20 de abril de 2017

9. O garoto que podia controlar o mar


HAVIA UM RAPAZ peculiar chamado Fergus que era capaz de controlar correntezas e marés. Isso se passou na Irlanda, durante a Grande Fome. Ele poderia ter usado seu talento para capturar peixes, mas vivia no interior, longe do mar, e seu poder não tinha efeito em rios e lagos. Ele poderia ter partido para a costa — onde descobrira sua peculiaridade, ao visitar uma cidade litorânea durante a infância —, mas sua mãe tinha uma constituição física fraca que não lhe permitia viajar, e Fergus não podia deixá-la sozinha; o rapaz era o único familiar que restava a ela. Fergus lhe dava cada migalha de comida que conseguia encontrar, enquanto ele próprio sobrevivia à base de serragem e couro de sapato cozido. Contudo, foi a doença que finalmente a levou, não a fome, e ele nada pôde fazer.
No leito de morte, a mãe de Fergus o fez prometer que partiria para o litoral assim que ela fosse enterrada.
— Com seu talento, você vai ser o melhor pescador que o mundo já viu e nunca mais vai passar fome. Mas jamais conte a ninguém o que você pode fazer, filho, para que não façam da sua vida um inferno.
Fergus prometeu, e no dia seguinte a mãe morreu. Ele a enterrou no cemitério local, jogou seus poucos pertences em uma sacola e partiu em uma longa jornada até o mar. Foram seis dias caminhando com apenas um pé de sapato e sem comida. Estava faminto, assim como todas as pessoas nas cidades que cruzou pelo caminho. Os lavradores haviam partido para a América em busca de melhor sorte e de fartura para o estômago, de modo que algumas cidades tinham sido completamente abandonadas.
Por fim, Fergus alcançou o litoral. Em uma cidadezinha chamada Skelligeen, nenhuma das casas parecia vazia e nenhum dos habitantes parecia faminto, ao que ele concluiu que era o lugar certo: se os moradores de Skelligeen não haviam emigrado e se estavam bem alimentados, a pesca devia ser uma atividade frutífera por ali. Isso era uma grande sorte, porque ele sentia que não aguentaria muito mais tempo sem comer. Fergus perguntou a um homem onde poderia conseguir uma vara de pescar ou uma rede, mas o homem lhe informou que ele não encontraria tais materiais em Skelligeen.
— Não pescamos por aqui — explicou o homem, estranhamente orgulhoso daquilo, como se a pesca fosse algo vergonhoso.
— Se vocês não pescam, então como sobrevivem?
Fergus não notara sinal algum de atividade industrial em suas andanças pela cidade, nenhum curral de gado, nenhuma plantação além das mesmas batatas podres que ele via por toda parte da Irlanda.
— Nosso negócio é salvatagem — respondeu o homem, e não disse mais nada.
Fergus perguntou ao homem se ele tinha algo para comer.
— Posso trabalhar em troca de comida — ofereceu.
— E que tipo de trabalho você faria? — questionou o homem, olhando-o de cima a baixo. — Eu estava precisando de alguém que pudesse levantar caixas pesadas, mas você é mirrado como um passarinho. Aposto que não pesa nem trinta e cinco quilos!
— Posso não conseguir erguer caixas pesadas, mas consigo fazer algo que ninguém mais faz.
— E o que seria?
Fergus estava prestes a contar quando se lembrou da promessa que fizera à mãe. Ele balbuciou palavras vagas e saiu apressado.
O rapaz resolveu improvisar uma linha de pesca com o cadarço do sapato. Feito isso, parou uma mulher de aspecto rechonchudo para perguntar onde poderia encontrar um bom lugar para pescar.
— Nem adianta tentar. O máximo que conseguiria pescar seriam alguns baiacus venenosos.
Fergus tentou assim mesmo, usando um pedaço de pão velho como isca. Persistiu o dia inteiro, mas não conseguiu nada, nem mesmo um baiacu venenoso. Desesperado e com o estômago doendo terrivelmente, ele perguntou a um homem que caminhava pela praia se alguém teria um barco para lhe emprestar.
— Assim eu poderia avançar no mar, onde talvez os peixes sejam mais fartos — explicou.
— Você nunca conseguiria. As águas o despedaçariam nas pedras!
— A mim, não.
O homem olhou para ele com um ar cético, prestes a lhe dar as costas. Fergus não queria quebrar sua promessa, mas estava começando a achar que morreria de fome, a menos que contasse a alguém sobre seu talento. Então ele disse:
— Eu posso controlar a correnteza.
— Rá! Já ouvi algumas mentiras deslavadas na vida, mas essa supera todas.
— Se eu provar, o senhor me dá algo de comer?
— Claro. Um banquete! — disse o homem, achando graça.
Então ele o acompanhou até a praia, onde a maré baixava com o fim do dia. Fergus bufou, resmungou e rangeu os dentes, até que, com grande esforço, conseguiu reverter a maré. A água subiu até os joelhos em questão de minutos. Pasmo e muito empolgado, o homem levou Fergus a sua casa e lhe ofereceu o banquete prometido. Ele convidou todos os vizinhos e, enquanto Fergus se deleitava, contou como o rapaz fizera a maré subir.
Os moradores ficaram muito animados. Estranhamente animados. Quase animados demais.
Começaram a se aglomerar ao redor do rapaz.
— Mostre-nos seu truque de subir a maré! — gritou uma mulher a ele.
— O garoto precisa recuperar as forças. Deixem que coma primeiro! — interveio o anfitrião.
Quando Fergus não conseguia se forçar a comer mais nada, ele ergueu os olhos do prato e observou em torno. Havia caixotes e caixas empilhados em todo canto, todos cheios até a borda com coisas diferentes: garrafas de vinho em uma, temperos em outra, rolos de tecido em mais outra. De um lado da cadeira de Fergus havia um engradado que transbordava de martelos.
— Com licença, mas por que o senhor precisa de tantos martelos? — perguntou Fergus.
— Eu trabalho no ramo de salvatagem. Encontrei esses martelos na praia certa manhã — explicou o homem.
— E o vinho, os rolos de tecido e os temperos?
— Também. Acho que tenho muita sorte, é isso!
Os outros convidados acharam isso muito engraçado e riram bastante. Fergus começou a se sentir desconfortável. Depois de agradecer pela bela refeição, pediu licença para partir.
— Mas você não pode ir sem nos mostrar seu truque! — reclamou um dos convidados.
— É tarde. Ele deve estar cansado. Deixem que o garoto durma primeiro! — ordenou o anfitrião.
Fergus estava de fato cansado, e a oferta de uma cama era irrecusável. O homem o conduziu a um quarto aconchegante, e, no momento em que pousou a cabeça no travesseiro, Fergus caiu em um sono profundo.
No meio da madrugada, o rapaz despertou subitamente e encontrou pessoas em seu quarto. Elas se aglomeraram em torno da cama e arrancaram seus cobertores.
— Você já dormiu demais! É hora de fazer seu truque — disseram.
Fergus percebeu que tinha cometido um erro. Ele deveria ter fugido pela janela, ou, melhor ainda, nunca deveria ter revelado sua habilidade peculiar. Mas agora era tarde demais. As pessoas o arrastaram da cama até a praia, onde exigiram que ele atraísse a maré mais uma vez. Fergus não gostava de ser forçado a fazer as coisas, mas quanto mais resistia, mais agitadas ficavam as pessoas. Elas não permitiriam que ele partisse se não fizesse o que pediam. Por isso, tendo decidido fugir à primeira oportunidade, ele reverteu a maré.
A água começou a subir. As pessoas pulavam e vibravam. Um sino começou a soar no mar. Um bloco de neblina se abriu e revelou as luzes de um navio, que estava sendo atraído à terra pela maré em rápida mudança. Quando percebeu o que estava acontecendo, Fergus tentou empurrar a corrente de volta, mas era tarde demais. Diante de seu olhar horrorizado, o navio se despedaçou contra o recife de rochas pontiagudas.
Começava a amanhecer. A carga do navio chegou à terra em caixotes, assim como os corpos da tripulação afogada. Os moradores da cidade dividiram os caixotes entre si e começaram a levá-los embora. Então era aquilo a “salvatagem”: eles eram saqueadores de navios, atraíam barcos de passagem com falsas luzes e sinais para se quebrarem nas rochas. Eram ladrões e assassinos, e tinham enganado Fergus para que fizesse aquele trabalho maligno por eles.1
Fergus tentou correr, mas uma multidão impediu sua fuga.
— Você não vai a lugar algum. Outro navio mercante passará esta noite, e você vai nos ajudar a afundá-lo! — disseram eles.
— Eu prefiro morrer! — gritou Fergus, e saiu correndo em uma direção que ninguém esperava: para a água.
Ele mergulhou na onda, agarrou uma tábua partida do navio naufragado e começou a remar. Os saqueadores tentaram alcançá-lo, mas Fergus usou sua habilidade para criar uma onda que avançou no fluxo contrário, afastando-o da praia. Logo ele estava fora do alcance dos saqueadores.
— Idiota! Vai se afogar! — gritaram para ele.
Mas Fergus não se afogou. Ele se agarrou à tábua para sobreviver, e a onda o levou para além das rochas, para as águas geladas e profundas mar adentro, onde passavam os navios.
Fergus esperou por horas e horas, boiando e tremendo de frio. Quando um navio surgiu no horizonte, ele criou outra onda, que o levou na direção do barco, e gritou ao se aproximar. Notando que o navio era muito alto, ele teve medo que ninguém o notasse, mas finalmente alguém o avistou. Uma corda foi baixada e Fergus foi erguido a bordo.
O navio se chamava Hannah e levava irlandeses que emigravam para a América a fim de escapar da fome. Eles tinham vendido todos os seus bens para pagarem pela passagem e agora não tinham nada além da própria vida e da roupa que levavam no corpo. O capitão era um homem cruel e ganancioso chamado Shaw, que quis jogar Fergus de volta ao mar assim que ele foi resgatado.2
— Não permitimos clandestinos neste navio, apenas passageiros pagantes — avisou o capitão.
— Mas eu não sou clandestino. Eu fui resgatado! — alegou Fergus.
— Aqui sou eu quem diz o que é o quê. E o que sei é que você não pagou pela passagem.
— Eu posso trabalhar em troca da viagem! Por favor, não me jogue de volta ao mar.
— Trabalhar! Seus braços parecem macarrão e suas perninhas parecem de galinha. Que tipo de trabalho você poderia fazer? — perguntou o capitão, rindo.
Embora soubesse que sua peculiaridade seria de grande ajuda para o capitão de um navio, ele tinha aprendido a lição em Skelligeen e ficou de boca fechada quanto a isso.
— Posso trabalhar mais do que qualquer homem aqui e o senhor nunca vai me ouvir reclamar, não importa qual for a ordem!
— É mesmo? Veremos. Alguém pegue um esfregão para o garoto.
O capitão o transformou em seu escravo pessoal. Todo dia, Fergus era forçado a limpar o alojamento do capitão, a passar suas roupas, engraxar seus sapatos e servir suas refeições. Quando terminava essas tarefas, ele limpava os conveses e esvaziava os baldes das latrinas, que eram pesados e cujo conteúdo respingava em seus pés quando ele os jogava no mar. Fergus trabalhava mais do que qualquer outra pessoa no navio, mas, fiel a sua palavra, nunca reclamou.
O trabalho não o incomodava, mas havia um problema de suprimento de alimentos no navio. O capitão embarcara passageiros demais e provisões insuficientes, e, embora ele e a tripulação comessem como reis, Fergus e os passageiros eram forçados a se alimentar de crostas de pão velho e canecas de sopa que continham muito mais fezes de camundongos do que carne, e mesmo o estoque dessas rações praticamente intragáveis era escasso; por mais rápido que o Hannah navegasse, não havia o suficiente para toda a viagem.
O clima esfriou fora de época. Certa manhã, começou a nevar, embora fosse final de primavera. Um dos passageiros observou que o sol não estava onde deveria para uma viagem com destino à América. Em vez de navegarem para oeste, pareciam estar na direção norte.
Um grupo de passageiros confrontou o capitão.
— Onde estamos? Este é mesmo o caminho para a América?
— É um atalho. Logo chegaremos — garantiu o capitão.
Naquela tarde, Fergus viu icebergs ao longe. Estava começando a desconfiar que tinham sido enganados. Então, à noite, se pôs à escuta atrás da porta do capitão enquanto fingia esfregar o piso do corredor.
— Só mais um ou dois dias e chegaremos à Ilha das Peles — dizia o capitão a seu imediato. — Vamos pegar uma carga e levá-la para Nova York. Assim dobraremos os lucros de nossa viagem!
Fergus ficou furioso. Eles não estavam pegando nenhum atalho para a América —, estavam deliberadamente desviando do curso, tornando a viagem mais longa, o que forçaria os passageiros a passar fome antes de chegar ao porto!
A porta da cabine se abriu de repente, antes que Fergus tivesse tempo de se afastar.
— O garoto estava espionando! — gritou o capitão. — O que você ouviu?
— Até a última palavra! E quando eu contar aos passageiros o que o senhor fez, eles vão jogá-lo ao mar.
O capitão e o imediato sacaram seus cutelos, mas quando estavam se aproximando do rapaz ouviram um estrondo semelhante a um terremoto. Todos foram lançados ao chão.
O capitão e o imediato se levantaram e saíram correndo, esquecendo Fergus e até a ameaça que ele havia feito. O Hannah tinha atingido um iceberg e afundava rapidamente.
Havia apenas um bote salva-vidas, e, antes mesmo que os passageiros soubessem o que estava acontecendo, o capitão Shaw e seus homens covardes já o tinham pegado. Mães desesperadas pediam que o capitão levasse seus filhos a bordo, mas, com pistola na mão, seus homens ameaçavam qualquer um que se aproximasse do bote. O capitão e sua tripulação partiram. Não havia mais botes salva-vidas. Fergus e os outros passageiros se viram abandonados em um barco que afundava no meio de um mar congelante.3
A lua estava alta e brilhante, e sua luz permitiu que Fergus visse o iceberg. Não estava longe e parecia largo e plano o suficiente para acolher todos os passageiros. O navio estava adernando muito, mas ainda não tinha afundado, por isso Fergus invocou uma corrente e empurrou a embarcação danificada até a lateral atingir a borda do iceberg. Os passageiros ajudaram uns aos outros a subir no gelo, o último deles deixando o Hannah pouco antes de o navio ser engolido pelas ondas. Todos comemoraram, mas suas vozes foram engolidas quando um vento invernal começou a soprar forte. Parecia que tinham trocado uma rápida morte por afogamento por um padecimento prolongado à mercê do frio e da fome. Passaram a noite tremendo, amontoados uns nos outros para obter um pouco de calor.
Pela manhã, ao acordar, encontraram um urso-polar à espreita. Ele estava magro, com aparência deplorável. As pessoas e o urso se olhavam nervosamente, e, depois de algumas horas, o urso se levantou e foi até a borda do iceberg. Parecia ter ouvido alguma coisa.
Fergus o seguiu a uma distância cautelosa, e viu um grande cardume de peixes agitando a água a algumas centenas de metros. Eram milhares, mais do que o suficiente para alimentar todo mundo, bastava alcançá-los!
O urso mergulhou na água e nadou na direção dos peixes. Mas ele estava fraco demais, e logo subiu de volta ao iceberg, em estado lastimável e exausto.
Fergus sabia o que precisava fazer, mesmo que isso significasse quebrar mais uma vez a promessa que fizera à mãe. Ele ergueu os braços, cerrou os punhos e criou uma correnteza que puxou os peixes bem na direção do iceberg. A água lançava centenas de peixes contra o gelo, fazendo-os saltar para a superfície. O urso rugiu em animação, engoliu vários, recolheu mais um monte e saiu correndo com o alimento.
As pessoas ficaram contentíssimas. Embora não gostassem do sabor de peixe cru, era melhor que passar fome. Fergus os salvara! Eles o ergueram nos braços, cantando seu nome, depois comeram até não aguentar mais.
Na verdade, Fergus não os havia exatamente salvado. Embora agora tivessem peixe suficiente para sobreviver por semanas, naquela tarde a temperatura caiu, chegando a nevar. Enquanto se amontoavam juntos para se aquecer, alimentados porém congelando, eles perceberam que, sem cobertores, não sobreviveriam nem até o amanhecer. Estava começando a escurecer quando ouviram um rugido fora de seu círculo. O urso tinha voltado.
— O que você quer? — perguntou Fergus, ficando de pé para enfrentá-lo. — Você conseguiu todo o peixe que podia comer, então nos deixe em paz!
Mas a atitude do urso havia mudado. Agora ele não parecia desesperado nem perigoso. Na verdade, parecia grato, como se entendesse que Fergus e os outros humanos estavam passando por dificuldades.
O urso se aproximou do grupo, deitou-se e foi dormir. As pessoas trocaram olhares hesitantes. Fergus foi na ponta dos pés até o animal, sentou-se e, com cuidado, apoiou o corpo nele. O pelo do urso era farto e macio e seu corpo emanava calor. Ele não parecia se importar nem um pouco em ter Fergus recostado em seu corpo.
Uma a uma, as pessoas se aproximaram. As crianças e os idosos se aninharam em contato direto com o urso, as mulheres se acomodaram junto a eles, e em volta deles os homens. Milagrosamente, embora alguns ficassem mais aquecidos que os outros, todos sobreviveram à noite.
No dia seguinte, o urso e as pessoas estavam comendo peixe quando outro iceberg passou flutuando. Havia outros três ursos-polares sobre o gelo. Quando o urso amigo os viu, ele se levantou e rugiu.
Olá, amigos, parecia dizer. Tem um garoto aqui que pode conseguir tantos peixes quanto quisermos. Venham para cá!
Os três ursos mergulharam na água e nadaram até o outro iceberg.
— Ah, ótimo — disse um dos homens. — Agora temos quatro ursos em nosso iceberg.
— Não se preocupe. Há peixe suficiente para todo mundo. Eles não vão nos incomodar — respondeu Fergus.
Os ursos passaram o dia se banqueteando e, quando caiu a escuridão, dormiram todos aninhados juntos, com as pessoas entre eles. Naquela noite, homens, mulheres e crianças ficaram bem aquecidos.
No dia seguinte, mais três ursos chegaram, vindo de um iceberg que passava, e no dia seguinte a esse, mais quatro. As pessoas estavam ficando nervosas.
— Onze ursos é demais — reclamou uma mulher para Fergus. — O que vai acontecer quando eles não tiverem mais peixes para comer?
— Eu pego mais — respondeu Fergus.
Ele passou aquele dia inteiro e o seguinte olhando fixamente para o mar, na esperança de avistar outro cardume de peixes, mas não viu nenhum. A situação estava no limite.
Agora até Fergus estava começando a se preocupar.
— Devíamos ter matado aquele urso quando havia só um — resmungou um velho. — Em vez disso, aquele garoto peculiar nos trouxe mais dez, e agora vejam a encrenca em que nos metemos!
As pessoas se voltavam contra Fergus, e ele percebia isso. O que iria acontecer quando não conseguisse mais peixes? Talvez o entregassem aos ursos como alimento! Naquela noite, as pessoas foram dormir em meio a um agradável amontoado de pelos, mas quando acordaram, encontraram onze ursos-polares famintos os encarando, pois tinham acabado de comer o último peixe que havia no iceberg.
Fergus correu até a extremidade do iceberg e lançou um olhar desesperado ao mar. O que viu fez seu coração pular de alegria, mas não era um cardume de peixes — era terra!
Ao longe havia uma ilha coberta de neve. Melhor ainda: Fergus via fumaça se erguendo da ilha, o que indicava que era habitada. Haveria pessoas ali, e comida. Esquecendo o perigo dos ursos por um instante, Fergus voltou correndo para dar a notícia a todos.
Mas eles não ficaram impressionados.
— Qual a vantagem de encontrar terra se formos devorados antes de alcançá-la? — perguntou um homem.
Em seguida, um urso se aproximou desse homem, o pegou por uma perna e o sacudiu, como se esperasse que um peixe caísse de seus bolsos.
O homem gritou, mas, quando o frustrado urso ia dar uma mordida, um tiro soou.
Todos se viraram. Outro homem vestindo mantos brancos de pele segurava um rifle. Ele disparou uma segunda vez, logo acima da cabeça do urso, que largou o homem e saiu correndo. Depois disso, os outros ursos também fugiram.
O homem de peles explicou que os tinha visto por uma luneta, ainda na ilha, e fora resgatá-los. Com um gesto, ele indicou que o grande grupo o seguisse e levou a todos até uma enseada escondida no iceberg, onde uma flotilha de pequenos e robustos barcos a remo estava à espera. As pessoas choraram de alívio enquanto eram levadas aos barcos e conduzidas pelo mar.
Fergus também estava aliviado, mas, durante o percurso, teve medo de contarem sobre seu dom ao homem que os resgatara. Já era bastante ruim que tanta gente soubesse. Felizmente, ninguém disse uma palavra sequer sobre ele — nem para ele. A maioria nem o olhava nos olhos, e, quando o faziam, eram olhares maldosos, como se o culpassem por todos os infortúnios que haviam passado.
Sua mãe tinha razão, pensou Fergus, amargamente. Contar seu segredo só lhe causava problemas. Fazia as pessoas o verem como um objeto, uma ferramenta a ser usada quando lhes conviesse e depois descartada quando não era mais necessária. Naquele momento, Fergus decidiu nunca, jamais revelar seu dom outra vez, acontecesse o que acontecesse.
Os barcos atracaram em uma pequena baía pontilhada de casas de madeira. Chaminés sopravam fumaça, o cheiro de comida sendo preparada pairava no ar. A promessa de uma refeição quente perto de uma lareira parecia sedutoramente próxima. O homem de peles amarrou o barco em que seguia e desembarcou no cais.
— Bem-vindos à Ilha das Peles — disse ele.
Com um calafrio, Fergus lembrou onde tinha ouvido aquele nome antes: era a ilha de comércio de peles que o capitão Shaw pretendia alcançar quando eles naufragaram. Antes de conseguir compreender toda a dimensão daquilo, ele viu algo no cais que o assustou ainda mais: um bote salva-vidas com marcas do tempo e o nome Hannah na lateral. O capitão e seus homens haviam alcançado a ilha, no fim das contas. Eles estavam ali.
No instante seguinte, outra pessoa viu o bote salva-vidas. A notícia se espalhou rapidamente entre o grupo, e algumas pessoas raivosas começaram a exigir saber onde estavam o capitão Shaw e seus homens.
— Eles nos deixaram para morrer! — gritou uma mulher.
— Eles nos ameaçaram com armas quando tentamos salvar nossos filhos! — berrou um homem.
— Eles nos obrigavam a tomar sopa com fezes de rato! — acrescentou um menino mirrado.
O homem de peles tentou acalmá-los, mas as pessoas tinham sede de vingança. Tomando o rifle do homem, elas avançaram pelo vilarejo e encontraram o capitão Shaw e seus ajudantes em uma taverna, bêbados como gambás.
Iniciou-se uma luta selvagem. O grupo atacava o capitão e seus homens com qualquer objeto que via pela frente: pedras, pedaços de móveis, até troncos em chamas retirados da lareira. O capitão e sua tripulação tinham armas de fogo, mas estavam em número muito menor; portanto, finalmente derrotados e dizimados, fugiram para as colinas nevadas do vilarejo.
Os passageiros se deram por vitoriosos. Haviam alcançado terra firme e a civilização e ainda acertado as contas com o cruel capitão Shaw, embora vários deles tivessem sido mortos no embate. Havia muito o que comemorar, mas de repente os gritos de vitória foram interrompidos por pedidos de ajuda.
Um incêndio havia começado.
O homem de peles chegou correndo.
— Seus idiotas! Vocês botaram fogo em nossa ilha!
— Então vamos apagá-lo! — respondeu um exausto combatente.
— Não há como! É o prédio dos bombeiros que está em chamas!
Eles tentaram ajudar os negociantes de peles a combater o fogo usando baldes cheios de água do mar, mas não havia baldes suficientes. As chamas se espalhavam depressa.
Desesperado, o grupo se voltou para Fergus à procura de ajuda.
— Você não pode fazer alguma coisa? — imploraram a ele.
Ele tentou dizer não. Prometera a si mesmo que se recusaria a usar seu dom. Mas as súplicas se transformaram em ameaças, e Fergus se viu em uma situação complicada.
— Então está bem. Afastem-se — disse ele, com raiva.
Quando todos haviam recuado para um terreno elevado, Fergus usou todo o seu poder para invocar uma onda gigante do oceano. A onda quebrou no interior do vilarejo e apagou as chamas, mas, quando começou a recuar, aquela grande quantidade de água ergueu as casas de seus alicerces e as levou junto. As pessoas ficaram vendo horrorizadas a cidade inteira ser varrida para o mar.
Fergus fugiu. As pessoas o perseguiram por ruas e montanhas, onde ele finalmente conseguiu despistá-las se escondendo em um monte de neve. Quando julgou que era seguro, ele saiu do esconderijo, congelado até os ossos, e seguiu pela floresta caminhando com dificuldade.
Depois de algumas horas, Fergus se deparou com dois homens na floresta: o capitão e seu imediato. Shaw estava recostado ao pé de uma árvore, com a camisa encharcada de sangue. Estava morrendo.
Ele riu ao ver Fergus.
— Então eles se voltaram contra você também. Imagino que isso faça de nós companheiros de luta.
— Não faz, não. Eu não sou como você. Você é um monstro.
— Sou apenas um homem — disse o capitão. — É você que eles consideram um monstro. E o que pensam de você é o que realmente importa.
— Mas eu só estava tentando ajudá-los! — disse Fergus.
Depois de dizer isso, ele se perguntou se seria verdade. A turba ingrata o estava ameaçando quando ele invocou a onda para apagar as chamas. Será que, guiado pela raiva, ele tinha criado uma onda maior que o necessário? Será que uma pequena e sombria parte sua havia destruído a cidade de propósito?
Talvez ele fosse mesmo um monstro.
Fergus decidiu que a única saída era viver em solidão. Ele deixou o capitão para morrer e desceu pelos morros em direção ao vilarejo. A noite caía. Fergus passou pelas ruas escuras sem ser visto por ninguém. Procurou no cais algum barco que pudesse usar, mas todos tinham sido soltos das amarras e dispersos no mar pela grande onda.
Fergus pulou na água e nadou em direção a algo que parecia, na escuridão, ser um grande barco emborcado, mas que descobriu ser uma das casas de madeira tombada de lado, flutuando à deriva. Entrou rastejando pela porta da frente, invocou uma onda direto para a casa e, ali dentro, seguiu pelo mar na direção sul.
Ele empurrou a casa-barco por quatro dias, sempre na direção sul, comendo peixes que caíam na porta ao saltarem. Depois de uma semana, parou de ver icebergs. Depois de duas, o clima começou a esquentar. Depois de três semanas, o gelo das janelas derreteu, os mares ficaram calmos e uma brisa tropical começou a soprar.
A casa ainda tinha grande parte dos móveis. Durante o dia, ele lia livros na poltrona. Quando queria tomar sol, subia pela janela até o telhado e se deitava ali. À noite, na cama, seu sono era embalado pelo balanço suave das ondas. Flutuou por semanas e semanas, perfeitamente satisfeito com sua nova e solitária vida.
Então, um dia Fergus avistou um navio no horizonte. Como não tinha interesse em conhecer ninguém, tentou conduzir a casa para longe, mas o navio virou em sua direção e o alcançou.
Era uma escuna de aspecto formidável com três mastros, e assomava acima da casa. Uma escada de corda foi jogada pela lateral. Parecia que o navio não o deixaria em paz, então Fergus resolveu que podia muito bem subir a bordo, dizer à tripulação que não precisava ser resgatado e seguir seu caminho, mas, chegando ao alto da escada, ele se surpreendeu ao ver o convés vazio exceto por uma garota aparentemente da mesma idade que ele. Ela tinha cabelo preto e pele morena, e encarava Fergus com um olhar firme.
— O que você está fazendo em uma casa no meio do oceano? — perguntou a garota.
— Fugindo de uma ilha gelada no Norte.
— E como você manteve a casa flutuando? E chegou até aqui sem uma vela?
— Pura sorte, eu acho.
— Isso é ridículo. Quero saber a verdade — exigiu a garota.
— Desculpe, mas minha mãe me proibiu de falar sobre isso.
A garota semicerrou os olhos, como se considerasse as opções de jogá-lo ou não ao mar.
Fergus evitou o olhar dela, concentrando-se na paisagem.
— Onde está o capitão? — perguntou ele.
— Bem na sua frente.
— Ah — disse Fergus, sem conseguir esconder a surpresa. — Bom, onde está a tripulação?
— Bem na sua frente.
Fergus mal podia acreditar.
— Você está querendo me dizer que conduziu este navio enorme desde...
— Cabo Verde — completou a garota.
— De Cabo Verde?
— É.
— Como?
— Desculpe, mas minha mãe me proibiu de falar sobre isso.
Ela se virou de costas e ergueu os braços. Um vento forte soprou e encheu as velas.
A garota sorria quando tornou a se virar.
— Meu nome é Cesaria — disse ela, estendendo a mão.
Fergus estava pasmo. Nunca havia conhecido alguém com o mesmo dom que o seu.
— É um p-prazer c-conhecê-la — gaguejou ele, e apertou a mão da garota. — Fergus.
— Ei, Fergus! Sua casa está indo embora!
Fergus se virou e viu a casa se afastando. Em seguida, uma onda grande a atingiu, fazendo-a afundar.
Fergus não se importou. Já tinha decidido que não precisava mais da casa. Na verdade, talvez ele próprio tivesse produzido a onda que a afundou.
— Bom, acho que estou preso aqui — disse ele, e deu de ombros.
— Por mim, tudo bem — disse Cesaria, e sorriu.
— Legal — disse Fergus, retribuindo o sorriso.
E as duas crianças peculiares ficaram ali sorrindo uma para a outra por um bom tempo, porque sabiam que finalmente haviam encontrado alguém com quem dividir seu segredo.

1 Há muitos relatos de pessoas desprezíveis que emitem luzes de faróis falsos para confundir e afundar navios, mas esta é a única menção, seja na história ou no folclore popular, ao poder de um peculiar sendo usado para tal propósito.
2 O Hannah não é ficção. Trata-se de um navio infame que zarpou do porto irlandês de Newry no dia 3 de abril de 1849, sob o comando de um capitão inexperiente chamado Curry Shaw. Com apenas vinte e três anos na época, Shaw já havia conquistado a reputação de ser um homem cruel e era amplamente desprezado antes mesmo dos acontecimentos terríveis que sucederam a seu navio.
3 Isso também é confirmado pela história: tarde da noite de 27 de abril, o Hannah atingiu um iceberg e Shaw fugiu com a tripulação no único bote salva-vidas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)