15 de abril de 2017

Capítulo cinco

O ar lá fora era uma sopa amarelada de aspecto tóxico, tão intenso que eu não conseguia dizer a posição do sol no céu, só sabia que devia estar caminhando para o fim da tarde, a luz lentamente se esvaindo. Andávamos alguns passos atrás de Sharon, nos esforçando para acompanhar sempre que ele avistava algum conhecido na rua e acelerava para evitar conversar. As pessoas pareciam conhecê-lo; ele tinha uma reputação, e acho que estava com medo de a arruinarmos.
Seguimos pela estranhamente alegre Rua do Lodo, com suas flores em jardineiras nas janelas e casas pintadas com cores vivas, e entramos na Rua do Caramujo, onde o calçamento dava lugar a lama, e as casas, a cortiços decrépitos. No fim de um beco sem saída miserável, alguns homens estavam reunidos, todos de chapéu puxado tão para baixo que a aba quase chegava aos olhos. Eles pareciam estar de guarda na porta de uma casa com as janelas em blecaute. Sharon nos disse para ficar ali, e esperamos enquanto ele foi conversar com eles.
O ar cheirava levemente a gasolina. Ao longe, vozes altas e risos irrompiam e silenciavam, irrompiam e silenciavam. Era o som de homens em um bar de esportes assistindo a um jogo, só que não podia ser isso; esse era um som estritamente moderno, e não havia televisões ali.
Um homem com a calça respingada de lama saiu da casa. Quando a porta se abriu, as vozes ficaram mais altas e em seguida se calaram quando a porta bateu. Ele atravessou a rua carregando um balde. Nós nos viramos, observando enquanto ele caminhava na direção de algo que eu não havia notado: dois filhotes de urso acorrentados a um poste serrado na beira da rua. Era muito triste olhar para eles. Tinham pouco mais de um metro de folga em suas correntes e estavam sentados no chão enlameado observando o homem se aproximar, as orelhas peludas achatadas para trás, aparentando algo como medo. O homem derramou alguns restos pútridos diante deles e saiu sem dizer uma palavra. Toda a cena me deixou extremamente deprimido.


— São urxinins em treinamento — disse Sharon, e nos viramos e o vimos parado. — Esportes sangrentos são um grande negócio por aqui, e lutar contra um urxinim é considerado o maior desafio. Lutadores iniciantes precisam dar um jeito de treinar, então começam enfrentando filhotes.
— Isso é horrível — falei.
— Os urxinins, porém, têm o dia de folga, graças à nossa criatura. — Sharon apontou para a casinha. — Ele está ali dentro, nos fundos. Mas, antes de entrarmos, devo avisar: este é um antro de ambrosia, e vai haver peculiares aí que estão completamente fora de si. Não falem com eles, e, o que quer que vocês façam, não olhem nos olhos deles. Conheço pessoas que ficaram cegas assim.
— Como assim, ficaram cegas? — falei.
— Exatamente isso. Agora me sigam e não façam mais nenhuma pergunta. Escravos não questionam seus donos.
Vi Emma cerrar os dentes. Seguimos Sharon quando ele se dirigiu aos homens reunidos junto da porta da casa.
Sharon falou com os homens. Eu me esforcei para tentar escutar enquanto mantinha uma distância razoável para um escravo e desviava os olhos. Um deles disse a Sharon que havia uma “taxa de entrada”, e ele sacou uma moeda da capa e pagou. Outro perguntou sobre nós.
— Ainda não dei nome — disse Sharon. — Comprei ontem. Ainda estão muito verdes, não ouso tirar os olhos de cima deles.
— É isso mesmo? — perguntou o homem ao se aproximar de nós. — Não têm nomes?
Sacudi a cabeça, fazendo-me de mudo como Emma. O homem nos olhou de cima a baixo. Eu queria sair da minha pele.
— Eu já não o vi em algum lugar? — indagou, inclinando-se para mais perto.
Eu não respondi nada.
— Talvez na vitrine do Lorraine’s — sugeriu Sharon.
— Não — disse o homem, e acenou com a mão. — Ah, tenho certeza de que vou me lembrar.
Arrisquei olhar diretamente para ele só depois que ele tinha virado para outro lado. Se fosse um pirata do Valão, não era um daqueles com os quais nós tivéramos problemas. Ele tinha uma atadura sobre o queixo e outra na testa. Vários outros homens tinham curativos semelhantes, e um usava tapa-olho. Eu me perguntei se eles haviam se ferido lutando contra urxinins.
O homem do tapa-olho abriu a porta para nós.
— Divirtam-se — disse ele. — Mas eu não os mandaria para a jaula hoje, a menos que esteja pronto para varrê-los do chão.
— Só viemos assistir e aprender — disse Sharon.
— Homem esperto.
Acenaram para que entrássemos, e fomos depressa bem atrás de Sharon, ansiosos para escapar dos olhares à espreita na porta. Sharon, com seus mais de dois metros, teve que se curvar para passar pela porta, e ficou curvado o tempo todo em que estávamos lá dentro, de tão baixo que era o teto. O aposento em que entramos era escuro e fedia a fumaça, e até que meus olhos se ajustassem eu só conseguia ver pontos esparsos de uma ofuscante luz laranja. Lentamente, o lugar tornou-se visível, iluminado por candeeiros a óleo de pavio tão curto que emitiam pouco mais de luz que fósforos. Era longo e estreito, com camas beliche embutidas nas paredes como nas entranhas sem luz de um navio oceânico.
Eu tropecei em algo e quase perdi o equilíbrio.
— Por que está tão escuro aqui? — murmurei, já quebrando minha promessa de não fazer perguntas.
— Os olhos ficam sensíveis quando passam os efeitos da ambrosia — explicou Sharon. — Até uma luz fraca do dia é quase insuportável.
Foi quando percebi as pessoas nas camas, algumas deitadas dormindo, outras sentadas em ninhos de lençóis amarfanhados. Elas nos observavam, fumando indiferentemente e falando em murmúrios. Algumas falavam sozinhas, desfiando monólogos incompreensíveis. Várias tinham o rosto enfaixado, como os homens na porta, ou usavam máscara. Quis perguntar sobre as máscaras, mas queria ainda mais pegar aquele etéreo e ir embora dali.
Abrimos uma cortina de contas penduradas e entramos em uma sala um pouco mais iluminada e consideravelmente mais cheia que a primeira. Havia um homem corpulento de pé em uma cadeira junto à parede oposta, indicando as pessoas para uma de duas portas.
— Lutadores à esquerda, espectadores à direita! — gritava. — Façam suas apostas no salão!
Ouvi gritos a algumas salas de distância, e no momento seguinte a multidão se abriu para permitir a passagem de três homens, dois dos quais arrastando o terceiro, que estava inconsciente e sangrando. Eles foram seguidos por assovios e vaias.
— É assim que são os perdedores! — berrou o homem na cadeira. — E assim — disse ele, apontando para uma sala lateral — é que são os covardes.


Espiei no interior, onde havia dois homens sob guarda em estado lastimável para que todos vissem. Estavam cobertos de alcatrão e penas.
— Que eles sejam uma lembrança — disse o homem. — Todos os lutadores devem passar dois minutos na jaula, no mínimo!
— E o que é você? — perguntou Sharon a mim. — Um lutador ou um espectador?
Senti um aperto no peito enquanto tentava imaginar o que estava prestes a acontecer: eu não ia apenas domar aquele etéreo, mas fazê-lo diante de uma plateia violenta e potencialmente hostil, e em seguida tentar sair. Eu me vi torcendo para que ele não estivesse ferido demais, porque tinha a sensação de que iria precisar de sua força para abrir uma saída para nós. Aqueles peculiares não iam abrir mão de seu brinquedo novo sem uma briga.
— Lutador — falei. — Para controlar ele de verdade, vou ter que chegar perto.
Emma me encarou e sorriu. Você consegue, disse seu sorriso, e eu soube, naquele momento, que conseguiria. Entrei pela porta dos lutadores com confiança renovada, seguido por Sharon e Emma.
A confiança durou aproximadamente quatro segundos, que foi o tempo que levou para eu entrar na sala e perceber o sangue empoçado e espalhado por todo o chão e as paredes. Chegava a formar um rio que conduzia a um corredor iluminado e saía por uma porta aberta, através da qual eu via outra multidão e, logo depois, as barras de uma grande jaula.
Gritos estridentes vieram de fora. O combatente seguinte estava sendo chamado.
Um homem emergiu da penumbra de uma sala à nossa esquerda. Estava com o peito nu e usava uma máscara branca simples. Ele parou no fim do corredor por um instante, como se reunisse coragem. Então jogou a cabeça para trás e ergueu um pequeno frasco de vidro.
— Não olhem — disse Sharon, nos empurrando contra uma parede.
Mas eu não consegui me controlar.
Lentamente, o homem derramou líquido negro do frasco em cada um dos buracos dos olhos da máscara. Em seguida, jogou fora o frasco vazio, baixou a cabeça e começou a gemer. Por alguns segundos, ele pareceu paralisado, mas aí seu corpo estremeceu, e dois cones de luz branca se projetaram dos buracos dos olhos da máscara. Mesmo na sala iluminada eles eram nítidos.


Emma levou um susto. O homem, que achava estar sozinho, se virou em nossa direção, surpreso. Os feixes de luz de seus olhos passaram sobre nossa cabeça, e a parede acima de nós ficou chamuscada.
— Só de passagem! — explicou Sharon, com um tom que conseguia dizer ao mesmo tempo Olá, amigo! e Por favor, não nos mate com essas coisas.
— Passem, então — resmungou o homem.
A essa altura, os feixes de luz estavam começando a diminuir em seus olhos e, no momento em que ele se virou, tremeluziram e apagaram. O homem desceu o corredor e saiu, deixando duas pequenas nuvens de fumaça se revolvendo em seu rastro. Depois que ele se foi, arrisquei olhar para o papel de parede acima de nossas cabeças. Duas marcas de queimado amarronzadas marcavam a trilha feita na parede pela luz. Graças a Deus ele não tinha me olhado nos olhos.
— Antes de darmos sequer mais um passo — falei para Sharon —, acho melhor você explicar essa coisa.
— Ambrosia — disse Sharon. — Os lutadores tomam para aumentar suas habilidades. O problema é que não dura muito, e quando termina, você fica mais fraco que antes. Se você faz dela um hábito, sua habilidade se reduz a quase nada, até que você toma mais ambrosia. Em pouco tempo você está tomando não só para lutar, mas para usar seus poderes peculiares. Você se torna dependente do fornecedor. — Ele apontou com a cabeça para a sala à nossa direita, onde murmúrios criavam um contraponto estranho aos grupos barulhentos do lado de fora. — Foi o maior truque já armado pelos acólitos, fazer essa coisa. Ninguém aqui vai traí-los, não enquanto estiverem viciados em ambrosia.
Espiei no interior da sala para ver qual a aparência de um traficante de drogas peculiar e captei um vislumbre de uma pessoa com uma máscara barbada bizarra flanqueada por dois homens com armas nas mãos.
— O que aconteceu com os olhos daquele homem? — perguntou Emma.
— Os feixes de luz são um dos efeitos colaterais — disse Sharon. — Outro é que, dentro de alguns anos, a ambro derrete seu rosto. É assim que você conhece os usuários pesados: eles usam máscaras para esconder o dano.
Enquanto eu e Emma trocávamos um olhar de repulsa, uma voz no interior da sala nos chamou.
— Olá, vocês — disse o traficante. — Entrem aqui, por favor.
— Desculpe — falei. — precisamos ir...
Sharon cutucou meu ombro e chiou.
— Você é um escravo, lembra?
— Ah, sim, senhor — falei, e fui até a porta.
O homem mascarado estava sentado em uma cadeirinha em uma sala com afrescos pintados nas paredes. Ele se mantinha em uma imobilidade incômoda, um braço descansando sobre uma mesa lateral e as pernas cruzadas. Seus pistoleiros ocupavam dois cantos da sala, e em outro havia um baú de madeira sobre rodas.
— Não tenha medo — disse o traficante, gesticulando para que eu entrasse. — Seus amigos podem vir, também.
Avancei dois passos na sala, com Sharon e Emma logo atrás de mim.
— Nunca vi você por aqui antes — disse o traficante.
— Acabei de comprar — disse Sharon. — Ele não tem nem um...
— Eu estava falando com você? — respondeu o traficante, bruscamente, e Sharon ficou quieto. — Não, eu não estava.
O traficante esfregou a barba falsa e pareceu me analisar através dos olhos vazados da máscara. Eu me perguntei como seria sua aparência por baixo, e quanto de ambrosia seria preciso derramar no rosto para derretê-lo. Então senti um calafrio e desejei não ter imaginado.
— Você está aqui para lutar — disse ele.
Confirmei.
— Bem, você está com sorte. Acabei de receber um lote de ambro de primeira qualidade, então suas chances de sobreviver aumentaram incrivelmente!
— Não preciso de nada, obrigado.
Ele olhou para seus pistoleiros à procura de alguma reação, mas eles permaneceram com uma expressão pétrea, e riu.
— Isso aí fora é um etéreo, sabia? Já ouviu falar neles?
Eles eram tudo em que eu conseguia pensar, especialmente naquele ali fora.
Eu estava desesperado para seguir meu caminho, mas aquele cara assustador nitidamente controlava o lugar, e irritá-lo seria um problema a mais.
— Já ouvi falar neles — respondi.
— E como acha que vai se sair contra um?
— Acho que vou me sair bem.
— Apenas bem? — O homem cruzou os braços. — O que quero saber é: devo apostar dinheiro em você? Você vai ganhar?
Eu lhe disse o que ele queria ouvir.
— Sim.


— Bom, nesse caso, você vai precisar de ajuda.
Ele ficou de pé, foi até o armário de remédios e abriu as portas. O interior cintilou com frascos de vidro, fileiras deles, todos cheios até a borda com um líquido escuro, com rolhas pequeninas tampando os gargalos. O sujeito destampou um deles e o levou até mim.
— Tome — disse ele, estendendo o frasco. — Isso amplia seus melhores atributos em dez vezes.
— Não, obrigado — falei. — Eu não preciso.
— É o que todos dizem no início. Depois que apanham, e se sobrevivem para isso, todos tomam.
Ele girou o frasco em sua mão e o ergueu contra a luz fraca. A ambrosia no interior se agitou com partículas brilhantes e prateadas. Eu olhei fixamente, mesmo a contragosto.
— De que é feita? — perguntei.
Ele riu.
— Teia de aranha e asa de morcego. — Ele o estendeu outra vez em minha direção. — Sem custo.
— Ele disse que não quer — disse Sharon bruscamente.
Achei que o traficante fosse agredi-lo, mas em vez disso inclinou a cabeça na direção de Sharon e disse:
— Eu não conheço você?
— Acho que não — respondeu Sharon.
— Claro que sim — disse o traficante, balançando a cabeça afirmativamente. — Você era um dos meus melhores clientes. O que aconteceu?
— Larguei o vício.
O traficante se aproximou.
— Parece que você esperou demais — disse ele, e puxou de maneira provocadora o capuz de Sharon.
Sharon segurou a mão do traficante. Os guardas ergueram as armas.
— Cuidado — disse o traficante.
Sharon o segurou por mais um instante e o soltou.
— Agora — disse o traficante, virando-se em minha direção. — Você não vai recusar uma amostra grátis, vai?
Eu não tinha a menor intenção de tirar a rolha daquilo, mas parecia que a melhor maneira de acabar com a situação era aceitar. Então foi o que fiz.
— Bom rapaz — disse o traficante, e nos enxotou da sala.
— Você era viciado? — sussurrou Emma para Sharon. — Por que não nos contou?
— Que diferença teria feito? — disse Sharon. — Sim, eu tive alguns anos ruins. Aí Bentham me acolheu e fez com que eu me livrasse da droga.
Eu me virei para olhá-lo, tentando imaginar.
— Bentham fez isso?
— Como eu disse, devo minha vida ao homem.
Emma pegou o vidro e o ergueu. Sob a luz mais forte, as partículas prateadas no interior do líquido negro brilhavam como pequenos flocos de sol. Era hipnotizante, e não consegui deixar de imaginar, apesar dos efeitos colaterais, como algumas gotas poderiam ampliar minhas habilidades.
— Ele não falou o que tem aí dentro — disse Emma.
— Nós — disse Sharon. — Pequenos pedaços de nossas almas roubadas, esmagadas e servidas pelos acólitos. Uma parte de todo peculiar que eles sequestram acaba em um vidro como esse.
Emma empurrou o frasco para longe, horrorizada. Sharon o pegou e guardou em sua capa.
— Nunca se sabe quando um desses pode ser útil — disse ele.
— Não posso acreditar que você tomou esse negócio, ainda mais sabendo do que é feito.
— Eu nunca disse que tinha orgulho de mim.
Todo o esquema diabólico era perfeito em sua maldade. Os acólitos tinham transformado os peculiares do Recanto do Demônio em canibais, famintos pelas próprias almas. Viciá-los em ambrosia garantia o controle sobre a população. Se não libertássemos logo nossos amigos, as almas deles seriam as próximas a encher aqueles vidros.
Ouvi o rugido do etéreo, soando como um grito de vitória, e o homem que víramos tomar ambrosia um minuto antes foi arrastado pela porta e passou por nós no corredor, sangrando e inconsciente.
Minha vez, pensei, e uma onda de adrenalina me fez estremecer.

* * *

Nos fundos do antro de ambrosia havia um pátio murado cuja peça central era uma jaula isolada de cerca de quatro metros quadrados, as barras grossas facilmente capazes de conter um etéreo, ao que parecia. Uma linha fora pintada na terra a uma distância da jaula que correspondia aproximadamente ao alcance das línguas do etéreo, e o público, composto de cerca de quarenta peculiares de aparência grosseira, tinha sabiamente se posicionado atrás dela.
Havia jaulas menores em torno dos muros do pátio, no interior das quais um tigre, um lobo e o que parecia um urxinim adulto (animais de menor interesse, ao menos em comparação com um etéreo) eram mantidos para lutar outro dia.
A atração principal podia ser vista andando de um lado para outro no interior da jaula grande, acorrentada a uma estaca pesada de ferro por uma corrente em torno do pescoço. Seu estado era tão lastimável que fiquei tentado a sentir pena dele. O etéreo havia sido pintado com tinta branca e estava manchado de lama em algumas partes, o que o deixava visível para todos, mas também com um aspecto um pouco ridículo, como um dálmata ou um mímico. Mancava muito e deixava trilhas de sangue negro, e suas línguas musculosas, que normalmente estariam chicoteando o ar antes de uma luta, arrastavam-se inertes atrás dele. Ferido e humilhado, ele estava longe da visão assustadora à qual eu havia me acostumado, mas o público, que nunca vira um etéreo, parecia impressionado. O que fazia sentido: mesmo naquele estado muito prejudicado, a criatura conseguira nocautear vários lutadores em sequência. Ele ainda era muito perigoso e muito imprevisível. E era por isso, imaginei, que havia homens com armas a postos em volta do pátio. Era melhor prevenir do que remediar.
Eu me aproximei de Sharon e Emma para planejar a estratégia. O problema, concordamos, não era me colocar na jaula com o etéreo. Não era nem controlá-lo, pois estávamos trabalhando com a suposição de que eu conseguiria fazer isso. O problema seria tirar o etéreo dali, levá-lo para longe daquelas pessoas.
— Você acha que consegue derreter aquela corrente que tem no pescoço dele? — perguntei a Emma.
— Se eu tivesse dois dias para fazer isso — disse ela. — Acho que não dá para explicar para todo mundo que precisamos muito do etéreo e que vamos devolvê-lo depois de terminar, né?
— Você não ia conseguir nem falar a frase inteira — disse Sharon, olhando para o público turbulento. — Isso é mais diversão do que esses meliantes tiveram em anos. Sem chance.
— Próximo lutador! — gritou uma mulher que observava de uma janela no segundo andar.
Longe da plateia, um pequeno grupo de homens discutia sobre qual deles iria lutar em seguida. Já havia bastante sangue encharcando o chão no interior da jaula, e nenhum parecia com pressa para contribuir com mais. Estavam tirando a sorte no palitinho, e um homem corpulento com o peito nu tinha acabado de pegar o mais curto.
— Sem máscara — disse Sharon, notando o bigode farto do homem e seu rosto relativamente sem cicatrizes. — Deve ser iniciante.
O homem reuniu coragem e se exibiu para o público. Com uma voz alta com sotaque espanhol, disse a eles que nunca havia sido derrotado em uma luta, que ia matar o etéreo e guardar sua cabeça como troféu e que sua habilidade peculiar de cura ultrarrápida tornaria impossível para o etéreo lhe infligir um ferimento mortal.


— Estão vendo essas marcas de beleza? — disse ele, virando-se para exibir uma coleção de cicatrizes feias em forma de garras nas costas. — Foram feitas por um urxinim na semana passada. Tinham três centímetros de profundidade — afirmou ele. — E se curaram no mesmo dia! — Ele apontou para o etéreo na jaula. — Essa coisa velha e enrugada não tem a menor chance!
— Agora o etéreo sem dúvida vai matá-lo — disse Emma.
O homem derramou um frasco de ambrosia nos olhos. Seu corpo se enrijeceu, e feixes de luz se projetaram de suas pupilas, deixando marcas de queimadura no chão que pareciam cataratas. Um instante depois, eles se apagaram. Depois de se fortificar assim, ele caminhou com confiança na direção da porta da jaula, onde um homem com um chaveiro grande o recebeu para destrancá-la.
— Fiquem de olho no cara com as chaves — falei. — Podemos precisar delas.
Sharon enfiou a mão no bolso e puxou pelo rabo um rato que se debatia.
— Ouviu isso, Xavier? — disse ele ao rato. — Vá pegar as chaves.
Ele o largou no chão, e o roedor saiu correndo.
O lutador prepotente entrou na jaula e começou a encarar o etéreo. Ele retirara uma faca pequena do cinto e assumira uma postura com os joelhos flexionados, mas, além disso, mostrava pouco apetite por uma luta. Parecia estar usando a lábia para deixar o tempo transcorrer, fazendo um discurso com toda a arrogância e fanfarronice de um lutador profissional.
— Venha me pegar, seu animal! Não estou com medo! Vou cortar suas línguas e fazer um cinto para segurar minhas calças! Vou palitar os dentes com suas unhas e botar sua cabeça na minha parede!
Entediado, o etéreo o observava.
O lutador fez seu show: passou a faca pelo próprio antebraço e, quando o sangue começou a brotar, ergueu o ferimento, que cicatrizou antes que uma única gota atingisse o chão.
— Sou invencível! — gritou. — Não tenho medo!
De repente, o etéreo rugiu e fingiu avançar na direção do homem, o assustando a tal ponto que ele deixou cair a faca e protegeu o rosto com os braços. Parecia que o etéreo tinha se cansado dele.
O público caiu em uma gargalhada desenfreada (e nós também), e o homem, de rosto vermelho de vergonha, se abaixou para pegar a faca. Agora o etéreo estava se movendo em sua direção, as correntes tilintando, as línguas estendidas, mas com as pontas cerradas feito um punho.
Só então o homem se deu conta de que teria que enfrentar o monstro se quisesse resgatar sua dignidade, então deu alguns passos hesitantes à frente enquanto brandia a faca. O etéreo lançou uma de suas línguas pintadas na direção dele. O homem a golpeou com a faca, e acertou em cheio. Cortado, o etéreo guinchou e encolheu a língua e em seguida rosnou para o homem como um gato furioso.
— Isso vai lhe ensinar a não atacar Don Fernando! — gritou o homem.
— Esse cara não aprende nunca — falei. — Provocar etéreos é má ideia.
Ele parecia ter acuado o etéreo, que recuava enquanto o homem se aproximava, ainda gritando e brandindo a faca. Quando o etéreo não podia mais recuar, com as costas contra as barras da jaula, o homem ergueu a faca.
— Prepare-se para morrer, filho do demônio! — gritou ele, e atacou.
Por um instante, eu me perguntei se teria que intervir para salvar o etéreo, mas logo ficou claro que ele havia montado uma armadilha. Estendida frouxa pelo chão por trás do homem estava toda a corrente do etéreo, que a agarrou e puxou violentamente para um lado, mandando Don Fernando voando de cabeça contra uma estaca de metal. Bonc, e ele apagou, inerte no chão. Outro nocaute. Ele tinha sido um fanfarrão tão descarado que a multidão não conseguiu deixar de vibrar.
Uma equipe de homens com tochas e bastões com pontas eletrificadas entrou na jaula e manteve o etéreo longe enquanto o lutador, inconsciente, era arrastado para fora.
— Quem é o próximo? — gritou a árbitra.
Os lutadores restantes trocaram olhares de apreensão e voltaram a discutir. Ninguém queria entrar na jaula.
Exceto por mim.
O desempenho ridículo do homem e o truque do etéreo tinham me dado uma ideia. Não era um plano certeiro, nem mesmo um plano bom, mas era alguma coisa, e isso era melhor que nada. Nós (o etéreo e eu) íamos fingir sua morte.

* * *

Tomei coragem e, como costuma acontecer quando estou fazendo algo um pouco corajoso ou muito idiota, meu cérebro se desconectou do corpo. Eu parecia me observar de longe enquanto acenava um braço para a árbitra e gritava:
— Sou o próximo!
Se até aquele instante eu estava invisível, então todos, público e lutadores, se viraram para me encarar.
— Qual é seu plano? — sussurrou Emma para mim.
Eu tinha um, mas estivera tão concentrado em elaborá-lo que deixara de compartilhar com Emma e Sharon, e agora não tinha tempo para explicar a eles. O que, provavelmente, era melhor. Se eu falasse, temia que parecesse ridículo, ou ainda pior, impossível, e aí eu ia perder a coragem.
— Acho que é melhor se eu simplesmente mostrar a vocês — falei. — Mas com certeza não vai funcionar se não conseguirmos aquelas chaves.
— Não se preocupe, Xavier está encarregado do trabalho — disse Sharon.
Ouvimos um guincho, olhamos para baixo e vimos o rato em questão com um pedaço de queijo na boca. Sharon o pegou e o repreendeu.
— Eu falei chaves, não queijo!
— Eu pego as chaves — assegurou Emma. — Só me prometa que você vai voltar inteiro.
Prometi.
Ela me desejou sorte e me beijou na boca. Em seguida, olhei para Sharon, que inclinou a cabeça para mim como que para dizer Espero que você não esteja esperando um beijo meu também, e eu apenas ri e caminhei na direção dos lutadores.
Eles estavam me olhando de cima a baixo. Eu tinha certeza de que me achavam maluco, mas nenhum deles tentou me deter. Afinal de contas, se aquele garoto mal-preparado que nem ia tomar um vidro de ambrosia antes da luta queria se lançar contra a fera e cansá-la um pouco, era um presente que eles estavam dispostos a aceitar. E se morresse tentando, era só um escravo mesmo. Ao pensar nisso, surgiu em mim um ódio por eles, e aquilo me lembrou os pobres peculiares raptados cujas almas extraídas estavam flutuando nos frascos que todos eles seguravam, o que me deixou com ainda mais raiva. Fiz o possível para canalizar toda essa raiva em determinação e concentração inabaláveis, mas era uma distração, acima de tudo.
Mesmo assim, enquanto o homem com as chaves abria a jaula, olhei para dentro e vi, para minha surpresa e satisfação, que não estava sendo assolado por dúvidas, nem assombrado por visões de minha morte iminente, nem por ondas insistentes de terror. Eu já tinha me encontrado e exercido o controle sobre aquele etéreo duas vezes; aquela seria a terceira. Apesar da raiva, eu estava calmo e silencioso, e dentro desse silêncio descobri que as palavras de que precisava estavam à minha espera, prontas para serem ditas.
O homem abriu a porta, e eu entrei na jaula. Ele havia acabado de fechá-la quando o etéreo partiu em minha direção, sacudindo as correntes como um fantasma raivoso.
Linguarudo, não me desaponte agora.
Ergui a mão para esconder a boca e falei, em etéreo gutural: Pare.
O etéreo parou.
Sente-se, falei.
Ele se sentou.
Fui banhado por uma onda de alívio. Eu não tinha nada com que me preocupar; restabelecer a conexão foi fácil como pegar as rédeas de uma égua velha e dócil. Controlar o monstro era um pouco como lutar com alguém muito menor que eu: ele estava imobilizado e se debatendo, tentando se libertar, mas tão subjugado por minha força que representava pouco perigo. Mas aí a facilidade com que eu controlava o etéreo se transformou por si só em um novo tipo de problema. Não havia jeito simples de tirar o monstro da jaula a menos que todos acreditassem que ele estava morto e não fosse mais uma ameaça, e não havia como alguém acreditar que ele estava morto se minha vitória fosse fácil demais. Eu era um garoto magro sem o estímulo da ambrosia; eu não podia simplesmente lhe dar um tapa e fazer com que tombasse. Para que aquela luta fosse realmente convincente, eu precisava criar um espetáculo.
Como eu o “mataria”? Sem dúvida não com as mãos nuas. Procurando inspiração pela jaula, meus olhos se depararam com a faca do lutador anterior, que ele deixara cair perto da estaca de metal. O etéreo estava parado junto da estaca, o que era um problema, por isso peguei um punhado de cascalho, corri repentinamente em sua direção e joguei.
Canto, falei outra vez, cobrindo a boca. O etéreo se virou e correu para o canto, dando a impressão de que o punhado de pedras o havia assustado. Aí corri até a estaca, peguei a faca do chão e recuei, um gesto de bravura que me rendeu um assovio de alguém no público.
Raiva, falei, e o etéreo rugiu e agitou as línguas como se estivesse furioso com meu movimento ousado. Olhei para trás e vi Emma no meio do público, e reparei que ela se movia sorrateiramente na direção do homem com as chaves.
Bom.
Eu precisava tornar as coisas difíceis para mim. Avance sobre mim, ordenei, e assim que o etéreo deu alguns passos em minha direção eu o mandei lançar uma língua e me segurar pela perna.
Ele fez isso, a língua me acertando com uma pontada de dor e se enrolando duas vezes em minha canela. Aí fiz o etéreo me derrubar e me arrastar em sua direção pelo chão enquanto eu fingia tentar encontrar um lugar para me segurar.
Quando passei pela estaca de metal, joguei os braços em volta dele.
Para cima, falei. Sem força.
Apesar de minhas palavras não descreverem muito bem, o etéreo pareceu entender exatamente, como se apenas ao visualizar uma ação em minha cabeça e falar uma ou duas palavras em voz alta eu pudesse transmitir um parágrafo de informação. Então, quando o etéreo puxou para cima enquanto eu me agarrava à estaca, levantando meu corpo no ar, foi exatamente como eu havia imaginado.
Estou ficando bom nisso, pensei, com certa satisfação.
Eu me debati e gemi por alguns segundos no que eu esperava que se parecesse com dor de verdade, então soltei a estaca. O público, esperando que eu estivesse prestes a ser morto no que provavelmente era a luta mais curta até então, começou a caçoar e a me xingar.
Era minha hora de começar a atacar.
Perna, falei. O etéreo mais uma vez lançou uma língua em torno da minha perna.
Puxe.
Ele me puxou enquanto eu chutava e me debatia.
Boca.
Ele abriu a boca como se fosse me engolir inteiro. Virei rapidamente o corpo e cortei a língua em torno de meu tornozelo. Na verdade, não cortei o etéreo, mas disse a ele para soltar depressa e gritar para dar essa impressão. O etéreo obedeceu, berrando e em seguida recolhendo as línguas para dentro da boca.
Para mim, pareceu uma atuação ruim (houve um segundo de diferença entre minha ordem e a resposta), mas aparentemente o público acreditou. As vaias se transformaram em vivas para um confronto que estava ficando interessante, com um adversário fraco que talvez, no fim das contas, tivesse uma chance.
No que eu torci para que não parecesse uma cena de luta de filme barato, o etéreo e eu nos enfrentamos e trocamos alguns golpes. Eu o ataquei, e ele me derrubou. Golpeei com a faca, e ele recuou. Ele uivou e agitou as línguas no ar enquanto rondávamos um ao outro. Ainda o fiz me erguer com a língua e me sacudir (com delicadeza), até (fingi) esfaquear a língua e ele (provavelmente de maneira delicada demais) me derrubar novamente.
Arrisquei olhar outra vez para Emma, que estava parada no meio do grupo de lutadores, perto do homem com as chaves. Ela gesticulou para mim, riscando uma linha sobre a garganta.
Pare de brincar.
Certo. Hora de acabar com aquilo. Respirei fundo, tomei coragem e parti para o grand finale.
Corri na direção do etéreo com a faca erguida. Ele lançou uma língua em minhas pernas. Saltei por cima, e ele lançou outra em minha cabeça, da qual me abaixei.
Tudo como planejado.
O que deveria acontecer em seguida era que eu saltaria por cima de outra língua aos meus pés, depois fingiria esfaquear o etéreo no coração, mas, em vez disso, a língua me acertou direto no peito, com a força de um boxeador peso-pesado, jogando-me de costas e me deixando sem ar. Fiquei ali, atônito, incapaz de respirar enquanto o público vaiava.
Para trás, tentei dizer, mas não tinha ar nos meus pulmões.
De repente, ele estava em cima de mim, com as mandíbulas escancaradas e berrando de raiva. O etéreo tinha escapado do meu comando ainda que por um instante, e não estava contente. Eu precisava recuperar o controle, e rápido, mas suas línguas tinham prendido meus braços e uma perna, e seu arsenal de dentes reluzentes se fechava em meu rosto. Eu estava apenas recuperando o fôlego, inalando profundamente o fedor do etéreo, e, em vez de falar, engasguei.
Podia ter sido meu fim não fosse a anatomia estranha dos etéreos: felizmente, ele não podia fechar a boca em volta da minha cabeça com as línguas estendidas. Tinha que soltar meus membros antes de arrancar minha cabeça a mordidas, e, no momento em que senti sua língua soltar meu braço (o braço com a mão que ainda segurava a faca), fiz a única coisa em que pude pensar para me preservar: esfaqueei para cima.
A faca penetrou fundo na garganta do etéreo. Ele gritou e rolou para longe, com as línguas se agitando e tentando pegar a faca.
O público foi à loucura.
Eu finalmente consegui respirar direito e me sentei para ver o etéreo se debater no chão a alguns metros de distância, o sangue negro jorrando do pescoço ferido. Percebi, sem nem um pingo da satisfação que poderia ter sentido em outras circunstâncias, que eu provavelmente tinha acabado de matar a criatura. Realmente matado, o que não era nem de longe o plano. Pelo canto do olho, vi Sharon agitando as mãos abertas para mim, sinal universal de você acabou de estragar tudo.
Eu me levantei, determinado a salvar o que pudesse. Retomei o controle sobre o etéreo e disse a ele para relaxar. Que ele não sentia dor. Aos poucos, ele parou de lutar, e suas línguas caíram no chão. Em seguida, caminhei ate ele, arranquei a faca sangrenta de seu pescoço e a ergui para mostrar ao público.
Eles gritaram e aplaudiram, e eu fiz o possível para parecer triunfante quando, na verdade, me sentia um fracasso gigantesco. Eu estava com um medo mortal de ter acabado de estragar o resgate de nossos amigos.
O homem com as chaves abriu a porta da jaula, e dois outros correram até lá para conferir o etéreo.
Não se mexa, murmurei enquanto o examinavam, um deles apontando uma arma para a cabeça do etéreo enquanto o outro o cutucou com uma vara e, em seguida, posicionou a mão embaixo de suas narinas.
Não respire.
Ele não respirou. Na verdade, o etéreo se saiu tão bem em fingir estar morto que eu também teria me convencido não fosse pela conexão que ainda havia entre nós.
Os homens acreditaram. O examinador jogou a vara para longe, ergueu meu braço como uma luta de boxe e me declarou vencedor. A multidão vibrou outra vez, e vi dinheiro trocar de mãos, as pessoas que tinham apostado contra mim decepcionadas, resmungando enquanto pagavam em notas.
Logo espectadores estavam entrando na jaula para dar uma olhada melhor no etéreo supostamente morto, Emma e Sharon entre eles.
Emma me abraçou.
— Está tudo bem — disse ela. — Você não teve escolha.
— Ele não está morto — sussurrei. — Mas está ferido. Não sei quanto tempo ele tem. Precisamos sair daqui.
— Então foi bom eu ter conseguido isso — disse ela, botando um chaveiro em meu bolso.
— Rá! — falei. — Você é genial!
Mas, quando me virei para destrancar a corrente do etéreo, me vi bloqueado por um enxame de gente clamando para se aproximar dele. Todo mundo queria dar uma olhada na criatura, tocá-la, arrancar um tufo de seu pelo ou um torrão de terra ensopada de sangue como lembrança. Comecei a enfiar o braço entre elas, mas as pessoas não paravam de me deter para apertar minha mão e me dar tapinhas nas costas.
— Isso foi incrível!
— Tem sorte, garoto.
— Tem certeza de que não usou ambrosia?
Durante todo o tempo eu estava entoando baixinho para o etéreo ficar no chão e permanecer se fingindo de morto, porque eu podia senti-lo começar a ficar inquieto, como uma criança que tivesse permanecido sentada por tempo demais. Ele estava nervoso e ferido, e foi necessário até o último grama de minha concentração para impedir que se levantasse e enchesse as mandíbulas com toda a tentadora carne peculiar que o cercava.
Eu tinha finalmente alcançado a corrente do etéreo e estava procurando o cadeado quando o traficante de ambrosia me abordou, sua máscara barbada assustadora a poucos centímetros de meu rosto.
— Acha que não sei o que você está fazendo? — disse ele, acompanhado por seus dois guardas armados. — Você acha que sou cego?
— Não sei do que você está falando.
Por um preocupante segundo, achei que ele tivesse me descoberto e soubesse que o etéreo não estava realmente morto. Mas seus homens não estavam nem olhando para ele.
Ele me pegou pela gola do casaco.
— Ninguém me enrola! Este é o meu lugar!
As pessoas começaram a recuar. O cara com certeza tinha má reputação.
— Ninguém está enrolando ninguém — ouvi Sharon dizer às minhas costas. — Apenas se acalme.
— É impossível trapacear um trapaceiro — disse o traficante. — Você vem aqui dizendo que ele é carne fresca, nunca lutou nem com um filhote de urxinim antes, e aí isso? — Ele apontou para o etéreo caído. — Nem em um milhão de anos!
— Ele está morto! — falei. — Pode conferir, se quiser.
O traficante soltou meu casaco e pôs as mãos em volta do meu pescoço.
— EI! — ouvi Emma dizer.
Os guardas apontaram as armas para ela.
— Minha única pergunta — disse o traficante — é: o que você está vendendo?
Ele começou a apertar minha garganta.
— Vendendo? — falei com dificuldade.
Ele deu um suspiro, irritado por ser forçado a explicar.
— Você vem no meu lugar, mata meu etéreo e convence meus clientes de que não precisam comprar meu produto?
Ele achou que eu fosse um traficante de drogas rival, disposto a dominar seus negócios. Loucura.
E apertou com mais força.
— Solte o garoto — implorou Sharon.
— Se você não toma ambrosia, então o que é? O que você está vendendo?
Tentei responder, mas não conseguia. Eu olhei para as mãos dele, que entendeu minha dica e afrouxou um pouco a pressão.
— Fale — disse ele magnanimamente.
O que eu disse em seguida provavelmente soou como uma tosse seca.
O da esquerda, falei em língua de etéreo. Então o etéreo se sentou como o monstro de Frankenstein ganhando vida, e os poucos peculiares ainda por perto gritaram e correram. O traficante se virou para olhar e eu lhe dei um soco na máscara; os guardas não sabiam em quem atirar primeiro, em mim ou no etéreo.
Essa fração de segundo de indecisão foi sua ruína. No tempo que levou para eles virarem a cabeça, o etéreo tinha lançado todas as suas três línguas no guarda mais próximo. Uma o desarmou enquanto as duas restantes o seguraram pela cintura, o levantaram e o usaram para derrubar o outro.
Restamos apenas eu e o traficante. Ele pareceu entender que era eu quem controlava o etéreo, então caiu de joelhos e começou a implorar.
— Este lugar pode ser seu — falei para ele. — Mas aquele etéreo é meu.
Eu o fiz envolver o pescoço do traficante com a língua. Disse a ele que iríamos embora com o etéreo e que a única maneira de ele sobreviver seria nos deixar sair em paz.
— Sim, sim — concordou ele com voz trêmula. — Sim, é claro...
Destranquei o cadeado e desacorrentei o etéreo. Com a multidão observando, Emma, Sharon e eu conduzimos o etéreo claudicante na direção da porta aberta da jaula, com o traficante à nossa frente dizendo “Não atirem! Não atirem!” da melhor forma que podia com uma língua de etéreo enrolada no pescoço.
Trancamos a jaula às nossas costas com a maioria dos espectadores ainda dentro, em seguida saímos pelo antro de ambrosia, de volta pelo caminho por onde havíamos entrado, e chegamos à rua. Fiquei tentado a fazer um pit-stop para destruir o estoque de ambrosia do traficante, mas decidi que não valia o risco. Que se entupissem com aquilo. Além disso, talvez fosse melhor não desperdiçá-la, se houvesse uma mínima chance de aquelas almas roubadas um dia se reunirem com seus donos.
Deixamos o traficante de quatro na sarjeta, tentando respirar, sua máscara pendurada em uma orelha. Estávamos prestes a deixar para trás toda aquela cena repulsiva quando ouvi um pequeno rosnado e me lembrei dos filhotes de urxinim.
Olhei de volta para eles, em agonia. Eles estavam puxando com força as correntes, querendo vir conosco.
— Não podemos — disse Sharon, insistindo para que eu prosseguisse.
Eu podia tê-los deixado se não tivesse avistado Emma. Faça isso, articulou ela com os lábios sem emitir som.
— Vai levar apenas um segundo — falei.
No fim, foram necessários quinze segundos para fazer o etéreo arrancar a estaca onde os filhotes estavam acorrentados, e, àquela altura, uma gangue de viciados furiosos tinha se reunido diante do antro de ambrosia. Pareceu valer a pena, porém, quando partimos seguidos por aqueles filhotes, arrastando correntes e estaca, lentos e sobrecarregados, até que meu etéreo, em uma iniciativa própria, os tomou nos braços e os carregou.

* * *

Rapidamente ficou óbvio que tínhamos um problema. Havíamos caminhado apenas algumas quadras, mas as pessoas na rua já tinham percebido o etéreo.
Para todo mundo, menos eu, era apenas uma coleção semivisível de manchas de tinta, mas ainda assim atraía atenção. Como não queríamos que ninguém visse aonde estávamos indo, precisávamos encontrar um modo mais sutil de voltar para a casa de Bentham.
Nos esgueiramos por uma rua lateral. No momento em que parei de forçá-lo a andar, o etéreo caiu agachado, exausto. Ele parecia tão frágil ali no chão, sangrando, com o corpo todo encolhido, as línguas recolhidas na boca. Sentindo sua agonia, os filhotes que ele resgatara esfregaram nele o focinho molhado e agitado, e o etéreo reagiu com um rosnado baixo que pareceu quase carinhoso.
Não consegui evitar sentir uma pontada de afeto pelos três, quase irmãos distantes.
— Odeio dizer, mas isso é quase fofo — disse Emma.
Sharon escarneceu.
— Pode vestir ele de tutu rosa, se quiser. Ainda assim, é uma máquina de matar.
Nós discutimos maneiras de levá-lo até a casa de Bentham sem que morresse no caminho.
— Eu podia fechar essa ferida no pescoço dele — disse Emma, oferecendo a mão que apenas começava a brilhar.
— Parece arriscado demais — falei. — A dor poderia acabar com o meu controle.
— Talvez a curandeira de Bentham possa ajudar — disse Sharon. — Só precisamos chegar até ela rápido.
Minha primeira ideia foi ir correndo pelos telhados. Se o etéreo tivesse forças, ele poderia ter subido a parede de um prédio nos carregando e seguido para a casa de Bentham fora de vista. Mas naquele instante eu não tinha nem certeza se andar era uma opção. Em vez disso, sugeri que lavássemos a tinta branca do etéreo para que ninguém o visse, apenas eu.
— Não, de jeito nenhum, não senhor — disse Sharon, sacudindo a cabeça vigorosamente. — Eu não confio nessa coisa. Quero ficar de olho nele.
— Ele está sob controle — falei, levemente ofendido.
— Até agora.
— Concordo com Sharon — disse Emma. — Você está indo muito bem, mas o que acontece se você estiver em outra sala, ou pegar no sono?
— Por que eu sairia da sala?
— Para ir ao banheiro? — disse Sharon. — Você está planejando levar seu etéreo de estimação ao toalete?
— Hum — falei. — Acho que vou pensar nisso quando chegar a hora.
— A tinta fica — disse Sharon.
— Está bem — falei, irritado. — Então, o que fazemos?
Uma porta se abriu ruidosamente no beco e dela saiu uma nuvem de vapor. Um homem emergiu empurrando um carrinho com rodinhas, que estacionou no beco antes de tornar a entrar.
Corri para dar uma olhada. A porta pertencia a uma lavanderia, e o carrinho estava cheio de lençóis sujos. Caberia uma pessoa pequena, ou um etéreo encolhido.
Tenho que admitir: roubei o carrinho. Eu o empurrei de volta até os outros, o esvaziei e fiz com que o etéreo entrasse. Em seguida, empilhamos a roupa suja em cima, pusemos os filhotes de urxinim dentro e empurramos aquilo tudo pela rua.
Ninguém olhou para nós duas vezes.

Um comentário:

  1. Achei que o segundo livro não teve tanta emoção, mas esse, nossa! no quinto capítulo ja ta assim *.* um dos melhores que já li

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Boa leitura :)