. Por isso não foi uma grande surpresa quando a polícia concluiu que uma matilha de cães selvagens havia matado meu avô.
Aparentemente, tinham sido avistados em algum outro lugar e haviam mordido uma mulher que andava por Century Woods na semana anterior. E tudo à noite, veja bem.
— Que é exatamente quando fica mais difícil ver as criaturas! — disse eu, mas Ricky apenas sacudiu a cabeça e murmurou algo sobre eu precisar de um “neurologista”.
— Você quer dizer psiquiatra — respondi. — E muito obrigado. É ótimo ter amigos para dar apoio nessas horas.
Estávamos sentados no terraço da minha casa observando o pôr do sol sobre o golfo. Ricky, enrolado como uma mola em uma cadeira Adirondack exorbitantemente cara que meus pais haviam trazido de uma viagem a Amish Country, as pernas dobradas sob o corpo e os braços cruzados com força, fumando um cigarro atrás do outro, com uma espécie de determinação cruel. Ele sempre parecia vagamente desconfortável em minha casa, mas eu podia dizer, pelo jeito que seus olhos desviavam de mim cada vez que se voltavam em minha direção, que agora não era a riqueza de meus pais que o deixava inquieto, e sim eu.
— Ache o que quiser, só estou sendo honesto com você — disse ele. — Continue falando sobre monstros e eles vão mandá-lo para longe. Aí você realmente será um Edu Especial.
— Não me chame assim.
Ricky atirou para longe o cigarro aceso e deu uma cusparada por cima da grade de proteção.
— Você estava fumando e mascando tabaco ao mesmo tempo? — perguntei.
— Quem é você, minha mãe?
— E eu tenho cara de quem chupa caminhoneiros em troca de vales-refeição?
Ricky era especialista em piadas de mãe, mas esta pareceu mexer com ele, que se levantou e me empurrou com tanta força que quase caí do telhado.
Mandei-o embora aos gritos, mas ele já estava de saída.
Só tornei a vê-lo meses depois. Que grande amigo.


* * *

No fim, meus pais me levaram para ver um médico de loucos, um homem tranquilo, de pele cor de oliva, dr. Golan. Não reclamei. Sabia que precisava de ajuda.
Achei que eu seria um caso difícil, mas dr. Golan fez um trabalho surpreendentemente rápido comigo. O modo calmo e sem afetação como ele explicava as coisas era quase hipnótico, e em duas sessões já havia me convencido de que a criatura não passava de um produto da minha imaginação em ebulição; que o trauma da morte do meu avô me fizera ver algo que não estava realmente ali. E, para começar, tinham sido as histórias do vovô Portman que haviam plantado a criatura em minha mente, explicou dr. Golan, por isso fazia sentido que, ajoelhado ali com seu corpo em meus braços, no momento do pior choque da minha jovem vida, eu tivesse invocado o próprio bicho-papão criado por meu avô.
Eu tinha de reconhecer que fazia certo sentido. Havia até um nome para isso: reação aguda ao estresse pós-traumático.
— Não vejo nada de bonito nesse nome — disse minha mãe quando ouviu meu diagnóstico novinho em folha. Mas sua ironia não me incomodou. Quase qualquer coisa soava melhor que maluco.
Porém, o fato de não acreditar mais que os monstros fossem reais não significava que eu estivesse melhor. Ainda tinha pesadelos. Estava agitado e paranoico, e interagia tão mal com as pessoas que meus pais contrataram um professor particular para que eu só tivesse de ir à escola se quisesse. E também — finalmente — me deixaram largar o emprego no Smart Aid. “Sentir-me melhor” tornou-se meu novo emprego.
Logo decidi que queria ser demitido desse também. Assim que a pequena questão de minha loucura temporária foi resolvida, a função do dr. Golan parecia consistir principalmente em prescrever medicamentos. Ainda tem pesadelos? Tenho uma coisa para isso. Ataque de pânico no ônibus escolar? Isso aqui deve resolver. Não consegue dormir? Vamos aumentar a dose. Todos aqueles comprimidos estavam me deixando gordo e idiota, e eu ainda me sentia péssimo, dormindo só três ou quatro horas por noite. Por isso comecei a mentir para dr. Golan. Fingia estar bem quando qualquer pessoa que olhasse para mim podia ver as olheiras e a facilidade com que eu me assustava com barulhos repentinos, como um gato nervoso. Em uma semana inventei um diário de sonhos inteiro, fazendo com que eles parecessem tranquilos e simples, como deviam ser os de uma pessoa normal. Um dos sonhos era sobre ir ao dentista. Em outro eu voava. Em duas noites seguidas, contei a ele, sonhei que estava nu na escola. Então ele me interrompeu.
— E as criaturas?
Dei de ombros.
— Nem sinal delas. Acho que isso significa que estou melhorando, hein?
Dr. Golan tamborilou com a caneta na mesa por um instante, depois escreveu alguma coisa.
— Espero que você não esteja me dizendo o que acha que quero ouvir.
— Claro que não — disse eu, enquanto meu olhar passava pelos diplomas emoldurados em sua parede, todos atestando a qualificação do dr. Golan em várias ramificações da psicologia, incluindo, tenho certeza, como saber quando um adolescente com estresse agudo está mentindo.
— Vamos falar sério por um minuto. — Ele largou a caneta. — Você está me dizendo que não teve o sonho nem uma vez esta semana?
Sempre fui um péssimo mentiroso. Em vez de me humilhar, cedi.
— Bem — murmurei —, talvez uma.
A verdade é que eu tivera o sonho todas as noites daquela semana. Com pequenas variações, era sempre algo mais ou menos assim: estou encolhido no canto do quarto do meu avô, a doentia luz cor de âmbar do crepúsculo penetra pela janela e ilumina uma espingarda de ar comprimido de plástico perto da porta. No lugar da cama ergue-se uma máquina dessas de vender produtos, enorme e reluzente, cheia não de doces, mas de fileiras de facas militares afiadas e Glocks carregadas com balas dundum. Meu avô está parado em frente a ela em um velho uniforme do exército britânico e a alimenta com notas de dólar, mas é preciso muitas delas para comprar uma pistola e nosso tempo está se esgotando. Finalmente vemos uma calibre 45 de aparência sinistra mover-se na direção do vidro, mas, antes de cair, fica presa. Ele xinga em iídiche, chuta a máquina, agacha-se ao seu lado e enfia a mão dentro dela para tentar pegar a arma, mas seu braço fica preso. É então que eles chegam, as línguas negras compridas deslizando pelo lado externo das vidraças à procura de uma entrada.
Aponto a espingarda de ar comprimido para eles e aperto o gatilho, mas nada acontece. Enquanto isso, vovô Portman está gritando como um louco: Encontre o pássaro! Encontre a fenda! Yakob, por que você não entende, seu maldito y utzi idiota?, e então as janelas se estilhaçam e cai uma chuva de vidro, as línguas negras nos alcançam, e geralmente é aí que eu acordo numa poça de suor, o coração numa corrida com obstáculos e um nó de marinheiro no estômago.
Apesar de o sonho ser sempre o mesmo e de nós já o termos repassado centenas de vezes, dr. Golan ainda me fazia descrevê-lo em cada sessão. Era como se tornasse a interrogar meu subconsciente em busca de alguma pista que pudesse ter perdido pela enésima vez.
— E, no sonho, o que o seu avô está dizendo?
— A mesma coisa de sempre — respondi. — Sobre a ave, a fenda e o túmulo.
— Suas últimas palavras.
Assenti com a cabeça.
Dr. Golan entrelaçou os dedos das mãos e as levou ao queixo, o retrato perfeito de um psiquiatra em reflexão.
— Alguma ideia nova sobre o que elas podem significar?
— Tenho — disse eu. — Merda nenhuma!
— Ah, vamos lá. Não está falando sério.
Queria agir como se não me importasse com as últimas palavras, mas eu me importava. Elas me consumiam quase tanto quanto os pesadelos. Sentia que devia a meu avô não desconsiderar a última coisa que ele havia dito a uma única pessoa no mundo como se fosse um delírio sem sentido, e dr. Golan estava convencido de que entendê-las poderia ajudar a livrar-me de meus sonhos terríveis. Por isso, tentei.
Parte do que vovô Portman dissera fazia sentido, como aquilo sobre querer que eu fosse à ilha. Ele estava preocupado que os monstros viessem atrás de mim e achava que a ilha era o único lugar onde eu podia escapar deles, como ele tinha feito quando criança. Depois disso, ele dissera: “Eu devia ter contado a você”, mas como não havia tempo para contar o que quer que ele devesse ter me contado, me perguntei se ele não teria feito o máximo possível e deixado pistas de uma trilha que me levasse a alguém que pudesse me contar, alguém que conhecesse seu segredo. Percebi que todas as coisas que soavam enigmáticas sobre a fenda, o túmulo e a carta eram pistas.
Durante algum tempo pensei que a “fenda” pudesse ser um beco ou uma passagem em Circle Village, uma vizinhança repleta de trilhas, ruelas e becos sem saída, e que “Emerson” pudesse ser alguém para quem meu avô havia escrito cartas. Um velho companheiro da guerra com o qual ele mantivera contato, ou algo assim. Talvez esse Emerson vivesse em Circle Village, em uma de suas ruelas, perto de um cemitério, e uma das cartas que ele guardava fosse datada de 3 de setembro de 1940, e era essa a que eu precisava ler. Sabia que parecia loucura, mas coisas mais loucas se revelaram verdadeiras, e então, depois de me deparar com vários becos sem saída on-line, fui até o centro comunitário de Circle Village, onde os velhos se reuniam para jogar bocha e discutir suas últimas cirurgias, para perguntar onde ficava o cemitério e se alguém conhecia algum sr. Emerson. Eles olharam para mim como se eu tivesse uma segunda cabeça crescendo no pescoço, surpresos por um adolescente se dirigir a eles. Não havia cemitério em Circle Village e ninguém nas redondezas se chamava Emerson nem havia nada que remotamente lhes remetesse a qualquer fenda. Foi um furo n’água total.
Mesmo assim, dr. Golan não me permitiu desistir. Ele sugeriu que eu procurasse em Ralph Waldo Emerson, um antigo poeta supostamente famoso.
— Emerson escreveu uma bela quantidade de cartas — disse ele. — Talvez seu avô estivesse se referindo a isso.
Parecia um tiro no escuro, mas, só para tirar dr. Golan do meu pé em relação a isso, pedi a meu pai que me deixasse na biblioteca certa tarde para que eu pudesse conferir essas informações, e logo descobri que Ralph Waldo Emerson tinha, sim, escrito muitas cartas que haviam sido reunidas e publicadas em livros. Por cerca de três minutos fiquei realmente animado, como se estivesse perto de uma descoberta importante, mas logo duas coisas ficaram evidentes: primeiro, que Ralph Waldo Emerson tinha vivido e morrido no século XIX, portanto não podia ter escrito nenhuma carta datada de 3 de setembro de 1940; segundo, que seu estilo era tão denso e arcaico que não poderia ter despertado o mínimo interesse em meu avô, para quem o inglês era uma segunda língua, e que não era exatamente um leitor compulsivo, exceto, talvez, nos casos de insônia. Eu mesmo descobri as qualidades soníferas de Emerson da pior maneira possível: peguei no sono e caí de cara no livro, babando em cima de um ensaio chamado Autoconfiança, aí tive o sonho da máquina de vender produtos pela sexta vez na semana. Acordei gritando e fui cerimoniosamente expulso da biblioteca, sem parar de xingar dr. Golan e suas teorias estúpidas.
A gota d’água veio alguns dias depois, quando minha família resolveu que era hora de vender a casa do vovô Portman. Antes, porém, de permitir que os interessados visitassem a casa, o lugar precisava de uma limpeza, e a conselho do dr. Golan, que achou ser bom para mim “confrontar a cena de meu trauma”, fui convocado para ajudar meu pai e tia Susie a revirar a bagunça. Quando chegamos à casa do vovô, de tempos em tempos meu pai me chamava de lado para se assegurar de que eu estava bem. Surpreendentemente, eu parecia estar, apesar dos pedaços de fita da polícia pendurados na cerca viva e na tela da varanda, agitando-se ao vento; essas coisas — e a caçamba de entulho alugada que estava no meio-fio esperando para engolir o que restara da vida de meu avô — me deixaram triste, não assustado.
Quando ficou claro que eu não estava prestes a babar em um surto nervoso, começamos a trabalhar, adentrando cabisbaixos a casa, armados com sacos de lixo, esvaziando prateleiras, armários e vãos atulhados, descobrindo figuras geométricas de poeira sob objetos que não eram movidos havia anos.
Construímos no chão pirâmides de coisas que podiam ser reutilizadas ou recuperadas e outras pirâmides de coisas destinadas ao depósito de lixo. Minha tia e meu pai não eram pessoas sentimentais, e a pilha do lixão era sempre a maior.
Eu fazia muita pressão para guardar certas coisas, como a pilha de quase dois metros de revistas National Geographic danificadas pela água que ameaçava desmoronar num canto da garagem — quantas tardes eu tinha passado folheando aquelas revistas, me imaginando entre os homens selvagens e cobertos de lama da Nova Guiné ou descobrindo um castelo no alto de um precipício no reino do Butão? —, mas eu sempre perdia. Também não consegui guardar a coleção de camisas de boliche antigas do meu avô (“Elas são uma vergonha”, argumentou meu pai), ou o conteúdo de seu grande armário de armas, ainda trancado. (“Está brincando, não é? Espero que esteja.”)
Finalmente confrontei meu pai e disse que ele estava sendo insensível.
Minha tia imediatamente saiu de cena e nos deixou sozinhos no estúdio, onde revirávamos uma montanha de registros financeiros.
— Só estou sendo prático — retrucou meu pai em um tom despreocupado. — É isso o que acontece quando as pessoas morrem, Jacob.
— É mesmo? E quando você morrer? Devo queimar todos os seus velhos manuscritos?
Ele enrubesceu. Não devia ter dito aquilo; mencionar suas gavetas cheias de projetos de livros inacabados foi sem dúvida um golpe baixo. Mas, em vez de gritar comigo, ele ficou quieto.
— Hoje eu o trouxe porque achei que você estava maduro o bastante para lidar com isso — disse ele. — Acho que me enganei.
— Com certeza. Você acha que se livrar das coisas do vovô vai me fazer esquecê-lo. Mas não vai.
Ele jogou as mãos para o alto.
— Sabe de uma coisa? Cansei de brigar por causa disso. Pode guardar o que quiser. — Ele jogou uma pilha de folhas amareladas aos meus pés. — Aqui está um relatório de deduções detalhado do ano em que Kennedy morreu. Você pode mandar emoldurar.
Chutei os papéis para longe e saí dali, batendo a porta às minhas costas, e fui para a sala de estar, esperando que meu pai saísse e se desculpasse. Quando ouvi o ronco da máquina de picotar papel, soube que ele não ia fazer isso, então atravessei a casa a passos largos e me tranquei no quarto. Ele cheirava a mofo, couro de sapato e a colônia levemente acre de meu avô. Apoiei-me na parede e meus olhos seguiram uma trilha gasta no tapete entre a porta e a cama, onde um retângulo de sol mostrava a ponta de uma caixa que se projetava debaixo da colcha da cama. Fui até lá e me abaixei para ver. Era uma caixa de charutos velha, coberta de poeira, que parecia ter sido deixada ali para que eu a encontrasse.
Lá dentro havia fotos que eu conhecia muito bem: o menino invisível, a garota que levitava, o menino que erguia rochas, o homem com um rosto pintado na parte de trás da cabeça. Elas estavam gastas e esfarelando — e também eram menores do que eu me lembrava —, e olhando para elas naquele instante, quase um adulto, fiquei chocado ao perceber como eram evidentemente falsas. Um queimadinho aqui, um truque ali — era tudo de que você precisava para fazer a cabeça do “menino invisível” desaparecer. A rocha gigante erguida por aquele garoto suspeito de tão magro podia facilmente ser feita de gesso ou espuma. Mas essas eram observações sutis demais para um menino de seis anos, especialmente alguém que queria acreditar naquilo.
Por baixo dessas fotos havia cinco outras que vovô Portman nunca havia me mostrado. Eu me perguntei por que, até que observei com mais atenção. Tinham sido manipuladas de modo tão óbvio que até um menino teria percebido o que eram: havia uma transposição ridícula de uma menina “presa” numa garrafa; outra criança levitando, suspensa por algo na soleira escura da porta às suas costas; e um cachorro com a cara de um menino colada grosseiramente sobre ele. E, como se essas imagens não fossem bizarras o suficiente, as outras duas pareciam saídas de pesadelos de David Lynch: uma mostrava uma menina contorcionista, triste, dobrada para trás de modo assustador; a outra trazia gêmeos de aparência esquisita, vestidos com as fantasias mais estranhas que eu já havia visto. Até meu avô, que tinha enchido minha cabeça com histórias de monstros com tentáculos no lugar da língua, era sábio o bastante para perceber que imagens como essas provocariam pesadelos em crianças.
As fotos me fizeram lembrar de como me senti no dia em que me dei conta de que as histórias de meu avô não eram reais. Ajoelhado no chão de seu quarto, eu me senti traído novamente. A verdade agora parecia óbvia: suas últimas palavras tinham sido apenas mais um truque de mágico, como as fotos, e seu último ato tinha sido contaminar-me com pesadelos e delírios paranoicos que levariam anos de terapia e várias caixas de remédios aniquiladores de metabolismo para desaparecer.
Guardei as fotos na caixa e a levei até a sala, onde meu pai e tia Susie esvaziavam uma gaveta cheia de cupons, guardados e presos com clipes, mas nunca usados, em um saco de lixo de cinquenta litros.
Ofereci a caixa. Eles não perguntaram o que ela continha.

* * *





— Então é isso? — disse dr. Golan. — A morte dele não significou nada?
Eu estava deitado no divã, observando um aquário que ficava no canto, seu único prisioneiro dourado nadando em círculos preguiçosos.
— A menos que o senhor tenha uma ideia melhor — disse eu. — Alguma grande teoria sobre o que tudo isso significa e que ele estava escondendo de mim. Do contrário...
— O quê?
— Do contrário, isso é apenas perda de tempo.
Ele deu um suspiro e beliscou a ponte do nariz como se tentasse se livrar de uma dor de cabeça.
— O significado das últimas palavras de seu avô não é uma conclusão à qual eu devo chegar — disse ele. — É o que você acha que importa.
— Isso é bobagem psicanalítica — reagi. — O que importa não é o que eu acho, e sim o que é verdade! Mas creio que nunca vamos saber, então o que importa? Só continue a me encher de drogas e mande a conta.
Eu queria que ele ficasse com raiva, que discutisse, insistisse que eu estava errado, mas em vez disso ele ficou sentado com uma expressão enigmática, tamborilando no braço da poltrona com a caneta.
— Parece que você está desistindo — disse ele após um instante. — Estou desapontado. Você não me parece uma pessoa que desista das coisas.
— Deve ser porque o senhor não me conhece muito bem — retruquei.

* * *

Eu não podia estar menos no clima de festa. Soube que estava prestes a entrar em uma no momento em que meus pais começaram a soltar pistas nada sutis sobre como o fim de semana seguinte seria chato e sem nada interessante, quando todos sabíamos muito bem que eu faria dezesseis anos. Implorei a eles que não fizessem festa nesse ano, porque, entre outras razões, eu não podia pensar em uma única pessoa que gostaria de convidar. Mas eles estavam preocupados porque eu passava muito tempo sozinho e se agarraram à noção de que se socializar teria efeito terapêutico. “Choques elétricos também”, disse eu, mas minha mãe detestava deixar passar mesmo o menor dos pretextos para uma comemoração — uma vez ela recebeu convidados para o aniversário de nossa cacatua —, em parte porque adorava exibir nossa casa, conduzir os convidados de aposento a aposento excessivamente mobiliados, a taça de vinho na mão, glorificando a genialidade do arquiteto e contando histórias de guerra sobre a construção. (“Levou meses para trazer esses candelabros da Itália.”)
Tínhamos acabado de voltar da minha desastrosa sessão com dr. Golan.
Entrei atrás do meu pai na sala de estar, escura a ponto de causar suspeitas, enquanto ele murmurava coisas como “Que vergonha a gente não ter planejado nada para o seu aniversário” e “Ah, bem, podemos fazer isso no ano que vem”, quando todas as luzes se acenderam de repente para revelar serpentinas, bexigas e um sortimento variado de tias, tios e primos com os quais eu raramente falava — qualquer um que minha mãe tivesse conseguido convencer a comparecer —, além de Ricky, que fiquei surpreso ao ver parado perto da poncheira, parecendo deslocado em uma jaqueta de couro com enfeites metálicos. Depois que todos finalizaram os gritos de parabéns, e de eu fingir estar realmente surpreso, minha mãe passou o braço ao redor do meu ombro e sussurrou:
— Tudo bem quanto a isso aqui?
Eu estava aborrecido e cansado, e só queria jogar Warspire III: o chamado antes de ir para a cama com a TV ligada, mas o que podia fazer? Mandar todo mundo embora para casa? Eu disse que estava tudo bem, e ela sorriu, como se me agradecesse.
— Quem quer ver a última novidade da casa? — cantarolou ela, servindo-se de Chardonnay antes de marchar com uma trupe de parentes obedientes escada acima.
Ricky e eu nos saudamos com um aceno de cabeça de lados opostos da sala, concordando tacitamente em tolerar a presença um do outro por uma ou duas horas. Não nos falávamos desde o dia em que ele tinha me empurrado do telhado, mas nós dois compreendíamos a importância de manter a ilusão de que tínhamos amigos. Eu estava prestes a ir falar com ele quando meu tio Bobby me segurou pelo cotovelo e me puxou para um canto. Bobby era um sujeito grande e barrigudo que dirigia um carro grande e morava em uma casa grande, e eventualmente sucumbiria devido a um grande ataque cardíaco resultante de todo o foie gras e super-hambúrgueres monstruosos com os quais enchera o cólon ao longo dos anos, deixando tudo para meus primos maconheiros e sua esposa pequena e quieta. Ele e meu tio Les eram copresidentes da Smart Aid e sempre faziam isso — puxar as pessoas a um canto para conversas conspiratórias, sotto voce, como se estivessem tramando um assassinato da máfia em vez de elogiando a anfitriã por seu guacamole.
— Então, sua mãe me disse que você está começando a superar o... ah... toda essa situação do seu avô.
Ninguém sabia como chamar aquilo. A minha situação.
— Reação aguda a estresse pós-traumático — disse eu.
— O quê?
— Foi isso o que eu tive. Tenho. Sei lá.
— Que bom! É mesmo bom saber. — Fez um aceno com a mão como se afastasse de lado toda essa situação desagradável. — Sua mãe e eu estávamos pensando. O que você acha de vir para Tampa nesse verão, para ver como funciona o negócio da família, aprender a dar ordens comigo por um tempo lá na sede? A menos que você goste de arrumar prateleiras! — Ele riu tão alto que dei um passo involuntário para trás. — Você podia até ficar lá em casa, pescar um pouco de camarupim comigo e seus primos nos fins de semana. — Ele passou cinco longos minutos descrevendo seu iate novo, entrando em detalhes elaborados, quase licenciosos, como se aquilo bastasse para fechar o acordo, e quando terminou deu um sorriso e estendeu a mão para que eu a apertasse. — E então, o que acha Jake-Fera?
Acho que aquilo tinha o objetivo de ser uma oferta irrecusável, mas eu preferia passar o verão em um campo de trabalhos forçados na Sibéria a viver com meu tio e seus filhos mimados. Em relação a trabalhar na sede da Smart Aid, sabia que isso provavelmente seria inevitável, mas tinha contado com pelo menos mais alguns verões de liberdade e quatro anos de faculdade antes de ter de entrar naquela gaiola de ouro. Hesitei enquanto tentava pensar em uma saída.
Em vez disso, o que eu disse foi:
— Não sei se meu psiquiatra vai achar isso uma boa ideia agora.
As sobrancelhas peludas dele se uniram. Ele balançou a cabeça vagamente e disse:
— Ah, bem, claro, não podemos forçar a barra, não é? Certo, meu querido? — Ele saiu andando sem esperar resposta, fingindo ver outra pessoa do outro lado da sala, cujo cotovelo ele precisava agarrar.
Minha mãe anunciou que era hora de abrir os presentes. Ela sempre insistia que eu fizesse isso na frente de todo mundo, o que para mim é um problema porque, como já devo ter mencionado antes, não sou um bom mentiroso.
Também significa que não sou bom em fingir gratidão por presentes reaproveitados, como CDs de versões country de música natalina ou assinaturas de revistas de pesca e vida selvagem — tio Les conviveu durante anos com a ilusão de que eu sou um tipo que gosta de atividades na natureza —, mas em nome do decoro forcei um sorriso e ergui bem alto cada cacareco que desembrulhei para que todos vissem, até que a pilha de presentes que restava sobre a mesa de centro se reduziu a apenas três.
Peguei primeiro o menor deles. Dentro encontrei a chave do enorme sedã de quatro anos de meus pais. Eles estavam comprando um novo, explicou minha mãe, então eu herdaria o antigo. Meu primeiro carro! Todo mundo fez ooohs aaaahs, mas senti o rosto esquentar. Era exibição demais aceitar um presente tão caro na frente de Ricky, cujo carro custara menos que a mesada que eu recebia aos doze anos. Parecia que meus pais estavam sempre ressaltando a importância do dinheiro para mim, mas eu não me importava, mesmo. De qualquer jeito, é fácil dizer que não liga para dinheiro quando se tem muito.
O presente seguinte foi a câmera digital que eu passara o verão inteiro implorando aos meus pais.
— Uau — disse eu, enquanto testava seu peso em minha mão. — É muito legal!
— Estou começando a escrever um livro novo sobre pássaros — disse meu pai. — Achei que você podia tirar as fotos.
— Um livro novo! — exclamou minha mãe. — Que ideia fenomenal, Frank! Ei, o que aconteceu com aquele último livro no qual estava trabalhando? — Era evidente que ela bebera algumas taças de vinho.
— Ainda estou fazendo algumas correções — disse ele em voz baixa.
— Sei — respondeu ela. Pude ouvir o riso de tio Bobby em algum lugar.
— Então! — disse eu em voz alta enquanto pegava o último presente. — Este é da tia Susie.
— Na verdade — disse ela enquanto eu rasgava o papel de presente —, é do seu avô.
Parei no meio do rasgo e a sala mergulhou num silêncio mortal. As pessoas olhavam para tia Susie como se ela tivesse invocado algum espírito maligno. O queixo de meu pai se retesou e minha mãe tomou um grande gole de vinho.
— Abra, que você vai ver — disse tia Susie.
Rasguei o resto do papel de presente e encontrei um livro de capa dura antigo, com as páginas cheias de orelhas e sem sobrecapa. Era um volume das Obras selecionadas de Ralph Waldo Emerson. Olhei para ele fixamente como se quisesse ler através da capa, incapaz de compreender como o livro chegara às minhas mãos, que agora tremiam. Ninguém além do dr. Golan sabia das últimas palavras de meu avô, e meu psiquiatra prometera várias vezes que, a menos que eu ameaçasse beber soda cáustica ou dar um salto-mortal do alto da Ponte Sunshine Sky way, tudo o que conversávamos em seu consultório seria mantido sob o mais estrito sigilo.
Olhei para minha tia, uma pergunta que eu não sabia como fazer estampada no rosto. Ela conseguiu dar um tímido sorriso e comentou:
— Encontrei na escrivaninha de seu avô quando estávamos limpando a casa. Ele escreveu o seu nome na folha de rosto. Acho que queria que você ficasse com o livro.
Deus abençoe tia Susie. Ela, no fim das contas, tinha um coração.
— Legal, eu não sabia que seu avô gostava de ler — disse minha mãe, tentando animar o clima. — É muita consideração sua.
— É — disse meu pai entre dentes cerrados. — Obrigado, Susan.
Abri o livro. Havia, realmente, uma anotação feita com a letra trêmula de meu avô na folha de rosto.
Quando me levantei para sair dali, com medo de começar a chorar na frente de todo mundo, algo deslizou do meio das páginas e caiu no chão.
Eu me abaixei para pegar. Era uma carta.
Emerson. A carta.
Senti o sangue se esvair de meu rosto. Minha mãe inclinou-se em minha direção e num murmúrio tenso perguntou se eu precisava de um gole d’água, o que na língua da minha mãe significava segura a onda, as pessoas estão olhando.
— Eu me sinto um pouco, hum... — disse eu, e então, com a mão na barriga, corri para o quarto.


* * *

A carta estava escrita à mão numa folha de papel fino e sem pautas, numa letra cheia de arabescos, tão enfeitada que parecia um exercício de caligrafia, a força da tinta negra oscilante como a de uma velha caneta-tinteiro. A carta dizia:



Como prometido, a remetente anexara uma velha foto. Segurei-a sob a luz do abajur de minha escrivaninha para tentar ler algum detalhe no rosto, quase uma silhueta, da mulher, mas não havia nada para encontrar. Era muito estranho, e ainda assim ela nada tinha a ver com as fotos do meu avô. Ali não havia truques. Era só uma mulher, uma mulher fumando cachimbo. Parecia o cachimbo de Sherlock Holmes, curvado e descendo de seus lábios. Meus olhos sempre voltavam para ele.
Será que era isso que meu avô queria que eu encontrasse? É, só pode ser — não as cartas de Emerson, mas uma carta guardada dentro do livro de Emerson.
Mas quem era essa diretora escolar, essa Alma Peregrine? Estudei o envelope em busca do endereço do remetente, mas encontrei apenas um carimbo desbotado que dizia Cairnholm Is., Cymru, UK.
Era na Grã-Bretanha. Eu sabia, de estudar atlas quando criança, que Cymru significava País de Gales. Cairnholm Is. tinha de ser a ilha mencionada pela srta. Peregrine na carta, onde ela morava. Seria a mesma ilha onde meu avô vivera quando garoto?
Nove meses antes ele me dissera para “encontrar a ave”. Nove anos atrás ele jurara que o orfanato onde vivera era protegido por uma — “uma ave que fumava cachimbo”. Aos sete anos eu tinha entendido isso literalmente, mas a diretora na foto fumava um cachimbo, e seu nome era Peregrine, como o falcão-peregrino. Será que a ave que meu avô queria que eu achasse era, na verdade, a mesma mulher que o havia resgatado, a diretora do orfanato? Talvez ela ainda estivesse na ilha após todos esses anos, muito velhinha, mas viva sob os cuidados de muitos enfermeiros, crianças que haviam crescido, mas nunca tinham ido embora.
Pela primeira vez as palavras de meu avô começaram a fazer um estranho sentido. Ele queria que eu fosse à ilha e encontrasse essa mulher, essa diretora idosa. Se alguém conhecia os segredos de sua juventude, seria ela. Mas o carimbo no envelope tinha quinze anos. Seria possível que ela ainda estivesse viva? Fiz rápidas contas de cabeça: se ela administrava um orfanato em 1930 e tivesse, digamos, 25 anos na época, então hoje teria mais de 95 anos. Era possível; havia pessoas mais velhas que isso em Englewood que ainda moravam sozinhas e dirigiam, e, mesmo que a srta. Peregrine tivesse morrido durante esses quinze anos desde que enviara carta, talvez ainda houvesse pessoas em Cairnholm que poderiam me ajudar, que tinham conhecido vovô Portman quando criança e guardassem a chave para seus segredos.
Nós, escrevera ela, os poucos remanescentes.

* * *

Como você pode imaginar, convencer meus pais a me deixar passar parte de meu verão numa ilhota na costa do País de Gales não foi tarefa fácil. Eles, especialmente minha mãe, tinham muitas razões convincentes contra essa “péssima ideia”, incluindo o fato de que eu devia passar o verão com tio Bobby para aprender a administrar o império das drogas, além de que não tinha ninguém para me acompanhar, já que nenhum dos meus pais queria ir, e eu, sem dúvida, não podia viajar sozinho. Não tinha como refutar esses argumentos, e meus motivos para querer fazer a viagem — acho que é meu dever fazê-la — não eram algo que eu podia explicar sem parecer ainda mais maluco do que eles já temiam que eu fosse. Com certeza, se contasse a meus pais sobre as últimas palavras do vovô Portman, ou sobre a carta ou a foto, eles mandariam me internar. Os únicos argumentos que pareciam saudáveis a favor da viagem foram coisas como “quero conhecer melhor a história da família” e o nunca convincente “Chad Kramer e Josh Bell vão para a Europa este verão, por que eu não posso ir?”. Eu os mencionava sempre que podia, tentando não parecer desesperado (certa vez, apelei para “não é que vocês não tenham dinheiro”, uma tática da qual me arrependi na mesma hora), mas basicamente parecia que não ia rolar.
Então várias coisas aconteceram para ajudar muito meu caso. Primeiro, tio Bobby ficou com medo de que eu passasse o verão com ele — acho que ninguém quer um maluco em casa, certo? De repente minha agenda ficou bem aberta. Em seguida, meu pai soube que a ilha Cairnholm é um habitat de aves superimportante e que metade da população de certo pássaro que o deixa com tesão ornitológico total vive lá. Ele começou a falar muito desse hipotético livro novo sobre aves, e sempre que o assunto surgia eu fazia o máximo para encorajá-lo e demonstrar interesse. Mas o fator mais importante foi dr. Golan.
Depois de uma quantidade surpreendentemente mínima de persuasão de minha parte, ele chocou a todos não apenas por concordar com a ideia, mas por incentivar com veemência que meus pais me deixassem ir.
— Isso pode ser importante — disse ele para minha mãe, certa tarde após uma sessão. — É um lugar que foi tão mitificado pelo avô que uma visita só pode servir para desmitificá-lo. Ele vai ver que é apenas uma ilha normal e sem magia como qualquer outro lugar, e as fantasias de seu avô, por consequência, vão perder força. Pode ser um modo bastante eficaz de combater fantasia com realidade.
— Mas eu achava que ele já não acreditava mais nesse negócio — disse minha mãe, virando-se para mim. — Acredita, Jake?
— Não — assegurei.
— Não, conscientemente ele não acredita — disse dr. Golan —, mas é o inconsciente que está causando todos os problemas dele nesse momento. Os sonhos, a ansiedade.
— E o senhor acha mesmo que ir até lá pode ajudar? — perguntou minha mãe, com expressão desconfiada ao encará-lo, como se estivesse se preparando para a verdade nua e crua. Quando o assunto era coisas que eu deveria ou não estar fazendo, a palavra do dr. Golan era lei.
— Acho — respondeu ele.
Foi o bastante.

* * *

Depois daquilo, as peças se encaixaram com velocidade impressionante. As passagens de avião foram compradas, os horários marcados e todos os preparativos feitos. Meu pai e eu iríamos passar três semanas na ilha em junho.
Provavelmente seria tempo demais, mas meu pai alegou que precisava de pelo menos esse período para fazer um estudo das colônias de aves do lugar. Achei que mamãe fosse fazer objeções — três semanas inteiras! —, mas, quanto mais nossa viagem se aproximava, mais animada ela parecia.
— Meus dois homens — ela dizia, sorrindo — vão partir em uma grande aventura!
Achei esse entusiasmo um tanto tocante, na verdade — até a tarde em que a escutei conversando pelo telefone com uma amiga, confessando o quanto estava aliviada por “ter sua vida de volta” por três semanas e não ter “duas crianças necessitadas com quem se preocupar”.
Também amo você, quis dizer com o sarcasmo mais doloroso que pudesse reunir, mas ela não tinha me visto e mantive silêncio. Eu a amava, é claro, mas em grande parte porque amar a mãe é obrigatório, não porque ela fosse alguém que eu achasse que gostaria muito se conhecesse andando na rua. O que ela não faria, de qualquer maneira; andar é para pessoas pobres.
Durante a janela de três semanas entre o fim das aulas e o início de nossa viagem, fiz o possível para descobrir se a srta. Alma LeFay Peregrine ainda residia no mundo dos vivos, mas as buscas na internet não deram em nada.
Supondo que ela ainda fosse viva, eu tinha esperança de falar com ela por telefone e pelo menos avisá-la de minha chegada, mas logo descobri que praticamente ninguém em Cairnholm sequer tinha telefone. Encontrei apenas um número para toda a ilha, e foi para esse que liguei.
A ligação demorou quase um minuto para ser completada, com muitos chiados e ruídos, silêncio, depois mais chiados, de forma que eu senti cada quilômetro da enorme distância que a ligação percorria. Por fim ouvi aquele estranho sinal de chamada europeu — vap-vap... vap-vap — e um homem que para mim só podia estar drogado atendeu ao telefone.
— Buraco do pau! — berrou. Havia uma quantidade absurda de barulho no fundo, aquela espécie de burburinho abafado que se espera ouvir no auge de uma festa muito louca de faculdade. Tentei me identificar, mas não acho que ele conseguia me ouvir.
— Buraco do pau! — tornou a berrar. — Quem é agora? — Mas, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele afastou o telefone do rosto para gritar com alguma outra pessoa. — Mandei calar a boca, seu bando de filhos da mãe, estou no...
E então a linha caiu. Fiquei sentado com o fone colado ao ouvido, intrigado por um bom tempo, depois desliguei. Não me dei ao trabalho de tornar a ligar. Se o único telefone de Cairnholm fosse o de algum antro de perdição chamado “Buraco do pau”, o que isso prenunciava para o resto da ilha? Será que eu  passaria minha primeira viagem à Europa tentando fugir de maníacos bêbados e observando pássaros esvaziando as tripas em praias rochosas? Talvez. Mas se isso significasse que eu finalmente conseguiria dar descanso para os mistérios de meu avô e voltar à minha vida sem graça, qualquer coisa que eu tivesse de suportar valeria a pena.

12 comentários:

  1. Meu, essas fotos me deixaram embrulhada :#

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  2. e ele nem acreditava no avô

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  3. Senhor,ele parece até o meu irmão:
    Estranho
    Mostra o dedo do meio
    Ofende a mãe dos outros
    e fala que nas fontes com querubins os ANJOS estam fazendo xixi.

    Amando o livro

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  4. "pareciam saídas de pesadelos de David Lynch"
    Kkkkkkkkkk

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  5. Devoradora de livros1 de julho de 2017 13:42

    Não sei oq faço, se rio, se fico com medo ou se choro

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  6. Esse livro foi transcrito exatamente igual ao físico?

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  7. Minha colega "é de terror?"
    Eu "não é"
    Ela *abre na pagina com esse desenho*

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  8. nossa meu deus!!,que exemplo de pessoa bem educada
    e se virou para meus pais perguntando se já havia conversado “com alguém”, como se eu não fosse entender o que aquilo significava. Disse a ele que tinha outra declaração a fazer, mostrei meu dedo médio e fui embora. kkkkkkkk

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Boa leitura :)