5 de abril de 2017

Capítulo dez

Na terça-feira à noite, a maior parte do que eu acreditava saber sobre mim mesmo se revelou estar errada. Na manhã de domingo, meu pai e eu deveríamos fazer as malas e voltar para casa. Só restavam quatro dias para resolver o meu futuro. Como seria possível que eu ficasse aqui? Por outro lado, como poderia ir para casa?
Não tinha ideia do que fazer. Para piorar, não havia ninguém com quem eu pudesse conversar sobre o assunto. Meu pai estava fora de questão. Emma expunha apaixonadamente e com muita frequência argumentos a favor de que eu ficasse, nenhum dos quais fazia referência à vida que eu estaria abandonando se o fizesse — por pior que ela pudesse parecer —, ou como o súbito e inexplicável desaparecimento de seu filho único poderia afetar meus pais, ou a pressão sufocante que a própria Emma tinha admitido sentir dentro da fenda. Ela diria apenas:
— Com você aqui vai melhorar.
A srta. Peregrine ajudava ainda menos. Sua única resposta era que não podia tomar uma decisão como aquela por mim, apesar de eu apenas querer conversar sobre o assunto. Mas era óbvio que ela queria que eu ficasse. Além e acima de minha segurança, minha presença ali deixaria todos os outros na fenda mais seguros. Porém não simpatizava com a ideia de passar a vida como cão de guarda deles. Começava a suspeitar de que meu avô tinha achado o mesmo e que essa era parte da razão de sua recusa em voltar depois da guerra.
Juntar-me às crianças peculiares também significava não terminar o ensino médio nem ir para a faculdade ou fazer coisas normais que as pessoas fazem enquanto crescem. Mesmo assim, precisava me lembrar sempre de que eu não era normal e que, enquanto os etéreos estivessem à minha caça, qualquer vida fora da fenda de tempo provavelmente seria, de qualquer modo, eliminada antes que eu chegasse à faculdade. Eu passaria o resto dos meus dias com medo, olhando para trás, atormentado por pesadelos, à espera do dia em que eles voltariam para finalmente acabar comigo. Isso parecia bem pior do que não ir para a faculdade.
Então pensei: Será que não há uma terceira opção? Será que eu não poderia ser como meu avô Portman, que por cinco décadas viveu, trabalhou e combateu os etéreos fora da fenda? Era aí que a voz autodepreciativa em minha cabeça começava a falar: Ele teve treinamento militar, seu idiota. Era um cara frio e durão. E tinha um armário cheio de escopetas de cano serrado. O homem era um Rambo em comparação a você.
Minha parte otimista dizia que eu devia me inscrever em aulas de tiro. Aprender caratê. Malhar.
Está brincando? Você não conseguia se proteger nem no colégio! Tinha de subornar aquele caipira para fazer isso em seu lugar. E você molharia as calças só de apontar um revólver para alguém.
Não, eu não.
Você é fraco. É um fracassado. É por isso que ele nunca lhe contou quem realmente era. Ele sabia que você não ia segurar a onda.
Cale a boca! Cale a boca!
Durante dias meus pensamentos iam e voltavam desse jeito. Ficar ou partir?
Estava constantemente obcecado sem chegar a uma conclusão. Enquanto isso, meu pai perdeu completamente a empolgação com seu livro. Quanto menos trabalhava, mais desanimado ficava e, quanto mais desanimado, mais tempo passava no bar. Nunca o tinha visto beber daquele jeito — seis, sete cervejas por noite — e não gostava de estar por perto quando ele fazia isso. Ele ficava taciturno e, quando não ficava quieto e pensativo, me contava coisas que eu não queria saber.
— Um dia desses sua mãe vai me deixar — disse certa noite. — Se eu não fizer algo acontecer em breve, acho que ela vai mesmo.
Comecei a evitá-lo. Não tenho certeza de se ele percebeu. Tornou-se fácil, de um modo deprimente, mentir sobre minhas idas e vindas.
Na casa, a srta. Peregrine instituiu um isolamento praticamente completo.
Era como se houvesse sido declarada lei marcial: as crianças menores não podiam ir a lugar nenhum sem companhia, os mais velhos andavam em duplas e a srta. Peregrine tinha de saber onde todos estavam o tempo inteiro. Só conseguir permissão para sair da fenda já era um sacrifício.
Sentinelas eram convocadas e postas para trabalhar em turnos para vigiar a frente e os fundos da casa. Durante todo o dia e na maior parte da noite, era possível ver rostos entediados espiando das janelas. Se as crianças viam alguém chegando, tinham de puxar uma corrente que tocava um sino no quarto da srta. Peregrine, o que significa que sempre que eu chegava ela estaria à espera na porta para me interrogar. O que estava acontecendo fora da fenda? Eu tinha visto algo estranho? Tinha certeza de que não havia sido seguido?
Não foi surpresa as crianças terem ficado meio piradas. Os menores ficaram barulhentos, os mais velhos tornaram-se meio insensíveis, reclamando das novas regras em voz alta o bastante apenas para serem ouvidos por quem estava perto. Suspiros altos irrompiam no ar, normalmente a única pista de que Millard tinha entrado no aposento. Os insetos de Hugh voavam soltos e picaram várias pessoas até serem banidos da casa, depois do que Hugh começou a passar todo o tempo na janela, apenas vendo suas abelhas do outro lado do vidro.
Olive, alegando ter perdido seus sapatos de chumbo, começou a se arrastar pelo teto como uma mosca, pregando peças nas pessoas, deixando cair grãos de arroz em suas cabeças até que olhassem para cima, quando então ela dava uma gargalhada tão forte que sua levitação vacilava e ela tinha de se agarrar a um lustre ou trilho de cortina para evitar cair. O mais estranho de todos era Enoch, que desapareceu em seu laboratório no porão para experimentar em seus soldadinhos de barro cirurgias que fariam corar o doutor Frankenstein — amputar os membros de dois para fazer um homem-aranha assustador, por exemplo, ou juntar o coração de quatro galinhas em uma única cavidade torácica numa tentativa de fazer um super-homem de barro que nunca ficasse sem energia — até que, um a um, seus pequenos corpos cinzentos sucumbiram ao esforço e o porão ficou parecido com um hospital de guerra.
De sua parte, a srta. Peregrine permanecia em um estado de movimento constante, fumando seu cachimbo sem parar enquanto claudicava de quarto em quarto para ver como estavam as crianças, como se elas pudessem desaparecer no instante que sumissem de seu campo de visão. A srta. Avocet continuou por lá, saindo de seu torpor de vez em quando para perambular sem rumo pelos corredores, chamando com voz triste o nome de seus tutelados abandonados e depois desmoronando nos braços de alguém para ser novamente levada para a cama. Seguiu-se grande quantidade de especulação paranoica sobre a experiência trágica da srta. Avocet e por que os etéreos iam querer raptar ymbrynes, com teorias que iam do bizarro (para criar a maior fenda de tempo da história, grande o bastante para engolir todo o planeta) ao ridiculamente otimista (para fazer companhia aos etéreos — ser um monstro horrível devorador de almas pode ser bem solitário depois de algum tempo).
Por fim, um silêncio mórbido se abateu sobre a casa. Dois dias de confinamento deixaram todos letárgicos. Acreditando que a rotina era a melhor defesa contra a depressão, a srta. Peregrine tentava manter as crianças interessadas nas lições diárias que ela dava, na preparação das refeições cotidianas e também na limpeza e arrumação da casa, mas, sempre que não estavam sob ordens diretas para fazer alguma coisa, as crianças se afundavam pesadamente nas poltronas e ficavam olhando pela janela para o vazio, folheavam livros velhos sem realmente lê-los ou apenas dormiam.
Eu não tinha visto o talento peculiar de Horace em ação até que, certa noite, ele começou a gritar. Um grupo correu até o sótão, onde ele estava de sentinela, para encontrá-lo rígido em uma cadeira, em meio ao que parecia ser um pesadelo terrível, tentando agredir o ar com olhos aterrorizados e vazios. No início, seus gritos eram apenas isso: gritos; mas de repente ele começou a articular palavras, berrando sobre mares fervilhantes e cinzas chovendo do céu, e uma cortina de fumaça sem fim cobrindo a Terra. Após alguns minutos desses pronunciamentos apocalípticos, ele pareceu se esgotar e caiu num sono inquieto.
Os outros já tinham visto isso acontecer antes — o bastante para haver fotos de seus ataques no álbum da srta. Peregrine — e sabiam o que fazer. Sob as ordens da diretora, eles o carregaram pelos braços e pelas pernas até a cama e, quando despertou algumas horas depois, afirmou que não se lembrava do sonho, e os sonhos de que não se lembrava raramente se tornavam realidade. Os outros aceitaram isso porque já havia muita coisa com que se preocupar. Senti que ele estava escondendo algo.


Quando alguém desaparece em uma cidade tão pequena como Cairnholm, as pessoas percebem. Por isso, quando Martin não apareceu para abrir seu museu na manhã de quarta, nem passou no Buraco do Padre para seu drinque noturno habitual, as pessoas começaram a se perguntar se ele estaria doente — e, quando a mulher de Kev foi procurá-lo e encontrou a porta de sua casa escancarada e sua carteira e seus óculos sobre a pia da cozinha, mas não o encontrou, as pessoas começaram a imaginar que ele pudesse estar morto. No dia seguinte, como ele também não apareceu, um grupo de homens foi enviado para abrir velhos barracões de pesca e investigar embaixo de barcos virados, procurando em qualquer lugar onde um homem solteiro e apreciador de uísque poderia pensar em dormir para curar um porre, mas as buscas mal tinham começado quando receberam uma chamada pelo rádio de ondas curtas: o corpo de Martin havia sido pescado no oceano.
Eu estava no bar com meu pai quando o pescador que o encontrou entrou.
Ainda não passara do meio-dia, mas ele pediu uma cerveja antes de mais nada e depois de alguns minutos estava nos contando sua história.
— Eu estava lá em Gannet’s Point puxando minhas redes — começou o pescador. — Elas estavam muito pesadas, o que era estranho, já que tudo o que costumo pegar por lá são peixinhos pequenos, camarões e coisas assim. Achei que elas tinham ficado presas em alguma armadilha para caranguejos, então peguei o arpão e enfiei por baixo do barco até que ele se prendeu a algo.
Todos nos aproximamos dele sem sair de nossos bancos, como se fosse a hora da historinha em um jardim de infância incrivelmente mórbido.
— Era o Martin, sim. Parece que caiu de um precipício e foi atacado por tubarões. Deus sabe o que ele estava fazendo no alto dos penhascos tarde da noite só de roupão e cuecas.
— Ele não estava vestido? — perguntou Kev.
— Talvez vestido para dormir — disse o pescador. — Não para andar no molhado.
Preces breves pela alma de Martin foram murmuradas, e as pessoas começaram a trocar teorias. Em minutos, o lugar tinha se transformado no gabinete enfumaçado de Sherlockes Holmes bêbados.
— Ele podia estar bêbado — arriscou um sujeito.
— Ou, se estava perto dos precipícios, talvez tenha visto o matador de ovelhas e estivesse atrás dele — disse outro.
— E esse cara novo? — disse o pescador. — O que está acampado?
Meu pai se aprumou em seu banco.
— Eu esbarrei nele há duas noites — disse.
Eu me virei para ele, surpreso.
— Você não me contou.
— Eu estava correndo, tentando chegar à farmácia antes que fechasse, e esse cara seguia no outro sentido, para fora da cidade. Ele estava muito apressado. Esbarrei em seu ombro quando passou, só para irritá-lo. É, eu tinha bebido algumas. Ele parou e me encarou. Não disse nada. Falei que queria saber sobre seu trabalho, sabe, o que ele estava fazendo aqui, qual sua especialidade, porque as pessoas aqui falam sobre si mesmas, eu quis dizer.
— E o que ele respondeu? — perguntou Kev. O lugar estava em silêncio, todos os olhos em meu pai.
— Nada, absolutamente nada. Parecia prestes a me dar um soco, mas depois saiu andando. Acho que estava com medo de briga.
Vários homens tinham perguntas a fazer — sobre o que faz um ornitólogo e por que o sujeito estaria acampando, e outras coisas que eu já sabia. Eu só tinha uma pergunta, que estava louco para fazer a meu pai desde que ele começou a contar a história.
— Você viu os olhos dele?
Meu pai pensou por um segundo.
— Não — respondeu. — Ele estava de óculos escuros.
À noite?
— Que coisa mais estranha...
Fui tomado por um mal-estar súbito e me perguntei quanto meu pai passara perto de algo muito pior do que uma troca de socos. Será que o cara podia ser um acólito? Eu não tinha certeza, mas sabia que tinha de contar sobre ele à srta. Peregrine... e logo.
— Ah, droga! — disse Kev. — Não temos um assassinato em Cairnholm há cem anos. E, além disso, por que alguém ia querer matar o velho Martin? Não faz sentido. Aposto uma rodada com todos vocês que quando sair sua autópsia vai constar que ele foi comido até morrer de prazer.
— Podem ter sido as primeiras ondas da tormenta — disse o pescador de modo grave e sombrio. — Tem uma tempestade se aproximando agora. A Capitania dos Portos diz que vai ser das fortes. A pior deste ano.
— A Capitania dos Portos... — zombou Kev. — A Capitania não sabe nem se está chovendo agora!

* * *

Os ilhéus costumavam fazer pronunciamentos sombrios sobre o que a Mãe Natureza tinha reservado para Cairnholm — afinal de contas, estavam todos à mercê do clima, e eram naturalmente pessimistas —, mas desta vez seus piores temores se confirmaram. O vento e a chuva que tinham fustigado a ilha durante toda a semana ficaram mais fortes naquela noite e se transformaram em um bando sinistro de nuvens de tempestade que se aproximavam, negras, no céu e transformavam em espuma as águas do mar. Em meio a rumores sobre Martin ter sido assassinado e sobre o clima, a cidade se fechou de modo mais ou menos semelhante à casa onde viviam as crianças. As pessoas ficaram confinadas em suas residências. As janelas foram fechadas e as portas, bem trancadas e bloqueadas. Os barcos batiam contra seus atracadouros com as ondas pesadas, mas nenhum deixou a baía; sair para o mar naquele clima seria suicídio. E, como a polícia do continente não podia recolher o corpo de Martin até que o mar se acalmasse, ele foi guardado no gelo, nos fundos da peixaria.
Eu estava sob ordens estritas de meu pai para não deixar o Buraco do Padre, mas também tinha instruções de contar qualquer acontecimento estranho à srta. Peregrine, e, se uma morte suspeita não fosse um acontecimento estranho, nada mais seria. Por isso naquela noite fingi que estava meio gripado e me tranquei no quarto, então saí pela janela e desci pela calha até o chão. Ninguém mais seria idiota o bastante para estar fora de casa, por isso saí correndo pela trilha principal sem medo de ser visto, com o capuz da capa de chuva bem preso em torno do rosto para me proteger da chuva de vento.
Quando cheguei à casa, a srta. Peregrine olhou para mim e logo soube que havia algo errado.
— O que aconteceu? — perguntou, com os olhos injetados fixos em mim.
Contei tudo a ela, um resumo de todos os fatos e rumores que escutara, e seu rosto empalideceu. Ela apressou-se a me levar para a sala de estar, onde, em pânico, reuniu todas as crianças que pôde encontrar e, em seguida, saiu andando a passos largos para procurar as poucas que, aparentemente, ignoraram seus gritos. O restante foi deixado ali, sem saber o que estava acontecendo.
Emma e Millard me deram uma prensa.
— Por que ela está tão nervosa assim? — perguntou Millard.
Contei a eles sobre Martin em voz baixa e cautelosa. Millard inspirou fundo e Emma cruzou os braços, preocupada.
— É mesmo tão ruim assim? — perguntei. — Quero dizer, não podem ter sido etéreos; eles só caçam peculiares, certo?
— Você conta a ele ou quer que eu faça isso? — resmungou Emma.
— Os etéreos preferem peculiares a pessoas comuns — explicou Millard —, mas eles comem praticamente qualquer coisa para se sustentar, desde que seja fresco e tenha carne.
— É uma das maneiras de saber se há etéreos por perto — disse Emma. — Os corpos vão se amontoando. É por isso que eles são essencialmente nômades. Se eles não mudassem sempre de lugar, seria simples rastreá-los.
— Com que frequência — perguntei, com um frio subindo pela espinha — eles precisam comer?
— Com muita frequência — disse Millard. — Arranjar as refeições dos etéreos toma a maior parte do tempo dos acólitos. Eles procuram peculiares quando podem, mas uma enorme porção de sua energia e trabalho é gasta em busca de vítimas comuns para os etéreos, tanto animais quanto humanos, e depois para esconder a sujeira. — O tom de Millard era acadêmico, como se discutisse os padrões reprodutivos de uma espécie ligeiramente interessante de roedor.
— Mas os acólitos nunca são pegos? — perguntei. — Quero dizer, se eles ajudam a assassinar pessoas, é de esperar que...
— Às vezes são — disse Emma. — Aposto que você já ouviu falar de alguns deles, se acompanha o noticiário. Um sujeito foi encontrado com cabeças humanas guardadas na geladeira e pedaços de tripas e entranhas em uma panela sobre fogo baixo, como se estivesse preparando uma ceia de Natal. Na sua época, não deve ter sido há muito tempo.
Eu me lembrava vagamente de um especial de TV sensacionalista que passou numa madrugada sobre um assassino canibal em série, de Milwaukee, que tinha sido preso em circunstâncias parecidas.
— Você deve estar falando de... Jeffrey Dahmer?
— Acho que era esse, sim, o nome do cavalheiro — disse Millard. — Um caso fascinante. Mas parece que ele nunca perdeu o gosto por comida fresca, apesar de não ser mais um etéreo havia muitos anos.
— Pensei que não deviam saber sobre o futuro — disse eu.
Emma abriu um sorriso astuto.
— A Ave só esconde de nós as coisas boas do futuro, mas pode apostar que soubemos de todas as histórias ruins.
Então a srta. Peregrine voltou, arrastando consigo Enoch e Horace pela manga da camisa. Todos pararam para prestar atenção.
— Acabamos de ser informados de uma nova ameaça — anunciou ela, que me cumprimentou com um aceno de cabeça em agradecimento. — Um homem fora da fenda morreu sob circunstâncias muito suspeitas. Não temos certeza da causa nem se isso representa uma ameaça real à nossa segurança, mas devemos agir como se representasse. Até segunda ordem, ninguém pode deixar a casa, nem para colher verduras ou trazer ganso para o jantar.
Um gemido coletivo foi ouvido, acima do qual a srta. Peregrine levantou a voz.
— Estes últimos dias têm sido muito desafiadores para todos nós. Eu imploro a vocês que tenham paciência.
Mãos se ergueram por toda a sala, mas ela rejeitou todas as perguntas e saiu para ver se as portas estavam bem trancadas. Corri atrás dela em pânico. Se havia mesmo algo perigoso na ilha, podia me matar no instante em que eu pusesse os pés fora da fenda. Mas, se eu ficasse ali, deixaria meu pai indefeso, sem mencionar que estaria morto de preocupação por minha causa. De algum modo, isso parecia ainda pior.
— Preciso ir — disse, quando alcançava a srta. Peregrine.
Ela me puxou para um quarto vazio e fechou a porta.
— Não levante a voz — ordenou. — E você vai obedecer às minhas regras. O que eu disse também se aplica a você. Ninguém sai desta casa.
— Mas senhorita...
— Até agora eu permiti a você um grau de autonomia sem precedentes para ir e vir à vontade, em respeito a sua situação singular, mas você já pode ter sido seguido até aqui, e isso coloca em risco a vida de meus protegidos. Não vou mais permitir que ponha a eles, além de você, em perigo.
— Mas a senhora não entende? — praguejei. — Os barcos não estão saindo. As pessoas na cidade estão presas. Meu pai está preso. Se realmente há um acólito, e se ele é quem penso que é, ele e meu pai já quase começaram a brigar uma vez. Se ele acabou de dar um estranho de comida aos etéreos, imaginem atrás de quem ele vai agora?
O rosto dela estava como pedra.
— Não vou pôr em risco os meus protegidos. Por ninguém.
— Não são apenas os habitantes da cidade, é meu pai! Acha mesmo que algumas portas vão me impedir de ir?
— Talvez não, mas se insistir em sair daqui vou insistir para que nunca mais retorne.
Fiquei tão chocado que tive de rir.
— Mas vocês precisam de mim! — disse eu.
— É, precisamos — respondeu ela. — Precisamos muito.

* * *

Subi correndo as escadas e fui até o quarto de Emma. O interior era uma imagem de frustração que podia muito bem ter saído de uma obra de Norman Rockwell, se Norman Rockwell retratasse pessoas cumprindo pena na cadeia.
Bronwyn, inerte, olhava pela janela. Enoch estava sentado no chão, mexendo num pedaço de argila endurecida. Emma, empoleirada na beira de sua cama, rasgava folhas de papel de um caderno e as incendiava entre os dedos.
— Você voltou! — disse Emma quando entrei.
— Nem cheguei a ir — respondi. — A senhorita Peregrine não ia deixar. — Todos escutaram enquanto eu me sentei e expliquei meu dilema. E a ameaça da srta. Peregrine.
— Serei banido se tentar sair — contei a eles.
O caderno inteiro de Emma pegou fogo.
— Ela não pode fazer isso! — gritou, alheia às chamas que lambiam sua mão.
— Ela pode fazer o que quiser — disse Bronwyn. — Ela é a Ave.
Emma jogou o caderno no chão e o pisoteou para apagar o fogo.
Eu me levantei.
— Só vim aqui dizer a vocês que eu vou, quer ela queira ou não. Não serei mantido como prisioneiro e não vou enterrar a cabeça na areia enquanto meu pai pode estar correndo perigo de verdade.
— Então eu vou com você — disse Emma.
— Você não está falando sério! — retrucou Bronwyn.
— Estou — disse ela.
— Você é burra, é? — disse Enoch. — Vai virar uma ameixa seca velha... e por quê? Por ele?
— Não vou — disse Emma. — É preciso ficar fora da fenda de tempo por horas e horas antes que isso aconteça, e não vai demorar tanto assim, vai, Jacob?
— É uma má ideia.
— O que é uma má ideia? — disse Enoch. — Ela não sabe nem para que estará arriscando a vida.
— A diretora não vai gostar — disse Bronwyn, afirmando, para variar, o óbvio. — Ela vai nos matar!
Emma se levantou e fechou a porta.
Ela não vai nos matar — disse. — Essas coisas é que vão. E, se não matarem, viver desse jeito por muito mais tempo pode ser pior que a morte. A Ave nos mantém numa rédea tão curta que a gente mal pode respirar, e tudo porque ela não tem disposição para encarar seja lá o que estiver lá fora.
— Ou o que não está lá fora — disse Millard, que eu não havia notado estar na sala com a gente.
— Mas ela não vai gostar disso — repetiu Bronwyn.
Emma deu um passo belicoso na direção da amiga.
— Por quanto tempo você ainda vai se esconder debaixo da barra da saia dessa mulher?
— Já esqueceu o que aconteceu com a senhorita Avocet? — disse Millard. — Só quando os protegidos dela saíram da fenda eles foram mortos e a senhorita Buntin, raptada. Se eles tivessem ficado no lugar, nada de mau teria acontecido.
— Nada de mau? — disse Emma, desconfiada. — É verdade que os etéreos não conseguem entrar nas fendas de tempo, mas os acólitos conseguem, e foi por isso que os garotos foram enganados e convencidos a sair. Será que a gente deve ficar com a bunda sentada aqui esperando que eles entrem pela porta da frente? E se, desta vez, em vez de um disfarce inteligente, eles trouxerem armas?
— Era isso o que eu faria — disse Enoch. — Esperaria que todos dormissem, então desceria pela chaminé como o Papai Noel e BAM! — Ele disparou um revólver imaginário no travesseiro de Emma. — Miolos na parede!
— Obrigado por essa — suspirou Millard.
— Temos de atacá-los antes que eles descubram que sabemos que estão aqui — disse Emma. — Enquanto temos o elemento surpresa.
— Mas não sabemos se eles estão aqui! — disse Millard.
— Vamos descobrir.
— E como sugere fazer isso? Andando por aí até encontrar um? E aí? Desculpe, nós queríamos saber quais seriam suas intenções em relação a nos devorar.
— Nós temos Jacob — disse Bronwyn. — Ele pode ver os etéreos.
Senti um nó na garganta, consciente de que, se essa expedição de caça se formasse, de algum modo eu seria responsável pela segurança de todos.
— Até hoje eu só vi um — alertei-os. — Por isso não diria que sou um especialista.
— E se ele não vir nenhum? — disse Millard. — Isso pode significar que não há nenhum para ser visto, ou que eles estão escondidos. Você continuaria na mesma situação em que está agora.
O quarto encheu-se de expressões sérias e pensativas. O que Millard disse fazia sentido.
— Bem, parece que a lógica venceu mais uma vez — disse ele. — Vou lá fora buscar mingau para jantarmos, se algum de vocês, amotinados, quiser se juntar a mim. Ao contrário de vocês, eu bem que gosto de mingau.
As molas das camas rangeram quando Millard se levantou e se dirigiu à porta. Mas, antes que ele saísse, Enoch se levantou com um pulo e berrou:
— Descobri!
Millard parou.
— Descobriu o quê?
Enoch se virou para mim.
— O sujeito que pode ou não ter sido devorado por um etéreo. Você sabe onde o puseram?
— Acho que na peixaria.
Ele esfregou as mãos.
— Então eu sei como podemos ter certeza.
— E o que faremos? — Millard indagou.
— Vamos perguntar a ele.

* * *

Uma equipe expedicionária foi montada. Iriam se juntar a mim Emma, que se recusou terminantemente a me deixar ir sozinho, Bronwyn, que estava contrariada porque ia deixar a srta. Peregrine com raiva, mas insistiu que precisávamos de sua proteção, e Enoch, cujo plano nós íamos executar. Millard, cuja invisibilidade podia ajudar bastante, não quis tomar parte naquilo e teve de ser subornado só para que não nos entregasse.
— Se todos formos — raciocinou Emma —, a Ave não poderá banir apenas Jacob. Terá de banir todos nós.
— Mas eu não quero ser banida! — disse Bronwyn.
— Ela nunca faria isso, Wyn, essa é a questão. E, se conseguirmos voltar para casa antes da hora de dormir, talvez ela nem perceba que saímos.
Eu tinha minhas dúvidas quanto a isso, mas todos concordamos que valia a pena arriscar.
Tudo ocorreu como uma fuga de prisão. Depois do jantar, quando a casa estava mais caótica e a srta. Peregrine mais distraída, Emma fingiu que ia para a sala de estar, eu, para a biblioteca, e alguns minutos depois nos encontramos no fim do corredor do segundo andar, onde um pedaço do teto tinha sido puxado para revelar uma escada. Emma subiu e eu a segui, fechando a escada atrás de mim. Estávamos no espaço pequeno e escuro do sótão. De um lado, havia uma saída de ventilação — cujos parafusos foram retirados com facilidade —, que dava para uma área plana do telhado.
Saímos para o ar da noite e vimos que os outros já estavam à nossa espera.
Bronwyn deu um abraço esmagador em cada um de nós e nos entregou capas de chuva pretas que pegara num armário. Sugeri que as vestíssemos como medida de proteção contra a forte tempestade do outro lado da fenda. Estava prestes a perguntar como desceríamos até o chão quando Olive surgiu flutuando na beira do telhado.
— Quem quer brincar de paraquedas? — disse ela, com um largo sorriso.
Estava descalça: deixara os sapatos de chumbo em algum outro lugar, e havia uma corda amarrada em torno de sua cintura que estava presa em algo lá embaixo. Curioso para saber a que ela estava presa, debrucei-me para fora do telhado e vi Fiona acenando para mim de uma janela, com a corda na outra mão.
— Você primeiro — disse Enoch.
— Eu? — retruquei, afastando-me nervoso da beirada. — Eu primeiro o quê?
— Abrace Olive e pule — disse Emma.
— Não lembrava que o plano incluía essa parte em que eu estraçalho a espinha.
— Não vai acontecer nada, bobinho, se você não largar Olive. É muito divertido. Já fizemos isso um monte de vezes. — Então ela parou e pensou por um instante. — Bem, uma vez.
Não parecia haver alternativa, por isso tomei coragem e me aproximei da beira do telhado.
— Não tenha medo! — disse Olive.
— É fácil para você dizer, já que não cai — respondi.
Ela esticou os braços e me abraçou; eu a abracei também, e ela sussurrou:
— Tudo bem, vamos!
Fechei os olhos e saltei para o vazio. Em vez de cair como eu temia, descemos flutuando lentamente até o chão, como um balão que vazasse hélio.
— Foi divertido — disse Olive. — Agora me solte!
Eu a soltei e ela subiu como um foguete até o telhado, gritando Uhuuuuuu! pelo caminho. Os outros quase enlouqueceram para fazê-la ficar quieta, e um depois do outro a abraçaram e pairaram até o chão para se juntar a mim.
Quando estávamos todos reunidos, saímos furtivamente na direção da floresta, enquanto Fiona e Olive acenavam para nós. Pode ter sido minha imaginação, mas, com a brisa, as criaturas esculpidas em arbustos no jardim pareciam acenar também, e o próprio Adam fazia um sombrio gesto de despedida.

* * *

Quando paramos na beira da charneca para tomar fôlego antes da travessia, Enoch tirou de seu grosso casaco pacotes embalados em gaze de algodão.
— Aqui, peguem — disse ele. — Não vou ficar carregando todos.
— O que é isso? — disse Bronwyn, desdobrando o tecido para revelar um pedaço de carne amarronzada, com pequenos tubos se projetando dela. — Eca, que fedor! — exclamou, afastando aquilo do rosto.
— Calma, é só um coração de ovelha — disse ele, e enfiou algo mais ou menos das mesmas dimensões em minhas mãos. Aquilo fedia a formol, e mesmo através do tecido era possível sentir uma umidade nojenta.
— Vou vomitar até as tripas se tiver de carregar isso — alertou-o Bronwyn.
— Eu ia gostar de ver isso — disse Enoch, parecendo ofendido, como se ela ameaçasse derramar uma taça de vinho que ele tivesse acabado de lhe servir. — Enfie na capa de chuva e vamos embora.
Seguimos a faixa oculta de solo bom através do terreno alagadiço. Eu já passara por ali tantas vezes que tinha quase me esquecido de como podia ser perigoso. Quantas vidas o lamaçal engolira ao longo dos séculos? Quando subimos a elevação do túmulo de pedra, disse a todos que abotoassem bem as capas.
— E se virmos alguém? — perguntou Enoch.
— Apenas aja naturalmente — disse eu. — Vou dizer que vocês são meus amigos dos Estados Unidos.
— E se virmos um acólito? — perguntou Bronwyn.
— Corra.
— E se Jacob vir um etéreo?
— Nesse caso — disse Emma —, corra como se o diabo estivesse atrás de você.
Um a um, entramos agachados no cairn e desaparecemos completamente daquela calma noite de verão, como se nunca tivéssemos estado ali. Tudo estava quieto até que chegamos à câmara final, e então, num instante, a pressão do ar e a temperatura caíram e a tempestade rugia alto, com todas as suas forças.
Viramos na direção do som, estremecemos e por um instante ficamos ali parados apenas, ouvindo a tempestade fervilhar e uivar na boca do túnel. Parecia o som de um animal enjaulado ao qual tinham acabado de mostrar seu jantar. Não havia nada a fazer além de nos oferecermos a ela.
Nós nos ajoelhamos e entramos engatinhando no que parecia ser um buraco negro. As estrelas estavam perdidas atrás de uma montanha de nuvens carregadas, um temporal e um vento congelante que penetrava em nossos agasalhos. Raios riscavam o céu e nos iluminavam, deixando-nos brancos como ossos e fazendo com que a escuridão que vinha depois parecesse ainda mais escura. Emma tentou fazer uma chama, mas ela parecia um isqueiro no fim da vida útil. Toda faísca que saía de suas mãos se extinguia antes de virar chama, e nos enrolamos nas capas de chuva e corremos encurvados contra a ventania e o terreno pantanoso encharcado que sugava nossas pernas, orientando-nos pela memória e pela visão.
Na cidade, a chuva batia em todas as portas e janelas, mas ninguém aparecia. Todos permaneciam trancados e protegidos em suas casinhas enquanto corríamos despercebidos pelas ruas que se enchiam de água, passávamos por telhas arrancadas e espalhadas pelo vento, por uma ovelha solitária, cega pela chuva, perdida e balindo, e por um banheiro externo derrubado, que transbordava na estrada, até chegar à peixaria.
A porta estava trancada, mas com dois poderosos chutes de Bronwyn ela se abriu. Emma secou a mão no interior do agasalho e finalmente conseguiu produzir uma chama. Enquanto esturjões de olhos esbugalhados nos encaravam de dentro do balcão frigorífico, eu os conduzi pela loja até o outro lado da bancada, onde Dylan passava seus dias praguejando e escamando peixes, e por uma porta cheia de marcas de ferrugem. Lá dentro havia um pequeno frigorífico antigo, apenas um barraco de madeira, chão de terra e telhado de zinco, com paredes feitas de tábuas mal cortadas que lembravam dentes podres e deixavam passar a chuva pelos espaços entre elas. O lugar estava tomado por uma dúzia de grandes tinas retangulares, apoiadas em cavaletes e cheias de gelo.
— Ele está em qual?
— Não sei — respondi —, mas, se não se importar, prefiro não perguntar ao peixeiro.
Emma iluminou o caminho enquanto andávamos em meio às tinas, tentando adivinhar qual poderia guardar mais que cadáveres de peixes, mas todas pareciam iguais à primeira vista, apenas caixões de gelo sem tampa. Teríamos de procurar em todas até achar.
— Eu não — disse Bronwyn. — Não quero vê-lo. Não gosto de coisas mortas.
— Nem eu, mas temos de fazer isso — disse Emma. — Estamos nessa juntos. Cada um escolheu uma tina e começou a escavá-la como um cão em um canteiro de flores premiadas, nossas mãos jogando montes de gelo no chão. Eu tinha esvaziado metade de uma e começava a perder a sensibilidade nos dedos quando ouvi Bronwyn soltar um grito do outro lado do barracão, e me virei para vê-la se afastar de sua tina aos tropeções, com as mãos na boca.
Nós nos aglomeramos em torno para ver o que ela tinha descoberto.
Projetando-se do gelo no local onde ela escavara, via-se uma mão congelada e com os nós dos dedos cobertos de pelos.
— Arriscaria dizer que você encontrou nosso homem — disse Enoch, e através de frestas entre os dedos o resto de nós observou enquanto ele tirava mais gelo, aos poucos revelando um braço, depois um tronco e finalmente todo o corpo destroçado de Martin.
Era uma visão horrível. Seus membros estavam retorcidos em posições improváveis. O tronco tinha sido cortado ao meio e esvaziado, e o gelo enchia a cavidade onde antes ficavam suas entranhas. Quando seu rosto surgiu, todos levaram um susto. Metade eram faixas de uma contusão arroxeada que parecia uma máscara rasgada. A outra estava limpa o bastante apenas para reconhecê-lo: um queixo coberto por barba, parte de uma bochecha e da testa, e um olho verde, aberto e encarando fixamente o vazio. Ele vestia apenas cuecas samba-canção e trapos rasgados de um roupão atoalhado. Era impossível que ele tivesse andado até os penhascos, à noite, vestido daquele jeito. Alguém, ou alguma coisa, o arrastara até lá.
— Ele já está morto há muito tempo — disse Enoch, enquanto avaliava Martin como um cirurgião faria com um paciente desenganado. — Tenho que dizer: isso pode não funcionar.
— Temos que tentar — disse Bronwyn, unindo-se a nosso amontoado de gente. — Já que viemos até aqui, pelo menos temos que tentar.
Enoch abriu a capa e pegou num bolso interno um dos corações embrulhados. Parecia uma luva de beisebol marrom dobrada em volta de si mesma.
— Se ele acordar — disse Enoch —, não vai estar satisfeito. Então se afastem e não digam que não avisei.
Todos nós demos um passo generoso para trás, exceto Enoch, que se debruçou sobre a tina, enfiou o braço no gelo que enchia o peito de Martin e revirou a mão lá dentro como se estivesse procurando uma lata de refrigerante num isopor. Pareceu encontrar algo e, com a outra mão, ergueu o coração de ovelha acima da cabeça.
Uma convulsão repentina atravessou todo o corpo de Enoch, e o coração de ovelha começou a bater, borrifando uma névoa fina de sangrenta solução de conservação. A respiração de Enoch se acelerou. Ele estava canalizando algo.
Estudei o corpo de Martin em busca de um sinal de movimento — as partes dele que eu conseguia olhar —, mas ele permanecia imóvel.
Aos poucos, a pulsação do coração nas mãos de Enoch foi perdendo força e sua cor foi esmaecendo e transformando-se em um cinza-escuro como o de carne deixada por tempo demais no freezer. Enoch o jogou no chão e esticou a mão vazia em minha direção, e eu peguei o coração que estava guardado no meu bolso e o entreguei a ele, que repetiu o mesmo procedimento. O coração palpitou e pulsou por algum tempo antes de parar como o anterior. Ele repetiu aquilo pela terceira vez com o coração que dera a Emma.
O coração de Bronwyn era o último, portanto a derradeira chance de Enoch. Seu rosto assumiu nova intensidade quando ele o ergueu acima do caixão grosseiro de Martin, apertando-o como se quisesse atravessá-lo com o dedo.
Quando o coração começou a se mover e a tremer como um motor afogado, Enoch gritou para Martin como um pregador religioso de tempos antigos:
— Levante-se, morto, levante-se!
Percebi um vislumbre de movimento. Algo se movera sob o gelo. Inclinei-me o mais perto do corpo que ousava chegar, em busca de qualquer sinal de vida. Por um longo momento não aconteceu nada, mas então o corpo se retorceu com tanta força e tão repentinamente, como se tivesse recebido um choque de um desfibrilador, e todos pulamos para trás e gritamos de susto. Quando baixei os braços para ver de novo, a cabeça dele tinha virado em minha direção, com um olho vazado girando loucamente ao redor até se fixar, aparentemente, em mim.
— Ele está vendo você! — disse Enoch. — Chegue perto, ele quer falar!
Eu me inclinei sobre ele. O morto fedia a terra revirada, sal e coisa pior.
Caía gelo de sua mão, que se ergueu trêmula no ar por um instante, atormentada e azulada, antes de descansar em meu braço. Lutei muito contra o impulso de tirá-la dali.
Seus lábios se separaram e o maxilar se abriu lentamente, mas não havia nada a ouvir. Claro que não há; seus pulmões foram destruídos! Foi o que pensei, mas então ele emitiu um som baixinho e eu me aproximei, minha orelha quase tocando seus lábios congelados. Pensei, estranhamente, na chuva correndo na calha da minha casa, onde, se você encosta a cabeça nos canos e espera uma pausa no tráfego, prestando atenção, percebe um sussurro de uma corrente subterrânea, enterrada quando a cidade foi construída, ainda correndo, mas presa em um mundo de noite eterna.
Os outros se juntaram ao redor da tina, mas eu era o único que podia ouvi-lo.
A primeira coisa que o morto disse foi meu nome.
— Jacob.
Fiquei gelado de medo.
— Sim — respondi.
— Eu estava morto. — As palavras saíam lentamente, escorrendo como melado. Ele se corrigiu. — Estou morto.
— Conte o que aconteceu — disse eu. — Você se lembra?
Houve uma pausa. O vento assobiou pelas frestas na parede e ele disse algo que eu não entendi.
— Diga de novo. Por favor, Martin.
— Ele me matou — sussurrou o morto.
— Quem?
— O meu Velho.
— Está falando de Oggie, seu tio?
— Meu Velho — repetiu. — Ele cresceu. E ficou grande, muito grande.
— Quem fez isso, Martin?
Os olhos dele se fecharam e temi que ele tivesse partido de vez. Olhei para Enoch, que assentiu com a cabeça. O coração em sua mão ainda pulsava.
O olho de Martin estremeceu sob a pálpebra. Ele recomeçou a falar, lenta mas firmemente, como se recitasse algo.
— Através de seus tecidos e peles, os sumos do inverno o digeriram. As raízes iletradas refletiram e morreram no vazio de seu estômago. Jazia à espera no fundo de cascalho, o cérebro escurecendo, uma enorme ninhada fermentando sob a terra, e se ergueu das trevas, ossos partidos, os pontos soltos, pequenos brilhos na margem.
Martin fez uma pausa. Seus lábios tremiam, e no breve silêncio Emma olhou para mim e murmurou:
— O que ele está dizendo?
— Não sei — respondi —, mas acho que é um poema.
Ele voltou a falar, a voz agora aguda e vacilante, alta o bastante para que todos ouvissem.
— Como se vertesse alcatrão, ele parece chorar o rio negro de si mesmo. A textura de seus pulsos é igual ao carvalho das charnecas, seu calcanhar, um ovo de basalto. Os quadris parecem a concha de um marisco, a espinha, uma enguia presa sob uma camada de lama reluzente.
Enquanto falava, eu me lembrei de onde tinha ouvido aquilo antes. Ele recitara o poema para mim em seu museu, diante da vitrine onde o Garoto do Pântano estava em exposição.
— Oh, Jacob. Eu cuidei tanto dele! Limpei-o, removi toda a sua sujeira e criei um lar para ele, como se fosse meu próprio bebezão ferido. Eu cuidei tão bem dele, mas...
— Está falando do Garoto do Pântano? Do Velho?
— Me mande de volta! — ele implorou. — Isso dói. — Sua mão fria acariciou meu ombro e sua voz começou a desaparecer outra vez.
Olhei para Enoch em busca de ajuda e ele apertou mais o coração, mas sacudiu a cabeça.
— Rápido agora, parceiro — disse ele.
Então me dei conta de que ele descrevia o Garoto do Pântano, mas não fora o Garoto do Pântano quem o matara. Eles só ficam visíveis para nós quando estão comendo, dissera-me a srta. Peregrine, o que significa: quando é tarde demais.
Martin tinha visto um ser etéreo — à noite, embaixo de chuva e enquanto o monstro o rasgava em pedaços — e o confundira com a peça mais preciosa de seu museu.
O velho medo voltou a pulsar, envolvendo minhas entranhas com um calor amargo. Eu me virei para os outros.
— Foi um etéreo que fez isso com ele — afirmei. — Ele está em algum lugar da ilha.
— Pergunte a ele onde — disse Enoch.
— Martin, onde? Preciso saber onde você o viu.
— Por favor, isso dói.
— Onde você o viu?
— Ele veio até minha porta.
— O Velho?
Então sua respiração ficou difícil, de um modo estranho. Era terrível olhar para ele, mas me forcei a fazê-lo e segui o movimento de seus olhos, que pareceram se focar em algo às minhas costas.
— Não — disse. — Foi ele.
Então um facho de luz projetou-se sobre nós e uma voz alta berrou:
— Quem está aí?
Emma fechou a mão e a chama se apagou, e todos nos viramos para ver um homem parado à porta com uma lanterna apontada em nossa direção, na outra mão trazendo uma pistola.
Enoch rapidamente puxou seu braço do gelo enquanto Emma e Bronwyn se juntaram no meio da aglomeração para encobrir a visão de Martin.
— Não queríamos invadir — disse Bronwyn. — Já estávamos saindo, é sério.
— Fiquem onde estão! — gritou o homem. A voz dele era dura, sem sotaque. Não conseguia ver seu rosto por trás do facho de luz, mas os muitos casacos que usava em camada o identificavam no ato: era o ornitólogo.
— Moço, a gente não comeu nada o dia inteiro — gemeu Enoch, pela primeira vez parecendo um garoto de doze anos. — Só viemos ver se pegávamos um ou dois peixinhos.
— É isso mesmo? — disse o homem. — Parece que vocês já escolheram um. Vamos ver de que espécie. — Ele agitou a lanterna de um lado para o outro como se quisesse nos separar com seu facho de luz. — Afastem-se!
Jogou a luz sobre o corpo de Martin, uma extravagante paisagem devastada.
— Meu Deus, que peixe esquisito, hein? — disse ele, sem qualquer emoção. — Deve ser fresco, ainda está se mexendo! — A luz da lanterna se deteve sobre o rosto de Martin. Seus olhos viraram para trás e seus lábios se moveram sem som em uma paródia medonha de fala, apenas um vislumbre, enquanto a vida que Enoch lhe dera se esvaía.
— Quem é você? — perguntou Bronwyn.
— Isso depende de para quem você está perguntando — retrucou o homem. — E não é nem de perto tão importante quanto o fato de que eu sei quem são vocês. — Ele apontou a lanterna para cada um de nós e falou como se citasse um dossiê secreto. — Emma Bloom, uma centelha, abandonada num circo quando seus pais não conseguiram vendê-la para um. Bronwyn Bruntley, uma fúria, bebedora de sangue, não conhecia a própria força até a noite em que quebrou o pescoço de seu padrasto canalha. Enoch O’Connor, nascido em uma família de agentes funerários que não conseguiam entender por que seus clientes insistiam em fugir. — Vi cada um deles empalidecer um pouco. Depois ele jogou a luz sobre mim. — E Jacob. Em que companhia peculiar você tem andado esses dias!
— Como sabe meu nome?
Ele pigarreou e, quando tornou a falar, sua voz tinha mudado tão radicalmente que parecia a de outra pessoa.
— Já me esqueceu tão rápido assim? — disse ele com sotaque da Nova Inglaterra. — Só um pobre motorista de ônibus, acho que não se lembra.
Parecia impossível, mas de algum modo aquele homem estava fazendo uma imitação muito boa do motorista do meu ônibus escolar, o sr. Barron, um homem tão desprezível, tão mal-humorado, tão roboticamente inflexível que no último dia de aula da oitava série nós arrancamos seu retrato no livro do ano da escola e o prendemos com grampos, como uma efígie, no encosto de sua cadeira. Estava me lembrando do que ele costumava falar sempre que eu descia do ônibus à tarde, quando o homem diante de mim disse o que eu pensava:
— Fim da linha, Portman!
— Senhor Barron? — disse eu, desconfiado, esforçando-me para conseguir ver seu rosto por trás da luz da lanterna.
O homem riu, então pigarreou e tornou a mudar de sotaque.
— Ou ele ou o jardineiro — disse com um forte sotaque da Flórida. — Suas árvores precisam de uma poda. Cobro baratinho!
Era a voz, idêntica em cada sílaba, do homem que cuidou do jardim e da piscina da minha família por anos.
— Como você faz isso? — questionei. — Como conhece todas essas pessoas?
— Porque eu sou essas pessoas! — retrucou ele, agora sem qualquer sotaque. Ele riu, desfrutando do horror esmagador que desabava sobre mim.
Algo me ocorreu. Será que alguma vez eu vira os olhos do sr. Barron? Na verdade, não, ele estava sempre usando aqueles óculos escuros enormes e grosseiros na cara. O jardineiro também usava óculos escuros e um chapéu de aba larga. Será que alguma vez cheguei a olhar para eles com atenção? Quantos outros papéis em minha vida esse camaleão tinha interpretado?
— O que está acontecendo? — disse Emma. — Quem é esse homem?
— Cale a boca! — ele interrompeu. — Vai chegar a sua vez.
— Você estava me observando — disse eu. — Matou aquelas ovelhas. Matou Martin.
— Quem, eu? — disse com ar inocente. — Eu não matei ninguém.
— Mas você é um acólito, não é?
— Essa é uma palavra criada por eles — disse com desprezo.


Eu não conseguia entender. Eu não via o jardineiro desde que minha mãe o substituíra três anos atrás, e o sr. Barron sumira da minha vida após a oitava série.
Será que eles, quero dizer, ele realmente estivera me seguindo?
— Como sabia onde me encontrar?
— Ora, Jacob! — respondeu, com a voz mudando pela terceira vez. — Você mesmo me contou. Em sigilo, é claro. — Era um sotaque americano padrão, suave e culto. Ele baixou a lanterna para que a luz iluminasse seu rosto. A barba que eu o vira usar no outro dia tinha sumido. Agora não havia como confundi-lo.
— Doutor Golan! — exclamei, minha voz sendo um sussurro engolido pelo barulho da chuva forte. — Ah, meu Deus!
Pensei na conversa que tivéramos ao telefone alguns dias antes. Aquele ruído no fundo... ele disse que estava no aeroporto. Mas não tinha ido buscar a irmã. Estava vindo atrás de mim.
Recuei e me encostei na tina onde estava Martin. Um torpor tomava conta de meu corpo.
— O vizinho — falei. — O velho que regava o jardim na noite em que meu avô morreu. Também era você.
Ele apenas sorriu.
— Mas seus olhos... — disse eu. — Eles são...
— Lentes de contato — respondeu, e tirou uma delas com o polegar, revelando uma órbita vazia. — É impressionante o que eles fabricam hoje em dia. E deixe-me antecipar mais algumas de suas perguntas estupefatas: sim, sou um psiquiatra de verdade. A mente das pessoas comuns sempre me fascinou. E não, apesar do fato de nossas sessões terem uma mentira como base, não acho que foram uma completa perda de tempo. Na verdade, talvez eu consiga continuar a ajudá-lo, ou melhor, talvez consigamos ajudar um ao outro.
— Por favor, Jacob — disse Emma —, não dê ouvidos a ele!
— Não se preocupe — respondi. — Confiei nele uma vez. Não vou cometer o mesmo erro de novo.
Golan agia como se não estivesse me escutando.
— Posso lhe oferecer segurança, dinheiro. Posso lhe devolver sua vida. Só o que precisa fazer é trabalhar com a gente.
— A gente?
— Malthus e eu — ele falou, então se virou e chamou alguém que estava às suas costas. — Venha dar um alô, Malthus.
Uma sombra surgiu à porta atrás dele, e no instante seguinte fomos tomados por um bafo fétido. Bronwyn gaguejou e eu dei um passo para trás, vendo os punhos de Emma se fecharem, como se ela estivesse pensando em atacar.
Toquei seu braço e falei com os lábios: Espere.
— Isto é o que eu estou lhe propondo — prosseguiu Golan, tentando parecer sensato. — Ajude-nos a encontrar mais gente como você. Em troca, não terá o que temer de Malthus ou outros como ele. Pode viver em casa. Em seu tempo livre, pode vir comigo conhecer o mundo, e vamos pagá-lo muito bem. Podemos dizer a seus pais que você é meu pesquisador-assistente.
— Se eu concordar, o que acontece com meus amigos?
Ele fez um gesto de desprezo com a arma.
— Eles fizeram sua escolha muito tempo atrás. O importante é que há um grande plano em ação, Jacob, e você será parte dele.
Será que eu realmente considerei a possibilidade? Acho que sim, nem que por apenas um instante. Dr. Golan estava me oferecendo exatamente o que eu procurava, uma terceira opção, um futuro que não era nem ficar para sempre aqui nem ir embora e morrer. Mas apenas uma olhada em meus amigos bastou para eliminar qualquer tentação que pudesse ter me balançado.
— Bem? — disse Golan. — Qual é a sua resposta?
— Prefiro morrer a fazer qualquer coisa para ajudá-lo.
— Ah — disse ele —, mas você já me ajudou. — Ele saiu andando rumo à porta. — É uma pena que não vamos ter mais nenhuma sessão juntos, Jacob, apesar de isso não ser um desperdício total, eu acho. Vocês quatro juntos podem ser o bastante para finalmente tirar o velho Malthus da forma degradante em que ele está preso há tanto tempo.
— Meu Deus! — choramingou Enoch. — Não quero ser devorado!
— Não chore, é humilhante! — disparou Bronwyn. — Nós só temos de matá-los; é tudo.
— Eu gostaria de ficar para ver — disse Golan da porta. — Adoro observar!
Então ele foi embora e ficamos sozinhos com aquilo. Eu podia ouvir a respiração da criatura no escuro, um chiado impertinente que lembrava encanamento com defeito.
— Preciso de luz — sussurrei para Emma, que estava tão apavorada que tinha se esquecido de seus próprios poderes.
A mão dela se acendeu, e em meio às sombras tremeluzentes que ela projetou eu o vi, escondido em meio às tinas de gelo: meu pesadelo. Ele estava ali, agachado, sem pelos e nu, com a pele pintada de cinza e preto pendurada no esqueleto em pregas soltas como um terno muito grande, os olhos envoltos em putrefação aquosa, as pernas arqueadas, os pés tortos e as mãos retorcidas em garras inúteis — cada parte dele enrugada e envelhecida como a de um homem inacreditavelmente velho, com a exceção de um detalhe. As mandíbulas desproporcionais eram a principal característica de seu rosto: uma arcada dentária protuberante, com dentes tão grandes e afiados que lembravam pequenas facas de cortar carne, algo que sua boca não tinha condições de conter, por isso seus lábios estavam permanentemente escancarados em um sorriso pervertido.
Os dentes horrorosos se separaram. As mandíbulas se abriram e exibiram três línguas compridas no ar, cada uma delas da grossura do meu pulso. Elas se projetaram até o meio do barracão, uns três metros ou mais, e ficaram assim, serpenteando no ar, enquanto a criatura respirava ruidosamente através de um par de orifícios repugnantes na cara, como se provasse nosso cheiro, pensando no melhor modo de nos devorar. O fato de sermos tão fáceis de matar era a única razão por que ainda não tínhamos sido mortos. Como um gourmand diante de uma refeição sofisticada, não havia motivo para apressar as coisas.
Os outros não podiam vê-lo como eu, mas reconheceram sua sombra na parede, e as sombras iguais a cordas de suas línguas. Emma flexionou o braço e observou atenta enquanto sua chama brilhava com mais força.
— O que ele está fazendo? — sussurrou ela. — Por que ainda não veio para cima da gente?
— Ele está brincando. Sabe que não temos saída — respondi.
— Não é verdade — murmurou Bronwyn. — Só preciso de uma chance para acertar a cara dele. Vou quebrar todos os seus dentes.
— Se eu fosse você, não chegava perto desses dentes de jeito nenhum — disse eu.
O etéreo deu alguns passos trôpegos à frente para compensar os que déramos para trás. As línguas se projetaram um pouco mais e se separaram.
Uma veio em minha direção, outra, na de Enoch, e a terceira, na de Emma.
— Saia da frente! — berrou Emma, atacando com a mão como se fosse uma tocha. A língua se retorceu e fugiu da chama, depois voltou a avançar lentamente, como uma cobra se preparando para o bote.
— Precisamos tentar alcançar a porta! — gritei. — O etéreo está ao lado da terceira tina à esquerda, então mantenham a direita.
— Nunca vamos conseguir! — gritou Enoch; então uma das línguas tocou seu rosto, e ele berrou.
— A gente corre no três! — berrou Emma. — Um...
Nesse momento, Bronwyn se lançou contra a criatura, gritando como um banshee. A criatura soltou um guincho e recuou, com toda a pele pregueada do corpo esticada. Quando estava prestes a lançar seu tridente de línguas na direção dela, Bronwyn se jogou contra a tina de gelo de Martin com todo o peso do corpo, enfiou os braços por baixo dela, ergueu-a e a arremessou, e a coisa toda, cheia de gelo, peixes e Martin, voou pelo ar e caiu em cima do etéreo com um estrondo incrível.
Bronwyn girou o corpo e veio em nossa direção.
— ANDEM! — berrou ela, jogando-se contra a parede do meu lado. Tive de me afastar, e ela, com um chute, abriu um buraco nas tábuas apodrecidas.
Enoch, o menor de nós, foi o primeiro a sair por ali, depois Emma o seguiu. Bronwyn gritou comigo e, antes que eu pudesse protestar, ela me jogou lá fora no meio da noite chuvosa. Caí de cara em uma poça d’água. O frio foi um choque, mas eu estava feliz e aliviado por sentir qualquer coisa que não fosse a língua do etéreo em volta do pescoço.
Emma e Enoch me ajudaram a ficar de pé e nós saímos correndo. Logo em seguida, Emma chamou o nome de Bronwyn e parou, e nos viramos e vimos que ela não tinha vindo atrás de nós.
Gritamos por ela e a procuramos pela escuridão tempestuosa, sem coragem suficiente para voltar. Enoch gritou:
— Ali! Olhamos e vimos Bronwyn apoiada contra o canto do barracão frigorífico.
— O que ela está fazendo?! — disse Emma. — BRONWYN! CORRA!
Parecia que ela abraçava o barracão. Então ela deu um passo para trás, saiu correndo e golpeou a viga de sustentação com o ombro, e, como uma casa feita de palitos de fósforo, tudo desmoronou no chão, levantando uma nuvem de gelo pulverizado e lascas de madeira, lançando na rua uma lufada de ar.
Todos vibramos e comemoramos enquanto Bronwyn corria em nossa direção com um sorriso quase pervertido no rosto. Sob a chuva forte, nós a cercamos e a abraçamos, rindo. Não demorou muito, porém, para nosso humor ficar novamente sombrio, como se o choque do que acabara de acontecer começasse a fazer efeito. Emma olhou para mim e fez a pergunta que todos devíamos ter em mente.
— Jacob, como esse acólito sabia tanto sobre você? E sobre nós?
— Você o chamou de doutor — disse Enoch.
— Ele era meu psiquiatra.
— Psiquiatra! — exclamou Enoch. — Só faltava essa! Não bastou nos trair com um acólito. Além disso, ele é louco de pedra!
— Não fale uma bobagem dessas! — berrou Emma. Ela o empurrou, e ele estava prestes a empurrá-la também quando eu me enfiei entre eles.
— Parem com isso! — disse eu, empurrando os dois. Virei-me para Enoch. — Você está errado — disse para ele. — Não sou maluco. Ele me fez acreditar que estava louco, apesar de, provavelmente, durante todo o tempo saber que eu era um peculiar. Mas você tem razão em um ponto. Eu realmente os traí. Contei os segredos de meu avô para um estranho.
— Não é culpa sua — disse Emma. — Você não tinha como saber que nós éramos reais.
— Claro que tinha! — gritou Enoch. — Abe contou tudo a ele, chegou até a mostrar nossos retratos!
— Golan sabia de tudo, menos como encontrá-los — falei —, e eu o trouxe direto para cá.
— Mas ele o enganou — disse Bronwyn.
— Só quero que saibam que sinto muito.
Emma me abraçou.
— Está tudo bem. Estamos vivos — disse ela.
— Por enquanto — disse Enoch. — Mas aquele maníaco ainda está solto por aí e, considerando como ele estava ansioso para nos transformar em comida de etéreo, há uma grande possibilidade de que ele tenha descoberto por conta própria como penetrar na fenda de tempo.
— Meu Deus, tem razão! — exclamou Emma.
— Bem, então é melhor a gente chegar lá antes dele.
— E antes dele também — acrescentou Emma. Nós nos viramos e a vimos apontar para os destroços do barracão, onde tábuas partidas se moviam na pilha de entulho. — Acho que ele vem direto atrás da gente. E acabaram as casas para jogar em cima dele.
Alguém gritou: Corram! Mas já estávamos numa carreira desabalada pela trilha, rumo ao único lugar em que o etéreo não podia nos alcançar: a fenda de tempo. Saímos correndo da cidade e adentramos a escuridão de breu da noite, e as silhuetas azuladas indistintas de casinhas aos poucos davam lugar aos campos no pé da colina. Subimos na direção do cume, com muita água descendo e correndo entre nossos pés, tornando a trilha perigosa.
Enoch escorregou e caiu. Nós o levantamos e continuamos a correr. Quando estávamos quase no topo, os pés de Bronwyn também vacilaram e ela caiu, deslizando mais de cinco metros até conseguir parar. Emma e eu corremos para ajudá-la, e quando seguramos seus braços eu me virei na esperança de conseguir vislumbrar o etéreo, mas não havia nada além da chuva forte e negra. Meu talento para localizar etéreos não adiantava muito quando não havia luz para vê-los.
Logo chegamos ao topo, quase sem fôlego. Houve, então, um relâmpago súbito, e eu me virei e o vi. Ainda estava lá embaixo, a boa distância, mas subia rápido, as línguas ágeis se enfiando na lama para ajudá-lo na escalada, como se fosse uma aranha.
Andem! — gritei, e todos nós descemos correndo pelo outro lado da colina, os quatro aos tropeções, escorregando e deslizando sentados na lama até chegar ao sopé, onde o terreno era plano e podíamos correr normalmente.
Houve outro relâmpago. Ele estava atrás de nós, ainda mais perto do que antes. Naquele ritmo, não havia chance de vencê-lo na corrida. Em vez disso, tínhamos de despistá-lo.
— Se nos alcançar, vai matar todos nós! — gritei. — Mas, se nos separarmos, ele terá de escolher. Vou ver se consigo atraí-lo pelo caminho mais longo, que faz a volta, para tentar despistá-lo na charneca. Enquanto isso, corram para a fenda o mais rápido possível!
— Você está louco! — berrou Emma. — Se alguém vai ficar para trás, devo ser eu. Posso lutar com meu fogo.
— Não com essa chuva — disse eu. — E não sem conseguir vê-lo.
— Não vou deixar que faça isso! — ela exclamou.
Mas não havia tempo para discussão, então Bronwyn e Enoch saíram correndo na frente enquanto Emma e eu saímos da trilha torcendo para que a criatura nos seguisse, o que ela de fato fez. Agora estava tão perto que eu não precisava de um relâmpago para saber onde estava. O nó em meu estômago bastava.
Corremos de braços dados, tropeçando por um descampado repleto de valas e buracos, caindo e segurando um ao outro numa dança epilética. Eu estava examinando o solo encharcado à procura de pedras para enfrentar a criatura quando, a nossa frente, saída da escuridão, surgiu uma estrutura, um pequeno barraco em ruínas com janelas quebradas e sem portas que, em pânico, não reconheci.
— Precisamos nos esconder! — disse, ofegante.
Por favor, que essa criatura seja burra!, rezei enquanto acelerávamos para o casebre. Por favor, por favor, que ela seja burra! Fizemos uma grande volta na esperança de conseguirmos entrar sem ser vistos e assim despistar o monstro.
— Espere! — disse Emma enquanto dávamos a volta pelos fundos. Ela pegou, dentro da capa de chuva, um pedaço da gaze de algodão que envolvia o coração de ovelha, amarrou-o rapidamente em volta de uma pedra e o arremessou longe da gente. Ele aterrissou a boa distância, no meio da charneca, e reluzia de leve no escuro.
— Para despistá-lo — Emma explicou, então viramos e seguimos para nos esconder nas sombras do casebre.

* * *

Passamos por uma porta pendurada nas dobradiças e entramos em um mar de podridão escura e fedorenta. Quando pisamos no chão, nossos pés afundaram naquela imundície nojenta, e aí me dei conta de onde estávamos.
— O que é isso? — murmurou Emma, e foi quando o som da respiração de um animal nos deu um grande susto. O lugar estava cheio de ovelhas, que, como nós, buscavam abrigo naquela noite pouco amistosa. Conforme nossa vista se acostumou com a escuridão, vimos o brilho baço nos olhos delas, que nos miravam. Dúzias e dúzias delas.
— Isto é o que acho que é? — perguntou Emma, levantando um pé cuidadosamente.
— Não pense nisso — retruquei. — Vamos, precisamos nos afastar da porta.
Tomei-a pela mão e entramos na casa, serpenteando em meio a um labirinto de animais nervosos que se esquivavam ao nosso toque. Seguimos por um corredor estreito e chegamos a uma sala com uma janela alta e uma porta ainda presa ao batente e fechada contra a noite, que era melhor do que todos os outros aposentos. Fomos até o canto mais distante e nos agachamos para esperar e escutar, escondidos atrás de um muro de ovelhas inquietas.
Tentamos não afundar demais na sujeira do chão, mas na verdade não havia como evitá-la. Após um minuto sem conseguir ver nada, comecei a distinguir algumas formas ali dentro. Havia caixas e caixotes empilhados num canto e ferramentas enferrujadas apoiadas contra a parede às nossas costas.
Procurei algo afiado o bastante para servir de arma. Vi algo parecido com uma tesoura gigante e me levantei para apanhá-lo.
— Está pensando em tosquiar alguma ovelha? — disse Emma.
— É melhor que nada.
Quando eu pegava a tesoura da parede, ouvi um barulho do outro lado da janela. As ovelhas recuaram assustadas e, nervosas, não paravam de balir. Então uma língua negra e comprida penetrou pela moldura sem vidro. Agachei-me no maior silêncio possível. Emma pôs a mão na boca para silenciar sua respiração.
A língua examinou o aposento como se fosse um periscópio. As ovelhas se encolhiam para longe dela. A língua parecia provar o ar à nossa procura. Por sorte, tínhamos nos escondido no aposento mais fedorento da ilha. Todo o odor das ovelhas deve ter mascarado o nosso cheiro, porque, após um minuto, a língua pareceu desistir, enrolou-se para fora da janela outra vez, e ouvimos os passos da criatura se afastando.
Nós dois soltamos a respiração ao mesmo tempo.
— Quero que saiba uma coisa — disse eu. — Se escaparmos desta, vou ficar aqui.
Ela apertou minha mão.
— Está falando sério?
— Não posso voltar para casa, não depois do que aconteceu. E depois, eu devo a vocês toda a ajuda possível e muito mais. Vocês estavam perfeitamente seguros até eu chegar aqui.
— Se passarmos por isso — disse ela, inclinando-se para mim —, eu não me arrependerei de nada.
Então algum ímã estranho fez com que nossos rostos se atraíssem e começamos a nos beijar. Por um momento tudo pareceu parar e me esqueci de onde estávamos agachados e da criatura que estava em nosso encalço. Podíamos estar em qualquer lugar, ela e eu, duas pessoas já não distantes, com os lábios grudados, até que nosso momento foi estilhaçado por balidos agudos e aterrorizados vindos do outro aposento. Nós nos afastamos no momento em que o barulho apavorante agitou as ovelhas ao nosso redor, fazendo-as se chocar umas contra as outras e nos imprensar contra a parede.
Com certeza a fera não era tão burra quanto eu esperava.
Podíamos ouvi-la atravessando a casa em nossa direção. Se havia tempo para correr, esse momento tinha passado. Nós nos enfiamos na lama fétida para nos esconder e torcemos para que a sombra da morte não nos percebesse.
Então senti seu cheiro, ainda mais forte que os outros fedores da casa, e percebi que ela estava na entrada do nosso aposento. Todas as ovelhas se afastaram da porta num átimo, movendo-se juntas como um cardume e nos imprensando contra a parede com tamanha força que ficamos sem ar.
Agarramo-nos um ao outro com força, mas não ousamos falar, e por um momento insuportavelmente tenso não se ouviu nenhum som além do balido das ovelhas e o ruído de cascos no chão. Então escutamos um berro mais alto, repentino e desesperado, que foi silenciado de modo igualmente brusco. Em seguida ouvimos o ruído pavoroso de carne se rasgando e ossos se partindo.
Sabia, sem precisar ver, que uma ovelha tinha sido dilacerada.
O caos tomou conta do lugar. Animais em pânico ricocheteavam uns nos outros, jogando-nos contra a parede tantas vezes que fiquei tonto. O etéreo soltou um grito agudo de arrebentar os tímpanos e começou a levar uma ovelha atrás da outra até suas mandíbulas salivantes. Dava uma mordida sangrenta em cada uma delas e em seguida as jogava de lado, como se fosse um rei glutão se empanturrando em um banquete medieval. Fez isso repetidas vezes, matando tudo o que o estivesse impedindo de nos alcançar. Estávamos paralisados de medo.
Não sei explicar direito o que aconteceu em seguida. Todos os meus instintos gritavam para que eu ficasse escondido, para me afundar ainda mais na lama imunda, mas aí uma nítida ideia veio à minha mente e se fez ouvir acima de toda a estática: Não vou permitir que a gente morra nesta casa cheia de merda!
Empurrei Emma para trás da maior ovelha que achei e saí correndo para a porta.
Ela estava fechada e a uns três metros de distância, e havia muitos animais entre mim e ela, mas abri espaço entre as ovelhas como um jogador de futebol americano e, quando atingi a porta, eu a golpeei com o ombro e ela se abriu.
Caí do lado de fora no meio da chuva.
— Venha me pegar, seu filho da mãe horrendo como o cão! — gritei, e soube que tinha atraído sua atenção, porque a criatura soltou um uivo aterrorizante, e as ovelhas começaram a sair aos montes pela porta e passaram por mim. Consegui ficar de pé, e quando tive certeza de que ela estava atrás de mim e não de Emma, saí correndo na direção da charneca.
Podia sentir o monstro atrás de mim. Eu conseguiria correr mais rápido, mas ainda carregava a tesoura de tosquia — não sei por que não conseguia deixá-la para trás —, o que significava que tinha de correr mantendo-a longe do corpo para não me empalar. Quando o chão sob meus pés ficou mole, soube que tinha chegado à charneca alagadiça, então ergui a tesoura acima da cabeça e segui em frente com passadas altas como se fosse um fuzileiro atravessando um fosso de lama.
Enquanto corria pela charneca, duas vezes o etéreo se aproximou o bastante para que suas línguas atingissem minhas costas. Mas nas duas vezes, quando eu tinha certeza de que uma delas estava na iminência de me laçar pelo pescoço e apertá-lo até arrancar minha cabeça, ele tropeçou num buraco no lamaçal e caiu de costas. Só consegui chegar ao cairn com a cabeça ainda presa ao pescoço por um único motivo: eu sabia exatamente onde pôr os pés. Tinha seguido Emma tantas vezes que podia correr pelo caminho certo mesmo numa noite sem lua e em meio a um furacão.
Enquanto subia a elevação do cairn, fiz a volta até a entrada de pedra e mergulhei em seu interior. Lá dentro, estava escuro como breu, mas isso não importava. Eu só precisava chegar à câmara para alcançar a segurança.
Engatinhei em frente porque não podia perder tempo, coisa que eu não tinha de sobra, sequer para me levantar. Quando estava na metade do caminho, começando a me sentir cautelosamente otimista em relação às minhas chances de sobrevivência, de repente não consegui mais avançar. Uma das línguas me agarrara pelo tornozelo.
O etéreo usara duas de suas línguas para se agarrar às pedras da entrada do túnel e usá-las como apoio para evitar a lama, e cobrira a entrada com o corpo como se fosse a tampa de um vidro. A terceira língua me puxava em sua direção. Eu era um peixe fisgado por um anzol.
Tentei me agarrar ao chão, mas só havia cascalho e meus dedos passavam através dele. Eu me virei de costas e tentei agarrar as pedras do túnel com a mão livre, mas deslizava depressa demais e não conseguia me segurar. Então ataquei a língua com a tesoura, mas ela era forte e resistente, um cabo de músculos sinuosos, e a tesoura estava totalmente cega. Apertei bem os olhos porque não queria que mandíbulas abertas fossem a última coisa que eu veria na vida, e segurei a tesoura com as duas mãos, apontada para a frente, o tempo parecendo se estender, como me disseram que acontece em batidas de carro, acidentes de trem e durante a queda livre de aviões. A primeira coisa que senti em seguida foi uma colisão de partir os ossos quando me choquei contra o etéreo.
Fiquei completamente sem ar e ouvi a criatura gritar. Voamos juntos túnel afora e descemos rolando a elevação do túmulo de pedra até cair no terreno enlameado da charneca, e quando tornei a abrir os olhos vi que a tesoura estava enterrada no globo ocular da fera, que berrava como dez porcos sendo castrados, retorcendo-se e se debatendo na lama amolecida pela chuva, enquanto expelia um rio negro de si mesma, um fluido viscoso que escorria pelo cabo enferrujado da tesoura.
Eu podia sentir que ela estava morrendo, que sua vida se esvaía, e a língua em torno de meu tornozelo se afrouxava. Também sentia uma diferença em mim. O nó de medo no estômago começava a se desfazer enquanto a vida deixava meu inimigo. Finalmente ele ficou imóvel e sumiu de vista. A lama começou a se fechar sobre sua cabeça e o sangue negro e espesso que jorrava
na superfície era o único sinal de que ele um dia estivera ali.
Senti que o terreno pantanoso me sugava junto. Quanto mais eu lutava contra ele, mais ele parecia me querer. Que descoberta estranha nós seríamos daqui a dois mil anos, preservados juntos na turfa.
Tentei remar na direção do terreno sólido do cairn, mas só consegui me afundar ainda mais. A lama parecia subir por cima de mim. Escalou meus braços, meu peito e envolveu meu pescoço como se fosse um laço. Gritei por ajuda e milagrosamente ela chegou, em uma forma que, de início, pensei ser de uma libélula, um brilho veloz voando em minha direção.
Então a ouvi me chamar e respondi.
Um galho de árvore pousou na água. Eu o agarrei e Emma puxou. Quando finalmente saí do lamaçal, tremia tanto que não conseguia me manter de pé.
Emma se agachou ao meu lado e caí em seus braços.
Eu o matei. Eu o matei mesmo. E eu tinha passado tanto tempo com medo!
Meu Deus, nunca sonhei que realmente pudesse matar um deles!
Aquilo fez com que me sentisse poderoso. Agora eu podia me defender.
Sabia que nunca seria tão forte quanto meu avô, mas tampouco era um fracote covarde. Eu podia matá-los.
Testei as palavras.
— Está morto. Eu o matei!
Gargalhei. Emma me abraçou, pressionando sua bochecha contra a minha.
— Sei que ele teria orgulho de você — disse ela.
Nós nos beijamos, e foi um beijo terno e gostoso, com a chuva pingando do nariz e escorrendo quente para dentro de nossas bocas entreabertas. Mas cedo demais ela se afastou e sussurrou:
— O que você disse antes... estava falando sério?
— Eu vou ficar — respondi. — Quero dizer, se a senhorita Peregrine deixar.
— Sei que ela vai. Eu vou me assegurar disso.
— Antes de nos preocuparmos com esse assunto, temos de encontrar nosso psiquiatra e pegar a arma dele.
— Certo — disse ela, assumindo um ar compenetrado. — Então não temos tempo a perder.

* * *

Deixamos a chuva para trás e ressurgimos em uma paisagem de fumaça e barulho. A fenda de tempo ainda não tinha sido reiniciada. A charneca estava salpicada de buracos de bomba, aviões zuniam no céu e muros de chamas laranja avançavam rumo às árvores. Estava prestes a sugerir que esperássemos até que hoje virasse ontem e tudo aquilo desaparecesse antes de prosseguirmos, quando dois braços morenos me agarraram.
— Vocês estão vivos! — gritou Bronwyn.
Enoch e Hugh também estavam lá, e, quando ela me largou, eles vieram apertar minha mão e ver como eu estava.
— Me desculpe por chamá-lo de traidor — disse Enoch. — Fico feliz em ver que você não morreu.
— Eu também — respondi.
— Está inteiro? — perguntou Hugh.
— Dois braços e duas pernas — falei, dando chutes no ar para mostrar que estavam inteiras. — E vocês não têm mais que se preocupar com o etéreo, nós o matamos.
— Ah, não seja modesto! — disse Emma cheia de orgulho. — Você o matou!
— Isso é brilhante — disse Hugh, mas nem ele nem os outros dois conseguiam abrir um sorriso.
— Qual é o problema? — perguntei. — Espere, por que vocês não estão em casa? Onde está a senhorita Peregrine?
— Desapareceu — disse Bronwyn, com os lábios trêmulos. — A senhorita Avocet também. Ele levou as duas.
— Ah, meu Deus! — disse Emma. — Chegamos tarde demais!
— Ele apareceu com uma arma — disse Hugh, enquanto examinava meu estado de imundície. — Tentou tomar Claire como refém, mas ela o mordeu com a boca da nuca, então ele me pegou em seu lugar. Tentei lutar, mas ele me bateu na cabeça com a arma. — Ele tocou a nuca e seus dedos ficaram sujos de sangue. — Trancou todo mundo no porão e disse que, se a diretora e a senhorita Avocet não se transformassem em aves, ele iria fazer um buraco a mais em minha cabeça, então elas obedeceram e ele meteu as duas numa gaiola.
— Ele tinha uma gaiola? — disse Emma.
Hugh assentiu.
— Pequena, também, para que não pudessem fazer nada, como se transformarem de volta ou saírem voando. Eu achava que ia morrer, mas ele me jogou no porão com os outros e fugiu com as aves.
— Foi assim que os encontramos quando chegamos — disse Enoch com amargura. — Escondidos lá embaixo como um bando de covardes.
— Nós não estávamos nos escondendo! — exclamou Hugh. — Ele nos trancou lá! Ia nos matar!
— Esqueça isso — interrompeu Emma. — Para onde ele poderia fugir? Por que não foram atrás dele?
— Não sabemos onde ele foi — Bronwyn disse. — Esperávamos que o tivessem visto.
— Não, não o vimos — disse Emma, chutando uma pedra do cairn em frustração. Então Hugh sacou algo da camisa. Era uma fotografia pequena.
— Ele meteu isso no meu bolso antes de ir embora. Disse que se tentássemos ir atrás dele era isso o que ia acontecer.
Bronwyn tomou a foto das mãos de Hugh.
— Ah, meu Deus! — surpreendeu-se. — É a senhorita Raven?
— Acho que é a senhorita Crow2 — disse Hugh, esfregando o rosto com as mãos para não chorar.
— É isso. Elas vão morrer mesmo — lamentou Enoch. — Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
— Nunca devíamos ter saído da casa — disse Emma, cheia de tristeza. — Millard tinha razão.
Uma bomba caiu do outro lado da charneca e uma explosão muda foi seguida por uma chuva distante de lama revirada.
— Esperem aí — disse eu. — Antes de tudo, não sabemos se essa é a senhorita Crow ou a senhorita Raven. Pode muito bem ser a foto de um corvo comum. E, se Golan queria matar a senhorita Peregrine e a senhorita Avocet, por que se daria ao trabalho de raptá-las? Se ele as quisesse mortas, elas já estariam mortas. — Virei-me para Emma. — E, se nós não tivéssemos saído daqui, teríamos sido trancados no porão como todos os outros, e ainda haveria um etéreo andando por aí.


2 Crow: gralha; Raven: corvo. (N. T.)



— Não tente fazer com que eu me sinta melhor! — disse ela. — Isso está acontecendo por sua culpa!
— Há dez minutos você estava me agradecendo! — exclamei.
— Há dez minutos a senhorita Peregrine não tinha sido raptada! — respondeu ela aos berros.
— Parem com isso! — interveio Hugh. — O que importa agora é que a Ave sumiu e precisamos trazê-la de volta.
— Isso mesmo — disse eu. — Então vamos pensar. Se vocês fossem acólitos, para onde levariam duas ymbrynes raptadas?
— Depende do que eu quisesse fazer com elas — respondeu Enoch —, e isso nós não sabemos.
— Antes de tudo, seria preciso tirá-las da ilha — disse Emma. — Nesse caso, eu precisaria de um barco.
— Mas que ilha? perguntou Hugh. — Dentro ou fora da fenda?
— Lá fora a ilha está embaixo de uma tempestade — falei. — Ninguém consegue ir longe de barco por lá.
— Então ele deve estar deste lado — disse Emma, começando a parecer esperançosa. — O que estamos fazendo aqui parados? Vamos até as docas!
Talvez ele esteja nas docas — resmungou Enoch —, se é que ainda não foi embora. E, mesmo que não tenha ido e a gente consiga encontrá-lo no meio dessa escuridão toda, sem sermos esburacados por estilhaços de bombas no caminho, ainda temos de nos preocupar com a arma dele. Vocês enlouqueceram? Preferem que a Ave seja sequestrada ou morta a tiros na nossa frente?
— Está bem! — exclamou Hugh. — Vamos desistir e voltar para casa, combinado? Quem quer uma xícara quentinha de chá antes de dormir? Droga, já que a Ave não está em casa, podemos preparar um drinque! — Ele chorava, e enxugou os olhos num gesto enfurecido. — Como vocês podem deixar de sequer tentar, depois de tudo o que ela fez por nós?
Antes que Enoch pudesse responder, ouvimos alguém na trilha gritando por nós. Hugh se adiantou, tentando ver o que era, e depois de um instante sua expressão ficou estranha.
— É Fiona — disse ele.
Até aquele momento, eu não tinha ouvido Fiona dar nem um pio. Era, porém, impossível entender o que ela dizia em meio ao barulho de aviões e explosões distantes, por isso fomos correndo pelo lamaçal até ela.
Quando chegamos à trilha, estávamos ofegantes, e Fiona, rouca de tanto gritar, seus olhos tão estranhos quanto seu cabelo. Ela imediatamente começou a nos puxar, a nos arrastar na direção da trilha para a cidade, gritando em tamanho frenesi com seu sotaque irlandês que nenhum de nós conseguia entender o que dizia. Hugh a segurou pelos ombros e lhe disse para ir mais devagar.
Ela respirou fundo, tremendo como vara verde, e apontou para trás.
— Millard o seguiu! — disse ela. — Ele estava escondido quando o homem trancou todos nós no porão, e, quando foi embora, Millard foi atrás dele.
— Para onde? — perguntei.
— Ele pegou um barco.
— Viram?! As docas! — exclamou Emma.
— Não — disse Fiona. — Era o seu barco, Emma, que você achava ser um segredo, o que você esconde naquela sua prainha.
— Oh — disse ela baixinho.
— Ele partiu no barco com a gaiola, mas começou a remar em círculos. E, quando a correnteza ficou forte demais, ele desembarcou na rocha do farol, e é lá que ainda está.
Corremos o mais rápido possível até o farol. Quando chegamos aos penhascos de onde podíamos vê-lo, descobrimos o resto das crianças perto da beirada, atrás de um capinzal.
— Abaixem-se! — sussurrou Millard. — Querem que ele nos veja?
Nós nos agachamos e engatinhamos até eles. Estavam todos encolhidos juntos atrás do capim alto, revezando-se para espiar o farol. Eles pareciam desnorteados, principalmente os mais novos, como se ainda não tivessem compreendido toda a extensão do pesadelo que se desenrolava. Nem tinham registrado que nós havíamos acabado de sobreviver a um pesadelo.
Eu me arrastei pelo capim até a beira do penhasco para observar. Além do local do navio naufragado, vi um bote a remo amarrado às rochas do farol.
Golan não estava à vista.
— O que ele está fazendo lá? — perguntei.
— Não sabemos — disse Millard. — Ou está esperando que alguém vá buscá-lo, ou que o mar se acalme para ir embora remando.
— No meu barquinho? — disse Emma, desconfiada.
— Como já disse, não sabemos.
Ouvimos três estrondos ensurdecedores seguidos, e todos nos abaixamos enquanto o céu brilhava, alaranjado.
— Há bombas caindo por aqui, Millard? — Emma perguntou.
— Minha pesquisa concentra-se apenas no comportamento de humanos e animais — respondeu ele. — Não em bombas.
— Que grande ajuda vai ser para a gente agora — disse Enoch.
— Vocês têm outros barcos escondidos por aqui? — perguntei a Emma.
— Infelizmente não — respondeu ela. — Acho que teremos de ir até lá a nado.
— Nadar até lá e depois o quê? — disse Millard. — Levar um tiro?
— Vamos pensar em alguma coisa — respondeu ela.
Millard deu um suspiro.
— Ah, querida. Suicídio improvisado.
— Então? — Emma encarou cada um de nós. — Alguém tem alguma ideia melhor?
— Se eu estivesse com meus soldados... — começou Enoch.
— Eles iam se desfazer na água — disse Millard.
Enoch baixou a cabeça. Os outros silenciaram.
— Bom, está resolvido — disse Emma. — Quem vai nessa?
Eu levantei a mão. Bronwyn também.
— Vocês vão precisar de alguém que o acólito não consiga ver — disse Millard. — Se quiserem, vou com vocês.
— Quatro bastam — disse Emma. — Espero que todos vocês sejam bons nadadores.
Não havia tempo para pensar duas vezes, nem para despedidas demoradas.
Os outros nos desejaram sorte, e nós partimos.
Tiramos as capas negras e fomos correndo em meio ao capim, agachados como soldados de uma tropa de elite, até chegar à trilha que descia rumo à praia. Escorregamos sentados, com pequenas avalanches de areia deslizando juntamente com nossos pés e entrando pelas calças.
Então ouvimos o barulho de cinquenta motosserras no céu e nos agachamos quando um avião passou roncando, criando uma ventania que agitou nossos cabelos e levantou uma tempestade de areia. Apertei os dentes à espera do estrondo de uma bomba que iria nos destruir, mas ela não veio.
Continuamos andando. Quando alcançamos a praia, Emma nos reuniu em um grupo compacto.
— Há um navio naufragado entre onde estamos e o farol — disse ela. — Sigam-me até lá. Fiquem abaixados na água. Não deixe que ele veja vocês. Quando chegarmos ao navio, procuraremos nosso homem e decidiremos o que fazer depois.
— Vamos resgatar nossas ymbrynes! — disse Bronwyn.
Rastejamos até a água e entramos de bruços no mar gelado. No início foi fácil, mas, quanto mais nos afastávamos da praia, mais a corrente tentava nos empurrar de volta. Outro avião zuniu acima de nós e levantou uma cortina de água gelada.
Finalmente chegamos ao navio naufragado e descansamos sobre os restos de seu casco até que nossa respiração voltasse ao normal. Estávamos apenas com a cabeça para fora d’água. Olhamos para o farol e a ilhota inóspita onde se erguia, mas não vimos sinal de meu terapeuta malvado. Uma lua cheia pairava baixa no céu, semioculta por camadas de fumaça de bombas, mas surgindo de vez em quando para brilhar como uma imitação fantasmagórica da luz do farol.
Avançamos pelo casco como se rastejássemos sobre ele. Quando chegamos ao seu fim, tínhamos de nadar menos de cinquenta metros em mar aberto para chegar às rochas do farol. Emma parou e nos reunimos em volta dela.
— Acho que devemos fazer o seguinte — disse ela. — Ele já conhece a força de Wyn, por isso é ela quem corre o maior risco. Jacob e eu vamos encontrar Golan e atrair sua atenção enquanto Wyn tenta surpreendê-lo pelas costas e derrubá-lo com uma pancada na cabeça. Enquanto isso, Millard tenta pegar a gaiola. Alguma objeção?
Como se fosse uma resposta, ouvimos um tiro. Não percebemos de imediato o que era; não parecia com os tiros que estávamos acostumados a ouvir, distantes e poderosos. Esse era de pequeno calibre, um tac mais do que um bum.
E só quando ouvimos o segundo, que levantou água pertinho de nós, percebemos que Golan atirava.
— Cuidado! — gritou Emma, e nós nos levantamos e voltamos correndo pelo casco.
Ouvíamos os tiros às nossas costas. Corremos até o casco faltar sob nossos pés, e então mergulhamos e emergimos juntos um momento depois, já quase sem ar.
— E nós que achávamos que íamos pegá-lo de surpresa! — disse Millard.
Golan tinha parado de atirar, mas podíamos vê-lo de guarda ao lado da porta do farol, a arma na mão.
— Ele pode ser um filho da mãe do mal, mas não é burro — disse Bronwyn. — Sabia que vínhamos atrás dele.
— Agora não temos mais como fazer isso! — disse Emma, batendo na água com frustração. — Ele vai matar a gente a tiros!
Millard ficou de pé sobre o casco.
— Ele não pode atirar no que não consegue ver. Eu vou lá.
— Você não é invisível na água, bobo! — disse Emma, e era verdade.
Quando nadava, abria-se na água um buraco na forma de seu tronco.
— Mais do que você — respondeu ele. — De qualquer modo, eu o segui pela ilha e ele não foi o mais sábio dos homens. Acho que posso conseguir por mais alguns metros.
Era difícil discutir, já que as únicas opções que nos restavam eram desistir ou correr sob uma saraivada de tiros.
— Tudo bem — disse Emma. — Se você realmente acha que pode fazer isso...
— Alguém tem que ser o herói — ele replicou, e saiu pelo outro lado do casco.
— Famosas últimas palavras — murmurei.
Na distância enevoada, vi Golan, na porta do farol, se ajoelhar e mirar, apoiando o braço no corrimão.
— Cuidado! — gritei, mas era tarde demais.
Um tiro ecoou e ouvimos o grito de Millard.
Todos subimos pelos destroços e corremos na direção dele. Eu tinha certeza absoluta de que ia levar um tiro a qualquer momento, e por um instante achei que o barulho de nossos pés na água era uma saraivada de balas sobre nós. Mas os tiros pararam — recarregando, eu pensei —, e tínhamos uma breve janela de tempo.
Quando alcançamos Millard, ele estava no mesmo lugar em que tinha sido baleado, atônito, enquanto o sangue escorria por seu corpo. Pela primeira vez vi a verdadeira forma do corpo dele, que estava tingido de vermelho.
Emma o segurou pelo braço.
— Millard! Você está bem? Diga alguma coisa!
— Preciso me desculpar — disse ele. — Parece que arranjei um jeito de levar um tiro. — Ele cambaleou e caiu de joelhos na água.
— Precisamos estancar o sangue! — disse Emma. — Temos de levá-lo de volta para a margem!
— Não podem fazer isso — disse Millard. — O sujeito nunca mais vai deixar que cheguemos tão perto dele como estamos agora. Se a gente recuar, com certeza a senhorita Peregrine estará perdida.
Mais tiros soaram. Senti uma bala passando zunindo perto do meu ouvido.
— Por aqui! — gritou Emma. — Mergulhem!
No início, não sabia o que ela queria. Estávamos a uns trinta metros da extremidade do navio. Mas então vi para onde ela estava correndo. Era o buraco negro no casco, a porta para o compartimento de carga.
Bronwyn e eu pegamos Millard e fomos atrás de Emma. Ouvíamos o barulho das balas acertando o casco em nossa volta. Parecia o barulho de alguém chutando uma lata de lixo.
— Prenda a respiração — disse para Millard; chegamos ao buraco e mergulhamos de pé.
Descemos alguns degraus pela escada e ficamos ali. Tentei manter os olhos abertos, mas a água salgada ardia demais. Sentia o gosto do sangue de Millard na água.
Emma me entregou o tubo de ar e nós o passamos um para o outro. Eu estava cansado e sem fôlego depois de correr, e uma única inspiração com intervalo de alguns segundos não era o bastante. Meus pulmões doíam e comecei a ficar zonzo.
Senti um puxão em minha camisa. Suba! Subi lentamente pela escada e em pouco tempo Bronwyn, Emma e eu surgimos na superfície por tempo suficiente apenas para respirar e trocar algumas palavras enquanto Millard estava em segurança alguns metros abaixo, com o tubo só para ele.
Falamos aos sussurros, sem perder o farol de vista.
— Não podemos ficar aqui — disse Emma. — Millard vai sangrar até morrer.
— Pode demorar uns vinte minutos para levá-lo de volta para a margem —
falei. — Ele pode muito bem morrer no meio do caminho.
— Não sei o que mais podemos fazer!
— O farol está perto — disse Bronwyn. — Vamos levá-lo para lá.
— Aí Golan vai fazer todos nós sangrarmos até morrer.
— Não vai não — retrucou Bronwyn.
— Por que não? Você é à prova de bala?
— Talvez — respondeu ela de modo misterioso, depois respirou fundo e sumiu escada abaixo.
— Do que ela está falando? — perguntei.
Emma parecia preocupada.
— Não tenho ideia. Mas, seja lá o que for, é melhor que ela se apresse.
Olhei para baixo para tentar ver o que Bronwyn estava fazendo. Em vez disso, percebi Millard na escada embaixo de nós, cercado por peixes-lanterna curiosos. Então senti o casco vibrar sob meus pés e no instante seguinte Bronwyn reapareceu na superfície segurando uma placa retangular de metal de aproximadamente um metro e meio por um metro, com um furo de rebite no alto. Ela tinha arrancado a porta do compartimento de carga das dobradiças.
— E o que vai fazer com isso? — perguntou Emma.
— Vou até o farol — respondeu Bronwyn. Levantou-se e ergueu a porta à sua frente como se fosse um escudo.
— Wyn, ele vai atirar em você! — exclamou Emma, e então ouvimos um tiro, que ricocheteou na porta.
— Isso é incrível! — disse eu. — É um escudo!
Emma riu.
— Wyn, você é um gênio!
— Millard pode montar em minhas costas! — disse ela. — Vocês vêm atrás.
Emma tirou Millard da água e pôs seus braços em torno do pescoço de Bronwyn.
— Lá embaixo é magnífico! — disse ele. — Emma, por que você nunca me contou sobre os anjos?
— Que anjos?
— Os lindos anjos verdes que vivem aí embaixo. — Ele tremia demais, a voz parecia distante e oca. — Eles tiveram a gentileza de se oferecer para me levar para o céu.
Emma ficou preocupada.
— Ninguém vai para o céu agora — disse ela. — Você se segure firme em Bronwyn, está bem?
— Tudo bem — respondeu ele sem convicção.
Emma estava atrás de Millard e o segurava contra as costas de Bronwyn, para que ele não escorregasse e caísse, e eu seguia atrás de Emma, no fim do nosso bizarro trenzinho. Assim, começamos a avançar por cima do naufrágio rumo ao farol.
Éramos um alvo grande, e Golan imediatamente esvaziou seu revólver em nós. O barulho dos tiros ricocheteando na porta era ensurdecedor, mas de algum modo reconfortante, e, depois de tentar umas dez vezes mais ou menos, ele parou. Mas eu não estava otimista o bastante para acreditar que tivesse ficado sem balas.
Quando chegamos ao fim do navio, Bronwyn nos guiou com cuidado para as águas profundas, com a preocupação de manter a enorme porta erguida à nossa frente. Nosso trenzinho virou uma fila de gente nadando estilo cachorrinho, um grupo estranho que seguia atrás dela, enquanto Emma conversava com Millard e o fazia responder a perguntas para que não perdesse a consciência.
— Millard, quem é o primeiro-ministro?
— Winston Churchill — respondeu. — Você ficou doida?
— Qual é a capital da Birmânia?
— Sei lá, não tenho a menor ideia. Rangum?
— Isso! Quando é o seu aniversário?
— Você podia parar de gritar e me deixar sangrar em paz?
Não demorou muito para cobrirmos a distância entre o naufrágio e o farol. Enquanto Bronwyn subia pelas pedras mantendo o escudo à nossa frente, Golan disparou mais algumas vezes, e o impacto bastou para que ela perdesse o equilíbrio. Enquanto nos agachávamos atrás dela, Bronwyn tropeçou, perdeu o equilíbrio nas pedras escorregadias e quase caiu para trás, o que, somando-se o peso dela ao da porta, teria nos esmagado. Mas Emma firmou as mãos no alto das costas dela, empurrou-a e finalmente Bronwyn e a porta cambalearam até a terra seca. Subimos nos arrastando atrás dela e fomos nos agachando, tremendo no ar frio da noite.
Com largura máxima de cinquenta metros, aquilo era tecnicamente uma ilha, mas mal merecia esse nome. Na base enferrujada do farol havia um lance de escadas que levava a uma porta aberta, de onde Golan apontava a pistola em nossa direção.
Arrisquei dar uma espiada nele pelo buraco na porta. Ele tinha uma gaiola pequena na mão. Dentro dela, havia duas aves se debatendo, tão apertadas que eu mal conseguia diferenciar uma da outra.
Uma bala passou zunindo e eu me abaixei.
— Cheguem mais perto e eu mato as duas! — gritou Golan, sacudindo a gaiola.
— É mentira — disse eu. — Ele precisa delas.
— Você não tem certeza — disse Emma. — Afinal de contas, ele é louco.
— Bem, não podemos ficar parados sem fazer nada.
— Vamos atacá-lo! — disse Bronwyn. — Ele não vai saber o que fazer. Mas, para funcionar, só se a gente for AGORA!
E, antes que tivéssemos a chance de fazer qualquer comentário, Bronwyn saiu correndo na direção do farol. Não tínhamos alternativa exceto segui-la, afinal de contas, nossa proteção estava com ela, e no instante seguinte ouvimos o barulho metálico de balas batendo na porta e também o ruído de rochas lascando em torno de nossos pés.
Era como se pendurar na traseira de um trem em alta velocidade. Bronwyn gritava como um bárbaro; as veias em sua cabeça estavam inchadas e havia sangue de Millard espalhado por todo o seu pescoço, braços e costas. Naquele instante, fiquei bem satisfeito por não estar do outro lado da porta.
Quando estávamos perto do farol, Bronwyn berrou:
— Fiquem atrás do muro!
Emma e eu agarramos Millard e viramos à esquerda para nos proteger
atrás da extremidade mais distante do farol. Enquanto corríamos, vi Bronwyn levantar a porta sobre sua cabeça e jogá-la em direção a Golan.
Houve um estrondo muito forte, logo seguido por um grito, e num instante Bronwyn se juntou a nós atrás do muro.
— Acho que o acertei! — disse ela empolgada.
— E as aves? — disse Emma. — Você por acaso pensou nelas?
— Ele as derrubou, elas estão bem.
— Bem, você podia ter nos perguntado antes de surtar e botar em risco nossa vida! — reclamou Emma.
— Silêncio — sussurrei. Os outros pararam de falar. Aos poucos, notamos um leve rangido metálico. — O que é isso?
— As escadas — respondeu Emma. — Ele está subindo.
— É melhor vocês irem atrás dele — resmungou Millard. Surpresos, olhamos para ele, que estava apoiado contra o muro.
— Não antes de cuidar de você — disse eu. — Quem sabe fazer um torniquete?
Bronwyn se agachou e arrancou o pano da perna de sua calça comprida.
— Eu sei — disse ela. — Vou estancar esse sangramento, vocês pegam o acólito. Eu o acertei com força, mas não acabei com ele. Não lhe deem chance de recuperar o fôlego.
Eu me virei para Emma.
— Está pronta?
— Se isso significa que vou derreter a cara desse acólito — disse ela, com pequenos arcos de fogo pulsando entre as mãos —, então com certeza estou.

* * *

Emma e eu subimos pela porta do navio, que estava empenada e jogada em cima da escada onde aterrissara, e adentramos o farol. Ele consistia principalmente de um aposento estreito, escuro e extremamente vertical, basicamente apenas um vão de escada, dominado pelos degraus esqueléticos que subiam em espiral do chão até uma plataforma no alto, a mais de trinta metros de altura, onde ficavam abrigadas as lentes giratórias do farol. Podíamos ouvir os passos de Golan subindo a escada, mas estava escuro demais para dizer a que distância do topo ele estava.
— Pode vê-lo? — perguntei, olhando para cima, observando a altura vertiginosa da escadaria.
A resposta foi um tiro que ricocheteou numa parede próxima, rapidamente seguido por outro que acertou o chão aos meus pés. Pulei para trás, o coração batendo forte.
— Aqui! — gritou Emma, que segurou meu braço e me puxou ainda mais para o interior do farol, para o único lugar onde Golan não poderia atirar em nós: exatamente sob a escada.
Subimos alguns degraus, que já estavam balançando como um barco em um mar tempestuoso.
— Essa escada é assustadora! — exclamou Emma, apertando com força o corrimão. — E, mesmo que a gente consiga chegar lá no alto sem cair, ele vai atirar!
— O que mais a gente pode fazer? Temos de segui-lo.
Estiquei o pescoço para fora da proteção dos degraus para procurar Golan, na esperança de que meus olhos já estivessem ajustados o bastante para captar um vislumbre dele. Em vez disso, percebi uma série de suportes finos de metal que prendiam a escada na parede. Eram a única coisa que a mantinha no lugar.
— Se não conseguimos subir, talvez possamos derrubá-lo — disse eu, e comecei a balançar de um lado para o outro onde estava, puxando o corrimão com força e batendo os pés, enviando ondas de choque escada acima. Emma logo captou a ideia e começou a se sacudir comigo, e em pouco tempo a escada balançava como louca, estremecendo tanto que deu início a uma chuva de porcas e parafusos.
— E se a coisa toda despencar de uma vez? — gritou Emma.
— Vamos torcer para que isso não aconteça!
Encolhemos a cabeça para nos proteger da chuva de pedaços de metal e balançamos com ainda mais força. Eu mal conseguia continuar a segurar o corrimão, que sacudia de um lado para o outro com muita violência. Nesse momento ouvi Golan gritar uma série espetacular de palavrões, depois algo caiu pelas escadas com um estrondo, batendo nos degraus até despencar no chão perto de onde estávamos.
Corri depressa até lá para procurar o que quer que Golan tivesse deixado cair. Temia achar uma gaiola de passarinho despedaçada.
— O que está fazendo?! — berrou Emma. — Ele vai atirar em você!
— Não vai, não! — disse eu, a arma de Golan erguida em triunfo.
Ela pesava em minha mão e estava quente devido a todos os tiros disparados por Golan. Eu não tinha ideia de se ainda estava carregada ou de como, naquela penumbra, conferir esse detalhe. Tentei sem sucesso me lembrar de algo útil das aulas de tiro que meu avô tivera a permissão de me dar, mas por fim apenas subi correndo os degraus de volta até onde estava Emma.
— Ele está preso lá no alto — disse eu. — Vamos mais devagar, tentar negociar, ou quem sabe o que ele pode fazer com as aves.
— Vou é “negociar” com ele lá de cima até o chão! — falou Emma entre os dentes.
Começamos a subir. A escada era tão estreita que só podíamos avançar em fila indiana, agachados para que nossas cabeças não batessem nos degraus de cima. Eles balançavam demais. Era como escalar uma mola. Rezei para que nenhum dos parafusos ou porcas que tínhamos soltado fosse responsável por sustentar alguma parte importante.
Quando nos aproximávamos do topo, reduzimos o ritmo. Eu não ousava olhar para baixo. Havia apenas meus pés nos degraus, a mão que deslizava pelo corrimão bambo e outra segurando a arma. Não havia nada mais.
Eu me preparei para receber um ataque surpresa, mas nada aconteceu. A escada acabava em uma porta acima de nossas cabeças, na plataforma de concreto onde os degraus terminavam, e através dela eu sentia o frio gelado do ar noturno e ouvia o silvo do vento. Enfiei o revólver pelo vão e em seguida a cabeça, tenso e pronto para lutar, mas não vi Golan. De um lado, a gigantesca luz girava — e era cegante àquela proximidade, por isso tinha de fechar os olhos quando ela passava por mim —, abrigada atrás de vidro muito grosso; do outro, havia uma fina grade de proteção. Além dela, o vazio: dez andares de ar e depois rochas e o branco do mar encapelado. Eu não podia olhar sem ser inteiramente tomado por surtos de eletricidade apavorante.
Parei na plataforma entre a parede e a grade, e me virei para dar a mão a Emma. Ficamos parados ali, encostados no vidro quente que protegia a lâmpada, de frente para o vento frio.
— A Ave está por perto. Eu posso senti-la — sussurrou Emma.
Ela girou o pulso e uma bola de fogo surgiu acima de sua mão. Quase se apagou com o vento, mas Emma flexionou o braço e o fogo retornou com ainda mais força. Algo em sua cor e intensidade deixava claro que desta vez ela não invocara uma luz, mas uma arma.
— Vamos nos separar — disse eu. — Você vai por um lado e eu vou pelo outro. Assim ele não vai conseguir passar por nós.
— Estou com medo, Jacob.
— Eu também, mas ele está ferido e estamos com seu revólver.
Ela assentiu e tocou meu braço, depois virou as costas para mim e lentamente começamos a nos afastar um do outro. Dei a volta na lâmpada bem devagar, com o revólver talvez carregado na mão, e aos poucos a vista do outro lado começou a se revelar.
Encontrei Golan de cócoras, com a cabeça baixa, as costas apoiadas na grade de proteção e a gaiola entre os joelhos. Sangrava muito por um corte no alto do nariz, e os fios de sangue que desciam por seu rosto quase pareciam lágrimas.
Havia uma luzinha vermelha presa às barras da gaiola. Ela piscava com um intervalo de poucos segundos.
Avancei mais um passo e ele levantou a cabeça para me observar. Seu rosto estava coberto de sangue seco; o olho branco, vermelho e injetado; e havia saliva nos cantos da boca.
Ele se levantou de modo oscilante, a gaiola em uma das mãos.
— Ponha a gaiola no chão — disse eu, avançando mais um passo em sua direção.
Ele ficou de pé, cambaleante, a gaiola na mão.
— Eu disse para pôr no chão.
Ele se abaixou como se fosse fazê-lo, então tentou me dar um drible de corpo e saiu correndo. Gritei e fui atrás, mas, assim que ele desapareceu do outro lado do farol, vi o brilho da chama de Emma reluzir através do concreto, e Golan gritou e voltou, trôpego, em minha direção, os cabelos fumegantes e um braço sobre o rosto.
— Pare! — gritei, e ele viu que não tinha saída; estava encurralado. Então levantou a gaiola para se proteger e balançou-a com um ar de maldade. As aves piavam alto e tentavam bicar a mão dele, apesar de não conseguirem alcançá-lo  através das barras.
— É isso que você quer? — berrou Golan. — Vá em frente, atire! As aves vão morrer também! Mate-me e eu jogo as duas lá embaixo!
— Não se eu acertar a sua cabeça!
Ele riu.
— Você não conseguiria atirar nem que quisesse. Esqueceu? Sou intimamente familiar com a sua pobre e frágil psique. Isso lhe provocaria pesadelos.
Tentei imaginar aquilo: envolver o gatilho com o dedo e apertá-lo; o recuo e o resultado terrível. O que havia de tão difícil nisso? Por que minha mão tremia só de pensar nesse ato? Quantos acólitos será que meu avô tinha matado? Dúzias? Centenas? Se fosse ele aqui em meu lugar, Golan já estaria morto, abatido no primeiro instante, enquanto eu estava atordoado, apoiado contra o gradil. Era uma oportunidade que eu já havia desperdiçado; uma fração de segundo de indecisão covarde que poderia custar a vida das ymbrynes.
A lâmpada gigante passou por nós e nos iluminou, transformando-nos por um instante em silhuetas brancas e reluzentes. Golan, que estava de frente para ela, fez uma careta e teve de desviar o rosto. Acabei de desperdiçar outra oportunidade.
— Ponha a gaiola no chão e venha com a gente — disse eu. — Ninguém mais precisa se machucar.
— Não sei — disse Emma. — Se Millard não sobreviver, eu posso não concordar com isso.
— Quer me matar? — disse Golan. — Tudo bem, acabe logo com isso, mas vai apenas adiar o inevitável, sem falar em tornar as coisas piores para vocês mesmos. Agora sabemos como encontrá-los. Outros como eu virão, e posso garantir que o efeito colateral que vão desencadear fará com que o que provoquei a seu amigo pareça um ato de bondade.
— Acabar logo com isso? — disse Emma, a chama em sua mão emitindo fagulhas pulsantes para cima. — Quem disse que seria rápido?
— Eu já falei que vou matá-las — disse ele, levando a gaiola até a altura do peito.
Ela deu um passo em sua direção.
— Tenho 88 anos — disse ela. — Acha que eu preciso de duas babás? — A expressão dela estava muito séria e indecifrável. — Não sei como dizer a você há quanto tempo estamos loucos para sair de sob as asas dessa mulher. Juro, isso seria um grande favor.
Golan, nervoso, balançava a cabeça para a frente e para trás, estudando-nos.
Será que ela está falando sério? Por um momento ele pareceu realmente apavorado, depois soltou uma risada.
— Isso é mentira! — ele exclamou.
Emma esfregou as mãos e depois as afastou lentamente, criando um laço de chamas.
— Vamos descobrir — ela retrucou.
Eu não sabia até onde Emma iria com aquilo, ou se ela tinha perdido completamente o controle, mas eu tinha de intervir antes que as aves ou fossem incineradas ou caíssem lá embaixo.
— Conte-nos o que quer fazer com essas ymbrynes e talvez ela alivie sua situação — falei, com expressão séria.
— Só queremos terminar o que começamos — disse ele. — É só o que sempre quisemos.
— Está falando do experimento? — disse Emma. — Vocês já tentaram uma vez, e veja o que aconteceu: transformaram-se todos em monstros!
— É, mas como a vida seria sem graça se nós sempre conseguíssemos as coisas na primeira tentativa. — Ele sorriu, e as aves começaram a entrar em pânico e a piar. Golan berrou mais alto do que elas. — Desta vez vamos reunir os talentos de todos os melhores manipuladores de tempo do mundo, como estas duas senhoras aqui! Não vamos fracassar uma segunda vez! Tivemos um século para descobrir o que deu errado! Tudo de que precisávamos era uma reação maior!
— Uma reação maior? — exclamei. — Da última vez vocês explodiram metade da Sibéria!
— Se é para fracassar, que seja um fracasso espetacular! — disse ele.
De repente, eu me lembrei do sonho de Horace com nuvens de cinzas e terra arrasada, e me dei conta do que ele tinha visto. Se os acólitos e etéreos fracassassem de novo, iam destruir bem mais que mil quilômetros de florestas desertas. Se obtivessem sucesso, por outro lado, e se tornassem os semideuses imortais que sempre sonharam ser, isso era algo que me fazia tremer só de pensar. Viver sob o jugo deles seria um verdadeiro inferno.
A luz fez a volta e cegou Golan por um instante. Fiquei tenso, pronto para pular em cima dele, mas o momento passou rápido demais.
— Não importa — disse Emma. — Pode raptar todas as ymbrynes que quiser, elas nunca vão ajudá-los.
— Vão, sim. Farão isso ou vamos matá-las uma a uma. E, se isso não funcionar, vamos matar vocês um a um, diante dos olhos delas.
— Você é louco — disse eu.
Os pássaros começaram a entrar em pânico e a guinchar. Golan gritou mais alto que eles.
— Não! — disse ele, voltando a sacudir a gaiola. — O que é realmente loucura é como vocês peculiares se escondem do mundo quando poderiam governá-lo, e deixam o lixo genético da raça humana empurrá-los para a clandestinidade quando poderiam tão facilmente transformar todos em seus escravos, como deveria ser. — Ele pronunciava cada frase com uma sacudidela na gaiola. — Isso sim é loucura.
— Pare! — gritou Emma.
— Então você se importa! — Ele sacudiu a gaiola com mais força ainda.
De repente, a luz vermelha presa às suas barras começou a brilhar duas vezes mais forte, e Golan girou a cabeça de um lado para o outro examinando a escuridão. Depois voltou a encarar Emma.
— Você quer isto? Pegue! — Ele balançou a gaiola na direção do rosto dela.
Emma gritou e se abaixou, e, como um arremessador de disco, ele continuou a girar a gaiola até rodá-la bem alto, e depois a soltou. Ela voou de suas mãos por cima do gradil e mergulhou de cabeça na noite.
Eu praguejei, e Emma gritou e se jogou contra a grade, agarrando o vazio enquanto a gaiola caía na direção do mar. Naquele momento de confusão, Golan pulou em cima de mim e me derrubou no chão. Ele me deu um soco no estômago e depois outro no queixo.
Fiquei zonzo e não conseguia respirar. Ele tentou agarrar o revólver e precisei de todas as minhas forças para evitar que o pegasse, e então eu soube, por ele querer tanto a arma, que ela devia estar carregada. Eu a teria jogado por cima da grade, mas agora ele estava quase conseguindo arrancá-la e eu não podia soltá-la. Emma começou a gritar Filho da mãe! Seu filho da mãe!, e as mãos delas, com luvas de chamas, vieram por trás e o agarraram pelo pescoço.
A carne dele chiou como um bife frio jogado numa chapa quente. Golan gritou e rolou para longe de mim, os cabelos ralos pegando fogo como a cabeça de um palito de fósforo. Então ele agarrou Emma pelo pescoço, como se não se importasse em se queimar, desde que conseguisse tirar sua vida. Levantei com um pulo, segurei o revólver com as duas mãos e mirei.
Tinha, por um instante, a chance de acertá-lo. De dar um bom tiro. Tentei esvaziar a mente e me concentrar em firmar os braços, criando uma linha imaginária que se estendia de meu ombro, passava pela alça de mira e ia até o meu alvo: a cabeça dele. A cabeça de um homem. Não, de um homem, não, mas da imitação corrompida de um. Uma coisa. Uma força que preparara a morte de meu avô e explodira tudo o que eu humildemente chamava de vida, por mais mal aproveitada que pudesse ser. Uma força que me trouxera até este lugar e este momento, de um modo muito parecido com o que forças menos malignas e violentas faziam com minha vida e decidiam por mim desde que eu tinha idade o bastante para decidir qualquer coisa. Relaxe as mãos, inspire e prenda a respiração. Agora eu tinha uma chance, uma chance mínima que eu já sentia começar a me escapar, de responder à altura.
Agora aperte.
A pistola deu um coice em minhas mãos e seu barulho soou como se o mundo estivesse se partindo ao meio, tão estrondoso e repentino que fechei os olhos. Quando tornei a abri-los, tudo parecia estranhamente congelado no lugar.
Golan estava por trás de Emma segurando-a com uma chave de braço, forçando-a na direção do gradil, mas era como se eles tivessem sido fundidos em bronze. Até o vento parara. Será que uma das ymbrynes tinha virado humana outra vez e estava fazendo alguma magia com a gente? Mas então Emma deu um safanão, livrou-se dele, e Golan começou a cambalear para trás, sem forças, tropeçando e caindo sentado pesadamente sobre a grade. Encarando-me com ar de surpresa, ele abriu a boca para falar algo, mas percebeu que não podia. Pôs a mão sobre o buraco do tamanho de uma moedinha que eu fizera em sua garganta. Sangue escorria entre seus dedos e descia pelos braços. E sua força se esvaiu. Ele caiu de costas e morreu.
No momento em que Golan desapareceu de vista, foi esquecido. Emma apontou para o mar e gritou:
— Ali, ali!
Segui seu dedo e esforcei-me para ver no escuro até vislumbrar o brilho de um LED vermelho pulsando nas ondas a distância. Nós dois corremos até a porta e descemos apressados a escada bamba que parecia não ter fim, sem esperanças de alcançar a gaiola antes que ela afundasse, mas de qualquer modo histéricos na tentativa de fazê-lo.
Saímos do farol e vimos Millard com um torniquete e Bronwyn ao seu lado, e Millard gritou algo que eu não entendi direito, mas foi o suficiente para me assegurar de que estava vivo. Agarrei o ombro de Emma e disse:
— O barco! — E apontei para onde o barco a remo roubado tinha sido amarrado a uma rocha, mas ele estava longe demais, do lado errado do farol, e não havia tempo. Em vez disso, Emma me puxou na direção do mar aberto, e saímos correndo, mergulhando.
Mal sentia o frio. Tudo em que pensava era alcançar a gaiola antes que desaparecesse sob as águas. Rasgamos a água com braçadas, batendo as pernas, cuspindo e engasgando quando as ondas negras batiam no rosto. Era difícil dizer a que distância estava o sinal luminoso, apenas um pontinho de luz em um oceano agitado de escuridão. Ele balançava, subia, descia, ia e vinha, e duas vezes o perdemos de vista e tivemos de parar e olhar em volta freneticamente até localizá-lo outra vez.
A forte corrente arrastava a gaiola para o oceano e nos levava junto. Se não a alcançássemos logo, nossos músculos não iam aguentar e nos afogaríamos.
Guardei para mim esse pensamento mórbido o máximo que pude, mas, quando o sinal luminoso desapareceu pela terceira vez, e nós procuramos por ele durante tanto tempo que já não tínhamos certeza nem da área do mar negro e agitado em que ele desaparecera, berrei:
— Temos de voltar!
Emma não me deu atenção. Seguiu nadando à minha frente, cada vez mais para dentro do oceano. Agarrei seus pés, e ela me chutou para se livrar.
— Já era! Não vamos conseguir achá-las!
— Cale a boca, cale a boca! — gritou, e senti por sua respiração difícil que ela estava tão exausta quanto eu. — Só cale a boca e procure!
Eu a agarrei e gritei com ela, e ela me deu um chute. Quando não conseguiu se soltar, começou a balbuciar e a chorar, apenas uivos de desespero sem formar palavras completas.
Tentei arrastá-la de volta para o farol. Ela parecia uma pedra na água, puxando-me para o fundo.
— Você precisa nadar! — gritei. — Nade ou vamos nos afogar!
Então eu vi o mais leve tremeluzir de uma luz vermelha. Estava perto e logo abaixo da superfície. No início eu não disse nada, temendo ter imaginado aquilo, mas ela surgiu uma segunda vez.
Emma gritou de alegria. Parecia que a gaiola aterrissara sobre outro escombro de naufrágio, mas como ela poderia ter parado num lugar tão raso?
Mas, como a gaiola tinha acabado de afundar, disse a mim mesmo que era possível que as aves ainda estivessem vivas.
Nadamos em sua direção, preparando-nos para mergulhar atrás da gaiola, apesar de eu não saber de onde viria o fôlego, já que nos restava muito pouco ar, mas, estranhamente, a gaiola parecia subir em nossa direção.
— O que está acontecendo? — gritei. — É um naufrágio?
— Não pode ser. Aqui não tem nenhum!
— Então que diabos é aquilo?
Parecia uma baleia prestes a emergir, comprida, enorme e cinza, ou algum navio fantasma vindo do além em nossa direção. De repente, formou-se uma onda poderosa que se ergueu do fundo e nos empurrou para longe. Tentamos nadar em sentido contrário, mas não tivemos mais sucesso do que um destroço de naufrágio levado pela maré, e aquilo se chocou contra nossos pés e nos levantou, montados em suas costas.
Ele saiu da água, de baixo de nós, chiando e emitindo ruídos metálicos como um monstro mecânico gigante. Fomos pegos por uma repentina onda de espuma que corria em todas as direções e jogados sobre uma superfície de grades metálicas. Enganchamos os dedos nas grades para não ser varridos para o mar.
Esforcei-me para enxergar através dos borrifos salgados e vi que a gaiola estava parada entre o que pareciam ser duas barbatanas que se projetavam do dorso do monstro, uma pequena e a outra grande. E então a luz do farol passou por nós, e com seu brilho me dei conta de que não eram de jeito nenhum barbatanas, mas uma torre de comando e um canhão gigante fixo. Não estávamos montados em um monstro, ou em um navio, ou em uma baleia…
— É um submarino! — gritei. E não era coincidência que ele tivesse emergido bem debaixo de nossos pés. Era ele que Golan esperava encontrar.
Emma já estava de pé e correndo pelo convés em movimento na direção da gaiola. Lutei para ficar de pé e, quando comecei a correr, uma onda varreu o convés e nos derrubou de novo.
Então ouvi um grito, não de Emma, mas de outra pessoa. Quando levantei os olhos, vi um homem de uniforme cinza surgir de uma escotilha na torre de comando e apontar uma arma para nós.
Choveram balas, que acertaram o convés. A gaiola estava longe demais e seríamos cortados em pedaços antes mesmo de conseguir alcançá-la. Mas percebi que Emma ia tentar de qualquer jeito.
Eu corri e a derrubei, e nós dois caímos na água pela lateral do submarino.
O mar negro fechou-se sobre nós, e eu, mesmo embaixo d’água, pude ver balas passando pela gente, deixando uma trilha de bolhas.
Quando voltamos à superfície novamente, ela me agarrou e gritou:
— Por que fez aquilo? Eu quase consegui!
— Ele estava prestes a matar você! — disse, lutando para me afastar. E então me ocorreu que ela não o havia visto, que estivera concentrada na gaiola.
Apontei para o convés, por onde o atirador caminhava.
Ele pegou a gaiola e a sacudiu. A porta dela parecia aberta, e pensei ter visto um movimento lá dentro, alguma razão para ter esperança. Então a luz do farol iluminou tudo e vi por inteiro o rosto do homem, que tinha a boca retorcida em um sorriso atravessado, os olhos opacos e vazios. Ele era um acólito.
O acólito enfiou a mão na gaiola, puxou uma única ave encharcada e jogou o objeto de grades fora. Da torre de comando, outro soldado fez um sinal para o acólito, que voltou para a escotilha com a ave que se debatia.
O submarino começou a chiar e a fazer ruídos metálicos. A água ao nosso redor borbulhou como se fervesse.
— Nade, ou ele vai nos sugar para o fundo com ele! — gritei para Emma.
Mas ela não ouviu. Seus olhos estavam fixos em outro lugar, numa faixa de água escura perto da popa do submarino.
Ela nadou em sua direção. Tentei detê-la, mas ela conseguiu se soltar de mim, e então, acima do barulho do submarino, ouvi um pio alto e agudo: a srta. Peregrine.
Nós a encontramos boiando nas ondas, lutando para manter a cabeça fora d’água, uma asa batendo, a outra aparentemente quebrada. Emma a puxou.
Gritei que tínhamos de ir.
Nadamos para longe com o restinho de forças que ainda tínhamos. Atrás de nós, abria-se um rodamoinho, toda a água deslocada pelo submarino correndo de volta para preencher o vazio deixado enquanto ele afundava. O mar estava se consumindo e tentando nos consumir também, mas agora tínhamos um símbolo de vitória alado e piante, o que era pelo menos meia vitória, e ela nos deu forças para lutar contra a corrente artificial até que ouvimos Bronwyn chamar por nós.
Nossa forte amiga veio correndo através das ondas para nos puxar de volta rumo à segurança.

* * *

Ficamos deitados nas rochas sob o céu que começava a clarear, recuperando o fôlego e tentando superar a exaustão. Millard e Bronwyn tinham perguntas. Não tínhamos, porém, fôlego para respondê-las. Mas eles haviam visto o corpo de Golan cair e o submarino emergir e afundar, e a srta. Peregrine sair da água, mas não a srta. Avocet; entenderam o que era preciso. Eles nos abraçaram até pararmos de tremer, e Bronwyn também colocou a diretora embaixo de sua camisa, para aquecê-la contra a barriga. Quando tínhamos nos recuperado um pouco, entramos no barco a remo de Emma e fomos para a praia.
Quando chegamos lá, todas as crianças entraram na água para nos receber.
— Nós ouvimos tiros!
— O que era aquele barco estranho?
— Onde está a senhorita Peregrine?
Descemos do barco e Bronwyn levantou a camisa para revelar a Ave escondida ali. Todas as crianças se aglomeraram em volta dela, e a srta. Peregrine levantou o bico e piou para elas, para mostrar que estava cansada mas bem. Todos comemoraram aos gritos.
— Vocês conseguiram! — berrou Hugh.
Olive fez uma dancinha e cantarolou:
— A Ave, a Ave, a Ave! Emma e Jacob salvaram a Ave!
Mas a celebração foi curta. A ausência da srta. Avocet foi logo percebida, assim como a condição alarmante de Millard. Seu torniquete estava apertado, mas ele perdera muito sangue e estava fraco. Enoch lhe deu seu casaco, Fiona, seu chapéu de lã.
— Vamos levar você para ver o médico na cidade — disse Emma a ele.
— Bobagem — retrucou Millard. — O homem nunca botou os olhos num garoto invisível e não saberia o que fazer se visse um. Ou ia esterilizar o membro errado ou sairia correndo aos gritos.
— Não importa que ele saia correndo aos gritos — disse ela. — Depois que a fenda de tempo for reiniciada, ele não vai se lembrar de nada.
— Olhem ao redor de vocês. A fenda devia ter sido reiniciada há uma hora.
Millard tinha razão. O céu estava calmo, a batalha havia terminado, mas colunas de fumaça de bombas subiam e se misturavam com as nuvens.
— Isso não é nada bom — Enoch disse, e todos ficaram em silêncio.
— De qualquer forma — prosseguiu Millard —, todo o material de que preciso está em casa. Apenas me deem um pouco de láudano e limpem a ferida com álcool. Só acertou a carne do meu braço. Em três dias estarei bem de novo.
— Mas ele ainda está sangrando — disse Bronwyn, apontando gotas vermelhas que pontilhavam a areia embaixo de Millard.
— Então aperte mais esse maldito torniquete!
Foi o que ela fez, e Millard engasgou de um jeito que fez todo mundo se encolher de medo, depois desmaiou nos braços dela.
— Ele está bem? — perguntou Claire.
— Só desmaiou, mais nada — disse Enoch. — Ele não está tão bem quanto quer parecer.
— O que devemos fazer?
— Pergunte à senhorita Peregrine! — disse Olive.
— Isso. Ponham-na no chão para que ela possa se transformar — disse Enoch. — Ela não pode dizer para a gente o que fazer enquanto é uma ave.
Então Bronwyn a colocou numa faixa seca de areia e nós nos afastamos e esperamos. A srta. Peregrine pulou para cima e para baixo algumas vezes e bateu a asa boa, depois girou a cabeça emplumada e piscou para nós. Mas foi tudo. Ela continuou uma ave.
— Talvez ela queira um pouco de privacidade — sugeriu Emma. — Vamos todos virar de costas.
Foi o que fizemos, formando um círculo ao redor dela com todos olhando para o outro lado.
— Agora está em segurança senhorita Peregrine. — disse Olive. — Ninguém está olhando!
Depois de um minuto, Hugh deu uma espiadela e disse:
— Nada, ainda é uma ave.
— Talvez ela esteja cansada e com frio demais — sugeriu Claire, e, como a maioria concordou que isso parecia plausível, o grupo decidiu voltar para casa, cuidar de Millard com os remédios que tivessem e torcer para que, com algum tempo de repouso, a diretora e sua fenda de tempo voltassem ao normal.

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