10 de abril de 2017

Capítulo dez

De onde estávamos, parados estupefatos nos degraus da catedral, a cidade inteira parecia mergulhada em chamas. O céu era um panorama de chamas laranja, com luz o suficiente para ler. A praça onde tínhamos perseguido as pombas se transformara em um buraco fumegante entre as pedras arredondadas do calçamento. As sirenes continuavam a soar, um contraponto em soprano ao baixo incessante das bombas, com um tom tão assustadoramente humano que parecia que todas as almas em Londres tinham subido nos telhados para gritar o desespero coletivo. Depois, a surpresa foi substituída pelo medo e pela urgência de autopreservação, então descemos os degraus cheios de destroços até a rua, passamos pela praça arruinada e demos a volta em um ônibus de dois andares que parecia ter sido esmagado por um gigante enraivecido. Eu não sabia para onde corríamos, mas nem me importava, desde que fosse para longe da Sensação, que ficava cada vez mais forte e enjoativa dentro de mim.
Olhei para trás, para a menina telecinética que puxava os irmãos cegos enquanto eles estalavam a língua. Pensei em dizer a ela para soltar a pomba, de forma que pudéssemos segui-la, mas de que adiantaria encontrar a srta. Wren naquele momento, com os etéreos em nossa cola? Seríamos mortos ao chegar e poríamos em risco a vida dele. Não. Primeiro, precisávamos despistar os etéreos.
Ou, melhor ainda, matá-los.
Um homem com capacete de metal espichou a cabeça para fora de uma porta e gritou:
— É melhor vocês procurarem abrigo! — Depois se recolheu.
Claro, pensei. Mas onde? Talvez pudéssemos nos esconder nos destroços e no caos à nossa volta, e, com tanto barulho e distração, os etéreos passariam sem nos ver. Mas ainda estávamos perto demais, nosso rastro era muito recente.
Alertei meus amigos para não usarem as habilidades, não importasse o motivo, e Emma e eu os conduzimos pelas ruas em zigue-zague, torcendo para que isso dificultasse a perseguição.
Mesmo assim, eu ainda os sentia se aproximando. Eles estavam em campo aberto, fora da catedral, correndo atrás de nós — invisíveis para todos, menos para mim. Fiquei me perguntando se até mesmo eu teria dificuldade de vê-los ali no escuro: criaturas de sombra em uma cidade de sombras.
Corremos até meu pulmão começar a arder. Até Olive não aguentar mais e Bronwyn ter que carregá-la no colo. Passamos por grandes quarteirões com janelas cobertas que nos encaravam como olhos sem pálpebras; depois, por uma biblioteca bombardeada que fazia nevar cinzas e papel queimado; por um cemitério bombardeado, com londrinos havia muito esquecidos desenterrados e arremessados em árvores, as caveiras sorridentes em trajes formais apodrecidos; por um playground com uma cratera, onde havia um balanço todo torto. Os horrores se acumulavam, incompreensíveis. Os bombardeiros de vez em quando lançavam sinalizadores, iluminando tudo com o branco puro e brilhante de mil flashes. Como se quisessem dizer: Vejam. Vejam o que fizemos.
Pesadelos que haviam ganhado vida. Como os etéreos.
Não olhe, não olhe, não olhe...
Invejei os irmãos cegos, que navegavam por uma topografia piedosamente carente de detalhes, tendo apenas a noção da estrutura geral do mundo.
Perguntei-me brevemente como seriam seus sonhos... ou se sequer sonhavam.
Emma corria ao meu lado, o cabelo ondulado coberto de poeira e balançando às costas.
— Todo mundo está exausto — falou. — Não podemos continuar assim!
Ela tinha razão. Àquela altura, até os mais em forma estavam cansados. Os etéreos logo nos alcançariam, então teríamos que enfrentá-los no meio da rua — o que seria um banho de sangue. Precisávamos encontrar abrigo.
Conduzi os outros na direção de uma série de casas. Como os pilotos de bombardeiro eram mais propensos a tentar acertar uma casa bem-iluminada do que uma mancha na escuridão, todas estavam às escuras, com as luzes das portas apagadas e as janelas cobertas. Uma casa vazia seria o mais seguro, mas, apagadas como estavam, não havia como saber quais estavam ocupadas e quais não. Teríamos que escolher aleatoriamente.
Fiz todos pararem no meio da rua.
— O que você está fazendo? — indagou Emma, tentando recuperar o fôlego.
— Ficou maluco?
— Talvez — respondi, então agarrei Horace, estendi a mão na direção das casas e disse: — Escolha.
— Como assim? — perguntou. — Por que eu?
— Porque confio mais nos seus palpites aleatórios do que nos meus.
— Mas eu nunca sonhei com isso! — protestou o garoto.
— Talvez tenha sonhado, mas não lembra — respondi. — Escolha.
Ao perceber que não havia saída, Horace engoliu em seco e fechou os olhos por um segundo, então se virou e apontou para uma casa atrás de nós.
— Aquela.
— Por que aquela? — perguntei.
— Porque você me obrigou a escolher! — retrucou Horace, irritado.
Ia ter que servir.

* * *

A porta da frente estava trancada. Sem problema: Bronwyn arrancou a maçaneta e a jogou na rua. A porta se entreabriu sozinha, e entramos, em fila, em um corredor escuro e cheio de fotos de família, os rostos impossíveis de identificar. Bronwyn fechou a porta e a bloqueou com uma mesa que encontrou no corredor.
— Quem está aí? — veio uma voz do interior da casa.
Droga. Não estávamos sozinhos.
— Você devia ter escolhido uma casa vazia — reclamei com Horace.
— Eu vou dar um socão na sua cara — murmurou Horace.
Não havia tempo para trocarmos de casa. Teríamos que nos apresentar a quem quer que estivesse ali e torcer para que fosse amistoso.
— Quem está aí? — perguntou a voz.
— Não somos ladrões, alemães nem nada parecido! — gritou Emma. — Só entramos aqui atrás de abrigo!
Nenhuma resposta.
— Fiquem aqui — disse Emma aos outros, e me puxou pelo corredor. — Estamos indo dizer olá! — anunciou, em tom amistoso. — Não atire em nós, por favor!
Caminhamos até o fim do corredor e viramos uma curva. Ali, parada na soleira de uma porta, havia uma menina. Ela segurava uma lanterna pesada em uma das mãos e um abridor de cartas na outra. Seus olhos negros e duros se moviam, aflitos, de Emma para mim.
— Não há nada de valor aqui! — declarou ela. — Esta casa já foi roubada.
— Eu já falei que não somos ladrões! — retrucou Emma, ofendida.
— E eu disse a vocês para ir embora. Se não forem, vou gritar, e... e meu pai vai vir correndo com... com revólveres e outras coisas!
A menina parecia ao mesmo tempo infantil e prematuramente adulta. Tinha o cabelo na altura da orelha e usava um vestido infantil com grandes botões brancos que iam de cima a baixo, mas algo em seu rosto inexpressivo a fazia parecer mais velha, já conhecedora do mundo, mesmo tendo apenas doze ou treze anos.
— Por favor, não grite — pedi, mas não pensando no pai provavelmente fictício, e sim em outras coisas que poderiam vir correndo.
Então ouvimos uma vozinha atrás da menina, através da porta que ela obviamente estava bloqueando.
— Quem está aí, Sam?
O rosto da menina empalideceu de frustração.
— Só umas crianças — foi a resposta. — Eu pedi para você ficar quieta, Esme.
— São simpáticas? Quero ver!
— Elas já estão de saída.
— Nós somos muitos, vocês são só duas — argumentou Emma, de modo muito realista. — Vamos ficar por um tempo e ponto final. Você não vai gritar e nós não vamos roubar nada.
Os olhos da menina brilharam de raiva, mas depois se acalmaram. Ela sabia que perdera a disputa.
— Está bem — concordou. — Mas se tentarem alguma coisa eu grito enfio isso na sua barriga. — Ela brandiu o abridor de cartas, sem forças, depois o baixou até a altura da cintura.
— É justo — respondi.
— Sam — chamou a vozinha. — O que está acontecendo?
A garota, Sam, se afastou com relutância, revelando um banheiro que dançava à luz tremeluzente de velas. Havia uma pia, um vaso sanitário e uma banheira, e, na banheira, uma menininha de uns cinco anos. Ela nos espiava por cima da borda, com curiosidade.
— Essa é a minha irmã, Esme — explicou Sam.
— Olá! — cumprimentou Esme, agitando um patinho de borracha para nós. — As bombas não acertam quem fica dentro de uma banheira, sabiam?
— Não, não sabia — respondeu Emma.
— É onde ela se sente segura — sussurrou Sam. — Passamos todo ataque aéreo aqui.
— Vocês não estariam mais seguras em um abrigo? — indaguei.
— São lugares horríveis — respondeu Sam.
Os outros tinham se cansado de esperar e começaram a avançar pelo corredor. Bronwyn enfiou a cabeça pela porta e disse olá.
— Entrem! — disse Esme, muito contente.
— Você confia fácil demais nas pessoas — repreendeu-a Sam. — Um dia, vai conhecer alguém mau e vai se arrepender.
— Eles não são maus — retrucou Esme.
— Não dá para saber só de olhar.
Então Hugh e Horace enfiaram a cabeça pela porta, curiosos para ver quem tínhamos encontrado, e Olive se enfiou entre as pernas deles e se sentou no chão.
Logo estávamos todos apertados no banheiro, até Melina e os irmãos cegos — que ficaram de pé de frente para a parede, de um jeito muito esquisito. Ao ver tanta gente, as pernas de Sam tremeram e ela se sentou pesadamente no vaso, sem saber o que fazer. Mas sua irmã estava empolgada, perguntando o nome de todos que entravam.
— Onde estão os pais de vocês? — perguntou Bronwyn.
— Meu pai está atirando em gente má na guerra — respondeu Esme, orgulhosa. Ela imitou o gesto de segurar um fuzil e gritou: — Bang!
Emma olhou para Sam.
— Você disse que seu pai estava lá em cima — disse Emma, sem rodeios.
— Vocês invadiram nossa casa — retrucou Sam.
— É verdade.
— E a sua mãe? — indagou Bronwyn. — Onde ela está?
— Já morreu faz tempo — explicou Sam, sem demonstrar tristeza. — Então, quando papai foi para a guerra, tentaram deixar a gente com alguns parentes em algum lugar. E, como a irmã do papai que mora em Devon é muito má e só aceitaria ficar com uma de nós, tentaram mandar Esme e eu para lugares diferentes. Mas saltamos do trem e voltamos.
— Não seremos separadas — declarou Esme. — Somos irmãs.
— E vocês têm medo de ir para um abrigo e serem encontradas? — indagou Emma. — E mandadas para longe?
Sam assentiu.
— Não vou deixar isso acontecer.
— É seguro aqui na banheira — comentou Esme. — Talvez seja melhor vocês também entrarem. Aí fica todo mundo seguro.
Bronwyn levou a mão ao coração.
— Obrigada, querida, mas não caberia todos nós!
Enquanto os outros conversavam, voltei a me concentrar em meu interior, tentando sentir os etéreos. Eles não estavam mais correndo. A Sensação se estabilizara, o que significava que não estavam nem chegando mais perto, nem se afastando, e sim provavelmente farejando os arredores. Considerei isso um bom sinal. Se soubessem onde estávamos, teriam ido direto até nós. Nosso rastro esfriara. Só precisávamos ficar escondidos por um tempo, depois poderíamos seguir a pomba até a srta. Wren.
Ficamos aglomerados no chão do banheiro, ouvindo bombas caírem em outras partes da cidade. Emma encontrou um pouco de álcool no armário de remédios e insistiu em limpar e fazer um curativo no corte em minha cabeça.
Depois, Sam começou a cantarolar uma canção que eu conhecia, mas não conseguia lembrar o nome, enquanto Esme brincava com seu patinho na banheira. Bem lentamente, a Sensação começou a diminuir. Por pouquíssimos instantes, aquele banheiro cintilante se transformou em um mundo à parte: um casulo distante dos problemas e da guerra.
Mas a guerra lá fora se recusava a ser ignorada por muito tempo. Armas de ataque antiaéreo foram disparadas. Estilhaços caíram no telhado como garras. As bombas se aproximaram cada vez mais, até que as detonações passaram a ser seguidas por sons mais baixos e mais sinistros: o barulho de paredes desabando. Olive abraçou a si mesma. Horace enfiou o dedo nos ouvidos. Os meninos cegos gemiam e se balançavam, ainda de pé. A srta. Peregrine se agitava nas profundezas das dobras do casaco de Bronwyn e a pomba tremia no colo de Melina.
— Olha a loucura em que vocês nos enfiaram! — comentou Melina.
— Eu avisei — retrucou Emma.
A água na banheira ondulava a cada explosão. A garotinha agarrou o pato de borracha com força e começou a chorar. Seus soluços encheram o pequeno cômodo. Sam cantarolou mais alto, fazendo pausas para sussurrar “Você está segura, Esme, está segura aqui” entre as linhas melódicas, mas a menininha só chorava mais. Horace tirou os dedos dos ouvidos e tentou distraí-la fazendo bichos de sombras na parede — um crocodilo abrindo e fechando a boca, um pássaro voando —, mas Esme mal deu atenção. Então, a última pessoa que eu poderia imaginar que fosse se dar ao trabalho de tentar fazer uma garotinha se sentir melhor se aproximou da banheira.


— Olhe aqui — disse Enoch. — Eu tenho um homenzinho que gostaria de montar no seu pato para dar uma volta. E ele cabe direitinho.
Ele tirou do bolso um homúnculo de argila de cerca de dez centímetros, o último dos que fizera em Cairnholm. Os soluços de Esme foram diminuindo enquanto ela o observava dobrar as pernas do homem de barro e colocá-lo sentado na beira da banheira. Depois, apertando o polegar no peito do pequenino homem de argila, Enoch lhe deu vida. O rosto de Esme brilhou de felicidade quando o homenzinho se levantou e caminhou pela borda da banheira.
— Vamos lá — incentivou Enoch. — Mostre a ela o que sabe fazer.
O homenzinho de barro pulou e bateu os calcanhares, depois fez uma reverência exagerada. Esme riu e bateu palmas. Logo depois, quando uma bomba caiu ali perto, fazendo o homenzinho perder o equilíbrio e cair na banheira, ela riu ainda mais.
Um calafrio repentino subiu pela minha nuca e fez meu couro cabeludo se eriçar, então a Sensação me tomou de forma tão repentina e acentuada que gemi e me curvei. Os outros me viram e entenderam o significado na mesma hora.
Eles estavam a caminho. E bem depressa.
É claro que estavam: Enoch usara seu poder, e eu nem tinha me lembrado de impedi-lo. Foi quase como se tivéssemos acendido um sinalizador.
Eu me levantei, equilibrando-me com dificuldade, pois a dor vinha em ondas debilitantes. Tentei gritar: Corram! Fujam pelos fundos!, mas não tinha forças para falar. Emma pôs as mãos em meus ombros.
— Se acalme, meu bem, e melhore logo, pois precisamos de você!
De repente, alguma coisa bateu na porta da frente. Cada impacto ecoou pela casa.
— Eles estão aqui! — consegui dizer finalmente, mas o som da porta se sacudindo nas dobradiças já declarara o óbvio.
Todo mundo se levantou de um pulo e se apertou para sair para o corredor, em uma confusão apavorada. Apenas Sam e Esme ficaram no lugar, encolhidas, sem entender. Emma e eu tivemos que puxar Bronwyn para longe da banheira.
— Não podemos simplesmente abandoná-las! — gritou a menina, enquanto a arrastávamos na direção da porta.
— Podemos, sim! — retrucou Emma. — Elas vão ficar bem... Os etéreos não estão atrás delas!
Eu sabia que isso era verdade, mas também sabia que os etéreos eliminariam qualquer coisa que encontrassem pelo caminho, incluindo duas meninas normais.
Bronwyn socou a parede com raiva, abrindo um buraco na forma de seu punho.
— Desculpe — disse às meninas.
Emma a empurrou para o corredor. Fui atrás delas cambaleando, sentindo o estômago se revirar.
— Tranquem essa porta e não abram para ninguém! — gritei, depois me virei para trás e dei uma última olhada no rosto de Sam, enquadrado pela porta se fechando, os olhos arregalados e assustados.
Ouvi uma janela se quebrar na frente da casa. Uma espécie de curiosidade suicida me fez espiar além do corredor. Uma massa de tentáculos se retorcia para passar pelas cortinas de blecaute.
Emma agarrou meu braço e me puxou, levando-me por outro corredor até a cozinha, de onde saímos pela porta dos fundos para um jardim coberto de cinzas. Em seguida, corremos para um beco, por onde os outros já saíam em disparada, espalhados. De repente, alguém gritou:
— Olhem ali! Olhem ali!
Ainda correndo, eu me virei e vi uma grande ave branca planando bem alto. Enoch gritou:
— Uma mina! É uma mina!
O que pareciam asas delicadas giraram de repente e se abriram em um paraquedas, e o objeto gordo e prateado pendurado nela estava carregado de explosivos: um anjo da morte flutuando serenamente em direção à terra.
Os etéreos saíram da casa. Eu conseguia vê-los ao longe, pulando pelo jardim com as línguas balançando no ar.
A mina caiu perto da casa com um tilintar suave.
— Abaixem-se! — gritei.
Não tivemos a menor chance de correr em busca de abrigo. Mal cheguei ao chão e houve um clarão cegante, seguido de um barulho que parecia a terra se abrindo e uma onda forte de vento quente e cauterizante que arrancou o ar de meus pulmões. Então, uma chuva negra de detritos caiu em minhas costas.
Agarrei os joelhos contra o peito para me tornar o mais compacto possível. Depois disso, restaram apenas o vento, as sirenes e um zumbido em meus ouvidos. Tentei respirar, mas me engasguei com o turbilhão de poeira. Ergui a gola do suéter por cima do nariz e da boca para filtrar o ar e, aos poucos, recuperei o fôlego.
Contei meus membros: dois braços e duas pernas.
Bom.
Sentei-me devagar e olhei ao redor. Não conseguia ver muita coisa através da poeira, mas ouvi meus amigos chamando uns aos outros. Escutei a voz de Horace, de Bronwyn. De Hugh. De Millard.
Onde estava Emma?
Gritei o nome dela. Tentei me levantar, mas caí no chão. Minhas pernas estavam intactas, mas tremiam. Não conseguiam sustentar meu peso.
Chamei de novo:
— Emma!
— Estou aqui!
Virei a cabeça de repente na direção da voz dela, que se materializou entre a fumaça.
— Jacob! Ah, minha nossa! Graças a Deus!
Nós dois estávamos tremendo. Eu a abracei e passei as mãos por seu corpo, para ter certeza de que estava tudo ali.
— Você está bem? — perguntei.
— Estou. E você?
Meus ouvidos doíam, meus pulmões latejavam e eu sentia uma pontada nas costas, onde tinha sido atingido pela chuva de detritos, mas a dor no estômago passara. No momento da explosão, foi como se alguém tivesse desligado um botão dentro de mim: a Sensação desapareceu na mesma hora.
Os etéreos tinham sido desintegrados.
— Estou bem — respondi. — Estou bem.
Tirando alguns cortes e arranhões, os outros também estavam. Nós nos reagrupamos, ainda cambaleantes, e analisamos nossas feridas. Todas eram pequenas.
— É um milagre — comentou Emma, sem conseguir acreditar.
Isso parecia ainda mais verdadeiro quando víamos que por toda a volta havia pregos, pedaços de concreto e lascas de madeira afiadas como facas — e a explosão enterrara a maioria alguns centímetros no chão.
Enoch foi mancando até um carro com as janelas quebradas estacionado ali perto, cuja carroceria estava tão cravejada de estilhaços de bomba que parecia ter sido alvo de uma metralhadora.
— Era para estarmos mortos — comentou, maravilhado, enfiando os dedos em um dos buracos. — Por que não estamos todos furados?
— Sua roupa, meu caro — explicou Hugh, então foi até Enoch e tirou um prego amassado das costas de seu suéter incrustado de pedrinhas.
— E a sua — respondeu Enoch, tirando uma ponta afiada de metal do suéter de Hugh.
Então todos analisamos nossas roupas. Em todos nós havia pedaços grandes de vidro e de metal encravados, coisas que deveriam ter atravessado nossos corpos, mas não o fizeram. Os suéteres peculiares que davam coceira e caíam mal não eram resistentes ao fogo nem à água, como sugerira a jumirafa. Eram à prova de balas. E tinham salvado nossa vida.
— Eu nunca iria imaginar que deveria minha vida a uma peça de roupa tão horrenda — comentou Horace, examinando a lã do suéter entre os dedos. — Será que dá para fazer um paletó com esse tecido?
Então Melina surgiu carregando a pomba no ombro e trazendo os irmãos cegos. Os irmãos tinham usado seus sentidos peculiares e descoberto uma parede baixa de concreto reforçado — ela soara bem resistente — e puxaram Melina junto com eles bem no instante em que a bomba explodiu. Com isso, só não sabíamos o que havia acontecido com as duas meninas normais. Mas, quando a poeira baixou e pudemos ver a casa — ou o que restava dela —, qualquer esperança de encontrá-las com vida desapareceu. O andar superior desabara, achatando o inferior como uma panqueca. O que restou foi uma ruína esquelética de vigas expostas e entulho fumegante.
Bronwyn foi correndo até lá mesmo assim, gritando o nome das irmãs.
Entorpecido, fiquei só olhando.
— Podíamos ter ajudado as duas, mas não ajudamos — comentou Emma, arrasada. — Nós as deixamos para morrer.
— Não teria feito a menor diferença — respondeu Millard. — A morte delas estava escrita na história. Mesmo que tivéssemos salvado suas vidas, outra coisa as teria matado. Outra bomba. Um acidente de ônibus. Elas eram do passado, e o passado sempre se conserta, por mais que a gente tente interferir.
— É por isso que você não tem como voltar no tempo e matar o bebê Hitler para evitar que a guerra aconteça — completou Enoch. — A história se cura. Isso não é interessante?
— Não — retrucou Emma, com raiva. — E você é um canalha sem coração por falar em matar bebês em um momento desses. Ou em qualquer momento.
— O bebê Hitler — reforçou Enoch. — E falar sobre a teoria das fendas temporais é melhor do que ficar histérico sem motivo. — Ele olhava para Bronwyn, que estava escalando a pilha de escombros, cavando nos destroços, jogando entulho para todos os lados.
Ela se virou e acenou para nós.
— Aqui! — gritou.
Enoch balançou a cabeça.
— Alguém vá buscá-la, por favor. Precisamos encontrar a ymbryne.
— Aqui! — gritou Bronwyn, dessa vez mais alto. — Estou ouvindo uma delas!
Emma olhou para mim.
— Espere. O que foi que ela disse?
E todos corremos para nos juntar a Bronwyn.

* * *

Encontramos a garotinha embaixo de um pedaço da laje do teto que caíra em cima da banheira, agora quebrada, mas não estraçalhada. Esme estava encolhida lá dentro. Molhada, imunda e traumatizada, mas viva. A banheira a protegera, exatamente como a irmã prometera.
Bronwyn levantou o pedaço de teto o suficiente para Emma enfiar as mãos na banheira e tirar Esme. A menininha se agarrou a ela prontamente, tremendo e chorando.
— Cadê minha irmã? — perguntou. — Cadê Sam?
— Calma, querida, calma — respondeu Emma, balançando-a para cima e para baixo. — Vamos levar você para um hospital. Sam vai depois.
Era mentira, é claro, e notei que Emma estava arrasada por ter que dizer aquilo. Nós e a garotinha termos sobrevivido contabilizava dois milagres em uma só noite. Esperar um terceiro parecia ganância.
Mas, então, um terceiro milagre aconteceu — ou algo parecido.
— Estou aqui, Esme! — veio uma voz de cima.
— Sam! — gritou a menininha, e todos olhamos para o alto.
Sam estava pendurada em uma viga de madeira do telhado. A viga estava quebrada e pendia a um ângulo de quarenta e cinco graus. Sam estava perto da ponta de baixo, mas ainda inalcançável.
— Pode soltar! — gritou Emma. — Vamos pegar você!
— Não posso!
Então olhei mais atentamente e entendi por que ela não podia se soltar. Quase desmaiei.
Os braços e as pernas de Sam pendiam, frouxos. Ela não estava pendurada na viga, mas por causa da viga. A peça de madeira estava atravessada bem no centro de seu corpo. Apesar disso, os olhos da menina ainda estavam abertos e ela piscava, alerta, nos fitando.
— Parece que estou presa — disse, muito calma.
Eu tinha certeza de que Sam ia morrer a qualquer momento. Ela estava em choque, por isso não sentia dor, mas a adrenalina em seu organismo logo iria se dissipar. Quando isso acontecesse, Sam ia desmaiar e morrer.
— Alguém precisa tirar minha irmã de lá! — gritou Esme.
Bronwyn foi atrás da menina. Ela subiu por uma escada caindo aos pedaços, que levava ao teto, então se esticou para se agarrar na viga. Bronwyn puxou e puxou e, com sua força enorme, conseguiu diminuir o ângulo entre a viga e o chão até que a ponta quebrada quase tocasse os destroços abaixo. Isso permitiu que Enoch e Hugh alcançassem as pernas de Sam e, com muita delicadeza, fizessem-na deslizar para a frente, até que ela se soltou, com um plop suave, e parou de pé.
Sam olhou para o buraco em seu peito sem muito interesse. Tinha uns quinze centímetros de diâmetro e era perfeitamente redondo, como a viga com que ela fora empalada. Mesmo assim, não parecia incomodá-la muito.


Esme se soltou de Emma e correu até a irmã.
— Sam! — exclamou a menininha, abraçando pela cintura a irmã ferida. — Graças a Deus você está bem!
— Acho que ela não está bem! — comentou Olive. — Acho que ela não está nada bem!
Mas Sam só estava preocupada com Esme, não consigo mesma. Depois de abraçá-la bem apertado, a menina se ajoelhou e segurou a irmãzinha com os braços esticados, examinando-a em busca de cortes e machucados.
— Me diga onde dói — mandou.
— Meus ouvidos estão zumbindo. Ralei os joelhos e entrou um pouco de terra nos meus olhos...
Então Esme começou a tremer e a chorar, tomada outra vez pelo choque do que acontecera. Sam a abraçou bem forte, dizendo:
— Está tudo bem, está tudo bem...
Não fazia sentido que o corpo de Sam ainda estivesse funcionando. E o mais estranho era que o ferimento não estava sequer sangrando — não havia sangue coagulado nem pedaços de entranhas saindo por ele, como eu esperava, por causa dos filmes de terror a que assisti. Em vez disso, Sam parecia uma boneca de papel que fora atacada por um furador gigante.
Apesar de todos estarem doidos para encontrar uma explicação, tínhamos decidido dar às meninas um momento a sós. Ficamos olhando, pasmos, de uma distância respeitável.
Enoch, entretanto, não teve a mesma cortesia.
— Com licença — disse, invadindo o espaço pessoal das irmãs. — Você pode explicar como é que ainda está viva?
— Não é nada sério — respondeu Sam. — Mas acho que meu vestido não vai ter salvação.
— Nada sério?! — indagou Enoch. — Dá para ver através de você!
— Dói um pouco — admitiu ela. — Mas vai encher em um ou dois dias. Isso sempre acontece.
Enoch riu loucamente.
— Sempre acontece?
— Em nome de tudo que é peculiar! — murmurou Millard. — Vocês sabem o que isso significa, não sabem?
— Ela é uma de nós — respondi.

* * *

Tínhamos perguntas. Muitas perguntas. Enquanto as lágrimas de Esme diminuíam, tomamos coragem para fazê-las.
Sam sabia que era peculiar?
Ela sabia que era diferente, foi a resposta, mas nunca tinha ouvido o termo peculiar.
Ela já tinha vivido em alguma fenda temporal?
Não (“Fenda o quê?”), o que significava que Sam tinha exatamente a idade que aparentava: doze anos, pelo que disse.
Nenhuma ymbryne tinha ido atrás dela?
— Uma pessoa veio aqui, uma vez — respondeu Sam. — Disse que havia outros como eu, mas que, para me juntar a eles, eu teria que abandonar Esme.
— Esme não consegue... fazer nada? — perguntei.
— Eu sei contar até cem de trás para a frente com voz de pato — gabou-se Esme, entre uma fungada e outra, e logo começou a demonstração, grasnando: — Cem, noventa e nove, noventa e oito...
Antes que pudesse se estender, Esme foi interrompida por uma sirene muito aguda e que vinha direto em nossa direção. Uma ambulância fez a curva, entrou correndo no beco e veio depressa até nós. Estava com os faróis cobertos, de modo que víamos apenas pontinhos de luz. O carro freou e parou ali perto, a sirene foi desligada e um motorista desceu.
— Alguém se machucou? — perguntou o homem, correndo até nós.
Ele vestia um uniforme cinza amarrotado e usava um capacete de metal amassado. Apesar de cheio de energia, parecia exausto, como se não dormisse fazia dias.
O homem viu o buraco no peito de Sam e parou onde estava.
— Minha nossa!
Sam se levantou.
— Não é nada de mais! — exclamou a menina. — Estou bem!
E, para demonstrar como estava bem, ela enfiou a mão no buraco, depois tirou e fez um polichinelo.
O paramédico desmaiou.
— Hum... — murmurou Hugh, cutucando o homem caído com o pé. — Eu imaginava que esses sujeitos fossem mais resistentes.
— Como ele está obviamente incapacitado, sugiro que a gente pegue a ambulância emprestada — declarou Enoch. — Não tem como saber até que parte da cidade a pomba vai nos guiar. Se for longe, podemos levar a noite inteira para chegar a pé até a srta. Wren.
Horace, que estava sentado em um pedaço de parede, se levantou.
— Uma ideia excelente! — exclamou.
— É uma ideia péssima! — retrucou Bronwyn. — Não podemos roubar uma ambulância... os feridos precisam dela!
— Nós fomos feridos — gemeu Horace. — E precisamos dela!
— Não é a mesma coisa!
— Santa Bronwyn! — interveio Enoch, sarcástico. — Está tão preocupada com o bem-estar dos normais que vai arriscar a vida da srta. Peregrine para proteger alguns deles? Mil deles não valem nem uma dela! Nem nenhum de nós, para ser sincero!
Bronwyn ficou pasma.
— Que coisa horrível de se dizer na frente de...
Sam foi até Enoch, exibindo uma careta de desgosto.
— Olha aqui, garoto. Se você sugerir mais uma vez que a vida da minha irmã não vale nada, vou bater em você.
— Calma, eu não estava falando da sua irmã. Só quis dizer que...
— Eu sei muito bem o que você quis dizer. E vou bater em você se disser outra vez.
— Desculpe se ofendi sua delicada sensibilidade — retrucou Enoch, erguendo a voz em desespero —, mas você nunca teve uma ymbryne e nunca viveu em uma fenda temporal, então não consegue entender que este momento aqui não é real, estritamente falando. Estamos no passado. A vida de todos os normais desta cidade já foi vivida. Os destinos estão determinados, não importa quantas ambulâncias a gente roube! Por isso, não tem nenhuma importância, entendeu?
Com a expressão um pouco intrigada, Sam não respondeu, mas continuou a olhar feio para Enoch.
Bronwyn se pronunciou:
— Mesmo assim, não é certo fazer as pessoas sofrerem sem necessidade. Não podemos levar a ambulância.
— Esse discurso é muito bonito, mas pense na srta. Peregrine! — interveio Millard. — Ela não deve ter mais que um dia.
Nosso grupo parecia igualmente dividido entre roubar a ambulância ou ir a pé, por isso resolvemos votar. Eu era contra, sobretudo porque as ruas estavam tão esburacadas por causa das bombas que eu não sabia como conseguiríamos dirigir aquela coisa.
Emma organizou a votação.
— Quem é a favor de levar a ambulância? — indagou.
Algumas mãos se ergueram.
— E contra?
De repente, ouvimos um estouro vindo da direção da ambulância e nos viramos. A srta. Peregrine estava parada ao lado do veículo enquanto um dos pneus traseiros esvaziava. A srta. Peregrine votara com o bico, enfiando-o no pneu. Ninguém mais poderia usá-la, nem nós, nem as pessoas feridas — e não fazia sentido discutirmos ou nos demorarmos mais.
— Bem, isso simplifica as coisas — comentou Millard. — Vamos a pé.
— Diretora! — exclamou Bronwyn. — Como pôde?
Ignorando a indignação de Bronwyn, a srta. Peregrine foi saltitando até Melina, olhou para a pomba em seu ombro e soltou um pio alto. A mensagem era clara: Vamos logo!
Não tínhamos escolha. O tempo estava se esgotando.
— Venha com a gente — disse Emma para Sam. — Se há alguma justiça neste mundo, estaremos em um lugar seguro antes do fim da noite.
— Eu disse a vocês, não vou abandonar minha irmã — respondeu a menina. — Vocês vão para um desses lugares onde ela não consegue entrar, não é?
— Eu... eu não sei — gaguejou Emma. — É possível...
— Não me importa onde seja — disse Sam, com frieza. — Depois do que acabei de ver, não tenho vontade nem de atravessar a rua com vocês.
Emma recuou e ficou um pouco pálida.
— Por quê? — perguntou ela, em voz baixa.
— Se nem pessoas excluídas e oprimidas como vocês conseguem ter um pouco de compaixão pelos outros — explicou a menina —, não há mais esperança para este mundo.
Sam então se virou e carregou Esme na direção da ambulância.
Emma reagiu como se tivesse levado um tapa. Seu rosto ficou vermelho. Ela correu atrás de Sam.
— Nem todos nós pensamos como Enoch! E, quanto a nossa ymbryne, tenho certeza de que não foi de propósito!
Sam se virou para encará-la.
— Aquilo não foi acidente! Ainda bem que minha irmã não é igual a vocês. Juro por Deus que eu queria não ser.
Ela se virou de novo, e dessa vez Emma não a seguiu. Com mágoa nos olhos, observou Sam se afastar, depois foi até os outros, abatida. De algum modo, o ramo de oliveira que ela estendera em um gesto de promessa de salvação se transformara em cobra e a mordera.
Bronwyn tirou o suéter e o colocou no chão.
— Da próxima vez que as bombas caírem, vista isso em sua irmã — gritou para Sam. — Vai protegê-la mais do que qualquer banheira.
Sam não disse nada, nem sequer olhou. Estava agachada ao lado do motorista da ambulância, que tinha se sentado, balbuciando:
— Eu tive um sonho muito estranho...
— Isso foi bem idiota de se fazer — comentou Enoch para Bronwyn. — Agora você não tem suéter.
— Cale essa sua boca grande — respondeu Bronwyn. — Se você já tivesse feito alguma coisa boa por alguém, talvez entendesse.
— Eu já fiz uma coisa boa por outra pessoa — retrucou Enoch. — E isso quase nos fez ser devorados por etéreos!
Murmuramos adeus, o que ficou sem resposta, e corremos para as sombras.
Melina pegou a pomba e a jogou para o alto. A ave voou uma pequena distância antes que um fio amarrado em sua perna se esticasse e ela ficasse parada no céu, presa no ar, como um cachorro puxando a coleira.
— A srta. Wren está para lá — anunciou Melina, indicando a direção em que a ave puxava, então seguimos a garota e sua pomba amiga pelo beco.
Eu estava prestes a assumir a posição de vigia contra etéreos, que agora era meu lugar costumeiro à frente do grupo, quando alguma coisa me fez olhar para trás. Eu me virei a tempo de ver Sam erguer Esme, colocá-la na ambulância e se inclinar para a frente para dar um beijo em cada um de seus joelhos ralados. O que será que aconteceria com elas? Mais tarde, Millard me diria que o fato de nenhum deles ter ouvido falar de Sam — e alguém com uma peculiaridade tão única seria bem conhecida — significava que ela provavelmente não tinha sobrevivido à guerra.
Emma ficou muito afetada com tudo aquilo. Não sei por que era tão importante para ela provar a uma estranha que tínhamos bom coração, já que sabíamos que isso era verdade. Mas a sugestão de que éramos algo menos que anjos andando sobre a terra, de que nossas naturezas tinham matizes mais complexos, parecia incomodá-la.
Emma repetia sem parar:
— Elas não entendem.
Bem, pensei, talvez entendam.

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Boa leitura :)