10 de abril de 2017

Capítulo cinco

Nós nos agarramos à rede balançante como uma tribo de macacos, batendo desajeitadamente na parede de rocha enquanto a roldana guinchava e a corda rangia. Chegamos ao chão em uma pilha embolada, para então nos soltarmos uns dos outros no que poderia ser uma cena saída de Os Três Patetas. Várias vezes cheguei a pensar que estava livre, mas, quando tentava ficar de pé, caía de cara no chão de novo, em um baque que soava como um bonc! de desenho animado.
O etéreo morto estava a alguns metros de distância, os tentáculos estendidos como braços de estrelas-do-mar sob o enorme pedregulho que o esmagara. Eu quase sentia vergonha por ele: uma criatura tão feroz que tinha se deixado capturar por gente como nós. Não teríamos tanta sorte da vez seguinte — se é que haveria uma outra vez.
Na ponta dos pés, demos a volta na carcaça fedorenta do etéreo e descemos a montanha o mais depressa que conseguimos, considerando os limites da trilha traiçoeira e a carga explosiva de Bronwyn. Após alcançar o terreno plano, seguimos o rastro que havíamos deixado pelo musgo molhado e macio do solo da floresta. Quando retornamos ao lago, o sol estava se pondo, e morcegos emitiam silvos agudos ao sair das tocas ocultas. Pareciam trazer algum aviso do mundo noturno, gritando e voando em círculos acima de nós enquanto chapinhávamos pela água rasa em direção ao gigante de pedra. Subimos até a boca, mergulhamos na garganta e nadamos para fora, para as águas instantaneamente mais frias e a luz mais clara do meio-dia, para setembro de 1940.
Os outros emergiram ao meu redor, gemendo e com as mãos nos ouvidos. Todos sentiam o incômodo da pressão que acompanhava as mudanças temporais rápidas.
— É como a decolagem de um avião — comentei, movendo a mandíbula para liberar o ar.
— Nunca voei de avião — disse Horace, tirando água da aba do chapéu.
— Ou quando a gente está na via expressa e alguém abre a janela do carro — completei.
— O que é uma via expressa? — perguntou Olive.
— Deixa pra lá.
Emma nos fez ficar quietos:
— Escutem!
Ao longe, ouvimos o latido de cães. Pareciam vir de um ponto muito distante, mas, considerando que o som viaja de um jeito estranho pelas florestas mais densas, podíamos estar enganados.
— Vamos ter que correr — disse Emma. — Ninguém faz barulho até eu mandar, e isso inclui você, diretora!
— Vou jogar um ovo explosivo no primeiro cachorro que se aproximar — disse Hugh. — Assim eles vão aprender a não perseguir peculiares.
— Não ouse — retrucou Bronwyn. — Se você manusear um ovo do jeito errado, corre o risco de explodir todos eles!
Saímos do lago chapinhando e voltamos pela floresta, Millard nos orientando com base no mapa da srta. Wren. Depois de meia hora, chegamos à estrada de terra que Addison nos mostrara do alto da torre. Paramos nas marcas das rodas de uma velha carroça enquanto Millard estudava o mapa, virando-o de lado, examinando atentamente as marcações microscópicas. Enfiei a mão no bolso da calça e peguei o celular para acessar meu próprio mapa — um velho hábito —, então me vi segurando um retângulo de vidro preto que se recusava a acender.
Não funcionava, é claro. Estava molhado, sem bateria e a cinquenta anos da torre de sinal mais próxima. Meu celular era minha única posse que sobrevivera ao desastre no mar, mas era inútil naquele lugar, um objeto estranho. Eu o joguei no mato. Trinta segundos depois, senti uma pontada de arrependimento e corri para recuperá-lo. Por motivos que eu não compreendia inteiramente, não estava pronto para me livrar dele.
Millard dobrou o mapa e anunciou que a cidadezinha ficava à esquerda, a uma caminhada de pelo menos cinco ou seis horas.
— Se quisermos chegar antes de escurecer, é melhor irmos logo.
Não estávamos andando havia muito quando Bronwyn percebeu uma nuvem de poeira se erguendo muito atrás de nós na estrada.
— Tem alguém vindo — comentou ela. — O que vamos fazer?
Millard tirou o sobretudo e o jogou no mato ao lado da via, ficando invisível.
— Eu recomendo que vocês deem um jeito de desaparecer — respondeu. — Da forma limitada que conseguirem.
Saímos da estrada e nos agachamos atrás de alguns arbustos. A nuvem de poeira foi aumentando, e com ela veio um chacoalhar de rodas de madeira e o barulho de cascos de cavalos. Era uma caravana de carroças. Quando elas surgiram, sacudindo e fazendo barulho em meio à poeira, e começaram a passar por nós, vi que Horace ficou boquiaberto e Olive abriu um sorriso. Aquelas não eram as carroças cinza utilitárias que eu me acostumara a ver em Cairnholm; pareciam coisa de circo: pintadas de todas as cores do arco-íris, o teto e as portas com entalhes ornamentais, puxadas por cavalos de crina longa e conduzidas por homens e mulheres cheios de colares de contas e cachecóis extravagantes.
Lembrei-me das histórias de Emma sobre as apresentações em pequenos espetáculos ambulantes com a srta. Peregrine e os outros, então me virei para ela e perguntei:
— Eles são peculiares?
— São ciganos — foi a resposta dela.
— Isso é bom ou ruim?
Ela estreitou os olhos.
— Ainda não sei.
Dava para ver que ela estava tentando decidir o que fazer, e eu tinha quase certeza de que entendia seu dilema. A cidade aonde estávamos indo era longe, e aquelas carroças iam muito mais depressa do que conseguiríamos avançar a pé. Com acólitos e cães em nosso encalço, um pouco mais de velocidade podia significar a diferença entre sermos apanhados ou escaparmos. No entanto, não conhecíamos aqueles ciganos, tampouco sabíamos se eram confiáveis.
— O que você acha? Devemos pedir carona? — perguntou Emma, olhando para mim.
Observei as carroças. Depois, olhei de volta para Emma. Pensei em como meus pés estariam doendo depois de seis horas caminhando com sapatos ainda molhados.
— Com certeza — respondi.
Emma sinalizou para os outros, apontou para a última carroça e gesticulou como se corresse atrás dela. O veículo tinha a forma de uma casa em miniatura, com uma janelinha de cada lado e uma plataforma que se projetava da parte traseira como uma varanda, provavelmente com largura e profundidade suficientes para cabermos se nos apertássemos. Avançava depressa, mas não tão depressa quanto avançaríamos se saíssemos correndo atrás dela. Quando ela passou e saímos do campo de visão do último cocheiro, deixamos as moitas e corremos. Emma subiu primeiro, depois esticou a mão para o próximo. Um a um, nos içamos para a varandinha e nos apertamos na traseira da carroça, tomando o cuidado de não fazer barulho para não sermos ouvidos pelo cocheiro.
Seguimos assim por um bom tempo, até os ouvidos começarem a zumbir com o chacoalhar das rodas e as roupas ficarem cobertas de poeira, até o sol do meio-dia cruzar o céu e cair por trás das árvores que se erguiam dos dois lados como paredes de um enorme desfiladeiro verde. Eu passava o tempo todo atento à floresta, com medo de que a qualquer momento os acólitos e seus cães aparecessem para nos atacar. Mas não vimos ninguém por horas — nem acólitos, nem outros viajantes. Era como se tivéssemos chegado a um país abandonado.
De vez em quando a caravana parava. Nesses momentos, prendíamos a respiração, prontos para correr ou lutar, certos de que estavam prestes a nos descobrir. Mandávamos Millard investigar, e ele descia da carroça e descobria que os ciganos estavam apenas esticando as pernas ou trocando a ferradura de um cavalo, e então seguíamos caminho. Às vezes eu deixava de me preocupar com o que aconteceria caso fôssemos descobertos. Os ciganos pareciam cansados da estrada e inofensivos. Passaríamos por pessoas normais e imploraríamos por piedade. Somos apenas órfãos sem lar, diríamos. Por favor, podem nos dar um pedaço de pão? Com alguma sorte, eles nos convidariam para jantar e nos levariam até a estação de trem.
Não demorou para minha teoria ser testada. As carroças saíram da estrada de repente e pararam em uma pequena clareira. A poeira mal assentara quando um homem enorme fez a volta na carroça em que estávamos. Ele usava uma boina, tinha um bigodão que parecia uma lagarta e uma expressão enfezada que encurvava os cantos da boca para baixo.
Bronwyn escondeu a srta. Peregrine no casaco enquanto Emma saltava da carroça e fazia sua melhor imitação de órfã patética.
— Senhor, imploramos por misericórdia! Veja bem, nossa casa foi atingida por uma bomba, nossos pais morreram, estamos completamente perdidos...
— Feche a matraca! — interrompeu o homem, com grosseria. — Desçam daí, todos vocês. — Era uma ordem, não um pedido, enfatizada pela faca decorativa mas de aspecto ameaçador que ele equilibrava na mão.
Olhamos uns para os outros, sem saber ao certo o que fazer. Seria melhor lutar e fugir — o que provavelmente revelaria nossos segredos — ou fingir que éramos normais por mais um tempo e esperar para ver o que ele faria? Então surgiram mais dezenas de homens, saindo das carroças e parando em círculo ao nosso redor, vários empunhando facas. Estávamos cercados. Nossas opções tinham se reduzido drasticamente.
Os homens eram grisalhos e de olhos aguçados, com roupas escuras e de tecido grosso, feitas para esconder as camadas de poeira de estrada. As mulheres usavam vestidos floridos coloridos e mantinham o cabelo comprido preso por um lenço. As crianças se reuniam atrás do grupo ou entre as mulheres. Tentei relacionar o pouco que sabia sobre ciganos aos rostos à minha frente. Eles estavam prestes a nos massacrar ou apenas eram mal-humorados?
Olhei para Emma em busca de uma dica. Ela permanecia parada, as mãos unidas sobre o peito em vez de estendidas, que era como produzia chamas. Se Emma não ia lutar, decidi que eu também não lutaria.
Desci da carroça, como o homem mandara, com as mãos na cabeça. Horace e Hugh fizeram o mesmo, e depois os outros os seguiram — todos menos Millard, que escapara sem ser visto e devia estar ali por perto, à espreita.
O homem de boina, que eu identificara como o líder do grupo, começou a nos encher de perguntas:
— Quem são vocês? De onde vieram? Onde estão seus pais?
— Viemos do oeste — respondeu Emma, muito calma. — De uma ilha perto da costa. Somos órfãos, como já expliquei. Nossas casas foram destruídas por bombas em um ataque aéreo e fomos obrigados a fugir. Remamos até chegar a terra firme e quase nos afogamos. — Ela tentou forçar algumas lágrimas. — Não temos nada — choramingou. — Estamos perdidos há dias na floresta, sem nada para comer, só com a roupa do corpo. Vimos as carroças passarem, mas ficamos com muito medo de que nos vissem. Só queríamos uma carona até a cidade...
O homem a examinou, franzindo ainda mais o cenho.
— Por que foram obrigados a fugir da ilha depois que a casa de vocês foi bombardeada? E por que fugiram para dentro da floresta, em vez de seguir pela costa?
Enoch interveio:
— Não tivemos escolha. Estávamos sendo perseguidos.
Emma lançou um olhar irritado para ele, como quem dizia: Deixe que eu cuido disso.
— Perseguidos por quem? — perguntou o líder.
— Homens maus — respondeu Emma.
— Homens armados — acrescentou Horace. — Vestidos como soldados, apesar de não serem.
Uma mulher com lenço amarelo no cabelo deu um passo à frente.
— Se os soldados estão atrás deles, essas crianças são problema, e não precisamos disso. Mande-os embora, Bekhir.
— Melhor amarrar todos eles às árvores e deixá-los aí! — interveio um homem magro de pernas compridas.
— Não! — exclamou Olive. — Precisamos chegar a Londres antes que seja tarde demais!
O líder ergueu uma sobrancelha.
— Tarde demais para quê? — Ele não estava com pena, havíamos apenas despertado sua curiosidade. — Não vamos fazer nada até descobrirmos quem são vocês — explicou ele — e quanto valem.

* * *

Os homens que portavam facas compridas nos conduziram até uma carroça cuja parte superior era uma jaula. Mesmo de longe dava para ver que era feita para animais: três metros por seis e com barras de ferro sólidas.
— Vocês não vão nos trancar aí, vão? — indagou Olive.
— Só até decidirmos o que fazer com vocês — explicou o líder.
— Não, vocês não podem fazer isso! — gritou a menina. — Precisamos chegar a Londres, e depressa!
— E por quê?
— Tem um doente no grupo — explicou Emma, lançando um olhar sério para Hugh. — Precisamos levá-lo a um médico!
— Vocês não precisam ir até Londres para encontrar médico nenhum — retrucou um dos ciganos. — Jebbiah é médico. Não é, Jebbiah?
Um homem com o rosto cheio de cicatrizes se aproximou dos peculiares.
— Qual de vocês está doente?
— Hugh precisa de um especialista — explicou Emma. — Ele tem uma doença rara. Tosse ferroante.
Hugh levou a mão à garganta, como se estivesse sentindo dor, e tossiu, expelindo uma abelha pela boca. Alguns ciganos levaram um susto, e uma garotinha escondeu o rosto na saia da mãe.
— É um truque! — disse o suposto médico.
— Já chega! — exclamou o líder. — Entrem todos na jaula.
Eles nos empurraram para uma rampa que conduzia até o interior da jaula. Nos amontoamos na parte mais baixa da tábua, pois ninguém queria ser o primeiro a entrar.
— Não podemos deixar que eles façam isso — murmurou Hugh.
— O que está esperando? — sussurrou Enoch para Emma. — Queime todos!
Emma fez que não com a cabeça e murmurou:
— São muitos.
Ela foi a primeira a subir pela rampa e entrar na jaula. O teto de barras de ferro era baixo e o chão estava coberto por uma grossa e fedida camada de feno. Depois que todos entramos, o líder bateu a porta e a trancou, guardando a chave no bolso.
— Ninguém chega perto deles! — gritou, para que todos ouvissem. — Podem ser bruxos ou coisa pior.
— É, é isso o que somos! — gritou Enoch, atrás das barras. — Agora nos deixem ir, ou vamos transformar seus filhos em javalis!
O líder desceu a rampa rindo. Enquanto isso, os outros ciganos recuaram para uma distância segura e começaram a montar acampamento, armando tendas e acendendo uma fogueira para cozinhar. Afundamos na palha, nos sentindo deprimidos e derrotados.
— Cuidado — avisou Horace. — Tem cocô de bicho em tudo quanto é parte.
— Ah, qual é o problema, Horace? — indagou Emma. — Ninguém se importa se as suas roupas estão sujas!
— Eu me importo — retrucou Horace.
Emma cobriu o rosto com as mãos. Fui me sentar ao lado dela, tentando pensar em algo animador para dizer, mas não consegui.
Bronwyn abriu o casaco, permitindo que a srta. Peregrine respirasse um pouco de ar fresco. Enoch se ajoelhou ao lado dela e levou a mão em concha ao ouvido, como se tentasse escutar alguma coisa.
— Ouviram isso? — indagou.
— O quê? — retrucou Bronwyn.
— O som da vida da srta. Peregrine se esvaindo! Emma, você devia ter queimado a cara desses ciganos enquanto teve chance!
— Mas estávamos cercados! — retrucou ela. — Alguns teriam sido feridos em uma luta grande. Talvez mortos. Eu não podia arriscar.
— Então, em vez disso, pôs em risco a srta. Peregrine! — insistiu Enoch.
— Enoch, deixe a Emma em paz — interveio Bronwyn. — Não é fácil decidir por todos. Não dá para votar sempre que precisamos fazer uma escolha.
— Então talvez seja melhor vocês deixarem que eu decida por todos — retrucou o menino.
Hugh debochou:
— Teríamos sido mortos há séculos se você estivesse no comando.
— Olhem, isso não importa agora — falei. — Precisamos sair desta jaula e chegar à cidade. Estamos muito mais perto do que se não tivéssemos pegado essa carona, então não vamos chorar pelo leite que ainda nem foi derramado. Só precisamos descobrir um jeito de fugir.
Pensamos a respeito e tivemos várias ideias, mas nenhuma parecia executável.
— Talvez Emma possa queimar um buraco no chão — sugeriu Bronwyn. — É de madeira.
Emma abriu espaço na palha e bateu no piso.
— Grosso demais — respondeu, arrasada.
— Wyn, você não consegue dobrar duas dessas barras? — perguntei.
— Talvez, mas não com esses ciganos tão perto. Eles vão ver e vir correndo com as facas.
— Precisamos fugir, não lutar até escapar — explicou Emma.
Ouvimos um sussurro do lado de fora.
— Vocês se esqueceram de mim?
— Millard! — exclamou Olive, quase flutuando para fora dos sapatos, de tanta felicidade. — Onde você estava?
— Fazendo um reconhecimento do terreno, digamos. E esperando as coisas se acalmarem.
— Acha que consegue roubar a chave? — perguntou Emma, sacudindo a porta trancada da jaula. — Vi que o líder colocou no bolso.
— Espreita e furto são minha especialidade — garantiu Millard, e se afastou.

* * *

Os minutos se arrastavam. Meia hora se passou. Depois uma hora inteira.
Hugh andava de um lado para o outro dentro da jaula, uma abelha agitada voando ao redor de sua cabeça.
— Por que Millard está demorando tanto? — resmungou.
— Se ele não voltar logo, vou começar a jogar ovos — comentou Enoch.
— Se fizer isso, vão nos matar — disse Emma. — Aqui dentro somos alvos fáceis. Quando a fumaça baixar, os ciganos vão nos esfolar vivos.
Então continuamos sentados e esperamos um pouco mais, observando os ciganos e sendo observados. Cada minuto que passava era mais um prego a selar o caixão da srta. Peregrine. Eu me peguei olhando fixamente para ela, como se pudesse detectar as mudanças que a acometiam se a examinasse com atenção — como se fosse conseguir ver a centelha humana em seu interior se extinguindo aos poucos. Mas a srta. Peregrine parecia a mesma de sempre, só que mais calma, dormindo ao lado de Bronwyn no piso forrado com palha, o peito pequeno coberto de penas subindo e descendo suavemente. Parecia não ter consciência do problema em que estávamos metidos nem da contagem regressiva que pairava sobre sua cabeça. Talvez o fato de conseguir dormir em um momento como aquele fosse prova suficiente de que ela estava sofrendo transformações. A velha srta. Peregrine certamente estaria à beira de um ataque de nervos.
Meus pensamentos se desviaram para meus pais, como sempre acontecia quando eu não mantinha controle sobre minha mente. Tentei visualizar o rosto dos dois na última vez que os vira. Detalhes se aglutinavam: a barba falhada que meu pai deixara crescer em alguns dias na ilha; minha mãe mexendo distraidamente na aliança quando meu pai falava demais sobre algo que não interessava a ela; os olhos atentos de meu pai sempre se voltando para o horizonte, em sua interminável busca por pássaros. Eles deviam estar procurando por mim.
Quando anoiteceu, o acampamento ganhou vida à nossa volta. Os ciganos conversavam e riam, e, quando um bando de crianças com cornetas e rabecas velhas começou a tocar, eles dançaram. Entre uma música e outra, um dos meninos veio por trás da jaula com um vidro nas mãos.
— É para o que está doente — explicou, olhando para trás, nervoso.
— Quem? — perguntei.
Apontando com a cabeça, ele indicou Hugh, que, justamente nessa hora, caiu no chão com espasmos de tosse.
O menino passou o vidro pela grade. Desenrosquei a tampa e cheirei. Quase desmaiei. Fedia a terebintina com fertilizante.
— Caramba, o que é isso? — perguntei.
— Funciona. É só isso que eu sei. — O menino olhou para trás outra vez. — Bem, eu fiz isso por vocês. Agora estão em dívida comigo. Então me contem... que crime vocês cometeram? Vocês são ladrões, não são? — Ele baixou a voz para acrescentar: — Ou será que mataram alguém?
— Do que ele está falando? — indagou Bronwyn.
Não matamos ninguém, quase respondi, mas então passou pela minha mente uma imagem do corpo de Golan despencando na direção de um aglomerado de pedras, e fiquei quieto.
Emma respondeu por mim:
— Não matamos ninguém!
— Ah, mas alguma coisa vocês devem ter feito — retrucou o garoto. — Senão, por que eles ofereceriam uma recompensa por vocês?
— Recompensa? — perguntou Enoch.
— E que recompensa! Estão oferecendo um dinheirão.
— Quem está oferecendo uma recompensa?
O menino deu de ombros.
— Vocês vão nos entregar? — perguntou Olive.
Ele apertou os lábios.
— Não sei se vamos entregar vocês ou não. Os grandões estão discutindo isso, mas eu diria que eles não confiam muito no tipo de gente que está oferecendo a recompensa. Se bem que dinheiro é dinheiro, e eles não gostaram muito de vocês não terem respondido às perguntas que fizeram.
— No lugar de onde viemos, ninguém fica enchendo de perguntas quem chega pedindo ajuda — retrucou Emma, com arrogância.
— E também não os prendemos em jaulas! — acrescentou Olive.
Naquele momento, ouvimos um estrondo terrível no meio do acampamento.
O menino cigano perdeu o equilíbrio e caiu da rampa no meio da grama, enquanto nós nos agachamos quando panelas que estavam numa fogueira voaram pelos ares. A cigana que cuidava da comida saiu correndo e gritando, desesperada, o vestido em chamas. A mulher teria corrido até o mar se alguém não tivesse pegado o balde de água que um cavalo bebia e jogado nela.
No instante seguinte, ouvimos os passos de um garoto invisível subindo pela rampa da jaula.
— É isso o que acontece quando alguém tenta fazer uma omelete com um ovo de galinha peculiar! — comentou Millard, sem fôlego de tanto rir.
— Foi você que fez isso? — indagou Horace.
— Estava tudo muito organizado e tranquilo... clima ruim para bater carteiras. Aí fui lá e coloquei um dos ovos no meio dos outros, et voilà! — Millard fez uma chave surgir no ar. — As pessoas tendem a não sentir minha mão no bolso delas quando o jantar acabou de explodir na cara.
— Você demorou muito — reclamou Enoch. — Agora tire a gente daqui!
Antes que Millard pudesse enfiar a chave na porta, o menino cigano se levantou e deu um berro:
— Ajudem! Eles estão tentando fugir!
O menino tinha escutado tudo, mas, na confusão que se seguiu à explosão, quase ninguém ouviu quando ele gritou.
Millard girou a chave na fechadura. A porta não abriu.
— Ah, droga — resmungou. — Será que eu roubei a chave errada?
— Ahhhh! — gritou o menino, apontando para o local de onde saía a voz de Millard. — Um fantasma!
— Alguém por favor faça esse garoto calar a boca! — pediu Enoch.
Bronwyn esticou o braço para fora da jaula, agarrou o menino pelos braços e o ergueu, puxando-o para a grade.
— Socoooorro! — gritou o menino. — Eles pegaram mmmfff...
Bronwyn tapou a boca do garoto, mas só conseguiu silenciá-lo quando já era tarde demais.
— Galbi! — gritou uma mulher. — Soltem ele, seus selvagens!
De repente, mesmo sem a menor intenção, tínhamos feito um refém. Alguns ciganos correram na nossa direção, a luz fraca refletindo nas facas.
— O que você está fazendo? — gritou Millard. — Solte esse menino antes que eles matem a gente!
— Não, não faça isso! — interveio Emma, e gritou: — Soltem a gente, ou o menino morre!
Os ciganos nos cercaram, gritando ameaças.
— Se machucarem Galbi, um pouquinho que seja — berrou o líder —, vou matar vocês com minhas próprias mãos!
— Fiquem longe! — retrucou Emma. — É só deixar a gente ir que não vamos machucar ninguém.
Quando um dos homens fez menção de correr até a jaula, Emma instintivamente estendeu as mãos e criou uma bola de fogo crepitante. As pessoas levaram um susto, e o homem parou.
— Ah, agora você faz isso — sibilou Enoch. — Eles vão enforcar a gente por sermos bruxos!
— Vou queimar o primeiro que tentar! — gritou Emma, abrindo um pouco mais as mãos para a bola de fogo crescer. — Venham, vamos mostrar com quem eles se meteram!
Era hora do show. Bronwyn foi a primeira: com uma das mãos, ergueu ainda mais o menino, que sacudia os pés; com a outra, agarrou uma das barras do teto e começou a entortá-la. Hugh enfiou o rosto entre as barras e soltou uma fileira de abelhas pela boca. Millard, que saíra correndo para longe da jaula no momento em que o menino cigano percebera sua presença, gritou de algum ponto atrás do aglomerado de gente:
— E se pensam que podem enfrentá-los, é porque ainda não me conheceram!
Millard jogou um ovo para cima. O ovo desenhou um arco no ar, passando sobre as cabeças dos ciganos, e foi cair com estrondo em um espaço aberto. A terra que subiu com a explosão chegou até o topo das árvores.
Quando a poeira baixou, houve um momento em que ninguém conseguia se mexer nem falar nada, todos atônitos. Primeiro pensei que a demonstração deixara os ciganos paralisados de medo, mas então, quando o zunido em meus ouvidos desapareceu, percebi que eles estavam ouvindo outra coisa. Então comecei a ouvir também.
Da estrada escura vinha o som de um motor. Um par de faróis brilhou em nosso campo de visão, por entre as árvores. Todos ali, ciganos e peculiares, observaram as luzes passarem pela entrada da clareira, reduzirem e voltarem. Então um veículo militar com cobertura de lona foi roncando na nossa direção.
De dentro do carro ouvimos vozes iradas e cães com a garganta rouca de tanto latir, mas incapazes de parar agora que haviam reencontrado o rastro do nosso cheiro.
Eram os acólitos à nossa caça, e ali estávamos, enjaulados, incapazes até de correr.
Emma bateu palmas para apagar a chama. Bronwyn largou o menino, que saiu correndo. Uns ciganos voltaram às pressas para as carroças, outros para a floresta. Em questão de segundos nos vimos sozinhos, aparentemente esquecidos.
O líder dos ciganos se aproximou de nós.
— Abra a jaula! — implorou Emma.
Mas ela foi ignorada.
— Vocês se escondam debaixo da palha e não façam barulho! — ordenou o homem. — E sem truque de mágica, a não ser que queiram ir com eles.
Não havia tempo para perguntas. A última coisa que vimos antes de tudo escurecer foram dois ciganos correndo até nós com uma grande lona nas mãos, com a qual cobriram a jaula.
A noite nos envolveu.

* * *

Ouvimos barulho de botas fora da jaula, avançando a passos pesados e abafados, como se os acólitos quisessem punir o próprio solo em que pisavam. Fizemos como nos mandaram: nos enfiamos sob a camada de palha fedorenta.
Ali perto, ouvi um acólito conversando com o líder cigano:
— Um grupo de crianças foi visto nessa estrada hoje de manhã. — O acólito falava com a voz entrecortada e um sotaque obscuro; não exatamente inglês, tampouco alemão. — Há uma recompensa pela captura delas.
— Não vimos ninguém o dia inteiro, senhor — respondeu o líder.
— Não se deixem enganar pelo rosto inocente dessas crianças — prosseguiu o acólito. — São todas traidoras nessa guerra. Espiões da Alemanha. A punição para quem acobertá-los...
— Não estamos escondendo nada — interrompeu o líder rispidamente. — Veja com seus próprios olhos.
— Vou fazer isso. E, se os encontrarmos aqui, vou cortar sua língua e dar para o meu cachorro comer.
Tendo dito isso, o acólito saiu andando a passos largos.
— Não. Respirem — sussurrou o líder para nós, e então ouvimos também seus passos se afastando.
Fiquei me perguntando por que o sujeito tinha mentido por nós, considerando o mal que os acólitos podiam causar ao povo dele. Talvez por orgulho, ou por algum arraigado desprezo pela autoridade; ou talvez os ciganos só quisessem a satisfação de eles próprios nos matarem, pensei, apreensivo.
Ouvíamos os acólitos transitando por todo o acampamento, chutando e derrubando coisas, abrindo as carroças, empurrando pessoas. Uma criança gritou, ao que um homem reagiu com raiva, mas foi interrompido pelo som de pauladas infligidas na carne. Era insuportável ficar ali deitado ouvindo as pessoas sofrerem, ainda que poucos minutos antes tivessem se mostrado prontas para arrancar nossos braços e pernas.
Pelo canto do olho, vi Hugh se levantar e rastejar até o baú de Bronwyn. Ele levou a mão ao trinco e começou a abrir a tampa, mas Bronwyn o deteve.
— O que está fazendo? — indagou ela, apenas movendo os lábios.
— Temos que acertá-los antes que eles nos peguem!
Emma se ergueu do meio da palha, apoiou-se nos cotovelos e rolou para perto de Hugh e Bronwyn. Eu também me aproximei para escutar.
— Ficou doido? — interveio Emma. — Se jogarmos os ovos, eles vão atirar e nos fazer em pedacinhos.
— Então o que vamos fazer? — indagou Hugh. — Vamos ficar aqui deitados até eles nos encontrarem?
Aglomerados ao redor do baú, discutíamos aos sussurros.
— Vamos esperar. Quando eles abrirem a jaula, eu jogo um ovo pela grade atrás da gente — sugeriu Enoch. — Assim a gente distrai os acólitos por tempo suficiente para a Bronwyn arrebentar o crânio do primeiro que entrar na jaula, e aí a gente aproveita para escapar, se espalha e joga os ovos na direção da fogueira ali no meio. Todo mundo em um raio de trinta metros vai virar poeira.
— Minha nossa! — exclamou Hugh. — Não é que isso pode mesmo funcionar?
— Mas tem crianças no acampamento! — retrucou Bronwyn.
Enoch revirou os olhos.
— Ou então a gente pode se preocupar com os danos colaterais, correr para a floresta e deixar que os acólitos cacem a gente um a um. Mas eu não recomendaria isso se a intenção for chegar a Londres ou sobreviver a esta noite.
Hugh deu um tapinha na mão de Bronwyn que cobria o fecho do baú.
— Abra. Passa os ovos pra cá.
Bronwyn hesitou.
— Não posso. Não posso matar crianças que não fizeram nada contra nós.
— Mas não temos escolha — murmurou Hugh.
— Sempre há uma escolha — retrucou Bronwyn.
Foi quando ouvimos um cão rosnar muito perto da jaula. Ficamos quietos. No instante seguinte, a luz de uma lanterna brilhou do outro lado da lona.
— Arranquem essa coberta! — ordenou alguém. Parecia a mesma voz do homem que conduzia o cão.
O cachorro latiu, farejando, tentando entrar por baixo da lona e passar pelas barras da jaula.
— Aqui! — gritou o homem. — Encontramos alguma coisa!
Olhamos para Bronwyn.
— Por favor — pediu Hugh. — Pelo menos deixe a gente se defender.
— É o único jeito — completou Enoch.
Bronwyn deu um suspiro e tirou a mão do fecho. Então Hugh balançou a cabeça em agradecimento e abriu o trinco do baú. Cada um de nós pegou um ovo do meio dos suéteres empilhados, menos Bronwyn. Em seguida, nos levantamos e ficamos de frente para a porta da jaula, os ovos na mão, preparados para o inevitável.
Mais botas marcharam na nossa direção. Tentei me preparar para o que estava por vir. Corra, disse a mim mesmo. Corra sem olhar para trás e então arremesse.
Mas será que eu conseguiria mesmo fazer aquilo, sabendo que pessoas inocentes morreriam? Mesmo que fosse para salvar minha vida? E se eu simplesmente jogasse o ovo em algum gramado e corresse para a floresta?
Alguém pegou a ponta da lona e a puxou. A cobertura começou a deslizar.
No entanto, a lona parou de ser erguida pouco antes de nos revelar.
— O que você acha que está fazendo? — perguntou o homem com o cachorro.
— Eu ficaria longe dessa jaula se fosse você — avisou outra voz. A voz de um cigano.
Dava para ver metade do céu, as estrelas cintilando por entre os galhos das árvores.
— É? E por quê? — indagou o homem com o cão.
— O velho Cruento não come há dias — explicou o cigano. — Ele não gosta muito de carne humana, mas não é muito exigente quando está faminto!
Então ouvi um som que me fez perder o fôlego: o rugido de um urso gigante.
Era impossível, mas ele parecia estar saindo do meio do nosso grupo, de dentro da jaula. Ouvi o homem com o cão dar um grito de surpresa e depois descer a rampa depressa, puxando o cão a ganir.
Eu não conseguia imaginar como um urso entrara na jaula, só sabia que precisava me afastar dele, por isso colei o corpo na grade. Ao meu lado, vi Olive enfiar a mãozinha na boca para não gritar.
Lá fora, outros soldados riam do homem com o cão.
— Idiota! — resmungou o sujeito, envergonhado. — Só ciganos mesmo para ter um animal desse no meio do acampamento!
Finalmente reuni coragem, me virei e olhei para trás. Não havia urso nenhum na jaula. O que tinha sido aquele rugido terrível?
Os soldados continuaram a revistar o acampamento, mas agora deixavam a jaula de lado. Depois de alguns minutos, ouvimos se amontoarem novamente no veículo, ligarem o motor e irem embora.
A lona foi retirada de cima da jaula. Os ciganos estavam reunidos ao nosso redor. Eu segurava o ovo com a mão trêmula, sem saber se precisaria usá-lo.
O líder estava diante de nós.
— Vocês estão bem? — perguntou. — Desculpe se isso os assustou.
— Estamos vivos — respondeu Emma, olhando ao redor, desconfiada. — Mas cadê o urso?
— Vocês não são os únicos com talentos incomuns — explicou um rapaz mais afastado, e então, em uma rápida sucessão, rosnou como um urso e miou como um gato, projetando a voz de um lugar para outro com leves movimentos de cabeça, de modo que parecia que estávamos cercados por animais. Quando a perplexidade inicial passou, nós aplaudimos.
— Você não disse que eles não eram peculiares? — murmurei para Emma.
— Qualquer um pode fazer truques como esse.
— Peço desculpas por não ter me apresentado — disse o líder dos ciganos. — Meu nome é Bekhir Bekhmanatov. E vocês são nossos convidados de honra. — Ele fez uma grande reverência. — Por que não disseram que eram syndrigasti?
Olhamos surpresos para o homem. Ele tinha acabado de usar o termo antigo para peculiares, que aprendemos com a srta. Peregrine.
— Nos conhecemos de algum lugar? — perguntou Bronwyn.
— Onde você ouviu essa palavra? — indagou Emma.
Bekhir sorriu.
— Se aceitarem nossa hospitalidade, prometo explicar tudo.
Após mais uma mesura, ele se aproximou para abrir a jaula.

* * *

Sentamos com os ciganos em tapetes finos tecidos à mão e ficamos conversando e comendo ensopado à luz tremeluzente de duas fogueiras. Deixei de lado a colher que recebi e comi direto da tigela de madeira. Meus modos à mesa viraram uma lembrança distante enquanto o delicioso caldo gorduroso escorria pelo meu queixo. Bekhir caminhava entre nós, conferindo se estávamos confortáveis, perguntando se queríamos comer ou beber mais, sem parar de pedir desculpas pelo estado de nossas roupas — agora cheias de palha imunda.
Desde que testemunhara nossa demonstração peculiar, ele mudara completamente de atitude: em poucos minutos, passamos de prisioneiros a convidados de honra.
— Eu realmente sinto muito pelo modo como vocês foram tratados — disse ele, sentando-se em uma almofada entre as fogueiras. — Quando se trata da segurança do meu povo, tenho que tomar todas as precauções possíveis. Hoje em dia tem muitos estranhos rondando por essas estradas... gente que não é o que parece. Se vocês tivessem dito que eram syndrigasti...
— Fomos ensinados a nunca contar a ninguém — explicou Emma.
— Nunca — acrescentou Olive.
— Quem ensinou isso a vocês é uma pessoa muito sábia — respondeu Bekhir.
— Como sabem sobre nós? — perguntou Emma. — Você fala a língua antiga.
— Só algumas palavras — respondeu Bekhir. Ele olhou para as chamas, onde estavam assando carne num espeto. — Seu povo e o meu têm um velho acordo. Não somos tão diferentes: ambos excluídos e andarilhos... almas que se agarram às margens do mundo. — Bekhir arrancou um pedaço de carne do espeto e o mastigou, pensativo. — Somos aliados, digamos assim. Ao longo dos anos, chegamos a receber e criar algumas crianças como vocês.
— Somos gratos por isso — disse Emma. — E pela hospitalidade, também. Mas, sem querer ser grosseira, não temos como ficar mais tempo aqui. É muito importante chegarmos a Londres o mais rápido possível. Precisamos pegar um trem.
— Por causa do seu amigo doente? — perguntou Bekhir, erguendo a sobrancelha para Hugh, que já tinha parado de fingir havia muito e agora devorava o ensopado sem preocupação, as abelhas zumbindo felizes ao redor da cabeça.
— Mais ou menos — respondeu Emma.
Bekhir sabia que estávamos escondendo alguma coisa, mas fez a gentileza de nos deixar com nossos segredos.
— Não sai mais nenhum trem hoje — explicou. — Mas vamos levantar assim que amanhecer e levaremos vocês até a estação para o primeiro trem de amanhã. Está bem assim?
— Se não tem outro jeito... — disse Emma, o cenho franzido em sinal de preocupação.
Apesar de termos ganhado tempo pegando carona, a srta. Peregrine já perdera um dia inteiro. Agora só lhe restavam dois, no máximo. Mas isso era um problema para o futuro. Naquele instante, estávamos aquecidos, bem alimentados e fora de perigo. Foi difícil não se divertir, mesmo sabendo que duraria pouco.
Fizemos amizade depressa com os ciganos. Todos queriam esquecer o que acontecera mais cedo. Bronwyn tentava se desculpar com o menino que tomara como refém, mas ele nem deu importância, como se não tivesse sido nada de mais. Os ciganos não paravam de nos oferecer comida, toda hora enchendo minha tigela, que chegava a transbordar, mesmo que eu tentasse recusar. Quando a srta. Peregrine pulou do casaco de Bronwyn e anunciou, com um pio, que estava com fome, os ciganos a alimentaram também, jogando pedaços de carne crua para o alto e vibrando quando ela os pegava no ar.
— Ela está com fome! — comentou Olive, rindo e batendo palmas enquanto a ave rasgava um joelho de porco com as garras.
— E então, não está satisfeito por não termos explodido eles? — sussurrou Bronwyn para Enoch.
— É, acho que sim.
A banda cigana tocou outra música. Comemos e dançamos. Convenci Emma a dar uma volta na fogueira comigo, e, apesar de eu normalmente ser tímido para dançar em público, me soltei. Nossos pés flutuavam e batíamos palmas no ritmo da música. Por alguns belos minutos, nos deixamos levar pelo momento. Consegui esquecer a gravidade do perigo que corríamos e o fato de que naquele mesmo dia quase havíamos sido capturados por acólitos e devorados por um etéreo, que cuspiria nossos ossos encosta abaixo depois de arrancar toda a nossa carne. Naquele momento, fiquei profundamente grato aos ciganos e à simplicidade da parte animal de meu cérebro, que achava uma refeição quente, uma canção e o sorriso de uma pessoa amada suficientes para me distrair de toda a escuridão, mesmo que por pouco tempo. Então a música terminou, e voltamos a nos sentar. Na calma que se seguiu, senti o ânimo de todos mudar. Emma disse a Bekhir:
— Posso fazer uma pergunta?
— É claro — respondeu ele.
— Por que vocês arriscaram a vida por nós?
Ele fez um gesto de desdém.
— Vocês teriam feito o mesmo.
— Não tenho tanta certeza disso — retrucou Emma. — Eu só queria entender. Foi porque somos peculiares?
— Foi — respondeu ele, simplesmente. Um momento se passou. Ele virou o rosto e olhou para as árvores que cercavam a clareira, para os troncos iluminados pelo fogo e para a escuridão além. — Quer conhecer meu filho?
— É claro — respondeu Emma.
Ela se levantou. Eu fiz o mesmo, assim como vários outros.
Bekhir ergueu a mão.
— Infelizmente, ele é tímido. Só você — disse, apontando para Emma. — E você. — Apontou para mim. — E o que pode ser ouvido, mas não visto.
— Uau — comentou Millard. — E eu estava me esforçando à beça para ser discreto!
Enoch sentou-se outra vez, reclamando:
— Por que eu sempre fico de fora? Será que eu cheiro mal?
Uma cigana com um robe esvoaçante penetrou no círculo de luz das fogueiras.
— Enquanto eles estiverem fora, vou ler a mão de vocês — anunciou ela, e se virou para Horace. — Talvez você um dia escale o Kilimanjaro! — Depois, para Bronwyn: — Ou se case com um homem rico e bonito!
Bronwyn bufou.
— Puxa, meu maior sonho.
— O futuro é minha área, senhora — retrucou Horace. — Vou mostrar como se faz!
Emma, Millard e eu os deixamos ali e fomos com Bekhir até uma carroça de aspecto simples. O homem subiu a escada baixa e bateu à porta.
— Radi? — chamou, baixinho. — Venha cá, por favor. Tem algumas pessoas que querem conhecer você.
Uma fresta da porta se abriu e uma mulher espiou para fora.
— Ele está com medo. Não quer sair da cadeira.
Ela nos observou atentamente, depois abriu a porta e fez sinal para que entrássemos. Subimos os degraus e nos agachamos em um espaço apertado mas aconchegante que parecia ser sala, quarto e cozinha ao mesmo tempo. Havia uma cama sob uma janela estreita, uma mesa e uma cadeira, além de um pequeno fogão que lançava fumaça por uma chaminé no teto: o necessário para ser autossuficiente na estrada por várias semanas ou meses.
Um menino estava sentado na única cadeira do aposento. Ele segurava um trompete. Percebi que o vira tocando mais cedo, na banda de crianças ciganas.
Era filho de Bekhir, e supus que a mulher fosse a esposa.
— Tire os sapatos, Radi — ordenou a mulher.
O garoto manteve os olhos fixos no chão.
— Preciso mesmo? — perguntou.
— Precisa — respondeu Bekhir.
O menino puxou uma das botas, depois a outra. Por um segundo eu não tive certeza do que via: não havia nada nos sapatos. Ele parecia não ter pés. Mas mesmo assim teve trabalho para tirar as botas, então deviam estar presas a alguma coisa. Bekhir pediu a ele que ficasse de pé. Com relutância, o menino deslizou para a frente na cadeira e se levantou. Parecia estar levitando. A bainha da calça pairava, vazia, a alguns centímetros do chão.
— Ele começou a desaparecer há alguns meses — explicou a mulher. — Primeiro foram só os dedos, depois os calcanhares, depois o restante dos pés. Nada do que dei a ele teve efeito, nenhuma tintura ou tônico.
Então, afinal de contas, ele tinha pés; só eram invisíveis.


— Não sabemos o que fazer — disse Bekhir. — Achei que talvez houvesse um curandeiro entre vocês...
— Não há cura para o que ele tem — interveio Millard. Ao ouvir a voz saindo do nada, o menino esticou o pescoço de repente. — Eu e ele somos iguais. Aconteceu o mesmo comigo quando eu era mais novo. Não nasci invisível. Foi aos poucos.
— Quem está falando? — perguntou o menino.
Millard pegou um lenço que estava jogado em um canto da cama e o enrolou no rosto, revelando o formato do nariz, da testa e da boca.
— Aqui estou eu — disse, se aproximando do menino. — Não tenha medo.
Enquanto observávamos, o menino ergueu a mão e tocou o rosto de Millard, depois a testa e o cabelo, cuja cor e penteado eu nunca sequer havia imaginado, e até puxou uma pequena mecha, com delicadeza, como se testasse se era real.
— Você está mesmo aí — disse o menino, com os olhos brilhando, maravilhado. — Você está mesmo aí!
— E você também vai estar, mesmo depois que desaparecer por completo — respondeu Millard. — Você vai ver. Não dói.
O menino sorriu. Quando ele fez isso, os joelhos da mulher vacilaram, e ela teve que se apoiar em Bekhir.
— Deus o abençoe — disse ela a Millard, quase chorando. — Deus o abençoe.
O menino invisível se sentou diante dos pés invisíveis de Radi.
— Não precisa ter medo. Na verdade, depois que se adaptar, vai descobrir que a invisibilidade tem muitas vantagens...
Ele começou a listá-las. Bekhir foi até a porta e sinalizou com a cabeça para mim e para Emma:
— Vamos deixá-los. Tenho certeza de que eles têm muito que conversar.
Deixamos Millard sozinho com o garoto e a mãe. Ao voltar para junto da fogueira, encontramos todo mundo, tanto peculiares quanto ciganos, reunidos ao redor de Horace. Ele estava em pé em cima de um toco de árvore, diante da vidente atônita, com os olhos fechados e a mão no topo da cabeça da mulher.
Parecia estar narrando um sonho enquanto ele acontecia em sua mente.
— ... e o neto do seu neto vai pilotar um navio gigante que viaja entre a Terra e a Lua como um ônibus, e ele vai ter uma casa muito pequena na Lua, vai atrasar o pagamento da hipoteca e precisará alugar quartos. Um dos inquilinos será uma mulher bonita por quem ele vai se apaixonar perdidamente em amor lunar, que não é exatamente igual ao amor terrestre, por causa da diferença de gravidade...
Ficamos observando de um ponto à margem do círculo.
— Ele está falando sério? — perguntei a Emma.
— Pode ser — respondeu ela. — Mas pode estar só se divertindo um pouco com a mulher.
— Por que ele não pode descobrir o nosso futuro assim?
Emma deu de ombros.
— A habilidade de Horace pode ser enlouquecedoramente inútil. Ele desanda a falar previsões da vida inteira de estranhos, mas com a gente seu poder é quase inteiramente bloqueado. Acho que quanto mais ele gosta da pessoa, menos consegue ver. A emoção turva a visão.
— Não é assim com todo mundo? — indagou uma voz às nossas costas.
Quando nos viramos, demos com Enoch ali parado.
— Por falar nisso, espero que você não esteja distraindo demais o americano, querida Emma. É muito difícil ficar atento aos etéreos com a língua de uma moça na orelha.
— Não fale essas coisas nojentas! — ralhou Emma.
— Eu não conseguiria ignorar a Sensação nem se quisesse — retruquei.
Ainda assim, desejava poder ignorar a desagradável percepção de que Enoch estava com ciúme de mim.
— Então me contem sobre a reunião secreta — sugeriu o menino. — Os ciganos nos protegeram por causa de uma aliança antiga e mofada da qual nenhum de nós ouviu falar?
— O líder e sua esposa têm um filho peculiar — respondeu Emma. — Eles tinham esperanças de que pudéssemos ajudá-lo.
— Isso é loucura — retrucou Enoch. — Eles quase deixaram que os soldados fizessem picadinho de todos por causa de um único menino? Isso é que é a emoção turvando a visão! Achei que quisessem nos escravizar por causa das habilidades que temos, ou pelo menos nos vender em um leilão... Eu sempre superestimo as pessoas.
— Ah, vá procurar um animal morto para atazanar — reclamou Emma.
— Nunca vou entender noventa e nove por cento da humanidade — comentou Enoch, e saiu balançando a cabeça.
— Às vezes penso que esse garoto é meio máquina — comentou Emma. — Carne por fora, metal por dentro.
Eu ri, mas me perguntei se Enoch não teria razão. Talvez fosse loucura Bekhir arriscar tanto pelo filho. Porque, se o homem estivesse louco, eu com certeza também estava. De quanta coisa tinha aberto mão só por uma garota? Apesar da curiosidade, apesar de meu avô, apesar da dívida que tínhamos para com a srta. Peregrine, a verdade é que eu estava ali por um único motivo: desde o dia em que conheci Emma, soube que queria fazer parte de qualquer mundo ao qual ela pertencesse. Será que eu era louco? Ou será que meu coração fora conquistado fácil demais?
Talvez ter um pouquinho de metal por dentro não seja tão ruim, pensei. Se eu tivesse mantido o coração mais protegido, onde estaria naquele momento? Fácil: em casa, tomando remédios até o completo torpor. Afogando as mágoas no videogame. Trabalhando meio expediente na rede de farmácias da minha família. Morrendo por dentro, dia após dia, de arrependimento.
Mas não. Ao ir atrás de Emma, eu tinha arriscado tudo — e estava arriscando de novo, todos os dias. Ao fazer isso, eu optara por mergulhar em um mundo que jamais imaginara, onde vivia entre as pessoas mais vivas que eu já tinha conhecido, onde fazia coisas que nunca tinha imaginado ser capaz de fazer e sobrevivia a coisas às quais nunca tinha sonhado sobreviver. Tudo porque me permitira sentir algo por uma garota peculiar.
Apesar de todo o problema e o perigo em que estávamos metidos, e apesar do fato de aquele mundo novo e estranho ter começado a desmoronar no instante em que eu o descobrira, me sentia imensamente feliz por estar ali. Apesar de tudo, aquela vida peculiar era tudo o que eu sempre quis. Estranho como dá para viver nossos maiores sonhos e pesadelos ao mesmo tempo, pensei.
— O que foi? — indagou Emma. — Você está me encarando.
— Eu só queria dizer obrigado.
Ela franziu o nariz e estreitou os olhos, como se eu tivesse dito algo engraçado.
— Obrigado por quê?
— Você me dá forças que eu não sabia que tinha — respondi. — Você me torna uma pessoa melhor.
Ela ficou vermelha.
— Não sei o que dizer.
Emma, uma alma iluminada. Preciso da chama que arde em seu interior.
— Não precisa dizer nada — respondi.
Então fui tomado por uma necessidade súbita de beijá-la. E foi o que fiz.

* * *

Apesar de estarmos mortos de cansaço, os ciganos pareciam muito animados e determinados a continuar a festança. Depois de algumas xícaras de uma bebida quente, doce e cheia de cafeína, além de mais algumas canções, eles nos conquistaram. Eram contadores de histórias natos e cantores excelentes, pessoas naturalmente interessantes que nos tratavam como primos havia muito perdidos.
Ficamos acordados até de madrugada, trocando histórias. O garoto que projetara a voz como um urso fez um número de ventriloquismo tão bom que quase acreditei que os bonecos tinham ganhado vida. Ele parecia ter uma quedinha por Emma, pois fez toda a apresentação olhando para ela, com um sorriso enorme no rosto, mas Emma fingiu não perceber e fez questão de segurar minha mão.
Mais tarde, os ciganos contaram que, durante a Primeira Guerra Mundial, o exército britânico tomou todos os cavalos deles, deixando-os sem nenhum animal para puxar as carroças. Eles foram abandonados na floresta — naquela mesma floresta —, até que um dia um rebanho de bodes com chifres compridos surgiu no acampamento. Pareciam selvagens, mas eram tão mansos que chegavam a comer das mãos dos ciganos. Alguém teve a ideia de prender um deles a uma carroça, e os bodes se revelaram tão fortes quanto os cavalos roubados. Os ciganos passaram a se deslocar dessa forma, e até o fim da guerra as carroças foram puxadas por aqueles bodes peculiarmente fortes — e por isso eles passaram a ser conhecidos como o Povo dos Bodes em todo o País de Gales.
Como prova, nos mostraram uma foto do tio de Bekhir em uma carroça puxada por bodes. Sem que ninguém precisasse revelar, sabíamos que aquele era o último rebanho de bodes peculiares do qual Addison nos falara. Depois da guerra, o exército devolveu os cavalos dos ciganos, e os bodes, que não eram mais necessários, desapareceram floresta adentro.


Finalmente, as fogueiras foram se apagando. Os ciganos estenderam mantas de dormir para nos deitarmos e cantaram uma canção de ninar em uma língua estrangeira que não conhecíamos. Tive a agradável sensação de voltar a ser criança. O ventríloquo foi dar boa-noite a Emma, mas ela o dispensou, não sem que antes ele deixasse um cartão de visita. No verso, havia um endereço em Cardiff, onde o sujeito recolhia correspondência algumas vezes por ano, sempre que os ciganos passavam; na frente, uma foto dele com bonecos e um pequeno bilhete para Emma. Ela o mostrou para mim e riu, mas me senti mal pelo rapaz. Seu crime era apenas gostar dela — o mesmo que o meu.


* * *

Eu me deitei abraçado a Emma em uma manta. Quando estávamos quase pegando no sono, ouvi passos na grama ali perto. Abri os olhos, mas não vi ninguém. Era Millard, de volta depois de passar a noite conversando com o menino cigano.
— Ele quer ir com a gente — comentou Millard.
— Quem? — balbuciou Emma, sonolenta. — Ir para onde?
— O menino. Quer ir com a gente.
— E o que você disse?
— Disse que não era uma boa ideia. Mas não falei que não. Não exatamente.
— Você sabe que não podemos levar mais ninguém — retrucou Emma. — Ele vai atrasar a gente.
— Eu sei, eu sei. Mas ele está desaparecendo muito rápido, e fica assustado com isso. Daqui a pouco vai estar completamente invisível. Ele tem medo de um dia ficar para trás e os ciganos não perceberem e ele se perder para sempre na floresta, entre lobos e aranhas.
Emma resmungou e se virou para encarar Millard. Ele não ia nos deixar dormir até que aquilo fosse decidido.
— Sei que ele vai ficar decepcionado em ouvir isso, mas é mesmo impossível — disse ela. — Sinto muito, Mill.
— É justo. Vou dar a notícia a ele — respondeu Millard, chateado. Então se levantou e foi embora.
Emma suspirou e passou um bom tempo irrequieta, sem parar de se mexer.
— Você fez a coisa certa — sussurrei. — Não é fácil ser o exemplo para todos os outros.
Ela não respondeu, mas se aconchegou em meu peito. Aos poucos, fomos caindo no sono, com os murmúrios dos galhos soprados pela brisa e a respiração dos cavalos nos embalando gentilmente.

* * *

Foi uma noite de sono leve e pesadelos, muito parecida com a realidade do dia anterior: perseguido por matilhas de cães assustadores. Acordei exausto. Eu sentia meus braços e pernas pesados como madeira, minha cabeça, feita de algodão. No fim das contas, talvez estivesse me sentindo melhor se não tivesse dormido.
Bekhir nos despertou ao amanhecer.
— É hora de acordar, syndrigasti! — gritou, distribuindo pedaços de pão duros como tijolos. — Deixem para dormir quando estiverem mortos!
Enoch bateu o pão em uma pedra, e o barulho fez a comida parecer feita de madeira.
— Vamos morrer de uma vez com um café da manhã desse!
Bekhir bagunçou o cabelo de Enoch, rindo.
— Ah, que isso. Cadê seu espírito peculiar?
— Botei para lavar — resmungou Enoch, cobrindo a cabeça com a manta.
Bekhir nos deu dez minutos para nos aprontarmos para a viagem até a cidade. Ele estava cumprindo a promessa e nos levaria até lá antes do primeiro trem da manhã. Eu me levantei, fui cambaleando até um balde, joguei um pouco de água no rosto e escovei os dentes com o dedo. Ah, como eu sentia falta de minha escova de dentes... Como eu sentia falta do fio dental sabor menta e do desodorante com aroma de brisa do mar. O que eu não daria naquele momento para encontrar uma farmácia!
Meu reino por cuecas limpas!
Enquanto eu catava fios de palha do cabelo e tentava comer o pão intragável, os ciganos nos observavam com tristeza. Era como se, de alguma forma, soubessem que a diversão da noite anterior fora uma última comemoração e que agora estávamos sendo conduzidos para a forca. Tentei animar um deles.
— Está tudo bem — falei para um menininho de cabelo louro bem claro que parecia à beira das lágrimas. — Vamos ficar bem.
Ele me encarou com os olhos arregalados e desconfiados, como se eu estivesse falando com um fantasma.
Oito cavalos foram reunidos, assim como oito cavaleiros ciganos, um para cada um de nós. Chegaríamos à cidade muito mais depressa do que de carroça.
Mas a ideia me deixava apavorado.
Eu nunca tinha montado a cavalo. Devia ser o único garoto razoavelmente rico dos Estados Unidos que nunca o fizera. Não porque não achasse os cavalos criaturas belas e majestosas, o ápice da criação animal etc. etc. É que não acredito que animal algum tenha o menor interesse em ser montado por um ser humano. Além disso, sempre achei cavalos muito grandes, com músculos muito bem definidos e dentes grandes e numerosos. Além disso, eles sempre olharam para mim como se soubessem que eu tinha medo, como se estivessem só esperando para arrancar minha cabeça com um coice. Isso sem falar que cavalos não têm cinto de segurança — nem air bag ou coisa do tipo —, mas podem ir quase tão rápido quanto os carros, só que sacodem muito mais. Por isso, a empreitada me pareceu desaconselhável.
Não expressei minhas preocupações, é claro. Fiquei quieto, cerrei os dentes e torci para viver pelo menos o suficiente para morrer de forma mais interessante do que caindo de um cavalo.
Desde o primeiro êia!, galopamos a toda velocidade. Deixei a dignidade de lado na mesma hora e me agarrei ao cigano à minha frente, que segurava as rédeas — e o fiz tão depressa que nem tive a chance de acenar e me despedir do grupo de pessoas que se reunira para nos ver partir. O que não foi tão ruim: despedidas nunca foram meu forte, e minha vida andava parecendo uma série ininterrupta de adeus. Adeus, adeus, adeus.
Saímos cavalgando. Minhas coxas ficaram dormentes de tanto apertar o cavalo. Bekhir liderava o grupo, com o filho peculiar montado com ele na sela. O menino mantinha as costas eretas e os braços ao longo do corpo, confiante e sem medo, um grande contraste em relação à noite anterior. Ali, ele estava em seu ambiente: em meio aos ciganos. Não precisava de nós. Aquele era seu povo.


Algum tempo depois, desaceleramos até atingir um ritmo de trote, e reuni coragem para afastar o rosto do casaco do cavaleiro e apreciar as mudanças na paisagem em volta. A floresta se aplainara, tornando-se campo. Estávamos descendo um vale, no meio do qual havia uma cidade cercada de verde por todos os lados e que, de onde estávamos, não parecia maior do que um selo. Vinda do norte, uma elipse longa de pontos brancos se estendia na direção da floresta: as nuvens de fumaça de um trem.
Bekhir parou os cavalos pouco antes dos portões da cidade.
— Só podemos vir até aqui — explicou. — Não somos muito bem-vindos em cidades pequenas. Vocês não querem o tipo de atenção que recebemos.
Era difícil imaginar alguém se opondo à presença daquelas pessoas tão amáveis. Mas, enfim, preconceitos parecidos estavam entre os motivos pelos quais os peculiares haviam abandonado a sociedade. Era como esse mundo triste funcionava.
Eu e as crianças desmontamos dos cavalos. Fiquei atrás dos outros, na esperança de que ninguém percebesse o tremor em minhas pernas. Quando estávamos prestes a partir, o filho de Bekhir saltou do cavalo do pai e gritou:
— Esperem! Me levem com vocês!
— Achei que você fosse conversar com ele — disse Emma a Millard.
— Eu conversei — respondeu o rapaz.
O menino puxou uma bolsa do alforje da sela e a jogou sobre o ombro. Ele estava de malas feitas, pronto para partir.
— Eu sei cozinhar — disse. — E cortar lenha, montar a cavalo e fazer todos os tipos de nó!
— Alguém dê uma medalha de honra a esse rapaz — zombou Enoch.
— Infelizmente, é impossível — disse Emma, com delicadeza.
— Mas eu sou como vocês, e estou ficando cada vez mais assim! — O menino começou a abrir a calça. — Vejam o que está acontecendo comigo!
Antes que alguém pudesse detê-lo, ele baixou a calça até os tornozelos. As garotas levaram um susto e viraram o rosto. Hugh gritou:
— Não tire a calça, seu doido pervertido!
Mas não havia o que ver. Ele estava invisível da metade do corpo para baixo.
Uma curiosidade mórbida me levou a espiar a parte de baixo da metade visível, e tive uma visão cristalina do funcionamento de suas entranhas.
— Vejam como eu desapareci desde ontem — insistiu Radi, com pânico na voz. — Daqui a pouco vou desaparecer de vez!
Os ciganos o encaravam, murmurando. Até os cavalos pareciam perturbados, evitando o que parecia ser uma criança sem corpo.
— Não acredito! — exclamou Enoch. — Só tem metade dele aqui com a gente.
— Ah, coitadinho — disse Bronwyn. — Não podemos ficar com ele?
— Não somos um circo itinerante, ao qual você pode se juntar quando sentir vontade — retrucou Enoch. — Estamos em uma missão perigosa para salvar nossa ymbryne, não temos como bancar a babá para um peculiar novo que não sabe de nada!
Os olhos do menino se arregalaram e começaram a lacrimejar, e ele deixou que a bolsa escorregasse do ombro para o chão.
Emma puxou Enoch para um canto.
— Isso foi muito rude — ralhou. — Peça desculpas agora.
— Não. Isso é ridículo, um desperdício de tempo precioso, que fica cada vez mais curto.
— Essas pessoas salvaram nossa vida!
— Nossa vida não precisaria ter sido salva se eles não nos tivessem enfiado naquela bendita jaula!
Emma desistiu de Enoch e se virou para o menino.
— Se as circunstâncias fossem diferentes, nós o receberíamos de braços abertos. Do jeito que as coisas estão, toda a nossa civilização e o nosso modo de vida correm risco de serem destruídos. Por isso, não é o momento apropriado. Entende?
— Não é justo — lamentou o menino. — Por que eu não comecei a desaparecer muito tempo atrás? Por que isso tinha que acontecer justo agora?
— As habilidades de cada peculiar se manifestam em seu próprio tempo — explicou Millard. — Algumas na infância, outras só quando estão bem velhos. Eu soube de um homem que só descobriu que podia fazer objetos levitarem com a mente aos noventa e dois anos.
— Eu já era mais leve que o ar no instante em que nasci — comentou Olive, com orgulho. — Saí da barriga da minha mãe e fui flutuando para o teto do hospital! A única coisa que me impediu de sair pela janela e subir até as nuvens foi o cordão umbilical. Dizem que o médico desmaiou de choque!
— Você ainda é muito chocante, querida — interveio Bronwyn, com um tapinha tranquilizador nas costas da menina.
Millard, visível graças ao casaco e às botas, foi até o menino cigano.
— O que o seu pai acha dessa sua ideia?
— É claro que não queremos que ele vá — respondeu Bekhir —, mas como podemos cuidar direito dele se nem ao menos conseguimos vê-lo? Ele quer ir, e talvez meu filho fique melhor com seus pares.
— Você o ama? — perguntou Millard, de repente. — Ele ama você?
Bekhir franziu o cenho. Sendo um homem de sensibilidade tradicional, a pergunta o deixou desconfortável. Depois de pensar um pouco, ele resmungou:
— É claro. Ele é meu filho.
— Então você é um desses pares — disse Millard. — O lugar do menino é com vocês, não conosco.
Bekhir relutava em demonstrar emoção na frente dos outros homens, mas, depois disso, vi seus olhos brilharem. Ele cerrou o queixo, balançou a cabeça, baixou os olhos para o filho e disse:
— Então venha. Pegue suas coisas e vamos. Sua mãe deve ter feito chá.
— Está bem, pai — respondeu o menino, parecendo ao mesmo tempo decepcionado e aliviado.
— Você vai ficar bem — garantiu Millard. — Mais do que bem. E, quando tudo isso acabar, eu vou atrás de você. Há outros como nós por aí, e um dia vamos juntos encontrá-los.
— Promete? — perguntou o menino, os olhos cheios de esperança.
— Prometo.
E, com isso, o menino montou de novo na garupa do cavalo do pai. Fizemos a  volta, passamos pelos portões e entramos na cidade.

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