15 de abril de 2017

Capítulo dez

Depois que a fenda desmoronou e a torre caiu, não podíamos ficar parados em estado de choque e boquiabertos — pelo menos não por muito tempo. Embora pudesse parecer que o pior já havia passado e que a maioria dos nossos inimigos tinha caído ou sido capturada, o caos ainda reinava e havia muito o que resolver.
Apesar de estarmos exaustos, com hematomas e torções por todo o corpo, as ymbrynes começaram a fazer o que as ymbrynes fazem de melhor, que é criar ordem. Elas voltaram à forma humana e assumiram o comando. O complexo foi revistado à procura de acólitos que pudessem estar escondidos. Dois se renderam imediatamente e Addison descobriu mais um: uma mulher de aspecto lastimável que estava escondida em um buraco no chão.
A mulher saiu de braços erguidos, implorando por piedade. Os primos de Sharon foram acionados para construir uma cadeia improvisada para nosso pequeno mas crescente número de prisioneiros e começaram a trabalhar contentes, cantando enquanto martelavam. Sharon foi interrogado pela srta. Peregrine e pela srta. Avocet, mas, após alguns poucos minutos de perguntas, elas ficaram convencidas de que ele era apenas um mercenário, não um agente secreto nem um traidor. Sharon parecia tão chocado com a traição de Bentham quanto todos nós.


Rapidamente as prisões e os laboratórios dos acólitos foram esvaziados, e suas máquinas de terror, destruídas. As vítimas dos experimentos terríveis foram levadas para fora e cuidadas. Outras dezenas foram libertadas de outro bloco de detenção. Os prisioneiros surgiram magros e esfarrapados das celas subterrâneas onde eram mantidos. Alguns andavam sem rumo, atônitos, e tiveram que ser arrebanhados e observados, para que não se perdessem; outros estavam tão tomados pelo alívio que não conseguiam parar de nos agradecer.
Uma garotinha passou meia hora indo de um peculiar a outro, surpreendendo-nos com abraços.
— Vocês não sabem o que fizeram por nós — repetia ela. — Vocês não sabem o que fizeram.
Era impossível não ser afetado por aquilo.
Conforme lhes dávamos qualquer conforto possível, éramos tomados por choros e suspiros. Eu não conseguia nem imaginar pelo que meus amigos tinham passado, muito menos aqueles que haviam ficado semanas ou meses em poder de Caul. Comparados a isso, meus hematomas e ferimentos eram irrelevantes.
Os peculiares resgatados dos quais me lembro com mais nitidez foram três irmãos. Eles pareciam em boa saúde, mas estavam mudos de tão chocados pelo que tinham vivenciado. Na primeira oportunidade, se afastaram do grupo, encontraram um monte de entulho em que se sentar e ficaram encarando o vazio, o mais velho com os braços estendidos em volta dos dois mais novos, como se não conseguissem conciliar bem a cena diante deles com o inferno que haviam aceitado como realidade.


Emma e eu fomos até eles.
— Está tudo bem agora — disse ela com delicadeza.
Eles olharam para ela como se não compreendessem.
Enoch nos viu falando com os três irmãos e se aproximou com Bronwyn, que estava arrastando um acólito praticamente inconsciente, um funcionário de laboratório de jaleco branco com as mãos amarradas. Os meninos se encolheram.
— Ele não pode mais machucar vocês — garantiu Bronwyn. — Nenhum deles.
— Talvez seja melhor deixá-lo aqui com vocês um pouco — disse Enoch, com um sorriso demoníaco. — Aposto que vocês têm muito o que conversar.
O acólito levantou a cabeça. Quando viu os meninos, seus olhos negros se arregalaram.
— Pare com isso — falei. — Não os atormente.
O menino mais novo cerrou os punhos e fez menção de se levantar, mas o mais velho o segurou e sussurrou algo em seu ouvido. O menino mais novo fechou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente, como se guardasse alguma coisa, depois enfiou os punhos apertados embaixo dos braços.
— Não, obrigado — disse ele, em um sotaque educado do Sul.
— Vamos — falei.
E os deixamos sós, Bronwyn arrastando o acólito atrás de si.

* * *

Ficamos pelo complexo, à espera de instruções das ymbrynes. Era um alívio não precisar decidir tudo ao menos uma vez. Estávamos esgotados, mas energizados; inacreditavelmente exaustos, mas turbinados pela consciência de que tínhamos sobrevivido.
Todos irrompiam em gritos de alegria, com risos e canções espontâneos.
Millard e Bronwyn dançavam pelo solo marcado. Olive e Claire se agarravam à srta. Peregrine, que as carregava enquanto verificava as coisas. Horace não parava de se beliscar, desconfiado de que aquilo fosse apenas um de seus sonhos, um belo futuro ainda não concretizado. Hugh foi caminhar sozinho, sem dúvida com saudade de Fiona, cuja ausência deixara um vazio em todos nós. Millard cuidava de seu herói, Perplexus, cujo envelhecimento rápido parara quando entramos em Abaton e, estranhamente, ainda não havia recomeçado. Mas iria recomeçar, nos assegurou Millard, e, com a torre de Caul destruída, não estava claro como Perplexus chegaria a sua antiga fenda. (Havia o Polifendador de Bentham, é claro, mas qual de suas centenas de portas era a certa?)
E havia também a questão de Emma e eu. Mesmo grudados um no outro, mal trocamos uma palavra. Tínhamos medo de conversar, acho, por causa do assunto a discutir.
O que aconteceria em seguida? O que seria de nós? Eu sabia que ela não podia deixar o mundo peculiar. Ela teria que viver no interior de uma fenda para o resto da vida, fosse no Recanto do Demônio ou em algum lugar melhor. Mas eu estava livre para partir. Tinha uma família e um lar à minha espera. Uma vida, ou a versão difusa de uma. Mas eu tinha família ali, também. E tinha Emma. E havia esse novo Jacob que eu me tornara, que ainda estava me tornando. Será que ele sobreviveria na Flórida?
Eu precisava de tudo. As duas famílias, os dois “Jacobs”, e Emma por completo. Eu sabia que teria que escolher e temia que isso me partisse ao meio.
Era demais, muito mais do que eu podia encarar logo após as provações que tínhamos acabado de enfrentar. Eu precisava de mais algumas horas, ou um dia, de faz de conta. Então Emma e eu paramos lado a lado e pensamos nos outros, nos oferecendo para qualquer coisa que as ymbrynes precisassem.
Superprotetoras por natureza, as ymbrynes decidiram que já havíamos suportado o suficiente. Precisávamos descansar e, além disso, havia tarefas, disseram elas, das quais crianças peculiares não deveriam participar. Ao cair, a torre tinha esmagado um prédio menor, mas elas não queriam que vasculhássemos os escombros à procura de sobreviventes. Em outras partes do complexo havia frascos de ambrosia para serem recuperados, coisas das quais elas não queriam que nos aproximássemos. Eu me perguntei o que elas fariam com aquilo, ou se aquelas almas roubadas poderiam algum dia ser reunidas com seus verdadeiros donos.
Pensei no líquido feito com a alma de meu avô. Tinha me sentido violado demais ao ver Bentham usá-lo, mas, se ele não o tivesse feito, nunca teríamos escapado da Biblioteca de Almas. Por isso, no fim, na verdade foi a alma de meu avô que nos salvou. Era gratificante saber que pelo menos ela não fora desperdiçada.
Havia trabalho a ser feito em torno do complexo dos acólitos, também. Na Rua da Depravação e em outras partes do Recanto do Demônio, crianças peculiares escravizadas precisavam ser libertadas, mas nossas mentoras insistiram em fazer isso, com a ajuda de alguns adultos peculiares. Na verdade, elas não iriam encontrar resistência: os escravistas e outros traidores tinham fugido do Recanto no momento em que os acólitos caíram. As crianças seriam recolhidas e levadas para uma casa segura; os traidores, caçados e levados diante de tribunais. Nada daquilo era da nossa conta, foi o que disseram. Agora precisávamos de um lugar para nos recuperar, assim como uma base de operações de onde a reconstrução do mundo peculiar poderia começar, e nenhum de nós queria ficar na amedrontadora fortaleza dos acólitos mais que o necessário.
Sugeri a casa de Bentham. Lá havia muito espaço, muitas camas, instalações, um médico residente e um Polifendador (o que, nunca se sabe, podia ser útil para alguma coisa). Seguimos até a casa enquanto a noite caía, carregando um dos caminhões de transporte dos acólitos com os peculiares que não conseguiam caminhar, o resto marchando atrás do veículo. Atravessamos a fortaleza com uma pequena ajuda do etéreo da ponte, que primeiro ergueu o caminhão sobre o vão e depois o resto de nós, em grupos de três. Algumas crianças ficaram com medo do etéreo e tiveram que ser convencidas com paciência. Outras não conseguiam se conter e gritavam por outra voltinha depois que atravessavam. Eu fiz esse agrado para elas. Meu controle sobre etéreos tinha se tornado uma segunda natureza, o que era satisfatório, ainda que amargo. Agora que os etéreos estavam praticamente extintos, minha habilidade peculiar parecia obsoleta, ao menos essa sua manifestação. Mas eu não tive problema com isso. Não ligava para poderes espalhafatosos; agora era apenas truque para exibir. Eu teria sido muito mais feliz se os etéreos nunca tivessem existido.
Viajamos pelo Recanto do Demônio em uma procissão lenta. Os que iam a pé cercavam o veículo como se fosse um carro alegórico em um desfile, enquanto outros iam montados nos para-choques e no teto. Parecia uma volta da vitória, e os peculiares do Recanto jorraram de suas casas e barracos para nos ver passar. Eles tinham visto a torre cair. Sabiam que as coisas haviam mudado. Muitos aplaudiram. Alguns nos saudavam, outros se escondiam nas sombras, envergonhados do papel que haviam desempenhado.
Quando chegamos à casa de Bentham, a Mãe Poeira e Reynaldo nos aguardavam na porta. Fomos recebidos calorosamente, e nos disseram que a casa era nossa para usarmos como quiséssemos. A Mãe Poeira imediatamente começou a cuidar dos feridos, conduzindo-os a camas, deixando-os confortáveis, ungindo-os com sua poeira. Ela ofereceu curar primeiro minhas feridas e as marcas de mordida em minha barriga, mas preferi esperar. Havia casos piores.
Contei a ela como usara seu dedo. Como salvara minha vida e a de outros.
Ela deu de ombros e voltou ao trabalho.
— A senhora merece uma medalha — insisti. — Não sei se os peculiares dão medalhas, mas, se derem, vou garantir que a senhora receba uma.
Ela pareceu surpresa e confusa e soltou um gemido engasgado antes de sair correndo.
— Eu disse alguma coisa errada? — perguntei a Reynaldo.
— Não sei — disse ele, preocupado, antes de ir atrás dela.
Nim circulava atônito pela casa, sem conseguir acreditar em tudo o que o sr. Bentham fizera.
— Deve haver algum engano — repetia ele. — O sr. Bentham nunca nos trairia!
— Cai na real! — disse Emma. — Seu chefe era asqueroso.
A verdade tinha mais nuances, pensei, mas defender a complexidade do caráter moral de Bentham não me tornaria muito popular. Bentham não precisava entregar aquela receita nem enfrentar o irmão monstruoso. Ele fez uma escolha. No fim, condenou a si mesmo para nos salvar.
— Ele só precisa de tempo — disse Sharon sobre Nim. — É muita coisa para processar. Bentham enganou muitos de nós.
— Até você? — falei.
— Especialmente. — Ele deu de ombros e sacudiu a cabeça. Parecia em conflito interno e triste. — Ele me livrou da ambrosia, me tirou do vício, salvou minha vida. Havia bondade em Bentham. Imagino que isso tenha me cegado para o mal.
— Ele devia ter um homem com quem se confidenciasse — disse Emma. — Vocês sabem, um capanga.
— O assistente! — falei. — Alguém o viu?
Ninguém o tinha visto. Revistamos a casa à sua procura, mas o inexpressivo braço direito de Bentham havia desaparecido. A srta. Peregrine reuniu todo mundo e pediu a Emma e a mim que o descrevêssemos em detalhes, caso ele voltasse.
— Ele deve ser considerado perigoso — disse ela. — Se o virem, não o enfrentem. Corram e avisem uma ymbryne.
— “Avisem uma ymbryne”— murmurou Enoch. — Ela não se dá conta de que nós as salvamos?
A srta. Peregrine o escutou.
— Sim, Enoch. Vocês foram brilhantes. E cresceram consideravelmente. Mas mesmo adultos têm anciãos que sabem melhor o que fazer.
— Sim, senhorita — disse ele, repreendido.
Depois perguntei à srta. Peregrine se ela achava que Bentham planejara nos trair desde o princípio.
— Meu irmão era, acima de tudo, um oportunista. Acho que parte dele queria fazer a coisa certa, e quando ajudou a você e à srta. Bloom, foi genuíno. Mas todo o tempo ele esteve fazendo preparativos para nos trair, caso isso se revelasse vantajoso para ele. E quando eu o mandei às favas, ele decidiu que era.
— Não foi culpa sua, srta. Peregrine — disse Emma. — Depois do que ele fez com Abe, eu também não o teria perdoado.
— Mesmo assim, eu podia ter sido mais benevolente. — Ela franziu o cenho, o olhar perdido. — Relações fraternais são complexas. Eu às vezes me pergunto se meus próprios atos tiveram alguma influência sobre os caminhos que meus irmãos escolheram. Será que eu podia ter sido uma irmã melhor para eles? Talvez, como uma jovem ymbryne, eu estivesse focada demais em mim mesma.
— Srta. Peregrine, isso é... — comecei, mas então parei e não disse a palavra ridículo, porque eu nunca tivera um irmão ou irmã, e talvez não fosse absurdo como eu pensava.

* * *

Mais tarde, levamos a srta. Peregrine e algumas das ymbrynes até o porão para mostrar a elas o coração do Polifendador. Sentia meu etéreo no interior da câmara de bateria, fraco, mas vivo. Eu me senti péssimo por ele e perguntei se podia tirá-lo de lá, mas a srta. Peregrine disse que, por ora, precisavam da máquina em funcionamento. Tendo tantas fendas acessíveis sob o mesmo teto, eles poderiam espalhar rapidamente as notícias de nossa vitória por todo o mundo peculiar, avaliar os danos provocados pelos acólitos e começar a reconstrução.
— Espero que entenda, sr. Portman — concluiu a srta. Peregrine.
— Eu entendo...
— Jacob tem um fraco por esse etéreo — disse Emma.
— Bem, ele foi meu primeiro — falei, um pouco envergonhado.
A srta. Peregrine me olhou de modo estranho, mas prometeu que faria o possível.
A ferida de mordida em minha barriga estava ficando insuportável, por isso Emma e eu entramos na fila para ver a Mãe Poeira, que saía serpenteando de sua clínica improvisada na cozinha e seguia pelo corredor. Era impressionante ver uma pessoa atrás da outra entrar mancando, alquebrada e ferida, cuidando de um dedo do pé quebrado ou uma concussão leve — ou, no caso da srta. Avocet, uma bala da antiga arma de Caul alojada no ombro — só para sair andando minutos depois parecendo novinha em folha. Na verdade, estavam com aspecto tão bom que a srta. Peregrine puxou Reynaldo num canto e pediu a ele que lembrasse à Mãe Poeira que ela não era uma fonte renovável e que não se desperdiçasse em feridas menores que se curariam muito bem sozinhas.
— Eu mesmo tentei dizer isso — respondeu ele. — Mas ela é perfeccionista, não me escuta.
Então a srta. Peregrine foi até a cozinha para ter uma palavra pessoalmente com a Mãe Poeira. Ela tornou a sair cinco minutos depois parecendo encabulada, com vários cortes em seu rosto desaparecidos e o braço, que não funcionava direito desde que Caul a jogara contra a parede daquela caverna, balançando livre ao seu lado.
— Que mulher teimosa! — exclamou.
Quando chegou a minha vez de entrar para vê-la, quase recusei o tratamento, pois restavam a ela apenas o polegar e o indicador na mão boa. Mas ela deu uma olhada nos cortes em ziguezague e no sangue seco em minha barriga e praticamente me empurrou na cama de armar que eles instalaram junto da pia. A mordida estava infeccionando, disse-me ela através de Reynaldo. Dentes de etéreos eram repletos de bactérias terríveis, e eu ficaria muito doente se ficasse sem tratamento. Então, cedi. A Mãe Poeira salpicou seu pó sobre meu tronco, e em alguns minutos eu estava me sentindo muito melhor.
Antes de sair, tentei dizer a ela quanto seu sacrifício tinha significado, e como seu dedo nos havia salvado.
— Sério, sem aquele dedo, eu nunca teria conseguido...
Mas ela virou o rosto assim que comecei a falar, como se a palavra obrigado queimasse seus ouvidos.
Reynaldo apressou minha saída.
— Desculpe, a Mãe Poeira ainda tem muitos outros pacientes para atender.
Emma me encontrou no corredor.
— Você está maravilhoso — disse ela. — Graças às aves. Eu estava mesmo começando a me preocupar com aquela mordida.
— Não se esqueça de falar com ela sobre seus ouvidos.
— O quê?
— Seus ouvidos — falei mais alto, apontando para eles.
Os ouvidos de Emma não tinham parado de zunir desde a Biblioteca. Como ela tivera que manter as mãos em chamas para iluminar o caminho enquanto escapávamos, não pudera bloquear o barulho terrível; meu medo era que tivesse sido literalmente ensurdecedor.
— Só não mencione o dedo!
— O quê?
— O dedo! — falei, erguendo o dedo. — Ela é cheia de dedos em relação a isso. Sem trocadilho...
— Por quê?
Dei de ombros.
— Não faço ideia.
Emma entrou na cozinha. Três minutos depois, saiu estalando os dedos junto dos ouvidos.
— Incrível! — disse ela. — Nítido como um sino.
— Graças a Deus — falei. — Gritar não é divertido.
— Ah, por falar nisso, eu mencionei o dedo.
— O quê? Por quê?
— Fiquei curiosa.
— E?
— As mãos dela começaram a tremer. Depois ela murmurou alguma coisa que Reynaldo não traduziu, e ele praticamente me botou para fora.
Talvez tivéssemos insistido mais, eu acho, se não estivéssemos tão cansados e famintos e se naquele momento o cheiro de comida não tivesse chegado até nosso nariz.
— Está na mesa! — disse a srta. Wren, do final do corredor, e a conversa foi adiada.

* * *

Anoitecia quando nos reunimos para comer na biblioteca de Bentham, o único aposento grande o suficiente para abrigar todos nós confortavelmente. O fogo foi aceso, e o banquete doado por moradores locais em agradecimento foi trazido: galinha assada e batatas, carne de caça e peixe (que eu evitei, pensando na improvável possibilidade de terem sido capturados no Valão). Comemos, conversamos e relembramos as aventuras dos últimos dias. A srta. Peregrine tinha ouvido apenas pouca coisa de nossa viagem de Cairnholm a Londres, e depois através da Londres bombardeada à procura da srta. Wren, e quis saber todos os detalhes. Ela era uma grande ouvinte, sempre rindo nas partes engraçadas e reagindo com expressões de satisfação a nossos floreios dramáticos.
— Então a bomba caiu bem em cima do etéreo e o explodiu em pedacinhos! — exclamou Olive de sua cadeira, enquanto reencenava o momento. — Mas estávamos vestindo os suéteres peculiares da srta. Wren, por isso os estilhaços não nos mataram!
— Minha nossa! — exclamou a srta. Peregrine. — Isso foi muita sorte!
Depois que nossas histórias terminaram, a srta. Peregrine ficou sentada em silêncio por um tempo, estudando-nos com um misto de tristeza e assombro.
— Eu tenho tanto, tanto orgulho de vocês... E sinto tanto pelo que aconteceu... Não posso dizer quanto desejei que fosse eu ao seu lado, em vez de meu irmão trapaceiro.
Fizemos um minuto de silêncio por Fiona. Ela não estava morta, insistiu Hugh, apenas perdida. As árvores tinham amortecido sua queda, disse ele, e ela provavelmente estava andando sem rumo pela floresta perto da fauna peculiar da srta. Wren. Ou bateu a cabeça quando caiu e se esqueceu de onde vinha. Ou estava escondida...
Ele olhou para nós com esperança, mas evitamos seus olhos.
— Tenho certeza de que ela vai aparecer — disse Bronwyn.
— Não dê falsas esperanças — disse Enoch. — Isso é cruel.
— Você sabe mesmo o que é cruel — respondeu Bronwyn, com desprezo.
— Vamos mudar de assunto — disse Horace. — Quero saber como o cachorro resgatou Jacob e Emma no metrô.
Addison saltou entusiasmado para a mesa e começou a narrar a história, mas a enfeitou com tantos apartes sobre o próprio heroísmo que Emma foi forçada a assumir a narração. Ela e eu contamos como tínhamos encontrado o caminho para o Recanto do Demônio, e como, com a ajuda de Bentham, planejamos nossa mini-invasão do complexo dos acólitos. Aí todos tiveram perguntas para mim: eles queriam saber sobre os etéreos.
— Como você aprendeu a língua sozinho? — perguntou Millard.
— Como é controlar um? — quis saber Hugh. — Você imagina ser um deles, como faço com as minhas abelhas?
— Faz cócegas? — perguntou Bronwyn.
— Você teve vontade de ficar com um como bicho de estimação? — perguntou Olive.
Respondi da melhor maneira possível, mas sentia como se minha língua estivesse presa, porque minha conexão com os etéreos era uma coisa difícil de descrever, como rememorar um sonho na manhã seguinte. Eu estava distraído, também, pela conversa que Emma e eu estávamos adiando. Quando terminei, captei seu olhar e sinalizei com a cabeça para a porta, e nós pedimos licença para sair. Quando nos afastávamos da mesa, senti os olhos de todos na sala em nossas costas.
Nós nos encolhemos em uma saleta iluminada por lampião onde estavam guardados vários casacos, chapéus e guarda-chuvas. Não era um lugar espaçoso nem confortável, mas ao menos era privado; um lugar onde não seríamos interrompidos nem ouvidos. De repente, me senti irracionalmente aterrorizado.
Eu tinha uma escolha difícil para fazer e ainda não a tinha enfrentado completamente.
Ficamos em silêncio por um momento, encarando um ao outro, a saleta tão à prova de som com tanto tecido que pensei ouvir as batidas de nossos corações.
— Então — começou Emma. Claro; Emma, sempre direta, nunca com medo de um momento de embaraço. — Você vai ficar?
Eu não sabia o que dizer até que as palavras deixaram minha boca. Eu estava no piloto automático, sem filtro.
— Preciso ver meus pais.
Isso era, sem dúvida, verdade. Eles estavam magoados e assustados, e não mereciam isso. Eu os deixara em suspenso por tempo demais.
— É claro — disse Emma. — Eu entendo. Claro que você precisa.
Uma pergunta pairava no ar, não dita. Ver meus pais tinha sido uma meia verdade, uma não resposta. Vê-los, claro. Depois, o quê? O que eu ia dizer a eles?
Tentei imaginar como seria contar a meus pais a verdade. Em relação a isso, a conversa telefônica que eu tivera com meu pai no metrô tinha sido uma prévia das próximas atrações. Ele surtou. Nosso filho está louco. Ou drogado. Ou talvez não esteja tomando drogas suficientes.
Não, a verdade não ia funcionar. E então? Eu iria vê-los, assegurar a eles que estava vivo e bem, inventar uma história sobre um passeio em Londres, depois dizer que fossem embora sem mim? Hah. Eles iam me perseguir. Teriam policiais escondidos nas moitas em nosso lugar de encontro. Homens de jaleco branco com redes tamanho Jacob. Eu teria que fugir. Contar a eles a verdade só ia piorar as coisas. Vê-los só para fugir outra vez iria torturá-los mais. Mas a ideia de nunca mais vê-los, de nunca voltar para casa... eu não conseguia lidar com aquilo. Porque, se eu estava sendo honesto comigo mesmo, por mais que doesse pensar em deixar Emma, meus amigos e aquele mundo, parte de mim queria ir para casa. Meus pais e o mundo deles representavam uma volta à sanidade e à previsibilidade, algo pelo que eu ansiava depois de toda aquela loucura. Eu precisava ser normal por um tempo. Recuperar o fôlego. Só por algum tempo.
Eu havia pagado minha dívida com os peculiares e com a srta. Peregrine. Tinha me tornado um deles. Mas eu não era apenas um deles; era também filho dos meus pais, e, por mais imperfeitos que eles fossem, eu sentia saudade deles.
Sentia saudade de casa. Até meio que sentia saudade da minha vida comum e sem graça. Claro, eu provavelmente sentiria mais falta de Emma do que de todas essas coisas. O problema era que eu queria demais. Queria as duas vidas. Dupla cidadania. Ser peculiar, e aprender tudo o que havia para aprender sobre o mundo peculiar, e ficar com Emma e explorar todas as fendas que Bentham tinha catalogado em seu Polifendador. Mas também fazer as coisas normais e estúpidas que adolescentes fazem enquanto ainda podia. Tirar a carteira de motorista. Fazer amigos da minha própria idade. Terminar o colégio. Aí eu teria dezoito anos e poderia ir aonde quisesse, ou a qualquer época. Poderia voltar.
Ali estava a verdade nua e crua: eu não podia passar o resto da vida em uma fenda no tempo. Mas, um dia, talvez pudesse ser um adulto peculiar.
Talvez, se eu tomasse cuidado, houvesse um jeito de ter tudo.
— Eu não quero ir — falei. — Mas acho que vou precisar, por um tempo.
O rosto de Emma estava inexpressivo.
— Então vá — disse ela.
Fiquei atordoado. Ela sequer perguntou quanto seria “um tempo”.
— Eu venho visitar vocês — falei rapidamente. — Posso voltar a qualquer hora.
Em teoria, isso era verdade: agora que a ameaça dos acólitos tinha sido esmagada, haveria — se as aves quisessem — sempre algo para o que voltar.
Mas era difícil pensar em meus pais autorizando mais viagens para o Reino Unido em um futuro próximo. Eu estava mentindo para mim mesmo, para nós dois, e Emma sabia disso.
— Não — disse ela. — Não quero isso.
Senti uma tristeza enorme.
— O quê? — falei baixinho. — Por que não?
— Porque foi isso o que Abe fez. Ele voltava de tempos em tempos. E cada vez estava mais velho, enquanto eu era a mesma. Então ele conheceu uma pessoa e se casou...
— Eu não faria isso — falei. — Eu amo você.
— Eu sei — disse ela, virando o rosto. — Ele também amava.
— Mas nós não... Não vai ser assim, com a gente... — Eu procurei às cegas pelas palavras certas, mas meus pensamentos estavam confusos.
— Mas seria. Você sabe que eu iria com você se pudesse, mas não posso. Eu iria envelhecer. Então eu ia só ficar à sua espera. Congelada em âmbar. Não posso fazer isso outra vez.
— Não seria por muito tempo! Só alguns anos. Aí eu vou poder fazer o que quero. Ir para a faculdade em algum lugar. Talvez aqui, em Londres!
— Talvez, talvez — disse ela. — Mas agora você está fazendo promessas que talvez não consiga cumprir, e é assim que pessoas apaixonadas se machucam muito.
Meu coração estava acelerado. Eu me sentia desesperado e patético. Que se dane, eu nunca mais veria meus pais. Certo. Mas não podia perder Emma.
— Eu não estava pensando direito — falei. — Não quis dizer isso. Vou ficar.
— Não, acho que você estava sendo honesto. Acho que, se ficar, você não vai ser feliz. E com o tempo vai começar a ficar ressentido comigo por isso. O que seria pior.
— Não. Não, eu nunca...
Mas eu já mostrara minhas cartas, e agora era tarde demais para recolhê-las.
— Vá — disse ela. — Você tem uma vida e uma família. Nunca deveríamos ter achado que duraria para sempre.
Sentei no chão, em seguida me encostei à parede de casacos e deixei que eles me engolissem. Por alguns longos segundos, fingi que nada daquilo estava acontecendo e que eu não estava ali, que meu mundo inteiro fosse de lã e negro e cheirasse a naftalina. Quando emergi outra vez para respirar, Emma estava sentada no chão ao meu lado, de pernas cruzadas.
— Eu também não quero isso — disse ela. — Mas acho que entendo por que tem que ser assim. Você precisa reconstruir seu mundo. E eu preciso reconstruir o meu.
— Mas ele, agora, é meu também — falei.
— Isso é verdade. — Ela pensou por um instante, esfregando o queixo. — Isso é verdade, e eu espero muito que você volte, porque você se tornou parte de nós, e nossa família não pareceria inteira sem você. Mas, quando fizer isso, acho que devemos ser só amigos.
Pensei nisso por um instante. Amigos. Parecia tão pálido e sem vida...
— Acho que é melhor do que nunca mais nos falarmos.
— Concordo — disse ela. — Acho que eu não aguentaria.
Eu me aproximei dela e passei meu braço em volta de sua cintura. Achei que ela fosse se afastar, mas ela não fez isso. Depois de um tempo, ela inclinou a cabeça e a encostou em meu ombro.
Ficamos sentados assim por bastante tempo.

* * *

Quando Emma e eu finalmente saímos daquele quartinho, quase todo mundo estava dormindo. A lareira na biblioteca tinha queimado e estava em brasas, as travessas repletas de comida estavam reduzidas a restos, o teto alto da sala ecoava com roncos e murmúrios de satisfação. Crianças e ymbrynes estavam deitadas em sofás e encolhidas no tapete, embora houvesse vários quartos confortáveis no andar de cima. Depois de quase perderem uns aos outros, eles não queriam se separar outra vez tão cedo, mesmo que só por uma noite.
Eu ia partir de manhã. Agora que eu sabia o que deveria acontecer entre Emma e eu, um atraso maior só serviria para nos atormentar. Naquele momento, porém, precisávamos dormir. Quanto tempo fazia desde que nossos olhos passaram mais de um ou dois minutos fechados? Eu não me lembrava de algum dia ter me sentido mais exausto.
Empilhamos algumas almofadas em um canto e dormimos abraçados. Era nossa última noite juntos, e eu a apertei firme, como se pudesse gravá-la em minha memória sensorial. A sensação de abraçá-la, seu cheiro. O som de sua respiração enquanto desacelerava e ficava regular. Mas o sono me arrastou com força, e parecia que eu tinha apenas acabado de fechar os olhos quando, de repente, estava apertando os olhos sob a luz amarela e forte do dia que entrava por uma fileira de janelas grandes.
Todos estavam acordados e espalhados pela biblioteca, conversando aos sussurros para não nos incomodar. Nós nos desemaranhamos apressados, envergonhados sem a privacidade da escuridão. Antes que tivéssemos uma chance de nos recompor, a srta. Peregrine chegou com um bule de café, e Nim, com uma bandeja de canecas.
— Bom dia para todos! Espero que estejam bem descansados, porque temos muitas coisas a...
A srta. Peregrine nos viu e parou no meio da frase, erguendo as sobrancelhas.
Emma escondeu o rosto.
— Ah, não.
Na exaustão e emoção da noite anterior, não me ocorrera que dormir na mesma cama que Emma (mesmo que não tivéssemos feito nada) pudesse ofender a sensibilidade vitoriana da srta. Peregrine.
— Senhor Portman, uma palavra. — Ela pousou o bule de café e me chamou com o dedo.
Achei que fosse levar bronca. Eu me levantei e alisei as roupas amarrotadas, a cor surgindo em meu rosto. Eu não estava nem um pouco com vergonha, mas era difícil não me sentir um pouco embaraçado.
— Me deseje sorte — sussurrei para Emma.
— Não admita nada! — murmurou ela em resposta.
Ouvi risinhos quando atravessei a sala, e alguém cantando:
— Jacob e Emma tão namorando, tão namorando!
— Ah, por favor, Enoch, vê se cresce! — disse Bronwyn. — Você só está com ciúme.
Segui a srta. Peregrine até o corredor.
— Não aconteceu nada — falei. — Para que a senhorita saiba.
— Tenho certeza de que não estou interessada — disse ela. — Você vai nos deixar hoje, correto?
— Como a senhorita sabe?
— Posso, estritamente falando, ser uma mulher idosa, mas ainda estou lúcida. Sei que você se sente dividido entre seus pais e nós, seu velho lar e o novo... ou o que restou dele. Você quer encontrar um equilíbrio, sem escolher lados e sem machucar as pessoas que ama. Mas não é fácil. Nem mesmo, necessariamente, possível. É mais ou menos isso?
— É... sim. É mais ou menos isso.
— E como você deixou as coisas com a srta. Bloom?
— Somos amigos — falei, testando desconfortavelmente a palavra.
— E você está infeliz por causa disso.
— Bom, sim. Mas entendo... Acho que entendo.
Ela inclinou a cabeça.
— Entende?
— Ela está se protegendo.
— E a você — acrescentou a srta. Peregrine.
— Isso eu não entendo.
— Você é muito jovem, Jacob. Tem muitas coisas que provavelmente não entende.
— Não vejo o que minha idade tem a ver com isso.
— Tudo! — Ela deu uma risada rápida e abrupta. Então viu que eu não tinha mesmo entendido e enterneceu um pouco. — A srta. Bloom nasceu perto da virada do século passado. Seu coração é velho e constante. Talvez você tenha medo de que ela logo o substitua... que algum Romeu peculiar vire sua cabeça. Eu não consideraria isso provável. Ela está gostando de você. E nunca a vi tão feliz com ninguém. Nem com Abe.
— É mesmo? — falei, uma onda de calor se formando em meu peito.
— É. Mas já estabelecemos que você é jovem. Só dezesseis anos, dezesseis pela primeira vez. Seu coração está apenas despertando, e a srta. Bloom é seu primeiro amor, não é?
Assenti, encabulado. Mas, sim, sem dúvida. Qualquer um podia ver isso.
— Você pode ter outros amores — disse a srta. Peregrine. — Corações jovens, como cérebros jovens, têm períodos de atenção curtos.
— Eu não — falei. — Não sou assim.
Eu sabia que era o que algum adolescente impulsivo diria, mas naquele momento tinha mais certeza sobre Emma do que já tivera sobre qualquer outra coisa.
A srta. Peregrine assentiu lentamente.
— Fico feliz em ouvir isso — disse ela. — A srta. Bloom pode ter lhe dado permissão para partir seu coração, mas eu, não. Ela é muito importante para mim, e nem metade tão forte quanto deixa transparecer. Não posso tê-la se lamentando e botando fogo nas coisas se você se distrair pelos encantos frágeis de uma garota normal. Já passei por isso, e simplesmente não temos móveis de sobra. Você entende?
— Hum, acho que sim... — falei, pego desprevenido.
Ela se aproximou e tornou a dizer, em voz baixa e severa:
— Você entende?
— Sim, srta. Peregrine.
Ela assentiu de modo enfático, depois sorriu e deu um tapinha em meu ombro.
— Então, está bem. Boa conversa. — E, antes que eu pudesse responder, ela estava marchando de volta para a biblioteca e avisando: — Café da manhã!

* * *

Parti uma hora depois, acompanhado até as docas por Emma e pela srta. Peregrine e uma tripulação completa de nossos amigos e ymbrynes. Sharon estava à espera, com um barco novo, deixado para trás pelos piratas do Valão em fuga. Houve uma longa troca de abraços e despedidas lacrimosas, que terminaram com minha promessa de voltar para rever todos, apesar de não saber como ia conseguir fazer isso em algum momento próximo, com voos internacionais para pagar e pais a convencer.
— Nunca vamos esquecer você, Jacob! — disse Olive, fungando.
— Vou registrar sua história para a posteridade — prometeu Millard. — Esse vai ser meu novo projeto. E vou providenciar para que seja incluída em uma nova edição dos Contos peculiares. Você vai ser famoso!
Addison se aproximou, seguido pelos dois filhotes de urxinim. Eu não sabia se ele os havia adotado, ou eles a ele.
— Você é o quarto humano mais corajoso que conheci — disse. — Espero que tornemos a nos encontrar.
— Eu espero, também — falei, com sinceridade.
— Ah, Jacob, podemos ir visitar você? — implorou Claire. — Eu sempre quis conhecer os Estados Unidos.
Não tive coragem de explicar a ela que não era possível.
— Claro que pode — respondi. — Eu ia adorar.
Sharon bateu com a vara na lateral do barco.
— Todos a bordo!
Subi com relutância; depois, Emma e a srta. Peregrine embarcaram também. Elas insistiram em ficar comigo até que eu encontrasse meus pais, e eu não discuti. Seria mais fácil me despedir em etapas.
Sharon desamarrou o barco e nós partimos. Nossos amigos acenavam e gritavam para nós enquanto nos afastávamos. Acenei em resposta, mas doía demais vê-los se perder à distância, então semicerrei os olhos até que a corrente nos levasse a fazer a volta em uma curva do Valão e eles desaparecessem.
Nenhum de nós estava com vontade de conversar. Observamos em silêncio prédios decadentes e pontes decrépitas passarem. Depois de um tempo, chegamos ao entroncamento, fomos sugados bruscamente pela mesma passagem subterrânea por onde entráramos e chegamos ao outro lado, em uma tarde úmida, quente e moderna. Os cortiços aos pedaços do Recanto do Demônio tinham desaparecido, substituídos por prédios residenciais com fachada de vidro e torres comerciais reluzentes. Um barco a motor passou roncando.
Os sons de um dia movimentado e preocupado do presente chegaram até nós. O alarme de um carro. Um telefone celular tocando. Música pop estridente. Passamos por um restaurante elegante à beira do canal, mas os clientes que jantavam no pátio não nos viram passar graças ao feitiço de Sharon. Se tivessem visto, imaginei o que teriam pensado de nós: dois adolescentes de preto, uma mulher em roupas formais vitorianas e Sharon em sua capa igual à da Morte, nos transportando de barco para fora do mundo inferior. Talvez o mundo moderno fosse tão embotado que ninguém prestasse atenção.
Meus pais, porém, eram outra história, e agora que tínhamos voltado ao presente eu estava começando a me preocupar com que história seria essa. Eles já achavam que eu tinha perdido a cabeça, ou estava usando drogas pesadas. Eu teria sorte se não me internassem em um hospital psiquiátrico. Mesmo que não fizessem isso, eu teria que andar na linha por anos. Eles nunca voltariam a confiar em mim.
Mas essa era a minha luta, e eu ia encontrar um meio de vencê-la. A coisa mais fácil para mim seria lhes contar a verdade. Mas, na realidade, eu não podia. Meus pais nunca entenderiam essa parte de minha vida, e insistir poderia fazê-los enlouquecer.
Meu pai já sabia mais do que deveria sobre as crianças peculiares. Ele as conhecera em Cairnholm, embora achasse estar sonhando. Lá, Emma lhe deixara aquela carta e uma foto dela com meu avô. Como se isso já não fosse ruim o suficiente, eu na verdade contei pelo telefone a meu pai que era peculiar.
Isso tinha sido um erro, percebi, e egoísta. E agora ali estava eu seguindo para encontrá-los, com Emma e a srta. Peregrine ao meu lado.
— Pensando bem, talvez vocês não devessem vir comigo — falei, virando-me para elas no barco.
— Por que não? Não vamos envelhecer tão rápido... — disse Emma.
— Não acho que meus pais devam me ver com vocês. Isso tudo já vai ser bem difícil de explicar do jeito que está.
— Eu já pensei sobre isso — disse a srta. Peregrine.
— Sobre o quê? Meus pais?
— Isso. Posso ajudar com eles, se você quiser.
— Como?
— Um dos muitos deveres de uma ymbryne é lidar com normais tão curiosos sobre nós que começam a causar problemas; melhor dizendo, inoportunos. Temos maneiras de fazer com que percam a curiosidade, de fazer com que esqueçam certas coisas que viram.
— Você sabia disso? — perguntei a Emma.
— Claro. Se não fosse pelo apagamento, peculiares estariam no noticiário dia sim, dia não.
— Então isso apaga a memória das pessoas?
— É mais como um embotamento seletivo de recordações inconvenientes — disse a srta. Peregrine. — É bem indolor e não tem efeitos colaterais. Ainda assim, pode lhe parecer radical. A decisão é sua.
— Está bem — falei.
— Está bem o quê? — perguntou Emma.
— Por favor, faça essa coisa de apagar a memória com meus pais. Parece incrível. Aliás, teve uma vez, quando eu tinha doze anos, que bati com o carro da minha mãe na porta da garagem...
— Não vamos nos empolgar, sr. Portman.
— Brincadeira — falei, embora não fosse má ideia.
De qualquer modo, fiquei extremamente aliviado. Agora eu não teria que passar o resto de minha adolescência me desculpando por ter fugido, feito meus pais pensarem que eu estava morto e quase arruinado a vida deles para sempre.
Seria bom.

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Boa leitura :)