5 de abril de 2017

Capítulo cinco

Era uma manhã quase perfeita. Deixar o pub foi como entrar em uma dessas fotos retocadas demais que vêm como papel de parede em computadores novos: ruas com casinhas campestres artisticamente decrépitas estendendo-se ao longe, que cediam espaço para campos verdes costurados por meandros de muros de pedras, toda a cena encimada por nuvens brancas em rápido movimento. Mas, além disso tudo, acima das casas, de plantações e ovelhas trêmulas como algodão-doce ao vento, eu podia ver a distância línguas de neblina densa descendo as colinas, lugar onde este mundo terminava e o próximo começava, frio, úmido e sem sol.
Estava caminhando no alto das colinas quando começou a chover. Como era de esperar, eu tinha esquecido as botas de borracha, e a trilha era uma faixa de lama que se aprofundava rapidamente. Mas ficar um pouco molhado parecia absurdamente preferível a subir aquele morro duas vezes na mesma manhã, por isso baixei a cabeça contra a chuva que caía e segui em frente com dificuldade.
Logo passei pelo barracão, com silhuetas indistintas de carneiros encolhidos lá dentro para se proteger do frio, e depois pela charneca envolta em névoa, silenciosa e fantasmagórica. Pensei no morador de 2.700 anos do Museu de Cairnholm e me perguntei quantos outros como ele estes campos guardavam, ocultos, presos em sua morte; quantos mais tinham desistido de suas vidas ali, à procura do paraíso.
Quando cheguei ao orfanato, o que tinha começado como uma chuvinha havia se transformado em temporal, o céu derramando uma torrente que chegava a doer. Não havia tempo para vadiar pelo quintal selvagem e refletir sobre sua aparência maléfica — o modo como as soleiras sem portas pareceram me engolir quando entrei, as tábuas do piso do vestíbulo marcadas pela chuva, macias e roucas sob meus pés. Parei, torci a camisa e sacudi a cabeça para secar os cabelos. Quando estavam tão secos quanto fosse possível — o que não era muito —, comecei a procurar. O quê, eu não tinha certeza. Uma caixa de cartas? O nome de meu avô rabiscado em uma parede? Tudo parecia muito improvável.
Caminhei por ali levantando tapetes de jornais velhos, espiando embaixo de mesas e cadeiras, e imaginava que iria encontrar alguma cena horrível — um emaranhado de esqueletos vestidos em trapos enegrecidos pelo fogo —, mas tudo o que encontrei foram aposentos que estavam mais para exterior do que o interior da casa, sua personalidade eliminada pela umidade, pelo vento e pelas camadas de terra. O andar térreo era um caso perdido. Voltei para a escadaria, sabendo que dessa vez eu teria de usá-la. A única questão era: para cima ou para baixo? Um ponto contra subir eram suas opções limitadas para uma fuga rápida — de invasores ou fantasmas, ou o que quer que minha mente ansiosa pudesse inventar —, além de me atirar de uma janela do andar de cima. Lá embaixo havia o mesmo problema, com o agravante de ser escuro, e eu não tinha uma lanterna. Por isso subi.
Os degraus protestaram contra meu peso com uma sinfonia de rangidos e estalos, mas eles se mantiveram firmes, e o que descobri lá em cima — pelo menos em comparação com o térreo bombardeado — era como uma cápsula do tempo. Dispostos ao longo de um corredor com papel de parede listrado descascando, os quartos estavam em um estado surpreendentemente bom.
Apesar de um ou dois terem sido tomados por bolor onde uma janela quebrada deixara entrar a chuva, o restante estava cheio de coisas que pareciam a apenas uma ou duas camadas de poeira de serem consideradas novas: uma camisa mofada jogada descuidadamente sobre as costas de uma cadeira, moedas espalhadas sobre uma mesa de cabeceira — tudo como as crianças haviam deixado, como se o tempo tivesse parado na noite em que eles morreram.
Fui de aposento a aposento, examinando o conteúdo como um arqueólogo.
Havia brinquedos de madeira mofando em uma caixa, lápis de cor no parapeito de uma janela, suas cores esmaecidas pela luz de dez mil tardes; uma casa de bonecas com bonecas dentro, condenadas em uma prisão enfeitada. Em uma biblioteca modesta, o avanço da umidade empenara as prateleiras e as transformara em sorrisos estranhos. Passei o dedo pelas lombadas gastas dos livros, como se considerasse pegar um deles para ler. Havia clássicos como Peter Pan O jardim secreto, histórias escritas por autores esquecidos pela História, livros didáticos de latim e grego. No canto, havia algumas carteiras agrupadas.
Aquela era a sala de aula das crianças, eu me dei conta, e a srta. Peregrine tinha sido professora delas.
Tentei abrir um par de portas pesadas, girando a maçaneta de um lado para o outro, mas elas estavam emperradas, então me afastei, corri e as golpeei com o ombro. Elas se abriram com um rangido rouco e agudo, e eu caí de cara no quarto ao lado. Enquanto me levantava, olhando ao redor, me dei conta de que ele só podia ter pertencido à srta. Peregrine. Parecia um quarto no castelo da Bela Adormecida, com velas cobertas por teias de aranhas em candelabros nas paredes, uma penteadeira com espelho repleta de frascos de cristal e uma gigante cama de carvalho. Imaginei a última vez em que ela estivera ali, saindo de baixo das cobertas no meio da noite ao ouvir o som agudo de uma sirene de ataque aéreo, reunindo as crianças, todas zonzas, e pegando casacos e máscaras de gás enquanto desciam as escadas.
Perguntei a mim mesmo se meu avô tivera medo. Será que ele ouviu os aviões chegando?
Comecei a me sentir estranho. Imaginei estar sendo observado; imaginei que as crianças ainda estavam ali, preservadas como o Garoto do Pântano, dentro daquelas paredes. Podia senti-las me espiando através de frestas e buracos na madeira.
Segui até o próximo quarto. Pela janela entrava uma luz fraca. Pétalas de papel de parede azul-clarinho pendiam na direção de duas camas pequenas, ainda arrumadas com lençóis empoeirados. De algum modo eu soube que aquele tinha sido o quarto de meu avô. Por que ele me mandou para cá? O que queria que eu visse?
Notei algo embaixo de uma das camas e me ajoelhei para ver. Era uma mala velha.
É sua? Era isso que você levava no trem na última vez em que viu sua mãe e seu pai, quando sua primeira vida chegava ao fim.
Eu a tirei dali, mexendo em suas gastas correias de couro. Ela se abriu facilmente, mas, exceto por uma família de besouros mortos, estava vazia.
Também me senti vazio, e estranhamente pesado, como se o planeta estivesse girando rápido demais, tornando a gravidade mais forte, puxando-me para o chão. Subitamente exausto, eu me sentei na cama — talvez a cama dele — e, por razões que não sei bem explicar, estiquei-me sobre os lençóis imundos e fiquei olhando para o teto.
Sobre o que pensava deitado aqui à noite? Também tinha pesadelos?
Comecei a chorar.
Quando seus pais morreram, você soube? Você os sentiu partir?
Chorei com mais força. Eu não queria, mas não consegui evitar.
Não consegui evitar, por isso pensei em todas as coisas ruins e as alimentei até estar chorando com tanta força que arfava sem fôlego entre soluços. Pensei em como meus bisavós tinham morrido de fome. Pensei em seus corpos enfraquecidos jogados em incineradores porque pessoas que eles não conheciam os odiavam. Pensei em como as crianças que viviam naquela casa tinham sido queimadas e mandadas para o ar em pedaços porque um piloto que não dava a mínima importância tinha apertado um botão. Pensei sobre como a família de meu avô tinha sido tirada dele e como, por causa disso, meu pai crescera sentindo que não tinha um pai, e agora eu estava com estresse agudo e pesadelos, e sentado sozinho e chorando em uma casa caindo aos pedaços, molhando a camisa com lágrimas quentes e estúpidas. Tudo por causa de uma ferida de setenta anos que, de alguma forma, tinha sido transmitida para mim como uma herança venenosa, e de monstros que eu não podia enfrentar porque já estavam todos mortos, impossíveis de matar ou castigar — estavam além de qualquer tipo de ajuste de contas. Pelo menos meu avô tinha sido capaz de se alistar no exército e combatê-los. O que eu podia fazer?
Quando parei de chorar, minha cabeça latejava. Fechei os olhos e os apertei com os nós dos dedos para que parassem de doer, nem que por apenas um instante, e quando finalmente liberei a pressão e tornei a abri-los uma mudança aparentemente milagrosa ocorrera no quarto: havia um raio de sol solitário brilhando através da janela. Eu me levantei e fui até o vidro rachado, constatando que lá fora chovia e fazia sol ao mesmo tempo, uma pequena bizarrice meteorológica que ninguém parece concordar qual a melhor forma de denominá-la. Minha mãe, não estou brincando, chama isso de “lágrimas de órfãos”. Então eu me lembrei de que Ricky dizia que aquilo era “o diabo batendo na mulher” e comecei a rir, sentindo-me um pouco melhor.
Na faixa de sol que rapidamente se esvaía e atravessava o quarto, percebi algo que não havia notado antes. Era um baú, ou pelo menos a ponta de um, que se projetava de sob a segunda cama. Fui até lá e me ajoelhei à sua frente, depois puxei a coberta da cama que escondia a maior parte dele.
Era um baú grande, fechado com um cadeado gigante e enferrujado. Ele não podia de jeito nenhum estar vazio. Não se tranca um baú vazio. Abra-me!, parecia gritar, enfeitiçando-me. Estou cheio de segredos!
Eu o agarrei pelas laterais e o puxei. Ele não se mexeu. Puxei outra vez, com mais força, mas ele não cedeu nem um centímetro. Não tinha certeza de se era apenas pesado ou se gerações de umidade e poeira acumuladas de algum  modo o haviam grudado ao chão. Fiquei de pé e o chutei algumas vezes, o que pareceu lhe dar movimento, então consegui arrastá-lo, puxando um lado de cada vez, como se faz para mover um fogão ou uma geladeira, até que ele saiu todo de baixo da cama, deixando pelo chão uma trilha de marcas em forma de parêntesis. Puxei com força o cadeado, e, apesar da grossa camada de ferrugem, pareceu sólido como rocha. Por um instante pensei em procurar a chave pela casa — ela devia estar lá em algum lugar —, mas eu poderia facilmente perder horas procurando, e o aspecto bem deteriorado do cadeado me fez achar que a chave nem funcionaria. Minha única opção era arrombá-lo.
Procurei ao redor por algo que pudesse fazer o serviço e encontrei uma cadeira quebrada em um dos outros quartos. Arranquei uma perna e voltei para arrebentar o cadeado. Ergui a perna acima da cabeça, como um carrasco, e bati várias vezes com toda a minha força até que a própria perna quebrou e fiquei só com um toco cheio de farpas.
Examinei o quarto em busca de algo mais forte e logo vi uma barra de ferro da cama solta. Depois de alguns chutes vigorosos, ela caiu no chão. Enfiei uma ponta no cadeado e puxei a outra para trás. Nada aconteceu.
Eu me pendurei nela com todo o meu peso sobre um dos pés, tirando o outro do chão como se fizesse uma alavanca. O baú rangeu um pouco, e foi só.
Comecei a ficar com raiva. Chutei o baú e puxei a barra de metal com toda a força que me restava. As veias de meu pescoço se incharam enquanto eu gritava Abre, baú maldito! Abre, baú desgraçado!, porque finalmente minha frustração e raiva tinham um objeto: e, se eu não tinha conseguido fazer com que meu avô morto revelasse seus segredos, ia arrancar esses mesmos segredos daquele baú velho. Então a barra escorregou e eu caí no chão sem fôlego.
Fiquei ali parado, olhando para o teto enquanto recuperava o ar. As lágrimas dos órfãos tinham cessado e agora era apenas a chuva do lado de fora, mais forte do que nunca. Pensei em voltar à cidade para buscar uma marreta ou uma serra, mas isso só resultaria em perguntas que eu não queria responder.
Foi quando tive uma ideia brilhante. Se pudesse encontrar um modo de quebrar o baú, não teria nem de me preocupar com o cadeado. E o que poderia ser mais forte do que eu e meus músculos superiores subdesenvolvidos para lutar com um baú, usando ferramentas improvisadas? Gravidade. Eu estava, afinal de contas, no segundo andar da casa. Não achei que conseguiria levantar o baú alto o suficiente para jogá-lo por uma janela, mas a balaustrada no alto da escada, feita para evitar que pessoas caíssem e morressem, havia muito tempo tinha desmoronado. Tudo o que eu precisava fazer era arrastar o baú pelo corredor e empurrá-lo lá para baixo! Se seu conteúdo sobreviveria ao impacto, era outra questão, mas pelo menos eu descobriria o que havia lá dentro, de um jeito ou de outro.
Eu me agachei atrás do baú e comecei a empurrá-lo na direção do corredor. Após alguns centímetros, seus pés de metal penetraram no chão macio e ele empacou. Sem me deter, dei a volta e fui até o outro lado, agarrei o cadeado com as duas mãos e puxei com força, e para minha grande surpresa ele se moveu quase um metro de uma vez. Não era um modo especialmente glamoroso de trabalhar, agachado daquele jeito e com o traseiro para o alto, forçado a repetir o movimento diversas vezes. E cada arrastada no baú era acompanhada de um ruído de metal na madeira capaz de arrebentar os tímpanos, mas em pouco tempo consegui tirá-lo do quarto, centímetro a centímetro, passando de porta em porta, até as escadas. Eu me perdi nos ecos daquele trabalho cadenciado, e logo estava coberto por uma viril camada de suor.
Finalmente cheguei ao topo da escada e, com um gemido final e nada delicado, puxei o baú até lá. Agora ele deslizava com facilidade e com apenas alguns puxões ficou precariamente equilibrado na extremidade ponta do degrau; um último empurrãozinho seria o bastante para mandá-lo lá para baixo. Mas eu queria vê-lo se espatifar — minha recompensa por todo aquele trabalho —, por isso me levantei e me arrastei com cuidado até a beirada, de onde conseguia avistar o chão no espaço sombrio lá embaixo. Prendendo a respiração, dei com o pé um último toquinho no baú.
Ele hesitou por um instante, oscilante à beira de seu fim, mas depois mergulhou com decisão para a frente e caiu, virando seguidamente de ponta-cabeça numa bela coreografia em câmera lenta. Então ouviu-se um barulho tremendo, que ecoou e pareceu fazer a casa inteira estremecer, e uma nuvem de poeira me atingiu vinda lá de baixo. Recuei um pouco no corredor, tossindo enquanto a nuvem se dissipava. Um minuto depois voltei e olhei lá para baixo, onde o baú havia caído, e vi não a pilha de madeira despedaçada que eu esperava com tanto carinho, mas um buraco irregular nas tábuas do piso no formato de um baú. Ele tinha caído direto no porão.
Desci pelas escadas e me deitei de bruços na extremidade do buraco no chão como se me inclinasse para um orifício feito no gelo. Cinco metros abaixo, em meio à poeira e à escuridão difusas, vi o que restara do baú. Ele tinha se espatifado como um ovo gigante, os pedaços todos misturados em meio a uma pilha aleatória de entulho e tábuas quebradas do piso. Espalhados por toda a parte havia o que pareciam ser pedaços de papel. Tinha, finalmente, encontrado uma pilha de cartas!
Apertando os olhos, consegui vislumbrar as imagens inscritas sobre os papéis — rostos e corpos —, e me dei conta de que não eram cartas, mas fotografias. Dezenas delas. Fiquei empolgado, mas logo desanimei, porque um pensamento terrível me ocorreu.
Preciso ir lá embaixo.

* * *

O porão era um labirinto complexo de ambientes tão escuros que faria pouca diferença se os tivesse explorado com os olhos vendados. Desci um lance barulhento de escadas e parei por um momento quando cheguei ao fim, torcendo para que meus olhos conseguissem se adaptar, mas era o tipo de escuridão à qual não era possível nenhum tipo de adaptação. Eu também esperava me acostumar com o cheiro, porque fedia lá embaixo, um odor estranho, acre, como o interior do armário de produtos químicos de um laboratório escolar, mas não tive essa sorte. Então comecei a andar devagar, arrastando os pés lentamente, a gola da camisa levantada por cima do nariz e as mãos estendidas à frente, e torci para que tudo desse certo.
Tropecei e quase caí. Alguma coisa de vidro saiu rolando e chacoalhando pelo chão invisível. O fedor só parecia piorar.
Comecei a imaginar coisas espreitando na escuridão diante de mim. Nada de monstros e fantasmas — e se tivesse outro buraco no chão? Jamais encontrariam meu corpo.
Mas percebi, numa grande sacada de gênio, que se ligasse uma tela branca de algum menu do celular que eu tinha no bolso, mesmo estando a vinte quilômetros da barrinha de sinal mais próxima, eu teria uma lanterna fraca.
Apontei o aparelho para a frente. A luz mal penetrou a escuridão. Então apontei para o chão, onde só vi fragmentos de piso e cocô de rato. Apontei para o lado e vislumbrei um leve reflexo.
Dei um passo na direção do brilho e girei meu telefone ao redor, e do meio da escuridão surgiu uma parede com prateleiras repletas de potes de vidro. Eram de todas as formas e tamanhos, cobertos de poeira e cheios de coisas gelatinosas suspensas num líquido nebuloso. Pensei na cozinha e nos vidros em pedaços de frutas e legumes que havia encontrado lá. Talvez a temperatura fosse mais estável no subsolo e por isso aqueles tinham sobrevivido à explosão.
Aproximei-me ainda mais e olhei com mais atenção, percebendo que não eram frutas e legumes afinal de contas, mas sim órgãos. Cérebros. Corações. Pulmões. Olhos. Todos conservados em alguma espécie de formol caseiro, o que explicava aquele fedor terrível. Dei um grito e me afastei deles indo para o escuro, enojado e intrigado ao mesmo tempo. Que espécie de lugar era aquele?
Aqueles vidros eram algo que se esperaria encontrar no porão de uma escola de medicina picareta, não numa casa cheia de crianças. Se não fosse pelas coisas maravilhosas que meu avô contara sobre aquele lugar, eu desconfiaria de que a srta. Peregrine acolhia crianças apenas para roubar os órgãos delas.
Eu me recuperei um pouco e ergui os olhos para ver outra luz à minha frente, não um reflexo do meu telefone, mas um fraco tremeluzir de luz do dia.
Devia vir do buraco que eu fizera. Avancei, respirando através da gola levantada da camisa e tentando me manter afastado das paredes e das outras surpresas aterrorizantes que podiam me aguardar, até que a luz me conduziu a uma porta e uma saleta com partes do teto desmoronadas.
A luz do dia entrava pelo buraco e caía sobre um monte de tábuas de piso despedaçadas e vidro quebrado do qual se erguiam colunas de densa poeira rosada. Também havia pedaços de carpete rasgado espalhados como se fossem nacos de carne-seca. Por baixo do entulho ouvi o barulho de patinhas correndo, algum roedor adaptado à escuridão que sobrevivera à implosão de seu mundo.
No meio daquilo tudo estava o baú destroçado, em posição de destaque acima de lascas de madeira e tábuas cheias de pregos enferrujados. Eu me ajoelhei e comecei a tentar resgatar o que conseguia daquela pilha. Senti como se trabalhasse num resgate, salvando rostos dos destroços, limpando vidro e madeira podre, e, apesar de parte de mim querer sair correndo — não havia como dizer se ou quando o resto do chão podia desmoronar na minha cabeça —, não conseguia parar de olhar para as fotografias.
Numa primeira impressão, pareciam o tipo de retrato que se encontrava em qualquer álbum de família antigo: havia fotos de gente dando cambalhotas na praia e sorrindo na varanda diante do quintal, paisagens da ilha e muitas crianças, posando sozinhas e em duplas, retratos formais e informais tirados diante de painéis colocados ao fundo, os retratados segurando bonecas de olhos inexpressivos, como se estivessem se preparando para fotos glamorosas em algum shopping center apavorante da virada do século. Mas o que achei realmente assustador não foram as bonecas zumbis ou os cortes de cabelo estranhos das crianças, ou ainda como pareciam não sorrir nunca: quanto mais examinava as fotos, mais familiares me pareciam. Elas compartilhavam o mesmo ar de pesadelo das velhas fotos de meu avô, especialmente as que ele guardara escondidas no fundo de sua caixa de charutos, como se de algum modo todas viessem do mesmo lote.
Havia, por exemplo, uma foto de duas moças posando em frente a um fundo mal pintado de uma paisagem oceânica. Nada de muito estranho em especial. O que incomodava era como estavam posando. As duas estavam de costas para a câmera. Por que você se daria ao trabalho de tirar um retrato — naquela época as fotografias eram uma coisa cara — para na hora virar as costas para a câmera? Estava quase certo de acabar achando naqueles destroços outra foto das duas garotas, agora de frente, revelando esqueletos sorridentes no lugar de rostos.
Outras fotos pareciam manipuladas de um jeito bem similar a algumas de meu avô. Em uma delas, uma garota sozinha num cemitério olhava para um lago e via-se o reflexo de duas garotas. Ela me lembrava a foto do vovô Portman da garota “presa” numa garrafa, mas, qualquer que fosse a técnica de laboratório que tivesse sido usada, o resultado era muito tosco. Havia outra de um rapaz perturbadoramente calmo cuja parte superior do tronco parecia coberta por um enxame de abelhas. Aquilo seria bem fácil de forjar, não? Como aquela foto de meu avô do garoto erguendo uma rocha. Pedras falsas, abelhas falsas.
Apesar dessa conclusão, os pelos da minha nuca começaram a se arrepiar quando me lembrei de algo que vovô Portman dissera sobre um menino que morava com ele ali na mesma época, um menino que tinha abelhas e vespas vivendo dentro dele. Vovô dizia que algumas saíam voando quando ele abria a boca, mas nunca picavam, a menos que ele quisesse.
Eu só podia pensar em uma explicação. As fotos de meu avô tinham vindo daquele mesmo baú que jazia espatifado à minha frente. Mas eu não tinha certeza, até que encontrei uma foto de dois garotos esquisitos fantasiados, com colarinhos desmanchados, que pareciam alimentar um ao outro com uma espiral de fita. Eu não sabia exatamente o que eles eram, além de combustível para pesadelos bizarros. O que poderiam ser? Dançarinos sadomasoquistas? Mas não havia dúvida de que vovô Portman tinha um retrato daqueles dois garotos. Eu o vira em sua caixa de charutos menos de dois meses atrás.
Não podia ser coincidência, o que significava que as fotos que meu avô havia me mostrado — que ele jurava serem de crianças que conhecera naquela casa — tinham mesmo vindo dali. Mas será que isso queria dizer que, apesar das desconfianças que eu tinha, mesmo com oito anos de idade, as fotos eram autênticas? E as histórias fantásticas que as acompanhavam? Qualquer uma delas ser verdadeira, literalmente verdadeira, era algo que parecia impossível. Mesmo assim, parado ali, na penumbra empoeirada do porão daquela casa morta que parecia tão cheia de fantasmas, quem sabe...





De repente houve um estrondo de algum lugar na casa em cima de mim, e me assustei tanto que todas as fotografias caíram da minha mão.
É só a casa assentando, disse para mim mesmo — ou desabando! Mas, quando me abaixei para recolher as fotos, o estrondo veio novamente e, em um instante, a luz que brilhava fracamente pelo buraco no chão desapareceu, e me peguei engatinhando no breu.
Ouvi passos acima de mim, depois vozes, e me esforcei para reconhecer uma delas. Não ousei me mexer, com medo de que o menor dos movimentos deflagrasse uma avalanche barulhenta de destroços em toda a minha volta. Sabia que meu medo era irracional; provavelmente eram apenas aqueles estúpidos garotos rappers tentando me pregar outra peça, mas meu coração batia a uns cem quilômetros por hora, e algum instinto animal profundo me mandou ficar em silêncio. Então esperei.
Congelado numa estranha posição acocorada, minhas pernas começaram a ficar dormentes. No maior silêncio possível, passei a mudar meu peso de um pé para o outro, tentando fazer o sangue voltar a circular. Um pequeno pedaço de alguma coisa se soltou e desceu rolando a pilha, fazendo um barulho que parecia enorme no silêncio. As vozes se reduziram a sussurros. Uma tábua do piso rangeu bem acima de mim e uma pequena chuva de gesso caiu em minha cabeça.
Quem quer que estivesse lá em cima sabia exatamente onde eu estava.
Prendi a respiração.
Então ouvi uma voz de menina dizer baixinho:
— Abe? É você?
Achei que estivesse sonhando. Queria responder, mas estava tão completamente paralisado que parecia preso. Esperei que a garota falasse outra vez, mas por um longo instante se ouvia apenas o som da chuva caindo sobre o telhado, como milhares de dedos tamborilando em algum lugar ao longe. Então uma lanterna surgiu reluzente lá em cima, e estiquei o pescoço para ver meia dúzia de garotos ajoelhados em volta das mandíbulas recortadas na superfície em ruínas, olhando para baixo.
De algum modo, eu os reconheci, mas não sabia de onde eram, como se fossem rostos de um sonho de que não nos lembramos direito. Onde será que eu os vira antes? E como eles sabiam o nome do meu avô?
Então eu entendi. As roupas deles eram estranhas mesmo para o País de Gales. Tinham rostos sérios e pálidos. Os retratos espalhados no chão ao meu redor olhavam para mim do mesmo modo que os garotos lá em cima. De repente, compreendi.
Eu os vira nas fotografias.
Abri a boca para falar, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, um deles, a menina, se levantou para me ver melhor. Ela trazia nas mãos uma luz tremeluzente, que não era uma lanterna ou uma vela, parecendo mais uma bola de puro fogo, protegida por nada além da pele. Eu havia visto seu retrato cinco minutos antes, e ela tinha mais ou menos a mesma aparência que agora; tinha até a mesma luz estranha aninhada entre as mãos.
Sou Jacob, quis dizer. Estive procurando por você. Mas fiquei de boca aberta e tudo o que pude fazer foi encará-la.
A expressão da garota tornou-se aborrecida. Meu aspecto era horrível, molhado de chuva e coberto de poeira, agachado sobre um monte de destroços como o último sobrevivente de algum cataclismo. O que quer que ela e os outros garotos estivessem esperando encontrar dentro daquele buraco no chão, não era aquilo.
Um murmúrio circulou entre eles, que se levantaram e foram embora. O movimento repentino destravou alguma coisa em mim, e reencontrei minha voz, gritando para que esperassem, mas eles já pisoteavam as tábuas do assoalho na direção da porta. Saí correndo por cima dos destroços, tropeçando às cegas pela escuridão do porão até a escada, mas quando cheguei lá em cima, onde a luz do dia, desaparecida, de algum modo havia voltado, eles tinham sumido da casa.
Saí de lá e desci correndo os degraus arruinados até o gramado, aos gritos de Esperem! Parem!, mas eles haviam desaparecido. Ofegante, examinei o quintal e a floresta enquanto praguejava.
De repente, ouvi um estalo vindo do meio das árvores. Caminhei naquela direção para espiar, e através de uma tela de galhos vislumbrei um movimento indefinido, a barra de um vestido branco. Era ela. Entrei correndo na floresta, atrás dela, que se virou, olhou para mim e depois saiu correndo pela trilha.
Eu saltava por cima de troncos caídos e me abaixava para passar sob galhos em uma velocidade assustadora, perseguindo-a até que minhas pernas começaram a queimar. Ela continuava tentando me despistar, trocando sem parar a trilha pelo meio da floresta, onde não havia caminho. Finalmente a mata terminou e saímos na charneca aberta. Vi ali minha chance. Agora não havia mais lugar onde ela pudesse se esconder. Para alcançá-la, eu só precisava aumentar a velocidade, e, como eu estava de tênis e jeans, e ela de vestido, não seria páreo para mim. Mas, quando eu começava a me aproximar, ela mudou de direção de repente e entrou no terreno pantanoso. Não tive alternativa exceto segui-la.


Correr ficou impossível. Não dava para confiar no solo. Ele me faltava a toda hora, e eu me via afundando até o joelho na lama mole e profunda da charneca, que encharcava minhas calças e sugava minhas pernas de modo obsceno. A menina, entretanto, parecia saber exatamente onde pisar, e foi se afastando de mim até desaparecer em meio à neblina, deixando apenas suas pegadas como rastro.
Depois que ela me despistou, achei que as pegadas me levariam de volta à trilha, mas elas apenas se embrenhavam cada vez mais na charneca. Quando o nevoeiro se fechou às minhas costas e eu não conseguia mais ver a trilha, comecei a me perguntar se eu seria capaz de encontrar a saída. Tentei chamá-la:
— Meu nome é Jacob Portman! Sou neto de Abe! Não vou machucar você! — Mas a neblina e a lama pareciam engolir minha voz.
Então surgiu uma pilha de pedras à minha frente. Parecia um grande iglu cinza, mas na verdade era um cairn, uma das tumbas neolíticas que deram nome a Cairnholm, que se erguia da lama sobre um pequeno tufo de grama. As pegadas da garota conduziam diretamente até lá.
cairn era um pouco mais alto que eu, longo e estreito, com uma abertura retangular em um dos lados, como uma porta. Subindo do lamaçal para a superfície relativamente sólida que o cercava, percebi que era na verdade a entrada para um túnel que passava pelo interior do cairn. Havia linhas entrelaçadas e espirais gravadas nas paredes, hieróglifos antigos cujo significado tinha se perdido no tempo. Aqui jaz o Garoto do Pântano, pensei. Ou, mais provavelmente: Vós, que entrais aqui, deixai toda a esperança...
Mas entrei, porque era para lá que seguiam as pegadas da garota. Dentro, o túnel do cairn era úmido, estreito e profundamente escuro, e tão apertado que eu só conseguia me mover para a frente em uma espécie de passo de caranguejo dado por um corcunda. Fiquei grato, de repente, pelo fato de espaços apertados não serem uma das muitas coisas que me apavoravam.
Imaginando a menina assustada e trêmula em algum lugar adiante, conversava com ela à medida que avançava, fazendo o possível para lhe assegurar de que eu não queria fazer nenhum mal. Minhas palavras voltavam fortes até mim em um eco desorientador. E, justo quando minhas coxas começavam a latejar devido à postura bizarra que eu tinha sido forçado a adotar, o túnel se abriu em uma câmara, escura como breu, mas grande o bastante para que eu conseguisse ficar de pé e esticar os braços para os dois lados sem tocar em uma parede.
Peguei meu celular e mais uma vez o usei como lanterna. Não precisei de muito tempo para avaliar o local. Era uma câmara pequena e simples, de paredes de pedra, mais ou menos do tamanho do meu quarto, e estava completamente vazia. Não havia nenhuma garota ali para ser achada.
Estava ali parado tentando descobrir como ela tinha conseguido escapar quando pensei em uma coisa, algo tão óbvio que me senti um idiota por ter demorado tanto para perceber aquilo. Nunca houve nenhuma garota. Eu a imaginara, e o resto deles também. Meu cérebro os havia invocado no momento exato em que eu olhava para as fotografias. E a escuridão repentina e inexplicável que precedera sua chegada? Será que eu tinha apagado?
De qualquer modo, era impossível. Aqueles garotos tinham morrido havia muitos anos. Mesmo que não tivessem, era ridículo acreditar que ainda teriam o mesmo aspecto de quando as fotos foram tiradas. Mas tudo aconteceu tão rapidamente que não tive tempo de parar e me perguntar se eu podia estar perseguindo uma alucinação.
Ri, porque já podia prever a explicação do dr. Golan: Aquela casa é um local tão carregado de emoções para você que só o fato de entrar lá desencadeou uma reação de estresse. É, ele era um babaca com todo aquele papo psicológico. O que não significa que estivesse errado.
Eu me virei para voltar, humilhado. Em vez de andar como um caranguejo, abandonei o que restava da minha dignidade e fui engatinhando, sobre as mãos e os joelhos, na direção da luz difusa que vinha da entrada do túnel. Quando ergui os olhos, percebi que já vira aquela imagem antes: no museu de Martin, em uma fotografia do lugar onde tinham descoberto o Garoto do Pântano. Era desconcertante pensar que em certa época as pessoas acreditavam que aquele descampado fedorento fosse um portal para o paraíso, e acreditavam com tal convicção que um garoto da minha idade estava disposto a abrir mão de sua vida para chegar lá. Que triste e estúpido desperdício.


Decidi então que queria ir para casa. Não me importava com as fotos no porão, e estava cansado de charadas, mistérios e últimas palavras. Ceder à obsessão de meu avô por tudo aquilo só havia piorado meu estado, não melhorado. Era hora de deixar para lá.
Eu me livrei do túnel apertado do cairn e saí para o exterior só para ser cegado pela luz. Protegi os olhos e vi por uma fresta entre os dedos um mundo que eu mal reconheci: a mesma charneca, a mesma trilha, tudo era o mesmo de antes, mas pela primeira vez desde a minha chegada eu estava banhado pela luz amarela e estimulante do sol, o céu de um azul glacê, sem qualquer vestígio, em lugar nenhum, da neblina esquisita que passara a definir aquela parte da ilha para mim. Também estava quente, mais para os dias de auge do verão do que para os de seu princípio, com sua brisa fresca. Como o tempo muda rápido por aqui!
Caminhei com dificuldade até a trilha, tentando ignorar a sensação da lama da charneca se esfregando contra a pele dentro de minhas meias, e tomei o rumo da cidade. Estranhamente, a trilha em si não tinha nenhuma lama, como se houvesse secado em apenas alguns minutos, mas tinha sido coberta por um bombardeio de montes de bosta de animal maiores que laranjas, de modo que eu não conseguia andar em linha reta por mais que alguns poucos segundos sem ter de desviar de um. Comecei a ficar preocupado: como eu não tinha percebido aquilo antes? Será que tinha passado toda a manhã em uma espécie de névoa psicótica? Será que estava no meio de uma agora?
Não tirei os olhos daquele tabuleiro de xadrez de cocô até chegar ao alto da colina e começar a descer rumo à cidade. Foi nesse momento que descobri de onde vinha toda aquela sujeira. No mesmo lugar da estradinha de cascalho onde pela manhã passava um batalhão de tratores arrastando carros cheios de peixe e placas de turfa para cima e para baixo da baía, agora os mesmos carros estavam sendo puxados por cavalos e mulas. O barulho ritmado de cascos substituíra o rugido de motores.
Também não havia o zumbido permanente dos geradores a diesel. Será que a cidade tinha ficado sem combustível nas poucas horas em que eu me ausentara? E onde os moradores da ilha tinham mantido escondidos todos aqueles grandes animais?
Mais uma coisa: por que todos eles estavam me olhando? Todo mundo com quem eu cruzava me encarava de olhos arregalados, parando o que quer que estivesse fazendo para me ver passar. Devo parecer tão louco quanto estou me sentindo, coberto de lama da cintura para baixo e de gesso da cintura para cima, por isso baixei a cabeça e andei o mais rápido que pude na direção do pub, onde ao menos eu podia me esconder no anonimato de sua penumbra até a chegada do meu pai para o almoço. Resolvi que, quando ele chegasse, eu lhe diria na hora que queria voltar para casa o mais rápido possível. Se ele hesitasse, eu admitiria que estava tendo alucinações, e com certeza partiríamos na primeira barca.
Dentro do Buraco havia o mesmo grupo de homens embriagados debruçados sobre copos grandes cheios de espuma, as mesmas mesas surradas e a decoração cafona que eu tinha começado a considerar minha casa-longe-de-casa.
Mas, quando me dirigia às escadas, ouvi uma voz desconhecida gritar:
— Aonde você pensa que vai?
Eu me virei, já com um pé no primeiro degrau, para ver o balconista me olhar de cima a baixo. Só que não era Kev. Era um sujeito mal-encarado e de cara redonda que eu não reconheci. Ele vestia um avental de balconista e tinha uma “monocelha” peluda e um bigode que pareciam taturanas e deixavam seu rosto listrado.
Eu podia ter dito: Vou lá em cima fazer as malas, e, se meu pai não quiser me levar para casa, vou fingir que estou tendo um ataque. Mas em vez disso respondi:
— Para o meu quarto. — Isso falado de um jeito que mais parecia uma pergunta que a afirmação de um fato.
— É mesmo? — disse ele, pousando o copo que estava enchendo. — Isso aqui, por acaso, parece um hotel para você?
Madeiras rangeram quando os fregueses viraram de seus bancos para me olhar. Examinei rapidamente o rosto deles. Nenhum era familiar.
Estou tendo um surto psicótico. Neste momento. É essa a sensação de um surto desses. Só que eu não tinha sintoma nenhum. Não via raios de luz, minhas mãos não suavam, nem nada assim. Era mais como se o mundo inteiro tivesse enlouquecido, não eu.
Disse ao barman que obviamente havia algum engano.
— Meu pai e eu estamos nos quartos do andar de cima — falei. — Olhe, tenho a chave — e a peguei do bolso como prova.
— Deixa eu ver isso — disse ele, inclinando-se sobre o balcão para apanhá-la da minha mão. Ergueu-a contra a luz fraca, olhando como se fosse uma joia.
— Essa chave não é nossa — resmungou, mas guardou-a no próprio bolso. — Agora me diga o que realmente quer lá em cima. E, desta vez, não minta!
Senti o rosto enrubescer. Nunca havia sido chamado de mentiroso por um adulto que não fosse meu parente antes.
— Já disse para você. Alugamos esses quartos! Pergunte para Kev se não acredita em mim!
— Não conheço nenhum Kev e não gosto de historinhas — disse ele friamente. — Não há quartos para alugar por aqui e o único que vive lá em cima sou eu!
Olhei ao redor esperando que alguém abrisse um sorriso e me deixasse entrar na brincadeira. Mas o rosto dos homens parecia de pedra.
— Ele é americano — observou um homem que ostentava uma barba prodigiosa. — Talvez do exército.
— Bobagem — resmungou outro. — Olhem para ele, é praticamente um feto!
— Mas e a capa de chuva dele? — disse o barbudo, estendendo a mão para beliscar a manga do meu casaco. — Deve ter dado um trabalhão para encontrar uma dessas numa loja. Exército... deve ser.
— Olhem — disse eu. — Não estou no exército e não estou querendo armar nada aqui! Só quero encontrar meu pai, pegar minhas coisas e...
— Americano o cacete! — berrou um sujeito gordo, desgrudando toda sua circunferência de um banco para se colocar entre mim e a porta, para onde eu estava lentamente recuando. — O sotaque dele parece falso, para mim. Aposto que é um espião alemão.
— Eu não sou espião — retruquei sem força. — Só estou perdido.
— Vamos resolver isso — disse ele com uma gargalhada. — Acho que a gente deve arrancar a verdade dele à moda antiga... com uma corda.
Gritos de concordância. Não sabia se eles estavam falando sério ou só me pregavam uma peça, mas eu não estava muito interessado em ficar ali para descobrir. Um resquício de instinto conseguiu se fazer presente através da confusão de meu cérebro: corra! Seria muito mais fácil tentar descobrir o que estava acontecendo sem um bar cheio de bêbados me ameaçando. Claro, sair correndo ia convencê-los de minha culpa, mas eu não me importava.
Tentei dar a volta no homem gordo.
Ele tentou me agarrar, mas lentidão e bebedeira não são páreo para velocidade e um medo desgraçado. Fingi que ia para a esquerda, então fintei e fiz a volta nele pela direita. Ele soltou um urro de raiva enquanto os outros homens se descolavam de seus bancos para se lançar atrás de mim, mas consegui escapar entre os dedos deles e saí correndo pela porta, para a tarde ensolarada.

* * *

Desci a rua correndo, deixando marcas profundas no cascalho. As vozes furiosas começaram a desaparecer às minhas costas. Resolvi virar de modo brusco na primeira esquina, para escapar do campo de visão deles. Cortei caminho por um quintal lamacento onde galinhas cacarejantes desviaram do meu caminho e depois segui por um terreno aberto, onde as mulheres que faziam fila para bombear água de um poço antigo olharam para mim quando passei voando. Um pensamento que não tive tempo de aprofundar surgiu na minha cabeça: Ei, onde foi parar a Mulher à Espera? Mas então cheguei a um muro baixo e tive de me concentrar para saltar por cima dele — apoie a mão, levante o pé e dê impulso —, aterrissando em uma trilha cheia de arbustos, quase sendo atropelado por uma carroça que vinha com pressa. O cocheiro gritou algo ofensivo sobre minha mãe enquanto o lombo do cavalo roçava meu peito e ele deixava marcas de cascos e de rodas a poucos centímetros de meus dedos dos pés.
Eu não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo comigo. Só compreendia duas coisas: que muito provavelmente estava em pleno processo de enlouquecimento e que precisava me afastar das pessoas até que pudesse compreender o que estava acontecendo. Para alcançar esse objetivo, saí correndo por um beco que seguia por trás de duas ruelas de cabanas, onde parecia haver muitos lugares para eu me esconder se precisasse, e alcancei os limites da cidade. Reduzi a velocidade para uma caminhada em ritmo acelerado, na esperança de que um garoto americano enlameado e desgrenhado que não corresse chamasse menos atenção.
O fato de cada barulhinho ou pequeno movimento me assustar não ajudava em nada minha tentativa de agir com naturalidade. Cumprimentei com a cabeça e um aceno de mão uma mulher que pendurava roupa no varal, mas, como todo o resto das pessoas, ela apenas olhou fixamente para mim. Apertei o passo.
Ouvi um ruído estranho atrás de mim, me agachei e entrei num banheiro externo pelo qual passava. Enquanto esperava ali, agachado atrás da porta semiaberta, meus olhos examinaram os rabiscos nas paredes.
Dooley é um veado que transa com carneiros.
O quê? Que falta de romance!
Por fim, um cachorro passou, seguido por um bando de filhotes de latido agudo. Soltei a respiração e comecei a relaxar um pouco. Depois, esforçando-me para manter a calma, saí outra vez para o beco.
Algo me agarrou de imediato pelos cabelos. Antes mesmo que eu tivesse a chance de gritar, uma mão veio de trás e apertou algo afiado contra minha garganta.
— Se gritar, corto você — disse uma voz.
Mantendo a lâmina em meu pescoço, a pessoa que me atacava me empurrou contra a parede do banheiro e fez a volta para me olhar de frente, e para minha enorme surpresa não era um dos homens do pub. Era a garota. Ela usava um vestido branco simples e tinha uma expressão severa no rosto extremamente belo, mesmo quando ela parecia pensar seriamente em arrancar a minha traqueia.
— O que é você? — sussurrou ela.
— Eu... hã... eu sou americano — gaguejei, sem muita certeza do que ela me perguntava. — Eu me chamo Jacob.
Ela apertou a faca com mais força contra a minha garganta, e sua mão começou a tremer. Ela estava com medo, e isso significava que era perigosa.
— O que estava fazendo na casa? — perguntou. — Por que você está me perseguindo?
— Eu só queria falar com você! — respondi. — Não me mate.
Ela me olhou fixamente, de cara amarrada.
— Falar comigo sobre o quê?
— Sobre a casa e sobre as pessoas que moraram lá.
— Quem o mandou aqui?
— Meu avô. O nome dele era Abraham Portman.
Ela ficou de queixo caído.
— Isso é mentira! — exclamou ela, os olhos flamejantes. — Acha que não sei quem você é? Não nasci ontem! Abra os olhos, deixe-me ver seus olhos!
— Eu sou mesmo neto dele! Estes são meus olhos!
Abri-os o máximo que pude.
Ela ficou na ponta dos pés e olhou fixamente dentro deles, então bateu o pé e gritou:
— Não, seus olhos verdadeiros! Esses falsos não me enganam mais que sua mentira ridícula sobre Abe!
— Não é mentira, e esses são meus olhos! — Ela apertava minha traqueia com tanta força que senti dificuldade para respirar. Agradeci pelo fato de a faca estar cega, ou sem dúvida ela teria tirado sangue. — Olhe, não sou quem quer que você ache que eu sou — resmunguei. — Posso provar.
A mão dela relaxou um pouco.
— Então prove, ou vou regar a grama com seu sangue!
— Tenho uma coisa bem aqui — disse, e enfiei a mão no casaco.
Ela deu um pulo para trás e gritou para que eu parasse, erguendo sua lâmina até que ela ficasse trêmula no ar, entre meus olhos.
— É só uma carta! — berrei. — Calma!
Ela baixou a lâmina de volta à minha garganta e eu saquei lentamente a carta e a foto da srta. Peregrine de meu casaco, estendendo-os para que ela visse.
— A carta é parte da razão que me trouxe até aqui — expliquei. — Foi meu avô quem me deu. É da Ave, é assim que vocês chamam sua diretora, não é?
— Isso não prova nada! — disse ela, apesar de mal ter olhado para a carta. — Diga-me apenas uma coisa. Como você sabe tanto sobre nós?
— Eu já falei, meu avô...
Ela arrancou a carta das minhas mãos.
— Não quero ouvir mais nem uma palavra dessa bobagem! — Aparentemente, eu tinha tocado em um ponto sensível. Ela ficou quieta por um instante, a expressão retorcida de frustração, como se estivesse decidindo a melhor maneira de se livrar do meu corpo após cumprir suas outras ameaças.
Mas, antes que ela pudesse encontrar uma solução, vieram sons da outra ponta do beco. Nós nos viramos para ver os homens do pub correndo em nossa direção, armados com porretes de madeira e ferramentas de fazenda.
— O que é isso? — perguntou ela. — O que você fez?
— Você não é a única pessoa que quer me matar!
Ela tirou a faca da minha garganta, mas a manteve ao lado do meu corpo, e depois me agarrou pela gola da camisa.
— Agora você é meu prisioneiro — anunciou ela. — E virá comigo.
Não discuti. Não sabia se minhas chances eram melhores nas mãos dessa garota desequilibrada ou nas do bando de bêbados com porretes que se aproximava espumando de raiva, mas pelo menos com ela eu achava que tinha a possibilidade de conseguir algumas respostas.
Ela me empurrou, e nós saímos correndo e pegamos um beco adjacente. A meio caminho do fim, ela desviou rapidamente para o lado e me puxou junto, e ambos nos agachamos embaixo de um varal cheio de lençóis e pulamos por cima de uma cerca de galinheiro que dava no quintal de um casebre.
— Aqui — murmurou ela e, olhando ao redor para se assegurar de que não havíamos sido vistos, me empurrou por uma porta para dentro de um barracão atulhado que cheirava a fumaça de turfa.
Não havia ninguém lá dentro, apenas um cachorro velho que dormia em cima de um sofá. Ele abriu um olho, sem dar muita importância ao que via, e voltou a dormir. Corremos até uma janela que dava para a rua e nos apertamos contra a parede ao seu lado. Ficamos ali parados à escuta, a garota tomando o cuidado de manter uma das mãos em meu braço e a faca encostada em mim.
Um minuto se passou. A voz dos homens pareceu sumir e então voltar outra vez; era difícil dizer onde estavam. Meus olhos percorreram o pequeno aposento. Ele parecia excessivamente rústico, mesmo para Cairnholm. Havia uma pilha bamba de cestos artesanais apoiada num canto. Uma poltrona forrada com aniagem diante de um grande fogão de ferro a carvão. Um calendário pendurado na parede em frente e, apesar de estar escuro demais para conseguir ler de onde estávamos, só o fato de olhar para ele despertou a centelha de um pensamento bizarro.
— Em que ano estamos? — perguntei à garota.
Ela me mandou calar a boca.
— Estou falando sério — sussurrei.
Ela me olhou com estranheza por um instante.
— Não sei o que você está armando, mas vá e veja você mesmo. — E me empurrou na direção do calendário.
A metade superior era uma foto em preto e branco de uma cena tropical: garotas de corpo inteiro, com franjas, sorridentes e usando roupas de banho de aspecto antigo em uma praia. Abaixo dela, havia as seguintes palavras: Setembro de 1940. Os dois primeiros dias do mês tinham sido riscados.
Uma dormência esquisita e distante tomou conta de mim. Considerei todas as coisas estranhas que eu tinha visto naquela manhã — a mudança estranha e repentina do tempo, a ilha que eu achava conhecer, agora povoada por pessoas estranhas; como o estilo de tudo ao meu redor parecia antigo, mas as coisas propriamente ditas eram novas. Tudo podia ser explicado pelo calendário na parede.
Três de setembro de 1940. Mas como?
E então me lembrei de uma das últimas coisas que meu avô me disse: Do outro lado da tumba do homem velho. Isso era algo que eu nunca conseguira entender. Durante um tempo eu me perguntei se ele estava se referindo a fantasmas — como todas as crianças que ele conhecera estavam mortas, eu teria de ir ao outro lado do túmulo para encontrá-las —, mas era poético demais. Meu avô era um homem de mente prática, não alguém que utilizava metáforas e segundas palavras. Ele tinha me dado instruções claras e diretas que simplesmente não tivera tempo de explicar: “o velho”, eu me dei conta, era o que os habitantes locais chamavam de Garoto do Pântano, e seu túmulo era o cairn. Mais cedo, naquele dia, eu havia entrado lá e saído em um lugar diferente: setembro de 1940.
Tudo isso passou pela minha cabeça durante o instante que levou para o aposento virar de cabeça para baixo e meus joelhos cederem sob meu corpo, e tudo desaparecer em uma escuridão pulsante e aveludada.

* * *

Acordei no chão, com as mãos amarradas ao fogão de ferro. A garota caminhava, inquieta, e parecia estar envolta em uma conversa animada consigo mesma. Mantive os olhos fechados por quase todo o tempo e escutei.
— Ele deve ser um acólito — dizia ela. — Por que mais estaria xeretando a casa como se fosse um ladrão?
— Eu não tenho a menor ideia — disse outra pessoa. — E parece que ele também não. — Então, afinal de contas, ela não conversava sozinha, ainda que, do lugar onde eu estava deitado, não conseguisse ver o rapaz que tinha falado. — Você disse que ele nem percebeu que estava em uma fenda do tempo?
— Veja por si mesmo — disse ela, gesticulando em minha direção. — Você pode imaginar qualquer parente de Abe não saber de nada como esse aí?
— E você pode imaginar um acólito? — disse o rapaz.
Virei levemente a cabeça para examinar o lugar, mas mesmo assim não o vi.
— Posso imaginar um acólito fingindo isso — retrucou a garota.
O cachorro, agora acordado, aproximou-se trotando e lambeu meu rosto.
Apertei bem os olhos e tentei ignorá-lo, mas o banho de língua que ele me deu foi tão melado que acabei tendo de me levantar só para escapar dele.
— Ora, veja quem está de pé! — disse a garota. Ela bateu palmas em um aplauso sarcástico. — Foi uma atuação e tanto a sua mais cedo. Gostei especialmente do desmaio. Tenho certeza de que o teatro perdeu um grande ator quando, em vez disso, você decidiu se dedicar ao assassinato e ao canibalismo.
Abri a boca para defender minha inocência e parei quando percebi uma xícara flutuando em minha direção.
— Tome um pouco d’água — disse o rapaz. — Não queremos que você morra antes de levá-lo para ver a diretora, não é?
A voz dele parecia surgir do ar. Quando fui pegar a xícara, meu dedinho esbarrou em algo invisível e eu quase a deixei cair.
— Ele é desajeitado — disse o rapaz.
— Você é invisível — retruquei.
— Você tem razão. Millard Nullings, às suas ordens.
— Não diga seu nome a ele! — gritou a garota.
— E essa é Emma — prosseguiu ele. — Ela é um pouco paranoica, o que, tenho certeza, você já percebeu.
Emma ficou olhando para ele, ou para o espaço que eu imaginava ser ocupado por ele, mas não disse nada. A xícara tremeu na minha mão. Iniciei outra tentativa atabalhoada de me explicar, mas fui interrompido por vozes raivosas vindas do lado de fora da janela.
— Silêncio! — sussurrou Emma. Os passos de Millard foram até a janela, e as persianas se abriram um centímetro.
— O que está acontecendo? — perguntou ela.
— Eles estão vasculhando as casas — respondeu ele. — Não podemos ficar aqui por muito mais tempo.
— Bem, também não podemos sair!
— Acho que talvez a gente possa — disse ele. — Mas, só para garantir, deixe-me consultar meu livro.
As persianas se fecharam outra vez e eu vi um caderninho com capa de couro erguer-se de uma mesa e se abrir em pleno ar. Millard cantarolava enquanto o folheava. Um minuto mais tarde ele fechou o caderno num golpe.
— Como eu desconfiava! — disse ele. — Só precisamos esperar um minuto, mais ou menos, e aí poderemos sair direto pela porta.
— Você está louco? — disse Emma. — Logo teremos cinco sujeitos em cima de nós com tijolos e porretes!
— Não se formos menos interessantes do que o que está prestes a acontecer — respondeu ele. — Eu lhe garanto que essa será a melhor oportunidade que teremos em horas.
Ele não falou mais nada. Fui desamarrado do fogão e conduzido até a porta, onde nos agachamos e ficamos à espera. Então, lá de fora, veio um barulho ainda mais alto do que os gritos dos homens: motores. Dúzias, pelo som que faziam.
— Ah, Millard, isso é brilhante! — disse Emma.
Ele torceu o nariz.
— E você disse que meus estudos eram uma perda de tempo.
Emma pôs a mão na maçaneta e depois se virou para mim.
— Segure meu braço. Não corra. Aja como se nada tivesse acontecido. —
Ela guardou a faca, mas me garantiu que, se eu tentasse fugir, tornaria a vê-la um instante antes de ser morto por ela.
— Como posso saber que você não vai fazer isso de qualquer jeito? — perguntei.
Ela pensou por um instante.
— Não pode — retrucou. E então empurrou e abriu a porta.

* * *

A ruela lá fora estava cheia de gente, não só os homens do pub, que vi imediatamente no fim do quarteirão, mas comerciantes, mulheres e cocheiros de rosto fechado que haviam parado o que faziam para ficar no meio da estrada e esticar o pescoço na direção do céu, onde lá em cima, não muito longe, um esquadrão de caças nazistas roncava em perfeita formação. Eu tinha visto fotos de aviões como aqueles no museu de Martin, em uma vitrine intitulada Cairnholm sitiada. Como devia ser desesperador ver de repente, no meio de uma tarde que seria comum, surgirem no céu máquinas de morte inimigas que podiam fazer chover fogo sobre você a qualquer momento.
Atravessamos a rua tão despreocupadamente quanto conseguimos, com Emma segurando meu braço com uma pressão mortal. Quase conseguimos chegar à ruela do outro lado antes que alguém finalmente nos visse. Ouvi um grito, nos viramos e vimos um homem partir em nossa direção.
Começamos a correr. A ruela era estreita e com estábulos de ambos os lados. Tínhamos percorrido metade dela quando ouvi Millard dizer:
— Vou ficar para trás e fazê-los tropeçar! Me encontrem atrás do pub em exatamente cinco minutos e meio!
Os passos deles foram desaparecendo às nossas costas e, quando chegamos ao fim do beco, Emma me deteve, olhamos para trás e vimos uma corda se desenrolar sozinha e flutuar acima do cascalho na altura do tornozelo. Ela se esticou justo no momento em que a turba a alcançou. Eles caíram de cara na lama, um sobre o outro, uma pilha emaranhada de membros se mexendo.
Emma soltou um grito de comemoração, e eu tive quase certeza de ouvir o riso de Millard.


Continuamos a correr. Eu não sabia por que Emma concordara em encontrar Millard no Buraco do Padre, já que ficava na direção da baía, e não da casa, mas, como eu tampouco podia explicar como Millard sabia exatamente quando aqueles aviões iam passar voando, não me dei ao trabalho de perguntar.
Porém, fiquei ainda mais atônito quando, em vez de darmos a volta no pub escondidos, todas as nossas esperanças de passar despercebidos se esvaíram com Emma me empurrando direto pela porta da frente.
Não havia ninguém lá dentro além do barman. Eu me virei e escondi o rosto.
— Barman! — disse Emma. — A que horas vocês começam a servir cerveja aqui? Estou com mais sede que uma maldita sereia!
Ele riu.
— Não temos o hábito de servir garotinhas — disse ele.
— Não importa! — gritou ela, dando um tapa no balcão. — Sirva-me uma dose quádrupla do seu melhor uísque forte de barril, e nada desse mijo aguado que você costuma vender aqui!
Comecei a ter a sensação de que ela estava apenas de brincadeira, pregando uma peça, digamos assim, tentando dar uma força para Millard e seu truque da corda no beco.
barman debruçou-se sobre o balcão para se aproximar dela.
— Então você quer alguma coisa forte, não é? — disse ele com um sorriso meio sem-vergonha. — Só não pode contar para sua mãe nem para seu pai, ou o padre e o policial vêm atrás de mim. — Ele pegou uma garrafa com alguma coisa escura e de aspecto sinistro e começou a servir um copo cheio para ela. — E seu amigo aí? — disse ele. — Imagino que já deve estar bêbado como um frade
.Eu fingia estudar a lareira.
— Ele é tímido, hein? — disse o barman. — De onde ele é?
— Ele diz que é do futuro — respondeu Emma —, mas eu acho que é só um completo maluco.
O rosto do barman assumiu uma expressão estranha.
— Ele diz o quê? — exclamou, me encarando, e deve ter finalmente me reconhecido, pois largou a garrafa de uísque e começou a caminhar na minha direção.
Eu estava prestes a fugir correndo, mas, antes que o barman conseguisse sair de trás do balcão, Emma tinha virado a garrafa e derramado a bebida marrom por toda parte. Então ela fez algo impressionante. Bateu com a mão no balcão ensopado de álcool e, em uma fração de segundo, uma parede de chamas de meio metro de altura ergueu-se por toda a sua extensão.
barman berrou e começou a bater na parede de chamas com um pano.
— Por aqui, prisioneiro! — disse Emma, segurando o meu braço e me puxando na direção da lareira. — Agora me dê uma ajuda! Segure e puxe!
Ela se ajoelhou e meteu os dedos em uma fenda que corria pelo chão.
Enfiei meus dedos ao lado dos dela e juntos levantamos um pequeno pedaço do piso, revelando um buraco mais ou menos da largura dos meus ombros: o buraco do padre. Enquanto a fumaça enchia o salão e o barman lutava para apagar as chamas, nós descemos um atrás do outro e desaparecemos.
O buraco do padre era pouco mais que um poço de cerca de um metro e meio que levava a um túnel no qual só era possível engatinhar. A escuridão lá embaixo era total, mas o lugar logo se encheu de uma suave luz alaranjada.
Emma acendera uma tocha com a mão, uma pequena bola de fogo que parecia pairar sobre a sua palma. Fiquei pasmo olhando aquilo, esquecido de todo o resto.
— Anda! — reclamou ela, dando-me um empurrão. — Tem uma saída lá na frente.
Fui rastejando adiante até que o túnel chegou ao fim. Emma me tirou de sua frente, sentou-se no chão e chutou a parede. Ela se abriu para a luz do dia.
— Aí estão vocês — ouvi a voz de Millard dizer enquanto saíamos rastejando em um beco. — Você não resiste a um espetáculo, hein?
— Não sei do que você está falando — respondeu Emma, apesar de eu perceber que ela estava satisfeita consigo mesma.
Millard nos conduziu até uma carroça puxada por um cavalo que parecia estar à nossa espera. Subimos na parte de trás e nos escondemos embaixo de uma lona. No que pareceu meia fração de segundo, um homem se aproximou e subiu no cavalo, sacudiu as rédeas e partimos trotando.
Seguimos em silêncio durante algum tempo. Eu sentia, pelo caminho tomado pela carroça e pela mudança no barulho à nossa volta, que estávamos saindo da cidade.
Finalmente reuni coragem para fazer uma pergunta.
— Como você sabia da carroça? E dos aviões? Você é vidente ou alguma coisa assim?
Emma riu com desprezo.
— Longe disso — disse ela.
— Porque tudo aconteceu ontem — respondeu Millard —, e anteontem. Não é assim que as coisas funcionam na sua fenda?
— Minha o quê?
— Ele não é de nenhuma fenda no tempo — disse Emma em voz baixa. — Ele é um maldito acólito.
— Acho que não. Um acólito nunca deixaria que você o agarrasse com vida.
— Vejam bem — murmurei. — Não sou o que quer que seja isso que estão dizendo. Eu sou o Jacob.
— A gente logo vai resolver isso — retrucou ela. — Agora fique quieto.
E então ela esticou o braço e levantou um pouquinho a lona, revelando uma faixa azul de céu agitado.

3 comentários:

  1. Cara ele é muito corajoso!

    Tá ficando cada vez mais interessnte...

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  2. Estou gostando muito!!!! 👏👏👏👏👏

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Boa leitura :)