20 de abril de 2017

8. O gafanhoto


EDVARD ERA UM dedicado trabalhador norueguês que foi para os Estados Unidos em busca de fortuna. Na época, os europeus haviam povoado apenas a terça parte da América do Norte, a leste. A maior porção do território, a oeste, pertencia aos povos que por lá vagavam desde a última Era do Gelo. As planícies férteis no centro eram conhecidas como “Fronteira”, um lugar selvagem de grandes oportunidades e grandes riscos. E foi ali que Edvard se estabeleceu.
Ele vendeu tudo o que possuía na Noruega e, com o que ganhou, comprou terras e equipamentos para se dedicar à agricultura em uma região conhecida na época como Território de Dakota, onde muitos outros recém-chegados da Noruega também haviam se estabelecido. Edvard construiu uma casa simples em uma fazenda pequena e até prosperou um pouco depois de alguns anos de trabalho duro.
As pessoas da cidade diziam a ele que deveria encontrar uma esposa e formar família.
— Você é um rapaz forte. É a ordem natural das coisas!
Mas Edvard resistia ao casamento. Ele amava tanto a fazenda que achava que não haveria espaço em seu coração para amar uma mulher. Sempre tivera a sensação de que o amor não era algo prático, de que era um impedimento para coisas mais importantes.
Durante a juventude, Edvard vira o melhor amigo jogar fora a chance de uma vida de aventuras e fortuna ao se apaixonar por uma jovem que se recusava a deixar a família na Noruega para trás. Não havia onde ganhar dinheiro na terra natal deles, e agora seu velho amigo estava condenado a uma vida de concessões e privações, com uma esposa e filhos que mal conseguia alimentar, tudo graças a um capricho de seu coração juvenil.
Por obra do destino, porém, Edvard criou afeição por uma jovem. Tendo encontrado espaço em seu coração para amar ao mesmo tempo a fazenda e a moça, ele resolveu se casar. Para Edvard, não havia como ser mais feliz. Seu coraçãozinho embrutecido estava tão completo que parecia prestes a estourar. Por isso, quando sua esposa pediu que lhe desse um filho, ele resistiu. Como poderia amar uma fazenda, uma esposa e um filho?
No entanto, quando a esposa de Edvard engravidou, ele foi tomado por uma alegria inesperada e passou a aguardar o nascimento com ansiedade tremenda.
Nove meses depois, nascia o menino do casal. Foi um parto difícil, que deixou a esposa de Edvard fraca e debilitada. E havia algo errado com o bebê: ele tinha o coração tão grande que um lado do peito era perceptivelmente maior que o outro.
— Ele vai viver? — perguntou Edvard ao médico.
— Só o tempo dirá.
Insatisfeito, Edvard levou o filho ao velho Erick, um curandeiro que no velho continente adquirira a reputação de ser um homem de sabedoria incomum. O curandeiro pôs as mãos sobre o menino e poucos instantes depois ergueu as sobrancelhas.
— Este menino é peculiar! — exclamou Erick.
— Foi o que o médico me falou. Ele tem um coração grande demais.
— É mais que isso. Embora sua característica especial possa levar anos até se manifestar.1
— Mas ele vai viver? — perguntou Edvard.
— Só o tempo dirá.
A criança sobreviveu, mas a esposa de Edvard enfraqueceu cada vez mais e, por fim, faleceu. Edvard ficou arrasado, mas depois sentiu raiva de si mesmo, por permitir que o amor atrapalhasse seus planos de uma vida prática. Agora precisava trabalhar na fazenda e cuidar de um bebê sem uma esposa para ajudá-lo! Ele teve raiva também da criança, por ser especial — estranha e delicada —, mas principalmente por ter provocado a morte de sua esposa. Edvard sabia que isso não era culpa do menino, é claro, e que sua raiva não fazia sentido, mas era mais forte que ele. Todo o amor que por descuido ele se permitira cultivar fora transformado em amargura, e agora não sabia como se livrar daquele sentimento novo que se alojara dentro dele como uma doença que não vai embora.
Ele chamou o menino de Ollie e o criou sozinho. Na escola, Ollie aprendeu inglês e outras matérias sobre as quais Edvard pouco sabia. Em certos aspectos, o menino era muito semelhante ao pai: além de parecidos fisicamente, os dois trabalhavam muito, cultivando e arando lado a lado em todos os momentos em que Ollie não estava na escola ou dormindo, e ele jamais reclamava. Afora isso, porém, o garoto era um estranho. Falava norueguês com um sotaque americano sem inflexões; parecia acreditar que o mundo lhe reservava boas coisas (uma ideia peculiarmente americana); para piorar, era escravo dos caprichos de seu coração imenso. Apaixonava-se em um instante. Aos sete anos, tinha pedido em casamento uma colega de turma, uma vizinha e a organista da igreja, quinze anos mais velha. Se um pássaro por acaso caísse do céu, Ollie passava dias e dias chorando. Quando se deu conta de que a carne das refeições vinha de animais, recusou-se a comer aquilo novamente. O garoto por dentro era pura sensibilidade.
Mas o verdadeiro problema de Ollie começou quando ele tinha catorze anos — o ano em que vieram os gafanhotos. Nunca se vira algo daquele tipo em Dakota: nuvens de gafanhotos tão grandes que encobriam o sol, com quilômetros de largura, como uma maldição de Deus. As pessoas não conseguiam sair de casa sem esmagar centenas de insetos no chão. Os gafanhotos devoravam todo o verde que conseguiam encontrar e, quando acabavam com o capim, seguiam para o milho e o trigo. Quando também isso acabava, devoravam madeira, fibras e couro. Arrancavam a lã dos carneiros. Uma pobre alma foi pega por uma nuvem deles e teve as roupas devoradas.2
Era um flagelo que ameaçava destruir o ganha-pão de todo colonizador na fronteira, inclusive de Edvard. Os colonos tentaram de tudo para combatê-lo: usaram fogo, fumaça e veneno para tentar expulsar os insetos; empurraram grandes cilindros de pedra pelo chão para esmagá-los; a cidade vizinha, próxima à fazenda de Edvard, exigiu que cada cidadão de mais de dez anos levasse quinze quilos de gafanhotos mortos ao depósito de lixo toda semana, ou seria multado. Edvard se dedicou com entusiasmo à tarefa, mas seu filho se recusava a matar um único gafanhoto. Quando Ollie saía de casa, andava arrastando os pés, para não esmagar nenhum por acidente. Isso quase levou o pai à loucura.
— Eles devoraram todas as nossas colheitas! Estão arruinando nossa fazenda! — ralhou Edvard.
— Eles só estão com fome. Não estão nos fazendo mal de propósito, por isso não é justo machucá-los de propósito — retrucou o filho.
— Isso não tem nada a ver com justiça — explicou Edvard, tentando manter a calma. — Às vezes, na vida, é preciso matar para viver.
— Não neste caso. Matá-los não faria bem algum.
A essa altura, Edvard já estava com o rosto completamente vermelho.
— Esmague esse gafanhoto! — exigiu o pai, apontando para um dos insetos no chão.
— Não! — recusou-se Ollie.
Edvard ficou lívido. Ele deu um tapa no filho desobediente, mas mesmo assim Ollie continuou se recusando a matá-los, por isso Edvard lhe deu uma surra de cinto e o mandou para o quarto sem jantar. Enquanto o ouvia chorar, Edvard olhava pela janela para uma nuvem de gafanhotos que se erguia de seus campos arruinados e sentiu o coração se endurecer contra o filho.
Os colonos ficaram com raiva quando souberam que Ollie tinha se recusado a matar gafanhotos. A cidade multou o pai dele; os colegas de turma do menino o seguraram e tentaram obrigá-lo a comer um dos insetos; pessoas que Ollie mal conhecia lançavam insultos contra ele na rua. Edvard estava com tanta raiva e vergonha que parou de falar com o filho. De repente, Ollie se viu sem amigos e sem ninguém com quem conversar, tornando-se tão solitário que um dia adotou um bicho de estimação. Era a única criatura viva que toleraria sua presença: um gafanhoto. Ele o chamou de Thor, como o deus escandinavo, e o deixava escondido embaixo da cama, em uma caixa de charutos, alimentando-o com restos do jantar e água com açúcar, e conversava com ele até tarde da noite, quando deveria estar dormindo.
— Não é sua culpa que todos o odeiem — sussurrou ele para Thor. — Você só estava fazendo o que foi criado para fazer.
— Crii-criiic — respondeu o gafanhoto, esfregando as asas uma na outra.
— Shhhhh!
O menino jogou alguns grãos de arroz dentro da caixa e a fechou.
Ollie começou a levar Thor a todo lugar. Passou a gostar muito do insetinho, que pousava em seu ombro, trilava quando o sol brilhava e saltava alegremente quando Ollie assoviava uma canção. Até que, um dia, Edvard descobriu a caixa de Thor. Enfurecido, ele pegou o gafanhoto e o atirou nas chamas da lareira. Ouviu-se um lamento agudo e um estalido. Thor estava morto.
Quando Ollie chorou pelo amigo morto, Edvard o expulsou de casa.
— Ninguém derrama lágrimas por um gafanhoto debaixo do meu teto! — gritou o pai, empurrando o filho porta afora.
Ollie passou a noite nos campos, tremendo de frio. Pela manhã, o pai se sentiu mal por ter sido tão duro com o menino e saiu à sua procura, mas, em vez disso, encontrou um gafanhoto gigante dormindo entre fileiras de trigo destruído. Edvard recuou, enojado. A criatura era grande como um mastim, com pernas que pareciam um peru de Natal e antenas compridas como para-raios. Edvard correu até em casa para buscar uma arma, mas, quando voltou, uma revoada de gafanhotos o rodeou e entrou no cano do rifle, entupindo-o. Em seguida, subiram em um redemoinho e formaram cinco letras no ar:
O-L-L-I-E
Em choque, Edvard largou a arma e olhou fixamente para o gafanhoto gigante, que agora estava de pé nas patas traseiras, como um humano. Em vez dos olhos negros dos gafanhotos, os da criatura eram azuis, como os de Ollie.
— Não! — exclamou Edvard. — Não é possível!
Mas ele então viu no pescoço da criatura a gola rasgada da camisa do filho, e a barra da calça que estava presa à pata.
— Ollie? É você? — perguntou Edvard, hesitante.
O inseto moveu a cabeça para cima e para baixo, como se confirmasse.
Edvard sentiu um arrepio estranho. Era como se seu espírito tivesse saído do corpo e assistisse à cena.
Seu filho tinha virado um gafanhoto.
— Você consegue falar? — perguntou Edvard.
Ollie esfregou as patas traseiras uma na outra e emitiu um ruído agudo. Parecia ser o melhor que podia fazer.
Edvard não sabia como reagir àquilo. Sentia repulsa só de olhar para o filho, mas ainda assim... precisava fazer alguma coisa para ajudar o garoto. Ele só não queria que descobrissem o que acontecera, por isso, em vez de chamar o linguarudo do médico da cidade, preferiu o velho e sábio Erick.
Erick chegou claudicante ao campo para dar uma olhada no rapaz. Depois do choque inicial, ele afirmou:
— É como eu tinha previsto. Levou anos, mas ele finalmente manifestou sua característica peculiar.
— Sim, isso é óbvio. Mas por quê? E como isso pode ser revertido?
Erick trouxera consigo um livro muito antigo, caindo aos pedaços. Era um tradicional guia de condições peculiares,3 que tinha passado de geração em geração em sua família desde a bisavó, que era uma peculiar.
— Certo, lá vamos nós — disse ele, lambendo o polegar para virar uma página. — Aqui diz que, quando uma pessoa com certo temperamento peculiar e um coração grande e generoso não se sente mais amada pelos de sua própria espécie, ela assume a forma de qualquer criatura com a qual sinta uma conexão maior.
Erick lançou um olhar estranho para Edvard, que o fez se sentir envergonhado.
— O menino tinha um amigo gafanhoto?
— Sim, um bicho de estimação. Eu o joguei no fogo.
Erick estalou a língua e balançou a cabeça, em reprovação.
— Talvez você tenha sido um pouco duro com ele.
— Ele é fraco demais para este mundo — resmungou Edvard. — Mas isso não importa. Como podemos consertá-lo?
— Não é preciso um livro para responder a isso — disse Erick, fechando o volume em frangalhos. — Você precisa amá-lo, Edvard.
Erick lhe desejou sorte e o deixou a sós com a criatura que um dia fora seu filho. O homem olhou fixamente para as asas longas e frágeis e as mandíbulas assustadoras e sentiu um calafrio. Como poderia amar aquela coisa? Ele fez uma tentativa, mas estava cheio de ressentimento e seus esforços não foram sinceros. Em vez de demonstrar bondade com o menino, Edvard passou o dia inteiro lhe dando lições de moral.
— E eu não amo você, garoto? Não o alimento e não lhe dou um teto sob o qual dormir? Tive que largar a escola para trabalhar aos oito anos de idade, mas deixo você enterrar a cabeça em livros e lições de casa. O que seria isso, se não amor? O que mais você quer, seu pirralho americano mimado?
E assim por diante. Quando a noite caiu, Edvard não conseguiu permitir que Ollie entrasse em casa, por isso arrumou para ele um lugar no celeiro e deixou alguns restos do jantar em um balde. A dureza faz um homem, acreditava, e ser indulgente com Ollie naquele momento só encorajaria mais o comportamento covarde, que, aliás, era o que o transformara em gafanhoto.
Quando amanheceu, Ollie tinha desaparecido. Edvard procurou em cada centímetro do celeiro e por todo o campo, mas não encontrou nem sinal do menino. Depois de três dias sem notícias, Edvard começou a se perguntar se havia usado a abordagem errada com Ollie. Ele tinha se aferrado a seus princípios, mas por quê? Expulsara seu único filho. Com o desaparecimento de Ollie, Edvard percebeu como a fazenda lhe importava pouco. Mas era tarde demais.
Edvard ficou tão triste e arrependido que foi até a cidade e admitiu para todos o que havia acontecido.
— Transformei meu filho em um gafanhoto. E agora perdi tudo.
No início, ninguém acreditou, por isso ele pediu ao velho Erick que confirmasse sua história.
— É verdade. O filho dele se transformou num gafanhoto gigante. É do tamanho de um cachorro — confirmou Erick para todos os que perguntaram.
Edvard fez uma oferta ao povo da cidade.
— Meu coração está igual a uma maçã velha e murcha. Não consigo ajudar meu filho, mas dou minha fazenda a quem amá-lo o suficiente para fazê-lo voltar ao normal.
Isso empolgou o povo da cidade. Por prêmio tão rico, disseram, eles poderiam se obrigar a amar praticamente qualquer coisa. É claro, primeiro precisariam encontrar o menino-gafanhoto, por isso saíram em grupos de busca e começaram a vasculhar estradas e campos.
Ollie escutou tudo com seus ouvidos supersensíveis de gafanhoto. Escutou o pai falando sobre ele e ouviu os passos das pessoas à sua procura. Não quis tomar parte naquilo, então se escondeu na plantação de uma fazenda vizinha com seus novos amigos gafanhotos, e toda vez que alguém se aproximava, os insetos alçavam voo e cercavam a pessoa, criando um muro que dava a Ollie tempo para escapar. Mas, dias depois, os gafanhotos ficaram sem comida e subiram aos céus para migrar, mas o garoto era grande e pesado demais para voar. Como não eram criaturas sentimentais, nem um único gafanhoto ficou para fazer companhia a ele, que foi deixado sozinho outra vez.
Sem a ajuda dos amigos, não demorou muito para que um grupo de garotos conseguisse se aproximar de Ollie quando ele estava dormindo e o capturasse em uma rede. Eram os mesmos que o haviam atormentado na escola. O mais velho o jogou sobre o ombro, e eles voltaram a pé para a cidade, cantando em celebração.
— Vamos transformá-lo de volta em um menino, e aí vamos ficar com a fazenda de Edvard! Ficaremos ricos! — vibravam eles.
Os meninos colocaram Ollie em uma gaiola e esperaram. Depois de uma semana, ele insistia em permanecer como gafanhoto, obrigando-os a mudar de tática.
— Digam a ele que o amam — sugeriu a mãe dos garotos.
— Eu amo você! — gritou o garoto mais novo, pelas barras da gaiola, mas caiu na risada antes mesmo de terminar a frase.
— Tente pelo menos não rir quando falar isso — reclamou o garoto mais velho, que resolveu tentar também.
— Eu amo você, gafanhoto.
Mas Ollie não estava prestando atenção. Tinha se encolhido em um canto e adormecido.
— Ei, estou falando com você! — gritou o menino, chutando a gaiola. — Eu AMO VOCÊ!
Mas ele não amava, nem podia se forçar a amar, e quando Ollie começou a emitir sons agudos de gafanhoto a noite inteira, a família desistiu e o vendeu a um vizinho. O homem era um velho caçador sem família que, com pouca experiência em assuntos do coração, fez algumas tentativas infrutíferas de demonstrar amor ao menino, mas logo desistiu, colocando Ollie para viver do lado de fora, junto com os cães de caça. Ollie preferia a companhia dos cães à do homem. Comia com eles e dormia ao lado deles na casinha, e, embora no início eles tivessem medo daquele inseto enorme, Ollie era tão gentil e bondoso que logo os cães se acostumaram a sua presença. Ele se tornou membro da matilha. Na verdade, sentiu-se tão aceito por eles que depois de um tempo o caçador notou o sumiço do gafanhoto gigante e, no mesmo dia, viu que ganhara um cachorro maior que todos os outros.
Os meses que Ollie passou como cão foram alguns dos mais felizes de sua vida. Mas aí chegou a temporada de caça, quando se esperava que os cães trabalhassem. No primeiro dia, o caçador levou a matilha para um campo de capim alto e gritou uma ordem. Todos os cães começaram a correr e latir pelo campo. Ollie foi junto, latindo e fazendo barulho. Era muito divertido! Então, de repente, ele tropeçou em um ganso no capinzal. O ganso alçou voo e começou a se afastar, mas antes que conseguisse chegar a qualquer lugar, ouviu-se um estouro alto e ele caiu de volta na terra, morto. Ollie encarou o corpo do animal, horrorizado. No momento seguinte, outro cachorro se aproximou.
— O que está esperando? Não vai levar o corpo para o mestre?
— É claro que não! — respondeu Ollie.
— Como quiser — disse o cão. — Mas se o mestre descobrir, vai atirar em você. — Então ele pegou o ganso morto com as mandíbulas e saiu andando.
No dia seguinte, Ollie tinha desaparecido. Fugira com os gansos, correndo pelos campos enquanto seguia a formação em V que voava.
Quando soube que o filho tinha sido encontrado e depois perdido novamente, Edvard entrou em desespero. As pessoas à sua volta temiam que ele jamais se reerguesse.
Edvard parou de sair de casa e abandonou toda a lavoura. Se o velho Erick não lhe desse comida uma vez por semana, passaria fome. Felizmente, tal como a praga de gafanhotos, o período de tristeza de Edvard acabou passando, e ele voltou a cuidar da fazenda, a aparecer no mercado da cidade, a ocupar seu lugar no banco da igreja aos domingos. E, depois de um tempo, ele até se apaixonou outra vez. Edvard se casou e teve outro filho: uma menina, que o casal chamou de Asgard.
Edvard estava determinado a amar Asgard, diferentemente de como agira com Ollie. Conforme a via crescer, ele fazia o possível para manter o coração aberto. Deixava que ela amasse animais desgarrados e chorasse por coisas bobas, e nunca a repreendia por agir com bondade. Quando ela tinha oito anos, Edvard passou por uma estação ruim. As colheitas fracassaram e eles só tinham nabos para comer. Um dia, um bando de gansos estava passando no céu e um deles deixou a formação para pousar perto da casa de Edvard. Era muito grande, quase duas vezes o tamanho de um ganso normal. O animal não parecia assustado, então Edvard conseguiu se aproximar dele e agarrá-lo.
— Você vai dar um belo jantar esta noite! — disse ele, levando o ganso para dentro e o trancando em uma gaiola.
A esposa de Edvard estava empolgada, pois fazia semanas que eles não tinham carne para o jantar. Ela atiçou um fogo e preparou a panela, enquanto Edvard afiava a faca de trinchar. Mas Asgard apareceu na cozinha e, quando viu o que estava acontecendo, ficou abalada.
— Vocês não podem matá-lo! Ele é um bom ganso, não fez nada conosco! Isso não é justo!
— Isso não tem nada a ver com justiça — respondeu o pai. — Às vezes, na vida, é preciso matar para viver.
— Mas nós não precisamos matá-lo. Podemos tomar sopa de nabo outra vez esta noite, eu não me importo! — insistiu a menina.
Ela desabou diante da gaiola do ganso e começou a chorar.
Em outro momento na vida de Edvard, ele talvez tivesse repreendido a filha e lhe passado um sermão sobre os perigos de ter um coração mole, mas então se lembrou de Ollie.
— Tudo bem, não vamos matá-lo — disse ele, ajoelhando-se no chão para consolá-la.
Asgard parou de chorar.
— Obrigada, papai! Podemos ficar com ele?
— Só se ele quiser ficar. Gansos são animais selvagens, seria crueldade mantê-lo preso em uma gaiola.
Edvard abriu a portinhola, e o ganso saiu balançando da gaiola. A menina abraçou o bicho.
— Eu amo você, senhor Ganso!
— Quack! — respondeu o ganso.
Naquela noite, eles tomaram sopa de nabo e foram para a cama com o estômago roncando, mas muito felizes.
O ganso se tornou o querido bicho de estimação de Asgard. Ele dormia no celeiro e a acompanhava à escola, aguardando no telhado enquanto ela assistia às aulas. A menina contava a todo mundo que o ganso era seu melhor amigo e que ninguém tinha permissão de atirar nele ou transformá-lo em sopa, e todos o deixavam em paz. Asgard criava histórias fantásticas sobre as aventuras que vivia com o ganso, como a vez em que ela o montara e fora até a Lua para ver qual era o gosto do queijo lunar, e divertia os pais com essas histórias durante o jantar. Por isso, eles não estranharam quando, certo dia, Asgard os despertou anunciando, muito empolgada, que o ganso tinha virado um garoto.
— Volte a dormir — disse Edvard, bocejando. — O galo ainda nem cantou!
— É sério! Venha ver!
Ela puxou o pai pelo braço, tirando-o da cama.
Edvard quase desmaiou quando entrou no celeiro. Ali, parado em um ninho de palha, estava seu filho perdido havia muito. Ollie estava crescido, com um metro e oitenta de altura, traços marcantes e barba por fazer. Tinha improvisado uma vestimenta com um saco de aniagem que encontrara no chão do celeiro.
— Viu? Eu não estava mentindo! — disse Asgard, correndo até Ollie e o abraçando com força. — O que você está fazendo, ganso bobo?
Ollie abriu um grande sorriso.
— Olá, pai. Sentiu a minha falta? — disse ele.
— Muito. — O coração de Edvard doía tanto que ele começou a chorar. Ele foi até o filho e o abraçou. — Espero que você possa me perdoar... — sussurrou ele.
— Eu o perdoei há anos — respondeu Ollie. — Só demorei um pouco para encontrar o caminho de volta para casa.
— Papai? O que está acontecendo? — perguntou Asgard.
Edvard soltou Ollie, enxugou as lágrimas e se virou para a filha.
— Este é seu irmão mais velho. Aquele de quem falei para você.
— O que virou inseto? — perguntou ela, arregalando os olhos. — E fugiu?
— Esse mesmo — confirmou Ollie, e estendeu a mão para Asgard. — É um prazer conhecê-la. Meu nome é Ollie.
— Não, você é o Ganso! — Ela ignorou a mão estendida de Ollie e o abraçou outra vez. — Mas como foi que você virou ganso?
Ollie retribuiu o abraço da irmã.
— É uma longa história...
— Legal! Eu adoro histórias — falou a menina.
— Ele vai nos contar enquanto tomamos o café. Não vai, filho?
Ollie abriu um sorriso.
— Eu adoraria.
Edvard tomou uma das mãos do menino, e Asgard, a outra. Os dois o conduziram para o interior da casa. Depois que a esposa de Edvard se recuperou do susto, todos se sentaram juntos e tomaram um café da manhã de nabos com torradas enquanto Ollie contava sobre todos os seus anos como ganso. Daquele dia em diante, ele se tornou um membro da família. Edvard amava o filho incondicionalmente, e nunca mais Ollie perdeu a forma humana. E eles viveram felizes para sempre.

1 Como Erick soube que o menino era peculiar apenas ao tocá-lo, não está claro; talvez ele mesmo fosse peculiar e sua habilidade fosse detectar a peculiaridade em outros,  mesmo os dons latentes ou não desenvolvidos.
2 Pragas extraordinárias de gafanhotos assolaram o oeste americano durante os séculos XVIII e XIX. A maior já registrada ocorreu em 1875, quando uma nuvem de mais de doze trilhões de gafanhotos cobriu uma área maior que a Califórnia, devastando as planícies.
3 Tratava-se, provavelmente, do Vitaligis Peculiaris, um livro médico em latim que foi parcialmente inventado por um médico charlatão, muito tempo atrás. Alguns conselhos contidos no volume são bem sólidos, mas a maioria é loucura; o truque é saber identificar a diferença.

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